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Carta de Roma de 1884: O Evangelho de Dom Bosco

Carta de Roma de 1884: O Evangelho de Dom Bosco

26 de fevereiro de 2020
P. Pascual Chávez V., SDB

 

À moda de introdução

Pensei em tomar a carta de Roma de 10 de maio de 1884 como tema do retiro desta quarta-feira de cinzas. Parece-me, também, a partir da carta do Reitor-Mor, ao convocar o Capítulo Geral XXVIII, esclarecedora e estimulante, porque se deseja que emerja em nível congregacional a vontade de dar uma resposta carismática aos jovens de hoje, especialmente aos mais pobres e excluídos. Por isso, precisamos de salesianos preparados e prontos para trabalhar com a mente, o coração e as mãos de Dom Bosco na Igreja e na sociedade, e que acompanhem os jovens no mundo do trabalho, no universo digital, na defesa da criação, etc.[1] Tudo isso se torna uma referência às nossas origens. A carta de Roma é o “evangelho de Dom Bosco”, respira a atmosfera dos inícios, que continuam “normativos” e não simplesmente “anedóticos”, e convida à conversão espiritual (a Deus), pastoral (aos jovens), estrutural (tornando nossas presenças mais evangelizadoras para levar os jovens a Cristo e à Igreja).

O perigo de hoje, como de ontem, pelo qual Dom Bosco escreveu a famosa carta é a perda da presença física dos salesianos entre os jovens, da capacidade quase conatural de entender a sua cultura e do amor transparente, familiar e bom que revela Deus e os conquista para Deus. É o seu testamento espiritual, com seus matizes muito vibrantes e sinceros. E o faz para recomendar com precisão a presença entre os jovens (a redescoberta da assistência salesiana), a familiaridade do passado (o acompanhamento), que deve ser recuperada absolutamente, e é cultivada principalmente no pátio, nos tempos livres, em estruturas abertas, permanecendo entre os jovens, participando de suas vidas e levando a sério os seus sonhos, dia após dia (a pastoral juvenil e vocacional revigorada). São elementos amplamente desenvolvidos no Documento Final do Sínodo sobre a Juventude e na Carta Apostólica Pós-Sinodal Christus vivit.[2] Tudo isso exige um salesiano em formação permanente, em missão compartilhada com os leigos.

Como bem observa o P. Caviglia: “a carta de 10.V.1884 trata apenas da vida dos salesianos no recreio. Havia corrupção nos jovens, desordem nos irmãos, tudo dependia da vida do pátio. Esta vida, como nos Oratórios festivos, essência exterior da obra, foi o que colocou o coração dos jovens nas mãos de Dom Bosco. Tudo nasceu da vida do pátio, ou seja, onde o jovem está livre das restrições regulamentares. Portanto, Dom Bosco e os autênticos salesianos devem ser vistos não emoldurados nos cantos, com ares de conselheiro escolar, mas com os meninos no meio do pátio. Este é o grande segredo, porque o garoto esquecerá tudo: a escola, as explicações, mas não esquecerá o que disse e fez no pátio, a bondade, a fraternidade, o coração a coração. São muitos os professores no mundo, mas poucos os superiores presentes entre os jovens deste mundo, e os jovens jamais os esquecem. Dom Bosco quer que vivamos com os jovens e não pode conceber salesianos que, enquanto os jovens estão em liberdade, eles estejam em outro lugar. O pessoal todo, a começar pelo diretor, deve estar entre os jovens; ele o diz em uma nota sobre o sistema preventivo: O diretor esteja entre os seus jovens ...”.

De aí o valor do “pátio” entendido como categoria abrangente de todas as atividades que colocam o jovem em clima de espontaneidade, favorecendo o seu protagonismo e a sua liberdade de expressão: porque é ali que ele se manifesta no que é, abrindo a porta da interioridade, disponível para acolher os estímulos oferecidos; sempre com a condição de encontrar ali o educador que, protagonista e espontâneo como ele, revela sua interioridade, deixando fluir os bens vitais que fazem dele adulto, crente, educador. É aí que se dá a comunicação educativa, do educador aos jovens e dos jovens ao educador, percebendo o prodígio que é, em ambos, enriquecimento de humanidade.

Pátio de ontem e de hoje: é aí que há ou desaba a pedagogia salesiana, e com ela a missão; de aí surge um dos maiores desafios para educar hoje na família, na escola e em todas as outras instituições de educação formal, não formal e informal.

 

Carta de Roma 1884: O Evangelho de Dom Bosco

 

Resumo a da introdução de P. Braido a esta famosa carta de Dom Bosco: “Em vários documentos, o texto da carta é precedido na redação mais ampla por uma crônica de G. B. Lemoyne... Vale a pena reproduzir na íntegra a importante informação:

“Dom Bosco, nas noites em que esteve doente, teve um daqueles sonhos que fizeram história... Em várias ocasiões, ele contou ao P. Lemoyne sobre o sonho e, em seguida, fez com que a redigisse e lesse, corrigindo-o...  Como se referia especialmente aos membros da Congregação, foi necessário um novo trabalho para que pudesse ser lido em público na presença de todos os jovens do Oratório. A carta foi enviada em 10 de maio. Lida em público pelo P. Rua, produziu um grande efeito. Ela serviu no Oratório como indicação de reforma. O primeiro efeito do sonho foi que Dom Bosco conheceu o estado de muitas consciências, também de alguns que pareciam boníssimos, de modo que alguns foram afastados da casa”.

Ao final da longa apresentação crítica, P. Braido escreve que a “forma longa” da carta foi transmitida em duas versões: uma avalizada pelo P. Ceria nas Memórias Biográficas e outra menos familiar, mas mais próxima dos manuscritos originais do P. Lemoyne, acolhida nos Atos do Capítulo Superior de 1920 (cf. SPS p. 274-284).

Esta última é transcrita nas Constituições e Regulamentos da Sociedade de São Francisco de Sales, p. 278-362 (Brasília, Editora Salesiana Dom Bosco, agosto de 2015), dando-lhe um valor paradigmático. É o texto que reproduzo.

Roma, 10 de maio de 1884.

 

Meus caríssimos filhos em Jesus Cristo.

