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A prioridade da missão salesiana entre os jovens de hoje_Rossano Sala

A prioridade da missão salesiana entre os jovens de hoje

Rossano Sala sdb

Desejo a todos e a cada um de vós um bom-dia.

Viveremos juntos três manhãs de espiritualidade, marcadas pelos três principais temas do nosso Capítulo Geral. São manhãs de “espiritualidade”, e, portanto, não devemos produzir nada de especial. Em vez disso, somos chamados a fazer o mais importante, ou seja, criar o clima espiritual necessário para enfrentar os desafios do nosso Capítulo Geral. Somos chamados a tornar concreta, contínua e habitual a abertura à ação do Espírito, sem a qual nenhum ato subsequente beberá da sua fonte e, portanto, não dará os frutos esperados.

Nossa reunião não é para fazer marketing pastoral ou mesmo planejar nossa ação educativa. E nem sequer, em primeiro lugar, para produzir um documento ou fazer eleições. Nossa tarefa prioritária é escutar a voz do Pai, deixar-nos guiar pelo seu Espírito e entrar nos sentimentos do seu Filho. Somos chamados a viver a atitude de Maria, para, depois, podermos atuar como Marta: “Maria, sentada aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra” (Lc 10, 39).

Conscientes de que todo progresso só pode vir de uma disponibilidade renovada da ação do Espírito, procuramos nesta primeira manhã ir nas pontas dos pés para o primeiro núcleo sobre o qual teremos que deliberar nas próximas semanas: a prioridade da missão salesiana entre os jovens de hoje. Não será tarefa fácil, porque deveremos olhar atentamente para a juventude de hoje e aprofundar a essência da missão salesiana; só assim poderemos identificar realmente algumas poucas e articuladas prioridades, capazes de restaurar o vigor da nossa ação educativo-pastoral com e para jovens. Como sugere o Instrumento de Trabalho do nosso Capítulo Geral, optei por enfrentar este primeiro núcleo da missão, deixando-me inspirar “sobretudo pelas passagens do Evangelho em que Jesus encontra os jovens e pelas passagens das Memórias do Oratório em que Dom Bosco, ao iniciar a sua obra, identifica as prioridades da missão”. Portanto, busquemos desde o início “os critérios inspiradores” da ação de Jesus e “as razões profundas” para as opções vocacionais de Dom Bosco.

 

1. Os critérios inspiradores da ação de Jesus pelos jovens

 

Como diz o artigo 11 das nossas Constituições Salesianas, «o espírito salesiano encontra seu modelo e fonte no próprio coração de Cristo, apóstolo do Pai». E continua dizendo que

na leitura do Evangelho somos mais sensíveis a certos traços da figura do Senhor: a gratidão ao Pai pelo dom da vocação divina a todos os homens; a predileção pelos pequenos e pelos pobres; a solicitude no pregar, curar, salvar por causa da urgência do Reino que vem; a atitude do bom Pastor que conquista com a mansidão e o dom de si; o desejo de reunir os discípulos na unidade da comunhão fraterna

Pareceu-me, então, útil e necessário apresentar à vossa atenção alguns encontros de Jesus com os jovens, para colocar-nos realmente em sintonia com a atitude, o estilo e o método do «primeiro e maior evangelizador» (cf. Evangelii gaudium, n. 12; Evangelii nuntiandi, n. 7). Desejo considerar quatro encontros que foram valorizados no caminho sinodal dos últimos três anos, deixando também a todos vós a liberdade de considerar outros encontros entre Jesus e os jovens narrados nos Evangelho, tidos como significativos para si e para o caminho do Capítulo Geral que estamos iniciando.

 

  • A prioridade da missão: a atenção de Jesus pelos jovens mais pobres e abandonados

Jesus veio para que todos tenhamos a vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 10,10). Por essa razão, Ele não tem receio de encontrar jovens que vivem em situação de degrado e de morte, para lhes dar nova vida, alegria e esperança. O Papa Francisco, no n. 20 da Exortação Apostólica pós-sinodal Christus vivit, dirigindo-se aos jovens, afirmou: «Se perdeste o vigor interior, os sonhos, o entusiasmo, a esperança e a generosidade, diante de ti está Jesus, como parou diante do filho morto da viúva, e o Senhor, com todo o seu poder de Ressuscitado, exorta-te: “Jovem, Eu te ordeno: Levanta-te!” (Lc 7, 14)».

Observando com atenção esse trecho (cf. Lc 7,11017), o que faz realmente a diferença é a compaixão de Jesus, a escuta empática de uma situação trágica, que põe o seu coração em movimento e o dispõe à ação. Um filho único de mãe viúva: «Vendo-a, o Senhor teve compaixão dela e disse-lhe: “Não chores!”. Ele realmente sofre com aquela mãe, entra na situação e torna-a sua. Age com misericórdia porque tem um coração vivo e imenso.

Perguntemo-nos: quantos jovens perderam o vigor interior, os sonhos, o entusiasmo, a esperança e a generosidade? Quantos jovens estão vivos, mas na verdade estão mortos sob os escombros de uma sociedade que mata os seus sonhos e as suas expectativas? Nós, como Jesus, somos chamados a dar mais a quem recebeu menos da vida. A fazer gestos e ações de esperança, sobretudo para aqueles que perderam a esperança e deixaram de sonhar.

Outro episódio semelhante foi bem comentado durante a Assembleia sinodal e ajuda-nos a reconhecer as intenções de Jesus, homem de grande liberdade interior e, portanto, capaz de uma autêntica autoridade. Trata-se do episódio do epilético endemoninhado (cf. Mc 9,14-29), que nos ajuda a reconhecer o quanto o poder de Jesus esteja realmente ao serviço da vida plena de todo jovem. Convém ouvir novamente o n. 71 do Documento final do Sínodo:

Para percorrer um verdadeiro caminho de amadurecimento, os jovens têm necessidade de adultos com autoridade. No seu significado etimológico, auctoritas indica a capacidade de fazer crescer; expressa a ideia, não dum poder diretivo, mas duma autêntica força geradora. Quando Jesus encontrava os jovens – independentemente do estado e condição em que se achassem, ainda que estivessem mortos –, ora dum modo ora doutro dizia-lhes: “Levanta-te! Cresce!”. E a sua palavra realizava aquilo que dizia (cf. Mc 5, 41; Lc 7, 14). No episódio da cura do epilético possuído por um espírito imundo (cf. Mc 9, 14-29), que evoca muitas formas de alienação dos jovens de hoje, vê-se claramente que Jesus pega na sua mão, não para o privar da liberdade, mas para a ativar, para a libertar. Jesus exerce plenamente a sua autoridade: nada mais quer senão o crescimento do jovem, sem qualquer domínio, manipulação e sedução.

