CG28

Quais salesianos para os jovens de hoje?

Quais salesianos para os jovens de hoje?

Documento Pós-capitular
aprovado pelo reitor-mor
E pelo conselho-geral

16 de agosto de 2020

Primeiro núcleo: RIORIDADE DA MISSÃO SALESIANA

Segundo núcleo: PERFIL DO SALESIANO HOJE

Terceiro núcleo: COM OS LEIGOS


Primeiro núcleo

PRIORIDADE DA MISSÃO SALESIANA

ENTRE OS JOVENS DE HOJE

 

O primeiro núcleo foi apresentado durante o CG28 e aprovado substancialmente pela Assembleia capitular.

O Conselho-Geral, na sessão de verão de 2020 apenas o reviu à luz das observações das comissões capitulares. 

 

RECONHECER

1. Com um olhar de fé

Como membros do 28º Capítulo-Geral estamos convencidos de que Deus, mediante o seu Espírito, está presente na vida de todos os jovens do nosso tempo. Através do discernimento procuramos reconhecer, antes de tudo, a Sua ação, procurando entrar no ritmo de «uma dupla docilidade: docilidade aos jovens e às suas exigências e docilidade ao Espírito e a tudo aquilo que Ele deseja transformar» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

Isso nos levou, desde o início, a ter um olhar positivo, plasmado pela humildade, simpatia, coragem, inteligência, fé e esperança, na certeza de que é justamente esse «o olhar de Deus Pai, capaz de valorizar e nutrir os germes de bem semeados no coração dos jovens», que devem ser, portanto, considerados por nós como “terra santa” (cf. Christus Vivit, n. 67).

Chamados a ser amigos, pais e pastores dos jovens queremos fazer nosso esse olhar divino, conscientes de assim seguir os passos do nosso amado Pai Dom Bosco que, guiado pela mão da Auxiliadora concretizou a sua obra precisamente em Valdocco.

 

2. À escuta do grito dos jovens

Quem são os jovens de hoje? Qual é a condição deles? O que buscam? O que nos pedem? Para responder a essas questões pusemo-nos primeiramente à escuta.

Tivemos a graça de ter entre nós alguns jovens provenientes do mundo todo, que representaram os muitíssimos jovens que se fizeram presentes nos nossos Capítulos inspetoriais durante a preparação do CG28. Escutamos a sua voz com atenção e comoção. Eles comunicaram-nos a sua ansiedade espiritual e fome de Deus, o seu desejo de ser protagonistas e artífices de um mundo melhor, o seu esforço para crer e ir contracorrente em relação às lógicas do nosso tempo. Pediram-nos para ser menos “gestores” e mais “pastores”, viver entre eles e encontrar tempo para acompanhá-los.

Nos muitos momentos de trabalho em comum também tomamos conhecimento das muitas pobrezas dos jovens, que nos deixaram horrorizados como Dom Bosco em sua primeira visita às prisões de Turim. O clamor de tantos jovens toca também hoje o nosso coração: pobreza econômica, social e cultural; pobreza afetiva, relacional e familiar; pobreza moral e espiritual. Em muitos contextos o desemprego e a impossibilidade de estudar penalizam largas faixas de jovens.

Os jovens, de muitos modos, apresentaram-se como profetas: com a presença deles, o Senhor nos faz conhecer continuamente as suas expectativas e os seus apelos à renovação da nossa missão. Como Dom Bosco «não descobriu a sua missão diante de um espelho, mas no sofrimento de ver jovens que não tinham futuro, também o Salesiano do século XXI não descobrirá a sua própria identidade, se não for capaz de sofrer com “a quantidade de jovens saudáveis e fortes, de espírito vivo, que estavam na prisão atormentados e completamente despojados de alimento espiritual e material... Neles estava representada a odiosidade da pátria, a desonra da família”; e nós poderíamos acrescentar: da nossa própria Igreja» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

3. No interior de uma mudança de época

Vivemos uma mudança de época: hoje, mais do que nunca, «ninguém pode dizer com certeza e precisão (se alguma vez foi possível fazê-lo) o que irá acontecer no futuro próximo a nível social, econômico, educativo e cultural» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). É evidente, então, que não é mais possível pensar a nossa missão na forma do “sempre se fez assim”. Se de um lado, essa situação nos desorienta, de outra, pede que nos envolvamos nela com humildade e coragem, pedindo-nos para recuperar os dinamismos juvenis que eram tão vivos em Dom Bosco. Estamos convencidos mais do que nunca do que nos disse o Papa Francisco, aqui em Valdocco, na Basílica de Maria Auxiliadora, em 21 de junho de 2015: «O vosso carisma é de uma grandíssima atualidade. Olhai para as ruas, olhai para os jovens e tomai decisões difíceis. Não tenhais medo. Como ele fez».

Com alguns desafios perenes que continuam a questionar-nos, o nosso tempo apresenta algumas novidades com as quais é inevitável confrontar-nos. A revolução digital pede-nos para compreender as profundas transformações que acontecem não só no campo da comunicação, mas sobretudo no modo de determinar e administrar as nossas relações humanas. O campo da afetividade, com todas as questões ligadas ao gênero e à identidade sexual, desafia a nossa visão antropológica. A condição da mulher e o seu papel na sociedade e na Igreja pedem-nos uma reflexão mais atenta e profunda. A sensibilidade ecológica, que está em rápido crescimento no mundo juvenil pede para sermos proféticos neste campo através de opções claras e coerentes. O contato com os jovens migrantes, refugiados e muitos outros jovens privados de seus direitos fundamentais torna-se para nós um apelo urgente à ação. Enfim, a dolorosa experiência dos abusos, que toca também a nossa Congregação, é um forte apelo à conversão.

 

4. A transmissão da fé

A rápida mudança em curso toca os processos ordinários de transmissão da fé. Sobre isso, encontram-se grandes diferenças: se em alguns contextos a vida de fé não apresenta nenhum problema e os jovens vivem com naturalidade a sua pertença à Igreja, em outros profundamente secularizados a fé cristã tornou-se uma questão que não tem qualquer relevância pessoal e social. Em alguns territórios onde estamos presentes há fundamentalismo, discriminação e até mesmo perseguição; em outros, pode-se propor o Evangelho livremente. Trabalhamos também em muitos contextos plurirreligiosos em que a maioria dos jovens que frequentam as nossas obras pertencem a outras religiões ou outras confissões cristãs.

Diante da crise global da autoridade, da tradição e da transmissão da fé somos desafiados sobre os estilos, conteúdos e modalidade de anunciar Jesus Cristo, enquanto nos sentimos todos chamados a ser “missionários dos jovens”. Convencidos da necessidade de alcançar o coração deles, sentimos a urgência de repropor com mais convicção o primeiro anúncio, porque «Nada há de mais sólido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio» (Christus Vivit, n. 214).

 

5. O desejo de caminhar juntos

Os jovens são portadores do ardor vivo do carisma salesiano e ajudam-nos a conhecer, aprofundar e assumir de modo melhor a missão a nós confiada. Desde o início «longe de serem agentes passivos ou espectadores da obra missionária, tornaram-se, a partir da sua própria condição – em muitos casos “analfabetos religiosos” e “analfabetos sociais” – os principais protagonistas de todo o processo de fundação.  A salesianidade nasce precisamente deste encontro capaz de suscitar profecias e visões», na convicção de que «todo carisma precisa ser renovado e evangelizado e no vosso caso sobretudo pelos jovens mais pobres» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

Sentimos, pois, como dever nosso envolver os jovens, e acreditamos que é um direito deles de serem envolvidos, na comunidade educativo-pastoral que é, antes de tudo uma família em que se partilha tudo em clima de amizade, escuta, respeito e colaboração. Reconhecemos que muitos deles «encontram-se numa situação profunda de orfandade... à qual devemos responder criando espaços fraternos e atraentes onde haja um sentido para viver» (cf. Christus Vivit, n. 216). É justamente nessa direção que os recentes caminhos sinodais nos ajudaram a redescobrir a índole familiar da Igreja, tanto que ela pode ser pensada como «família de famílias, constantemente enriquecida pela vida de todas as igrejas domésticas» (Amoris Laetitia, n. 87).

Estamos cientes, enfim, de que muitas vezes não conseguimos captar a verdadeira e própria “nostalgia comunitária” dos jovens e das famílias: pedem-nos tempo e nós lhes damos espaço; pedem-nos relação e nós lhes prestamos serviços; pedem-nos vida fraterna e nós lhes oferecemos estruturas; pedem-nos amizade e nós lhes proporcionamos atividades. Tudo isso nos empenha a redescobrir as riquezas e potencialidades do “espírito de família”.

 

INTERPRETAR

6. Acompanhados por Dom Bosco

Para interpretar o que reconhecemos até aqui, queremos orientar-nos por uma das passagens mais significativas da “Carta de Roma” de 1884. Dom Bosco vê que no Oratório de Valdocco foi levantada, entre os Salesianos e os jovens, uma barreira física e espiritual, criando obstáculo à ação educativa e traindo o carisma. Ao dialogar com um dos jovens do sonho, ele procura interpretar a situação para encontrar o modo de resolvê-la: «Como fazer então para romper a barreira?» A resposta que recebe é iluminadora também para nós:  «Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade»

Este texto ilumina as três questões fundamentais ao redor da quais recolhemos a interpretação deste núcleo: ir ao encontro dos jovens onde eles se encontram e se exprimem espontaneamente; a proximidade que cria confiança e torna possível o acompanhamento; o tom afetivo da relação educativa que Dom Bosco chama com um termo derivado da experiência familiar. É nessa perspectiva de fé que queremos buscar as razões do que vivemos, com suas luzes e sombras, fazer emergir os desafios que nos esperam e identificar os critérios para enfrentá-los.