“Perto ou longe, eu penso sempre em vós. Meu único desejo é ver-vos felizes no tempo e na eternidade. Esse pensamento e esse desejo é que me levaram a escrever-vos esta carta. Sinto, meus caros, o peso do afastamento, e o fato de não vos ver nem ouvir me aflige como não podeis imaginar. Desejaria por isso escrever-vos estas linhas há uma semana, mas as contínuas ocupações me impediram. Todavia, embora faltem poucos dias para minha volta, quero antecipar minha chegada ao menos por carta, já que não posso fazê-lo pessoalmente. São palavras de quem vos ama carinhosamente em Jesus Cristo e tem obrigação de falar-vos com a liberdade de um pai. Haveis de permiti-lo, não é verdade? E me prestareis atenção e poreis em prática o que vou dizer-vos.

Afirmei que sois o único e contínuo pensamento de minha mente. Ora, numa das noites passadas, havia-me recolhido ao quarto, e, enquanto me dispunha a repousar, tinha começado a rezar as orações que minha boa mãe me ensinou. Nesse momento, não sei bem se dominado pelo sono ou fora de mim por uma distração, pareceu-me ver dois dos antigos jovens do Oratório virem ao meu encontro. Um deles aproximou-se e saudando-me afetuosamente me disse:

– Dom Bosco, não me conhece?

– Se te conheço – respondi.

– E lembra-se ainda de mim? – acrescentou o homem.

– De ti e de todos os outros. És Valfrè e estavas no Oratório antes de 1870.

– Diga – continuou Valfrè –, quer ver os jovens que estavam no Oratório no meu tempo?

– Sim, mostra-me – respondi –, isso vai dar-me grande prazer.

Então Valfrè mostrou-me todos os jovens com o mesmo semblante, estatura e idade daquele tempo. Parecia-me estar no antigo Oratório na hora do recreio. Era uma cena cheia de vida, movimento, alegria. Quem corria, quem pulava, quem fazia pular. Aqui se brincava de rã, de barra, ou com bola. Num lugar uma roda de jovens pendia dos lábios de um padre, que lhes contava uma história. Noutro, um clérigo no meio de outros meninos brincava de burro voa e de jerônimo. Cantava-se, ria-se por todos os cantos e em toda parte encontravam-se padres e clérigos, e ao redor deles jovens brincando e gritando alegremente. Via-se que entre jovens e superiores reinava a maior cordialidade e confiança. Eu estava encantado com o espetáculo. Valfrè me disse então:

– Veja, a familiaridade gera o afeto e o afeto produz confiança. Isso é que abre os corações, e os jovens manifestam tudo sem temor aos mestres, assistentes e superiores. Tornam-se sinceros na confissão e fora da confissão e se prestam docilmente a tudo o que porventura lhes mandar aquele de quem têm certeza de serem amados.

Nesse instante aproximou-se de mim o outro ex-aluno, de barba toda branca, e me disse:

– Dom Bosco, quer conhecer e ver agora os jovens que atualmente estão no Oratório? (Era José Buzzetti).

– Sim, respondi; porque há já um mês que não os vejo!

E apontou-os para mim: vi o Oratório e todos vós no recreio. Mas já não ouvia gritos de alegria e cantos, não via o movimento e a vida da cena anterior. Nos modos e nos rostos de muitos jovens, lia-se enfado, cansaço, mau humor, desconfiança, que me fazia sofrer o coração. Vi, é verdade, muitos a correr, brincar, agitar-se, com feliz despreocupação, mas muitos outros estavam sós, encostados às colunas, dominados por pensamentos desalentadores; encontravam-se outros pelas escadas e nos corredores ou na sacada perto do jardim para evitar o recreio comum; outros passeavam lentamente em grupos falando em voz baixa, lançando ao derredor olhares desconfiados e maliciosos. Sorriam de vez em quando, mas com um sorriso acompanhado de olhares que faziam suspeitar e até mesmo acreditar que São Luís haveria de corar se andasse em tal companhia...

– Viu seus jovens? – perguntou-me o ex-aluno.

– Vejo-os – respondi suspirando.

– Como são diferentes do que éramos nós em nosso tempo! – exclamou o ex-aluno.

– É pena! Quanta falta de vontade nesse recreio!

– De aí é que vem a frieza de tantos meninos na frequência dos santos sacramentos, o desleixo das práticas de piedade na igreja e fora; o estar de má vontade num lugar onde a Divina Providência os cumula de todo bem para o corpo, para a alma, para a inteligência. De aí não corresponderem muitos à sua vocação; de aí a ingratidão para com os superiores; de aí os segredinhos e as murmurações, com todas as demais deploráveis consequências.

– Compreendo, entendo – respondi. – Mas como reanimar estes meus caros jovens, para que retomem a antiga vivacidade, alegria, expansão?

– Com o amor!

– Com o amor? Mas os meus jovens não são bastante amados? Sabes quanto os amo. Sabes quanto por eles sofri e tolerei no decorrer de bem quarenta anos, e quanto suporto e sofro mesmo agora. Quantas privações, quantas humilhações, quantas oposições, quantas perseguições para dar-lhes pão, casa, professores e especialmente para garantir-lhes a salvação da alma. Fiz tudo quanto soube e pude por eles, que são o amor de toda a minha vida.

– Não falo do senhor!

– De quem, então? Dos que me fazem as vezes? Dos diretores, prefeitos, professores, assistentes? Não vês como são mártires do estudo e do trabalho? Como consomem sua juventude por aqueles que a Divina Providência lhes confiou?

– Vejo, sei perfeitamente; mas isso não basta. Falta o melhor.

– Que é que falta, então?

– Que os jovens não somente sejam amados, mas que eles próprios saibam que são amados.

– Mas, afinal, não têm olhos? ...Não veem que tudo o que por eles se faz é por amor deles?

– Não, repito, isso não basta.

– Que é preciso, então?

– Que sendo amados nas coisas que lhes agradam, ao participar dos seus gostos infantis, aprendam a ver o amor nas coisas que naturalmente pouco lhes agradam, como a disciplina, o estudo, a mortificação de si mesmos; e aprendam a fazer essas coisas com entusiasmo e amor.

– Explica-te melhor.

– Observe os jovens no recreio.

