CG28

Relação do Reitor-Mor ao CG28

RELAÇÃO DO REITOR-MOR AO CAPÍTULO GERAL 28

Ángel Fernández Artime

 

1. TESTEMUNHAS DA RADICALIDADE EVANGÉLICA. À LUZ DO CG27

Em continuidade com os últimos Capítulos Gerais, o CG27 convidava fortemente toda a Congregação Salesiana a viver com radicalidade a nossa consagração apostólica. O apelo referia-se à necessidade e importância de redescobrir a identidade salesiana, vivendo a graça de unidade e a alegria da nossa vocação. O Capítulo pedia-nos para fazer uma forte experiência espiritual, convertendo-nos em buscadores de Deus, capazes de construir uma autêntica fraternidade de vida e ação em nossas comunidades, para dedicar-nos com generosidade à missão salesiana caminhando com os jovens.

Olhando para o sexênio passado, como também se fez no CG27, podemos colher tanto as muitas manifestações de fidelidade quanto as situações de incoerência e deformidade que se evidenciaram nos últimos anos. É o que pretendo examinar nestas primeiras páginas.

 

1.1. Chamados a viver mais plenamente o primado de Deus em nossa vida e em nossas comunidades

O CG27 foi um dom, uma graça e uma oportunidade que nos arrojou a ser mais de Deus, mais dos Irmãos e mais dos jovens, como disse tanto na minha primeira carta como no discurso final do Capítulo. Como consagrados desejamos dar o primado a Deus na nossa vida. Certamente são muitíssimos os irmãos que vivem assim todos os dias, estimulados pelo apelo à santidade vivida por Dom Bosco e por aqueles que ao seu lado cresceram numa autêntica escola de santidade, mas também encorajados pela sede de vida e de autenticidade de muitos jovens no mundo todo. São numerosos os sinais, muitas vezes simples, que tornam visível o primado de Deus na nossa vida quotidiana: o rico patrimônio da espiritualidade do quotidiano, caracterizado por um belíssimo espírito de família e por relações positivas, cordiais e sadias; a disponibilidade, que muitas vezes se manifesta, ao acompanhar a vida dos jovens e de suas famílias e a paternidade espiritual;[1] a entrega generosa, serena e alegre de cada um de nós por amor de Deus e dos irmãos.

Como aconteceu para Dom Bosco, também para nós é o primado de Deus que dá plenitude à vida consagrada, fazendo-nos «evitar o risco de nos deixarmos absorver pelas atividades, esquecendo-nos de ser essencialmente “buscadores de Deus” e testemunhas do seu amor entre os jovens e os mais pobres».[2]

Ao longo do sexênio recordamos que esse caminho só é possível vivendo, pessoal e comunitariamente, uma conversão contínua, sempre necessária, desde que o objetivo jamais é alcançado de modo definitivo. Procuramos transmitir às comunidades e inspetoras uma visão de fé, jamais de falta de esperança, que nos permitisse descobrir Deus vivendo a alegrando-nos todos os dias pelos eventos que tanto nos falam d’Ele.

Foram numerosos os esforços, as tentativas, as chamadas de atenção, os convites que muitos de nós fizeram para vivenciar caminhos de autenticidade. E é muito grande o bem que se faz em nossa Congregação, nas comunidades e nos irmãos, todos os dias, em cada um dos dias.

® Com humildade, devemos reconhecer também que encontramos formas de autorreferência e autossuficiência, que levam alguns a viverem sem a consciência de serem colaboradores de Deus.

®  O CG27 afirmava: «Diminuiu progressivamente a visibilidade e credibilidade da nossa vida consagrada».[3] Nestes anos, procuramos sensibilizar os irmãos e fazer que tomassem consciência desta situação, insistindo, retomando São Paulo, «oportuna e inoportunamente» (cf. 2Tm 4,2); mas não podemos negar que com frequência, infelizmente, ainda hoje o povo e os jovens nos reconhecem mais pelo trabalho que fazemos do que pelo nosso ser Salesianos de Dom Bosco, ou seja, religiosos consagrados, chamados a testemunhar de modo claro, transparente e sem incertezas a essência da própria consagração.

Há ainda muito caminho a percorrer. Certamente, podemos dizer que a falta de visibilidade é o punctum dolens da vida consagrada depois do Vaticano II. Contudo, o fato que isso aconteça também nos outros consagrados, não é motivo para nos sentirmos tranquilizados de toda preocupação e responsabilidade.

Enfim, trata-se de viver uma existência em que, através de pequenos passos, se testemunhe que a conversão é possível, manifestando-se assim a identidade da nossa vida consagrada; trata-se de cultivar uma sadia tensão espiritual, que nos mantém em caminho, ainda que hoje pareça pouco valorizada; de cumprir um caminho de transformação constante da mente e do coração, que deve ser um processo desejado, buscado e aceito pessoalmente. Tudo isso constitui um processo necessário para ajudar-nos em vista de uma sempre necessária regeneração, porque a vida consome, reduz e tende a fazer desaparecer detalhes importantes, levando-nos a relativizar o que não poderia ser relativizado, etc. Encontramos essa perspectiva nas palavras de São João Paulo II na exortação apostólica Vita consecrata: «a vida espiritual deve ocupar o primeiro lugar (...).Desta opção prioritária, desenvolvida no compromisso pessoal e comunitário, depende a fecundidade apostólica, a generosidade no amor pelos pobres, a própria atração vocacional sobre as novas gerações».[4]

Nestes seis anos tivemos bem presentes, tanto eu como o Conselho Geral, as linhas programáticas do discurso de encerramento do CG27. Evidentemente era mais que um discurso. Sua finalidade era traçar um caminho concreto e compreensível, em sintonia com o espírito vivido e com as reflexões do CG27. Já então eu exprimia uma convicção: «Seria realmente preocupante se alguém chegasse a pensar que a fragilidade que constatamos na vivência do primado de Deus em nossa vida faça parte do nosso DNA salesiano»,[5] porque não foi assim nem para Dom Bosco nem para muitos dos seus filhos com quem amadureceu o carisma. Obviamente, Dom Bosco não queria que fosse assim. Acredito, portanto, que se deva continuar esse caminho, conscientes de estar no caminho certo, para viver uma vida religiosa mais autêntica; é o caminho da própria, simples santificação, o «dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens».[6] E sabemos que não é possível falar de Dom Bosco e da sua predileção pelos meninos e jovens sem ter uma predileção e uma paixão ainda mais fascinante em relação a Jesus Cristo.

 

1.2. Um apelo para viver uma vida fraterna autenticamente atraente

Para nós Salesianos de Dom Bosco, a vida comunitária, a fraternidade evangélica vivida em comunidade, é um modo de fazer experiência de Deus. É viver a “mística da fraternidade”, elemento essencial da nossa consagração apostólica. Diz-nos o Papa Francisco: «Nisto está a verdadeira cura: de fato, o modo de nos relacionarmos com os outros que, em vez de nos adoecer, nos cura é uma fraternidade mística, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as moléstias da convivência agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom. (...) Não deixemos que nos roubem a comunidade!».[7]

Os nossos jovens são, certamente, muito sensíveis, especialmente nestes tempos, aos sinais que transmitimos, ao testemunho que damos, mais do que às palavras. Em geral, eles estão em busca de relações sadias e transparentes, ao menos conosco. Muitos deles experimentam divisões e rupturas no seio de suas próprias famílias e nós, quando vivemos a nossa fraternidade de modo convincente, mostramos-lhes outro mundo, outro modo de relacionar-se, outros valores simples e profundos ao mesmo tempo.

Sabemos muito bem que em Valdocco, ao longo dos anos, nem tudo foi perfeito. Conhecemos bem o sofrimento de Dom Bosco que transparece na Carta de Roma. Contudo, falamos do “espírito de Valdocco”, do espírito de família, daquele “sabor de casa e de família” que tanto agradava a Dom Bosco, nas relações entre os Salesianos e os meninos. Esse é o ideal da fraternidade que deve resplender nas nossas comunidades.

