CG28

“Eis o momento favorável, eis o dia da salvação!”

“Eis o momento favorável, eis o dia da salvação!”

Quarta-feira de cinzas de 2020 (Gl 2,12-18; Sal 50; 2Cor 5,20-6,2; Mt 6,1-6.16-18)

Valdocco, 26 de fevereiro de 2020
Pascual Chávez V., sdb

 

Iniciamos hoje o caminho quaresmal, tempo de graça porque nos leva à solenidade da Páscoa: “Eis o momento favorável, eis o dia da salvação”.

A festa por excelência precisa de intensa preparação. Os quarenta dias, que claramente evocam aqueles passados por Moisés no Sinai, os quarenta anos passados pelos judeus no deserto e os quarenta dias que Cristo passou no deserto antes de iniciar o seu ministério público, surgem como um período que caracteriza a preparação do homem para um encontro com Deus.

Tudo isso evidencia uma necessidade perene: a prova do tempo é necessária para uma conversão verdadeira e profunda. Nos caminhos de Deus, as etapas não são normalmente queimadas; e as conquistas não são improvisadas; são dadas, como graças, àqueles que as buscam com esforço, sem desistir ou desesperar. Para nós, este tempo coincide providencialmente com a realização do nosso Capítulo Geral, que, como tal, tende a uma maior fidelidade dinâmica, criativa e ousada a Deus, a Dom Bosco e aos Jovens.

Com a imagem do caminho, usada pela oração da coleta, indicamos aqui um esforço progressivo de penitência e renovação que envolve toda a Igreja e nela todos nós. A liturgia nos guia, apresentando vigorosamente as verdades centrais da economia salvífica. O objetivo é preciso e concreto: alcançar Cristo em seu mistério de morte e ressurreição, mediante um sincero esforço de conversão ao Evangelho. Para dizê-lo com uma fórmula litúrgica: “purificar-se da corrupção do velho homem para ser capaz de uma santa novidade", da novidade de Deus, da novidade de Deus para nós hoje!

No cenário quaresmal, a cruz de Cristo domina em primeiro plano, cordeiro de Deus sacrificado por nós. Sua imagem ergue-se no final do caminho quaresmal, assim como um dia esperava Cristo no final de sua “via crucis”.

É preciso olhar atentamente para o Crucificado: é o Filho de Deus que se “aniquila” em obediência ao Pai e, assim, nos salvar. É ele quem traz nas fibras da sua humanidade o peso de todo pecado, a agonia de toda dor. Mas a fonte de toda salvação está ali. A paixão que salva é apenas uma: a de Jesus. A cruz que salva é apenas uma: aquela carregada por Cristo. E, no entanto, cada um é chamado a “realizar o que falta à sua paixão” (cf. Cl 1,24), plantando a cruz no coração da nossa vida, nas profundezas da nossa realidade. Nisso, o essencial não é o sofrimento físico; é antes o tormento interior, como diz Joel: “Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes” (Gl 2,13).

Mas há também no cenário quaresmal a imagem das cinzas que todos recebemos para indicar, por um lado, que somos apenas “pó”; nós, que nos sentimos tão grandes e capazes de tudo, fomos criados por Deus a partir do pó e, sem Deus, voltaríamos ao pó; por outro lado, somos todos penitentes, carentes de conversão. “Lembra-te que és pó e em pó te tornarás”.

O convite de Jesus, no início da sua missão pública: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, que acompanha o rito da imposição de cinzas, é um apelo à mudança íntima e total, uma renovação do homem todo, do seu sentir, do seu julgar, do seu viver. A conversão envolve uma mudança profunda que é acima de tudo uma orientação para Deus em sua Palavra, especialmente neste período de Capítulo Geral.

Despertamos, assim, a consciência da nossa condição de pecadores e da nossa necessidade de penitência e conversão: a Deus, aos Irmãos, aos Colaboradores, aos Jovens. A Quaresma é o tempo de olhar mais de perto para o que somos e para o que somos chamados como Salesianos. Isso envolve o discernimento dos nossos valores e o confronto com os valores que professamos como seguidores de Cristo nos passos de Dom Bosco. É, mais uma vez, a sua graça que antecipa o nosso desejo de conversão e sustenta o nosso esforço com a plena adesão à sua vontade salvadora, ao que ele espera de nós neste momento concreto da história. Mas não esqueçamos que a nossa conversão deseja – e espera – Deus, não nasce ou se nutre da nossa vontade. É Ele quem quer a nossa santificação para a salvação dos jovens!

Durante este período litúrgico, somos convidados, de modo especial, a contemplar Cristo, e o fazemos com o olhar de Dom Bosco. Entre nós, Salesianos, temos a firme convicção de que, mesmo que “o Evangelho é o mesmo e único para todos, mas que existe uma leitura salesiana do Evangelho”.[1] Dom Bosco “dirigiu seu olhar a Cristo para buscar assemelhar-se a Ele nos traços que mais correspondiam à sua missão providencial e ao espírito que a deve animar”;[2] no art. 11 das Constituições são enumerados, precisamente, esses traços da figura do Senhor aos quais “somos mais sensíveis na leitura do Evangelho”.