Observei e respondi:

– E que há de especial para ver?

– Há já tantos anos que vive a educar os jovens e não entende? Olhe melhor! Onde estão os nossos salesianos?

Observei e vi que bem poucos padres e clérigos se misturavam com os jovens e bem menos ainda eram os que tomavam parte em seus divertimentos. Os superiores já não eram a alma do recreio. A maior parte deles passeava conversando entre si, sem ligar ao que faziam os alunos; outros olhavam o recreio sem se preocuparem absolutamente com os jovens; outros vigiavam, mas tão de longe que não poderiam perceber se os jovens cometiam alguma falta; um ou outro avisava, mas em atitude ameaçadora e bem de raro. Ainda havia um ou outro salesiano que gostaria de intrometer-se no meio dos jovens; vi, porém, que estes procuravam propositalmente se afastar dos professores e superiores.

Então meu amigo continuou:

– Nos velhos tempos do Oratório, o senhor não estava sempre no meio dos jovens, especialmente na hora do recreio? Lembra aqueles belos anos? Era um santo alvoroço, um tempo que lembramos sempre com saudade, porque o afeto é que nos servia de regra, e nós não tínhamos segredos para o senhor.

– Certamente. Tudo então era alegria para mim. Os jovens corriam ao meu encontro, para falar-me; ansiavam por ouvir meus conselhos e pô-los em prática. Vês, porém, que agora as contínuas audiências, os muitos afazeres e minha saúde não o permitem.

– Está bem: mas se o senhor não pode, por que seus salesianos não o imitam? Por que não insiste, não exige que tratem os jovens como o senhor os tratava?

– Eu falo, canso-me de falar, entretanto muitos não se sentem dispostos a enfrentar os trabalhos como outrora.

– E então descuidando o menos, perdem o mais, e esse “mais” são seus trabalhos. Amem o que agrada aos jovens e os jovens amarão o que aos superiores agrada. E assim ser-lhes-á fácil o trabalho. A causa da mudança atual no Oratório é que bom número de jovens não tem confiança nos superiores. Antigamente os corações estavam todos abertos aos superiores, a quem os jovens amavam e obedeciam prontamente. Mas agora os superiores são considerados como superiores e não como pais, irmãos e amigos; são pois temidos e pouco amados. Por isso, se quiser formar um só coração e uma só alma, é preciso que por amor de Jesus se rompa a barreira fatal da desconfiança e se lhe substitua uma confiança cordial...

– Como fazer então para romper a barreira?

– Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade! O professor visto apenas na cátedra é professor e nada mais, mas se está no recreio com os jovens torna-se irmão. Se alguém é visto somente a pregar do púlpito, dir-se-á que está fazendo apenas o próprio dever; mas se diz uma palavra no recreio, é palavra de alguém que ama. Quantas conversões não provocaram algumas palavras suas ditas ocasionalmente aos ouvidos de um jovem enquanto brincava! Quem sabe que é amado, ama; e quem é amado alcança tudo, especialmente dos jovens. A confiança estabelece uma corrente elétrica entre jovens e superiores. Os corações se abrem e dão a conhecer suas necessidades e manifestam seus defeitos. Esse amor faz os superiores suportarem canseiras, aborrecimentos, ingratidões, desordens, faltas e negligências dos meninos. Jesus Cristo não quebrou a cana já partida, nem apagou a mecha que fumega. Eis vosso modelo. Então não se verá ninguém mais trabalhar apenas por vanglória; punir somente para satisfazer o amor próprio ofendido, retirar-se do campo da vigilância tão somente por ciúme de temida preponderância alheia; murmurar dos outros querendo ser amado e estimado pelos jovens, com exclusão de todos os demais superiores, ganhando nada mais que desprezo e falsas manifestações de carinho; deixar-se roubar o coração por uma criatura e, para fazer-lhe corte, descuidar todos os outros meninos; por amor da própria comodidade julgar de somenos importância o dever importantíssimo da vigilância; por vão respeito humano deixar de advertir quem deve ser advertido. Se houver esse verdadeiro amor, não se haverá de procurar senão a glória de Deus e a salvação das almas. Se vier a definhar, então é que as coisas já não vão bem. Por que se quer substituir à caridade a frieza de um regulamento? Por que se afastam os superiores da maneira de educar que Dom Bosco ensinou? Por que ao sistema de prevenir com a vigilância e amorosamente as desordens, se vai substituindo pouco a pouco o sistema, menos pesado e mais cômodo para quem manda, de impor leis que se mantêm com castigos, acendem ódios e geram desgostos, e se não se cuida de as fazer observar, geram desprezo aos superiores e causam gravíssimas desordens?

É o que acontece necessariamente se faltar a familiaridade. Se se quiser, pois, que o Oratório volte à antiga felicidade, reponha-se em vigor o antigo sistema: o superior seja tudo para todos, sempre disposto a ouvir qualquer dúvida ou queixa dos jovens, todo olhos para vigiar-lhes paternalmente a conduta, todo coração para procurar o bem espiritual e temporal dos que a Providência lhe confiou. Então, já não haverá corações fechados e não se alastrarão mais certos segredinhos que acabam matando. Somente em caso de imoralidade os superiores sejam inexoráveis. É melhor correr perigo de expulsar de casa um inocente, que conservar um escandaloso. Os assistentes considerem gravíssimo dever de consciência relatar aos superiores tudo o que souberem ser de algum modo ofensa de Deus.

  • Algumas condições para a releitura da carta

Antes de recuperar os elementos mais significativos, é importante ver quais as condições[3] para se ler hoje a carta:

Primeiramente, é óbvio que a nossa não pode ser uma repetição servil do que Dom Bosco fez. Devemos ter a coragem de fazer, nas alteradas condições históricas atuais, o que Dom Bosco fez no seu tempo. Ele fez da educação a serviço dos ‘jovens pobres, abandonados ou periclitantes’ uma opção de vida. Hoje, mais do que nunca, somos chamados a fazê-la ou renová-la, porque é urgente fazer um pacto global educativo[4] se quisermos fazer realmente o bem aos jovens e transformar a cultura imperante e, portanto, a realidade social.

