CG28

Documenti do CG28 (ACG 433)

CAPÍTULO-GERAL XXVIII
SALESIANOS DE DOM BOSCO

“Quais salesianos
para os jovens de hoje?”

Reflexão pós-capitular

CG28

Roma, 16 agosto de 2020

 


ACG N. 433
ano CII
setembro de 2020

ÍNDICE

Apresentação

LINHAS PROGRAMÁTICAS DO REITOR-MOR PARA A CONGREGAÇÃO SALESIANA APÓS O CAPÍTULO-GERAL 28

  1. SALESIANO DE DOM BOSCO PARA SEMPRE. Um sexênio para crescer na identidade salesiana
  2. Numa Congregação à qual somos convidados pelo “DA MIHI ANIMAS, COETERA TOLLE”
  3. A viver o “SACRAMENTO SALESIANO DA PRESENÇA”
  4. A formação para ser SALESIANOS PASTORES HOJE
  5. PRIORIDADE ABSOLUTA pelos jovens, os mais pobres e os mais abandonados e indefesos
  6. COM OS LEIGOS NA MISSÃO E NA FORMAÇÃO. A força carismática que nos é oferecida pelos leigos e pela Família Salesiana
  7. É A HORA DE UMA MAIOR GENEROSIDADE NA CONGREGAÇÃO. Uma Congregação universal e missionária
  8. Acompanhando os jovens para um FUTURO SUSTENTÁVEL

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA FRANCISCO AOS MEMBROS DO CG28

  • Reavivai o dom que recebestes
  • A “opção Valdocco” e o dom dos jovens
  • A “opção Valdocco” e o carisma da presença
  • A “opção Valdocco” na pluralidade das línguas
  • A “opção Valdocco” e a capacidade de sonhar

“QUAIS SALESIANOS PARA OS JOVENS DE HOJE?”

  1. Prioridades da missão salesiana entre os jovens de hoje
    • Reconhecer
    • Interpretar
    • Escolher
  2. Perfil do Salesiano hoje
    • Reconhecer
    • Interpretar
    • Escolher
  3. Com os leigos na missão e na formação
    • Reconhecer
    • Interpretar
    • Escolher

DELIBERAÇÕES DO CG28

  1. Modificações das Constituições
    • Eleição do Reitor-Mor (Cost. 128)
    • Eleição do Vigário do Reitor-Mor e dos Conselheiros-Gerais (Cost. 142 §1)
  2. Modificações dos Regulamentos-Gerais
    • Tarefas do Conselheiro-Regional (Reg. 135)
    • Uso do sistema informático nas votações eletivas (Reg. 131)
  3. Deliberação
    • Modalidades de realização da visita extraordinária (Reg. 104)

ANEXOS

  1. Discurso do Reitor-Mor, P. Ángel Fernández Artime, na abertura do CG28
  2. Alocução do Card. João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica
  3. Carta dos jovens ao CG28
  4. Discurso do Reitor-Mor, P. Ángel Fernández Artime, no encerramento do CG28
  5. Crônica dos trabalhos do CG28

ELENCO DOS PARTICIPANTES DO CG28

 

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APRESENTAÇÃO DO REITOR-MOR

Meus caros Irmãos,

passaram-se quatro meses desde o encerramento do Capítulo Geral 28, concluído com antecipação de três semanas em relação ao que fora programado devido à pandemia, que tornou impossível a nossa permanência em Valdocco. Dirijo-vos hoje esta apresentação, com um sentimento de profunda alegria pelo que vivemos em Valdocco e com a satisfação pelo que foi – acredito – um trabalho frutuoso, realizado por todos nós Capitulares e concluído, depois, no Conselho-Geral. De fato, a Assembleia capitular confiou ao Reitor-Mor e ao seu Conselho o encargo de concluir aquilo que ficara incompleto no momento do encerramento antecipado.

O documento que, com esta publicação, chega agora a todos os Irmãos tem como subtítulo “Reflexão pós-capitular” e não “Documentos capitulares”, como acontecia habitualmente no passado. Isso, porque, a Assembleia capitular não chegou com votação à aprovação final do texto. Apenas algumas deliberações capitulares, especialmente as de caráter jurídico, foram a termo nas primeiras quatro semanas dos nossos trabalhos.

Como disse em outras ocasiões, devido às circunstâncias que fomos obrigados a viver, o CG28 foi uma Capítulo “especial”. Todavia, não foi um Capítulo sem orientações e linhas programáticas. Com efeito, o documento que vos apresento contém a sua primeira parte que, tanto eu como os irmãos do Conselho-Geral, consideramos muito importante para a animação, o governo e a vida da Congregação no próximo sexênio.

São as linhas programáticas que o Reitor-Mor oferece à Congregação para o sexênio 2020-2026. Encontrareis nesta ampla proposta, caros Irmãos, a reflexão pós-Capítulo-Geral, fruto do mesmo Capítulo e da síntese do caminho percorrido em nossa Congregação nos precedentes seis anos. É uma rica e ampla reflexão que recolhe antes de tudo o espírito do que está contido na Mensagem que o Santo Padre Francisco enviou ao Capítulo-Geral; recolhe, também, os elementos que o Papa indicou como essenciais e já presentes na reflexão desenvolvida pela assembleia capitular sobre os dois núcleos temáticos. O terceiro núcleo – como sabeis – foi elaborado pelo Conselho-Geral.

Estas linhas programáticas deverão ser, certamente, motivo de estudo, análise e aprofundamento tanto pelas Inspetorias como pelos irmãos, especialmente pelos diretores, para o seu serviço de animação e governo das comunidades locais. Dou por pressuposto que sejam objeto de estudo do Inspetor e do seu Conselho.

Acredito que, embora com velocidades diversas, relacionadas com a particularidade de cada Inspetoria, toda a Congregação deva percorrer este caminho que é identitário, carismático e oferece linhas-guia e linhas de ação para o nosso presente.

Acompanha o texto programático do sexênio a Mensagem do Santo Padre que, sem dúvida, chegará ao coração de cada Salesiano, e será, antes de tudo, motivo de meditação, estudo, aprofundamento e confronto pessoal.

Os três núcleos propostos como temas do trabalho capitular tiveram um desenvolvimento amplo, embora não tenham passado pelas fases de estudo e elaboração pensadas inicialmente. Os textos oferecem reflexões ricas, propostas precisas e oportunas para a vida das Inspetorias e das nossas presenças no mundo.

Enfim, são recolhidas no documento as deliberações capitulares e, como em todos os Capítulos- Gerais, alguns anexos com mensagens e discursos.

Acredito que o documento que tendes agora nas mãos permitirá aprofundar as motivações eclesiais, carismáticas e identitárias que nos ajudarão a prosseguir no caminho de fidelidade que, como Congregação e pessoalmente, desejamos continuar. Hoje, como ontem, o nosso mundo, a Igreja e os jovens com suas famílias, precisam de nós para continuarem a viver o caminho de fidelidade ao Senhor Jesus. Precisam de nós como pessoas significativas e corajosamente proféticas. O Senhor conceda-nos este dom. Com mediocridade e temores poderemos oferecer poucas coisas aos jovens, que não serão capazes de transformar suas vidas e enchê-las de sentido.

Estou muitíssimo convencido que todos nós desejamos pertencer a uma Congregação que se sente muito viva e na qual cada irmão renova a própria entrega de si todos os dias: não de qualquer modo, mas sentindo que isso vale a pena.

Desejo profundamente que este CG28 “especial” ajude cada um dos irmãos a reavivar a paixão apostólica que caracterizou o nosso Pai Dom Bosco, para ser outro Dom Bosco hoje, em todas as partes do mundo, em todas as culturas e em todas as situações.

Acrescento um pedido. Enquanto entrego este documento, com uma visão de fé e com grande confiança, peço que cada um de vós, caros Irmãos, faça dele motivo de oração, objeto de estudo paciente, de leitura atenta e meditada, para que ele possa tocar o vosso coração. Peço-vos para interiorizar a espiritualidade que encontrareis nestas reflexões capitulares e entrar em diálogo com as propostas que desejam ser significativas e proféticas no nosso modo de assumi-las e traduzi-las na vida. Acredito que um tempo significativo de estudo, conhecimento, interiorização e diálogo, coração a coração, diante do Senhor, deva ser a principal tarefa confiada a cada irmão, a cada Inspetoria e Visitadoria, a cada Região e Conferência interinspetorial.
Meus caríssimos Irmãos, a promulgação desta Reflexão pós-capitular acontece em 16 de agosto de 2020, duzentos e cinco anos após nascimento de Dom Bosco e cento e sessenta e dois anos desde o início da nossa Congregação. Até hoje, o caminho da nossa Congregação e da Família Salesiana foi belíssimo. Se a nossa resposta continuar a ser fiel ao Senhor, não resta dúvida de que será muito mais o que se escreverá pelo bem dos jovens mediante a entrega quotidiana de nós mesmos, onde quer que haja um jovem que precise de Salesianos capazes de ser amigos, irmãos e pais.

A nossa Mãe Auxiliadora acompanha-nos neste caminho e, como com Dom Bosco, Ela continuará a fazer tudo. D’Ela aprendemos o que significa escutar atentamente a voz do Espírito Santo e ser dóceis a Ele; aprendemos a cultivar a profundidade da vida em Deus e a dedicação simples e convicta de todos os dias. Isto nos tornará sempre mais autênticos sinais e portadores do Amor de Deus aos jovens.

Entreguemo-nos confiantes a nossa Mãe Auxiliadora «para nos tornarmos, entre os jovens, testemunhas do amor inexaurível do seu Filho» (C. 8).

P. Ángel Fernández Artime, sdb Reitor-Mor
Roma, 16 de agosto de 2020

205º Aniversário do nascimento de Dom Bosco

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PROPOSTA PROGRAMÁTICA DO REITOR-MOR À CONGREGAÇÃO SALESIANA APÓS O CAPÍTULO-GERAL 28

Meus caríssimos Irmãos salesianos do mundo todo,

dirijo-me a todos vós com muito prazer após o Capítulo-Geral e a conclusão da primeira sessão plenária do novo Conselho-Geral. Com esta carta, que compartilhei com o Conselho-Geral, quero oferecer-vos, caros Irmãos, uma “tabela de marcha” adequada ao próximo sexênio, desde que a interrupção do Capítulo-Geral, bem no meio da sua realização, não nos permitiu ter os documentos capitulares que deveriam servir de norma e guia para os próximos seis anos.

Em nosso caso, contudo, a interrupção dos trabalhos capitulares não significa de modo algum que o Capítulo-Geral 28 tenha sido pobre de significado e nem tenha produzido uma riqueza de conteúdo. Ao contrário, os capitulares retornaram às suas Inspetorias (alguns depois de diversos meses de espera em Valdocco) enriquecidos da experiência acumulada e de um sentir salesiano nutrido e reforçado nas “fontes de Valdocco”, fontes do nosso nascimento carismático.

Não obstante a ameaça da pandemia e o risco da suspensão da Assembleia, durante a última semana, o Capítulo-Geral pôde eleger o Reitor-Mor e os membros do Conselho-Geral, e confiar-nos a tarefa de continuar a reflexão sobre os pontos que não foram enfrentados.

Esta carta e todo o conteúdo do volume intitulado “Reflexão pós-capitular” quer ser uma resposta fiel ao mandato recebido da Assembleia capitular.

Acrescente-se a isso o sentimento de profunda gratidão ao Senhor pelo que vivemos, sobretudo por tê-lo vivido em Valdocco. O nosso CG28 ficou marcado de modo especial por ter acontecido em Valdocco, berço do nosso carisma, lugar santo onde o nosso Pai Dom Bosco respondia «à vida dos jovens com um rosto e uma história».[1] Vivemos, assim, o nosso Capítulo-Geral em Valdocco com a clara consciência de que é a casa de todos. Foi o que nos recordou o Santo Padre Francisco, que desejava fazer a Dom Bosco, na pessoa dos seus filhos reunidos em Assembleia capitular, o belíssimo presente de ir encontrar-se conosco.

O Papa já me antecipara há alguns meses o seu desejo de ir pessoalmente a Valdocco. No início do Capítulo-Geral os diálogos mantidos com os responsáveis das visitas do Papa confirmaram a visita prevista para os dias 6 e 7 de março. Estava tudo preparado. Nós o esperávamos ao meio-dia de sexta-feira 6 de março. Ficaria conosco até a manhã do dia 7 e, depois, visitaria seus familiares. Infelizmente, a pandemia do coronavírus e as restrições impostas em todo o Estado italiano tornaram a visita impossível; teria sido um evento único na história, ao menos pelo tempo da presença do Santo Padre e da sua participação direta no Capítulo-Geral, como era seu desejo.

Por telefone, o Papa deixou-nos uma saudação que compartilhei com a Assembleia capitular; e no dia seguinte tivemos nas mãos a Mensagem enviada por ele ao CG28, que encontrareis no interior desta publicação.

Vivemos, desde o início do CG28, com uma forte consciência que nos levou a colocar-nos na disposição mediante a qual “o Espírito faz reviver o dom carismático do [nosso] Fundador”. Era o que o Santo Padre desejava, evocando o primeiro Oratório, ao convidar-nos a não fechar as janelas ao vozerio e aos alaridos que subiam do pátio de Valdocco. Este “rumor de fundo” deve acompanhar-nos, tornar-nos inquietos e intrépidos no nosso discernimento.

Disso nos ocuparemos nos próximos seis anos pelo bem dos jovens do mundo. Jovens que tiveram um rosto concreto e visível no esplêndido grupo que durante alguns dias viveu o Capítulo-Geral conosco, nos desafiou, nos falou com o coração e com a mente, e nos comoveu.

E como em Valdocco tudo nos fala de Dom Bosco e dos seus jovens, e como os jovens de hoje nos chamam, falam conosco e esperam por nós, propomos como Congregação algumas metas que nos porão na posição de responder à realidade atual, fazendo-nos sair dos nossos medos e das nossas “zonas de conforto”, onde quer que estejam e o que quer que sejam.

A proposta que vos envio, caros Irmãos, quer ser um programa de ação para o próximo sexênio, em absoluta continuidade com o caminho percorrido anteriormente pela Congregação e que, também por este motivo, infunde-nos força e coragem.

São vários os desafios que devemos enfrentar nos próximos seis anos. Apresento-os como fruto da reflexão feita durante o Capítulo-Geral e depois dele. E proponho-os a toda a Congregação, tendo conhecido detalhadamente nos seis anos passados a realidade que estamos a viver e, ultimamente, o caminho da Igreja. Proponho-os a todas as Inspetorias, depois de tê-los compartilhado com os membros do Conselho-Geral, porque estes desafios devem ser o espelho diante do qual cada Inspetoria do mundo é chamada a confrontar-se e devem ser os critérios para definir as finalidades, os objetivos, os processos e as ações concretas para o próximo sexênio, em todos os lugares onde o carisma dos filhos de Dom Bosco se enraizou.

Os desafios aos quais dar a nossa resposta e os objetivos a perseguir são estes:

  • SALESIANO DE DOM BOSCO PARA SEMPRE. Um sexênio para crescer na identidade salesiana
  • Numa Congregação à qual somos convidados pelo “DA MIHI ANIMAS, CETERA TOLLE”
  • A viver o “SACRAMENTO SALESIANO DA PRESENÇA”
  • A formação para ser SALESIANOS PASTORES HOJE
  • PRIORIDADE ABSOLUTA pelos jovens, os mais pobres e os mais abandonados e indefesos
  • COM OS LEIGOS NA MISSÃO E NA FORMAÇÃO. A força carismática que os leigos e a Família Salesiana nos oferecem
  • É TEMPO DE UMA MAIOR GENEROSIDADE NA CONGREGAÇÃO. Uma Congregação universal e missionária
  • Acompanhando os jovens rumo a um FUTURO SUSTENTÁVEL

 

1. SALESIANO DE DOM BOSCO PARA SEMPRE: «Frade ou não frade, eu fico com Dom Bosco» (Cagliero). UM SEXÊNIO PARA CRESCER NA IDENTIDADE SALESIANA.

 

« O Senhor nos deu Dom Bosco como pai e mestre.

Nós o estudamos e imitamos, admirando nele esplêndida harmonia de natureza e graça. Profundamente homem, rico das virtudes do seu povo, era aberto às realidades terrenas; profundamente homem de Deus, cheio dos dons do Espírito Santo, vivia “como se visse o invisível”» (C. 21).

Em minha última fala na aula capitular, durante o discurso de encerramento do CG28, referi-me a um diálogo tido com um irmão no primeiro dia. Ele pediu para conversar comigo e disse-me: «Não nos deixeis sozinhos. Precisamos de ajuda para ser verdadeiramente Salesianos, para não perder a nossa identidade».

Senti profundamente que naquele momento o Senhor nos falava também através desse nosso irmão. E fazia-nos entender a importância e a urgência de crescer e consolidar a identidade carismática na nossa Congregação.

O ponto de partida essencial e fundamental é a nossa condição de consagrados. O futuro da vida consagrada, e a vida salesiana para nós consagrados, tem a sua razão de ser no seu fundamento que é Jesus Cristo. Como consagrados, a sequela de Cristo plasma a nossa identidade integrando nela a nossa formação pastoral. Como consagrados, como Salesianos de Dom Bosco, Deus faz de nós «memória viva da forma de existir e atuar de Jesus».[2] E o desafio vocacional, para toda a vida consagrada, e para nós de modo particular como Salesianos de Dom Bosco, é a de «retornar sempre a Jesus», renunciando a tudo o que não é Ele ou que nos afasta d’Ele.

Com muita humildade e clareza de visão devemos reconhecer que a via de saída da crise da vida religiosa, da vida salesiana, das dificuldades de todas as Inspetorias, não será encontrada em novos projetos nem em planos estratégicos nem numa “programação 3.0”. Na maior parte das vezes, diante da decepção, do cansaço existencial, da falta de motivação..., trata-se de retornar a Cristo, à vida religiosa, à vida consagrada salesiana, porque podemos viver acreditando erroneamente que tudo encontra um sentido em fazer coisas. Não, caros Irmãos, sem Jesus Cristo no centro do nosso pensar, sentir, viver, sonhar, trabalhar... não há futuro, e não podemos oferecer nada de significativo. Nas palavras do Papa Francisco: «O Senhor pede tudo e, em troca, oferece a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados. Quer-nos santos e espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial e indecisa».[3]

Não esqueçamos que a missão salesiana e a mesma Congregação nasceram de Deus, suscitadas pelo seu Espírito: «Com sentimento de humilde gratidão, cremos que a Sociedade de São Francisco de Sales não nasceu de simples projeto humano, mas por iniciativa de Deus» (C. 1); e que cada um de nós, Salesianos de Dom Bosco, é enviado aos jovens pelo próprio Deus (cf. C. 15).

Depois do Capítulo-Geral 28 “especial”, creio que se espera de nós Salesianos, 162 anos após o início da nossa Congregação, que vivamos prontos e sejamos ágeis na escuta do sopro do Espírito de Deus, o Espírito Santo, para continuar a ter Jesus Cristo Senhor como fundamento e centro da nossa vida, para renovar a profecia que deve caracterizar a nossa vida e para continuar a crescer em humanidade até sermos os “especialistas em humanidade” que sabem olhar e contemplar, até deixar-se comover, pela dor e pelas necessidades dos nossos irmãos e irmãs (a começar daqueles das nossas comunidades), dos adolescentes, dos jovens e das jovens e suas famílias. Devemos assumir com seriedade o nosso serviço profético. A nossa contribuição específica é sermos ícones do estilo de vida de Jesus, totalmente consagrado ao Pai e ao Seu projeto para a humanidade: o Reino. Por isso, espera-se de nós que sejamos sinais e testemunhas da presença paterna de Deus – que é uma presença afetuosa, capaz de um olhar de ternura e com os braços abertos, alargados sobretudo aos mais pobres, aos nossos jovens –, fazendo ser realidade a nossa fraternidade, tornando-a atraente, fascinante, e vivendo com simplicidade e sobriedade.

O Senhor ressuscitado convidava os seus discípulos a voltarem à Galileia para encontrá-Lo e revê-Lo. Esse convite é extremamente atual para nós e, expressando-me em chave salesiana, gostaria de dizer que hoje a nossa Galileia, para o encontro com o Senhor, como Salesianos de Dom Bosco, passa por Valdocco, pelos inícios de Valdocco, também frágeis, mas com a força e a paixão da frase que o jovem João Cagliero expressou com tanto ardor e entusiasmo juvenil: «frade ou não frade, eu fico com Dom Bosco». Valdocco é, de fato, a atmosfera espiritual e apostólica em que cada um de nós respira o ar do Espírito, onde alimentamos e reforçamos a nossa identidade carismática. É o lugar da “transfiguração” para cada Salesiano que, dando atenção a todos os elementos da nossa espiritualidade, poderá contribuir para tornar cada uma das nossas casas um autêntico Valdocco, onde seja possível encontrar, face a face, na vida quotidiana, o nosso Senhor Jesus Cristo.