Aqui estão coisas importantes que nos interessam muito de perto: somos chamados a reconhecer as diferentes formas de pobreza e alienação dos jovens de hoje; a verificar se o exercício da autoridade que nos foi confiado está realmente correto; a sair de toda forma de abuso (de poder e autoridade, administrativo, de consciência e sexual); a organizar a nossa ação educativa na lógica da libertação da liberdade dos jovens e não da sua dependência em relação a nós.

 

1.2. O estilo e o método da missão: Jesus em caminho com os discípulos de Emaús

Coloco no centro desta primeira parte o texto que mais inspirou o caminho sinodal: Jesus que caminha com os discípulos em direção a Emaús. Talvez não haja menção direta aos jovens, porque os dois discípulos provavelmente são adultos, mas é certo que esse episódio realmente moldou o caminho da Igreja com e para os jovens de hoje, durante todo o processo do sínodo. De fato, no Documento final, no n. 4, diz-se que

Reconhecemos, no episódio dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35), um texto paradigmático para compreender a missão eclesial relativamente às jovens gerações. Esta página exprime bem aquilo que experimentamos no Sínodo e o que gostaríamos que cada uma das nossas Igrejas particulares pudesse viver na sua relação com os jovens.

Convido-vos a meditar as atitudes e o comportamento de Jesus.

Antes de tudo, ele caminha com os dois discípulos que não compreenderam o sentido do seu evento e, tristes, estão se afastando de Jerusalém e da comunidade. O primeiro passo que Jesus nos ensina a dar é o da escuta empática, de entrar nos sentimentos desses discípulos frustrados, fazê-los seus, buscar suas razões. Os jovens, às vezes, dizem-nos que estamos em “dívida de escuta” em relação a eles, que temos dificuldade para nos colocarmos diante deles com uma abertura autêntica em relação aos seus questionamentos reais e às suas situações concretas. Jesus convida-nos, antes de tudo, a ouvir. E não só: convida-nos a caminhar com os jovens. Jesus quer, primeiramente, estar com eles, sem se preocupar com a direção do caminho. Ele está interessado em não os abandonar, em ficar ao lado deles, criando um relacionamento de proximidade.

Num segundo momento, Jesus toma a palavra. Ele se faz diálogo e anúncio. Com afeto e energia, oferece as chaves corretas de leitura para interpretar o que eles viveram e o que estão vivendo. Ele não tem medo de falar da cruz, que está no centro da sua revelação: entrega total pela vida de todos, uma realidade incompreensível para aqueles que têm coração duro, aparente fraqueza de Deus que revela o máximo de seu amor. Os discípulos são chamados – através dos gestos da última ceia – a entrar no sentimento de Jesus, a converter suas posições, a abraçar a lógica de Deus, que é chocante e envolvente ao mesmo tempo.

E Jesus, como todo verdadeiro educador, num determinado momento, desaparece da vista deles com dignidade e gentileza, colocando os dois discípulos diante da própria consciência e responsabilidade. É importante notar que Jesus não envia os discípulos de volta a Jerusalém, mas são que optam pelo retorno ao coração da comunidade para compartilhar a alegria do Evangelho com os outros. A presença de Jesus permitiu que eles se tornassem verdadeiramente eles mesmos, ou seja, discípulos missionários da boa-nova que todo jovem é chamado a receber e dar.

 

1.3. A prioridade na missão: Jesus convida os jovens ao dom total de si

Um dos episódios bíblicos muito citado e comentado durante o caminho sinodal foi, sem dúvida, o do “jovem rico” (cf. Documento preparatório, II,1; Instrumentum laboris, n. 84; Christus vivit, n. 17-18.251). Neste episódio (cf. Mt 19,16-22; Mc 10,17-22) emerge primeiramente o amor de Jesus: «Jesus, fixando os olhos nele, amou-o» (Mc 10,21). Um amor que desorienta e causa admiração, indicando o caminho da amizade como caminho régio do Evangelho que não nos quer servos, mas amigos (cf. Jo 15,15). Um Deus que ama e, por isso, chama: de fato, não existe amor que não seja pessoal e personalizante: o amor é sempre amor por uma pessoa concreta, por uma pessoa que é chamada a entrar em amizade e compartilhar uma missão. Por isso, nos Evangelho, o amor é sempre seguido logicamente por um chamado pelo nome ou um chamado que muda o nome.

O Papa Francisco, dirigindo-se aos jovens na Reunião pré-sinodal (19-24 de março de 2018), assim se exprimia: «Deus ama todos e a cada um dirige pessoalmente uma chamada. É um dom que, quando o descobrimos, enche de alegria (cf. Mt 13, 44-46). Tende a certeza disto: Deus tem confiança em vós, ama-vos e chama-vos. E por seu lado ele nunca faltará, porque é fiel e crê deveras em vós». A “pastoral juvenil” de Jesus é imediatamente concebida e atuada em chave vocacional e orientada para o dom total de si: Jesus propõe ao jovem rico passar da lógica do ter para a do ser; passar da lógica fechada e confortável do projeto à lógica aberta e arriscada da vocação, da lógica do reter à do dar com generosidade.