 

COMUNIDADE EM SAÍDA VOLTADA PARA OS JOVENS POBRES

 

7. Duas faces de um único problema

Muitas vezes a pobreza afasta os adolescentes e jovens da oportunidade de crescer serenamente, ter uma educação adequada, decidir sobre o próprio futuro. Não raramente a pobreza afasta também da comunidade cristã e da possibilidade de encontrar a alegria do Evangelho, que, contudo, é destinada justamente aos últimos: «O Espírito do Senhor está sobre mim... enviou-me para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4,18). A pobreza, então, torna-se hoje uma barreira excludente, que deve ser superada.

O magistério profético do Papa Francisco está ajudando a Igreja a tomar sempre mais consciência de que o distanciamento em relação aos pobres trai o Evangelho e gera numerosas “doenças” na comunidade cristã. Também nós sentimos a necessidade de aprofundar-nos na interpretação do tempo que estamos a viver, para reconhecer que os fenômenos sociais e os desafios espirituais, os apelos dos jovens e os movimentos do Espírito estão intimamente relacionados entre si, sem qualquer possibilidade de dissensão. Foi essa a experiência de Dom Bosco, que o tornou capaz de responder às necessidades mais urgentes dos seus meninos e fazer com que sentissem a ternura de Deus que aquece o coração e infunde esperança. Ainda hoje, onde isso acontece, com trabalho generoso e criatividade pastoral, vemos um verdadeiro florescimento do carisma. Onde, porém, as comunidades perdem a “familiaridade” com os pobres, a vida religiosa torna-se morna, correndo o risco de ser sal que perde o sabor, lâmpada colocada debaixo do alqueire (cf. Mt 5,13.15).

 

8. Consagrados a Deus para os jovens mais pobres

Viver em saída para os jovens pobres e fazê-lo como comunidade de crentes é, certamente, um desafio sempre novo, mas também uma perspectiva que nos enche de entusiasmo. Como nosso Pai Dom Bosco, também nós no dia da nossa profissão religiosa dissemos a Deus: «Ofereço-me totalmente a Vós, comprometendo-me a dar todas as minhas forças àqueles a quem me enviardes, especialmente aos jovens mais pobres» (Constituições, art. 24).

Isso requer de nós, primeiramente, capacidade de discernimento comunitário: não se trata de entregar a um determinado irmão a ativação de novos projetos, mas de escutar juntos o apelo que Deus nos dirige nas pobrezas juvenis. Isso, porém, requer profundidade espiritual, para não cair no ativismo ou numa mentalidade empresarial; preparação cultural, para compreender os fenômenos em que estamos imersos e as novas pobrezas juvenis; disponibilidade para trabalhar juntos, abandonando todo individualismo pastoral; flexibilidade no repensamento do nosso estilo de vida e das nossas obras, sobretudo quando elas não exprimem mais a energia missionária do carisma e responde prevalentemente a lógicas de manutenção.

 

ACOMPANHAMENTO DOS JOVENS EM CHAVE VOCACIONAL

 

9. Uma rica tradição

«Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança». Bastam estas palavras de Dom Bosco para fazer-nos entender o valor que tinha para ele alcançar o coração do jovem, permitindo-lhe uma abertura confiante e uma confiança sincera. Dom Bosco não usava a palavra “acompanhamento”, mas todo o seu agir visava justamente isso. Seu trabalho educativo, rico de propostas e atento às diversas dimensões do desenvolvimento, tendia a acompanhar os jovens de modo simples e concreto à santidade. Descurar essa dimensão do Sistema Preventivo significa desnaturá-lo.

Enquanto a Igreja inteira, no Sínodo sobre os jovens, redescobriu o valor do acompanhamento para o discernimento, também nós somos convidados a reler as riquezas da nossa tradição sobre isso. Ela nos oferece três níveis de acompanhamento estritamente interligados: ambiental, grupal e pessoal. O primeiro é realizado mediante a oferta de um clima acolhedor, alegre, rico de propostas diferenciadas e capaz de ativar caminhos de crescimento. O segundo favorece um maior empenho no amadurecimento pessoal e no itinerário de fé, valoriza as aptidões de cada um, promove a espiritualidade do Movimento Juvenil Salesiano e a pertença a ele. O terceiro leva o jovem a discernir com maior profundidade o sentido da própria existência diante de Deus. Nesse sentido, o Sínodo sobre os jovens falou de acompanhamento “em chave vocacional” (Documento final do Sínodo, n. 138-143; Christus Vivit, cap. VIII), ajudando a pensar a vida não como projeto de autorrealização individual, mas como caminho para descobrir e responder ao chamado divino. A expressão do Papa Francisco «eu sou uma missão» (Christus Vivit, n. 254) indica claramente a meta que o acompanhamento tem à sua frente: ajudar cada um a descobrir a própria unicidade como dom para os outros.

 

10. Sujeitos e meta do acompanhamento

Uma vez nascido da familiaridade no quotidiano, o acompanhamento envolve uma pluralidade de sujeitos e não é tarefa exclusiva de alguém. A comunidade educativo-pastoral inteira envolve-se nela, mesmo se nem todos tenham a mesma aptidão e preparação para guiar o discernimento pessoal. De qualquer forma, o protagonista de todo acompanhamento é o Espírito Santo, que nos enche de dons e carismas; nós somos simplesmente servos e mediadores da obra de Deus.

É muito importante sublinhar que o bom acompanhamento não põe o jovem numa posição passiva ou subalterna, mas, ao contrário, promove a sua participação ativa na vida da comunidade e a corresponsabilidade no serviço aos mais pobres. Trata-se, então, de acompanhamento para o envolvimento, para a presença ativa e responsável na sociedade e na Igreja. Neste sentido, ainda tem muito a dizer-nos o protagonismo dos jovens na fundação da nossa Congregação e a ação dinâmica das Companhias no Oratório de Valdocco.

Cientes de que «aqueles que acompanham outros a crescer devem ser pessoas de grandes horizontes, capazes de colocar juntos limites e esperança, ajudando assim a olhar sempre em perspectiva, numa prospectiva salvífica» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28), somos chamados a promover um empenho renovado no acompanhamento, que requer, antes de tudo, cuidar mais da preparação de irmãos e leigos nesse delicado âmbito e viver nós mesmos a experiência de ser acompanhado. A perspectiva do envolvimento ativo dos jovens supõe, ainda, uma confiança maior nos seus recursos: não devemos ter medo da sua sadia inquietação, dos seus questionamentos e das suas sensibilidades por temas novos, que nem sempre estamos preparados para enfrentar. Aprendamos, portanto, todos os dias, a escutar com empatia e oferecer com humildade a nossa ajuda. A verdadeira autoridade de um educador não consiste em poder dirigir, mas na força de promover a liberdade: essa é a paternidade de Dom Bosco.

 

CAMINHO COM AS FAMÍLIAS E EDUCAÇÃO AFETIVA

 

11. Proximidade das famílias

Estamos cientes de que a família é a escola do amor, onde se aprende a gramática dos afetos através dos quais Deus se faz conhecer e encontrar. Os recentes Sínodos sobre a família e a exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia ofereceram muitas orientações pastorais sobre o acompanhamento das famílias e a educação afetiva, que também nós somos chamados a acolher e assimilar.

Para nós Salesianos, o interesse pela família brota espontaneamente do nosso carisma educativo. Sabemos o quanto Dom Bosco aprendeu de Mamãe Margarida, a ponto de querê-la consigo em Valdocco como presença preciosa para fazer do Oratório uma verdadeira “casa”. O menino João Bosco, por sua vez, não cresceu numa família perfeita: experimentou o sofrimento de ser órfão de pai, a incompreensão do irmão Antonio, a humilhação da pobreza, a necessidade de afastar-se de casa em busca de trabalho. Isso tudo contribuiu para amadurecer nele um coração de pai, rico de misericórdia e acolhimento.

Também nós sentimos hoje a exigência de uma grande proximidade com as famílias, acolhendo-as com as suas dificuldades, mas sobretudo promovendo-as com as suas riquezas. Encontramos, de fato, através das nossas obras, muitíssimas famílias nas mais diversas situações: algumas vêm a nós pelas nossas propostas educativas, outas compartilham a opção religiosa e a inspiração carismática, outras ainda estão nos primeiros anos de matrimônio e solicitam o nosso acompanhamento. Não poucas vivem em situação de pobreza, de insatisfação, ou são famílias feridas e fruto de segundas uniões. Há, também, jovens que cresceram conosco e pedem-nos para acompanhá-los na vida matrimonial, ao mesmo tempo em que também se apresentam, em nossos ambientes, pessoas que vivem em novas configurações relacionais. Essa complexidade constitui, sem dúvida, um desafio que requer preparação adequada.

A presença, também, de muitas famílias inseridas nos grupos da Família Salesiana e de outras que colaboram conosco constitui, enfim, um grande recurso, sobretudo se formos capazes de escutar a sua experiência e valorizar o seu testemunho.

 

12. Pastoral juvenil, família, educação afetiva

O critério fundamental para o nosso trabalho com as famílias deve ser individualizado na natureza educativa da nossa missão. Não queremos ativar uma pastoral familiar paralela à pastoral juvenil, mas apresentar a comunidade educativo-pastoral como lugar e forma do nosso caminho com as famílias.

Deriva desse critério também a exigência de assumir com maior coragem o desafio da educação afetiva e sexual dos jovens. Trata-se de uma exigência que o Concílio já dirigira às instituições educativas da Igreja (cf. Gravissimum educationis, n.1) e em que ainda caminhamos muito pouco. Não se trata simplesmente de dar informações, mas de acompanhar no caminho do conhecimento de si e da descoberta da vocação ao amor. Conhecemos a importância que Dom Bosco atribuía à pureza no desenvolvimento dos jovens e a delicadeza com que falava dela. Num contexto que não raramente banaliza a sexualidade, somos chamados a apresentar uma visão serena, positiva e equilibrada do tema afetivo e, em conformidade com a Palavra de Deus, a iluminar as linguagens do corpo e o sentido da reciprocidade entre homem e mulher. Os instrumentos que a nossa tradição nos transmite e somos chamados a repensar nos atuais novos contextos são a atenção aos ambientes propositivos e “preventivos”, a animação que sabe envolver os jovens em todas as suas dimensões (teatro, esporte, arte, diversão, música...), o acompanhamento pessoal que se preocupa com as dinâmicas profundas da pessoa.