Neste sentido, durante o sexênio foram feitos notáveis esforços. Posso garantir que em todas as inspetorias surgiram iniciativas de vários gêneros para acompanhar e ajudar as comunidades e os irmãos a darem passos concretos nesse campo. Não somos insensíveis a esse esforço. Pelo contrário. Ao mesmo tempo reconhecemos que permanecem fragilidades e limitações pessoais que ofuscam a luminosidade e ocultam a luz que deveria ser irradiada.

  • A tendência de alguns irmãos viverem comodamente ou a hiperatividade de outros alimentam a convicção de que o tempo compartilhado em comunidade é um tempo “roubado” ao espaço “privado” de cada pessoa ou ao serviço que alguém pode prestar.
  • Às vezes, sob a forma de “respeito” ou de “tolerância” esconde-se a atitude de indiferença diante dos irmãos.
  • «As relações pessoais em comunidade podem ser formais, fragmentadas e pouco significativas».[8] No estudo das inspetorias feito no Conselho Geral, depois das visitas extraordinárias, conclui-se, quase de modo generalizado, que o individualismo, o individualismo sempre crescente, é a grande doença da nossa vida fraterna. Tanto quando se trata da missão e do trabalho como quando se trata de momentos e tempos livres. Evidencia-se sempre mais o modo de relacionar-se de maneira funcional e o curvar-se na “esfera do privado” – em não poucas ocasiões com o uso pessoal nem sempre adequado dos meios de comunicação. Certamente muitos irmãos caminham questionando-se, honrando seus compromissos e dando o melhor de si para viver uma autêntica fraternidade evangélica. Todavia, ao seu lado veem atitudes, já recordadas, que mutilam seus sonhos. Tudo isso faz parte, sem dúvida, da nossa fragilidade e entra naquele caminho de conversão e crescimento que cada um é chamado a percorrer.

 

1.3. Sempre com os jovens e para os jovens

Afirmamos no CG27 que os jovens são «a nossa sarça ardente».[9] Através deles Deus sempre nos falou e ainda hoje nos fala. Através dos jovens, o Espírito plasmou o coração de Dom Bosco. Que ícone estupendo para nos recordar que estamos tocando o mistério da vida e que, por isso, como Moisés, também nós devemos tirar as nossas sandálias para admirar e contemplar em silêncio o que Deus está fazendo em nossa vida, na vida dos nossos irmãos e na história dos nossos meninos e jovens. E não esqueçamos que podemos viver autenticamente o primado de Deus, na sua mais profunda expressão vocacional como Salesianos de Dom Bosco, estando entre os jovens e a serviço dos jovens, desde que o Senhor nos espera neles e, em Dom Bosco, nos sonhou para eles.

Isso tudo torna fascinante o carisma salesiano de Dom Bosco e suscita muita atração nos jovens, por exemplo, nos mais de 435 noviços que todos os anos desejam preparar-se para viver como Salesianos de Dom Bosco. Justamente por isso, não podemos deter-nos no meio do caminho; não podemos privar de suas aspirações os meninos e jovens que todos os dias encontram os Salesianos. Não podemos frustrá-los.

O Papa Francisco no-lo pediu diretamente e com intensidade especial na carta que enviou, na pessoa do Reitor-Mor, a todos os Salesianos por ocasião do Bicentenário do nascimento de Dom Bosco, escrevendo sem meios-termos: «Dom Bosco vos ajude a não frustrar as aspirações profundas dos jovens: a necessidade de vida, abertura, alegria, liberdade, futuro; o desejo de colaborar na construção de um mundo mais justo e fraterno, no desenvolvimento para todos os povos, na tutela da natureza e dos ambientes de vida. Ao seu exemplo, os ajudareis a experimentar que só na vida da graça, isto é, na amizade com Cristo, se realizam plenamente os ideais mais autênticos. Ter a alegria de acompanhá-los na busca da síntese entre fé, cultura e vida, nos momentos em que se tomam decisões difíceis».[10]

Creio ser adequado afirmar que a Congregação é solícita e está atenta à realidade dos meninos e dos jovens. Não perdemos o nosso rumo. Não nos afastamos da essência do carisma. Pusemos energias, esforços, empenho e determinação para seguir e acompanhar os nossos jovens, para conhecer e encontrar aqueles que hoje não são reconhecidos. E nisso tudo muitos dos nossos irmãos perderam a vida.

Falando honestamente, não é errado reconhecer que não poucas vezes entre os jovens e nós, ou entre nós e os jovens se criaram distâncias: físicas, mas também mentais e culturais. Não é menos verdade que para alguns irmãos as tarefas de gestão são mais atraentes e gratificantes do que a presença entre os jovens. Não é menos verdade que às vezes os pátios ficam vazios pela ausência de Salesianos. Não é menos verdade que às vezes entre ser servos dos jovens e as nossas seguranças, vence a opção pelas nossas comodidades (dispor de espaços confortáveis, ser reconhecidos, ter tempo livre e privacidade...). Enfim, está em jogo o amor, a realização concreta de quanto Dom Bosco afirmava: «Basta que sejais jovens para que eu vos ame muito».[11]

 

1.4. Em caminho na Igreja e com o Papa Francisco

Em diversos ambientes, muitas vezes, eu quis e precisei recordar que nós, fiéis à herança que recebemos de Dom Bosco, estamos com o Papa: hoje, Francisco, ontem, Bento XVI, antes ainda, João Paulo II (hoje santo). E na condição de navegadores no grande rio que é a Igreja vivemos um excepcional sexênio de Graça.

Permiti-me dizer que, se tivéssemos sonhado com uma animação da Congregação e da Família Salesiana pela Igreja para esta pequena porção que somos, nunca a teríamos sonhado tão perto da essência mais pura do carisma de Dom Bosco.

As várias Exortações Apostólicas dos últimos tempos, a celebração dos últimos três Sínodos, sobre e família e sobre os jovens, como também a palavra do Papa sobre eles, ofereceram-nos uma reflexão eclesial completa, que não só nos encoraja como também nos imerge na riqueza do pensamento da Igreja, que, sem dúvida, iluminará as reflexões do nosso Capítulo. Evidentemente, não podemos nem devemos realizar o trabalho capitular sem levar na devida consideração a sensibilidade, o conhecimento e a riqueza pastoral que a Igreja e, de modo particular, o Papa nos ofereceram.

 

2. OUTRAS REFLEXÕES SOBRE O ESTADO DA CONGREGAÇÃO

2.1. O protagonismo dos jovens, evangelização e Movimento Juvenil Salesiano

As páginas desta relação dedicadas à Pastoral Juvenil no sexênio oferecem uma exposição detalhada dos muitos processos e iniciativas realizados no período. Cremos ser obrigatório sempre dizer que a evangelização dos meninos, dos jovens e de todos os nossos destinatários é resultado e, ao mesmo tempo, desafio permanente; é uma realidade da qual, embora alegrando-nos pelo bem que foi feito, não nos devemos sentir jamais completamente satisfeitos, porque nos parecerá sempre insuficiente. É verdade que a liderança dos jovens está em crescimento contínuo em numerosas áreas da Congregação. É também verdade que o Movimento Juvenil Salesiano se apresenta como um dos resultados mais positivos da nossa obra de evangelização por serem os próprios jovens frequentemente animadores e evangelizadores de outros jovens. Isso tudo nos alegra profundamente. Reconhecemos, também, que em algumas zonas da Congregação a realidade do voluntariado é um fator que ajuda os próprios jovens a amadurecerem nas dimensões mais importantes da vida, incluída a dimensão vocacional e missionária.