A segunda condição é a releitura em chave educativa do contexto e da condição juvenil atual. O nosso mundo conhece e tolera com frequência, fenômenos que Dom Bosco nem sequer podia imaginar: a irrupção na vida de todos das mídias, dos computadores, dos celulares; a aceleração vertiginosa da mudança e da inovação em todos os níveis da existência pública e privada, o pluralismo; a crise dos sistemas de significado e das agências de consenso social; a crise dos valores éticos e as certezas tradicionais; a crescente complexidade da existência individual e social; a tendência de homogeneização cultural a que levam o mercado internacional e as necessidades de consumo; a despersonalização e a extrema subjetivação dos padrões de comportamento individual e social; a trituração de pensamentos e perspectivas sobre o presente, com as consequentes dificuldades para uma boa memória do passado e para projetos futuros de longo prazo; a secularização da vida familiar e social; e assim por diante. E muitos outros elementos positivos que caracterizam a juventude de hoje (cf. o terceiro capítulo da Exortação Pós-sinodal Christus vivit).[5]

Isso exige perceber as novidades do momento histórico que se está a viver, os novos problemas, os novos empenhos, as novas responsabilidades que apelam à consciência dos cidadãos e à fé dos crentes. Mais especificamente, significará colher as necessidades históricas, as exigências, aspirações e expectativas frustradas, que pedem para serem ouvidas e não mais mortificadas; em geral e em especial na condição juvenil. Elas têm valor enquanto indicam para o “ser mais” para um “mais de vida”, para um “mais de humanidade”, para “uma maior qualidade de vida" de todos e de cada um: uma vida boa e em plenitude (cf. o quinto capítulo da Exortação sobre o que transforma a juventude quando iluminada pelo Evangelho.)

Em nosso nível salesiano, exige a coragem do envolvimento, isto é, de viver entre os jovens, sem se servir de defesas frágeis e falsas ditadas pelo medo de perder a imagem e a dignidade; renovar certas tradições educativas de diálogo e ouvir as vozes vindas do mundo juvenil, como é hoje, para o bem ou para o mal, com características próprias; permanecer na onda de aspirações e problemas que os jovens de hoje expressam e propõem, estudá-los com seriedade e paixão e procurar com eles maneiras de traduzir as ideias em termos operativos (cf. o capítulo sete da Exortação dedicada à “pastoral juvenil”).

Acolhendo as pessoas pelo que são “no estado em que se encontram” e pelo que cada uma delas pode ser, habituando-se a articular e calibrar as propostas e intervenções adequadas ao jovem e à jovem, e a situações particulares. É uma questão de buscar o raro equilíbrio entre propostas radicais de significado e respeito pela dinâmica pessoal e coletiva que todos precisam para alcançá-las.

Encaminhar ao futuro, ao outro, ao além, ao mais. É necessário saber ir além da superfície do real e chegar aos níveis profundos da vida onde nascem as necessidades, brotam as aspirações e florescem os sonhos; onde os limites do presente são forjados e aventura-se na imprevisibilidade do futuro. Envolve superar a passividade e o fatalismo, buscando o bem-comum, indo além do “todos fazem assim” ou do “sempre se fez assim” ou do “nós possuímos a verdade (cf. os dois últimos capítulos da Exortação sobre ‘vocação’ [8] e ‘discernimento’ [9]).

Vamos agora aos elementos mais significativos da carta:

 

1. Saber usar a linguagem do amor

 

“Mas como reanimar estes meus caros jovens, para que retomem a antiga vivacidade, alegria, expansão?

– Com o amor!

– Com o amor? Mas os meus jovens não são bastante amados?

– Vejo, sei perfeitamente; mas isso não basta. Falta o melhor.

– Que é que falta, então?

– Que os jovens não somente sejam amados, mas que eles próprios saibam que são amados”.

 

Portanto, não basta amar; é preciso ao mesmo tempo saber usar a linguagem do amor, sem a qual não há uma válida comunicação educativa. É, certamente, o significado mais transparente da carta, enunciado do grande princípio que poderíamos chamar de “visibilidade do amor”. Vivemos, hoje, na cultura da visibilidade: o que não aparece não existe; mas é uma visibilidade que oculta, se não até mesmo anula, o ser da pessoa; é uma visibilidade mortífera; há, também, uma visibilidade vital e vivificante, que é a da caridade; por isso, desde os textos do Novo Testamento, o amor foi associado à luz, irradiação da mesma Luz que é Deus. É preciso, portanto, examinar, aprender, inventar as linguagens do amor, para que se manifeste exteriormente e se torne dom, convite, proposta. Certamente deve ter a raiz no coração, garantia de verdade e eficácia. Mas não basta: as linguagens são também um dado cultural sujeito à evolução do tempo. Não se aprende de uma vez! A linguagem do amor é sempre objeto de “estudo assíduo”, no sentido que Dom Bosco dava a essa palavra: preocupação, empenho, paixão. A nossa cultura caracteriza-se também pela desatenção às linguagens do amor, pior ainda, pela distorção das linguagens do amor naturais, sensuais, afetivas, de amizade; por isso, serpeia entre os jovens uma profunda desconfiança: o amor é impossível, o amor é uma fábula, o amor é uma raridade que cabe a poucos privilegiados.

O salesiano deve ser cultor apaixonado das linguagens do amor; lição que aprende não apenas ouvindo a si mesmo, mas também ouvindo o outro: suas necessidades, sensibilidades, possibilidades de expressão e capacidade de aceitação. Hoje, este é – parece-me – o desafio fundamental do educador: fazer entender que ele realmente ama, que ama para sempre, que ama tudo o que é humano que surge diante dele e é revelado e modificado com o passar do tempo; demonstrar que ama mesmo diante da rejeição, do esquecimento, da distorção ou do uso oportunista do amor; e levar assim ao convencimento do amor, ou seja, fazer nascer a convicção interior de que somos dignos de amor e que somos, ainda mais, capazes de amar (é a percepção do próprio valor inalienável, o fundamento da dignidade, a raiz de toda autêntica esperança); e fazer intuir (mas isso também é graça) a existência de uma Fonte, que, para mim e para ti, está sempre aberta e disponível, sempre inexaurível em sua inesgotável riqueza.

 

2. Compreender os jovens

 

“– Não, repito, isso não basta.

– Que é preciso, então?