Jesus passa, olha para nós com amor e chama-nos a segui-Lo. E no mistério desse chamado, nesse olhar que não nos julga, mas nos sonda por dentro e nos olha, na aventura de caminhar nas suas pegadas, todos nós podemos descobrir o projeto que Deus concebeu para cada um de forma original. Hoje, muitos dos que decidem abandonar a Congregação sofrem de uma mesma coisa: não ter entrado em contato com o Senhor Jesus e não ter tido a mesma paixão do jovem Cagliero de ficar com Dom Bosco para seguir Jesus. Eis porque, às vezes, qualquer outra oferta pastoral que tenha indícios de autonomia, de autogestão, de independência, de gestão de si e dos seus recursos econômicos, exerce em alguns irmãos um fascínio suficiente que os leva a pedir para ir a outros lugares. Precisamos reconhecer honestamente que é esse o caso. Às vezes, o dom do ministério presbiteral também não é compreendido plenamente e é instrumentalizado e vivido como “poder”. Isso ofusca a aliança que Deus estabeleceu conosco com o dom da consagração religiosa que está no centro da nossa vida pessoal e comunitária.

PROPOSTA

Este sexênio deverá distinguir-se na Congregação por um profundo trabalho de crescimento na profundidade carismática, na identidade salesiana, em todas as fases da vida, com um empenho sério em todas as Inspetorias e em cada comunidade salesiana, para chegar a dizer como Dom Bosco: «Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens».[4]

Por essa razão:

  • Em todas as etapas da formação, com a profundidade que lhe corresponde, daremos atenção como urgência e necessidade imprescindíveis os elementos que dão identidade carismática a cada Salesiano e que nos fazem enamorar-nos de Dom Bosco e dos jovens com o coração de Jesus Bom Pastor.
  • Daremos prioridade às características da nossa identidade carismática de pessoas consagradas que fazem de nós sinais proféticos: uma vida feliz com raízes no Evangelho, uma fé viva ancorada em Deus; uma comunhão que torna atraente a vida comunitária, uma atitude profética diante da injustiça e do mal e um olhar de esperança com o desejo de conversão.
  • Será necessário, nas Inspetorias, um atento discernimento em relação às obediências dadas aos irmãos, para não correr o risco de se perder o sentido autêntico e a paixão do coração salesiano e não cair em formas de genericismo carismático ou orientar-se para realidades pastorais diocesanas que levam ao afastamento da Congregação.
  • Como Congregação, continuemos a ter muita atenção para não contrairmos o “vírus do clericalismo e do carreirismo».[5]
  • Em cada comunidade, na reflexão e na partilha, valorizemos a primeira parte do documento «Animação e governo da comunidade. O serviço do diretor salesiano», que apresenta a “identidade consagrada salesiana”.

 

2. Numa Congregação em que é URGENTE o “DA MIHI ANIMAS COETERA TOLLE”

 

«Com sentimento de humilde gratidão, cremos que a Sociedade de São Francisco de Sales não nasceu de simples projeto humano, mas por iniciativa de Deus. Para colaborar na salvação da juventude, “a porção mais delicada e preciosa da sociedade humana”, o Espírito Santo, com a maternal intervenção de Maria, suscitou São João Bosco.

Formou nele um coração de pai e mestre, capaz de doação total: “Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens» (C.1).

Os testemunhos dos primeiros tempos da nossa história congregacional e a reflexão que a Congregação desenvolveu ao longo dos anos, evidenciam um fato muito significativo: a expressão que mais bem exprime o zelo e a caridade pastoral dos Salesianos de Dom Bosco é “Da mihi animas, coetera tolle”.

O menino, Domingos Sávio, que, na presença do jovem sacerdote de 34 anos, que era Dom Bosco, viu essa frase escrita no ingresso do seu escritório, compreendeu-a perfeitamente: «Compreendi: aqui não se trata de dinheiro, mas de almas».[6] Contemplando Dom Bosco, compreendemos a sua profunda espiritualidade e as qualidades especiais de educador que marcaram o seu modo de relacionar-se com os adolescentes e os jovens. Em Dom Bosco e na sua história encontramos a base da nossa ação educativo-pastoral, que se caracteriza por uma proposta de vida cristã muito concreta; pela atenção diante de cada jovem, com o interesse de oferecer respostas concretas às suas exigências; pela confiança na presença de Deus.

A nossa missão, sobretudo no acompanhamento dos jovens, deve caracterizar-se pela capacidade pedagógica e espiritual criativa típica do nosso Pai Dom Bosco, com que podemos superar as distâncias em relação à sensibilidade das novas gerações, oferecendo-lhes uma escuta amável e uma compreensão misericordiosa, suscitando os grandes questionamentos sobre o mistério da vida e ajudando-os a buscar o Senhor e encontrar-se com Ele.

O Capítulo-Geral 26 enfrentava precisamente isso tudo ao refletir sobre o lema de Dom Bosco: “Da mihi animas, coetera tolle”. Pois bem, com a visão de hoje e com o conhecimento da nossa realidade, creio que posso dizer: é necessário e urgente para nós que a nossa Congregação viva, respire e caminhe procurando fazer do “Da mihi animas, coetera tolle” uma realidade no anúncio do Evangelho, para vantagem dos nossos jovens e para o nosso próprio bem.

A nossa missão coloca-nos com frequência na fronteira, onde entramos habitualmente em contato com cristãos de outras confissões, com membros de outras religiões, com não crentes ou crentes afastados: também com eles e para eles queremos realizar a missão. Todos os tempos e todos os lugares são adequados ao Evangelho.

Meus caros Irmãos, agora, após o CG28:

  • É urgente dar prioridade absoluta ao empenho pela evangelização dos jovens com propostas conscientes, intencionais e explícitas. Somos convidados a levá-los a conhecer Jesus e a Boa Nova do Evangelho para suas vidas.
  • É urgente ajudar os jovens (e suas famílias) a descobrirem a presença de Cristo em suas vidas como chave para a felicidade e o significado da existência.
  • É urgente acompanhar as crianças, os adolescentes e os jovens em seu processo de educação à fé, para poderem aderir pessoalmente à pessoa de Cristo.
  • É urgente ser “verdadeiros educadores” que, por experiência pessoal, acompanham o jovem no diálogo com Deus na oração e na celebração dos sacramentos.

Sem isso, caros Irmãos, outros esforços titânicos da Congregação tenderão à benignidade da promoção humana e à assistência social – que sempre são muito necessárias e pertencem à nossa identidade carismática – mas não nos levarão à primeira razão pela qual o Espírito Santo suscitou o carisma salesiano em Dom Bosco: «Fiéis aos compromissos que Dom Bosco nos transmitiu, somos evangelizadores dos jovens» (C. 6). A primeira finalidade da nossa pastoral juvenil é a conversão das pessoas ao Evangelho de Jesus Cristo.

Com todas as tonalidades da sensibilidade histórica, que queremos ter presentes, e a compreensão linguística da época, que acreditamos ser necessária, não podemos prescindir do elemento essencial e constitutivo que caracterizou a ação educativo-pastoral de Dom Bosco, como foi expressada pelo Reitor-Mor P. Vecchi: «A pedagogia de Dom Bosco é uma pedagogia da alma, da graça, do sobrenatural. Quando se chega a ativar essa energia, começa o trabalho mais profícuo da educação. O outro, válido em si, é propedêutico e concomitante a ele, que o transcende».[7]

O “coetera tolle” faz com que vivamos disponíveis a deixar tudo que nos impede de ir ao encontro de quem mais precisa de nós. É a ascese que emana da opção precedente, renunciando a muitas coisas (gostos pessoais, preferências e até mesmo atividades e serviços legítimos), ao que não nos permite dedicar todas as energias do coração pastoral àquilo a que damos prioridade.

PROPOSTA

  • Por isso, proponho à nossa Congregação para o próximo sexênio que sejamos exigentes conosco mesmos ao responder à «URGÊNCIA DE REPROPOR O PRIMEIRO ANÚNCIO COM MAIS CONVICÇÃO porque “nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio” (ChV, 214)».[8]

Por essa razão:

  • O Reitor-Mor e seu Conselho, com todas as Inspetorias, estão empenhados neste sexênio em tomar as decisões oportunas para qualificar a presença salesiana na evangelização e na educação à fé. Trata-se de uma autêntica conversão pastoral, pessoal e comunitária, a que somos chamados.
  • Promoveremos uma pastoral juvenil que acompanhe os jovens em vista do seu amadurecimento pessoal, do crescimento na fé e tenha como princípio unificador a dimensão vocacional (DF 140, ChV 254).[9]
  • Continuaremos a empenhar-nos em todos os níveis da nossa Congregação para realizar «uma mudança de mentalidade diante da missão a realizar» (Papa Francisco ao CG28).[10]
  • Daremos a conhecer e faremos estimar como coluna fundamental da nossa obra de evangelização e educação o que foi essencial para Dom Bosco e para muitas gerações de Salesianos: a belíssima presença da nossa Mãe Auxiliadora nas nossas propostas educativas e na oração com os jovens.

 

3. VIVER O “SACRAMENTO SALESIANO” DA PRESENÇA

 

«Nossa vocação é marcada por um dom especial de Deus, a predileção pelos jovens: “Basta que sejais jovens para que eu vos queira muito”. Esse amor, expressão da caridade pastoral, dá sentido a toda a nossa vida.

Pelo bem deles oferecemos generosamente tempo, dotes pessoais e saúde: “Por vós estudo, por vós trabalho, por vós eu vivo, por vós estou disposto até a dar a vida”» (C. 14)

O Papa Francisco, em sua Mensagem ao Capítulo, falou-nos de “opção Valdocco e carisma da presença”, carisma que me permito qualificar livremente como “sacramento salesiano” da presença. O Papa escreve que «antes ainda de o que fazer, o Salesiano é memória viva de uma presença em que a disponibilidade, a escuta, a alegria e a dedicação são as notas essenciais para suscitar processos. A gratuidade da presença salva a Congregação de todas as obsessões ativistas e de todos os reducionismos técnico-funcionais. O primeiro chamamento é ser uma presença alegre e gratuita entre os jovens». O nosso ser discípulos do Senhor, o nosso modo autêntico e profundo de ser apóstolos dos jovens passa antes de tudo pelo nosso viver entre o povo e, de modo especial, entre os jovens e as jovens.

O que foi dito de modo coloquial não pode ser expresso de maneira melhor. Trata-se, caros Irmãos, de recuperar o primeiro amor vocacional, aquele que todos nós experimentamos quando sentimos que o Senhor nos chamava a ser presença alegre e gratuita entre os jovens. Ouso dizer que não existe um só Salesiano que, de uma maneira ou de outra, não tenha sentido isso no seu coração.

Refletimos sobre esse aspecto durante o CG28. Tomamos ciência de que muitos jovens vivem numa verdadeira situação de orfandade mesmo tendo os pais. Os próprios jovens nos disseram em sua mensagem ao CG28: «Temos medo, vivemos confusos, frustrados, e temos grande necessidade de ser amados... Um resultado do nosso temor é a dificuldade que sentimos diante do comprometimento... Acreditamos que a nossa sociedade é individualista e que, muitas vezes, também nós somos individualistas... queremos ser capazes de retornar ao primeiro amor que é Cristo, àquele ser companheiro e amigo dos jovens que é próprio dele. Temos um desejo intenso de realização espiritual e pessoal. Queremos caminhar no crescimento espiritual e pessoal e queremos fazê-lo convosco, Salesianos».[11]

Não ponhamos em dúvida essa verdade dos próprios jovens, que também reconhecemos na aula capitular: «Pedem-nos tempo e nós lhes damos espaço; pedem-nos relação e nós lhes prestamos serviços; pedem-nos vida fraterna e nós lhes oferecemos estruturas; pedem-nos amizade e nós lhes proporcionamos atividades. Tudo isso nos empenha a redescobrir as riquezas e as potencialidades do “espírito de família”».[12]

Os próprios jovens que nos acompanharam durante o Capítulo-Geral dirigiram-nos um forte apelo a sermos uma presença significativa para eles. Disseram-nos explicitamente: «Temos um desejo intenso de realização espiritual e pessoal. Queremos caminhar no crescimento espiritual e pessoal e queremos fazê-lo convosco, Salesianos... Gostaríamos que fosseis aqueles que nos orientam, no interior da nossa realidade, com amor... Salesianos, não vos esqueçais de nós jovens porque nós não nos esquecemos de vós e do Carisma que nos ensinastes! Queremos vos dizer com força, de todo o coração: estar aqui foi para nós um sonho que se tornou realidade, neste lugar especial que é Valdocco, onde a missão salesiana começou, com Salesianos e jovens para a missão salesiana, com a nossa vontade comum de juntos sermos santos. Tendes os nossos corações em vossas mãos. Cuidai desse vosso tesouro precioso. Por favor, jamais vos esqueçais de nós e continuai a escutar-nos».[13]

Caros Irmãos, é um grande privilégio sentir a pulsação de vida do coração dos jovens! E não tenho nenhuma dúvida de que, em toda a Congregação, somos muitos os irmãos que vivem hoje para os jovens como verdadeiros Dom Bosco. Todavia não me satisfaço com isso. Todos nós precisamos sê-lo. Devemos continuar no caminho da conversão. Esse empenho exige de nós uma mudança de mentalidade e de ritmos de vida, abertura de mente e de coração, superação de hábitos enraizados e cristalizados. Os jovens dizem que nos amam, que precisam de nós, que nos esperam. A expressão de Dom Bosco «procura fazer-te amar» é plenamente atual hoje. Estar presente não consiste unicamente em passar algum tempo com os jovens como grupo, mas em encontrá-los individualmente, de modo pessoal, para criar uma relação que permita conhecer e escutar os seus desejos, as suas dificuldades e cansaços e, às vezes os seus medos e os seus temores. É uma relação que quer ir além do conhecimento superficial, oferecendo uma amizade caracterizada pela confiança mútua e a partilha recíproca. A amorevolezza ou a bondade tornou-se assim forma substancial da caridade de Dom Bosco. Ele pede-nos hoje, como na carta de Roma de 1884, a capacidade de encontrar-nos, a disponibilidade à acolhida, a familiaridade. Como Dom Bosco, precisamos cultivar também a arte de dar o primeiro passo, eliminando distâncias e barreiras e fazendo nascer a alegria e o desejo de encontrar-se, de ser amigo. Esta arte consiste em criar, com paciência e dedicação, uma atmosfera rica de humanidade, um clima familiar em que adolescentes e jovens se sintam muito livres e capazes de se exprimirem e serem eles mesmos, assimilando com alegria os valores que lhe são propostos. Esta pedagogia do espírito de família é também uma escola de fé para os jovens. Oferecemos amor e acolhida incondicionada, para que possam descobrir progressivamente a partir da opção de liberdade pessoal, a confiança e o diálogo, assim como a celebração e a experiência comunitária da fé.

E não esqueçamos que a presença salesiana é uma presença especial, que leva o Salesiano a tratar os jovens com profundo respeito, encontrando-os no seu nível de liberdade e tratando-os como sujeitos ativos e responsáveis da comunidade educativo-pastoral. Por isso, o Salesiano aprende o estilo de escuta, diálogo e discernimento pessoal e comunitário. E isso vale não só na pastoral entre os jovens, mas também nas nossas casas de formação, onde “se aprende a ser Salesiano”.

Esta modalidade de presença, porém, não é possível se se vive distante dos jovens: distantes deles fisicamente e distantes da sua psicologia e do seu mundo cultural. Esse é o perigo. A alternativa adequada é viver como Salesianos, como filhos de Dom Bosco, a mesma experiência de paternidade que ele viveu com seus meninos, traduzida num verdadeiro amor e, ao mesmo tempo, numa “admiração” real em relação aos próprios jovens. A partir do grande valor que tem para nós a presença entre os jovens. Lemos na Mensagem do Papa ao CG28: «A vossa consagração é, antes de mais, sinal de um amor gratuito do Senhor e ao Senhor nos seus jovens, que não se define principalmente como um ministério, uma função ou um serviço particular, mas através de uma presença. Antes ainda de o que fazer, o Salesiano é memória viva de uma presença em que a disponibilidade, a escuta, a alegria e a dedicação são as notas essenciais para suscitar processos. A gratuidade da presença salva a Congregação de todas as obsessões ativistas e de todos os reducionismos técnico-funcionais. O primeiro chamamento é ser uma presença alegre e gratuita entre os jovens».

Permito-me recordar que a presença toca hoje também o mundo digital, um novo verdadeiro areópago para nós, um habitat dos jovens de hoje. Também aqui, devemos estar presentes, com uma clara identidade salesiana, com o desejo de levar o anúncio da boa-nova, e simplesmente com a alegria e a sensibilidade dos discípulos do Senhor.[14]

PROPOSTA

Proponho para este sexênio, como expressão da nossa CONVERSÃO, o que já fora pedido pelo CG26, ou seja: «todo Salesiano encontre tempo para estar no meio dos jovens como amigo, educador e testemunha de Deus, qualquer que seja o seu papel na Comunidade».[15]

Embora possa parecer estranho pedir a um Salesiano que encontre tempo para estar no meio dos jovens, acredito-o muitíssimo necessário.

Por essa razão proponho

  • Promover uma presença eficaz e afetiva entre e com os jovens, em comunhão de vida e de ação. Valorizar e relançar a bela experiência e a renovada figura do assistente, não só para os tirocinantes, mas para a vida inteira do Salesiano de Dom Bosco.
  • Dar atenção, em todas as presenças, ao estilo do ambiente oratoriano: a atmosfera familiar, a acolhida, a espiritualidade e a dimensão da alegria profunda.
  • Acompanhar o dinamismo dos jovens promovendo o seu protagonismo e liderança em todas as casas e na missão salesiana que ali se realiza.
  • Assegurar a presença dos formadores nas comunidades de formação, onde se comunica o espírito salesiano antes de tudo com o exemplo: estar entre eles, ajudando intensamente os jovens irmãos a serem os primeiros responsáveis da própria formação.
  • Empenhar o Dicastério para a Comunicação Social, nos vários níveis, na oferta de instrumentos e estímulos para um processo constante de revisão, atualização, inculturação da missão salesiana no habitat digital, onde os jovens vivem, envolvendo as nossas universidades, em rede com os demais centros e agências que mais de perto acompanham e estudam as transformações que o mundo digital está trazendo às novas gerações.

 

4. A FORMAÇÃO PARA SER SALESIANOS PASTORES HOJE

 

«Iluminado pela pessoa de Cristo e pelo seu Evangelho, vivido segundo o espírito de Dom Bosco, o Salesiano se empenha num processo formativo que dura toda a vida e lhe respeita os ritmos de amadurecimento. Faz experiência dos valores da vocação salesiana nos diversos momentos de sua existência e aceita a ascese que esse caminho implica.

Com a ajuda de Maria, Mãe e Mestra, tende a tornar-se educador-pastor dos jovens na forma laical ou sacerdotal que lhe é própria» (C. 98).

A formação é realmente uma dádiva preciosa do Senhor, que faz amadurecer em nós, como Salesianos de Dom Bosco, o dom inestimável do chamado do Pai à vocação cristã e consagrada. Apesar de a realidade numérica das vocações não ser homogênea no mundo todo, a Congregação é abençoada todos os anos com o ingresso de cerca de 450 noviços. Agradeçamos a Deus porque, como dizem as nossas Constituições, cada vocação manifesta o quanto o Senhor ama a Igreja e a nossa Congregação (cf. C. 22).

Entretanto, a Assembleia capitular também reconheceu algumas nossas fragilidades e assim se exprimiu: «Notamos que, às vezes, a identidade consagrada salesiana parece frágil e pouco enraizada: o primado de Deus na vida pessoal e comunitária nem sempre emerge com clareza; algumas formas de clericalismo e de secularismo correm o risco de fazer entrar na Congregação a “mundanidade espiritual”; a promoção do Salesiano leigo em algumas Regiões é escassa; a falta de pessoal preparado no âmbito da salesianidade, não obstante a grande quantidade de material à disposição, é sinal de insuficiente atenção ao aprofundamento do carisma».[16] Este âmbito emergiu, realmente, de modo muito forte durante os trabalhos do nosso Capítulo Geral 28.

Ousaria dizer que se isso acontece em todas as congregações religiosas e também na formação dos seminários diocesanos, a distância abissal que se percebe entre a formação e a missão salesiana, sem dúvida, é para nós um grande desafio. Talvez essa distância se deva à grande diferença existente entre a realidade das casas de formação inicial e a vida nas comunidades apostólicas (as comunidades ordinárias de todas as Inspetorias); talvez o fenômeno dependa também do fato de a formação nem sempre conseguir chegar ao coração do jovem Salesiano em formação; talvez no currículo formativo sejam transmitidos conhecimentos e informações que não conseguem tocar a vida e a missão salesiana. O crescimento é um processo lento de unificação da pessoa, que põe em relação experiências de vida, necessidades existenciais, conhecimentos, missão, relações, vocação, projeto de vida... Nesse processo de unificação nós nos formamos para ser educadores e pastores num mundo novo e numa missão renovada. Qualquer que seja a razão dos limites formativos que constatamos, vemo-nos diante de um grande desafio, que a Congregação evidenciou e devemos enfrentar com decisão no sexênio.