 

ESCOLHER

13. Comunidade em saída que se dirige aos jovens pobres

 

Saiamos dirigindo-nos aos jovens pobres superando uma pastoral de manutenção e renovando os nossos dinamismos comunitários.

Atitudes e mentalidades a converter

  • De uma pastoral de conservação à pastoral missionária que tenha as necessidades dos jovens como critério de escolha.
  • De uma pastoral elitista e excludente à pastoral popular e inclusiva.
  • De uma comunidade voltada sobre si mesma em zonas de conforto ao testemunho de evidente fraternidade na partilha com os jovens.

Processos a ativar

  • Os Setores da Pastoral Juvenil e das Missões propõem projetos específicos de atenção e acolhimento das pobrezas juvenis.
  • No redesenho das presenças, as Inspetorias preveem comunidades que possam acolher, com os Salesianos, adolescentes e jovens em dificuldade (migrantes, refugiados, meninos de rua, etc.) para oferecer-lhes oportunidades de estudo, formação profissional e inserção no mundo do trabalho.
  • A Congregação, em todos os níveis, interessa-se para que sejam garantidas as condições de promoção e defesa dos direitos dos jovens, sobretudo na tutela dos menores e adultos vulneráveis.

Condições estruturais a garantir

  • Faça-se em nível central uma coordenação em rede com outros religiosos e Organizações nacionais e internacionais a serviço dos jovens mais pobres.
  • Elabore-se em nível inspetorial e local um Código de Comportamento que permita o contato real, seguro, garantido com os jovens, especialmente os pobres.
  • As comunidades tenham momentos específicos e condições permanentes de acolhimento de jovens: revejam horários, estruturas, ambientes e estilos relacionais para ser autenticamente comunidades abertas e acolhedoras.

 

14. Acompanhamento dos jovens em chave vocacional

Promovamos um renovado esforço para o acompanhamento em perspectiva vocacional, cuidando da adequada formação de Salesianos e leigos nesse âmbito.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da pastoral de iniciativas e atividades a uma atenção aos itinerários pessoais de crescimento.
  • Da fragmentação da pastoral em muitos setores à sua integração em perspectiva vocacional.
  • De uma mentalidade de autossuficiência pastoral ao envolvimento dos jovens segundo o seu grau de maturidade.

Processos a ativar

  • Os Setores da Pastoral Juvenil e da Formação propõem itinerários de habilitação ao acompanhamento para Salesianos e leigos.
  • O Setor da Pastoral Juvenil anima, apoia e orienta o trabalho das Inspetorias sobre os temas vocacionais.
  • As Inspetorias ofereçam aos jovens um “tempo destinado ao amadurecimento da vida cristã adulta” a ser vivido em nossas Casas, mediante um projeto preciso de partilha de vida, fraternidade, apostolado e espiritualidade (cf. Documento final do Sínodo, n. 161).

Condições estruturais a garantir

  • O Reitor-Mor com seu Conselho avalia a oportunidade de instituir uma coordenação central para a animação vocacional.
  • As Regiões intensificam o desenvolvimento ou a criação de Centros Regionais de Formação sobre o acompanhamento para Salesianos e leigos.
  • As Inspetorias favorecem a inserção de jovens na equipe de pastoral juvenil, nas comissões inspetoriais e nas demais estruturas de animação pastoral.

 

15. Caminho com as famílias e educação afetiva

Consolidemos o caminho com as famílias na comunidade educativo-pastoral e proponhamos itinerários mais bem-cuidados de educação afetiva.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da família considerada apenas como destinatária da pastoral a uma família sujeito ativo da missão a ser envolvida na comunidade educativo-pastoral.
  • De um esquema mental rígido e simplista ao acolhimento e acompanhamento das experiências familiares no respeito da sua complexidade.
  • Da consideração da nossa afetividade como conquista feita uma vez por todas à formação salesiana que a entende como caminho de crescimento e amadurecimento do coração.

Processos a ativar

  • Os Setores da Pastoral Juvenil e da Formação, valorizando a experiência e a contribuição das famílias, oferecem orientações para a elaboração de propostas adequadas de educação afetiva e sexual e dão atenção à formação de Salesianos e leigos nesse âmbito.
  • As Inspetorias promovem grupos familiares inspirados na espiritualidade salesiana, favorecendo o seu protagonismo apostólico e o seu envolvimento ativo na comunidade educativo-pastoral.
  • As Inspetorias valorizam a reflexão iniciada pela Congregação no Congresso Internacional “Pastoral Juvenil e Família” (Madri, 2017) e elaboram instrumentos e itinerários de apoio às famílias em sua missão educativa.

Condições estruturais a garantir

  • As Inspetorias investem na formação de pessoal para o acompanhamento das famílias e a educação afetiva.
  • As Inspetorias favorecem a inserção de algumas famílias no Conselho da comunidade educativo-pastoral, promovendo momentos regulares de comunhão e formação.
  • As Inspetorias favorecem o trabalho apostólico dos grupos laicais da Família Salesiana a serviço da família.

 

 

Segundo núcleo

PERFIL DO SALESIANO HOJE

 

O segundo núcleo foi elaborado na sua primeira versão durante o CG28, mas não foi possível apresentá-lo à Assembleia capitular.

Foi completado na sessão de verão de 2020 do Conselho-Geral.

 

RECONHECER

16. Vocação e formação: a formação do carisma nos interpela

A Virgem Maria, no sonho dos nove anos, depois de indicar a João Bosco o campo em que deverá trabalhar, convida-o a ser “humilde, forte e robusto”. Com essas palavras, Ela lhe propõe um itinerário exigente de formação estritamente ligado à vocação recebida e à missão confiada. Nós também reconhecemos que a formação é dom precioso do Senhor e exigência irrenunciável do itinerário vocacional. O trabalho formativo toca todas as dimensões da nossa consagração apostólica; por isso, o Capítulo-Geral 27 traçou coerentemente o perfil do Salesiano como místico no Espírito, profeta de fraternidade e servo dos jovens.

Ao examinar as estatísticas da Congregação percebemos que no último decênio tivemos uma média anual de cerca de 2.600 jovens em formação, o que nos enche de alegria e esperança, porque demonstra que o nosso carisma continua a ser fecundo. Esse dado, ao mesmo tempo, nos interpela e responsabiliza, pedindo para examinarmos a qualidade da nossa formação inicial e permanente.

Notamos, com efeito, que às vezes a identidade consagrada salesiana parece frágil e pouco enraizada: o primado de Deus na vida pessoal e comunitária nem sempre emerge com clareza; formas de clericalismo e secularismo correm o risco de fazer entrar na Congregação a “mundanidade espiritual”; a promoção do Salesiano leigo continua escassa em algumas regiões; a falta de pessoal preparado no âmbito da salesianidade, não obstante o abundante material à disposição, é sinal de uma atenção insuficiente ao aprofundamento do carisma.

 

17. Formação e missão: uma lacuna da qual tomar consciência

A reflexão capitular sobre o atual perfil do Salesiano fez emergir claramente uma preocupação: o distanciamento entre o caminho formativo, em suas diversas fases, e a realidade da missão educativo-pastoral ordinária. Há quem fale de lacuna entre formação e missão, outros de afastamento entre formação inicial e formação permanente, outros ainda de certa incoerência entre o que a Congregação propõe para a formação inicial e o que se vive de fato nas comunidades apostólicas.

A atual formação, com suas estruturas, estilos e métodos parece, às vezes, mais informativa do que performativa, porque nem sempre chega a transformar o coração. A missão apostólica, por outro lado, nem sempre consegue colher da realidade dos jovens e da concretude da vida os elementos para uma formação permanente: a “cátedra da realidade” tem dificuldade em se tornar leitura crente da história (lectio vitae), oferecendo elementos para uma renovação contínua do nosso ser e do nosso agir.

Reconhecemos também como urgente o aprofundamento de alguns temas que devem entrar plenamente no itinerário formativo: a habilitação para o acompanhamento espiritual dos jovens, que requer o amadurecimento de sensibilidades específicas; a clara tomada de consciência de que a nossa missão é compartilhada com leigos e precisa, por isso, de novas capacidades relacionais; a atenção crescente aos temas ecológicos, comportando uma preparação específica nesse âmbito. Enfim, o novo mundo digitalizado impõe o repensamento do modo de organizar a nossa vida fraterna e a missão apostólica em seu conjunto, porque «o dobrar-se individualista sobre si mesmo, tão difundido e proposto socialmente nesta cultura amplamente digitalizada, exige uma atenção especial não apenas no que se refere aos nossos modelos pedagógicos, mas também ao uso pessoal e comunitário do tempo, das nossas atividades e dos nossos bens» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

18. Formação permanente: viver a existência em ótica formativa

Somos agradecidos pela presença de um bom número de Salesianos que reavivam continuamente o dom de Deus que receberam (cf. 2Tm 1,6), através de uma «atitude contemplativa, capaz de identificar e discernir os pontos nevrálgicos» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). Só assim se supera a ideia, infelizmente enraizada, de que a formação termina com a conclusão das etapas iniciais e com o acesso ao ministério.

Na verdade, falta em alguns irmãos a convicção de que o compromisso com a própria formação é o estilo perfeito de aceitação da missão e, por isso, torna-se difícil acender o desejo e a paixão pela formação permanente. Reconhecemos que, tanto em nível central como em nível inspetorial, houve um esforço de oferecer instrumentos e itinerários de formação, que, contudo, nem sempre trazem os frutos esperados. Resulta difícil, de modo particular, transformar a mesma experiência pastoral quotidiana em ocasião formativa, porque não fomos iniciados para discernir a partir da concretude da realidade. Por isso, a comunidade, tanto religiosa como educativo-pastoral, não consegue ser o ambiente natural e ordinário da nossa formação.