Se pensarmos bem sobre isso, trata-se do significado completo e profundo de educação, que só dessa maneira se baseia em seu núcleo generativo: muitas vezes, quando pensamos em educação, passamos imediatamente ao seu sentido maiêutico e socrático, do educere como “tirar para fora” do jovem algo que já está dentro dele, mas como que adormecido e passivo, a trazer à tona os talentos que ele já possui. Mas Jesus, que é muito maior que Sócrates, vai ainda mais fundo, sem negar a dimensão maiêutica da educação: ele quer tirar o jovem para fora de si mesmo, quer ajudar o jovem a sair do seu egocentrismo e convidá-lo a ir na direção dos outros, na direção do Reino que vem, na direção da lógica do Evangelho, que é dar a vida para que todos tenham a vida. Então, educere nos diz primeiramente que devemos sair de nós mesmos, dos nossos fechamentos, que devemos derrubar os nossos muros interiores que nos isolam dos outros. Jesus sabe mais que ninguém que se pode morrer de narcisismo e impele o jovem a sair de si mesmo para se tornar dom para os outros.

Papa Francisco acerta na mosca quando procura compelir todo jovem ao êxtase da vida (conceito muito caro a nós o do “êxtase da vida”, porque vem diretamente de S. Francisco de Sales: cf. Tratado do Amor de Deus, VII, 6-8): «Possas tu viver cada vez mais aquele “êxtase” que consiste em sair de ti mesmo para buscares o bem dos outros, até dar a vida» (Christus vivit, n. 163). É o êxtase da caridade, do amor como dom de si! É forte e propulsor este pensamento, desenvolvido depois no número sucessivo:

Quando um encontro com Deus se chama «êxtase» é porque nos tira fora de nós mesmos e nos eleva, cativados pelo amor e a beleza de Deus. Mas podemos também ser levados a sair de nós mesmos para reconhecer a beleza escondida em cada ser humano, a sua dignidade, a sua grandeza como imagem de Deus e filho do Pai. O Espírito Santo quer impelir-nos a sair de nós mesmos, para abraçar os outros com o amor e procurar o seu bem (Christus vivit, n. 164).

É evidente que não só os jovens são chamados ao “êxtase da vida”. Toda comunidade cristã, toda Igreja local e a Igreja em seu conjunto deve deixar-se reformar por este tipo de êxtase, que nada tem a ver com formas estranhas de espiritualismo. Também nós, como Congregação Salesiana, durante este Capítulo Geral, devemos sentir-nos chamados a abraçar um estilo pastoral caracterizado por esse tipo de êxtase, porque está na raiz da vida de Dom Bosco, que nada reteve para si, mas se entregou totalmente ao bem dos jovens: «Por vós estudo, por vós trabalho, por vós eu vivo, por vós estou disposto até a dar a vida» (Constituições Salesianas, art. 14).

Devemos retornar, portanto, justamente a Dom Bosco, e assim vamos para a segunda parte da meditação.

 

2. As razões profundas das opções vocacionais de Dom Bosco

 

Se de um lado, o Instrumento de trabalho do nosso Capítulo Geral nos convidava a deixar-nos inspirar «pelas passagens do Evangelho em que Jesus encontra os jovens», de outro, leva-nos a rever as «passagens das Memórias do Oratório, nos quais Dom Bosco, ao iniciar a sua obra, identifica as prioridades da missão». Também aqui poderiam ser muitas, porque o texto das Memórias do Oratório é riquíssimo de episódios dos quais tirar inspiração para individualizar as prioridades da missão entre os jovens de hoje.

Escolhi evidenciar três momentos em que Dom Bosco, por meio de um autêntico discernimento no Espírito, identifica as prioridades da missão entre os jovens do seu tempo: o primeiro é o encontro com os jovens encarcerados e o surgimento da primeira idéia de oratório; o segundo é o sonho da pastorinha ou das três paradas, que Dom Bosco reconhece como um programa para suas decisões vocacionais; o terceiro é o confronto com a marquesa Barolo e a definitiva opção vocacional prioritária de Dom Bosco pelos jovens pobres e abandonados.

 

  • A primeira ideia do oratório: a sabedoria do P. Cafasso e o encontro com os jovens encarcerados

Sabemos que o jovem João Bosco, depois da ordenação sacerdotal, não se jogou de cabeça na atividade pastoral, mas frequentou por três anos o Colégio Eclesiástico (1841-1844). Anos de aprofundamento da teologia moral na atividade acadêmica, tempo de experiências pastorais voltadas e pensadas para os estudantes, anos de proximidade com figuras espirituais de estatura imponente. Dom Bosco dirá, recordando aquela bela experiência que forjou o seu coração pastoral, que, enquanto nos seminários se estuda o dogma e a especulação, no Colégio “aprende-se a ser padre”. Dom Bosco completou ali o programa regular de estudos bienais e, depois, sob o sábio conselho do P. Cafasso, permaneceu ali para mais um terceiro ano. Nesses anos, segundo as Memórias do Oratório, têm início as primeiras experiências oratorianas de Dom Bosco, as suas primeiras “experiências pastorais” que amadurecerão aos poucos até serem uma escola de santidade para os jovens e para os educadores.

O que emerge, por primeiro, da narração é que, como sempre, Dom Bosco não age solitariamente nem de cabeça própria, mas faz constante referência a um guia: «O padre Cafasso, meu guia havia seis anos, foi também meu diretor espiritual, e se fiz algum bem, devo-o a este digno eclesiástico, em cujas mãos coloquei minhas decisões, estudos e atividades». Ele segue o seu mestre, vivendo com confiança as experiências que esse homem santo o faz viver. E por isso também vai às prisões:

Começou primeiro por levar-me às prisões, onde pude logo verificar como é grande a malícia e a miséria dos homens. Ver turmas de jovens, de 12 a 18 anos, todos eles sãos, robustos, e de vivo engenho, mas sem nada fazer, picados pelos insetos, à míngua de pão espiritual e temporal, foi algo que me horrorizou. O opróbrio da pátria, a desonra das famílias, a infâmia aos próprios olhos personificavam-se naqueles infelizes. Qual não foi, porém, minha admiração e surpresa quando percebi que muitos deles saíam com firme propósito de vida melhor e, não obstante, voltavam logo à prisão, da qual haviam saído poucos dias antes (Memórias do Oratório, Segunda década, 11).