Tenho como importantes os seguintes desafios:

® A evangelização é a nossa grande tarefa e o nosso desafio. Oferecer processos de educação à fé e propostas de crescimento integral em todas as presenças deve ser uma prioridade que ousaria definir de extrema urgência. Em algumas ocasiões, de fato, diante das dificuldades, inibimos a nossa ação evangelizadora e educativa. Em geral, porém, precisaríamos de uma capacidade maior de proposta, de um maior ardor apostólico. Poderíamos dizer que aquilo que fazemos nunca é suficiente. Precisamos de comunidades educativo-pastorais para continuar a crescer na convicção e no empenho em favor da ação educativa e evangelizadora como ponto unificador, que envolve e empenha todos nós e de um modo muito exigente.

® Por outro lado, repetimos até nos cansarmos que não é suficiente organizar ações e eventos, mas é preciso dar vida a processos educativo-pastorais e de evangelização nos quais a identidade carismática, pastoral e pedagógica de toda a ação salesiana dê resposta às mudanças que estão sendo vividas neste século. Com frequência e em muitos contextos a realização deste empenho ainda deixa muito a desejar e continua em suspenso.

® A atenção à formação e aos processos de acompanhamento de todos os jovens, em particular dos jovens animadores, catequistas, etc., como também o acompanhamento nos fóruns e organizações pela defesa dos direitos humanos, dos direitos das crianças, do desenvolvimento, da justiça e da paz, etc., devem ser uma prioridade para o Salesiano de hoje e de amanhã. A nossa pastoral juvenil atua desse modo e não pode permanecer isolada, como se se tratasse de um microcosmo salesiano.

® Em nossa missão salesiana, a família deve continuar a “conquistar” um espaço de maior atenção, pois continua a ser essencial para o amadurecimento dos adolescentes e dos jovens. Em muitas ocasiões, ela é um refúgio de particulares adversidades ambientais. Existem não poucas famílias que sofrem pelas consequências de divisões e fragmentações, às vezes devido a pais não suficientemente preparados e maduros para a paternidade ou a maternidade. Por isso, nas situações mais favoráveis ou mais carentes, a nossa atenção pastoral deve incluir como prioritária a dedicação às famílias ao lado da que se dá aos jovens.

 

2.2. Um empenho prioritário: a escuta e o acompanhamento dos jovens

O CG27 expressou muitas vezes a preocupação e o empenho que, como Salesianos, devemos ter no acompanhamento dos jovens.[12] Creio ser adequado afirmar que, aos poucos, estamos adquirindo uma maior consciência da importância de acompanhar os jovens no conhecimento e no amadurecimento pessoal e no caminho de encontro com Jesus.

Com palavras, às vezes diferentes ao longo do tempo, estamos falando há decênios de acolhida incondicionada dos jovens, de disponibilidade ao encontro pessoal com eles, de diálogo, de escuta e celebração da reconciliação, de disponibilidade para “falar da inquietude vocacional” ou das “minhas dúvidas” como muitas vezes eles mesmos dizem.

Neste sexênio procurou-se dar atenção especial à área da escuta e do acompanhamento dos jovens. Ocupamo-nos disso também no sexênio anterior, e nestes últimos anos intensificamos essa animação. Foi uma grande ajuda a difusão e o maior conhecimento do Quadro Referencial da Pastoral Juvenil Salesiana em todas as Regiões da Congregação. Em seguida, o Congresso celebrado em Madri sobre o tema Pastoral juvenil e família sensibilizou-nos. Especial importância e peso teve para nós a celebração do Sínodo dos bispos sobre Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional, que nos levou a elaborar o documento Jovens Salesianos e acompanhamento: preparado pelos dicastérios para a Formação e para a Pastoral Juvenil; o documento foi estudado tanto pelo Reitor-Mor como pelo Conselho Geral e sucessivamente aprovado. O seu conhecimento e aplicação serão sem dúvida muito úteis e favorecerão tanto o discernimento como o acompanhamento e a formação inicial dos Salesianos nas várias fases.

É evidente que o que acontece na pastoral juvenil influencia a formação dos Salesianos e vice-versa. Se em nossa pastoral juvenil for feito um bom acompanhamento e discernimento vocacional, as vocações salesianas, que por graça e chamado do Senhor podem germinar, terão uma ótima disposição em relação aos processos de formação. E, se nas etapas formativas, for oferecido um bom acompanhamento, é presumível que no futuro teremos Salesianos bem preparados e bem-dispostos para o trabalho da pastoral juvenil e para o acompanhamento dos jovens.

Vejo nessa tarefa, hoje e no futuro próximo, uma oportunidade magnífica para a nossa Congregação, graças aos jovens das nossas presenças no mundo todo e aos jovens irmãos, que serão sempre mais sensíveis para percorrerem um caminho que já terão vivido e experimentado. O próprio Papa Francisco, no último número da Exortação Apostólica Christus vivit, expressa o desejo de os jovens percorrerem esse belíssimo caminho e lhes diz: «O Espírito Santo vos impulsione nesta corrida para a frente. A Igreja precisa do vosso ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé. Nós temos necessidade disto! E quando chegardes aonde nós ainda não chegamos, tende a paciência de esperar por nós».[13]

 

2.3. Um sexênio rico de animação missionária

A realidade missionária da Congregação é realmente grande e bela. Os contextos e as circunstâncias em que compartilhamos a vida e a missão com os diversos povos e as diversas etnias são muito ricos, mas em geral, parece-me, são pouco conhecidos. Por isso, nesta relação, acreditei como muito importante oferecer a todos os membros da Assembleia capitular as seguintes informações.

Atualmente, a Congregação está presente em 134 nações: 43 na África, 24 na América, 29 na Ásia, 32 na Europa e 6 na Oceania. Neste momento foi suspensa a presença no Iêmen, onde o nosso irmão padre Tom Uzhunnalil esteve sequestrado por 557 dias. Foram encerradas as presenças em dois países: Iran e Andorra. Ao mesmo tempo fundamos novas presenças em outras duas nações: Malásia e Gâmbia. E recebemos pedidos para abrir novas comunidades no Afeganistão, na Argélia, em Guiné Bissau, no Cazaquistão, no Iraque, na Suécia, em Santo Tomé e Príncipe, na Somália e em Vanuatu.

  • - Contextos religiosos particulares

® Contexto islâmico:

O fenômeno da diversidade religiosa e da diferença multicultural é sempre mais transversal e não caracterizado apenas geograficamente. A nossa presença em nações com maioria muçulmana, onde o carisma de Dom Bosco está a serviço dos jovens com o testemunho evangélico e de diálogo inter-religioso, está particularmente concentrada na Inspetoria do Oriente Médio (MOR), em contexto árabe muçulmano: Síria, Palestina e Egito. No Líbano e em Israel, as obras têm características próprias, devidas à significativa presença cristã no primeiro e hebraico-muçulmana no segundo. Podemos recordar ainda as novas presenças no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos e também nos países do Magreb, Marrocos e Tunísia.

® Em contexto asiático, com características muito diferentes, temos presenças no Azerbaijão, em Bangladesh, na Indonésia e Malásia, no Paquistão e Turquia.

® Em contexto europeu: Albânia, Kosovo, Bósnia-Herzegovina.

® Em contexto africano: Burkina Fasso, Chade, Gâmbia, Guiné Conakry, Mali, Senegal, Serra Leoa e Sudão.

® Em contexto budista: Camboja, China, Coreia, Japão (com religiões prevalentemente budista e xintoísta), Mongólia, Mianmar, Nepal, Sri Lanka, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

®  Em contexto cristão-ortodoxo: Belarus, Bulgária, Geórgia, Etiópia, Eritreia, Moldávia, Montenegro, Romênia, Rússia, Sérvia e Ucrânia.