No seu tempo, ele “fez a sua leitura salesiana; depois dele, nos seus passos, à sua luz, em espírito filial, devemos fazer hoje, para a nossa vida atual, a nossa leitura salesiana do Evangelho”.[3] Conhecer mais profundamente o Cristo do Evangelho, como Dom Bosco o conheceu, fortalecerá a nossa comunhão e dará garantia de salesianidade à nossa missão. A experiência pessoal de Cristo, vivida por Dom Bosco, é a chave para a interpretação salesiana da Palavra de Deus; isso significa que a vida e a obra de Dom Bosco são para nós “a Palavra de Deus encarnada”,[4] uma leitura vivida e carismaticamente normativa da Palavra de Deus.

E dado que continuaremos o nosso Capítulo Geral, durante a Quaresma, ouviremos Deus ouvindo, ao mesmo tempo, a voz dos jovens, suas necessidades e aspirações, seus silêncios e esperanças, suas deficiências e seus sonhos; os jovens são, de fato, “a outra fonte de nossa inspiração evangelizadora”.

O caminho quaresmal pode ser visto, portanto, em sua realidade mais profunda, como “um retorno às raízes da fé porque, meditando sobre o incomparável dom da graça que é a redenção, não podemos deixar de imaginar que tudo nos é dado pela amorosa iniciativa divina”; e também como um retorno às origens da nossa vocação e missão, elas também são iniciativas de Deus: “Eis o momento favorável, eis o dia da salvação".

O Evangelho de Mateus indica-nos que direção seguir:

O Jejum, como expressão de esforço ascético. Toda renúncia deve enraizar-se numa atitude interior e traduzir-se em gestos concretos, para envolver o homem todo, alma e corpo. Trata-se de uma ascética que nos leve a renunciar a nós mesmos para abrir espaço aos outros, a trabalhar para extinguir tudo o que seja germinação nefasta de egoísmo e transformar o caráter para torná-lo amável e capaz de romper as distâncias (físicas, culturais e espirituais) entre nós e os jovens!

A Oração, como expressão do ritmo da vida, que deve se tornar mais intensa e fervorosa neste momento favorável. Deve ser um grito do coração e não um clamor dos lábios. A liturgia insiste em que seja fervorosa, porque nutrida pelo amor; humilde, porque brotada de um coração partido pelo arrependimento e invocadora de perdão; urgente e confiante porque nunca se cansa de suplicar; nutrida acima de tudo pela palavra divina. Em suma, uma mística que nos leve a beber da bondade amorosa de onde ela flui ou seja, do próprio coração de Deus!

A Caridade fraterna, como expressão de abertura aos outros. O que é subtraído ao corpo e ao conforto através da renúncia é ofertado aos irmãos. É um compromisso de solidariedade em favor dos outros; é olhar para o próximo como “alguém que me pertence”, como “presente de Deus”. É a própria missão, que consiste em ser “sinais e portadores do amor de Deus aos jovens” e oferecer-lhes a boa-nova: “Cristo vive. Ele é a nossa esperança e a juventude mais bela do mundo... Ele vive e te quer vivo! Cristo te ama, Cristo te salva, Cristo vive!"[5]

A Quaresma é - ou deveria ser - um período de alegria, porque a conversão a que se orienta nada mais é do que a graça da reconciliação, do encontro de Deus sempre pronto para abençoar e beneficiar o homem que expressa seu desejo por Deus, jejuando, rezando, fazendo o bem, tanto em nível estritamente individual quanto na comunidade dos capitulares.

A Quaresma é – ou deveria ser – um tempo festivo, porque nos oferece a possibilidade de nos renovarmos, de sermos mais livres e mais fortes na luta contra o mal, ou seja, mais disponíveis para aquilo que o Senhor espera de nós como Salesianos para os jovens de hoje, capazes de dar aos jovens ramos para o céu e raízes no interior da terra![6]

Entreguemos estes quarenta dias de graça, vividos no jejum, na oração e na caridade, a nossa Mãe Auxiliadora e peçamos que ela nos acompanhe e nos guie para celebrar dignamente o grande mistério da Páscoa de Cristo, a suprema revelação do amor gratuito e misericordioso do Pai dando as boas-vindas ao seu amor e comunicando-o aos outros: Irmãos, Colaboradores e Jovens!

Desejo a todos vós um fecundo caminho quaresmal!

 

[1] O Projeto de vida dos Salesianos de Dom Bosco, p. 156.

[2] O Projeto de vida dos Salesianos de Dom Bosco, p. 156.

[3] J. Aubry, Lo Spirito Salesiano. Lineamenti (Roma 1974), pag. 53. Cursivas pessoais.

[4] C. Bissoli, “La Linea Biblica nelle Costituzioni Salesiane”, in Aa. Vv., Contributi di Studio su Costituzioni e Regolamenti SDB. Vol 2 (Roma 1982), p. 292.

[5] Exortação Apostólica Pós-sinodal Christus vivit, Loreto, 25 de março de 2019, 1.130

[6] Cf. Ivi, 191