Ele vê a malícia e a miséria dos homens, admira-se diante da robustez e da inteligência desses jovens, fica horrorizado ao vê-los desocupados e picados pelos insetos. Comove-se com a infelicidade desses jovens, que eram realmente como ovelhas sem pastor, sem ninguém capaz de reunir esse rebanho disperso. E estuda a questão, toma consciência de que tinham bons propósitos, mas não eram acompanhados por alguém fora da prisão. E pensa, e reza. Não improvisa soluções apressadas, mas se coloca em autêntico discernimento.

E aqui se vê como o Colégio Eclesiástico não era apenas um lugar de experiência pastoral, mas também de reflexão pastoral sobre a realidade encontrada. Dom Bosco busca com paciência e encontra com inteligência as razões da falência e também a solução:

Nessas ocasiões descobri que muitos voltavam àquele lugar porque abandonados a si próprios. “Quem sabe – dizia de mim para mim –, se tivessem lá fora um amigo que tomasse conta deles, os assistisse e instruísse na religião nos dias festivos, quem sabe não se poderiam manter afastados da ruína ou pelo menos não diminuiria o número dos que retornam ao cárcere?”. Comuniquei esse pensamento ao padre Cafasso, e com o seu conselho e com suas luzes pus-me a estudar a maneira de levá-lo a efeito, deixando o êxito nas mãos do Senhor, pois sem ele são inúteis todos os esforços dos homens.

Aqui está uma primeira conclusão: o jovem padre piemontês encontra alguns caminhos pastorais viáveis, confronta-se com o seu guia espiritual e segue seus conselhos, pondo-se a estudar e colocando seu trabalho nas mãos de Deus, que sozinho pode tornar proveitosa toda ação humana. Assim, foi gerada no coração de Dom Bosco a primeira idéia de um “oratório salesiano”. Não foi de outra maneira: esse é, para nós, é o método a assumir!

 

  • O programa da missão: o sonho da pastorinha ou das três paradas

No centro da escuta do carisma desta manhã colocamos um sonho importante. Parece-me que este sonho importante está justamente no centro entre dois grandes momentos da vida de Dom Bosco: o inicial do sonho dos nove anos – ao qual Dom Bosco sempre deu uma importância central na sua aventura vocacional – e o final da Missa entre as lágrimas celebradas no Sacro Cuore de Roma, onde repensa o primeiro sonho e o vê realizado em todo o seu itinerário existencial. Acredito que o sonho da pastorinha – ou também “das três paradas” –, intensificação e especificação do outro dos nove anos, tem o mesmo significado que teve a narração dos discípulos de Emaús no caminho sinodal, ou seja, deu o estilo e o método a todo o caminho percorrido. Dom Bosco mesmo, voltando a ele, disse que lhe serviu como “programa” para as decisões futuras.

Tudo era incerto naqueles momentos: de fato, para além de um Dom Bosco seguro de si e dos desígnios da Divina Providência, os textos daquele período da sua vida apresentam-nos uma grande dificuldade no reconhecimento dos desígnios de Deus. Dom Bosco, como Maria e como todos os discípulos do Senhor, precisou caminhar na fé, que só consegue ver no momento em que se põe em caminho com abandono e disponibilidade. Na noite anterior à comunicação da enésima transferência do Oratório, desta vez para Valdocco, Dom Bosco deve ser lido com o coração inquieto: «tive naquela noite outro sonho, que parece um apêndice do que tive nos Becchi aos 9 anos».

Parte-se de uma multidão de animais de todas as raças que assustava e fazia Dom Bosco fugir, enquanto uma Senhora o convidava a caminhar com eles, enquanto ela os precedia. Depois, três paradas e a cada parada, muitos desses animais convertiam-se em cordeiros, cujo número ia sempre aumentando. A primeira parada é clara, muito semelhante ao primeiro sonho: «quatro quintos dos animais haviam-se transformado em cordeiros».

Mas eis um novo problema: havia também alguns pastorzinhos que chegavam, mas logo iam embora:

Aconteceu então uma coisa maravilhosa. Muitos cordeiros convertiam-se em pastorzinhos, que cresciam e passavam a tomar conta dos outros. Com o grande aumento do número dos pastorzinhos, eles se separavam e se dirigiam a outros lugares, onde reuniam alguns animais estranhos e os levavam a outros redis.

Segue no sonho a visão de uma igreja com a escrita Hic domus mea, inde gloria mea e a promessa de, com o passar do tempo, a compreensão de tudo o que estava acontecendo no sonho. Profunda e importante a conclusão da narração: «O sonho durou quase a noite inteira, com muitos detalhes. Por então pouco compreendi o significado, porque não lhe dava muito crédito; mas fui entendendo as coisas à proporção que se iam realizando. Posteriormente, junto com outro sonho, serviu-me de programa em minhas decisões”.

Neste sonho está a chave vocacional da ação pastoral de Dom Bosco, está o início e a essência da Congregação e da Família Salesiana: a vocação de Dom Bosco torna-se para nós uma renovada convocação para o bem de muitos jovens. De lobos a cordeiros, a pastores: eis o itinerário vocacional que nos cabe!

No sonho, está sobretudo, e novamente, um Dom Bosco que se coloca no caminho da obediência a Maria que, como no sonho dos nove anos, é sem dúvida a verdadeira Mestra do caminho. Como podemos ser salesianos de Dom Bosco sem uma renovada confiança em Maria, sem nos colocarmos de novo na sua escola com humildade e simplicidade, sem reconhecer que “sem Maria Auxiliadora, nós salesianos, não somos nada”, como bem afirmava o protomártir salesiano Luís Versiglia?

No sonho, enfim, está Dom Bosco que se deixa guiar pelo espírito, que na sua existência se expressou muitas vezes através de sonhos e visões, dos quais também temos urgente necessidade. Não renunciemos a sonhar grandes coisas, sobretudo em tempo de crise, não renunciemos a ousar por caminhos novos, porque numa “mudança de época” como a nossa é o que esperam de nós Deus e a sua Igreja!