Contudo, é preciso reconhecer ainda que há certa confusão em relação aos sujeitos responsáveis e os itinerários de formação permanente: com frequência, faltam irmãos preparados para acompanhar esse itinerário, enquanto se nota uma pluralidade e fragilidade de referências formativas em nível inspetorial e local. Alguns assinalam o risco de reduzir a formação permanente a algum curso esporádico de atualização ou de confiá-la à entrega de algum novo manual. Há, enfim, num mundo sempre mais fluido, o desafio da “laboriosidade cultural” na Congregação, porque sem o estudo, a leitura e a atualização contínua não se conseguirá sair de uma pastoral de manutenção e repetição.

 

19. Formação inicial: uma realidade em evolução que deve ser acompanhada

Dos dados e das discussões emersos no Capítulo, reconhecemos que a formação inicial em seu conjunto é uma realidade poliédrica, positiva e encorajadora. Trata-se de um grande mosaico de diversas situações, em que reconhecemos a presença de novos dinamismos na Congregação.

Quem são hoje os jovens em formação? Sinteticamente, podemos afirmar que a maior parte deles provém da Ásia e da África; em seu conjunto são “jovens adultos” e não “adolescentes” como em tempos passados; são jovens do nosso tempo, que trazem consigo todas as potencialidades e fragilidades dos jovens de hoje; estão em busca de uma vida autêntica e de uma fraternidade profética, mesmo se, às vezes, as motivações que os trazem à vida salesiana precisam amadurecer; estando mais próximos da geração juvenil, têm facilidade de contato e uma comunhão natural de linguagem com o mundo juvenil. Isso tudo envolve uma abordagem formativa totalmente diferente em nossas casas de formação e centros de estudo.

A partir desta metamorfose epocal compreende-se que é uma verdadeira e própria urgência a busca e a formação de formadores a ser enfrentada da melhor forma possível. Reconhecendo que ser formador é uma “vocação na vocação”, será necessário passar da improvisação ao verdadeiro discernimento para a escolha qualificada dos formadores e docentes: não se trata de “recrutamento”, mas de verdadeiro diálogo vocacional. Ao reconhecer a comunidade como primeiro espaço formativo, os capitulares sublinharam o quanto seja decisiva a equipe dos formadores, que atuam em sinergia e sob a supervisão do Diretor; ele, mais que todos, tem a tarefa de acompanhar e coordenar o trabalho de todos.

 

20. A necessidade de assumir um novo estilo formativo

Como nos diz o Papa Francisco, «pensar a figura do Salesiano para os jovens de hoje, implica aceitar que estamos imersos num momento de mudanças» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). É preciso renovar, então, o nosso estilo formativo, a ser pensado sempre mais de forma personalizante, holística, relacional, contextual e intercultural.

É necessário, sobretudo, um estilo capaz de assumir os registros fundamentais da missão, porque é a missão que «dá a toda a nossa existência o seu tom concreto, especifica a tarefa que temos na Igreja e determina o lugar que ocupamos entre as famílias religiosas» (Constituições, art. 3) e também porque estamos convencidos de que «quando nos isolamos ou nos afastamos do povo que somos chamados a servir, a nossa identidade como consagrados começa a desfigurar-se e a tornar-se uma caricatura» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

O novo estilo formativo que sonhamos deveria fazer resplandecer a unidade da Congregação na pluralidade das suas expressões: é muito importante, contra o «grave perigo de uniformizar monoliticamente as culturas» reconhecer que a presença mundial da nossa realidade carismática «é um estímulo e um convite a guardar e preservar a riqueza de muitas culturas em que estais imersos sem procurar “homologá-las”» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

INTERPRETAR

21. A experiência formativa de Dom Bosco

Para um discernimento sadio da nossa formação, é útil refletir sobre a experiência formativa vivida por Dom Bosco. Ele mesmo narra seus momentos principais nas Memórias do Oratório, com muitas observações que deixam entrever claramente a sua visão sobre o tema. Detemo-nos aqui em particular sobre uma das etapas formativas pelas quais Dom Bosco demonstrou maior apreço, a do Colégio Eclesiástico. Dessa instituição, Dom Bosco diz: «Nele aprende-se a ser padre» (J. Bosco, Memórias do Oratório de São Francisco de Sales, Edebê, Brasília, 2012, p. 117).

A formação no Colégio Eclesiástico unia uma sólida proposta espiritual e cultural («Meditação, leitura, duas conferências por dia, aulas de pregação, vida recolhida, toda comodidade para estudar...») e o acompanhamento no encontro pessoal com «a malícia e a miséria dos homens» nos lugares de maior pobreza. O ponto forte que orientava os jovens padres a fazer a síntese entre oração e ministério, entre reflexão e prática pastoral era um grupo de formadores de perfil elevadíssimo, entre os quais sobressaía o Padre Cafasso. Dom Bosco encontrava-os na cátedra enquanto davam aulas, mas via-os também empenhados pessoalmente nas formas mais variadas e difíceis do ministério. Para ele e para seus companheiros, eles eram mestres sólidos de doutrina, apóstolos empreendedores e verdadeiros modelos de vida. Diríamos, hoje, uma equipe exemplar e coesa que acompanha de modo integral a aceitação da missão.

Os anos do Colégio Eclesiástico foram decisivos para o amadurecimento apostólico de Dom Bosco, e é belo notar que fora uma opção sua, a que não estava vinculado por nenhuma obrigação. Ele assumiu esse empenho quando já era padre e poderia ter iniciado logo a atividade com total dedicação. Aconselhado, porém, por Cafasso percorreu outro caminho, mais exigente, mas imensamente mais frutuoso. Seu exemplo nos ensina que a formação não termina com o fim dos estudos, com a profissão perpétua ou com a ordenação sacerdotal, mas permanece um processo aberto a cultivar com atenção por toda a vida. Recorda-nos, também, que o verdadeiro apóstolo não amadurece queimando etapas e que o investimento mais fecundo para a missão é o da boa formação.

 

FORMAÇÃO E VOCAÇÃO: O ACOMPANHAMENTO À LUZ DO CARISMA

 

22. O dom da formação

A formação na vida consagrada não se reduz apenas a um conjunto de técnicas e metodologias, mas é uma experiência de fé que afunda suas raízes no próprio mistério da vocação. Deus Pai, que nos escolheu antes da criação do mundo, continua a agir em nós com a força do seu Espírito, para sermos sempre mais conformados a Cristo. A meta do itinerário formativo é, de fato, chegar a ter em si os sentimentos do Filho, ou seja, sentir, pensar e agir n’Ele (cf. Fl 2,5).

Entender a formação no horizonte da vocação ajuda-nos a não a ver como um dever imposto de fora – das normas da Igreja ou da Congregação – mas como um dom da graça que nos ajuda a fazer realmente nossa a “forma” de vida consagrada salesiana, evitando que ela fique uma espécie de hábito exterior.

A existência de fracassos vocacionais lembra-nos o quão delicado é esse processo e como a acolhida inicial do chamado não nos protege automaticamente do risco de perder o rumo ou de voltar atrás. O que são, de fato, o clericalismo, o secularismo e o individualismo a não ser desvios da energia vocacional, que extinguem a sua beleza e impedem o seu crescimento por ausência de profundidade, falta de motivações ou pouca generosidade? A vocação sem uma formação adequada acaba confundindo-se com uma espécie de “voluntariado definitivo” em que realmente não se entrega o coração a Deus e aos jovens e não se aceita a conversão formativa que isso comporta.

 

23. O Sistema Preventivo como sistema formativo

Visto que a formação é uma pedagogia da graça, nunca pode ser primeiramente uma questão de regras e normas. Sem dúvida, elas são necessárias, porque preservam de erros e indicam caminhos consolidados, mas sozinhas não bastam para criar as condições de uma autêntica experiência formativa. Devemos, portanto, ter o cuidado de não dar soluções principalmente normativas a um desafio que é acima de tudo carismático e generativo. A formação é artesanato quotidiano, sabedoria prática, qualidade de testemunho, capacidade de ler as situações e tocar os corações: coisas todas que nenhuma lei pode assegurar e nenhum manual é suficiente para garantir. Como nos recorda o venerável P. José Quadrio, modelo extraordinário de formador e professor, essas qualidades são, antes de tudo, fruto da docilidade interior ao Espírito que suscita na nossa família carismática verdadeiros mestres de vida.

Valem, portanto, para a nossa proposta formativa todas as orientações de sabedoria prática que Dom Bosco ativava na educação. O Sistema Preventivo deve ser sempre redescoberto como o princípio inspirador e a alma profunda do nosso sistema formativo. Isso significa afirmar o primado da caridade teológica e da confiança sobre todo legalismo e formalismo; transmitir os valores vocacionais através de um autêntico espírito de família; envolver ativamente os irmãos mais jovens e torná-los corresponsáveis das opções formativas. A pedagogia do Sistema Preventivo é, de fato, pedagogia da confiança, que acredita nos recursos dos jovens e os incita à generosidade do empenho, sem nunca mortificar as suas intuições nem impedir a sua criatividade. É nesta lógica que o artigo 99 das nossas Constituições afirma: «Cada salesiano assume a responsabilidade da própria formação». Mediante a fidelidade a essa inspiração, a Congregação apresenta-se como mãe para cada irmão e ajuda-o a amadurecer no seu itinerário vocacional.

 

FORMAÇÃO E MISSÃO: UM PROCESSO UNITÁRIO

 

24. O “da mihi animas” como energia do processo formativo

A natureza apostólica do nosso carisma qualifica de modo determinante a nossa formação. Como nos recorda o Papa Francisco, «é importante dizer que não somos formados para a missão, mas que somos formados na missão, a partir da qual se articula toda a nossa vida, com as suas escolhas e as suas prioridades. A formação inicial e a permanente não podem ser uma instância prévia, paralela ou separada da identidade e da sensibilidade do discípulo» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). Estas palavras indicam com muita clareza que formação e missão estão estreitamente entrelaçadas e uma não pode existir sem a outra.