Por outro lado, não podemos negar a existência do perigoso convencimento de que a formação termina quando terminam as fases iniciais, e, no caso dos candidatos ao sacerdócio, quando se chega ao ministério. Essa ideia errada faz-nos muito mal e leva-nos a pagar preços elevados no ministério pastoral. Trata-se, pois, de entender a formação como um processo de transformação pessoal que dura a vida inteira, embora seja caracterizada por uma intensidade especial e com atenções específicas nas primeiras etapas. Em última análise, a formação é o caminho necessário para construir e conservar a nossa vocação.

Com frequência não sabemos transformar a vida pastoral quotidiana numa oportunidade permanente para a nossa formação e, por isso, «a comunidade, tanto religiosa como educativo-pastoral, não consegue ser o ambiente natural em que somos formados».[17] Estamos cientes de algumas possíveis fragilidades pastorais: superficialidade, improvisação, ativismo. O perigo do individualismo não é menos importante. Tudo isso requer humildade, lucidez, autenticidade e um novo impulso na compreensão comunitária da nossa vida e da nossa missão.

Como se disse no Capítulo-Geral, a formação inicial é uma realidade poliédrica, positiva e prometedora. Diante dessa situação, a formação dos formadores, isto é, dos irmãos que acompanham com uma «vocação particular no interior da própria vocação» a formação dos jovens Salesianos, e a criação de boas equipes de pessoas que possam acompanhar as etapas da formação, são uma verdadeira urgência e uma verdadeira prioridade, desde que a comunidade é o primeiro lugar de formação.

Deveremos falar, talvez, da necessidade de assumir um novo estilo de formação? Em sua mensagem ao Capítulo-Geral, o Papa Francisco diz-nos sobre isso: «pensar na figura do Salesiano para os jovens de hoje implica aceitar que estamos imersos num momento de mudanças».[18] É preciso, então, renovar o nosso estilo formativo a ser pensado sempre mais de forma personalizante, holística, relacional, contextual e intercultural.[19] Precisamos continuar a dar novos passos para organizar e viver realmente a formação no horizonte da vocação e, portanto, bem longe de ser entendida, como às vezes se pretende fazer, apenas como uma obrigação que dura poucos anos e deve ser necessariamente superada para se chegar à “vida real”, à vida concreta, aquela que se buscava. Trata-se de um conceito formativo perigoso esse que opõe a vida real à formação do Salesiano educador e pastor!

A formação, enfim, é um verdadeiro e próprio trabalho artesanal, tanto da parte de quem acompanha os irmãos, como da parte de cada um no próprio processo formativo. Nesse campo, hoje, não há espaço para a “produção em série”. O artesanato fala de obras de arte únicas, feitas à mão, uma a uma. Falando desse trabalho artesanal, não podemos preterir a figura da mulher nos ambientes educativos salesianos. De fato, «a presença da mulher em muitas de nossas obras é um dado de fato, seja no que diz respeito aos destinatários como aos corresponsáveis da educação».[20] Nesse sentido, o Papa Francisco dirigiu-nos um forte apelo em sua Mensagem dizendo: «Que seria de Valdocco sem a presença de Mamãe Margarida? Teriam sido possíveis as vossas casas sem esta mulher de fé? [...] Sem uma presença real, efetiva e afetiva das mulheres, às vossas obras faltaria coragem e capacidade para declinar a presença como hospitalidade, como casa. Diante do rigor que exclui, é preciso aprender a gerar nova vida do Evangelho. Convido-vos a levar por diante dinâmicas nas quais a voz da mulher, a sua visão e o seu agir – apreciado na sua singularidade – encontrem eco ao serem tomadas decisões; como um ator não auxiliar, mas constitutivo das vossas presenças».

Um renovado estilo e modelo de formação, também com a forte ênfase dada pelo Papa Francisco, não será possível esquecendo-se do único e mais importante protagonista, que não é nem o formador nem o formando, mas o Espírito Santo, o Espírito de Deus a quem cada um de nós deve ser dócil. Por isso, as nossas Constituições recordam-nos que «cada Salesiano assume a responsabilidade pela própria formação» (C. 99). Permito-me acrescentar que cada irmão deve fazer com que o Espírito Santo transforme o seu coração ao longo da vida e nos seus diversos momentos.

O itinerário formativo vivido dessa forma permitirá consolidarmos na Congregação o que afirmei nas páginas precedentes: o “Da mihi animas” deve ser o motor da paixão educativa e evangelizadora, e também a “energia” de todo o processo formativo.

Realmente, a natureza apostólica do nosso carisma qualifica de modo determinante a nossa formação. Como nos recorda o Papa Francisco em sua Mensagem, «é importante dizer que não somos formados para a missão, mas que somos formados na missão, a partir da qual se articula toda a nossa vida, com as suas escolhas e as suas prioridades. A formação inicial e a permanente não podem ser uma instância prévia, paralela ou separada da identidade e da sensibilidade do discípulo».

É evidente que temos diante de nós um dos núcleos essenciais do caminho da Congregação para os próximos seis anos: cuidar da vocação de cada irmão em particular, e dos jovens irmãos em formação, de tal modo que todos nós consigamos ser os Salesianos de Dom Bosco de que os nossos adolescentes, os nossos jovens e suas famílias precisam hoje.

PROPOSTA

Empenhemo-nos em superar a distância entre formação e missão, favorecendo na Congregação uma renovada cultura da formação na missão para estes dias em todo o mundo salesiano com medidas e decisões de grande significatividade.

Por essa razão:

  • Promovamos um esforço renovado para o acompanhamento formativo dos irmãos, que possa tocar o coração e fazer com que vivamos disponíveis para uma verdadeira e radical entrega de nós mesmos. Para tanto valorizemos o subsídio “Jovens Salesianos e acompanhamento. Orientações e diretrizes”; nele se reafirma que o nosso modelo de formação só pode ser o Sistema Preventivo.
  • As comunidades de formação inicial mantenham um estilo de vida sóbrio e caracterizado pela profundidade espiritual e grande capacidade de serviço e trabalho, que preserve do aburguesamento e forme para as exigências da missão. Garanta-se o acompanhamento pastoral como estratégia para a formação para a missão e na missão.
  • Invistamos energias na busca e na formação dos formadores e enfrentemos com coragem o repensamento das referências institucionais e das estruturas formativas.
  • O Setor da formação fará um sério e exigente trabalho de atualização da Ratio, potencializando o que favorece a integração entre formação e missão e impede a formação do distanciamento entre as duas dimensões. O Setor garantirá processos de verdadeiro amadurecimento e personalização e de acompanhamento.

 

5. PRIORIDADE ABSOLUTA PELOS JOVENS, OS POBRES E OS MAIS ABANDONADOS E INDEFESOS

 

«O Senhor indicou a Dom Bosco os jovens, especialmente os mais pobres, como primeiros e principais destinatários da sua missão.

Chamados à mesma missão, tomamos consciência da sua extrema importância: os jovens vivem uma idade em que fazem opções fundamentais de vida que preparam o futuro da sociedade e da Igreja.

Com Dom Bosco reafirmamos a preferência pela “juventude pobre, abandonada, em perigo”, que tem maior necessidade de ser amada e evangelizada, e trabalhamos especialmente nos lugares de mais grave pobreza» (C. 26)

Quero começar a desenvolver esta prioridade a partir das poucas frases que pude dedicar a este tema na minha última intervenção na Aula Capitular, antes da conclusão antecipada do nosso CG28. Posso garantir-vos, caros Irmãos, que eram poucas as palavras, mas forte e grande a convicção.

Eu disse: «Sonho que dizer hoje “Salesiano de Dom Bosco” signifique para as pessoas que ouvem o nosso nome, que somos consagrados um pouco “loucos”, ou seja, loucos por amarem os jovens, sobretudo os mais pobres.

Caros Irmãos, se nos afastássemos dos mais pobres, seria a morte da Congregação. No-lo dizia Dom Bosco, quando falava da nossa pobreza e do perigo da riqueza. Permiti-me ser ainda mais direto: se nós um dia tivéssemos que abandonar os adolescentes, os jovens, e entre eles os mais pobres, a nossa Congregação começaria a morrer. Uma Congregação que, graças a Deus, goza hoje de boa saúde, para além das nossas fragilidades!

Prestemos atenção então àquela que considero uma autêntica “deliberação capitular”, embora não no sentido próprio da expressão, desde que o seu conteúdo está nas nossas Constituições. Trata-se de pedir-nos uma opção radical, preferencial, pessoal, institucional e estrutural em favor dos jovens mais necessitados, pobres e excluídos. Uma opção que deve manifestar-se, de modo especial, na defesa dos adolescentes, das adolescentes e dos jovens explorados e vítimas de toda forma de abuso: da exploração sexual a toda forma de abuso; do abuso causado por todo tipo de violência; do abuso da injustiça manifesta e evidente a todo abuso de poder. Creio que este desafio é um grande empenho que todo Salesiano deve trazer no coração. Um período de seis anos guiado por esta luz nos dará muita vida».

Estou convencido de que assumir esta perspectiva como irrenunciável, será muito significativo em toda a Congregação e em todos os contextos, culturas e continentes. Hoje, existem muitas pobrezas juvenis que exigem da família humana, e sem dúvida de nós Salesianos de modo particular, uma urgente atenção. De fato, a história da nossa Congregação é marcada pelos apelos para ir ao encontro dos jovens mais pobres. «Como filhos de Dom Bosco, assumimos um compromisso histórico de servir os jovens pobres».[21]

O nosso próprio Pai Dom Bosco disse-nos: «Seremos vistos e acolhidos por todos com simpatia, desde que as nossas preocupações e os nossos pedidos sejam voltados para os filhos dos pobres, aqueles de maior risco da sociedade. Esta deve ser para nós a maior satisfação que ninguém nos pode tirar».[22]

Há muitos anos, o CG XIX declarava: «Hoje, mais do que nunca, Dom Bosco e a Igreja nos enviam para trabalhar entre os pobres, os menos afortunados e o povo».[23] O CG XX também falou da prioridade absoluta dos “jovens” e, dentre eles, os “pobres e abandonados” quando pediu que fossem os destinatários concretos da nossa missão.[24]

Nós mesmos dissemos em nosso recente Capítulo que somos consagrados a Deus para os jovens mais pobres. Como Dom Bosco, também nós prometemos na nossa Profissão religiosa oferecer-nos a Deus comprometendo todas as nossas forças a serviço dos jovens, especialmente os mais pobres; por isso, devemos «escutar juntos o apelo que Deus nos dirige nas pobrezas juvenis. Também requer, portanto, profundidade espiritual, para não cair no ativismo ou numa mentalidade empresarial; preparação cultural, para compreender os fenômenos em que estamos imersos e as novas pobrezas juvenis; disponibilidade para trabalhar em conjunto, abandonando todo individualismo pastoral; flexibilidade para repensar o nosso estilo de vida e as nossas obras, sobretudo quando elas não exprimem mais a energia missionária do carisma e respondem prevalentemente a lógicas de manutenção».[25]

Enfim, o apelo que dirijo a todos é de realmente contemplar o rosto dos nossos adolescentes e dos nossos jovens até conhecer as suas histórias de vida, que frequentemente são atravessadas por verdadeiras e próprias tragédias. Se isso acontecer é porque realmente amamos os jovens e isso nos causará sofrimento e dor por eles. O Papa Francisco ao falar da opção Valdocco e do dom da juventude disse-nos algo de precioso, que não me deixou indiferentes. Escreve: «O Oratório salesiano e tudo aquilo que nasce a partir dele, como narra a Biografia do Oratório, nasce como resposta à vida dos jovens com um rosto e uma história, que colocam em movimento aquele jovem sacerdote incapaz de permanecer neutral e imóvel diante daquilo que acontecia. Foi muito mais do que um gesto de boa vontade (...). Penso nisso como um ato de conversão permanente e de resposta ao Senhor que, “cansado de bater” às nossas portas, espera que o procuremos e o encontremos... Ou o deixemos sair, quando bate de dentro. Conversão que implica (e complica) toda a sua vida e a vida daqueles que estavam à sua volta. Dom Bosco não só não escolhe separar-se do mundo para procurar a santidade, mas deixa-se interpelar e escolhe como e que mundo habitar».[26]

PROPOSTA

A Congregação, durante o sexênio, em todas as Inspetorias, faz a opção radical, preferencial, pessoal – ou seja, de cada Salesiano – e institucional em favor dos mais necessitados, dos adolescentes, das adolescentes e dos jovens pobres e excluídos, com atenção especial à defesa daqueles que são explorados e vítimas de todo abuso e violência (“abuso de poder, econômico, de consciência, sexual”[27]).

Por essa razão:

  • Em todas as presenças salesianas no mundo e em todas as Inspetorias, devem ser tomadas as decisões necessárias para que as crianças e os jovens mais pobres, nos lugares onde estamos presentes, jamais sejam excluídos de nenhuma casa salesiana, qualquer que seja o sacrifício a fazer. Pensar, decidir, criar modos para tornar essa opção possível (como sempre fez o nosso Pai Dom Bosco).
  • Em todas as Inspetorias e casas salesianas haverá um código de conduta para o cuidado, a prevenção e a defesa dos menores a nós confiados, com o compromisso de protegê-los de todo tipo de abuso, venha de onde vier. Para nós, os adolescentes, as adolescentes e os jovens são sacros em nome de Deus.
  • Em nível mundial, inspetorial e local, empenhemo-nos com a promoção das várias redes, ações e boas práticas que se referem à nossa ação e à nossa presença entre os adolescentes, as adolescentes e os jovens mais pobres, em especial também entre os refugiados e imigrados. As organizações salesianas como DBnetwork, DBGA e RASS devem contribuir para garantir a tutela dos menores e caminhar em sempre maior comunhão com o Dicastério (Setor) da Pastoral Juvenil da Congregação.

 

6. COM OS LEIGOS NA MISSÃO E NA FORMAÇÃO

 

«Realizamos em nossas obras a comunidade educativa e pastoral. Ela envolve, em clima de família, jovens e adultos, pais e educadores, até poder tornar-se uma experiência de Igreja, reveladora do plano de Deus.

Nessa comunidade, os leigos, associados ao nosso trabalho, dão a contribuição original de sua experiência e modelo de vida.

Acolhemos e despertamos a sua colaboração e oferecemos a possibilidade de conhecer e aprofundar o espírito salesiano e a prática do Sistema Preventivo.

Favorecemos o crescimento espiritual de cada um e propomos, a quem se sente chamado, que participe de maneira mais estreita da nossa missão na Família Salesiana» (C.47).

Este artigo das nossas Constituições contém os elementos mais essenciais da nossa missão compartilhada com os leigos. Com essa visão, devemos confrontar-nos e examinar até que ponto o caminho da Congregação, de cada Inspetoria e de cada Irmão vai nessa direção, que exprime bem a nossa identidade carismática. Empenhemo-nos na formação dos leigos que participam conosco da missão, garantindo o seu crescimento pessoal, o seu itinerário de fé e a sua identificação vital com o espírito salesiano. Também devemos oferecer os meios que lhes permitam realizar as tarefas que lhes são confiadas. «A (re)descoberta da vocação e da missão dos leigos é uma das grandes fronteiras da renovação proposta pelo Concílio Vaticano II e refletido no Magistério sucessivo».[28] O nosso CG24 foi certamente uma resposta carismática à eclesiologia de comunhão do Vaticano II. Bem sabemos que Dom Bosco, desde o início da sua missão em Valdocco, envolveu muitos leigos, amigos e colaboradores para participarem da sua missão entre os jovens. Logo no início «suscita participação e corresponsabilidade de eclesiásticos, leigos, homens e mulheres».[29] Trata-se, pois, não obstante as nossas resistências, de um ponto de não retorno porque, além de corresponder à ação de Dom Bosco, o modelo operativo da missão compartilhada com os leigos proposto pelo CG24 é de fato «o único praticável nas condições atuais».[30]

Vinte e quatro anos depois da celebração daquele Capítulo-Geral, devemos reconhecer que a aceitação e a atuação do que foi decidido foram muito diferentes. Em algumas regiões a presença dos leigos na missão salesiana tornou-se mais evidente. Em outras regiões da Congregação, o caminho é muito mais lento. Em outros casos, a experiência de comunhão ainda está nos inícios – como um caminho apenas iniciado – e às vezes encontramos também fenômenos de verdadeira e real resistência.

Nestes anos, embora nas mais diversas realidades culturais, certamente foram feitos progressos. Comumente as relações entre Salesianos e leigos são marcadas por cordialidade, apreço recíproco, respeito, colaboração e, quanto há uma clara identidade, a realidade das comunidades educativo-pastorais apresenta-se muito rica, mesmo se nem sempre é percebido o valor da vocação e da missão dos leigos. Tendemos, na verdade, a reconhecer mais facilmente o que fazem em relação à sua identidade laical.

É verdade que há uma grande variedade entre os leigos das presenças salesianas nas 134 nações em que nos encontramos: muitos trabalham em base contratual e muitos outros, sobretudo os mais jovens, como voluntários. Há leigos com forte identidade cristã e carismática, e outros que estão longe dessa realidade. Há quem seja católico, há cristãos de outras confissões, ou leigos que professam outras religiões, e também pessoas indiferentes ao fato religioso.

De modo semelhante, as modalidades de relação entre as comunidades e as obras são diversas conforme a realidade existente, contextos, etc. Na reflexão feita no Conselho-Geral tomamos ciência dessa grande diversidade, como se reflete em nossa contribuição para o núcleo 3 do Capítulo, que não foi desenvolvido na Assembleia capitular devido ao Covid-19.[31]

Como dizia anteriormente, desde o início, o nosso Fundador preocupou-se em envolver o maior número possível de colaboradores no seu projeto operativo: de Mamãe Margarida aos empregadores dos meninos, da gente boa do povo aos teólogos, dos nobres aos políticos da época. Nós nascemos e crescemos historicamente em comunhão com os leigos, e eles conosco. Antes, devemos ressaltar a importância que os jovens tiveram no desenvolvimento do carisma e da missão salesiana: Dom Bosco encontrou nos jovens os seus primeiros colaboradores que se tornaram cofundadores da Congregação.

 Eu mesmo, muitas vezes – e certamente também outros Reitores-Mores – exprimi com grande convicção que a participação dos leigos no carisma salesiano e na missão não é uma concessão da nossa parte, um favor que lhes fazemos e nem mesmo um caminho de sobrevivência – como muitos irmãos pensaram tantas vezes. É um direito ligado à sua vocação específica. Naturalmente, surge aqui evidente a diferença entre ser simples empregado numa casa salesiana e participar, ao mesmo tempo, do trabalho, da missão e da vocação. É uma relação radicalmente diversa. Isso exige de nós, em muitos casos, uma decidida mudança de perspectiva. Como consagrados somos a encarnação específica do carisma salesiano, mas não somos seus únicos depositários.

Disso decorre uma prioridade absoluta: «A participação no espírito salesiano e o crescimento na corresponsabilidade requerem a participação de alguns itinerários e experiências formativas que tenham em vista a missão, obviamente sem descuidar dos itinerários formativos específicos aos Salesianos consagrados e aos leigos. A formação conjunta na missão compartilhada é uma prioridade absoluta e deve ser endereçada sobretudo ao núcleo animador».[32]

Os leigos são companheiros de caminho, não substitutos ou representantes dos religiosos: eles e nós temos identidades e tarefas específicas para a missão. Por isso, os nossos colaboradores leigos precisam conhecer e experimentar muito de perto Dom Bosco e o que se vive nas casas salesianas onde eles se encontram. Esse conhecimento e formação não são recebidos apenas através de cursos acadêmicos, mas de modo muito especial refletindo, revendo e programando o que se vive em comum numa presença. É essencial dar novos passos na formação comum e conjunta, especialmente nos aspectos que se referem ao conhecimento e à vivência do nosso carisma compartilhado. Sabemos, com efeito, que «o primeiro e melhor modo para formar-se e para formar para a partilha e para a corresponsabilidade é o correto funcionamento da comunidade educativo-pastoral».[33]

Resta-me evidenciar de modo muito especial e firme que a missão compartilhada com os leigos tem o seu desenvolvimento mais pleno e autêntico quando eles são membros de um dos 32 grupos da Família Salesiana, dos quais, como é sabido, doze são grupos laicais. No caso dos membros pertencentes à Família Salesiana o grau de identidade carismática é, com frequência, muito alto, e juntos vivemos uma verdadeira vocação no carisma. É uma razão a mais para dar prioridade à presença dos membros da Família Salesiana em nossas presenças, também como trabalhadores, quando a sua profissionalidade satisfaz as mesmas condições dos outros.