  • - Contextos de mobilidade humana e migrações

® Refugiados e imigrantes internos (IDP – Internally  Displaced People): além da transversalidade do fenômeno, que interessa muitas nações, estamos presentes em lugares muito significativos quanto à realidade dramática dos refugiados e imigrados internos ao próprio país. Como exemplo: Burundi, África Central, Egito, Etiópia, Índia, Quênia, Líbano, Nigéria, Republica Democrática do Congo, Ruanda, Síria, Sudão, Sudão do Sul, Turquia, Ucrânia e Uganda.

® O fenômeno migratório, enorme e diferenciado, é de tal peso que, de um modo ou outro, a Congregação se vê imersa nele em grande medida. Como exemplo, elenco algumas presenças mais significativas, tanto em relação aos lugares de partida como os de destinação onde trabalhamos em favor dos migrantes e desalojados: Alemanha, Bangladesh, Bélgica, Canadá, Cuba, Colômbia, El Salvador, Espanha, Estados unidos, Etiópia, Egito, França, Grã Bretanha, Gana, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Irlanda, Itália, Marrocos, México, Mianmar, Nepal, Nigéria, Nova Zelândia, Holanda, Peru, Polônia, Portugal, República Dominicana, Senegal, Ucrânia, Venezuela…

  • - Contextos de grupos étnicos

Fazer uma lista mais ou menos exaustiva destas realidades é uma tarefa muito complexa, por que não dispomos até o momento de dados suficientemente adequados.

São realidades que se apresentam ricas e diferenciadas nos vários continentes. Pensemos, por exemplo, no povo cigano na Europa, na grande quantidade de minorias étnicas no Nordeste da Índia, nas centenas de etnias presentes nos 43 países do continente africano. Na América inteira encontramos diversos povos, como os da zona andina (quéchua, aimará, mapuche) ou da zona mesoamericana (quiché, mixes, zapoteco, chilanteco…) ou da Amazônia.

No clima do último Sínodo dos bispos, de outubro de 2019, eu quis insistir sobretudo nas nossas presenças amazônicas. A Congregação está presente na Amazônia em quatro nações: Brasil, Equador, Peru e Venezuela; a elas, acrescente-se o Chaco paraguaio, que está muito ligado à realidade amazônica. Nesta região temos 47 comunidades salesianas com 245 irmãos. Vinte duas comunidades vivem em contexto urbano e outras vinte e cinco em contexto rural. Estamos presentes entre as 62 populações originárias da Amazônia: somos, na Igreja, a Congregação com maior número de presenças entre esses povos. São 1.219 as comunidades católicas e 2.123 os agentes pastorais que atuam nas zonas rurais de 612.231 pessoas, das quais 66,7% são católicas[14].

Segundo o território das inspetorias podemos elencar estes povos:

® Brasil, Campo Grande (BCG) com os povos Xavante, Bororo, Terena, Guaraní, Kaiowá, Kinikianau, Atikum, Guató, Ofaié, Kadiwíeu, Kura Bakairi.

® Brasil, Manaus (BMA): com Tukano, Tariano, Dessano, Piratapuia, Hupda, Cubeo, Uanano, Barassano, Mirititapuia, Arapaso, Tuyuka, Carapanasso, Baré, Yanomani, Baniwa

®  Equador (ECU) com os povos Shuar, Achuar, Saraguro, Kitchwa.

® Perù (PER), com os Achuar, Shawi, Kandozi, Wampis, Awajun, Kitchwa, Chapra, Kuca-macucamilla, Shivillo, Shipibo-Conivo, Machiguengas.

® Venezuela (VEN), com os Arawaco, Hiwi, Piaroa, Yanomami, Sanema, Yekauana, Wayúu, Wotuha, Eñepa, Hoti, Maco, Puinave, Yavarana, Piapoco, Baniba, Baré, Curripaco, Yeral, Warekena, Inga.

®  Paraguai (PAR) com o povo Ayoreo, Maskoy, Ishir, Tomarajo.

É importante evidenciar que atualmente 18 irmãos com votos perpétuos ou em formação, 8 pré-noviços e 12 aspirantes são originários da Amazônia (Tuyuka, Desano, Traiano, Arapaso, Tukano, Baniwa, Bororo, Xavante, Shuar, Kitchwa).

O que pretendi apresentar, caros irmãos, é uma “fotografia” da belíssima realidade missionária da nossa Congregação. Entres aqueles que hoje sustentam essa realidade e entre aqueles que puseram os fundamentos, podemos contar mais de 10.400 Salesianos missionários ad gentes, a partir da primeira expedição missionária de Dom Bosco em 1875 até a última que vivemos há pouco, ou seja a 150ª. Muitas vezes, partiram conosco as nossas irmãs Filhas de Maria Auxiliadora, frequentemente para realizar uma ação missionária complementar.

Esses missionários e missionárias, com a graça de Deus e a ação do Espírito, semearam e plantaram a essência do carisma salesiano de Dom Bosco que se desenvolveu nos cinco continentes.

O Concílio Vaticano II apelou intensamente a todas as Congregações e os Institutos para a missão apostólica e evangelizadora nas terras de missão.[15]

Embora não havendo na tradição salesiana nenhum indiscutível “caráter missionário”, quisemos responder igualmente a esse apelo, sabendo que Dom Bosco, desde jovem, também nutria a esperança se ser missionário. Esse pensamento jamais o abandonou.[16] Foi seu grande ideal realizado através de seus filhos e filhas. Éramos decisivamente missionários e «os sucessores de Dom Bosco, fiéis ao espírito do Fundador, sempre puseram um empenho especial na ação missionária da Congregação».[17] Posso garantir-vos que também nós continuaremos a fazer o mesmo.

 

2.4. Com um itinerário contínuo, sempre em crescimento, como Família Salesiana de Dom Bosco

O CG27 afirmava que cresceu a consciência de ser Família Salesiana.[18] Eu digo o mesmo pelos seis anos passados. Certamente, o trabalho feito pelas Inspetorias e comunidades locais foi muito importante. Os Dias de Espiritualidade Salesiana tiveram grande acolhida e uma participação notável e significativa. A Estreia proposta todos os anos continua a ser pedida e valorizada pelos 32 grupos que compõem a Família Salesiana no mundo. Em todos os contextos e lugares escolhe-se o que de melhor pode exprimir na cultura local a essência da mensagem, que certamente está presente e se difunde em todo o mundo salesiano. A proposta do tema é um elemento que manifesta, todos os anos e sempre mais, a nossa identidade de família religiosa no mundo, o nosso ser família de Dom Bosco! E a Carta de identidade da Família Salesiana é a referência em que justamente encontramos a nossa identidade como família em que cada grupo – nós em particular – se reconhece como membro dessa família.

A reflexão iniciada pelo CGE sobre a Família Salesiana ainda é hoje da máxima relevância, pois constitui o fundamento do nosso ser família de Dom Bosco e define a nossa pertença e o nosso serviço a ela. O Capítulo Geral Especial afirmava: «Os Salesianos não podem repensar integralmente a sua vocação na Igreja sem se referirem àqueles que juntamente com eles são depositários da vontade do Fundador. Por isso procuram uma maior unidade de todos, embora na autêntica diversidade de cada um».[19]

O caminho de unidade e comunhão percorrido ao longo destes anos levou à publicação, em momentos diferentes, de três documentos que expressam a nossa identidade e pretendem ajudar a continuar o mesmo caminho: A carta de comunhão da Família Salesiana de Dom Bosco, preparada pelo padre Egídio Viganò em 1995 e publicada em 2000 pelo padre Juan E. Vecchi com o título Carta da Missão da Família Salesiana, e a Carta de identidade da Família Salesiana, promulgada pelo padre Pascual Chávez em 2012 e que é, como fruto maduro, expressão de uma identidade carismática bem consolidada.