– Que sendo amados nas coisas que lhes agradam, ao participar dos seus gostos infantis, aprendam a ver o amor nas coisas que naturalmente pouco lhes agradam, como a disciplina, o estudo, a mortificação de si mesmos; e aprendam a fazer essas coisas com entusiasmo e amor”.

Há, portanto, um elemento de racionalidade que deve intervir, ou seja, a necessidade de um conhecimento que o educador salesiano deve adquirir e pelo qual deixar-se guiar: conhecer os jovens, compreender suas situações, seus problemas, suas necessidades para saber enfrentá-los. Requer-se uma gama ampla de conhecimentos científicos e técnicos para interpretar a série de valores concretamente disponíveis e assimiláveis pelos jovens para um desenvolvimento válido no presente e na perspectiva do futuro.

Muitos educadores insistem no negativo, no problemático, no irracional, no moralmente inaceitável, para confirmar dessa forma que o “não” deve ser firmemente reiterado (alternado, frequentemente, com o permissivismo), e não o “sim” a ser proposto com inteligência (razão), intuição (amor) e coragem combinada com prudência. Daí a animosidade, a distância de segurança, o não escutar, com o natural crescente fosso geracional; a relação torna-se funcional e institucional (quando ainda subsiste) ou é rejeitada, aberta ou sutilmente, com todo o patrimônio de valores que o salesiano tem em si e que ele gostaria (e deveria) de transmitir, se deseja ser e se entende como educador.

 

Entender a cultura juvenil fundamenta o empenho na formação contínua que permite anular as inevitáveis distâncias entre nós e os jovens. Trata-se da competência pedagógica que, unindo-se com a simpatia e a frequentação assídua, permite viver em sintonia com os jovens individuando os caminhos para adentrar nos corações e conquistar para a vida e a alegria. Parece-me ser, este, um aspecto muito carente em certos ambientes salesianos; baste colher a superficialidade com que se comentam as condutas juvenis: não transparece o desejo de intus legere, de ler dentro e além do fato; ou baste verificar a dificuldade que temos de apresentar horizontes e projetar itinerário o mais possível adequados às dificuldades concretas e possibilidades não “dos” jovens”, mas “destes” jovens. Porque ainda é verdade que se não se conhece “o que agrada aos jovens”, ou seja, o que passa pelo seu mundo interior como interesse, atração, desejo, sonho, dificilmente eles perceberão o valor dos horizontes educativos que propomos e que se referem ao empenho, esforço, dedicação (todos ingredientes do verdadeiro amor!), justamente aqueles que Dom Bosco sugere quando fala de estudo, disciplina, mortificação... “e aprendam a fazer essas coisas com amor”.

 

3. Comprometer-se com a felicidade

 

Perto ou longe, eu penso sempre em vós. Meu único desejo é ver-vos felizes no tempo e na eternidade. Esse pensamento e esse desejo é que me levaram a escrever-vos esta carta. São palavras de quem vos ama carinhosamente em Jesus Cristo e tem obrigação de falar-vos com a liberdade de um pai. Parecia-me estar no antigo Oratório na hora do recreio. Era uma cena cheia de vida, movimento, alegria".

Para amar realmente é preciso jamais perder de vista o fim último, a vocação mais íntima de cada um que é o chamado à felicidade simbolicamente figurada pela comunidade ideal sonhada por Dom Bosco. Para Dom Bosco a felicidade é uma via privilegiada de evangelização (“ver-vos felizes no tempo e na eternidade”).

Ajuda-nos a entendê-lo um estudo recente intitulado “Deus e a felicidade”): “No instante pleno de um momento feliz brilha improvisa e inesperadamente na realidade da vida uma realidade superior. Uma dimensão dotada de um sentido incondicionado irrompe na conduta do homem marcada por muitas contingências. No instante dessa felicidade, o homem se reconhece seguro numa realidade boa que o contempla com benevolência e experimenta a sua vida como uma vida boa e bem resolvida. Apenas nesse momento ele se desperta propriamente para a realidade, uma realidade que supera desde sempre o que ele imaginou como felicidade e que, por isso, põe sob uma nova luz a sua aspiração à felicidade. Trata-se de uma experiência da transcendência que pode ser descrita como a manifestação do bem. Nessa manifestação está a resposta à questão da fonte em que o homem conhece a dimensão infinita da realidade. Por que, então, ele se sente tocado por uma esfera transcendente? No vasto panorama da experiência religiosa, a experiência vivida da felicidade instantânea é um momento possível em que a transcendência se manifesta no homem. No caso da experiência da felicidade, ele sente alegremente a palavra como dirigida a ele e, questionado de alguma forma, percebe, sente, prevê algo que excede a dimensão da realidade da sua vida. Essa irrupção da transcendência não se apresenta necessariamente como experiência religiosa, mas se presta a uma interpretação religiosa e, em particular, a uma interpretação religiosa especificamente cristã. A sensação de um momento de segurança na realidade remonta, nessa interpretação religiosa, a um fundamento pessoal. A experiência da transcendência é assim interpretada como uma experiência de Deus. Quando o bem se manifesta como instantes plenos, essa manifestação é uma forma de encontro com Deus, que se manifesta para a consciência humana na felicidade do instante, e isso não fica sem consequências. A experiência do instante pleno é um momento dotado de profundidade existencial; é revelado ao homem um conhecimento que se refere à sua vida envolvendo-o profundamente. Nessa profundidade existencial está o elo de conexão, em que a felicidade instantânea se torna importante para a aspiração do homem à felicidade. Na satisfação de um instante, o homem experimenta que essa satisfação é de natureza diversa daquela que ele havia imaginado. Pode acontecer naturalmente que desejos e planos realizados sejam inferiores às expectativas anteriores... Ele prevê que o sucesso da sua vida é algo que vai além da realização dos seus desejos; sente que sua vida é boa sem concorrer para isso; experimenta de uma maneira existencialmente profunda que a sua felicidade é maior do que ele, maior dos seus planos, desejos, ação, e justamente isso transforma o seu desejo”.[6]

Se para Dom Bosco a felicidade é um caminho que abre para Deus, o salesiano deve lidar bem com essa realidade. Deixa de amar quem não busca a felicidade, própria e dos outros. Isso hoje é um problema sério, devido ao grande equívoco lançado pela cultura em relação à felicidade; devido ao eclipse da serenidade, da alegria da vida, da simplicidade que faz apreciar as pequenas coisas; devido à disseminação de síndromes depressivas, distúrbios de relacionamento, fugas da realidade, compensações neuróticas; devido ao ofuscamento da esperança e da preocupação com a história gerando pessimismo, atitudes defensivas, recusa de viver e regozijar-se. Não sendo apaixonado pela felicidade, como pode o salesiano despertar em todos os jovens essa energia latente, educá-la e direcioná-la à própria fonte de felicidade que é o Deus da alegria?