Enfim, não podemos esquecer que o futuro deste elemento carismático – a missão e a formação compartilhada com os leigos – passa através da formação dos futuros Salesianos. Não vos escondo, caros Irmãos, que me preocupa a tendência de uma parte dos nossos jovens irmãos desejosos, e ousaria dizer também com veemência, de terminar as etapas formativas para se verem com autoridade, posições e responsabilidades diante dos leigos. É uma tendência totalmente contrária ao caminho que queremos trilhar como Congregação. Por isso, «a formação na e para a missão compartilhada deve tocar também a formação inicial dos Salesianos, não só como objeto de estudo, mas também através de experiências pastorais semanais e ativas. A experiência de trabalhar com e sob a direção de leigos durante o mandato, assim como a participação no conselho da comunidade educativo-pastoral, são momentos preciosos de formação, sobretudo se acompanhados pelos membros do grupo de animadores tanto Salesianos como leigos».[34]

PROPOSTA

¨ A Congregação inteira e todas as Inspetorias do mundo deem “novos passos” no testemunho da missão compartilhada e da formação comum, melhorando a realidade e o funcionamento das CEP em todas as presenças da Congregação. Pode-se estar mais adiantado ou mais atrás na vivência da missão e da formação na e da CEP, mas não se pode deixar de caminhar nessa direção. Continua a ser uma prioridade e uma urgência o que é pedido no CG27: «A missão compartilhada entre sdb e leigos deixou de ser opcional – se alguém ainda pensasse assim».[35]

¨ Caminhemos para inserir leigos nas equipes formativas das comunidades de formação inicial.

¨ Nestes seis anos, em todas as Inspetorias e presenças salesianas, será levada adiante, em conjunto entre Salesianos e quem participa da missão e faz parte do núcleo animador, um processo de discernimento para evidenciar com realismo a situação da missão e formação compartilhada (reconhecer).

  • Pôr-se em sintonia com o caminho trilhado pela Igreja e a Congregação (interpretar)
  • Projetar e ativar processos de crescimento e transformação, em sinergia com as demais realidades inspetoriais, regionais, de Congregação (escolher).

Por essa razão:

¨ Os leigos com forte identidade carismática sejam inseridos gradualmente nas equipes inspetoriais, assumindo também tarefas de responsabilidade, coordenação e liderança.

¨ A formação será realizada nas Inspetorias segundo o modelo operativo de animação e governo das casas, já decidido no CG24.

¨ Faremos com que nas Inspetorias e nas presenças salesianas seja significativo o testemunho evidente e forte da Família Salesiana no interior da CEP.

¨ Os Centros Regionais de Formação Permanente, com apoio dos Dicastérios para a Pastoral Juvenil e para a Formação, preparem subsídios adaptados aos diversos contextos regionais e favoreçam esse processo em nível inspetorial e local. Tornam-se, assim, receptores e difusores de boas práticas e de materiais, que servirão como exemplo e estímulo para outras realidades salesianas.

¨ Em nível de CEP locais valorize-se como caminho de formação permanente a terceira parte de “Animação e governo da comunidade. O serviço do diretor salesiano”, dedicada à “Comunidade educativo-pastoral”.

¨ Este processo será um dos campos a se dar atenção prioritária nas visitas inspetoriais, nos Capítulos inspetoriais de meados do sexênio, nas visitas extraordinárias e nas visitas de conjunto.

 

7. É TEMPO DE GENEROSIDADE NA CONGREGAÇÃO. Numa Congregação sempre missionária

 

«Cada um de nós é chamado por Deus a fazer parte da Sociedade Salesiana. Para tanto recebe d’Ele dons pessoais e, respondendo fielmente, encontra o caminho da sua plena realização em Cristo.

A Sociedade reconhece-o em sua vocação e ajuda-o a realizá-la. Como membro responsável, ele coloca sua pessoa e os próprios dons a serviço da vida e da ação comum.

Cada vocação manifesta que o Senhor ama a Congregação, deseja-a viva para o bem da sua Igreja e não cessa de enriquecê-la com novas energias apostólicas» (C.22)

Eu disse na sessão conclusiva do CG28 que, no meu modo de ver, este «é o tempo de generosidade na Congregação». Não tenho dúvidas de que temos uma história de 162 anos marcada por grande generosidade, iniciada ainda com Dom Bosco. Todavia, parece-me que hoje a generosidade é mais do que necessária.

Procurarei explicar-me claramente.

Hoje, não menos do que no passado, a realidade fala-nos da necessidade de evangelização, de necessidades pastorais e de promoção humana de que tomamos conhecimento em contato com diversos contextos. São-nos dirigidos frequentes apelos, chamados, interpelações para que assumamos esse ou aquele serviço em muitas partes do mundo. Vemos adolescentes, jovens e famílias em dificuldade em todos os continentes.

  • Deus continua a nos chamar no mundo todo para sermos “testemunhas-sinais” do seu Amor salvífico pelos jovens mais pobres.
  • Há necessidade da nossa ajuda como evangelizadores e educadores para os jovens e os adultos das classes populares, nos mais diversos contextos culturais e religiosos.
  • Há, também, necessidade urgente de educação e da nossa ação para testemunhar e promover a justiça no mundo.
  • A pobreza e as pobrezas continuam a ser para nós um clamor, o mais das vezes silencioso, sem voz: jovens com suas pobrezas materiais e emocionais, verdadeiros órfãos mesmo tendo pais ou famílias, pobrezas culturais (sem acesso à escola, à instrução), pobrezas espirituais (sem qualquer conhecimento dos valores transcendentes, nem de Deus).

A esperança de poder trabalhar (e às vezes também estudar) continua a provocar com maior facilidade migrações maciças para as grandes cidades (e também para outros países) com as consequências naturais da falta de adaptação e da marginalização social. Acrescenta-se a isso a terrível realidade dos refugiados e dos acampamentos onde vivem; em muitos deles, os nossos irmãos compartilham a vida com os próprios refugiados (Kakuma-Quênia, Juba-Sudão do Sul, Palabeck-Uganda).

Poderia ampliar o elenco desse conjunto de situações.

Caros Irmãos, todos nós pertencemos a Deus e à nossa única Congregação, da qual com alegria somos membros. Somos todos Salesianos de Dom Bosco no mundo. O nosso afeto será sempre dirigido aos irmãos da nossa Inspetoria de origem, onde “nascemos vocacionalmente”, mas a nossa pertença mais verdadeira e profunda é à Congregação, e ela começa com a nossa profissão religiosa.

Por isso, nos próximos seis anos a abertura de horizontes deve ser ainda mais efetiva e real, graças à disponibilidade dos irmãos e à resposta generosa das Inspetorias que têm maiores possibilidades de oferece uma ajuda aos outros irmãos. Às vezes, com acordos entre os mesmos Inspetores, outras vezes com a mediação do Reitor-Mor e seu Conselho quando se tratar de novas fundações, de novos desafios missionários, de novas presenças em outras nações ou de novas fronteiras missionárias.

Afortunadamente as Inspetorias mais pobres do ponto de vista econômico são as mais ricas de vocações, e a formação de todos esses irmãos torna-se possível pela generosidade de toda a Congregação. Novamente, demonstra-se que a generosidade torna possíveis todos os sonhos.

Vivemos em tempos nos quais precisamos enfrentar a realidade com mentalidade renovada, que nos permita “superar as fronteiras”. Num mundo em que as fronteiras são sempre mais “uma defesa contra os outros”, a profecia da nossa vida de Salesianos de Dom Bosco consiste também nisto: demonstrar que, para nós, não existem fronteiras. A única realidade à qual respondemos é Deus, o Evangelho e a missão que nos é confiada. Justamente por isso, as nossas comunidades internacionais e interculturais têm hoje um grande valor profético, sem esconder o fato que construir a fraternidade na diversidade requer visão de fé e empenho pessoal.

A realidade missionária da nossa Congregação continua a interpelar-nos e apresentar-nos alguns belos desafios, as missões impelem-nos e fazem-nos sonhar belos sonhos que se tornam realidade.

Quando nos anos 80’ do século passado continuávamos, anos após ano, a perder irmãos de modo significativo, o Reitor-Mor P. Egídio Viganò lançou de modo profético o Projeto África, que hoje é uma belíssima realidade. Quando em 2000, diante do novo milênio, se constatava a dura realidade pastoral e a necessidade de uma nova evangelização para a Europa, o P. Pascual Chávez promoveu convictamente o Projeto Europa. Estes não são tempos nos quais preocupar-se para sobreviver, mas ocasiões para ser mais significativos.

O Papa Francisco, em sua mensagem ao CG28, convidava-nos a estar atentos aos temores que acabam «por fixar-nos numa inércia paralisante que priva a vossa missão da parrésia própria dos discípulos do Senhor. Tal inércia pode também manifestar-se num olhar e numa atitude pessimista diante de tudo aquilo que nos circunda e não só no que se refere às transformações que acontecem na sociedade, mas também em relação à própria Congregação, aos irmãos e à vida da Igreja. Esta atitude que acaba por “boicotar” e impedir qualquer resposta ou processo alternativo».[36]

PROPOSTA

Proponho a toda a Congregação a concretização deste tempo de generosidade, assumindo de modo natural a disponibilidade de irmãos de todas as Inspetorias (transferências, intercâmbio, ajuda temporária) para serviços internacionais, novas fundações, novas fronteiras que queiramos alcançar.

Por essa razão

¨ As Inspetorias estarão atentas e disponíveis aos apelos do Reitor-Mor para as necessidades e os desafios que assumiremos.

¨ O 150º aniversário da primeira expedição missionária de Dom Bosco à Argentina (que ocorrerá em 2025) e o primeiro centenário da presença missionária no Nordeste da Índia (em 2022), serão ocasiões para continuar o projeto missionário da nossa Congregação.

¨ Concretizamos durante o sexênio precedente o apelo missionário convidando todas as Inspetorias a abrirem em seu interior um projeto missionário (refugiados, migrantes, fronteiras, crianças exploradas...), dando prioridade à significatividade e às exigências reais dos jovens de hoje.

¨ O Reitor-Mor e seu Conselho indicarão os passos oportunos para consolidar no Dicastério (Setor) da Pastoral Juvenil da Congregação a seção que se ocupa prioritariamente da realidade dos refugiados e migrantes (especialmente de menores não acompanhados e jovens).

 

8. ACOMPANHANDO OS JOVENS PARA UM FUTURO SUSTENTÁVEL

 

Reconhecemos que a atenção a um futuro sustentável é uma conversão cultural, não uma moda, e como toda conversão precisa ser evocada com força com o seu nome novo.

A Assembleia capitular expressou-se com total unanimidade quando foi proposto que uma pequena comissão assumisse a sensibilidade que existe entre nós diante dessa emergência. O cuidado do criado não é uma moda. Está em jogo a vida da humanidade, mesmo se muitos agentes públicos, reféns de interesses econômicos, olham para o outro lado ou negam o que é inegável. Essa sensibilidade concretizou-se numa deliberação do Capítulo aprovada pela Assembleia. O Papa Francisco insistiu que devemos evitar uma «emergência climática» que corre o risco de «perpetrar um ato brutal de injustiça em relação aos pobres e às gerações futuras».[37]

O nosso empenho por uma ecologia humana integral nasce da convicção de fé segundo a qual «tudo está inter-relacionado e o cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros».[38] No interior da vida social dos seres humanos não podemos deixar de lado a atenção ao ambiente. Portanto, a ecologia deve ser integral, humana. E, como consequência, somos convidados a uma conversão ecológica que não se refere apenas à economia e a política, mas também à vida social, as relações, a afetividade e a espiritualidade.

Assistimos nos últimos anos aos desacordos dos políticos de várias nações diante dessa emergência. O último encontro dos líderes dos Países em Santiago do Chile (mas realizado em Madri – Espanha) teve como único resultado o acordo de encontrar-se novamente dentro de um ano. Nenhum acordo operativo significativo.

Ao mesmo tempo, milhões e milhões de pessoas, em sua maioria jovens, elevaram um clamor global. O Papa Francisco, sensível a esta realidade, como bem demonstrou, recorda que os próprios jovens exigem uma mudança radical e que «se interrogam como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos».[39]

A proposta de deliberação capitular assim se exprime: «Reconhecemos com o Papa Francisco a evidência dada pela ciência de que a aceleração da mudança climática que deriva da atividade humana é real. Estão em aumento a poluição do ar, a poluição da água, o descarte inadequado de resíduos, a perda da biodiversidade e outras questões ambientais que têm um impacto negativo sobre a vida humana. A produção e o consumo não sustentável estão levando o nosso mundo e os seus ecossistemas além de seus limites, minando a sua capacidade de fornecer recursos e ações vitais para a vida, o desenvolvimento e a sua regeneração».[40]

No momento em que escrevo estas linhas, o planeta Terra e todos os países do mundo foram atingidos em maior ou menor medida, pelo vírus COVID-19 que, até hoje, causou a morte de 624.000 pessoas e infectou outros 15.300.000. Bem sabemos que a vida de uma única pessoa é sagrada, e há muito sofrimento devido a tantas mortes. Mas não é menos verdade que o planeta Terra sangra há decênios, e que a poluição causa todos os anos muito mais vítimas humanas das que não tenham sido provocadas pelo COVID-19. Trata-se de um dado de fato infelizmente não tomado muito seriamente.

Não é menos verdade que os mais pobres, sempre os mais pobres! sofrem os efeitos desastrosos do desflorestamento e das mudanças climáticas, da destruição das suas paupérrimas colheitas, seu único recurso de sobrevivência. Também isso não é denunciado.

Poderia fazer ainda um elenco dessas situações. Não é necessário. Basta sublinhar que, como educadores e pastores, não podemos ser indiferentes a essa realidade. Devemos fazer alguma coisa.

PROPOSTA

Ouvindo o clamor que se eleva, em nível mundial, de muitos jovens de hoje, NÓS SALESIANOS NOS EMPENHAMOS PARA SER TESTEMUNHAS CREDÍVEIS, pessoal e comunitariamente, de CONVERSÃO no cuidado do Criado e na Espiritualidade Ecológica.[41]

Por essa razão:

¨ Todas as Inspetorias no mundo responderão, através do próprio Delegado inspetorial para a Pastoral Juvenil, à exigência de fazer das nossas escolas, dos centros educativos, dos campi universitários, dos oratórios, das paróquias, modelos educativos no cuidado do ambiente e da natureza. Na educação, devemos incluir como opção salesiana a ação em favor do Criado: o cuidado da natureza, do clima e do desenvolvimento sustentável.

¨ Estendamos, o quanto possível, a rede de instituições salesianas a serem inseridas no Dom Bosco Green Alliance, promovendo a participação dos jovens em campanhas globais em favor da sustentabilidade das causas ambientais e ecológicas para o cuidado da Criação e da vida humana.

¨ Acolhamos o pedido feito ao CG28 pela Conferência Salesiana Sobre Energias Renováveis de novembro de 2019, para que a Congregação assuma 100% das energias renováveis em todas as Inspetorias do mundo antes de 2032. Mesmo que a realidade da Congregação seja muito desigual nos diversos países, aceitemos esse desafio em colaboração com os PDO das Inspetorias, as ONG salesianas, o DBN.

 

CONCLUSÃO

 

Meus caros Irmãos: concluo estas linhas programáticas convidando-vos a acolhê-las não como uma simples carta, mas como uma mensagem e um programa que deseja ser hoje expressão da palpitação do coração da Congregação no mundo todo.

E proponho dois elementos importantes como atitude com que enfrentar a bela oportunidade dos próximos seis anos:

  • O primeiro deles tem a ver com uma virtude: a esperança. Só com a esperança podemos enfrentar o futuro, confiando que o Senhor levará a cumprimento, com a nossa humilde contribuição, o que propomos aqui.
  • O segundo tem a ver com o a nossa atitude diante do próprio Deus. Gostaria de pedir à nossa Congregação que neste sexênio nos deixemos guiar muito mais pelo Espírito Santo; que seja Ele a mover realmente os nossos corações e as nossas capacidades humanas na animação e no governo da Congregação e das Inspetorias e Comunidades, para que cada um de nós consiga fazer de todas as Casas salesianas do mundo outros Valdocco, dando uma resposta aos adolescentes e aos jovens de hoje, como fez Dom Bosco no seu tempo.

A respeito da esperança, quero sublinhar que, como bem sabemos, ela é uma virtude que tem muito a ver com a nossa fé cristã; é um modo diferente de ver o futuro. A esperança cristã é um modo de viver, um modo de caminhar, um modo de ver.

A esperança é fruto do encontro com o Senhor Jesus e é fruto da acolhida do seu Espírito em nós. A esperança não resulta de cálculos e previsões. «Nem pessimista nem otimista, o salesiano do séc. XXI é um homem cheio de esperança porque sabe que o seu centro está no Senhor, capaz de fazer novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5). Só isto nos salvará de viver numa atitude de resignação e sobrevivência defensiva. Só isto tornará fecunda a nossa vida».[42]

Sobre a necessidade deixar-nos guiar mais pelo Espírito Santo de Deus, Ele que é o verdadeiro Mestre interior, faço minhas as palavras do Patriarca de Constantinopla, Atenágoras I, que encontrou o Papa Paulo VI (hoje Santo) em Jerusalém em janeiro de 1964. O fruto daquele encontro no Espírito de Deus foi o cancelamento das excomunhões recíprocas que até aquele momento tinham existido e que feriram profundamente o coração de Cristo na sua Igreja.

Este é pensamento:

«Sem o Espírito Santo,
Deus está distante,
Cristo permanece no passado,
o Evangelho é uma letra morta,
a Igreja uma simples organização,
a autoridade um poder,
a missão uma propaganda,
o culto uma lembrança,
e o agir cristão uma moral de escravos.

Mas no Espírito Santo
o cosmo é mobilizado para a geração do Reino,
o Cristo ressuscitado se faz presente,
o Evangelho se faz potência e vida,
a Igreja realiza a comunhão Trinitária,
a autoridade transforma-se em serviço,
a liturgia é memorial e antecipação,
a conduta humana é deificada».[43]

Acolhamos esta mensagem em nossa oração.

Meus caros Irmãos salesianos, era o que sentia o dever de comunicar e pedir a todos vós. Convido-vos a acolher estes desafios, esta tabela de marcha para o caminho do sexênio com todo o coração e com o profundo desejo de torná-la realidade nas comunidades e nas Inspetorias. Serão, certamente, com a graça de Deus e a presença materna da nossa Mãe Auxiliadora, anos de fidelidade da parte da Congregação e de resposta corajosa e também profética aos sinais dos tempos de hoje.  Nossa Mãe Auxiliadora continue a cuidar da nossa Congregação e a “fazer tudo”, como com Dom Bosco.

A sua mediação e a de toda a santidade salesiana da nossa Família seja para nós uma bênção na única coisa importante da nossa missão da parte de Deus: «ser na Igreja sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente aos mais pobres» (C. 2).

Acompanho-vos, a todos e a cada um, com a lembrança e a oração.

Ángel Fernández Artime, sdb
Reitor-Mor

Roma, 16 de agosto de 2020
205° Aniversário do nascimento de Dom Bosco

 

[1] Francisco, Mensagem aos membros do CG28, Roma 4 de março de 2020. Sirvo-me desta primeira nota para dizer-vos que a minha carta será enriquecida com citações textuais da mensagem que o Papa Francisco pensou para nós como Congregação e como Assembleia capitular e que nos enviou no momento mais oportuno das nossas reflexões e dos nossos trabalhos. Dada a importância das palavras do Santo Padre, decidi não as apresentar nas notas de pé de página, mas no corpo da carta. Bastará ver o texto entre aspas para reconhecer nele a palavra do Papa.

[2] Vita Consecrata, 22.

[3] Francisco, Exortação apostólica Gaudete et exsultate, Roma 19 de março de 2018, 1.

[4] MB XVIII, 258, citado também em nossas Constituições, art.1.

[5] Cf. Francisco, Exortação apostólica pós-sinodal Christus vivit, Roma, 25 de março de 2019, 98. A Exortação traz esta citação: «O clericalismo é uma tentação permanente dos sacerdotes, que interpretam “o ministério recebido mais como um poder a ser exercido do que como um serviço gratuito e generoso a oferecer; e isto leva a julgar que se pertence a um grupo que possui todas as respostas e já não precisa escutar e aprender mais nada”», Francisco, Discurso à primeira Congregação Geral da XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Roma, 3 de outubro de 2018.

[6] J. Bosco, Vida do jovem Domingos Savio, aluno do Oratório de São Francisco de Sales, in Fontes Salesianas: I. Dom Bosco e a sua obra, Brasília, EDB, 2015, 1126.

[7] J. E. Vecchi, Orientações para um caminho de espiritualidade salesiana, ACG 354, 1995, pp. 24-25.

[8] CG28, Prioridade da missão salesiana entre os jovens de hoje. Primeiro núcleo, n. 4.

[9] Documento final do Sínodo dos jovens, a partir de agora citado com DF.

[10] O Papa Francisco disse-nos: «A “opção Valdocco” do vosso 28º Capítulo-Geral é uma boa ocasião para se confrontar com as fontes e pedir ao Senhor: “Da mihi animas, coetera tolle”.  Tolle, sobretudo aquilo que durante o caminho se foi incorporando e perpetuando e que, ainda que noutro tempo tivesse sido uma resposta adequada, hoje vos impede de configurar e plasmar a presença salesiana de maneira evangelicamente significativa nas diversas situações da missão. Isto pede, da nossa parte, superar os medos e as apreensões que podem surgir por ter acreditado que o carisma se reduzisse ou identificasse com determinadas obras ou estruturas. Viver fielmente o carisma é qualquer coisa mais rica e estimulante que o simples abandono, remedeio ou readaptação das casas ou das atividades; comporta uma mudança de mentalidade diante da missão a realizar».