 

  • A opção irrenunciável: dar a vida pelos jovens, até o último respiro

Um terceiro e último episódio que desejo apresentar à vossa atenção é o diálogo dramático e decisivo entre o jovem Dom Bosco e a marquesa Barolo, de quem ele estava a serviço naquele tempo.

Notemos, antes de tudo, que a santa mulher está sinceramente preocupada com a saúde e a missão de Dom Bosco entre os jovens, a ponto de sentir-se no dever de levá-lo a uma opção precisa, porque «não é possível que possa continuar com a direção das minhas obras e com a dos meninos abandonados, tanto mais agora que o número deles cresceu desmesuradamente». A proposta da marquesa é bastante clara: pede a Dom Bosco que «suspenda de todo sua preocupação pelos meninos».

Repito, a preocupação da Marquesa é sincera, enquanto

não posso permitir que o senhor se mate. Tantas e tão variadas ocupações, queira ou não, prejudicam sua saúde e minhas instituições. E depois, as vozes que correm acerca da sua saúde mental, a oposição das autoridades locais, obrigam-me a aconselhá-lo [...] Ou a deixar a obra dos meninos, ou a obra do Refúgio. Pense, e depois me dê a resposta.

Todos os motivos são contra Dom Bosco: a sua saúde, a falta de meios, as vozes sobre a sua presumida loucura, a falta de colaboradores, a oposição das autoridades. O Evangelho, porém, bem o sabemos, nos momentos decisivos, não é racional, mas amoroso! Dom Bosco, na verdade, já havia rezado e pensado sobre isso, e a sua resposta é límpida como a água e dura como um diamante:

Minha resposta já está pensada. A senhora tem dinheiro e com facilidade encontrará quantos padres quiser para sua obra. O mesmo não acontece com meus pobres meninos. Se me retirar agora, tudo irá por água abaixo; por isso, continuarei a fazer igualmente o que puder pelo Refúgio, deixarei oficialmente o cargo e me dedicarei inteiramente ao cuidado dos meninos abandonados.

A motivação vocacional é ditada pelo amor aos jovens: se Dom Bosco não cuidar das pobres crianças, ninguém mais o fará. Isso fala da singularidade e da natureza insubstituível da vocação, que precisa ser honrada na primeira pessoa do singular e na primeira pessoa do plural, porque toda vocação autêntica se tornará sempre e em todo caso uma convocação. A motivação vocacional de Dom Bosco é clara: se ele não aceitar esse trabalho – que na oração ele reconheceu como um pedido de Deus pela sua vida – os jovens serão realmente abandonados a si mesmos. Esta é a sua vocação, e de mais ninguém. Este é o seu chamado singular e único, que ele tem o dever de aceitar até o fim, custe o que custar!

Todo o restante do diálogo é uma consequência lógica dessa posição vocacional irrevogável. Dom Bosco terá, como bem prevê a marquesa Barolo, problemas de sobrevivência material, arruinará a saúde, estará cheio de dívidas, terá dificuldades com as autoridades civis e eclesiásticas e assim por diante. São inúteis as várias ameaças e ofertas daquela senhora («não lhe darei um tostão sequer para os seus meninos [...]. Continuarei a dar-lhe o estipêndio, e, se quiser, aumento-o»).

Dom Bosco não tem outra coisa a dizer, a não ser repetir o que já dissera: «Já pensei, senhora marquesa. A minha vida está consagrada ao bem da juventude. Agradeço-lhe as ofertas que me faz, mas não posso afastar-me do caminho que a Providência me traçou». O resultado é a demissão: «Prefere então os seus vagabundos aos meus institutos? Se é assim, está desde já despedido». Após um breve diálogo, chegam à decisão de encerrar tudo em três meses: «Aceitei a decisão, abandonando-me ao que Deus quisesse dispor a meu respeito». E as coisas ficaram resolvidas, logicamente, com Dom Bosco passando por louco: renuncia a uma vida de conforto e segura para ir às ruas com os seus meninos!

Aqui temos um Dom Bosco que, como os dois discípulos de Emaús, escolhe ficar do lado do Senhor, arriscar e ousar manter a fé com a vocação recebida das mãos do Senhor Jesus, que agiu através da mediação de Maria. Como aqueles dois misteriosos viajantes, Dom Bosco também entra na noite para ficar do lado do Senhor e de jovens pobres e abandonados. Noite que, bem sabemos, se manifestará em sua vida de várias maneiras: mal-entendidos dentro e fora da Igreja, cansaços físicos e dificuldades econômicas, abandonos e mal-entendidos e muito mais.

Contudo, nada, jamais, pôde tirar realmente Dom Bosco da vocação aceita: «Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens» (cf. Constituições Salesianas, art. 1). Isso foi o que Dom Bosco prometeu e realizou; isso deveria acontecer também com todo filho digno de tão grande pai; isso deverá ser prometido novamente diante de Deus e reafirmado nos fatos também pelo nosso Capítulo Geral 28.

 

a prioridade da missão salesiana entre os jovens de hoje

Textos para a oração e a meditação

1. Os critérios inspiradores da ação de jesus

 

A ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17)

11No dia seguinte dirigiu-se Jesus a uma cidade chamada Naim. Iam com ele diversos discípulos e muito povo. 12Ao chegar perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a ser sepultado, filho único de uma viúva; acompanhava-a muita gente da cidade. 13Vendo-a o Senhor, movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores! 14E aproximando-se, tocou no esquife, e os que o levavam pararam. Disse Jesus: Moço, eu te ordeno, levanta-te. 15Sentou-se o que estivera morto e começou a falar, e Jesus entregou-o à sua mãe. 16Apoderou-se de todos o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta surgiu entre nós: Deus voltou os olhos para o seu povo.17A notícia deste fato correu por toda a Judéia e por toda a circunvizinhança.