Neste sexênio houve uma rica animação do Secretariado para a Família Salesiana em contato com as Inspetorias e Regiões, acompanhando especialmente os grupos que requerem uma atenção especial da nossa parte como Salesianos de Dom Bosco. O nosso Capítulo fará certamente uma revisão do Secretariado para a Família Salesiana, como se fez no final do sexênio precedente.

Igualmente positiva foi a reflexão compartilhada e amadurecida nestes seis anos ao redor dos seguintes núcleos:

® A responsabilidade do acompanhamento que, como Salesianos de Dom Bosco, temos e devemos ter em relação à Família Salesiana, explicitado no art. 45 da Carta de identidade da Família Salesiana.

® A assimilação da figura e do papel dos delegados inspetoriais e locais dos grupos da Família Salesiana no que se refere ao nosso serviço de animação.

® O amadurecimento e a atualização dos critérios e condições necessárias para pertencer oficialmente à Família Salesiana.

No próximo sexênio será muito significativo o que se poderá realizar em vista da coordenação e reflexão da animação da Família Salesiana, com os setores da Formação e da Pastoral Juvenil da nossa Congregação. Os frutos que poderão surgir desse entendimento permitirão um salto de qualidade da nossa realidade, já de per si positiva.

 

2.5. O Salesiano Coadjutor (Salesiano leigo) na Congregação

«Há algumas coisas que os padres e os clérigos não podem fazer, e vós as fareis»,[20] dizia Dom Bosco. Muitas vezes, ao visitar as Inspetorias da Congregação nos cinco continentes, foi-me dirigida esta pergunta: «O que acontece com a vocação do Salesiano Coadjutor, que parece estar em crise?». Não hesitei em dar uma resposta que considero ponderada e meditada ao longo do tempo. Vou expô-la também aqui, mas antes quero iniciar com alguns dados.

É certo que entre os sexênio anterior e este o número dos irmãos coadjutores diminuiu na Congregação. Segundo os dados levantados em 2001, antes do início do CG25, o número era de 2.317; em dezembro de 2007, o número era de 2.092, ou seja, 225 a menos que o sexênio anterior. Em dezembro de 2013, antes do CG27, o número dos irmãos coadjutores na Congregação era de 1.758: 334 a menos que o sexênio precedente. Os dados em nossa posse no final de 2018 dizem que os coadjutores são 1.589, isto é, 169 a menos, e representam 11,20% do número total dos irmãos da Congregação.

Desde alguns anos a Congregação está particularmente empenhada em acompanhar nas Inspetorias a realidade da vocação dos irmãos coadjutores. Todos os Reitores-Mores assumiram essa tarefa. Também o fizemos durante este sexênio. Foram criadas algumas comunidades para garantir a formação específica do Salesiano Coadjutor. Em geral, os nossos irmãos coadjutores têm em todos os lugares uma grande qualificação pessoal e prestam serviços pastorais muito preciosos, também no âmbito de gestão e governo. Foi o CG26 que, referindo-se às duas formas da vocação consagrada salesiana, recordou que «somos chamados a dar prioridade e visibilidade à unidade da consagração apostólica, embora realizando-a de duas formas diferentes (...). Conscientes de que a Congregação poria sua identidade em risco, se não conservasse esta complementaridade, somos chamados a aprofundar a originalidade salesiana do ministério ordenado e promover mais intensamente a vocação do Salesiano Coadjutor».[21]

Volto à pergunta inicial: então, o que acontece? Primeiramente, não podemos dizer que “o problema” se refere aos irmãos coadjutores. Não creio que se possa afirmar, com justiça e à luz de uma análise cuidadosa, que os nossos irmãos coadjutores estão vivendo uma crise de identidade em sua vocação. Em geral, eles não duvidam da própria vocação. É a nossa Congregação que traz consigo o peso de um clericalismo muito acentuado, tão presente na Igreja como entre nós. Quer por razões ligadas à cultura dos vários países, quer devido aos próprios grupos étnicos, há Inspetorias, em especial nas Regiões da África e da Ásia meridional e da Oceania, onde a realidade dos salesianos coadjutores é quase inexistente.

A pressão ambiental, que condiciona todas as vocações, para o presbiterado é muito acentuada e particularmente agressiva em alguns casos. Algumas dessas Inspetorias correm o risco de não ter, num futuro não muito distante, nenhum Salesiano Coadjutor entre os seus membros. Esse fato é grave. Não pode ser apresentado como tema de menor importância ou ligado às circunstâncias do momento. O carisma nessas Inspetorias não é expresso em toda a sua riqueza, como a única vocação vivida em suas duas formas, caso venha a faltar uma delas: «Nossa Sociedade é composta de clérigos e leigos que vivem a mesma vocação em fraterna complementaridade».[22] Em outras Inspetorias, ao contrário, sempre houve uma claríssima opção de governo para favorecer as duas vocações. O exemplo mais significativo é dado pelo Vietnã: hoje aquela inspetoria conta com 68 salesianos coadjutores, em grande parte jovens em formação. No Vietnã houve uma claríssima opção em favor da missão ad gentes, feita antes de pensar unicamente nas exigências do próprio território. São, de fato, mais de 138 os missionários salesianos vietnamitas no mundo.

Dou esse exemplo para mostrar que numa mesma realidade convivem lado a lado a “cara” e a “coroa” de uma mesma vocação; esse fato confirma que não há crise da vocação do coadjutor, mas crise de modelos e forte tendência a favorecer apenas a vocação ao presbiterado. Já na relação ao precedente Capítulo Geral, há seis anos, o Reitor-Mor fazia presente o risco de, se não enfrentada seriamente, a tendência clericalista poderia levar a Congregação ao crescimento de «uma mentalidade classista e clerical».[23] Compartilho plenamente essa afirmação.

A vocação salesiana vivida pelos nossos irmãos coadjutores é uma vocação de grande atualidade e de grandes possibilidades pera o trabalho educativo-pastoral na sociedade de hoje, em contextos nos quais a figura do presbítero não é aceita.

Temos plena consciência de que a nossa única vocação religiosa, vivida como clérigos e leigos, manifesta a igualdade fundamental e a profunda unidade entre nós. A dimensão secular da vocação permite que o Salesiano Coadjutor viva as características da vida religiosa como consagrado leigo. Ele participa da vida e da missão do Senhor na Igreja a partir do exercício do seu sacerdócio batismal, para realizar a missão de evangelização e santificação não sacramental como própria da sua consagração religiosa, e para exercer o seu apostolado como educador dos jovens em muitíssimas dimensões da vida, no mundo do trabalho e na experiência de múltiplos valores humanos e cristãos.

O padre Ricaldone expressou esse sentido de unidade na vida e na missão dos Salesianos sacerdotes e leigos (coadjutores) dizendo: «Os filhos de São João Bosco precisam estar um ao lado do outro, completar-se, caminhar fraternamente unidos na atuação das mesmas finalidades da sua missão (...). Eles não são elementos separados, ou de qualquer modo que seja, divergentes, mas os herdeiros, os instrumentos, os executores de um mesmo programa divino».[24]

Por isso, o meu apelo hoje torna-se um grito que conclama a considerar muito seriamente a situação nos lugares onde a figura do Salesiano Coadjutor está se tornando inexistente: não se trata de um problema que outros devem resolver, mas se refere ao afeto por uma vocação específica, que cada um de nós deve demonstrar de modo sempre mais visível.

 

2.6. A “Capacidade vocacional”

Essa é a expressão utilizada pelo padre Vecchi no discurso de encerramento do CG24 para referir-se a uma característica, justamente a capacidade vocacional, como qualidade essencial «que deve distinguir cada irmão e cada comunidade salesiana».[25] Eis aqui outro dos grandes desafios que hoje nos interpelam e são permanentes: sempre e para sempre!