[11] Carta dos jovens ao CG28.

[12] CG28, Prioridade da missão salesiana entres os jovens de hoje. Primeiro núcleo, n.5

[13] Carta dos jovens ao CG28.

[14] «A revolução digital pede-nos para compreender as profundas transformações que estão a acontecer não só no campo da comunicação, mas sobretudo no modo da organização e administração das nossas relações humanas» (Núcleo 1 elaborado pelo CG28).

[15] CG26, “Da mihi animas, coetera tolle”, n.14.

[16] CG28, Perfil do Salesiano hoje. Segundo núcleo, n. 1.

[17] Idem, n. 3.

[18] Idem, n. 5.

[19] Idem, n. 5.

[20] CG24, n. 166.

[21] CG XX, n. 580.

[22] MB XVII, 272; Cf. MB XVII, 207.

[23] CG XIX, ACS 244, p. 94.

[24] CG XX, n. 45.

[25] CG28, Prioridades da missão salesiana entre os jovens de hoje. Primeiro núcleo, n. 8.

[26] Francisco, Mensagem ao CG28.

[27] ChV, 98.

[28] CG28, Com os leigos na missão e na formação, Núcleo 3, reconhecer, n. 1.

[29] CG24, n. 71.

[30] CG24, n. 39.

[31] Idem, nn. 12-17.

[32] Animação e governo da comunidade, 106 e 122.

[33] CG24, 43.

[34] CG28, Terceiro núcleo. Com os leigos na missão e na formação, n. 43.

[35] CG27, Testemunhas da radicalidade evangélica. Documentos capitulares, Discurso do Reitor-Mor no encerramento do CG27, n. 3.7, Roma 2014.

[36] Francisco, Mensagem ao CG28.

[37] Francisco, Discurso aos participantes do encontro promovido pelo Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral sobre o tema: Transição energética e cuidado da nossa cada comum, Roma 14 de junho de 2019.

[38] Cf. Francisco, Carta encíclica Laudato si’, Roma 24 de maio de 2015, nn. 137-162. A seguir citada com LS.

[39] LS 13.

[40] CG28, Proposta de deliberação sobre a ecologia.

[41] LS, 217.

[42] Francisco, Mensagem ao CG28, citando a sua Homilia na Festa da Apresentação do Senhor para o 21º Dia Mundial da Vida Consagrada, 2 de fevereiro de 2017.

[43] A frase é do Patriarca Atenágoras I, embora alguns atribuam a citação ao Patriarca Inácio IV Hazim, em 1968.

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Quais salesianos para os jovens de hoje?

Documento Pós-capitular
aprovado pelo reitor-mor
E pelo conselho-geral

16 de agosto de 2020

Primeiro núcleo: RIORIDADE DA MISSÃO SALESIANA

Segundo núcleo: PERFIL DO SALESIANO HOJE

Terceiro núcleo: COM OS LEIGOS


Primeiro núcleo

PRIORIDADE DA MISSÃO SALESIANA

ENTRE OS JOVENS DE HOJE

 

O primeiro núcleo foi apresentado durante o CG28 e aprovado substancialmente pela Assembleia capitular.

O Conselho-Geral, na sessão de verão de 2020 apenas o reviu à luz das observações das comissões capitulares. 

 

RECONHECER

1. Com um olhar de fé

Como membros do 28º Capítulo-Geral estamos convencidos de que Deus, mediante o seu Espírito, está presente na vida de todos os jovens do nosso tempo. Através do discernimento procuramos reconhecer, antes de tudo, a Sua ação, procurando entrar no ritmo de «uma dupla docilidade: docilidade aos jovens e às suas exigências e docilidade ao Espírito e a tudo aquilo que Ele deseja transformar» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

Isso nos levou, desde o início, a ter um olhar positivo, plasmado pela humildade, simpatia, coragem, inteligência, fé e esperança, na certeza de que é justamente esse «o olhar de Deus Pai, capaz de valorizar e nutrir os germes de bem semeados no coração dos jovens», que devem ser, portanto, considerados por nós como “terra santa” (cf. Christus Vivit, n. 67).

Chamados a ser amigos, pais e pastores dos jovens queremos fazer nosso esse olhar divino, conscientes de assim seguir os passos do nosso amado Pai Dom Bosco que, guiado pela mão da Auxiliadora concretizou a sua obra precisamente em Valdocco.

 

2. À escuta do grito dos jovens

Quem são os jovens de hoje? Qual é a condição deles? O que buscam? O que nos pedem? Para responder a essas questões pusemo-nos primeiramente à escuta.

Tivemos a graça de ter entre nós alguns jovens provenientes do mundo todo, que representaram os muitíssimos jovens que se fizeram presentes nos nossos Capítulos inspetoriais durante a preparação do CG28. Escutamos a sua voz com atenção e comoção. Eles comunicaram-nos a sua ansiedade espiritual e fome de Deus, o seu desejo de ser protagonistas e artífices de um mundo melhor, o seu esforço para crer e ir contracorrente em relação às lógicas do nosso tempo. Pediram-nos para ser menos “gestores” e mais “pastores”, viver entre eles e encontrar tempo para acompanhá-los.

Nos muitos momentos de trabalho em comum também tomamos conhecimento das muitas pobrezas dos jovens, que nos deixaram horrorizados como Dom Bosco em sua primeira visita às prisões de Turim. O clamor de tantos jovens toca também hoje o nosso coração: pobreza econômica, social e cultural; pobreza afetiva, relacional e familiar; pobreza moral e espiritual. Em muitos contextos o desemprego e a impossibilidade de estudar penalizam largas faixas de jovens.

Os jovens, de muitos modos, apresentaram-se como profetas: com a presença deles, o Senhor nos faz conhecer continuamente as suas expectativas e os seus apelos à renovação da nossa missão. Como Dom Bosco «não descobriu a sua missão diante de um espelho, mas no sofrimento de ver jovens que não tinham futuro, também o Salesiano do século XXI não descobrirá a sua própria identidade, se não for capaz de sofrer com “a quantidade de jovens saudáveis e fortes, de espírito vivo, que estavam na prisão atormentados e completamente despojados de alimento espiritual e material... Neles estava representada a odiosidade da pátria, a desonra da família”; e nós poderíamos acrescentar: da nossa própria Igreja» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

3. No interior de uma mudança de época

Vivemos uma mudança de época: hoje, mais do que nunca, «ninguém pode dizer com certeza e precisão (se alguma vez foi possível fazê-lo) o que irá acontecer no futuro próximo a nível social, econômico, educativo e cultural» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). É evidente, então, que não é mais possível pensar a nossa missão na forma do “sempre se fez assim”. Se de um lado, essa situação nos desorienta, de outra, pede que nos envolvamos nela com humildade e coragem, pedindo-nos para recuperar os dinamismos juvenis que eram tão vivos em Dom Bosco. Estamos convencidos mais do que nunca do que nos disse o Papa Francisco, aqui em Valdocco, na Basílica de Maria Auxiliadora, em 21 de junho de 2015: «O vosso carisma é de uma grandíssima atualidade. Olhai para as ruas, olhai para os jovens e tomai decisões difíceis. Não tenhais medo. Como ele fez».

Com alguns desafios perenes que continuam a questionar-nos, o nosso tempo apresenta algumas novidades com as quais é inevitável confrontar-nos. A revolução digital pede-nos para compreender as profundas transformações que acontecem não só no campo da comunicação, mas sobretudo no modo de determinar e administrar as nossas relações humanas. O campo da afetividade, com todas as questões ligadas ao gênero e à identidade sexual, desafia a nossa visão antropológica. A condição da mulher e o seu papel na sociedade e na Igreja pedem-nos uma reflexão mais atenta e profunda. A sensibilidade ecológica, que está em rápido crescimento no mundo juvenil pede para sermos proféticos neste campo através de opções claras e coerentes. O contato com os jovens migrantes, refugiados e muitos outros jovens privados de seus direitos fundamentais torna-se para nós um apelo urgente à ação. Enfim, a dolorosa experiência dos abusos, que toca também a nossa Congregação, é um forte apelo à conversão.

 

4. A transmissão da fé

A rápida mudança em curso toca os processos ordinários de transmissão da fé. Sobre isso, encontram-se grandes diferenças: se em alguns contextos a vida de fé não apresenta nenhum problema e os jovens vivem com naturalidade a sua pertença à Igreja, em outros profundamente secularizados a fé cristã tornou-se uma questão que não tem qualquer relevância pessoal e social. Em alguns territórios onde estamos presentes há fundamentalismo, discriminação e até mesmo perseguição; em outros, pode-se propor o Evangelho livremente. Trabalhamos também em muitos contextos plurirreligiosos em que a maioria dos jovens que frequentam as nossas obras pertencem a outras religiões ou outras confissões cristãs.

Diante da crise global da autoridade, da tradição e da transmissão da fé somos desafiados sobre os estilos, conteúdos e modalidade de anunciar Jesus Cristo, enquanto nos sentimos todos chamados a ser “missionários dos jovens”. Convencidos da necessidade de alcançar o coração deles, sentimos a urgência de repropor com mais convicção o primeiro anúncio, porque «Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio» (Christus Vivit, n. 214).

 

5. O desejo de caminhar juntos

Os jovens são portadores do ardor vivo do carisma salesiano e ajudam-nos a conhecer, aprofundar e assumir de modo melhor a missão a nós confiada. Desde o início «longe de serem agentes passivos ou espectadores da obra missionária, tornaram-se, a partir da sua própria condição – em muitos casos “analfabetos religiosos” e “analfabetos sociais” – os principais protagonistas de todo o processo de fundação.  A salesianidade nasce precisamente deste encontro capaz de suscitar profecias e visões», na convicção de que «todo carisma precisa ser renovado e evangelizado e no vosso caso sobretudo pelos jovens mais pobres» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

Sentimos, pois, como dever nosso envolver os jovens, e acreditamos que é um direito deles de serem envolvidos, na comunidade educativo-pastoral que é, antes de tudo uma família em que se partilha tudo em clima de amizade, escuta, respeito e colaboração. Reconhecemos que muitos deles «encontram-se numa situação profunda de orfandade... à qual devemos responder criando espaços fraternos e atraentes onde haja um sentido para viver» (cf. Christus Vivit, n. 216). É justamente nessa direção que os recentes caminhos sinodais nos ajudaram a redescobrir a índole familiar da Igreja, tanto que ela pode ser pensada como «família de famílias, constantemente enriquecida pela vida de todas as igrejas domésticas» (Amoris Laetitia, n. 87).

Estamos cientes, enfim, de que muitas vezes não conseguimos captar a verdadeira e própria “nostalgia comunitária” dos jovens e das famílias: pedem-nos tempo e nós lhes damos espaço; pedem-nos relação e nós lhes prestamos serviços; pedem-nos vida fraterna e nós lhes oferecemos estruturas; pedem-nos amizade e nós lhes proporcionamos atividades. Tudo isso nos empenha a redescobrir as riquezas e potencialidades do “espírito de família”.

 

INTERPRETAR

6. Acompanhados por Dom Bosco

Para interpretar o que reconhecemos até aqui, queremos orientar-nos por uma das passagens mais significativas da “Carta de Roma” de 1884. Dom Bosco vê que no Oratório de Valdocco foi levantada, entre os Salesianos e os jovens, uma barreira física e espiritual, criando obstáculo à ação educativa e traindo o carisma. Ao dialogar com um dos jovens do sonho, ele procura interpretar a situação para encontrar o modo de resolvê-la: «Como fazer então para romper a barreira?» A resposta que recebe é iluminadora também para nós:  «Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade»

Este texto ilumina as três questões fundamentais ao redor da quais recolhemos a interpretação deste núcleo: ir ao encontro dos jovens onde eles se encontram e se exprimem espontaneamente; a proximidade que cria confiança e torna possível o acompanhamento; o tom afetivo da relação educativa que Dom Bosco chama com um termo derivado da experiência familiar. É nessa perspectiva de fé que queremos buscar as razões do que vivemos, com suas luzes e sombras, fazer emergir os desafios que nos esperam e identificar os critérios para enfrentá-los.

 

COMUNIDADE EM SAÍDA VOLTADA PARA OS JOVENS POBRES

 

7. Duas faces de um único problema

Muitas vezes a pobreza afasta os adolescentes e jovens da oportunidade de crescer serenamente, ter uma educação adequada, decidir sobre o próprio futuro. Não raramente a pobreza afasta também da comunidade cristã e da possibilidade de encontrar a alegria do Evangelho, que, contudo, é destinada justamente aos últimos: «O Espírito do Senhor está sobre mim... enviou-me para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4,18). A pobreza, então, torna-se hoje uma barreira excludente, que deve ser superada.

O magistério profético do Papa Francisco está ajudando a Igreja a tomar sempre mais consciência de que o distanciamento em relação aos pobres trai o Evangelho e gera numerosas “doenças” na comunidade cristã. Também nós sentimos a necessidade de aprofundar-nos na interpretação do tempo que estamos a viver, para reconhecer que os fenômenos sociais e os desafios espirituais, os apelos dos jovens e os movimentos do Espírito estão intimamente relacionados entre si, sem qualquer possibilidade de dissensão. Foi essa a experiência de Dom Bosco, que o tornou capaz de responder às necessidades mais urgentes dos seus meninos e fazer com que sentissem a ternura de Deus que aquece o coração e infunde esperança. Ainda hoje, onde isso acontece, com trabalho generoso e criatividade pastoral, vemos um verdadeiro florescimento do carisma. Onde, porém, as comunidades perdem a “familiaridade” com os pobres, a vida religiosa torna-se morna, correndo o risco de ser sal que perde o sabor, lâmpada colocada debaixo do alqueire (cf. Mt 5,13.15).

 

8. Consagrados a Deus para os jovens mais pobres

Viver em saída para os jovens pobres e fazê-lo como comunidade de crentes é, certamente, um desafio sempre novo, mas também uma perspectiva que nos enche de entusiasmo. Como nosso Pai Dom Bosco, também nós no dia da nossa profissão religiosa dissemos a Deus: «Ofereço-me totalmente a Vós, comprometendo-me a dar todas as minhas forças àqueles a quem me enviardes, especialmente aos jovens mais pobres» (Constituições, art. 24).

Isso requer de nós, primeiramente, capacidade de discernimento comunitário: não se trata de entregar a um determinado irmão a ativação de novos projetos, mas de escutar juntos o apelo que Deus nos dirige nas pobrezas juvenis. Isso, porém, requer profundidade espiritual, para não cair no ativismo ou numa mentalidade empresarial; preparação cultural, para compreender os fenômenos em que estamos imersos e as novas pobrezas juvenis; disponibilidade para trabalhar juntos, abandonando todo individualismo pastoral; flexibilidade no repensamento do nosso estilo de vida e das nossas obras, sobretudo quando elas não exprimem mais a energia missionária do carisma e responde prevalentemente a lógicas de manutenção.

 

ACOMPANHAMENTO DOS JOVENS EM CHAVE VOCACIONAL

 

9. Uma rica tradição

«Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança». Bastam estas palavras de Dom Bosco para fazer-nos entender o valor que tinha para ele alcançar o coração do jovem, permitindo-lhe uma abertura confiante e uma confiança sincera. Dom Bosco não usava a palavra “acompanhamento”, mas todo o seu agir visava justamente isso. Seu trabalho educativo, rico de propostas e atento às diversas dimensões do desenvolvimento, tendia a acompanhar os jovens de modo simples e concreto à santidade. Descurar essa dimensão do Sistema Preventivo significa desnaturá-lo.

Enquanto a Igreja inteira, no Sínodo sobre os jovens, redescobriu o valor do acompanhamento para o discernimento, também nós somos convidados a reler as riquezas da nossa tradição sobre isso. Ela nos oferece três níveis de acompanhamento estritamente interligados: ambiental, grupal e pessoal. O primeiro é realizado mediante a oferta de um clima acolhedor, alegre, rico de propostas diferenciadas e capaz de ativar caminhos de crescimento. O segundo favorece um maior empenho no amadurecimento pessoal e no itinerário de fé, valoriza as aptidões de cada um, promove a espiritualidade do Movimento Juvenil Salesiano e a pertença a ele. O terceiro leva o jovem a discernir com maior profundidade o sentido da própria existência diante de Deus. Nesse sentido, o Sínodo sobre os jovens falou de acompanhamento “em chave vocacional” (Documento final do Sínodo, n. 138-143; Christus Vivit, cap. VIII), ajudando a pensar a vida não como projeto de autorrealização individual, mas como caminho para descobrir e responder ao chamado divino. A expressão do Papa Francisco «eu sou uma missão» (Christus Vivit, n. 254) indica claramente a meta que o acompanhamento tem à sua frente: ajudar cada um a descobrir a própria unicidade como dom para os outros.

 

10. Sujeitos e meta do acompanhamento

Uma vez nascido da familiaridade no quotidiano, o acompanhamento envolve uma pluralidade de sujeitos e não é tarefa exclusiva de alguém. A comunidade educativo-pastoral inteira envolve-se nela, mesmo se nem todos tenham a mesma aptidão e preparação para guiar o discernimento pessoal. De qualquer forma, o protagonista de todo acompanhamento é o Espírito Santo, que nos enche de dons e carismas; nós somos simplesmente servos e mediadores da obra de Deus.

É muito importante sublinhar que o bom acompanhamento não põe o jovem numa posição passiva ou subalterna, mas, ao contrário, promove a sua participação ativa na vida da comunidade e a corresponsabilidade no serviço aos mais pobres. Trata-se, então, de acompanhamento para o envolvimento, para a presença ativa e responsável na sociedade e na Igreja. Neste sentido, ainda tem muito a dizer-nos o protagonismo dos jovens na fundação da nossa Congregação e a ação dinâmica das Companhias no Oratório de Valdocco.

Cientes de que «aqueles que acompanham outros a crescer devem ser pessoas de grandes horizontes, capazes de colocar juntos limites e esperança, ajudando assim a olhar sempre em perspectiva, numa prospectiva salvífica» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28), somos chamados a promover um empenho renovado no acompanhamento, que requer, antes de tudo, cuidar mais da preparação de irmãos e leigos nesse delicado âmbito e viver nós mesmos a experiência de ser acompanhado. A perspectiva do envolvimento ativo dos jovens supõe, ainda, uma confiança maior nos seus recursos: não devemos ter medo da sua sadia inquietação, dos seus questionamentos e das suas sensibilidades por temas novos, que nem sempre estamos preparados para enfrentar. Aprendamos, portanto, todos os dias, a escutar com empatia e oferecer com humildade a nossa ajuda. A verdadeira autoridade de um educador não consiste em poder dirigir, mas na força de promover a liberdade: essa é a paternidade de Dom Bosco.

 

CAMINHO COM AS FAMÍLIAS E EDUCAÇÃO AFETIVA

 

11. Proximidade das famílias

Estamos cientes de que a família é a escola do amor, onde se aprende a gramática dos afetos através dos quais Deus se faz conhecer e encontrar. Os recentes Sínodos sobre a família e a exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia ofereceram muitas orientações pastorais sobre o acompanhamento das famílias e a educação afetiva, que também nós somos chamados a acolher e assimilar.

Para nós Salesianos, o interesse pela família brota espontaneamente do nosso carisma educativo. Sabemos o quanto Dom Bosco aprendeu de Mamãe Margarida, a ponto de querê-la consigo em Valdocco como presença preciosa para fazer do Oratório uma verdadeira “casa”. O menino João Bosco, por sua vez, não cresceu numa família perfeita: experimentou o sofrimento de ser órfão de pai, a incompreensão do irmão Antonio, a humilhação da pobreza, a necessidade de afastar-se de casa em busca de trabalho. Isso tudo contribuiu para amadurecer nele um coração de pai, rico de misericórdia e acolhimento.

Também nós sentimos hoje a exigência de uma grande proximidade com as famílias, acolhendo-as com as suas dificuldades, mas sobretudo promovendo-as com as suas riquezas. Encontramos, de fato, através das nossas obras, muitíssimas famílias nas mais diversas situações: algumas vêm a nós pelas nossas propostas educativas, outas compartilham a opção religiosa e a inspiração carismática, outras ainda estão nos primeiros anos de matrimônio e solicitam o nosso acompanhamento. Não poucas vivem em situação de pobreza, de insatisfação, ou são famílias feridas e fruto de segundas uniões. Há, também, jovens que cresceram conosco e pedem-nos para acompanhá-los na vida matrimonial, ao mesmo tempo em que também se apresentam, em nossos ambientes, pessoas que vivem em novas configurações relacionais. Essa complexidade constitui, sem dúvida, um desafio que requer preparação adequada.

A presença, também, de muitas famílias inseridas nos grupos da Família Salesiana e de outras que colaboram conosco constitui, enfim, um grande recurso, sobretudo se formos capazes de escutar a sua experiência e valorizar o seu testemunho.

 

12. Pastoral juvenil, família, educação afetiva

O critério fundamental para o nosso trabalho com as famílias deve ser individualizado na natureza educativa da nossa missão. Não queremos ativar uma pastoral familiar paralela à pastoral juvenil, mas apresentar a comunidade educativo-pastoral como lugar e forma do nosso caminho com as famílias.