 

A cura do epilético endemoninhado (Mc 9,14-29)

14Depois, aproximando-se dos discípulos, viu ao redor deles grande multidão, e os escribas a discutir com eles. 15Todo aquele povo, vendo de surpresa Jesus, acorreu a ele para saudá-lo. 16Ele lhes perguntou: Que estais discutindo com eles? 17Respondeu um homem dentre a multidão: Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo. 18Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido. Roguei a teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam. 19Respondeu-lhes Jesus: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei de aturar? Trazei-o cá! 20Eles o trouxeram. Assim que o menino avistou Jesus, o espírito o agitou fortemente. Caiu por terra e revolvia-se espumando. 21Jesus perguntou ao pai: Há quanto tempo lhe acontece isto? Desde a infância, respondeu-lhe. 22E o tem lançado muitas vezes ao fogo e à água, para o matar. Se tu, porém, podes alguma coisa, ajuda-nos, compadece-te de nós! 23Disse-lhe Jesus: Se podes alguma coisa!... Tudo é possível ao que crê. 24Imediatamente exclamou o pai do menino: Creio! Vem em socorro à minha falta de fé! 25Vendo Jesus que o povo afluía, intimou o espírito imundo e disse-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai deste menino e não tornes a entrar nele. 26E, gritando e maltratando-o extremamente, saiu. O menino ficou como morto, de modo que muitos diziam: Morreu... 27Jesus, porém, tomando-o pela mão, ergueu-o e ele levantou-se. 28Depois de entrar em casa, os seus discípulos perguntaram-lhe em particular: Por que não pudemos nós expeli-lo? 29Ele disse-lhes: Esta espécie de demônios não se pode expulsar senão pela oração.

 

Jesus em caminho com os discípulos para Emaús (Lc 24,13-35)

13Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. 14Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. 15Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles. 16Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram. 17Perguntou-lhes, então: De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes? 18Um deles, chamado Cléofas, respondeu-lhe: És tu acaso o único forasteiro em Jerusalém que não sabe o que nela aconteceu estes dias? 19Perguntou-lhes ele: Que foi? Disseram: A respeito de Jesus de Nazaré... Era um profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo. 20Os nossos sumos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que fosse ele quem havia de restaurar Israel e agora, além de tudo isto, é hoje o terceiro dia que essas coisas sucederam. 22É verdade que algumas mulheres dentre nós nos alarmaram. Elas foram ao sepulcro, antes do nascer do sol; 23e não tendo achado o seu corpo, voltaram, dizendo que tiveram uma visão de anjos, os quais asseguravam que está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao sepulcro e acharam assim como as mulheres tinham dito, mas a ele mesmo não viram.

25Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! 26Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória? 27E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras. 28Aproximaram-se da aldeia para onde iam e ele fez como se quisesse passar adiante. 29Mas eles forçaram-no a parar: Fica conosco, já é tarde e já declina o dia. Entrou então com eles. 30Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-o. 31Então se lhes abriram os olhos e o reconheceram..., mas ele desapareceu. 32Diziam então um para o outro: Não se nos abrasava o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? 33Levantaram-se na mesma hora e voltaram a Jerusalém. Aí acharam reunidos os Onze e os que com eles estavam. 34Todos diziam: O Senhor ressuscitou verdadeiramente e apareceu a Simão. 35Eles, por sua parte, contaram o que lhes havia acontecido no caminho e como o tinham reconhecido ao partir o pão.

 

O jovem rico (versão de Mateus: Mt 19,16-22)

16Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna? Disse-lhe Jesus: 17Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos.  18Quais?, perguntou ele. Jesus respondeu: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, 19honra teu pai e tua mãe, amarás teu próximo como a ti mesmo. 20Disse-lhe o jovem: Tenho observado tudo isto desde a minha infância. Que me falta ainda? 21Respondeu Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me! 22Ouvindo estas palavras, o jovem foi embora muito triste, porque possuía muitos bens.

 

O jovem rico (versão de Marcos: Mc 10,17-22)

17Tendo ele saído para se pôr a caminho, veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: “Bom Mestre, que farei para alcançara vida eterna?” 18Jesus disse-lhe: “Por que me chamas bom? Só Deus é bom. 19Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe”. 20Ele respondeu-lhe: “Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade”. 21Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. 22Ele entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens.

 

2. As razões profundas das opções vocacionais de dom bosco

 

Os textos são tirados de: Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales de 1815 a 1855, Edição revista e ampliada, aos cuidados de Antônio da Silva Ferreira, Brasília: EDEBÊ 2012.

 

Memórias do Oratório, Segunda década, 11 (pp. 116-121)

Colégio Eclesiástico de São Francisco de Assis

Acabadas as férias, ofereciam-me três empregos: professor em casa de um senhor genovês, com o salário de 1 mil francos anuais; capelão de Murialdo, onde, pelo grande desejo de me verem com eles, os bons camponeses dobravam o estipêndio dos capelães anteriores;146 vice-pároco na minha terra. Antes de tomar uma resolução definitiva fui a Turim para aconselhar-me com o padre Cafasso, que se tornara desde alguns anos meu guia nas coisas espirituais e temporais. O santo sacerdote ouviu tudo, as ofertas de remuneração, a insistência de parentes e amigos, meu grande desejo de trabalhar. Sem hesitar um instante dirigiu-me estas palavras: O senhor tem necessidade de estudar moral e pregação. “Recuse por ora qualquer proposta e venha ao Colégio Eclesiástico”. Segui prazerosamente o sábio conselho, e a 3 de novembro de 1841 entrei para o referido Colégio.

O Colégio Eclesiástico vem a ser um complemento dos estudos teológicos, porquanto nos nossos seminários estuda-se somente a dogmática especulativa; na moral estudam-se apenas as questões disputadas. Nele aprende-se a ser padre. Meditação, leitura, duas conferências por dia, aulas de pregação, vida recolhida, toda comodidade para estudar, leitura de bons autores, eram as ocupações às quais qualquer um devia aplicar-se a fundo.

Duas celebridades estavam naquele tempo à frente de tão útil instituto: o teólogo Luís Guala e o padre José Cafasso. O teólogo Guala era o fundador da obra. Homem desinteressado, rico de ciência, prudência e coragem, fizera-se tudo para todos no tempo do governo de Napoleão I. Para que os jovens levitas pudessem, ao terminar os estudos, aprender a vida prática do sagrado ministério, fundou aquele maravilhoso viveiro, que tanto bem fez à Igreja, sobretudo extirpando algumas raízes de jansenismo que ainda persistiam entre nós.