Compreender a formação no horizonte da missão significa antes de tudo ressaltar o Da mihi animas como energia profunda do processo formativo. Se essa energia se extingue e não libera mais ardor pelo bem dos jovens, a evolução vocacional fica seriamente comprometida. Se, porém, a paixão apostólica continua viva, alimenta o crescimento humano, o empenho no estudo, o cuidado com a vida espiritual, o amadurecimento pastoral. O Da mihi animas é, com efeito, o modo com que Deus nos faz participantes do seu amor pelo mundo.

Dom Bosco, afirma ainda o Papa, «não só não escolhe separar-se do mundo para buscar a santidade, mas deixa-se interpelar e escolhe como e que mundo habitar». Assumir a missão como princípio formativo requer desenvolver um olhar de pastor e uma coragem de profeta, que sabe estar com os jovens pobres e sonhar um mundo diferente com eles e para eles. Por isso «a missão inter gentes é a nossa melhor escola: a partir dela rezamos, refletimos, estudamos, repousamos» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28).

 

25. Para uma maior integração

A fim de superar a separação entre formação e missão é necessário primeiro abandonar a mentalidade de delegação, que não raramente tende a descarregar a responsabilidade deste delicado âmbito sobre as comunidades formadoras. A transmissão do carisma não ocorre, de fato, principalmente em comunidades especialmente estruturadas para isso, mas no frescor da partilha quotidiana do serviço aos jovens. A primeira fonte de formação na Congregação está no tesouro da vida generosa dos irmãos. Onde as comunidades são vivas no serviço, sólidas na espiritualidade e capazes de reflexão, os itinerários propostos pelas casas de formação são mais incisivos, porque introduzem num modo de viver a salesianidade encontrado pelos jovens irmãos na realidade ordinária das casas. Isso explica a importância que a nossa tradição sempre atribuiu ao tirocínio, etapa formativa tipicamente salesiana. Onde, por outro lado, a missão se confunde com o trabalho e não se cuida da formação permanente nas comunidades, todo o processo formativo fica empobrecido.

A maior integração requer, então, «encontrar um estilo de formação capaz de assumir de modo estrutural o fato de que a evangelização implica a participação plena, e de pleno direito, de cada batizado», fazendo das nossas casas «um “laboratório eclesial” capaz de reconhecer, apreciar, estimular e encorajar os diversos chamamentos e missões na Igreja» (da Mensagem do Papa Francisco ao CG28). É o que procuramos fazer ao ativar o modelo de comunidade educativo-pastoral. De que modo esse modelo possa e deva incidir na formação inicial é uma questão que ainda não tem respostas claras. O Sínodo sobre os jovens falou, por exemplo, da importância de formar equipes formativas diferenciadas, que também incluam figuras femininas, com a interação de diversas vocações (cf. Documento final do Sínodo, n. 163). O diálogo entre as comunidades inspetoriais e as casas de formação pode favorecer, além disso, uma interação mais significativa com o caminho das comunidades educativo-pastorais e permitir aos formadores uma maior presença ao lado dos jovens irmãos em suas exercitações pastorais. Mais do que uma única solução estrutural, que não levaria em conta a notável diversidade dos contextos, é preciso trabalhar, então, para um renovado projeto formativo em sentido missionário, que buscará a sua atuação mais adequada em todos os ambientes.

 

FORMAÇÃO E MISSÃO: UM PROCESSO UNITÁRIO

 

26. Referências institucionais e atenção aos processos formativos

Um dos riscos do nosso processo formativo, denunciado várias vezes na Congregação, é certa fragmentação entre as diversas etapas. Sem dúvida, a passagem de uma fase a outra da formação inicial oferece a riqueza de novos estímulos e ajuda a abrir horizontes, mas traz consigo o esforço de recomeçar várias vezes o caminho do acompanhamento. Esse esforço se torna mais cansativo quando a formulação das opções formativas e os instrumentos oferecidos para o acompanhamento não são adequadamente coordenados.

Fica evidente, então, a necessidade de a Congregação caminhar para esclarecer e, onde possível, simplificar as referências institucionais e determinar com maior exatidão as tarefas e as responsabilidades das estruturas de coordenação entre as diversas fases e entre os diversos níveis da formação. Muitas vezes, de fato, decisões importantes para os itinerários formativos são adiadas ou permanecem sem resposta devido a incertezas do sistema.

Não faltam na Ratio e em seus anexos orientações preciosas para o trabalho formativo, sobretudo em relação aos objetivos a alcançar e aos critérios de admissão. Mais frágil, contudo, é o aspecto da metodologia e dos instrumentos. Por isso, é importante concretizar o caminho de revisão do acompanhamento formativo que se iniciou na Congregação e verificar seus resultados. A clareza nesse tema e a participação nele são a primeira condição para uma formação mais sólida e personalizada.

 

27. Formadores e centros de formação

Todo processo de crescimento requer condições estruturais que o facilitem. Nessa lógica, a vontade de promover um melhor acompanhamento deve traduzir-se em generoso investimento da Congregação na busca e na formação adequada de formadores, que saibam trabalhar em equipe, sob a guia e a responsabilidade do Diretor.

Não menos importante é a renovação dos nossos centros de estudo, chamados a assumir com determinação as indicações da Constituição Apostólica Veritatis Gaudium. Eles prestam um serviço indispensável não só aos jovens irmãos que os frequentam, como também à solidez cultural das nossas Inspetorias. Entre estes centros sobressai de modo particular a Universidade Pontifícia Salesiana, a voz cultural de maior autoridade da Congregação na Igreja. A renovação necessária requer reencontrar as razões que levaram à sua fundação há oitenta anos.

Os Centros Regionais de Formação oferecem um serviço apreciado para a formação permanente dos irmãos e são chamados sempre mais a assumirem também a formação conjunta com os leigos. As Regiões que ainda não os possuem deverão identificar as formas mais adequadas de garantir esse tipo de serviço.

 

ESCOLHER

28. Formazione e vocazione: un accompagnamento alla luce del carisma

Formação e vocação: o acompanhamento à luz do carisma.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da concepção de formação como “dever institucional” a uma visão de fé, que a acolhe como dom e exigência vocacional.
  • Do formalismo exterior à preocupação com o acompanhamento na lógica da confiança sincera e do espírito de família do Sistema Preventivo.
  • Da subestima da formação permanente ao cuidado pessoal e comunitário do próprio crescimento espiritual e apostólico.

Processos a ativar

  • O Reitor-Mor com seu Conselho estuda o problema da descontinuidade entre as etapas da formação inicial para facilitar um itinerário mais unitário de acompanhamento.
  • O Setor para a formação promove a atuação e a revisão das Orientações e Diretrizes “Jovens salesianos e acompanhamento”.
  • As comunidades de formação assumem uma organização formativa coerente com as grandes orientações espirituais e pedagógicas do Sistema Preventivo: espírito de família, envolvimento ativo dos irmãos, pedagogia da confiança e da confidência; o curatorium verifica e promove tal organização.
  • As Inspetoria e as comunidades promovem uma renovada cultura de acompanhamento, ajudando os irmãos a redescobrirem a sua importância e o seu valor.

Condições estruturais a garantir

  • Nas comunidades de formação inicial é garantida a presença de equipes capazes de transmitir vitalmente o Sistema Preventivo; os formadores propõem o acompanhamento espiritual pessoal em coerência com a proposta formativa da comunidade; cuida-se da presença de confessores adequadamente preparados.
  • Os Inspetores e os delegados inspetoriais dão atenção ao diálogo e ao encontro com as comunidades formativas, para favorecer a continuidade do acompanhamento na formação inicial.
  • Os irmãos em formação inicial são ajudados a descobrir o valor do acompanhamento espiritual pessoal.
 
29. Formação e missão: um processo unitário

Empenhemo-nos para superar a separação entre formação e missão, favorecendo uma renovada cultura da formação na missão em todos os níveis.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da delegação às casas de formação à consciência de que o estilo de vida das comunidades incide fortemente na formação dos jovens irmãos.
  • Da formação entendida como momento prévio à missão à preocupação com a solidez cultural e espiritual como condição permanente da vida apostólica.
  • De um estilo formativo elitista ao esforço de valorizar a contribuição formativa dos leigos e a responsabilidade missionária de todo batizado.

Processos a ativar

  • As Inspetorias preocupam-se com a qualidade formativa do tirocínio, garantindo as condições para a assimilação prática da pedagogia salesiana e do acompanhamento formativo.
  • As comunidades de formação inicial conservam um estilo sóbrio de vida, que preserve do aburguesamento e forme para as exigências da missão, e aumentam o acompanhamento das exercitações pastorais.
  • As Inspetorias investem na qualificação dos irmãos em salesianidade e dão atenção a uma maior solidez cultural; as comunidades locais verificam e potencializam o seu empenho para a formação no quotidiano.

Condições estruturais a garantir

  • O Setor para a formação oferece orientações para que o modelo da comunidade educativo-pastoral encontre uma atuação adequada também nas comunidades de formação, através do envolvimento de leigos e famílias no processo formativo.
  • As comunidades de tirocínio garantem o acompanhamento formativo dos tirocinantes, ajudam-nos a inserir-se na comunidade educativo-pastoral, empenham-se na avaliação do seu crescimento vocacional.
  • As comissões inspetoriais de formação ajudam as comunidades a verificar e potencializar a sua ação formativa na missão.
 
30. Formação e estruturas: uma renovação necessária

Invistamos energias na busca e na formação dos formadores e enfrentemos com coragem o repensamento das referências institucionais e das estruturas formativas.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Do debruçar-se sobre as urgências ao corajoso investimento na formação dos irmãos.
  • Do atendimento às necessidades locais à disponibilidade para oferecer irmãos e recursos às exigências formativas da Congregação e à colaboração entre Inspetorias.
  • Do risco da superficialidade à preocupação com o estudo sério e a solidez cultural dos irmãos.