 

4. Estar presente

 

Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade!”

A atenção, portanto, às necessidades, não menos que aos fins, torna-se presença total, representada emblematicamente pelos educadores como alma do recreio; diríamos alma da convivência pedagógica. É a aplicação óbvia do princípio da visibilidade, não retórica, do amor. Não basta “viver para”, é necessário “estar com” os jovens. A distância entre nós e os jovens é certamente cultural quando geográfica, ou seja, quando nos distanciamos deles porque não estamos mais entre eles. Há o risco de que o esforço para os entender e acompanhar na descontinuidade de seus gostos e atitudes, a necessidade de garantir papéis diretivos e organizativos, a idade e os achaques, a enorme quantidade de trabalho, tantos fatores tirem, aos poucos, de nós o desejo e extinga o compromisso de estar com eles, entre eles. Está em crise o conceito básico de que a assistência salesiana deve ser entendida não apenas como exercício de vigilância, mas como compartilhamento cordial e ao mesmo tempo vigilante e atencioso, criando um vínculo de familiaridade entre educador e educando, permitindo a ajuda e o apoio sempre necessários para um caminho saudável de crescimento em vista da maturidade (função de apoio própria da verdadeira educação).

Contudo, estar com os jovens significa estar presente não só e nem tanto fisicamente, quanto cordialmente, arriscando-se na relação dialogal. Dialogar não é a simples conversa com outra pessoa para expor suas convicções; nem mesmo discutir para afirmar e defender as próprias posições. O diálogo é a prática discursiva em que pensamos juntos para buscar uma concordância sobre uma determinada questão. O diálogo é uma relação de cotejo sincero com os jovens que são confiados a nós, e o princípio ético que o inspira é a capacidade de cooperar. A verdade que nos ensina é que, antes de dialogar com os jovens, somos chamados a cultivar um profundo diálogo interior conosco mesmos. Estar com o outro surge do “secum stare”, daquele estar consigo mesmo que torna possível a gramática da comunicação, que Manzoni resumiu em cinco verbos: observar, escutar, comparar, pensar, falar.[7] Observar-se para poder observar; escutar-se para saber escutar; pensar sobre si mesmo para saber pensar; falar consigo mesmo para poder falar. São as chaves para estar presente não apenas na realidade física, mas também e acima de tudo na realidade humana. Não basta estar fisicamente no meio dos jovens, se não nos habilitamos para a capacidade de contato com a realidade deles; talvez seja esta a primeira e principal ascética do educador. Só a partir da interioridade cultivada nascem capacidades e a vontade de dialogar com os jovens, para tirá-los da superficialidade que os debilita e convidá-los para a profundidade que os constitui, graças à troca, o confronto, precisamente o diálogo.

 

5. Superar os formalismos

 

"Tudo então era alegria para mim. Os jovens corriam ao meu encontro, para falar-me; ansiavam por ouvir meus conselhos e pô-los em prática. Quem sabe que é amado, ama; e quem é amado alcança tudo, especialmente dos jovens. A confiança estabelece uma corrente elétrica entre jovens e superiores. Os corações se abrem e dão a conhecer suas necessidades e manifestam seus defeitos. Por que se quer substituir à caridade a frieza de um regulamento? Por que se afastam os superiores da maneira de educar que Dom Bosco ensinou? Por que ao sistema de prevenir com a vigilância e amorosamente as desordens, se vai substituindo pouco a pouco o sistema, menos pesado e mais cômodo para quem manda, de impor? O superior seja tudo para todos, sempre disposto a ouvir qualquer dúvida ou queixa dos jovens, todo olhos para vigiar-lhes paternalmente a conduta, todo coração para procurar o bem espiritual e temporal dos que a Providência lhe confiou".

Se antigamente, regulamento e disciplina, mal-entendidos e mal administrados, podiam criar frieza e distância entre educadores e jovens, hoje é exatamente o contrário. Existe uma familiaridade que nada tem a ver com o que Dom Bosco entendia, porque se trata de negligência, desinteresse, juvenilismo, deterioração do desejo, falta de respeito. Mas se trata de uma indiferença que nasce da mesma raiz: facilitar as coisas economizando no trabalho educativo. Cria-se assim uma nova e não menos funesta distância porque se altera a relação educativa, privando o jovem de um guia e do necessário papel da autoridade, imprescindível para o seu desenvolvimento. Faltando modelos significativos de referência compromete-se o processo de identificação e, portanto, de amadurecimento. As relações em grupo também não bastam: fazer grupo só para fazer algazarra, repassar tarefas, comer pizza, priva os jovens de experiências, cotejos, histórias, desilusões, esperança. As potencialidades que os jovens têm dentro de si são enormes, mas estão sepultadas sob a confusão dos sentimentos, dos instintos, das raivas, dos sonhos. Essa confusão enorme é amplificada em parte pela fragilidade das figuras paternas.

Normalmente, as novas gerações, para ter algum espaço, deveriam enfrentar os pais dialogando, discutindo, se não até mesmo brigando. A rebelião contra os pais é terapêutica, libertadora e redime os filhos da infância e das autolesões sem sentido. Mas estamos assistindo a uma crise generalizada de verdadeira paternidade, isto é, de prestígio e autoridade que intervêm quando necessário. Aos olhos de muitos filhos os pais já não são um muro, mas uma almofada delicada. Para esses jovens, nós salesianos devemos assumir a paternidade na sua função tranquilizadora, mas também de defesa em vista dos bens vitais e valores que acreditamos humanizantes para nós e para eles. Se os adolescentes são torrentes em cheia, não é rebaixando as margens que os ajudaremos a descer para o oceano, mas as elevando e reforçando. Pensemos no valor das regras, da limitação à proibição; uma tarefa cansativa porque comporta, às vezes, conflito, rejeição, represália; mas será possível e salutar se for feita a decisiva passagem que vai do “me querem bem” ao “querem o meu bem” até “é um bem também para mim”. Isso só será possível se a relação pessoal e o ambiente educativo forem altamente positivos, o que Dom Bosco chamava de “espírito de família”.