Deriva desse critério também a exigência de assumir com maior coragem o desafio da educação afetiva e sexual dos jovens. Trata-se de uma exigência que o Concílio já dirigira às instituições educativas da Igreja (cf. Gravissimum educationis, n.1) e em que ainda caminhamos muito pouco. Não se trata simplesmente de dar informações, mas de acompanhar no caminho do conhecimento de si e da descoberta da vocação ao amor. Conhecemos a importância que Dom Bosco atribuía à pureza no desenvolvimento dos jovens e a delicadeza com que falava dela. Num contexto que não raramente banaliza a sexualidade, somos chamados a apresentar uma visão serena, positiva e equilibrada do tema afetivo e, em conformidade com a Palavra de Deus, a iluminar as linguagens do corpo e o sentido da reciprocidade entre homem e mulher. Os instrumentos que a nossa tradição nos transmite e somos chamados a repensar nos atuais novos contextos são a atenção aos ambientes propositivos e “preventivos”, a animação que sabe envolver os jovens em todas as suas dimensões (teatro, esporte, arte, diversão, música...), o acompanhamento pessoal que se preocupa com as dinâmicas profundas da pessoa.

 

ESCOLHER

13. Comunidade em saída que se dirige aos jovens pobres

 

Saiamos dirigindo-nos aos jovens pobres superando uma pastoral de manutenção e renovando os nossos dinamismos comunitários.

Atitudes e mentalidades a converter

  • De uma pastoral de conservação à pastoral missionária que tenha as necessidades dos jovens como critério de escolha.
  • De uma pastoral elitista e excludente à pastoral popular e inclusiva.
  • De uma comunidade voltada sobre si mesma em zonas de conforto ao testemunho de evidente fraternidade na partilha com os jovens.

Processos a ativar

  • Os Setores da Pastoral Juvenil e das Missões propõem projetos específicos de atenção e acolhimento das pobrezas juvenis.
  • No redesenho das presenças, as Inspetorias preveem comunidades que possam acolher, com os Salesianos, adolescentes e jovens em dificuldade (migrantes, refugiados, meninos de rua, etc.) para oferecer-lhes oportunidades de estudo, formação profissional e inserção no mundo do trabalho.
  • A Congregação, em todos os níveis, interessa-se para que sejam garantidas as condições de promoção e defesa dos direitos dos jovens, sobretudo na tutela dos menores e adultos vulneráveis.

Condições estruturais a garantir

  • Faça-se em nível central uma coordenação em rede com outros religiosos e Organizações nacionais e internacionais a serviço dos jovens mais pobres.
  • Elabore-se em nível inspetorial e local um Código de Comportamento que permita o contato real, seguro, garantido com os jovens, especialmente os pobres.
  • As comunidades tenham momentos específicos e condições permanentes de acolhimento de jovens: revejam horários, estruturas, ambientes e estilos relacionais para ser autenticamente comunidades abertas e acolhedoras.

 

14. Acompanhamento dos jovens em chave vocacional

Promovamos um renovado esforço para o acompanhamento em perspectiva vocacional, cuidando da adequada formação de Salesianos e leigos nesse âmbito.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da pastoral de iniciativas e atividades a uma atenção aos itinerários pessoais de crescimento.
  • Da fragmentação da pastoral em muitos setores à sua integração em perspectiva vocacional.
  • De uma mentalidade de autossuficiência pastoral ao envolvimento dos jovens segundo o seu grau de maturidade.

Processos a ativar

  • Os Setores da Pastoral Juvenil e da Formação propõem itinerários de habilitação ao acompanhamento para Salesianos e leigos.
  • O Setor da Pastoral Juvenil anima, apoia e orienta o trabalho das Inspetorias sobre os temas vocacionais.
  • As Inspetorias ofereçam aos jovens um “tempo destinado ao amadurecimento da vida cristã adulta” a ser vivido em nossas Casas, mediante um projeto preciso de partilha de vida, fraternidade, apostolado e espiritualidade (cf. Documento final do Sínodo, n. 161).

Condições estruturais a garantir

  • O Reitor-Mor com seu Conselho avalia a oportunidade de instituir uma coordenação central para a animação vocacional.
  • As Regiões intensificam o desenvolvimento ou a criação de Centros Regionais de Formação sobre o acompanhamento para Salesianos e leigos.
  • As Inspetorias favorecem a inserção de jovens na equipe de pastoral juvenil, nas comissões inspetoriais e nas demais estruturas de animação pastoral.

 

15. Caminho com as famílias e educação afetiva

Consolidemos o caminho com as famílias na comunidade educativo-pastoral e proponhamos itinerários mais bem-cuidados de educação afetiva.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da família considerada apenas como destinatária da pastoral a uma família sujeito ativo da missão a ser envolvida na comunidade educativo-pastoral.
  • De um esquema mental rígido e simplista ao acolhimento e acompanhamento das experiências familiares no respeito da sua complexidade.
  • Da consideração da nossa afetividade como conquista feita uma vez por todas à formação salesiana que a entende como caminho de crescimento e amadurecimento do coração.

Processos a ativar

  • Os Setores da Pastoral Juvenil e da Formação, valorizando a experiência e a contribuição das famílias, oferecem orientações para a elaboração de propostas adequadas de educação afetiva e sexual e dão atenção à formação de Salesianos e leigos nesse âmbito.
  • As Inspetorias promovem grupos familiares inspirados na espiritualidade salesiana, favorecendo o seu protagonismo apostólico e o seu envolvimento ativo na comunidade educativo-pastoral.
  • As Inspetorias valorizam a reflexão iniciada pela Congregação no Congresso Internacional “Pastoral Juvenil e Família” (Madri, 2017) e elaboram instrumentos e itinerários de apoio às famílias em sua missão educativa.

Condições estruturais a garantir

  • As Inspetorias investem na formação de pessoal para o acompanhamento das famílias e a educação afetiva.
  • As Inspetorias favorecem a inserção de algumas famílias no Conselho da comunidade educativo-pastoral, promovendo momentos regulares de comunhão e formação.
  • As Inspetorias favorecem o trabalho apostólico dos grupos laicais da Família Salesiana a serviço da família.

 

 

Segundo núcleo

PERFIL DO SALESIANO HOJE

 

O segundo núcleo foi elaborado na sua primeira versão durante o CG28, mas não foi possível apresentá-lo à Assembleia capitular.

Foi completado na sessão de verão de 2020 do Conselho-Geral.

 

RECONHECER

16. Vocação e formação: a formação do carisma nos interpela

A Virgem Maria, no sonho dos nove anos, depois de indicar a João Bosco o campo em que deverá trabalhar, convida-o a ser “humilde, forte e robusto”. Com essas palavras, Ela lhe propõe um itinerário exigente de formação estritamente ligado à vocação recebida e à missão confiada. Nós também reconhecemos que a formação é dom precioso do Senhor e exigência irrenunciável do itinerário vocacional. O trabalho formativo toca todas as dimensões da nossa consagração apostólica; por isso, o Capítulo-Geral 27 traçou coerentemente o perfil do Salesiano como místico no Espírito, profeta de fraternidade e servo dos jovens.

Ao examinar as estatísticas da Congregação percebemos que no último decênio tivemos uma média anual de cerca de 2.600 jovens em formação, o que nos enche de alegria e esperança, porque demonstra que o nosso carisma continua a ser fecundo. Esse dado, ao mesmo tempo, nos interpela e responsabiliza, pedindo para examinarmos a qualidade da nossa formação inicial e permanente.

Notamos, com efeito, que às vezes a identidade consagrada salesiana parece frágil e pouco enraizada: o primado de Deus na vida pessoal e comunitária nem sempre emerge com clareza; formas de clericalismo e secularismo correm o risco de fazer entrar na Congregação a “mundanidade espiritual”; a promoção do Salesiano leigo continua escassa em algumas regiões; a falta de pessoal preparado no âmbito da salesianidade, não obstante o abundante material à disposição, é sinal de uma atenção insuficiente ao aprofundamento do carisma.

 

17. Formação e missão: uma lacuna da qual tomar consciência

A reflexão capitular sobre o atual perfil do Salesiano fez emergir claramente uma preocupação: o distanciamento entre o caminho formativo, em suas diversas fases, e a realidade da missão educativo-pastoral ordinária. Há quem fale de lacuna entre formação e missão, outros de afastamento entre formação inicial e formação permanente, outros ainda de certa incoerência entre o que a Congregação propõe para a formação inicial e o que se vive de fato nas comunidades apostólicas.

A atual formação, com suas estruturas, estilos e métodos parece, às vezes, mais informativa do que performativa, porque nem sempre chega a transformar o coração. A missão apostólica, por outro lado, nem sempre consegue colher da realidade dos jovens e da concretude da vida os elementos para uma formação permanente: a “cátedra da realidade” tem dificuldade em se tornar leitura crente da história (lectio vitae), oferecendo elementos para uma renovação contínua do nosso ser e do nosso agir.

Reconhecemos também como urgente o aprofundamento de alguns temas que devem entrar plenamente no itinerário formativo: a habilitação para o acompanhamento espiritual dos jovens, que requer o amadurecimento de sensibilidades específicas; a clara tomada de consciência de que a nossa missão é compartilhada com leigos e precisa, por isso, de novas capacidades relacionais; a atenção crescente aos temas ecológicos, comportando uma preparação específica nesse âmbito. Enfim, o novo mundo digitalizado impõe o repensamento do modo de organizar a nossa vida fraterna e a missão apostólica em seu conjunto, porque «o dobrar-se individualista sobre si mesmo, tão difundido e proposto socialmente nesta cultura amplamente digitalizada, exige uma atenção especial não apenas no que se refere aos nossos modelos pedagógicos, mas também ao uso pessoal e comunitário do tempo, das nossas atividades e dos nossos bens» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

18. Formação permanente: viver a existência em ótica formativa

Somos agradecidos pela presença de um bom número de Salesianos que reavivam continuamente o dom de Deus que receberam (cf. 2Tm 1,6), através de uma «atitude contemplativa, capaz de identificar e discernir os pontos nevrálgicos» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). Só assim se supera a ideia, infelizmente enraizada, de que a formação termina com a conclusão das etapas iniciais e com o acesso ao ministério.

Na verdade, falta em alguns irmãos a convicção de que o compromisso com a própria formação é o estilo perfeito de aceitação da missão e, por isso, torna-se difícil acender o desejo e a paixão pela formação permanente. Reconhecemos que, tanto em nível central como em nível inspetorial, houve um esforço de oferecer instrumentos e itinerários de formação, que, contudo, nem sempre trazem os frutos esperados. Resulta difícil, de modo particular, transformar a mesma experiência pastoral quotidiana em ocasião formativa, porque não fomos iniciados para discernir a partir da concretude da realidade. Por isso, a comunidade, tanto religiosa como educativo-pastoral, não consegue ser o ambiente natural e ordinário da nossa formação.

Contudo, é preciso reconhecer ainda que há certa confusão em relação aos sujeitos responsáveis e os itinerários de formação permanente: com frequência, faltam irmãos preparados para acompanhar esse itinerário, enquanto se nota uma pluralidade e fragilidade de referências formativas em nível inspetorial e local. Alguns assinalam o risco de reduzir a formação permanente a algum curso esporádico de atualização ou de confiá-la à entrega de algum novo manual. Há, enfim, num mundo sempre mais fluido, o desafio da “laboriosidade cultural” na Congregação, porque sem o estudo, a leitura e a atualização contínua não se conseguirá sair de uma pastoral de manutenção e repetição.

 

19. Formação inicial: uma realidade em evolução que deve ser acompanhada

Dos dados e das discussões emersos no Capítulo, reconhecemos que a formação inicial em seu conjunto é uma realidade poliédrica, positiva e encorajadora. Trata-se de um grande mosaico de diversas situações, em que reconhecemos a presença de novos dinamismos na Congregação.

Quem são hoje os jovens em formação? Sinteticamente, podemos afirmar que a maior parte deles provém da Ásia e da África; em seu conjunto são “jovens adultos” e não “adolescentes” como em tempos passados; são jovens do nosso tempo, que trazem consigo todas as potencialidades e fragilidades dos jovens de hoje; estão em busca de uma vida autêntica e de uma fraternidade profética, mesmo se, às vezes, as motivações que os trazem à vida salesiana precisam amadurecer; estando mais próximos da geração juvenil, têm facilidade de contato e uma comunhão natural de linguagem com o mundo juvenil. Isso tudo envolve uma abordagem formativa totalmente diferente em nossas casas de formação e centros de estudo.

A partir desta metamorfose epocal compreende-se que é uma verdadeira e própria urgência a busca e a formação de formadores a ser enfrentada da melhor forma possível. Reconhecendo que ser formador é uma “vocação na vocação”, será necessário passar da improvisação ao verdadeiro discernimento para a escolha qualificada dos formadores e docentes: não se trata de “recrutamento”, mas de verdadeiro diálogo vocacional. Ao reconhecer a comunidade como primeiro espaço formativo, os capitulares sublinharam o quanto seja decisiva a equipe dos formadores, que atuam em sinergia e sob a supervisão do Diretor; ele, mais que todos, tem a tarefa de acompanhar e coordenar o trabalho de todos.

 

20. A necessidade de assumir um novo estilo formativo

Como nos diz o Papa Francisco, «pensar a figura do Salesiano para os jovens de hoje, implica aceitar que estamos imersos num momento de mudanças» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). É preciso renovar, então, o nosso estilo formativo, a ser pensado sempre mais de forma personalizante, holística, relacional, contextual e intercultural.

É necessário, sobretudo, um estilo capaz de assumir os registros fundamentais da missão, porque é a missão que «dá a toda a nossa existência o seu tom concreto, especifica a tarefa que temos na Igreja e determina o lugar que ocupamos entre as famílias religiosas» (Constituições, art. 3) e também porque estamos convencidos de que «quando nos isolamos ou nos afastamos do povo que somos chamados a servir, a nossa identidade como consagrados começa a desfigurar-se e a tornar-se uma caricatura» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

O novo estilo formativo que sonhamos deveria fazer resplandecer a unidade da Congregação na pluralidade das suas expressões: é muito importante, contra o «grave perigo de uniformizar monoliticamente as culturas» reconhecer que a presença mundial da nossa realidade carismática «é um estímulo e um convite a guardar e preservar a riqueza de muitas culturas em que estais imersos sem procurar “homologá-las”» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

INTERPRETAR

21. A experiência formativa de Dom Bosco

Para um discernimento sadio da nossa formação, é útil refletir sobre a experiência formativa vivida por Dom Bosco. Ele mesmo narra seus momentos principais nas Memórias do Oratório, com muitas observações que deixam entrever claramente a sua visão sobre o tema. Detemo-nos aqui em particular sobre uma das etapas formativas pelas quais Dom Bosco demonstrou maior apreço, a do Colégio Eclesiástico. Dessa instituição, Dom Bosco diz: «Nele aprende-se a ser padre» (J. Bosco, Memórias do Oratório de São Francisco de Sales, Edebê, Brasília, 2012, p. 117).

A formação no Colégio Eclesiástico unia uma sólida proposta espiritual e cultural («Meditação, leitura, duas conferências por dia, aulas de pregação, vida recolhida, toda comodidade para estudar...») e o acompanhamento no encontro pessoal com «a malícia e a miséria dos homens» nos lugares de maior pobreza. O ponto forte que orientava os jovens padres a fazer a síntese entre oração e ministério, entre reflexão e prática pastoral era um grupo de formadores de perfil elevadíssimo, entre os quais sobressaía o Padre Cafasso. Dom Bosco encontrava-os na cátedra enquanto davam aulas, mas via-os também empenhados pessoalmente nas formas mais variadas e difíceis do ministério. Para ele e para seus companheiros, eles eram mestres sólidos de doutrina, apóstolos empreendedores e verdadeiros modelos de vida. Diríamos, hoje, uma equipe exemplar e coesa que acompanha de modo integral a aceitação da missão.

Os anos do Colégio Eclesiástico foram decisivos para o amadurecimento apostólico de Dom Bosco, e é belo notar que fora uma opção sua, a que não estava vinculado por nenhuma obrigação. Ele assumiu esse empenho quando já era padre e poderia ter iniciado logo a atividade com total dedicação. Aconselhado, porém, por Cafasso percorreu outro caminho, mais exigente, mas imensamente mais frutuoso. Seu exemplo nos ensina que a formação não termina com o fim dos estudos, com a profissão perpétua ou com a ordenação sacerdotal, mas permanece um processo aberto a cultivar com atenção por toda a vida. Recorda-nos, também, que o verdadeiro apóstolo não amadurece queimando etapas e que o investimento mais fecundo para a missão é o da boa formação.

 

FORMAÇÃO E VOCAÇÃO: O ACOMPANHAMENTO À LUZ DO CARISMA

 

22. O dom da formação

A formação na vida consagrada não se reduz apenas a um conjunto de técnicas e metodologias, mas é uma experiência de fé que afunda suas raízes no próprio mistério da vocação. Deus Pai, que nos escolheu antes da criação do mundo, continua a agir em nós com a força do seu Espírito, para sermos sempre mais conformados a Cristo. A meta do itinerário formativo é, de fato, chegar a ter em si os sentimentos do Filho, ou seja, sentir, pensar e agir n’Ele (cf. Fl 2,5).

Entender a formação no horizonte da vocação ajuda-nos a não a ver como um dever imposto de fora – das normas da Igreja ou da Congregação – mas como um dom da graça que nos ajuda a fazer realmente nossa a “forma” de vida consagrada salesiana, evitando que ela fique uma espécie de hábito exterior.

A existência de fracassos vocacionais lembra-nos o quão delicado é esse processo e como a acolhida inicial do chamado não nos protege automaticamente do risco de perder o rumo ou de voltar atrás. O que são, de fato, o clericalismo, o secularismo e o individualismo a não ser desvios da energia vocacional, que extinguem a sua beleza e impedem o seu crescimento por ausência de profundidade, falta de motivações ou pouca generosidade? A vocação sem uma formação adequada acaba confundindo-se com uma espécie de “voluntariado definitivo” em que realmente não se entrega o coração a Deus e aos jovens e não se aceita a conversão formativa que isso comporta.

 

23. O Sistema Preventivo como sistema formativo

Visto que a formação é uma pedagogia da graça, nunca pode ser primeiramente uma questão de regras e normas. Sem dúvida, elas são necessárias, porque preservam de erros e indicam caminhos consolidados, mas sozinhas não bastam para criar as condições de uma autêntica experiência formativa. Devemos, portanto, ter o cuidado de não dar soluções principalmente normativas a um desafio que é acima de tudo carismático e generativo. A formação é artesanato quotidiano, sabedoria prática, qualidade de testemunho, capacidade de ler as situações e tocar os corações: coisas todas que nenhuma lei pode assegurar e nenhum manual é suficiente para garantir. Como nos recorda o venerável P. José Quadrio, modelo extraordinário de formador e professor, essas qualidades são, antes de tudo, fruto da docilidade interior ao Espírito que suscita na nossa família carismática verdadeiros mestres de vida.

Valem, portanto, para a nossa proposta formativa todas as orientações de sabedoria prática que Dom Bosco ativava na educação. O Sistema Preventivo deve ser sempre redescoberto como o princípio inspirador e a alma profunda do nosso sistema formativo. Isso significa afirmar o primado da caridade teológica e da confiança sobre todo legalismo e formalismo; transmitir os valores vocacionais através de um autêntico espírito de família; envolver ativamente os irmãos mais jovens e torná-los corresponsáveis das opções formativas. A pedagogia do Sistema Preventivo é, de fato, pedagogia da confiança, que acredita nos recursos dos jovens e os incita à generosidade do empenho, sem nunca mortificar as suas intuições nem impedir a sua criatividade. É nesta lógica que o artigo 99 das nossas Constituições afirma: «Cada salesiano assume a responsabilidade da própria formação». Mediante a fidelidade a essa inspiração, a Congregação apresenta-se como mãe para cada irmão e ajuda-o a amadurecer no seu itinerário vocacional.

 

FORMAÇÃO E MISSÃO: UM PROCESSO UNITÁRIO

 

24. O “da mihi animas” como energia do processo formativo

A natureza apostólica do nosso carisma qualifica de modo determinante a nossa formação. Como nos recorda o Papa Francisco, «é importante dizer que não somos formados para a missão, mas que somos formados na missão, a partir da qual se articula toda a nossa vida, com as suas escolhas e as suas prioridades. A formação inicial e a permanente não podem ser uma instância prévia, paralela ou separada da identidade e da sensibilidade do discípulo» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). Estas palavras indicam com muita clareza que formação e missão estão estreitamente entrelaçadas e uma não pode existir sem a outra.

Compreender a formação no horizonte da missão significa antes de tudo ressaltar o Da mihi animas como energia profunda do processo formativo. Se essa energia se extingue e não libera mais ardor pelo bem dos jovens, a evolução vocacional fica seriamente comprometida. Se, porém, a paixão apostólica continua viva, alimenta o crescimento humano, o empenho no estudo, o cuidado com a vida espiritual, o amadurecimento pastoral. O Da mihi animas é, com efeito, o modo com que Deus nos faz participantes do seu amor pelo mundo.