Não nos ocultemos que, embora com uma média de cerca de 440 noviços todos os anos, ainda continuam a existir grandes mudanças e transformações na nossa “geografia vocacional”:

  • Em geral, o percentual de noviços que emitem a primeira profissão está em aumento contínuo em todas as Regiões da Congregação e a perseverança nos anos da formação inicial cresce significativamente, atestando-se entre 25 e 32% a mais em relação aos últimos 15 anos, apesar da queda numérica dos noviços.
  • Entretanto está diminuindo a “resposta vocacional” dos candidatos à vida salesiana na Europa, na Região Interamérica e na América Cone Sul. Reduz-se o número, em relação aos anos anteriores, em todas as Inspetorias da Índia, em algumas Inspetorias da África e em algumas da Ásia Leste e Oceania.
  • Outras inspetorias da África e parte da Ásia Oriental Oceania estão experimentando crescimento vocacional.

Devemos dar atenção, certamente, a essas mudanças e evoluções.

É preciso tomar consciência disso e aprofundar a interpretação também à luz dos dados estatísticos. A “capacidade vocacional” deveria ser uma característica distintiva de todo Salesiano. Favorecendo uma verdadeira pastoral juvenil e uma autêntica educação à fé, ela leva à cultura vocacional, em que são possíveis todas as opções de vida, também a vida consagrada.

Sabemos que «educamos os jovens a desenvolverem a própria vocação humana e batismal com uma vida cotidiana progressivamente inspirada e unificada pelo Evangelho».[26] Por isso, em nossa praxe salesiana a opção vocacional representa o fruto maduro ao qual todo jovem deveria chegar no próprio crescimento humano e cristão. O nosso modelo educativo tem elementos muito belos, que deveria ser a substância da nossa capacidade vocacional, do nosso crer firmemente que mesmo estes tempos são favoráveis para a semeadura de esperança. Ajudar todo menino, toda menina e todo jovem, encorajá-los na estima de si mesmos, acompanhá-los na descoberta de muitos valores presentes em seu coração e em sua vida, ajudar os jovens a descobrirem que quando há o dom de si sentimo-nos mais felizes, e por essa razão nos exercitamos na generosidade e na disponibilidade; ser capaz, segundo os ritmos de cada jovem, de fazer propostas explícitas para todos os tipos de vocações (também quando se intui o chamado à vida consagrada), favorecendo o seu acompanhamento e discernimento: tudo isso faz parte da nossa capacidade vocacional natural. Sem dúvida, uma esperança e um desafio importante para nosso futuro imediato.

Não pretendo acrescentar mais sobre este tema. Para manifestar a urgência desse desafio creio ser suficiente referir-me ao que foi escrito ao final do CG27: “Somos evangelizadores dos jovens, e como Congregação, como comunidades inspetoriais e locais concretas, devemos viver e crescer numa verdadeira predileção pastoral pelos jovens. Será muito difícil consegui-lo se não dermos caráter de prioridade e urgência ao Anúncio do Senhor Jesus aos jovens e, ao mesmo tempo, se não formos capazes de acompanhá-los em sua realidade de vida. Deveria ser o nosso ponto forte acompanhar cada jovem a partir da sua situação; contudo, com frequência, é uma tarefa que deixamos a outros ou dizemos não saber realizar. Neste acompanhamento, é de vital importância iniciar na cultura vocacional da qual se nos tem falado tanto. Contudo, não o temos conseguido».[27]

 

3. RESPONDER ÀS NECESSIDADES DA ANIMAÇÃO E DO GOVERNO

3.1. A animação do Reitor-Mor nas visitas à Congregação durante o sexênio

Um dos objetivos que entendi perseguir como Reitor-Mor, que compartilhei com o Conselho Geral e que juntos avaliamos como muito positivo, foi o de acompanhar, no possível, as Inspetorias da Congregação. Por isso, as visitas de animação e a ajuda ao governo das Inspetorias feitas pelo Reitor-Mor foram importantes e significativas.

Durante o sexênio tive a possibilidade de visitar todas as Inspetorias e todas as Visitadorias da Congregação, como também várias Delegações que, embora pertencendo ao território de uma Inspetoria ou de uma Visitadoria, têm a característica de estar presentes num determinado contexto geográfico. É o caso por exemplo, de Belarus, da Mongólia, do Nepal, etc.

Evidentemente, a realização dessas visitas exigiu um esforço notável e um contínuo exercício de disciplina e método na programação da agenda do Reitor-Mor. Em todo caso, esse esforço foi bem recompensado pela alegria de poder oferecer aos irmãos a oportunidade de expressar intensamente a comunhão com o restante da Congregação.

Foram 110 os países visitados.

Os irmãos salesianos que pude cumprimentar e encontrar, aos quais pude oferece uma palavra e com os quais celebrei a Eucaristia e compartilhei momentos conviviais, são cerca de 13.100; aproximadamente 92,25% da Congregação. Sem dúvida, esse foi um dos aspectos mais significativos do sexênio. Em muitas ocasiões pude repetir que o fato de o Reitor-Mor poder encontrar pessoalmente os seus irmãos salesianos é muito importante e gratificante e por si só justifica plenamente a possibilidade de o Reitor-Mor viajar através do mundo salesiano nos seis anos do seu mandato. Ao mesmo tempo, foi muito significativo para mim poder conhecer todas as Inspetorias e recolher muitos elementos úteis para realizar a minha tarefa como Reitor-Mor e ajudar o Conselho Geral no exercício do serviço de animação e governo da Congregação.

Nas mesmas visitas pude encontrar-me com os diversos grupos da Família Salesiana do mundo todo. Foi uma experiência muito significativa e, ao mesmo tempo, excepcional. Permitiu-me constatar a bela realidade que temos, o extraordinário sentido de pertença e a comunhão existente, como também o reconhecimento de todos os grupos para com o Reitor-Mor como pai de toda a Família Salesiana, referência e garante da comunhão carismática em nome de Dom Bosco.

Todas as Inspetorias e Visitadorias do mundo sempre prepararam atentamente a visita do Reitor-Mor, entendendo-a como uma oportunidade extraordinária. Jamais faltaram os seguintes encontros do Reitor-Mor:

 o encontro com os irmãos, repetido em um, dois ou três lugares, para que o maior número pudesse participar;

  • o encontro com os membros do Conselho inspetorial, com duração de várias horas. A esses encontros esteve frequentemente presente o relativo Conselheiro regional;
  • o encontro, numa, duas ou três sedes, com a Família Salesiana do país ou do território de atuação da Inspetoria;
  • um ou mais encontros significativos com os jovens de cada Inspetoria.

 

3.2. A animação e o governo da Congregação e das Inspetorias

Desde o início do sexênio, percebemos muito claramente que a animação e o governo da Congregação, tanto em nível mundial como em nível de inspetorias, deviam ser uma prioridade. A história mais que centenária da Congregação ensina que a animação sem governo leva a um estado de aparente tranquilidade, em que se pode ter como legítimo fazer tudo o que se quer, mas que, no fundo, deixa uma grande insatisfação, pois não corresponde à essência nem da vida religiosa nem da vida salesiana. Por outro lado, o governo sem animação, presença fraterna, paternidade e acompanhamento, seria uma gestão meramente autoritária e arruinaria gravemente a Congregação e as Inspetorias.

Por isso, no início do sexênio optamos como prioritários a proximidade e o acompanhamento do Inspetor e seu Conselho para ajudar na animação e no governo das Inspetorias. Esse empenho foi concretizado em duas iniciativas que, segundo os próprios inspetores que as viveram, foram de grande ajuda.

  • O primeiro encontro com o Inspetor e a entrega da “Carta de navegação”.