Processos a ativar

  • O Reitor-Mor com seu Conselho promove o generoso esforço da Congregação para a busca e a formação dos formadores; as Inspetorias investem na formação dos irmãos e na preparação de formadores.
  • O Reitor-Mor com seu Conselho verifica a estrutura de governança da formação para torná-la mais clara, simples e funcional.
  • O Reitor-Mor com seu Conselho revê a quantidade e a distribuição das comunidades de formação inicial no interior de um projeto unitário; promove a renovação da Universidade Pontifícia Salesiana, a potencialização dos centros de estudo, o cuidado dos Centros Regionais de Formação.

Condições estruturais a garantir

  • O Setor para a formação revê as partes da Ratio que precisam ser adequadas às circunstâncias atuais, potencializando as orientações concretas de métodos e instrumentos compartilhados.
  • O Setor para a formação estuda as melhores modalidades para acompanhar as comunidades formativas interinspetoriais; define as funções do curatorium e acompanha a sua prática em diálogo com os Conselheiros-Regionais; acompanha os Inspetores ao aceitarem a sua responsabilidade formativa.
  • As Regiões promovem os Centros Regionais de Formação, examinam as suas propostas e criam-nos aonde ainda não existem.

 

Terceiro núcleo

COM OS LEIGOS NA MISSÃO E NA FORMAÇÃO

Durante a sessão de verão de 2020, o Conselho-Geral trabalhou sobre o terceiro núcleo do CG28, que não fora levado em consideração durante o Capítulo-Geral pela sua interrupção forçada por causa da pandemia.

O Conselho-Geral, a partir do “Instrumento de trabalho”, serviu-se da mesma metodologia de discernimento do CG28 e trabalhou com as mesmas modalidades das comissões capitulares. Para a redação do texto, procurou-se manter a mesma forma do primeiro e do segundo núcleos como foram elaborados pelo CG28.

 

RECONHECER

31. Realizações e resistências na missão compartilhada com os leigos

Reconhecemos que o CG24 é para todos “um ponto de não retorno” para a renovação do nosso modo de viver e trabalhar juntos. Ele está no centro do magistério salesiano pós-conciliar e, ao mesmo tempo, marca um retorno às origens do carisma salesiano: Dom Bosco, de fato, envolveu desde o início muitos leigos na sua missão juvenil e popular.

Reconhecemos que muitos passos foram dados em toda a Congregação, embora com velocidades e modalidades diferentes: envolvimento da comunidade educativo-pastoral; formação espiritual, pedagógica e pastoral dos leigos; inserção dos jovens nas equipes de animação; entrega de algumas obras aos leigos. Esta percepção de crescente envolvimento recíproco, de riqueza compartilhada, de força da ajuda conjunta e de fecundidade do carisma vai sendo concretizada gradualmente, passando da perspectiva de envolver os leigos na atividade educativo-pastoral à de compartilhar com eles a nossa espiritualidade.

Ao mesmo tempo, tomamos ciência de que ainda permanecem algumas dificuldades, porque nem sempre conseguimos fazer dos leigos participantes do espírito e da missão salesiana: muitas Inspetorias ainda precisam passar do envolvimento utilitarista dos leigos à estratégia da corresponsabilidade evangélica. Às vezes, também encontramos fenômenos de verdadeira e própria resistência: alguns religiosos lamentam o excessivo protagonismo dos leigos enquanto alguns leigos demonstram motivações oportunistas na sua oferta de colaboração. Também não é fácil, para os leigos mais compromissados na atividade educativo-pastoral, conciliar as exigências da missão salesiana com a vida pessoal e familiar. Ainda notamos em algumas situações certa tendência ao nivelamento dos diversos estados de vida, levando alguns a pensarem que os consagrados não são mais necessários para manter vivo o carisma.

 

32. Reciprocidade de relações entre Salesianos e leigos

As relações entre Salesianos e leigos são inspiradas muitas vezes na estima, no respeito, na cordialidade e na colaboração, sobretudo onde há clara identidade vocacional, uma proposta orgânica de formação e um caminho compartilhado com os devidos organismos e instrumentos como o Conselho da comunidade educativo-pastoral e o projeto educativo-pastoral salesiano.

Nem sempre, porém, se aceita e valoriza a contribuição peculiar dos leigos, levando em conta a sua identidade e experiência vocacional: sabe-se o que fazem, mas não se valoriza o que são. Onde falta clareza sobre as respectivas identidades, assiste-se a uma espécie de “clericalização dos leigos” e “laicização dos consagrados”. Neste caso, a colaboração quotidiana, em vez de fazer emergir a especificidade de cada um, leva ao nivelamento das identidades. Às vezes, os leigos são simplesmente classificados e posicionados no interior de um modelo hierárquico e piramidal de “obra salesiana”.

Às vezes, nós Salesianos sentimos certo desconforto com a gestão de obras complexas que exigem capacidades empresariais e a falta de preparação para os desafios que surgem do modelo pastoral de participação com os leigos. Reconhecemos que diante da mudança de época não somos realmente capazes de “discernir”, e, portanto, corremos o risco de ficar presos a lógicas de manutenção pastoral que se baseiam no “sempre se fez assim”.

Notamos que há diversas tipologias de leigos: funcionários, voluntários, jovens adultos, cristãos católicos ou de outras confissões, praticantes ou mais distantes da Igreja. Às vezes, com a mesma palavra “leigos”, que na linguagem eclesial indica os batizados (Christifideles laici), referimo-nos também a pessoas que trabalham em nossas obras, mas pertencem a outras religiões. Para evitar confusões ou rigorismos é importante enfrentar com seriedade as questões teológicas e pastorais subjacentes a essa complexidade. Será possível, então, esclarecer melhor o formato que a comunidade educativo-pastoral é chamada a assumir em contextos plurirreligiosos ou secularizados.

 

33. Formação conjunta de Salesianos e leigos

Nestes anos, amadureceram boas iniciativas de formação conjunta de Salesianos e leigos. Quanto aos cursos de formação, existem ótimas propostas em nível local, inspetorial e regional. Às vezes, há uma carência de sistematização nos itinerários formativos, que, depois, se manifesta na fragilidade da programação educativo-pastoral. Falta, de fato, uma formação mais orgânica, que tenha em vista a integração de todos os aspectos do carisma salesiano (espiritual, pedagógico, pastoral e profissional). Permanece aberto o tema da formação dos colaboradores de outras religiões e convicções.

A formação conjunta na vida quotidiana é feita principalmente mediante os itinerários da comunidade educativo-pastoral, com seus organismos e processos de animação, discernimento e governo. A vida da comunidade educativo-pastoral é um dos espaços mais eficazes para a formação conjunta entre Salesianos e leigos e ótimo exemplo de “formação na missão”.

Nota-se, em alguns irmãos, certa resistência a serem envolvidos na formação com os leigos e a dificuldade de abandonar uma atitude de presumida superioridade. Outra fonte de dificuldade à formação conjunta é o cansaço, o excesso de atividades e o acúmulo de tarefas e papéis. Em alguns leigos não há grande consciência do seu papel na Igreja e, portanto, pouca vontade de assumir as responsabilidades formativas que decorrem desse papel.

 

34. As diversas formas de relação entre a comunidade religiosa e a obra salesiana

Existem atualmente na Congregação diversas formas de relação entre comunidade religiosa e obra salesiana: obras ou setores de obras confiados conjuntamente à comunidade salesiana e aos leigos; obras confiadas a leigos no interior do projeto inspetorial; obras em que a animação pastoral, mas não a gestão, é confiada a uma comunidade salesiana próxima. E persistem obras em que o número dos irmãos permite assumir todos os papéis de responsabilidade; neste caso, há muitos colaboradores leigos com pouca ou nenhuma responsabilidade; aqui as estruturas de animação da comunidade educativo-pastoral são muito frágeis ou ausentes.

Quando se trata de uma obra confiada conjuntamente a Salesianos e leigos, nem sempre se fez o que afirma o CG24 nos números 149-159. Quando se trata de uma obra com gestão laical sob a direção da Inspetoria, em muitos casos, as Inspetorias fizeram grande esforço de reflexão e criatividade para enfrentar o desafio do acompanhamento.

Embora reconhecendo aspectos positivos, registram-se também problemas de certo peso: dificuldade de os Salesianos garantirem um acompanhamento sistemático; dificuldade de os leigos conciliarem os trabalhos solicitados por essas obras com as exigências da vida familiar; dificuldades relacionadas com a substituição dos leigos; ausência de critérios e instrumentos de controle; necessidade de ativar práticas de avaliação da gestão; necessidade de encontrar um quadro jurídico adequado; exigência de mudança da cultura formativa das duas partes em vista de preparar-se mais para administrar essas novas realidades. Há até mesmo situações em que não são claros nem bem definidos o papel, as competências e as funções dos Salesianos e dos leigos com responsabilidade nas casas.

A entrega de uma obra ou setor de uma obra inteiramente aos leigos continua no interior do projeto e da responsabilidade da Inspetoria. Existem situações em que a Inspetoria confia a uma entidade jurídica (fundação, associação, cooperativa, sociedade) uma atividade, uma obra ou setores dela e a utilização de imóveis de sua propriedade. Neste caso, nem sempre é estipulado um convênio que regule as relações jurídicas e econômicas.

 

INTERPRETAR

 

35. Dom Bosco, Pai e Mestre no envolvimento e na corresponsabilidade

Os elementos fundamentais para aprofundar a teoria e a prática da comunhão e da participação no espírito e na missão de Dom Bosco são apresentados no texto do CG24, que permanece uma referência imprescindível neste campo.