Entre outras questões agitava-se muito a do probabilismo e do probabiliorismo. À frente dos primeiros achavam-se Alasia, Antoine e outros rigorosos autores, cuja doutrina, a do probabiliorismo, podia levar ao jansenismo. Os probabilistas seguiam a doutrina de Santo Afonso, que agora foi proclamado doutor da Santa Igreja. Sua autoridade foi por assim dizer referendada pelo Papa, uma vez que a Igreja afirmou que se podem ensinar, pregar e praticar suas doutrinas, nada havendo nelas que mereça censura. O teólogo Guala situou-se com firmeza entre os dois partidos, e, pondo como centro de qualquer opinião a caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, conseguiu aproximar os extremos. As coisas chegaram a tal ponto que, graças ao teólogo Guala, Santo Afonso tornou-se o mestre das nossas escolas com as vantagens por tanto tempo desejadas, cujos salutares efeitos hoje experimentamos.

Braço direito de Guala era o padre Cafasso. Com sua virtude a toda a prova, com sua calma prodigiosa, sua perspicácia e prudência pôde suavizar as asperezas que ainda permaneciam em alguns probabilioristas com relação aos seguidores de Santo Afonso.

No padre turinense teólogo Félix Gólzio, também do Colégio, escondia-se verdadeira mina de ouro. Na sua vida modesta pouco barulho fez; mas com seu trabalho indefesso, com sua humildade e ciência era um verdadeiro apoio, ou melhor, o braço direito de Guala e Cafasso. Prisões, hospitais, púlpitos, institutos de beneficência, doentes em suas próprias casas, cidades, povoados e, podemos dizer, os palácios dos grandes e os tugúrios dos pobres experimentaram os salutares efeitos do zelo desses três luminares do clero de Turim.

Eram eles os três modelos que a divina Providência me oferecia, e dependia só de mim seguir suas pegadas, doutrina e virtudes. O padre Cafasso, meu guia havia seis anos, foi também meu diretor espiritual, e se fiz algum bem, devo-o a este digno eclesiástico, em cujas mãos coloquei minhas decisões, estudos e atividades. Começou primeiro por levar-me às prisões, onde pude logo verificar como são grandes a malícia e a miséria dos homens. Ver turmas de jovens, de 12 a 18 anos, todos eles sãos, robustos, e de vivo engenho, mas sem nada fazer, picados pelos insetos, à míngua de pão espiritual e temporal, foi algo que me horrorizou. O opróbrio da pátria, a desonra das famílias, as infâmias aos próprios olhos personificavam-se naqueles infelizes. Qual não foi, porém, minha admiração e surpresa quando percebi que muitos deles saíam com firme propósito de vida melhor e, não obstante, voltavam logo à prisão, da qual haviam saído poucos dias antes.

Nessas ocasiões descobri que muitos voltavam àquele lugar porque abandonados a si próprios. “Quem sabe – dizia de mim para mim –, se tivessem lá fora um amigo que tomasse conta deles, os assistisse e instruísse na religião nos dias festivos, quem sabe não se poderiam manter afastados da ruína ou pelo menos não diminuiria o número dos que retornam ao cárcere?”. Comuniquei esse pensamento ao padre Cafasso, e com o seu conselho e com suas luzes pus-me a estudar a maneira de levá-lo a efeito, deixando o êxito nas mãos do Senhor, pois sem ele são inúteis todos os esforços dos homens.

 

Memórias do Oratório, Segunda década, 15 (pp. 133-134)

Um novo sonho

No segundo domingo de outubro daquele ano (1844) devia anunciar aos meninos que o Oratório ia mudar-se para Valdocco. Mas a incerteza do lugar, dos meios, das pessoas deixava-me muito preocupado. Na tarde anterior fui dormir com o coração inquieto. Tive naquela noite outro sonho, que parece um apêndice do que tive nos Becchi aos 9 anos. Julgo oportuno contá-lo em pormenores.

Sonhei que estava no meio de uma multidão de lobos, cabras e cabritos, cordeiros, ovelhas, bodes, cães e pássaros. Faziam todos juntos um barulho, uma desordem, ou melhor, uma inferneira de espantar os mais corajosos. Ia fugir, quando uma senhora, muito bem trajada à moda de pastorinha, fez um gesto para que seguisse e acompanhasse o estranho rebanho; enquanto isso se punha à frente. Estivemos vagando por vários lugares; fizemos três estações ou paradas. A cada parada muitos desses animais convertiam-se em cordeiros, cujo número ia sempre aumentando. Depois de muito andar, encontrei-me num prado onde os animais saltitavam e comiam juntos, sem que nenhum deles tentasse prejudicar os outros.

Esgotado de cansaço, queria sentar-me à beira de um caminho aí perto, mas a pastorinha convidou-me a continuar andando. Após andar um pouco, encontrei-me em vasto pátio rodeado de pórticos, em cuja extremidade se erguia uma igreja. Percebi então que quatro quintos dos animais se haviam transformado em cordeiros. O número deles tornou-se depois muito maior. Naquele momento chegaram alguns pastorzinhos para vigiá-los. Mas ficavam pouco tempo e iam-se embora. Aconteceu então uma coisa maravilhosa. Muitos cordeiros convertiam-se em pastorzinhos, que cresciam e passavam a tomar conta dos outros. Com o grande aumento do número dos pastorzinhos, eles se separavam e se dirigiam a outros lugares, onde reuniam alguns animais estranhos e os levavam a outros redis.

Eu queria ir embora, porque parecia estar na hora de rezar missa, mas a pastora me convidou a olhar para o sul. Olhei e vi um campo semeado de milho, batatas, couves, beterrabas, alface e muitas outras verduras.

– Olha outra vez – disse-me.

Olhei de novo. Vi então uma igreja estupenda e alta. Um conjunto de música instrumental e vocal convidava-me a cantar missa. No interior da igreja havia uma faixa branca, na qual estava escrito em caracteres garrafais: “Hic domus mea, inde gloria mea”.