 

6. Compartilhar a ação

 

“Via-se que entre jovens e superiores reinava a maior cordialidade e confiança. A familiaridade gera o afeto e o afeto produz confiança. Isso é que abre os corações... se prestam docilmente a tudo o que porventura lhes mandar aquele de quem têm certeza de serem amados... o afeto é que nos servia de regra, e nós não tínhamos segredos para o senhor... Antigamente, os corações estavam todos abertos aos superiores, a quem os jovens amavam e obedeciam prontamente”.

O amor torna-se, nas duas direções, encontro, confiança, colaboração cordial ativa. Se não se chegar à colaboração (indicada por Dom Bosco com o nome de obediência), ao envolvimento dos jovens na responsabilidade educativa, ao protagonismo orientado, fruto de abertura e confiança, isso pode significar que foi bloqueado o dinamismo do amor, afastando o jovem por falta de confiança. Um dos parâmetros para descrever a atual condição juvenil é o da confusão ou o da incerteza; elementos que formam a precariedade que dá lugar à insatisfação. Contudo, a único caminho para sair da incerteza e da confusão é a decisão de o indivíduo ser ele mesmo, através da aceitação convicta da própria liberdade e, portanto, da própria responsabilidade: ser estimado, ser reconhecido, poder exprimir-se; e, portanto, dar razão a si mesmo, antes que aos outros do que é, faz, projeta, sonha.

O acompanhamento educativo sabe captar a expectativa, sempre frágil e contraditória, de favorecer os movimentos de conscientização e comprometimento dos jovens, as iniciativas de conscientização e empenho, o desejo de estar presente e ativo no próprio ambiente. Quando, por outro lado, o desejo de ser e de fazer está em crise, dando lugar a um mundo de aparências, esquecimento, abandono de si, quando as novas gerações não se sentem ajudadas e estimuladas a agir com responsabilidade, tende a predominar o medo de não corresponder às expectativas, a ansiedade de não conseguir enfrentar a concorrência, a tendência de se misturar à massa, de não se expor, de não tentar. Cria-se uma condição generalizada de apatia e falta de motivação abrindo caminho para os desvios mais devastadores (se “eu não valho” – porque ninguém me deu a oportunidade de encontrar-me comigo mesmo e com a realidade – então eu me descarto). O salesiano favorece o protagonismo juvenil justamente porque aposta nos valores essenciais da própria identificação e do próprio planejamento, ao mesmo tempo em que favorece uma socialidade que se torna paradigmática criando mentalidades e gerando estilos de vida, em vista do cidadão honesto que caminha juntamente com o bom cristão.[8]

 

Conclusão

 

A carta-sonho de Dom Bosco, escrita de Roma em maio de 1884, torna clara a dialética entre a presença do carisma e a obra de serviços educativos ou sociais. Em Valdocco, havia certamente uma obra, conhecida e estimada por todos em Turim, florescente, com centenas de jovens e dezenas de salesianos, mas naquele tempo definhava a presença do carisma nos seus elementos fundamentais. Diversamente, muitos anos antes, no átrio do cemitério de San Pietro in Vincoli ou nos Moinhos do Dora ou nos prados de Valdocco ainda não havia uma obra, mas havia certamente uma “presença” de vida, de energia carismática. Pensamos com comoção nas presenças salesianas ocultas e heroicas dos irmãos do Leste Europeu ou de outras partes do mundo, quando não era possível exprimir-se em obras.

Eis porque é urgente fazer das nossas obras verdadeiras presenças. A presença refere-se a alguma coisa que se torna presente. E o que é esta outra coisa? É a missão apostólica a que Deus nos envia e o carisma específico da Congregação com que a realizamos. Ele, para ter continuidade e estabilidade no tempo, para ter visibilidade e expressão, deve encarnar-se numa obra em obras concretas, visíveis, reconhecíveis.

Se isso é verdade, não se deduz, porém, que uma obra religiosa, só pelo fato de existir, torne presente o carisma, nem que a vitalidade do carisma seja medida pela permanência da obra. As obras podem continuar a caminhar pela inércia, perdendo progressivamente capacidades propositiva e significatividade; podem bilhar da glória passada, como estrelas cuja luz ainda é visível, mas que há tempo exauriram a sua energia; podem ter uma grande história a narrar, mas não ter mais uma palavra a dizer no cenário social e eclesial de hoje. Eis porque, para sermos Salesianos para os jovens de hoje, precisamos absolutamente de conversão pessoal, pastoral e estrutural.

Os elementos que caracterizam a presença correspondem aos três aspectos fundamentais da vida consagrada:

  1. Primeiramente, as pessoas de todos os consagrados, “a qualidade de suas vidas, aquilo em que acreditam e no que apostam, as suas opções diante das alternativas apresentadas pela nossa cultura, o que se propõem a ser e o que conseguem comunicar”.[9] Somos consagrados e não agentes sociais!
  2. Em segundo lugar, “a vida da comunidade: seu estilo de relações, a sua capacidade de acolhida, participação e envolvimento no contexto, a sua proximidade das pessoas, as manifestações da sua opção por Deus, capazes de serem interpretadas pelo povo. A comunidade coloca-se, de fato, como sinal de fraternidade, de comunhão eclesial, de presença de Deus na família humana”[10].
  3. Em terceiro lugar, “o tipo de serviço que se pretende oferecer, da mentalidade com que este é prestado, da sua colocação no contexto cultural ou social, dos meios”[11]. Não fazemos filantropia, mas revelamos de que Deus é amor

Isso tudo está em consonância com “os critérios de ação salesiana”, como são apresentados pelos artigos 40-44 das Constituições Salesianas, e por isso devia fazer-nos cientes e convictos de que atividades e obras têm um valor instrumental. Elas não são o fim, a cuja manutenção sacrificar homens e recursos. Elas, em sua pluralidade de formas (oratórios, escolas, centros de formação profissional, universidades, internatos, paróquias, residências missionárias, mídias, etc.) são um meio para responder às exigências concretas dos jovens, sobretudo os mais pobres. Nenhuma obra tem valor absoluto em si mesma. Todas têm sentido na medida em que temos em mira a salvação dos jovens, segundo o testemunho do P. Rua a respeito de Dom Bosco (Const. 21), indicando que as atividades e obras, definitivamente, deveriam ser presenças multiformes e vivas de Dom Bosco e da sua paixão apostólica, compartilhadas hoje por um vasto movimento de leigos (cf. CG24, 39) e realizadas com novos modelos de gestão (CG 26, 100).