Do ponto de vista inspirador alguns preciosos parágrafos demonstram que em todo o seu itinerário existencial o nosso Fundador preocupou-se em envolver o maior número possível de colaboradores no seu projeto operativo, dando origem a um «vasto movimento de pessoas que, de várias maneiras, trabalham para a salvação da juventude» (Constituições, art. 5): dos amigos mais próximos aos companheiros de estudo, de Mamãe Margarida aos empregadores, da gente simples do povo aos teólogos, dos nobres aos políticos da época (cf. CG24, 69-86).

Nascemos e crescemos historicamente em comunhão com os leigos e eles conosco. Em particular, devemos evidenciar a importância dos jovens no desenvolvimento do carisma e da missão salesiana: Dom Bosco teve nos jovens os seus primeiros colaboradores, que assim se tornarão, em certo sentido, cofundadores da Congregação!

Neste dinamismo constante orientado para a busca de comunhão, participação e corresponsabilidade encontramos ainda hoje um dos aspectos qualificadores do nosso chamado a trabalhar pelo advento do Reino de Deus no mundo.

 

IGREJA SINODAL PARA A MISSÃO E ESPECIFICIDADE DAS VOCAÇÕES

 

36. À raiz das realizações e das resistências

Muitas das resistências para levar a sério a participação do espírito e da missão salesiana têm suas raízes na frágil recepção dos dois grandes pilares eclesiológicos do Concílio Vaticano II: a realidade da Igreja como Povo de Deus em caminho na história e a consequente eclesiologia de comunhão, que exalta a reciprocidade e complementaridade das diversas vocações na Igreja.

A partir dessa perspectiva é evidente que a participação dos leigos no carisma e na missão salesiana não é uma concessão generosa feita pelos Salesianos consagrados e nem sequer de uma estratégia de sobrevivência. São Paulo ensina com clareza que os carismas são dons distribuídos pelo Espírito para utilidade comum (1Cor 12); eles não são prerrogativa de um determinado estado de vida, mas enriquecem a vida da Igreja na diversidade e complementaridade das suas vocações.

Convencidos de que não existe dignidade mais elevada daquela que nos foi conferida com o batismo, de modo que «cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização» e que «seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações» (Evangelii gaudium, n. 120), sentimo-nos chamados – Salesianos, membros da Família Salesiana, leigos e jovens – a viver, cada um na sua especificidade, a própria vocação em vista da edificação recíproca. Onde esta abordagem eclesiológica é acolhida com alegria e aprofundada com convicção, os resultados são bem visíveis: a comunidade educativo-pastoral floresce e se torna uma experiência de Igreja que vive a comunhão e a missão de maneira atraente e fecunda.

 

37. A “sinodalidade missionária” da Igreja

A redescoberta da forma sinodal da Igreja foi um dos pontos qualificantes do recente Sínodo sobre os jovens: «O fruto deste Sínodo, a opção que o Espírito nos inspirou através da escuta e do discernimento é caminhar com os jovens, indo ao encontro de todos para lhes testemunhar o amor de Deus. Podemos descrever este processo com a expressão sinodalidade para a missão, ou seja, sinodalidade missionária» (Documento final do Sínodo, n. 118.). Os jovens, mais do que nos pedir para fazer alguma coisa por eles, convidaram-nos a caminhar com eles!

O Papa Francisco é ainda mais radical quando declara que «o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio» (cf. Comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, Discurso do Santo Padre Francisco, 17 de outubro de 2015). Coerente com essas afirmações a XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos – ainda em fase de preparação e a ser realizada em outubro de 2022 – terá como tema a sinodalidade: “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão”.

Estas palavras não podem deixar indiferentes os nossos ambientes salesianos, e exigem conversão do coração e da mente, unidos a uma renovada disponibilidade à mudança das práticas. Realmente, a pastoral juvenil – que «só pode ser sinodal» (Christus Vivit, n. 206) – deveria avançar sem demora nessa direção, abrindo novos caminhos em benefício de todos. Fica sempre mais claro que só homens e mulheres de comunhão construirão o espírito de família e compartilharão a missão.

 

38. Reciprocidade de relações, carisma dos leigos e papel da comunidade religiosa

A boa identificação com a própria vocação e o conhecimento adequado da vocação dos outros são fundamentais para não reduzir a missão compartilhada a colaboração executiva. Salesianos que vivem com alegria e frescor o seu chamado específico são capazes de uma presença animadora incisiva e fraterna e sabem oferecer aos leigos um apoio afetivo e efetivo nas dificuldades que encontram. Os leigos que assumem com convicção o próprio chamado batismal a testemunhar o Evangelho libertam-se do complexo de serem relegados a serviço pastorais de segundo grau. Juntos nos tornamos “laboratório eclesial” e sinal profético de comunhão para a Igreja e a sociedade.

Às vezes, os jovens recebem com maior consideração o testemunho dos leigos, por ser menos óbvio e porque supõem que eles não falem e ajam pela lógica da pertença. A sua vocação, colocando-se no coração do mundo, torna-os, às vezes, mais adequados para responder aos novos problemas culturais dos jovens. Assim, os leigos falam uma linguagem mais apropriada às situações ordinárias da vida e, frequentemente, possuem especificidades profissionais que os tornam preciosos na missão.

A mudança no papel da comunidade religiosa dependerá de diversos fatores, mas, entre eles, serão sempre mais relevantes: a disponibilidade de reler-se diante da opção carismática fundamental; a disposição de questionar o papel de gestor e responsável único da obra diante da corresponsabilidade com os leigos; a capacidade de reler o significado da própria presença no interior do contexto em que se encontra.

 

GESTÃO DA OBRA, VIDA DA COMUNIDADE E NÚCLEO ANIMADOR

 

39. Duas modalidades operativas e centralidade do núcleo animador

A Congregação reconhece atualmente apenas duas modalidades de relação entre comunidade salesiana e obra. A primeira e mais importante, a ser considerada como norma de referência, é composta conjuntamente pela comunidade salesiana e pelos leigos; a segunda refere-se à «atividades e obras dirigidas por leigos dentro do projeto inspetorial salesiano» (cf. CG24, n. 180-182).

Acreditamos que não exista mais o modelo – que, antes do Concílio Vaticano II, podia ser tido como válido – que prevê a animação de uma obra somente pelos Salesianos. Reafirmamos com força que a missão salesiana é estruturalmente comunitária e é confiada a uma comunidade educativo-pastoral e ao seu núcleo animador, composto por Salesianos e leigos em modalidade e proporção diferentes e complementares: a missão que Dom Bosco nos confiou nunca é uma ação individual e autorreferencial!

Em cada um destes dois modelos é central o “núcleo animador” ou o “Conselho da comunidade educativo-pastoral”, a ser considerado como motor e coração de toda a comunidade educativo-pastoral, porque da sua qualificação e do seu correto funcionamento depende o bom andamento da obra. Ele é um precioso órgão de animação e a chave para a vida da obra: trata-se de «um grupo de pessoas que se identifica com a missão, com o sistema educativo e com a espiritualidade salesiana, e assume solidariamente a missão de convocar, motivar, envolver todos os que se interessam por uma obra, para formar com eles a comunidade educativa e realizar o projeto de evangelização e educação dos jovens» (cf. J. E. Vecchi in ACG 363, p. 4; Quadro referencial da pastoral juvenil salesiana, V,1,3; Animação e governo da comunidade, n. 121-122).

 

40. Obras confiadas a Salesianos e leigos

A comunidade, nas obras confiadas à comunidade religiosa e aos leigos, é parte significativa do núcleo animador e ponto de referência carismático: «Este nível de participação do espírito e da missão de Dom Bosco com os leigos marca uma nova fase no desenvolvimento do nosso carisma. De aí deriva a necessidade de a comunidade religiosa salesiana reconsiderar e assumir plenamente o seu papel, relativamente novo, no interior da comunidade educativo-pastora. [...] Isso comporta a mudança radical da estrutura piramidal da autoridade ao estilo mais participativo, no qual as relações e os processos pessoais são da máxima importância» (Animação e governo da comunidade, n. 124).

A forma concreta da relação da comunidade religiosa com a obra no seu conjunto não pode ser reduzida a um modelo único (cf. CG26, n. 120). Por isso, é necessário levar em consideração alguns fatores determinantes: os diversos níveis de pertença e participação do espírito e da missão salesiana; os diversos graus em que se realiza a corresponsabilidade; o tipo de obra; a natureza voluntária ou contratual da presença dos leigos. Deve-se recordar, enfim que a «relação adequada entre comunidade salesiana e obra, como também a modalidade com que a autoridade do diretor é exercida, deve ser codificada no projeto educativo-pastoral inspetorial e local» (Animação e governo da comunidade, n. 125).

 

41. Atividades e obras administradas por leigos no interior do projeto inspetorial salesiano

O CG24, há 24 anos, colocava este segundo tipo de obra entre as “Situações particulares de novidade” (cf. CG24, capítulo III, 180-186)). Hoje, podemos afirmar que aquelas novidades passaram a fazer parte do patrimônio ordinário da Congregação em nível mundial, embora com proporções, formas e modalidades muito diversas entre as regiões e inspetorias.

É importante reafirmar as duas condições essenciais para confiar uma obra aos leigos: em primeiro lugar, devem ser averiguados os critérios de identidade, comunhão e significatividade salesiana; em segundo lugar, deve ser garantido o acompanhamento constante e qualificado do Inspetor e seu Conselho (cf. CG24, 180-182; Quadro referencial da pastoral juvenil salesiana, VIII, 2,2); Animação e governo da comunidade, 126).

Estas condições devem ser examinadas com atenção no contexto do discernimento e da entrega da obra aos leigos. São necessárias a opção carismática e a formação adequada, sobretudo para os que ocupam cargos diretivos, bem como a remuneração e condições de trabalho équas e justas. Enfim, não se deve esquecer que o caminho feito com os leigos, além de ser acompanhado, deve ser constantemente verificado.