Assim que demonstrada a própria disponibilidade para prestar o serviço como Inspetor, o irmão é convocado a Roma, cerca de um mês depois da nomeação, para reunir-se pessoalmente com o Reitor-Mor, com o seu Vigário, com o Ecônomo Geral e os Conselheiros Gerais dos setores. Ao final da visita, o Reitor-Mor entrega ao novo Inspetor uma carta em que se agradece pela disponibilidade, se comunica o que os irmãos da Inspetoria expressaram na consulta para o discernimento em vista da nomeação (os elementos de força e de fragilidade da Inspetoria) e, enfim, se oferecem algumas orientações sobre o que deve ter em elevada consideração no início do seu serviço. Essa “carta de navegação” é, antes de tudo, um instrumento para o Inspetor e seu Conselho que – se acharem oportuno – poderá ser levda ao conhecimento ao menos aos diretores ou mesmo a todos os irmãos.

Como disse, até hoje todos os Inspetores evidenciaram e apreciaram a grande ajuda dada através dessas orientações como guia para o início do seu serviço.

  • A semana de espiritualidade dos Inspetores no início do seu quarto ano.

No final do terceiro ou no início do quarto ano do seu serviço, os Inspetores – normalmente em grupo de 10 a 14 – reúnem-se em Turim durante a última semana de setembro, que coincide com o encontro da entrega dos crucifixos aos irmãos missionários da expedição missionária anual. Trata-se de uma semana de espiritualidade, tranquilidade, oração e salesianidade nos lugares da nossa memória histórica; os Inspetores têm abundantes espaços de oração e reflexão, que permitem ao Senhor e à santidade salesiana do lugar tocar o coração deles. A eles é dada a possibilidade de reunir-se com o Reitor-Mor, ou com o seu Vigário, para rever o serviço dos primeiros três anos, traçando um primeiro balanço, e programar o tempo restante com serenidade e esperança.

Até hoje, todos os Inspetores descreveram esse tempo como um dos mais belos e intensos da sua vida salesiana, distante das urgências e dos ritmos exigentes dos seus dias nas próprias Inspetorias.

Com estas nova iniciativas do sexênio, que se acrescentam ao encontro de formação dos novos Inspetores e às visitas de conjunto, ambos patrimônios da nossa tradição salesiana, foi feito um autêntico acompanhamento dos Inspetores e seus respectivos Conselhos. Isso permitiu ajudar e apoiar muitíssimo, sobretudo os Inspetores, tornando concreta e visível a proximidade do Reitor-Mor e seu Conselho em relação a cada um. Permitiu também conhecer de perto a vida das Inspetorias, inclusive a sua vida quotidiana. Dessa forma, o Reitor-Mor pôde ter um maior e melhor conhecimento das Inspetorias, como também a compreensão das necessidades e dificuldades próprias de cada realidade da Congregação.

  • A proximidade das Inspetorias com dificuldades particulares

A vida das Inspetorias não é nem homogênea nem uniforme. Embora sendo única a identidade carismática, a história particular de cada Inspetoria, o caminho típico, em alguns casos também centenário, e em outros de recente fundação, as diversidades culturais, étnicas, sociais, raciais e nacionais, têm feito com que algumas delas se vissem a viver dificuldades especiais no governo, na gestão dos bens, na crise política e econômica do próprio país, nos conflitos armados, etc.

O elenco das Inspetorias que precisaram de apoio, não só econômico, mas de animação e governo é longo. Creio poder afirmar que o Reitor-Mor e seu Conselho deram prioridade à proximidade a essas Inspetorias e esses irmãos. Em alguns casos, tanto o Reitor-Mor, o seu Vigário e o Ecônomo Geral como também os Conselheiros de setor se fizeram presentes para acompanhar e ajudar as Inspetorias com dificuldades especiais.

 

3.3. A ação de governo do Reitor-Mor e seu Conselho na nomeação dos Inspetores, dos Conselheiros inspetoriais e dos Diretores das comunidades salesianas do mundo todo

Poderia ser óbvio, mas desejo realçar ao que no Conselho Geral demos particular atenção, enquanto tema da máxima importância, ou seja, a nomeação dos Inspetores. Levamos em altíssima consideração os resultados da consulta, tomando o tempo necessário para fazer um discernimento adequado. Sempre procuramos nomear o Inspetor mais idôneo para o momento da Inspetoria, segundo as possibilidades. Posso afirmar que estamos contentes com o modo de realizar essa tarefa. E podemos dizer o mesmo em relação à nomeação dos Conselheiros inspetoriais. Dedicamos muito tempo, discutimos sobre cada pessoa graças também ao fato de alguns ou muitos membros do Conselho Geral conhecerem bem os candidatos.

Não foi menos relevante a atenção dada aos diretores das comunidades. Em algumas ocasiões tivemos que suspender a aprovação das nomeações para pedir esclarecimentos ou para comunicar que elas não podiam ser aceitas por alguma contraindicação existente.

Foi mais exigente o processo para identificar e nomear os Diretores para as casas de formação das Regiões. Graças a esse esforço e discernimento temos a certeza – no que está humanamente em nossas possibilidades – de garantir bons candidatos nas comunidades. Várias vezes pedimos a um Inspetor ou a um grupo de Inspetores do curatorium para buscarem um candidato com perfil mais adequado, porque estamos convencidos de que as etapas da formação inicial condicionam o presente e muito mais o futuro da Congregação.

 

3.4. Maior valorização do serviço do Vigário do Inspetor

«O vigário é o primeiro colaborador do inspetor em tudo o que diz respeito ao governo ordinário da inspetoria e nos assuntos de que tenha recebido especial encargo». Com estas palavras as nossas Constituições definem, no art. 168, a função e a figura do Vigário do Inspetor. Pareceria não ter nada a acrescentar. Contudo, constatamos nestes anos que, na maior parte das Inspetorias, o Vigário do Inspetor foi de vital importância como ajuda para o Inspetor, colaborando com ele na manutenção do bom estado da saúde da Inspetoria, enfrentando com ele as situações mais difíceis e assumindo pessoalmente o serviço de acompanhamento para a solução das situações irregulares, etc.

Infelizmente, deve-se assinalar que um bom número de Inspetorias não tem um Vigário com dedicação exclusiva para a realização das funções a ele confiadas. A carência de forças leva, infelizmente, o Inspetor a pedir ao seu Vigário, que é também diretor de uma casa – talvez complexa e o ocupem permanentemente – muitas outras incumbências impedindo-o, de fato, de realizar as próprias funções, além dos diálogos com o Inspetor e da presença no Conselho inspetorial.

 

3.5. Um sexênio de “purificação”

Se nas relações dos dois sexênios precedentes o Reitor-Mor falava de duas questões sobre as quais refletir – uma das duas referia-se aos abusos sexuais – creio que posso fazer uma avaliação ponderada e serena afirmando que vivemos na Congregação um sexênio de graça e serenidade sob muitíssimos aspectos e, ao mesmo tempo, um sexênio que, com sofrimento, nos está levando e nos levará a uma autêntica “purificação”, que nos fará sempre mais fiéis ao chamado recebido de Deus.

Constamos no início do sexênio que caíra sobre a Congregação uma carga pesada. Era o peso do abundante número de situações conhecidas como “irregulares”. Algumas mais recentes, outras não resolvidas há muito tempo, quer por desatenção e esquecimento quer por não ter como enfrenta-las, devido à fragilidade de alguns que não sabem como aproximar-se de situações dolorosas e resolvê-las. O trabalho feito no Conselho Geral abordando essas situações, em sintonia com as respectivas Inspetorias e não sem insistência da nossa parte, foram resolvidas muitas dessas situações.