Enfim, retornar à inspiração originária de Dom Bosco, recordada por ele na carta de 10 de maio de 1884, significa, para cada salesiano, beber da água pura da fonte. Fazer nossas, novamente, as suas opções prioritárias e a sua paixão apostólica faz-nos ser o que devemos ser: Salesianos de Dom Bosco; dá-nos uma identidade clara e um rosto reconhecível na Igreja e na sociedade como uma Congregação para os jovens, e torna a nossa missão válida e significativa e a nossa proposta vocacional coerente e acessível.

O Testamento espiritual do nosso Pai é explícito sobre isso: “O mundo nos acolherá sempre com prazer enquanto nossas solicitudes se dirigirem aos indígenas, aos meninos mais pobres, mais periclitantes da sociedade. Essa é para nós a verdadeira riqueza, que ninguém haverá de roubar”.

A atenção aos últimos, aos mais desfavorecidos, marginalizados e excluídos, pode se tornar um grande recurso para cada irmão redescobrir “a paixão do tempo da juventude” (cf. Jr 2,2). Como para Dom Bosco, os jovens podem ser mestres, guardiões, regeneradores do nosso coração e dar-nos novamente uma paternidade madura e fecunda.

Entretanto, a atenção aos mais pobres também pode renovar significativamente o aspecto de uma inspetoria, se se tornar “uma sensibilidade institucional que aos poucos envolve muitas obras” e não só “um setor particular, identificado com alguma obra especial ou animado apenas por algum Irmão particularmente motivado”.[12]

A carta de convocação do Reitor-Mor com o tema: “Quais Salesianos para os jovens de hoje?”, mais concretamente, quer colocar-nos em sintonia com o projeto de Igreja do Papa Francisco e, portanto, ter a coragem de fazer nosso o sonho de “uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de ‘saída’ e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade” (EG 27).

O episódio de Emaús, tomado adequadamente no Documento final do Sínodo sobre Jovens, Fé e Discernimento vocacional,[13] como modelo de abordagem dos jovens e de acompanhamento para levá-los ao encontro pessoal com Cristo e fazê-los redescobrir a Igreja como Mãe, é muito atual justamente pela contemporaneidade com a nossa situação espiritual. Os jovens de hoje compartilham poucas coisas com aqueles discípulos, mas talvez nenhuma tanto quanto a frustração dos seus sonhos, o cansaço e o desencanto no discipulado; seguir Jesus, pensam com frequência, não compensa, não vale a pena: um morto, um ausente não vale a vida deles. A nossa missão é justamente anunciar-lhes que Cristo está vivo, que são amados por Cristo, que são salvos por Cristo!

Isso tudo requer conversão pessoal (a Deus), conversão pastoral (aos jovens) e conversão estrutural (tornando mais evangelizadoras as nossas presenças, capazes de levar os jovens a Cristo e à Igreja), mas está em perfeita sintonia com o espírito de Dom Bosco a quem interessava muito mais a identidade, a vitalidade e a fecundidade do carisma do que a sobrevivência das obras.

Parafraseando uma citação de Joel 3,1, muito amada pelo Papa Francisco e retomada no Documento final do Sínodo,[14] podemos concluir, parafraseando-a:

“Somente se nós, adultos e anciãos, sonharmos, o jovens serão capazes de profetizar!”

A Maria Imaculada Auxiliadora entregamos este importante e significativo desafio de tornar presente, atraente e fecundo o carisma salesiano hoje.

 

[1] Cf. Ángel Fernández Artime, Quais Salesianos para os jovens de hoje?, Carta de convocação do Capítulo Geral 28, ACG427, Turim, 24 de maio de 2018.

[2] Cf. Rossano Sala, Fuori, dentro, dietro il Sinodo. Intervista PNG Sett-Ott. 2019 (Original in Misión Joven 510-511 2019 5-16.

[3] Cf. Carlo Nanni, Il Sistema Preventivo di don Bosco, LDC 2003.

[4] Cf. Mensagem do Papa Francisco para o Lançamento do Pacto Educativo. Vaticano, 12 de setembro de 2019.

[5] Cf. Exortação Apostólica Pós-sinodal Christus vivit, Loreto, 25 de março de 2019.

[6] Jörg Lauster, Dio e la Felicità – La sorte della vita buona nel cristianesimo, Ed. Queriniana 2006, 184-186.

[7] Alessandro Manzoni, I promessi sposi, Cap. XXXI: “Contudo, tanto nas pequenas, como nas grandes coisas, seria possível evitar em grande parte um caminho tão longo e errado, adotando o método proposto há muito tempo, de observar, escutar, comparar, pensar, antes de falar. Mas falar, essa coisa tão única, é muito mais fácil do que todas as outras coisas juntas, que nós também, digo os homens em geral, somos um pouco dignos de pena”.

[8] Cf. Giannantonio Bonato, Lettera ’84, conferência para professores.

[9] J. E. VECCHI, Redesenhar as presenças: critérios, perspectivas, reestruturação, in Cadernos Salesianos (Nova Série), Publicação do Instituto Teológico Pio XI e da Inspetoria Salesiana de São Paulo, São Paulo: 2011, p. 39ss.

[10] ID., ibidem.

[11] ID, ibidem.

[12] P. CHAVEZ VILLANUEVA, Discurso de encerramento do CG 26, CG 26, p. 160-161.

[13] Documento Final do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional, 20.10.18, 4

[14] Ivi, 1