Sempre em sonho, quis perguntar à pastora onde é que eu estava, que significava aquele andar e parar, a casa, a igreja e depois outra igreja mais.

– Tudo haverás de compreender quando com teus olhos materiais vires realizado o que agora vês com os olhos da mente.

Parecendo-me, porém, estar acordado, disse:

– Eu vejo claro e vejo com os olhos materiais. Sei aonde vou e o que faço.

Naquele instante soou o sino de Ave-Marias na igreja de São Francisco, e acordei.

O sonho durou quase a noite inteira, com muitos detalhes. Por então pouco compreendi o significado, porque não lhe dava muito crédito; mas fui entendendo as coisas à proporção que se iam realizando. Posteriormente, junto com outro sonho, serviu-me de programa em minhas decisões.

 

Memórias do Oratório, Segunda década, 22 (pp. 156-160)

Despedida do Refúgio – Nova acusação de loucura

As muitas coisas que se propalavam a respeito de Dom Bosco começavam a inquietar a marquesa Barolo, tanto mais que a prefeitura de Turim se mostrava contrária aos meus projetos.

Veio um dia ao meu quarto e começou a falar-me assim:

– Estou muito contente com sua dedicação às minhas instituições.  Agradeço-lhe ter trabalhado tanto para introduzir nelas os cantos sacros, o canto gregoriano, a música, a aritmética e também o sistema métrico.

– Não é preciso agradecer. Os padres têm que trabalhar porque é um dever deles. Deus pagará tudo, e não se fale mais nisso.

– Queria dizer que sinto bastante que as muitas ocupações lhe tenham prejudicado a saúde. Não é possível que possa continuar com a direção das minhas obras e com a dos meninos abandonados, tanto mais agora que o número deles cresceu desmesuradamente. Quero propor-lhe que se ocupe somente com o que é obrigação sua, isto é, com a direção do Pequeno Hospital, e não vá mais aos cárceres, ao Cottolengo, e suspenda de todo sua preocupação pelos meninos. Que acha?

– Senhora marquesa, Deus me ajudou até agora e não deixará de ajudar-me. Não se preocupe com o trabalho. Entre mim, o padre Pacchiotti e o teólogo Borel faremos tudo.

– Mas eu não posso permitir que o senhor se mate. Tantas e tão variadas ocupações, queira ou não, prejudicam sua saúde e minhas instituições. E depois, as vozes que correm acerca da sua saúde mental, a oposição das autoridades locais, obrigam-me a aconselhá-lo...

– A que, senhora marquesa?

– Ou a deixar a obra dos meninos, ou a obra do Refúgio. Pense e depois me dê a resposta.

– Minha resposta já está pensada. A senhora tem dinheiro e com facilidade encontrará quantos padres quiser para sua obra. O mesmo não acontece com meus pobres meninos. Se me retirar agora, tudo irá por água abaixo; por isso, continuarei a fazer igualmente o que puder pelo Refúgio, deixarei oficialmente o cargo e me dedicarei inteiramente ao cuidado dos meninos abandonados.

– E como há de viver?

– Deus sempre me ajudou e ajudará também no futuro.

– Mas sua saúde está definhando, a cabeça está cansada; mergulhará em dívidas; virá procurar-me, e eu garanto desde agora que não lhe darei um tostão sequer para os seus meninos.  Aceite meu conselho de mãe. Continuarei a dar-lhe o estipêndio, e, se quiser, aumento-o. Vá passar um, três, cinco anos em algum lugar; descanse; quando estiver restabelecido, volte ao Refúgio, e será sempre bem-vindo. De outra sorte, coloca-me na desagradável necessidade de despedi-lo de minha fundação. Pense seriamente.

– Já pensei, senhora marquesa. A minha vida está consagrada ao bem da juventude. Agradeço-lhe as ofertas que me faz, mas não posso afastar-me do caminho que a Providência me traçou.

– Prefere então os seus vagabundos aos meus institutos? Se é assim, está desde já despedido. Vou arranjar hoje mesmo um substituto.

Fiz-lhe ver que uma despedida tão precipitada daria motivo a suposições pouco honrosas para mim e para ela. Era melhor agir com calma e conservar entre nós a mesma caridade com a qual deveríamos ambos falar um dia no tribunal do Senhor.

– Então – concluiu – dou-lhe três meses para deixar a direção do meu Pequeno Hospital.

Aceitei a decisão, abandonando-me ao que Deus quisesse dispor a meu respeito.

Entretanto espalhava-se cada vez mais insistente a voz de que Dom Bosco ficara louco. Meus amigos mostravam-se consternados; outros riam; mas todos mantinham-se afastados de mim. O arcebispo deixava a coisa correr; o padre Cafasso aconselhava a contemporizar; o teólogo Borel silenciava. Assim, todos os meus colaboradores me deixaram só, com cerca de 400 meninos.

Nessa ocasião algumas pessoas respeitáveis quiseram cuidar da minha saúde.

– Esse Dom Bosco – dizia uma delas – tem fixações que o levarão inevitavelmente à loucura. Talvez uma cura lhe faça bem. Vamos levá-lo ao manicômio e lá, com os devidos cuidados, far-se-á o que a prudência sugerir.

Encarregaram duas delas de virem buscar-me de carruagem e levar-me ao manicômio. Os dois mensageiros cumprimentaram-me gentilmente; depois, perguntando por minha saúde, pelo futuro edifício e pela igreja, lançaram um profundo suspiro e prorromperam nestas palavras:

– É verdade.

Após o que me convidaram a acompanhá-los num passeio.

– Um pouco de ar puro lhe fará bem; venha; temos uma carruagem à disposição, vamos juntos e teremos tempo para conversar.

Percebi logo o que estavam armando e sem me dar por achado acompanhei-os à carruagem, insisti que entrassem antes e tomassem assento, e, em vez de entrar, fechei de golpe a porta, dizendo ao cocheiro:

– Vá bem depressa ao manicômio, onde estes dois padres estão sendo esperados.