 

FORMAÇÃO CONJUNTA PARA A MISSÃO

 

42. Uma prioridade absoluta que envolve diversos níveis de governo e animação

A participação do estilo salesiano e o crescimento na corresponsabilidade exigem a participação em alguns itinerário e experiências formativas orientadas à espiritualidade e à missão, obviamente sem descuidar dos itinerários formativos específicos para consagrados Salesianos e leigos. A formação conjunta na missão compartilhada é uma prioridade absoluta e deve ter em vista sobretudo os membros do núcleo animador (cf. Animação e governo da comunidade, n. 106.122). Nossos colaboradores leigos precisam conhecer Dom Bosco de perto e refletir sobre o que se vive nas nossas obras.

É tarefa da Inspetoria e da Região oferecer itinerários formativos adequados para Salesianos e leigos. A Inspetoria é chamada a elaborar um plano de formação conjunta em nível inspetorial e de acompanhamento dos processos em nível local, garantindo recursos adequados de pessoas e meios. Em nível local, um dos primeiros objetivos que o Diretor salesiano busca com o Conselho da comunidade salesiana e o núcleo animador da comunidade educativo-pastoral é a elaboração de um projeto formativo que dê atenção especial ao tema.

A experiência confirma ser muito positivo confiar a equipes mistas, compostas por Salesianos e leigos, a organização das diversas iniciativas de formação: os Salesianos oferecem o conhecimento adquirido na formação, na assistência e na espiritualidade; os leigos por sua vez oferecem, além das suas competências específicas, os frutos do contato com o mundo das profissões, a maior atenção à vida familiar, o estilo de simplicidade e amizade na relação com as mulheres e o sentido evangélico da vida quotidiana.

É bom recordar, enfim, que a formação não acontece apenas através de cursos acadêmicos, mas sobretudo a partir da experiência de viver e trabalhar juntos, porque «o primeiro e melhor modo de formar-se e formar para a participação e a corresponsabilidade é o funcionamento correto da comunidade educativo-pastoral» (CG24, n. 43).

 

43. Formação inicial e permanente dos Salesianos

«É importante dizer que não somos formados para a missão, mas que somos formados na missão, a partir da qual se articula toda a nossa vida, com as suas escolhas e as suas prioridades. A formação inicial e a permanente não podem ser uma instância prévia, paralela ou separada da identidade e da sensibilidade do discípulo. A missão inter gentes é a nossa melhor escola: a partir dela rezamos, refletimos, estudamos, repousamos. Quando nos isolamos ou nos afastamos do povo que somos chamados a servir, a nossa identidade como consagrados começa a desfigurar-se e a tornar-se uma caricatura». Estas intensas afirmações do Papa Francisco em sua Mensagem ao CG28 falam-nos da importância de uma mudança radical de perspectiva na formação de todos os irmãos e em especial daqueles que vivem a formação inicial: devemos aprender sempre mais a refletir criticamente sobre a experiência pastoral que realizamos entre os jovens!

A formação na e para a missão compartilhada deve tocar também a formação inicial dos Salesianos, não só como tema de estudo, mas também através das experiências pastorais semanais e de férias. A experiência de trabalhar com e sob a direção de leigos durante o tirocínio, como também a participação no Conselho da comunidade educativo-pastoral são momentos preciosos de formação, especialmente se bem acompanhados pelos membros do núcleo animador, tanto leigos como Salesianos.

 

44. Colaboradores de outras religiões e convicções

O nosso trabalho educativo é compartilhado, nos contextos secularizados e plurirreligiosos, por pessoas de diversas religiões e convicções. Muitas delas também são inseridas no núcleo animador da comunidade educativo-pastoral. A sua formação é um delicado desafio que requer sabedoria, coragem e criatividade. A doutrina da Igreja ensina que a revelação de Deus em Cristo, embora supere surpreendentemente a sabedoria humana e a experiência de outras tradições religiosas, traz à tona as sementes da verdade que elas contêm e convida de muitas maneiras ao diálogo inter-religioso. Por isso, é possível individualizar alguns valores comuns que ponham as bases para uma formação diferenciada, inculturada e contextualizada sem comprometer a originalidade da fé cristã.

O CG24 já dedicara uma rica reflexão sobre esse tema (cf. CG24, n. 113,183-186), individualizando dois elementos fundamentais que constituem a base para colaborar com pessoas de outras tradições e convicções: primeiramente, o compartilhamento do Sistema Preventivo (em seus valores humanos e laicais com quem não crê em Deus; nos valores religiosos com os que aceitam Deus ou o Transcendente; no Evangelho de Cristo com cristãos de outras Igrejas e comunidades eclesiais); depois, a abertura à busca de Deus, da parte dos que não professam uma fé (cf. CG24, n. 185.100). Uma vez que «a missão juvenil nos leva a uma educação que é ao mesmo tempo evangelização», o CG24, também reconhecera que posições hostis à Igreja católica como se encontram em algumas ideologias, seitas ou movimentos, porém, são incompatíveis com a nossa missão (cf. CG24, n. 185).

Após a experiência destes decênios, seria útil verificar a aplicação desses critérios e os resultados concretos que deles decorrem em termos de educação e evangelização, para evidenciar as boas práticas a fortalecer e os riscos a evitar. A condição fundamental é, certamente, a presença consistente de Salesianos e, onde possível, de leigos cristãos que vivem a própria identidade vocacional com alegria e autenticidade (CG24, n. 183-185; Animação e governo da comunidade, n. 135), sem ocultar o que constitui o coração e a motivação de fundo da vida deles. É igualmente importante o clima de respeito, paciência, acolhida e amizade, que evita tanto a imposição de valores e convicções quanto o receio de abordar temas que qualificam a nossa identidade.

Estamos convencidos de que podemos compartilhar com todos os homens de boa vontade que desejam participar da missão salesiana a bondade paterna (amorevolezza) de Dom Bosco, a razoabilidade inerente ao seu sistema educativo e a confiança nos recursos dos jovens, a opção privilegiada dos mais pobres e o empenho pela cultura do acolhimento que não conhece limites de raça, cor, nação, cultura e religião.

 

ESCOLHER

45. Igreja sinodal, missão compartilhada e comunidade educativo-pastoral

Assumamos decididamente a missão compartilhada entre Salesianos e leigos, valorizando a reciprocidade das vocações

Atitudes e mentalidades a converter

  • De uma missão confiada aos “papéis pessoais” dos consagrados à consciência da eclesiologia de comunhão e à redescoberta do papel dos leigos.
  • De ver os leigos como simples “colaboradores” em vista da melhor realização do trabalho apostólico a considerar a corresponsabilidade laical como critério carismático fundante.
  • De contemplar os jovens como meros destinatários das nossas intervenções educativas ao senti-los corresponsáveis da única missão.

Processos a ativar

  • Os Setores para a formação e para a pastoral juvenil favorecem a redação de algumas diretrizes para a animação e acompanhamento da comunidade educativo-pastoral, segundo as “boas práticas” da Congregação.
  • As Inspetorias dão uma atenção especial em reforçar a compreensão da comunidade educativo-pastoral, cuidam da formação dos seus membros e da preparação do projeto educativo-pastoral salesiano, verificando periodicamente o caminho feito.
  • As Inspetorias confiam gradualmente papéis de responsabilidade institucional aos leigos carismaticamente fundamentados e profissionalmente preparados, em nível local e inspetorial, envolvendo-os na programação pastoral e na gestão econômica.

Condições estruturais a garantir

  • As Inspetorias estudam e definem os modelos de gestão para os vários tipos de tarefas confiadas aos leigos no interior do projeto inspetorial (Plano Orgânico Inspetorial, Projeto Educativo-Pastoral Salesiano Inspetorial, Diretório inspetorial), com referência particular aos encargos, à justa remuneração econômica, à duração dos cargos e aos órgãos de decisão.
  • As Inspetorias fazem um sério acompanhamento das obras de gestão laical mediante a presença do Inspetor e da equipe de animação inspetorial e, para tanto, redigem um estatuto.
  • As Inspetorias envolvem os grupos da Família Salesiana no plano de redesenho das presenças salesianas, predispondo experiências de colaboração em favor dos mais pobres.

 

46. Formação conjunta para a missão

Asseguremos espaços e tempos de formação conjunta e compartilhamento de vida entre Salesianos e leigos para um mais adequado serviço educativo-pastoral aos jovens.

Atitudes e mentalidades a converter

  • Da formação conjunta esporádica e ocasional a uma formação mais sistemática, que tenha em vista integrar todos os aspectos da missão salesiana (espiritual, pedagógica, pastoral e profissional)
  • Da formação dada apenas pelos consagrados a uma formação programada e realizada com os leigos.
  • De uma mentalidade autossuficiente à real experiência da necessidade da formação conjunta.

Processos a ativar

  • Os Setores para a formação e para a pastoral juvenil promovem uma reflexão em nível regional em vista da renovada compreensão e valorização da formação conjunta no horizonte da missão compartilhada.
  • O Setor das missões coordena a reflexão para o aprofundamento das condições necessárias para a participação de leigos colaboradores de outras religiões e convicções na missão salesiana, propondo itinerários de formação idôneos e diferenciados, centrados nas colunas do Sistema Preventivo.
  • As Inspetorias investem na formação conjunta – também durante a formação inicial – com o auxílio de estruturas regionais de formação permanente e garantindo o apoio econômico para favorecer a participação dos leigos.

Condições estruturais a garantir

  • As Inspetorias elaboram o projeto de formação conjunta distinguindo os níveis de formação, conteúdos, destinatários e sujeitos através de itinerários diversificados de formação (humana, espiritual, salesiana e profissional).
  • A comunidade local oferece processos de formação para Salesianos e leigos capazes de compartilhar a vida espiritual e fraterna além da ação educativo-pastoral.
  • A comunidade local dá início a itinerários de construção da comunidade educativo-pastoral e dos Conselhos da comunidade educativo-pastoral como núcleo de animação e espaço eficaz para iniciar experiências sistemáticas de espiritualidade, comunhão e serviço com os leigos e com os jovens.

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