Dom Bosco, afirma ainda o Papa, «não só não escolhe separar-se do mundo para buscar a santidade, mas deixa-se interpelar e escolhe como e que mundo habitar». Assumir a missão como princípio formativo requer desenvolver um olhar de pastor e uma coragem de profeta, que sabe estar com os jovens pobres e sonhar um mundo diferente com eles e para eles. Por isso «a missão inter gentes é a nossa melhor escola: a partir dela rezamos, refletimos, estudamos, repousamos» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

25. Para uma maior integração

A fim de superar a separação entre formação e missão é necessário primeiro abandonar a mentalidade de delegação, que não raramente tende a descarregar a responsabilidade deste delicado âmbito sobre as comunidades formadoras. A transmissão do carisma não ocorre, de fato, principalmente em comunidades especialmente estruturadas para isso, mas no frescor da partilha quotidiana do serviço aos jovens. A primeira fonte de formação na Congregação está no tesouro da vida generosa dos irmãos. Onde as comunidades são vivas no serviço, sólidas na espiritualidade e capazes de reflexão, os itinerários propostos pelas casas de formação são mais incisivos, porque introduzem num modo de viver a salesianidade encontrado pelos jovens irmãos na realidade ordinária das casas. Isso explica a importância que a nossa tradição sempre atribuiu ao tirocínio, etapa formativa tipicamente salesiana. Onde, por outro lado, a missão se confunde com o trabalho e não se cuida da formação permanente nas comunidades, todo o processo formativo fica empobrecido.

A maior integração requer, então, «encontrar um estilo de formação capaz de assumir de modo estrutural o fato de que a evangelização implica a participação plena, e de pleno direito, de cada batizado», fazendo das nossas casas «um “laboratório eclesial” capaz de reconhecer, apreciar, estimular e encorajar os diversos chamamentos e missões na Igreja» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). É o que procuramos fazer ao ativar o modelo de comunidade educativo-pastoral. De que modo esse modelo possa e deva incidir na formação inicial é uma questão que ainda não tem respostas claras. O Sínodo sobre os jovens falou, por exemplo, da importância de formar equipes formativas diferenciadas, que também incluam figuras femininas, com a interação de diversas vocações (cf. Documento final do Sínodo, n. 163). O diálogo entre as comunidades inspetoriais e as casas de formação pode favorecer, além disso, uma interação mais significativa com o caminho das comunidades educativo-pastorais e permitir aos formadores uma maior presença ao lado dos jovens irmãos em suas exercitações pastorais. Mais do que uma única solução estrutural, que não levaria em conta a notável diversidade dos contextos, é preciso trabalhar, então, para um renovado projeto formativo em sentido missionário, que buscará a sua atuação mais adequada em todos os ambientes.

 

FORMAÇÃO E MISSÃO: UM PROCESSO UNITÁRIO

 

26. Referências institucionais e atenção aos processos formativos

Um dos riscos do nosso processo formativo, denunciado várias vezes na Congregação, é certa fragmentação entre as diversas etapas. Sem dúvida, a passagem de uma fase a outra da formação inicial oferece a riqueza de novos estímulos e ajuda a abrir horizontes, mas traz consigo o esforço de recomeçar várias vezes o caminho do acompanhamento. Esse esforço se torna mais cansativo quando a formulação das opções formativas e os instrumentos oferecidos para o acompanhamento não são adequadamente coordenados.

Fica evidente, então, a necessidade de a Congregação caminhar para esclarecer e, onde possível, simplificar as referências institucionais e determinar com maior exatidão as tarefas e as responsabilidades das estruturas de coordenação entre as diversas fases e entre os diversos níveis da formação. Muitas vezes, de fato, decisões importantes para os itinerários formativos são adiadas ou permanecem sem resposta devido a incertezas do sistema.

Não faltam na Ratio e em seus anexos orientações preciosas para o trabalho formativo, sobretudo em relação aos objetivos a alcançar e aos critérios de admissão. Mais frágil, contudo, é o aspecto da metodologia e dos instrumentos. Por isso, é importante concretizar o caminho de revisão do acompanhamento formativo que se iniciou na Congregação e verificar seus resultados. A clareza nesse tema e a participação nele são a primeira condição para uma formação mais sólida e personalizada.

 

27. Formadores e centros de formação

Todo processo de crescimento requer condições estruturais que o facilitem. Nessa lógica, a vontade de promover um melhor acompanhamento deve traduzir-se em generoso investimento da Congregação na busca e na formação adequada de formadores, que saibam trabalhar em equipe, sob a guia e a responsabilidade do Diretor.

Não menos importante é a renovação dos nossos centros de estudo, chamados a assumir com determinação as indicações da Constituição Apostólica Veritatis Gaudium. Eles prestam um serviço indispensável não só aos jovens irmãos que os frequentam, como também à solidez cultural das nossas Inspetorias. Entre estes centros sobressai de modo particular a Universidade Pontifícia Salesiana, a voz cultural de maior autoridade da Congregação na Igreja. A renovação necessária requer reencontrar as razões que levaram à sua fundação há oitenta anos.

Os Centros Regionais de Formação oferecem um serviço apreciado para a formação permanente dos irmãos e são chamados sempre mais a assumirem também a formação conjunta com os leigos. As Regiões que ainda não os possuem deverão identificar as formas mais adequadas de garantir esse tipo de serviço.

 

ESCOLHER

28. Formazione e vocazione: un accompagnamento alla luce del carisma

Formação e vocação: o acompanhamento à luz do carisma.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da concepção de formação como “dever institucional” a uma visão de fé, que a acolhe como dom e exigência vocacional.
  • Do formalismo exterior à preocupação com o acompanhamento na lógica da confiança sincera e do espírito de família do Sistema Preventivo.
  • Da subestima da formação permanente ao cuidado pessoal e comunitário do próprio crescimento espiritual e apostólico.

Processos a ativar

  • O Reitor-Mor com seu Conselho estuda o problema da descontinuidade entre as etapas da formação inicial para facilitar um itinerário mais unitário de acompanhamento.
  • O Setor para a formação promove a atuação e a revisão das Orientações e Diretrizes “Jovens salesianos e acompanhamento”.
  • As comunidades de formação assumem uma organização formativa coerente com as grandes orientações espirituais e pedagógicas do Sistema Preventivo: espírito de família, envolvimento ativo dos irmãos, pedagogia da confiança e da confidência; o curatorium verifica e promove tal organização.
  • As Inspetoria e as comunidades promovem uma renovada cultura de acompanhamento, ajudando os irmãos a redescobrirem a sua importância e o seu valor.

Condições estruturais a garantir

  • Nas comunidades de formação inicial é garantida a presença de equipes capazes de transmitir vitalmente o Sistema Preventivo; os formadores propõem o acompanhamento espiritual pessoal em coerência com a proposta formativa da comunidade; cuida-se da presença de confessores adequadamente preparados.
  • Os Inspetores e os delegados inspetoriais dão atenção ao diálogo e ao encontro com as comunidades formativas, para favorecer a continuidade do acompanhamento na formação inicial.
  • Os irmãos em formação inicial são ajudados a descobrir o valor do acompanhamento espiritual pessoal.
 
29. Formação e missão: um processo unitário

Empenhemo-nos para superar a separação entre formação e missão, favorecendo uma renovada cultura da formação na missão em todos os níveis.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da delegação às casas de formação à consciência de que o estilo de vida das comunidades incide fortemente na formação dos jovens irmãos.
  • Da formação entendida como momento prévio à missão à preocupação com a solidez cultural e espiritual como condição permanente da vida apostólica.
  • De um estilo formativo elitista ao esforço de valorizar a contribuição formativa dos leigos e a responsabilidade missionária de todo batizado.

Processos a ativar

  • As Inspetorias preocupam-se com a qualidade formativa do tirocínio, garantindo as condições para a assimilação prática da pedagogia salesiana e do acompanhamento formativo.
  • As comunidades de formação inicial conservam um estilo sóbrio de vida, que preserve do aburguesamento e forme para as exigências da missão, e aumentam o acompanhamento das exercitações pastorais.
  • As Inspetorias investem na qualificação dos irmãos em salesianidade e dão atenção a uma maior solidez cultural; as comunidades locais verificam e potencializam o seu empenho para a formação no quotidiano.

Condições estruturais a garantir

  • O Setor para a formação oferece orientações para que o modelo da comunidade educativo-pastoral encontre uma atuação adequada também nas comunidades de formação, através do envolvimento de leigos e famílias no processo formativo.
  • As comunidades de tirocínio garantem o acompanhamento formativo dos tirocinantes, ajudam-nos a inserir-se na comunidade educativo-pastoral, empenham-se na avaliação do seu crescimento vocacional.
  • As comissões inspetoriais de formação ajudam as comunidades a verificar e potencializar a sua ação formativa na missão.
 
30. Formação e estruturas: uma renovação necessária

Invistamos energias na busca e na formação dos formadores e enfrentemos com coragem o repensamento das referências institucionais e das estruturas formativas.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Do debruçar-se sobre as urgências ao corajoso investimento na formação dos irmãos.
  • Do atendimento às necessidades locais à disponibilidade para oferecer irmãos e recursos às exigências formativas da Congregação e à colaboração entre Inspetorias.
  • Do risco da superficialidade à preocupação com o estudo sério e a solidez cultural dos irmãos.

Processos a ativar

  • O Reitor-Mor com seu Conselho promove o generoso esforço da Congregação para a busca e a formação dos formadores; as Inspetorias investem na formação dos irmãos e na preparação de formadores.
  • O Reitor-Mor com seu Conselho verifica a estrutura de governança da formação para torná-la mais clara, simples e funcional.
  • O Reitor-Mor com seu Conselho revê a quantidade e a distribuição das comunidades de formação inicial no interior de um projeto unitário; promove a renovação da Universidade Pontifícia Salesiana, a potencialização dos centros de estudo, o cuidado dos Centros Regionais de Formação.

Condições estruturais a garantir

  • O Setor para a formação revê as partes da Ratio que precisam ser adequadas às circunstâncias atuais, potencializando as orientações concretas de métodos e instrumentos compartilhados.
  • O Setor para a formação estuda as melhores modalidades para acompanhar as comunidades formativas interinspetoriais; define as funções do curatorium e acompanha a sua prática em diálogo com os Conselheiros-Regionais; acompanha os Inspetores ao aceitarem a sua responsabilidade formativa.
  • As Regiões promovem os Centros Regionais de Formação, examinam as suas propostas e criam-nos aonde ainda não existem.

 

Terceiro núcleo

COM OS LEIGOS NA MISSÃO E NA FORMAÇÃO

Durante a sessão de verão de 2020, o Conselho-Geral trabalhou sobre o terceiro núcleo do CG28, que não fora levado em consideração durante o Capítulo-Geral pela sua interrupção forçada por causa da pandemia.

O Conselho-Geral, a partir do “Instrumento de trabalho”, serviu-se da mesma metodologia de discernimento do CG28 e trabalhou com as mesmas modalidades das comissões capitulares. Para a redação do texto, procurou-se manter a mesma forma do primeiro e do segundo núcleos como foram elaborados pelo CG28.

 

RECONHECER

31. Realizações e resistências na missão compartilhada com os leigos

Reconhecemos que o CG24 é para todos “um ponto de não retorno” para a renovação do nosso modo de viver e trabalhar juntos. Ele está no centro do magistério salesiano pós-conciliar e, ao mesmo tempo, marca um retorno às origens do carisma salesiano: Dom Bosco, de fato, envolveu desde o início muitos leigos na sua missão juvenil e popular.

Reconhecemos que muitos passos foram dados em toda a Congregação, embora com velocidades e modalidades diferentes: envolvimento da comunidade educativo-pastoral; formação espiritual, pedagógica e pastoral dos leigos; inserção dos jovens nas equipes de animação; entrega de algumas obras aos leigos. Esta percepção de crescente envolvimento recíproco, de riqueza compartilhada, de força da ajuda conjunta e de fecundidade do carisma vai sendo concretizada gradualmente, passando da perspectiva de envolver os leigos na atividade educativo-pastoral à de compartilhar com eles a nossa espiritualidade.

Ao mesmo tempo, tomamos ciência de que ainda permanecem algumas dificuldades, porque nem sempre conseguimos fazer dos leigos participantes do espírito e da missão salesiana: muitas Inspetorias ainda precisam passar do envolvimento utilitarista dos leigos à estratégia da corresponsabilidade evangélica. Às vezes, também encontramos fenômenos de verdadeira e própria resistência: alguns religiosos lamentam o excessivo protagonismo dos leigos enquanto alguns leigos demonstram motivações oportunistas na sua oferta de colaboração. Também não é fácil, para os leigos mais compromissados na atividade educativo-pastoral, conciliar as exigências da missão salesiana com a vida pessoal e familiar. Ainda notamos em algumas situações certa tendência ao nivelamento dos diversos estados de vida, levando alguns a pensarem que os consagrados não são mais necessários para manter vivo o carisma.

 

32. Reciprocidade de relações entre Salesianos e leigos

As relações entre Salesianos e leigos são inspiradas muitas vezes na estima, no respeito, na cordialidade e na colaboração, sobretudo onde há clara identidade vocacional, uma proposta orgânica de formação e um caminho compartilhado com os devidos organismos e instrumentos como o Conselho da comunidade educativo-pastoral e o projeto educativo-pastoral salesiano.

Nem sempre, porém, se aceita e valoriza a contribuição peculiar dos leigos, levando em conta a sua identidade e experiência vocacional: sabe-se o que fazem, mas não se valoriza o que são. Onde falta clareza sobre as respectivas identidades, assiste-se a uma espécie de “clericalização dos leigos” e “laicização dos consagrados”. Neste caso, a colaboração quotidiana, em vez de fazer emergir a especificidade de cada um, leva ao nivelamento das identidades. Às vezes, os leigos são simplesmente classificados e posicionados no interior de um modelo hierárquico e piramidal de “obra salesiana”.

Às vezes, nós Salesianos sentimos certo desconforto com a gestão de obras complexas que exigem capacidades empresariais e a falta de preparação para os desafios que surgem do modelo pastoral de participação com os leigos. Reconhecemos que diante da mudança de época não somos realmente capazes de “discernir”, e, portanto, corremos o risco de ficar presos a lógicas de manutenção pastoral que se baseiam no “sempre se fez assim”.

Notamos que há diversas tipologias de leigos: funcionários, voluntários, jovens adultos, cristãos católicos ou de outras confissões, praticantes ou mais distantes da Igreja. Às vezes, com a mesma palavra “leigos”, que na linguagem eclesial indica os batizados (Christifideles laici), referimo-nos também a pessoas que trabalham em nossas obras, mas pertencem a outras religiões. Para evitar confusões ou rigorismos é importante enfrentar com seriedade as questões teológicas e pastorais subjacentes a essa complexidade. Será possível, então, esclarecer melhor o formato que a comunidade educativo-pastoral é chamada a assumir em contextos plurirreligiosos ou secularizados.

 

33. Formação conjunta de Salesianos e leigos

Nestes anos, amadureceram boas iniciativas de formação conjunta de Salesianos e leigos. Quanto aos cursos de formação, existem ótimas propostas em nível local, inspetorial e regional. Às vezes, há uma carência de sistematização nos itinerários formativos, que, depois, se manifesta na fragilidade da programação educativo-pastoral. Falta, de fato, uma formação mais orgânica, que tenha em vista a integração de todos os aspectos do carisma salesiano (espiritual, pedagógico, pastoral e profissional). Permanece aberto o tema da formação dos colaboradores de outras religiões e convicções.

A formação conjunta na vida quotidiana é feita principalmente mediante os itinerários da comunidade educativo-pastoral, com seus organismos e processos de animação, discernimento e governo. A vida da comunidade educativo-pastoral é um dos espaços mais eficazes para a formação conjunta entre Salesianos e leigos e ótimo exemplo de “formação na missão”.

Nota-se, em alguns irmãos, certa resistência a serem envolvidos na formação com os leigos e a dificuldade de abandonar uma atitude de presumida superioridade. Outra fonte de dificuldade à formação conjunta é o cansaço, o excesso de atividades e o acúmulo de tarefas e papéis. Em alguns leigos não há grande consciência do seu papel na Igreja e, portanto, pouca vontade de assumir as responsabilidades formativas que decorrem desse papel.

 

34. As diversas formas de relação entre a comunidade religiosa e a obra salesiana

Existem atualmente na Congregação diversas formas de relação entre comunidade religiosa e obra salesiana: obras ou setores de obras confiados conjuntamente à comunidade salesiana e aos leigos; obras confiadas a leigos no interior do projeto inspetorial; obras em que a animação pastoral, mas não a gestão, é confiada a uma comunidade salesiana próxima. E persistem obras em que o número dos irmãos permite assumir todos os papéis de responsabilidade; neste caso, há muitos colaboradores leigos com pouca ou nenhuma responsabilidade; aqui as estruturas de animação da comunidade educativo-pastoral são muito frágeis ou ausentes.

Quando se trata de uma obra confiada conjuntamente a Salesianos e leigos, nem sempre se fez o que afirma o CG24 nos números 149-159. Quando se trata de uma obra com gestão laical sob a direção da Inspetoria, em muitos casos, as Inspetorias fizeram grande esforço de reflexão e criatividade para enfrentar o desafio do acompanhamento.

Embora reconhecendo aspectos positivos, registram-se também problemas de certo peso: dificuldade de os Salesianos garantirem um acompanhamento sistemático; dificuldade de os leigos conciliarem os trabalhos solicitados por essas obras com as exigências da vida familiar; dificuldades relacionadas com a substituição dos leigos; ausência de critérios e instrumentos de controle; necessidade de ativar práticas de avaliação da gestão; necessidade de encontrar um quadro jurídico adequado; exigência de mudança da cultura formativa das duas partes em vista de preparar-se mais para administrar essas novas realidades. Há até mesmo situações em que não são claros nem bem definidos o papel, as competências e as funções dos Salesianos e dos leigos com responsabilidade nas casas.

A entrega de uma obra ou setor de uma obra inteiramente aos leigos continua no interior do projeto e da responsabilidade da Inspetoria. Existem situações em que a Inspetoria confia a uma entidade jurídica (fundação, associação, cooperativa, sociedade) uma atividade, uma obra ou setores dela e a utilização de imóveis de sua propriedade. Neste caso, nem sempre é estipulado um convênio que regule as relações jurídicas e econômicas.

 

INTERPRETAR

 

35. Dom Bosco, Pai e Mestre no envolvimento e na corresponsabilidade

Os elementos fundamentais para aprofundar a teoria e a prática da comunhão e da participação no espírito e na missão de Dom Bosco são apresentados no texto do CG24, que permanece uma referência imprescindível neste campo.

Do ponto de vista inspirador alguns preciosos parágrafos demonstram que em todo o seu itinerário existencial o nosso Fundador preocupou-se em envolver o maior número possível de colaboradores no seu projeto operativo, dando origem a um «vasto movimento de pessoas que, de várias maneiras, trabalham para a salvação da juventude» (Constituições, art. 5): dos amigos mais próximos aos companheiros de estudo, de Mamãe Margarida aos empregadores, da gente simples do povo aos teólogos, dos nobres aos políticos da época (cf. CG24, 69-86).

Nascemos e crescemos historicamente em comunhão com os leigos e eles conosco. Em particular, devemos evidenciar a importância dos jovens no desenvolvimento do carisma e da missão salesiana: Dom Bosco teve nos jovens os seus primeiros colaboradores, que assim se tornarão, em certo sentido, cofundadores da Congregação!

Neste dinamismo constante orientado para a busca de comunhão, participação e corresponsabilidade encontramos ainda hoje um dos aspectos qualificadores do nosso chamado a trabalhar pelo advento do Reino de Deus no mundo.

 

IGREJA SINODAL PARA A MISSÃO E ESPECIFICIDADE DAS VOCAÇÕES

 

36. À raiz das realizações e das resistências

Muitas das resistências para levar a sério a participação do espírito e da missão salesiana têm suas raízes na frágil recepção dos dois grandes pilares eclesiológicos do Concílio Vaticano II: a realidade da Igreja como Povo de Deus em caminho na história e a consequente eclesiologia de comunhão, que exalta a reciprocidade e complementaridade das diversas vocações na Igreja.

A partir dessa perspectiva é evidente que a participação dos leigos no carisma e na missão salesiana não é uma concessão generosa feita pelos Salesianos consagrados e nem sequer de uma estratégia de sobrevivência. São Paulo ensina com clareza que os carismas são dons distribuídos pelo Espírito para utilidade comum (1Cor 12); eles não são prerrogativa de um determinado estado de vida, mas enriquecem a vida da Igreja na diversidade e complementaridade das suas vocações.

Convencidos de que não existe dignidade mais elevada daquela que nos foi conferida com o batismo, de modo que «cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização» e que «seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações» (Evangelii gaudium, n. 120), sentimo-nos chamados – Salesianos, membros da Família Salesiana, leigos e jovens – a viver, cada um na sua especificidade, a própria vocação em vista da edificação recíproca. Onde esta abordagem eclesiológica é acolhida com alegria e aprofundada com convicção, os resultados são bem visíveis: a comunidade educativo-pastoral floresce e se torna uma experiência de Igreja que vive a comunhão e a missão de maneira atraente e fecunda.

 

37. A “sinodalidade missionária” da Igreja

A redescoberta da forma sinodal da Igreja foi um dos pontos qualificantes do recente Sínodo sobre os jovens: «O fruto deste Sínodo, a opção que o Espírito nos inspirou através da escuta e do discernimento é caminhar com os jovens, indo ao encontro de todos para lhes testemunhar o amor de Deus. Podemos descrever este processo com a expressão sinodalidade para a missão, ou seja, sinodalidade missionária» (Documento final do Sínodo, n. 118.). Os jovens, mais do que nos pedir para fazer alguma coisa por eles, convidaram-nos a caminhar com eles!

O Papa Francisco é ainda mais radical quando declara que «o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio» (cf. Comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, Discurso do Santo Padre Francisco, 17 de outubro de 2015). Coerente com essas afirmações a XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – ainda em fase de preparação e a ser realizada em outubro de 2022 – terá como tema a sinodalidade: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão”.

Estas palavras não podem deixar indiferentes os nossos ambientes salesianos, e exigem conversão do coração e da mente, unidos a uma renovada disponibilidade à mudança das práticas. Realmente, a pastoral juvenil – que «só pode ser sinodal» (Christus Vivit, n. 206) – deveria avançar sem demora nessa direção, abrindo novos caminhos em benefício de todos. Fica sempre mais claro que só homens e mulheres de comunhão construirão o espírito de família e compartilharão a missão.

 

38. Reciprocidade de relações, carisma dos leigos e papel da comunidade religiosa

A boa identificação com a própria vocação e o conhecimento adequado da vocação dos outros são fundamentais para não reduzir a missão compartilhada a colaboração executiva. Salesianos que vivem com alegria e frescor o seu chamado específico são capazes de uma presença animadora incisiva e fraterna e sabem oferecer aos leigos um apoio afetivo e efetivo nas dificuldades que encontram. Os leigos que assumem com convicção o próprio chamado batismal a testemunhar o Evangelho libertam-se do complexo de serem relegados a serviço pastorais de segundo grau. Juntos nos tornamos “laboratório eclesial” e sinal profético de comunhão para a Igreja e a sociedade.

Às vezes, os jovens recebem com maior consideração o testemunho dos leigos, por ser menos óbvio e porque supõem que eles não falem e ajam pela lógica da pertença. A sua vocação, colocando-se no coração do mundo, torna-os, às vezes, mais adequados para responder aos novos problemas culturais dos jovens. Assim, os leigos falam uma linguagem mais apropriada às situações ordinárias da vida e, frequentemente, possuem especificidades profissionais que os tornam preciosos na missão.

A mudança no papel da comunidade religiosa dependerá de diversos fatores, mas, entre eles, serão sempre mais relevantes: a disponibilidade de reler-se diante da opção carismática fundamental; a disposição de questionar o papel de gestor e responsável único da obra diante da corresponsabilidade com os leigos; a capacidade de reler o significado da própria presença no interior do contexto em que se encontra.

 

GESTÃO DA OBRA, VIDA DA COMUNIDADE E NÚCLEO ANIMADOR

 

39. Duas modalidades operativas e centralidade do núcleo animador

A Congregação reconhece atualmente apenas duas modalidades de relação entre comunidade salesiana e obra. A primeira e mais importante, a ser considerada como norma de referência, é composta conjuntamente pela comunidade salesiana e pelos leigos; a segunda refere-se à «atividades e obras dirigidas por leigos dentro do projeto inspetorial salesiano» (cf. CG24, n. 180-182).

Acreditamos que não exista mais o modelo – que, antes do Concílio Vaticano II, podia ser tido como válido – que prevê a animação de uma obra somente pelos Salesianos. Reafirmamos com força que a missão salesiana é estruturalmente comunitária e é confiada a uma comunidade educativo-pastoral e ao seu núcleo animador, composto por Salesianos e leigos em modalidade e proporção diferentes e complementares: a missão que Dom Bosco nos confiou nunca é uma ação individual e autorreferencial!

Em cada um destes dois modelos é central o “núcleo animador” ou o “Conselho da comunidade educativo-pastoral”, a ser considerado como motor e coração de toda a comunidade educativo-pastoral, porque da sua qualificação e do seu correto funcionamento depende o bom andamento da obra. Ele é um precioso órgão de animação e a chave para a vida da obra: trata-se de «um grupo de pessoas que se identifica com a missão, com o sistema educativo e com a espiritualidade salesiana, e assume solidariamente a missão de convocar, motivar, envolver todos os que se interessam por uma obra, para formar com eles a comunidade educativa e realizar o projeto de evangelização e educação dos jovens» (cf. J. E. Vecchi in ACG 363, p. 4; Quadro referencial da pastoral juvenil salesiana, V,1,3; Animação e governo da comunidade, n. 121-122).

 

40. Obras confiadas a Salesianos e leigos

A comunidade, nas obras confiadas à comunidade religiosa e aos leigos, é parte significativa do núcleo animador e ponto de referência carismático: «Este nível de participação do espírito e da missão de Dom Bosco com os leigos marca uma nova fase no desenvolvimento do nosso carisma. De aí deriva a necessidade de a comunidade religiosa salesiana reconsiderar e assumir plenamente o seu papel, relativamente novo, no interior da comunidade educativo-pastora. [...] Isso comporta a mudança radical da estrutura piramidal da autoridade ao estilo mais participativo, no qual as relações e os processos pessoais são da máxima importância» (Animação e governo da comunidade, n. 124).

A forma concreta da relação da comunidade religiosa com a obra no seu conjunto não pode ser reduzida a um modelo único (cf. CG26, n. 120). Por isso, é necessário levar em consideração alguns fatores determinantes: os diversos níveis de pertença e participação do espírito e da missão salesiana; os diversos graus em que se realiza a corresponsabilidade; o tipo de obra; a natureza voluntária ou contratual da presença dos leigos. Deve-se recordar, enfim que a «relação adequada entre comunidade salesiana e obra, como também a modalidade com que a autoridade do diretor é exercida, deve ser codificada no projeto educativo-pastoral inspetorial e local» (Animação e governo da comunidade, n. 125).

 

41. Atividades e obras administradas por leigos no interior do projeto inspetorial salesiano

O CG24, há 24 anos, colocava este segundo tipo de obra entre as “Situações particulares de novidade” (cf. CG24, capítulo III, 180-186)). Hoje, podemos afirmar que aquelas novidades passaram a fazer parte do patrimônio ordinário da Congregação em nível mundial, embora com proporções, formas e modalidades muito diversas entre as regiões e inspetorias.

É importante reafirmar as duas condições essenciais para confiar uma obra aos leigos: em primeiro lugar, devem ser averiguados os critérios de identidade, comunhão e significatividade salesiana; em segundo lugar, deve ser garantido o acompanhamento constante e qualificado do Inspetor e seu Conselho (cf. CG24, 180-182; Quadro referencial da pastoral juvenil salesiana, VIII, 2,2); Animação e governo da comunidade, 126).

Estas condições devem ser examinadas com atenção no contexto do discernimento e da entrega da obra aos leigos. São necessárias a opção carismática e a formação adequada, sobretudo para os que ocupam cargos diretivos, bem como a remuneração e condições de trabalho équas e justas. Enfim, não se deve esquecer que o caminho feito com os leigos, além de ser acompanhado, deve ser constantemente verificado.

 

FORMAÇÃO CONJUNTA PARA A MISSÃO

 

42. Uma prioridade absoluta que envolve diversos níveis de governo e animação

A participação do estilo salesiano e o crescimento na corresponsabilidade exigem a participação em alguns itinerário e experiências formativas orientadas à espiritualidade e à missão, obviamente sem descuidar dos itinerários formativos específicos para consagrados Salesianos e leigos. A formação conjunta na missão compartilhada é uma prioridade absoluta e deve ter em vista sobretudo os membros do núcleo animador (cf. Animação e governo da comunidade, n. 106.122). Nossos colaboradores leigos precisam conhecer Dom Bosco de perto e refletir sobre o que se vive nas nossas obras.

É tarefa da Inspetoria e da Região oferecer itinerários formativos adequados para Salesianos e leigos. A Inspetoria é chamada a elaborar um plano de formação conjunta em nível inspetorial e de acompanhamento dos processos em nível local, garantindo recursos adequados de pessoas e meios. Em nível local, um dos primeiros objetivos que o Diretor salesiano busca com o Conselho da comunidade salesiana e o núcleo animador da comunidade educativo-pastoral é a elaboração de um projeto formativo que dê atenção especial ao tema.

A experiência confirma ser muito positivo confiar a equipes mistas, compostas por Salesianos e leigos, a organização das diversas iniciativas de formação: os Salesianos oferecem o conhecimento adquirido na formação, na assistência e na espiritualidade; os leigos por sua vez oferecem, além das suas competências específicas, os frutos do contato com o mundo das profissões, a maior atenção à vida familiar, o estilo de simplicidade e amizade na relação com as mulheres e o sentido evangélico da vida quotidiana.

É bom recordar, enfim, que a formação não acontece apenas através de cursos acadêmicos, mas sobretudo a partir da experiência de viver e trabalhar juntos, porque «o primeiro e melhor modo de formar-se e formar para a participação e a corresponsabilidade é o funcionamento correto da comunidade educativo-pastoral» (CG24, n. 43).

 

43. Formação inicial e permanente dos Salesianos

«É importante dizer que não somos formados para a missão, mas que somos formados na missão, a partir da qual se articula toda a nossa vida, com as suas escolhas e as suas prioridades. A formação inicial e a permanente não podem ser uma instância prévia, paralela ou separada da identidade e da sensibilidade do discípulo. A missão inter gentes é a nossa melhor escola: a partir dela rezamos, refletimos, estudamos, repousamos. Quando nos isolamos ou nos afastamos do povo que somos chamados a servir, a nossa identidade como consagrados começa a desfigurar-se e a tornar-se uma caricatura». Estas intensas afirmações do Papa Francisco em sua Mensagem ao CG28 falam-nos da importância de uma mudança radical de perspectiva na formação de todos os irmãos e em especial daqueles que vivem a formação inicial: devemos aprender sempre mais a refletir criticamente sobre a experiência pastoral que realizamos entre os jovens!

A formação na e para a missão compartilhada deve tocar também a formação inicial dos Salesianos, não só como tema de estudo, mas também através das experiências pastorais semanais e de férias. A experiência de trabalhar com e sob a direção de leigos durante o tirocínio, como também a participação no Conselho da comunidade educativo-pastoral são momentos preciosos de formação, especialmente se bem acompanhados pelos membros do núcleo animador, tanto leigos como Salesianos.

 

44. Colaboradores de outras religiões e convicções

O nosso trabalho educativo é compartilhado, nos contextos secularizados e plurirreligiosos, por pessoas de diversas religiões e convicções. Muitas delas também são inseridas no núcleo animador da comunidade educativo-pastoral. A sua formação é um delicado desafio que requer sabedoria, coragem e criatividade. A doutrina da Igreja ensina que a revelação de Deus em Cristo, embora supere surpreendentemente a sabedoria humana e a experiência de outras tradições religiosas, traz à tona as sementes da verdade que elas contêm e convida de muitas maneiras ao diálogo inter-religioso. Por isso, é possível individualizar alguns valores comuns que ponham as bases para uma formação diferenciada, inculturada e contextualizada sem comprometer a originalidade da fé cristã.

O CG24 já dedicara uma rica reflexão sobre esse tema (cf. CG24, n. 113,183-186), individualizando dois elementos fundamentais que constituem a base para colaborar com pessoas de outras tradições e convicções: primeiramente, o compartilhamento do Sistema Preventivo (em seus valores humanos e laicais com quem não crê em Deus; nos valores religiosos com os que aceitam Deus ou o Transcendente; no Evangelho de Cristo com cristãos de outras Igrejas e comunidades eclesiais); depois, a abertura à busca de Deus, da parte dos que não professam uma fé (cf. CG24, n. 185.100). Uma vez que «a missão juvenil nos leva a uma educação que é ao mesmo tempo evangelização», o CG24, também reconhecera que posições hostis à Igreja católica como se encontram em algumas ideologias, seitas ou movimentos, porém, são incompatíveis com a nossa missão (cf. CG24, n. 185).

Após a experiência destes decênios, seria útil verificar a aplicação desses critérios e os resultados concretos que deles decorrem em termos de educação e evangelização, para evidenciar as boas práticas a fortalecer e os riscos a evitar. A condição fundamental é, certamente, a presença consistente de Salesianos e, onde possível, de leigos cristãos que vivem a própria identidade vocacional com alegria e autenticidade (CG24, n. 183-185; Animação e governo da comunidade, n. 135), sem ocultar o que constitui o coração e a motivação de fundo da vida deles. É igualmente importante o clima de respeito, paciência, acolhida e amizade, que evita tanto a imposição de valores e convicções quanto o receio de abordar temas que qualificam a nossa identidade.

Estamos convencidos de que podemos compartilhar com todos os homens de boa vontade que desejam participar da missão salesiana a bondade paterna (amorevolezza) de Dom Bosco, a razoabilidade inerente ao seu sistema educativo e a confiança nos recursos dos jovens, a opção privilegiada dos mais pobres e o empenho pela cultura do acolhimento que não conhece limites de raça, cor, nação, cultura e religião.

 

ESCOLHER

45. Igreja sinodal, missão compartilhada e comunidade educativo-pastoral

Assumamos decididamente a missão compartilhada entre Salesianos e leigos, valorizando a reciprocidade das vocações

Atitudes e mentalidades a converter

  • De uma missão confiada aos “papéis pessoais” dos consagrados à consciência da eclesiologia de comunhão e à redescoberta do papel dos leigos.
  • De ver os leigos como simples “colaboradores” em vista da melhor realização do trabalho apostólico a considerar a corresponsabilidade laical como critério carismático fundante.
  • De contemplar os jovens como meros destinatários das nossas intervenções educativas ao senti-los corresponsáveis da única missão.

Processos a ativar

  • Os Setores para a formação e para a pastoral juvenil favorecem a redação de algumas diretrizes para a animação e acompanhamento da comunidade educativo-pastoral, segundo as “boas práticas” da Congregação.
  • As Inspetorias dão uma atenção especial em reforçar a compreensão da comunidade educativo-pastoral, cuidam da formação dos seus membros e da preparação do projeto educativo-pastoral salesiano, verificando periodicamente o caminho feito.
  • As Inspetorias confiam gradualmente papéis de responsabilidade institucional aos leigos carismaticamente fundamentados e profissionalmente preparados, em nível local e inspetorial, envolvendo-os na programação pastoral e na gestão econômica.

Condições estruturais a garantir

  • As Inspetorias estudam e definem os modelos de gestão para os vários tipos de tarefas confiadas aos leigos no interior do projeto inspetorial (Plano Orgânico Inspetorial, Projeto Educativo-Pastoral Salesiano Inspetorial, Diretório inspetorial), com referência particular aos encargos, à justa remuneração econômica, à duração dos cargos e aos órgãos de decisão.
  • As Inspetorias fazem um sério acompanhamento das obras de gestão laical mediante a presença do Inspetor e da equipe de animação inspetorial e, para tanto, redigem um estatuto.
  • As Inspetorias envolvem os grupos da Família Salesiana no plano de redesenho das presenças salesianas, predispondo experiências de colaboração em favor dos mais pobres.

 

46. Formação conjunta para a missão

Asseguremos espaços e tempos de formação conjunta e compartilhamento de vida entre Salesianos e leigos para um mais adequado serviço educativo-pastoral aos jovens.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da formação conjunta esporádica e ocasional a uma formação mais sistemática, que tenha em vista integrar todos os aspectos da missão salesiana (espiritual, pedagógica, pastoral e profissional)
  • Da formação dada apenas pelos consagrados a uma formação programada e realizada com os leigos.
  • De uma mentalidade autossuficiente à real experiência da necessidade da formação conjunta.

Processos a ativar

  • Os Setores para a formação e para a pastoral juvenil promovem uma reflexão em nível regional em vista da renovada compreensão e valorização da formação conjunta no horizonte da missão compartilhada.
  • O Setor das missões coordena a reflexão para o aprofundamento das condições necessárias para a participação de leigos colaboradores de outras religiões e convicções na missão salesiana, propondo itinerários de formação idôneos e diferenciados, centrados nas colunas do Sistema Preventivo.
  • As Inspetorias investem na formação conjunta – também durante a formação inicial – com o auxílio de estruturas regionais de formação permanente e garantindo o apoio econômico para favorecer a participação dos leigos.

Condições estruturais a garantir

  • As Inspetorias elaboram o projeto de formação conjunta distinguindo os níveis de formação, conteúdos, destinatários e sujeitos através de itinerários diversificados de formação (humana, espiritual, salesiana e profissional).
  • A comunidade local oferece processos de formação para Salesianos e leigos capazes de compartilhar a vida espiritual e fraterna além da ação educativo-pastoral.
  • A comunidade local dá início a itinerários de construção da comunidade educativo-pastoral e dos Conselhos da comunidade educativo-pastoral como núcleo de animação e espaço eficaz para iniciar experiências sistemáticas de espiritualidade, comunhão e serviço com os leigos e com os jovens.

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DELIBERAÇÕES DO CG28

MODIFICAÇÕES DAS CONSTITUIÇÕES[1]

 

1. Eleição do Reitor-Mor (Const. 128)

O Reitor-Mor é eleito pelo Capítulo-Geral por um período de seis anos e pode ser eleito somente para um segundo sexênio. Não pode demitir-se do cargo sem o consentimento da Sé Apostólica

 

2. Eleição do Vigário do Reitor-Mor e Conselheiros-Gerais (Const. 142 §1)

O vigário do Reitor-Mor permanece no cargo seis anos e pode ser eleito no mesmo cargo somente para um segundo sexênio.

Ao término do segundo sexênio, ele só pode ser eleito Reitor-Mor.

Os Conselheiros-Gerais permanecem no cargo seis anos. Podem ser eleitos no mesmo cargo ou em outro cargo, como Conselheiros-Gerais, somente para um segundo sexênio.

Ao término do primeiro ou do segundo sexênio, os Conselheiros-Gerais podem ser eleitos Vigário do Reitor-Mor ou Reitor-Mor.

 

MODIFICAÇÕES DOS REGULAMENTOS-GERAIS

 

3. Tarefas do Conselheiro-Regional (Reg. 135)

Os Conselheiro-Regionais mantêm-se em contato com casa uma das Inspetorias: devem visitá-las periodicamente, reunindo os Conselhos-Inspetoriais. De acordo com os inspetores, podem reunir os diretores e outros grupos de irmãos e leigos para sugerir o que creem de mais oportuno para o bem da Congregação e para o melhor serviço da inspetoria e da Igreja particular.

Tenham ao menos um encontro anual com todos os inspetores da Região e mantenham as ligações com os organismos da Região, as comunidades formadoras e as Conferências inspetoriais.

 

4. Uso do sistema informático nas votações eletivas (Reg. 131)

O procedimento de eleição é realizado mediante o sistema informático (intranet). Para ela fica à disposição de todos os capitulares o acesso à ficha de dados pessoais de todos os sócios que podem ser eleitos. Os capitulares exprimem o voto selecionando o sobrenome do sócio pelo qual entendem exprimir a preferência.

Caso se percebesse o mal funcionamento técnico do sistema, recorre-se ao procedimento de eleição mediante cédula cartácea.

Os escrutinadores as contarão para verificar se o número de votos corresponde ao dos eleitores.

Se o número de votos superar o dos eleitores, a votação é nula; se corresponder ou for inferior, far-se-á o escrutínio. Os secretários anotarão os nomes que um escrutinador irá lendo. 

 

DELIBERAÇÃO

 

6. Modalidades de realização da visita extraordinária (Reg. 104)

O Reitor-Mor e o Conselho-Geral, no início do sexênio, prevejam os tempos e as modalidades de realização das visitas extraordinárias em cada Região, valorizando as possibilidades oferecidas pelo art. 104 dos Regulamentos-Gerais, de modo a garantir, em todo caso,

  • a possibilidade do colóquio pessoal de cada irmão com o delegado do Reitor-Mor;
  • o conhecimento das situações locais, em que se realiza a nossa missão;
  • o efetivo exercício dos poderes de jurisdição requeridos pela natureza da visita;
  • a presença do Regional, ao menos em alguns momentos durante a visita, se feita por outro visitador;
  • a comunicação entre o visitador e o Regional para garantir após a visita o ulterior acompanhamento pelo Regional;
  • tempos adequados para que o Conselheiro-Regional possa realizar as tarefas próprias do seu ofício a serviço da Região e de cada inspetoria (Const. 140 e 154; Reg. 135-137).

 

[1] As modificações a seguir de artigos das Constituições foram apresentadas ao Santo Padre para a aprovação através da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Elas foram aprovadas pelo Santo Padre em 7 de março de 2020 (Prot. n. T. 9-1/2002).

 

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