Entretanto, devo evidenciar que o que conta não é a solução de uma situação irregular em si mesma, mas o fato de, como Congregação, no sentirmos mais livres, mais aliviados e mais capazes de tomar consciência sempre maior de que o caminho da fidelidade vocacional não conhece atalhos. Como irmãos, estamos e estaremos mais conscientes da fragilidade intrínseca que se refere a nós e, ao mesmo tempo, sentimos que, dizendo Salesianos de Dom Bosco, estamos afirmando, também agora, o desejo de querermos ser Salesianos como Dom Bosco nos sonhou, para viver a nossa vida como religiosos consagrados com a máxima autenticidade possível. Nesse sentido, esta purificação é graça e bênção.

 

3.6. Porque «frade ou não frade, eu fico com Dom Bosco»[28]

Com a referência a João Cagliero, este caríssimo irmão, grande missionário e homem de Congregação, desejo aludir a outro aspecto que – vo-lo confesso – cria em mim muito sofrimento. Refiro-me aos irmãos – de 20 a 25 todos os anos – que, com o consenso do Conselho Geral, apresentam ao Santo Padre o pedido para deixar a Congregação em vista da própria incardinação segundo o direito canônico numa diocese, individualizada anteriormente.

O sofrimento não se refere à perda de um irmão – em geral, a menos que o Bispo depois de pouco tempo não os rejeite, normalmente não retornam mais à Congregação – nem o fato que vá embora depois de se ter formado intelectualmente e com uma boa bagagem de experiência. Não se trata disso. O que me dói é o que me faz perguntar: onde está o amor por Dom Bosco que levou o jovem João Cagliero a pronunciar aquela expressão tão rica de significado?

Em geral, esses irmãos dizem levar Dom Bosco no coração. E não tenho motivos para duvidar disso. Mas não é a mesma coisa. Farão o bem como padres. Certamente. Mas não é a mesma coisa. O coração do Salesiano, também do Salesiano padre, é um coração que pensa e sonha, sofre e se gasta na entrega e no serviço aos jovens. É o coração de quem, como Dom Bosco, afirma: «Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens».[29] É o coração de quem é amigo, irmão e pai para aqueles jovens que não têm nem amigo, nem irmão, nem pai; e, sem dúvida, os jovens não encontrarão isso tudo naqueles irmãos, porque eles os deixarão para viverem de outra forma. É o coração do Salesiano que ama a própria Congregação e os irmãos e, por isso, professou diante de Deus: «com plena liberdade ofereço-me totalmente a Vós, comprometendo-me a dar todas as minhas forças àqueles a quem me enviardes, especialmente aos jovens mais pobres, a viver na Sociedade Salesiana em fraterna comunhão de espírito e ação».[30]

O que há por trás dessa opção?

Os estudiosos destacam sobretudo estes sinais de fragilidade: «abandonos frequentes da vida religiosa em vista da vida sacerdotal paroquial, a aceitação fácil de paróquias da parte dos Institutos e por estes consideradas lugar de refúgio e reciclagem em vez de verdadeiros e próprios centros de missão (...), as incertezas dos jovens com dificuldade para compreenderem, durante a formação, a identidade específica do religioso presbítero e vivem situações cheias de ambiguidade».[31]

São muitos os elementos que coexistem nessas situações e as motivações nem sempre são as mesmas nem igualmente claras. Em qualquer caso que seja, olhando para o futuro, esse fenômeno nos ensina que temos um déficit de identidade carismática salesiana.

À luz da reflexão do CG26 existe o risco, referido em especial aos Salesianos presbíteros, quer do genericismo pastoral, que torna irreconhecível o espírito do nosso Fundador no que se vive e no modo em que ele é transmitido, quer do individualismo apostólico, que leva não poucas vezes a assumir trabalhos pastorais e ocupações distantes da lógica da vida religiosa. Em nome desses apostolados chega-se a justificar a ausência da comunidade, a não idoneidade à vida fraterna, a necessidade da gestão individual do que se faz, a autonomia econômica, compreendida a transparência, etc.

Acabou o tempo em que alguns diziam: «Basta de Dom Bosco! Basta da nossa autorreferência!». Hoje, num mundo submetido a mudanças velocíssimas de valores, eu digo que precisamos, como a água para o sedento, que os Salesianos de hoje e de amanhã tenham uma forte identidade carismática, e que o amor ao Senhor Jesus possa passar através do chamado que nos fez dirigir o olhar a Dom Bosco e aos jovens mais pobres, em comunhão com os nossos irmãos Salesianos. É claro que precisamos tornar evidente onde estão as raízes das duas formas de vida da única vocação consagrada como Salesianos de Dom Bosco.

 

3.7. Transparência e solidariedade econômica e disponibilidade dos irmãos

«A responsabilidade, a transparência e a salvaguarda da confiança são princípios inclusivos: não se dá responsabilidade sem transparência, a transparência gera confiança, a confiança encontra uma na outra».[32]

A transparência é, em parte, um resultado alcançado e, ao mesmo tempo, um grande desafio sempre em aberto. Posso garantir-vos que neste sexênio esta foi uma prioridade para o Reitor-Mor e seu Conselho, e foi proposta com insistência a todos os Inspetores da nossa Congregação.

Precisamos viver a transparência nas múltiplas dimensões da nossa vida consagrada; e algo que todos compreendemos imediatamente é o que se refere ao uso dos bens e à sua administração. Está sempre em jogo uma grande responsabilidade no uso dos bens.

Indico alguns aspectos de grande importância:

  • O principal e primeiro critério de uma gestão correta não pode ser o da obtenção de benefícios e vantagens pessoais.
  • As próprias opções gerenciais deveriam ser sempre motivadas de modo coerente, no respeito à natureza ética do que é feito ou decidido.
  • A responsabilidade envolve também que sempre se deva prestar contas a alguém (há sempre uma responsabilidade diante da sociedade civil, diante da Igreja e diante da nossa Congregação).
  • Esta transparência deve ser buscada sabendo que as instâncias de vigilância e controle «não devem ser entendidas como uma limitação da autonomia das entidades ou como falta de confiança, mas representam um serviço à comunhão e à transparência, e uma tutela em relação a quantos realizam trabalhos delicados de administração».[33]

Creio poder dizer que na nossa Congregação vai sendo feito um caminho progressivo em vista da transparência e da responsabilidade. A ação insistente feita ao longo dos anos está produzindo seus frutos. Uma importante ajuda é dada também pela mudança de mentalidade propiciada pelas leis civis, que exigem sempre mais legalidade e exatidão, especialmente em alguns continentes. Sem dúvida, a doutrina e a reflexão sobre o bom uso dos nossos meios sempre foram muito claras no nosso magistério congregacional, desde as Constituições e Regulamentos até os vários Capítulos Gerais. Onde orientações e disposições não tiveram sequência, foi mais por fragilidade humana e por falta de capacidades e competências do que por carência de guias e orientações adequadas.

Como confirmação disso, apresento uma importante afirmação do Capítulo Geral Especial: «Os designados à administração dos bens, além de cuidar escrupulosamente de ter uma administração sadia, que garanta a observância da pobreza individual e coletiva, agirão como depositários dos bens da Igreja e não admitirão nenhum uso pessoal e arbitrário deles. Recordando-se constantemente que o que se administra é fruto precioso do trabalho dos irmãos e sinal tangível da Providência que nos sustenta através da generosidade e dos sacrifícios, às vezes incalculáveis, de benfeitores».[34]

Gostaria de evidenciar, como resultado do caminho percorrido neste campo, a progressiva diminuição das “espertezas” e do dano consequente nos pedidos para obter ajuda financeira do Reitor-Mor e, através dele, das procuradorias missionárias. Os dados apresentados para pedir ajuda no campo da formação são hoje mais realistas e autênticos. São sempre menos os casos em que se verifica que alguns pedem a mesma contribuição a várias “agências” e se beneficiam desse expediente. Isso não é “esperteza”, muito menos “evangélica”. A maior coordenação entre o Economato Geral e as Procuradorias missionárias e o compartilhamento das informações ajuda muito a superar essas distorções.

Um grande passo dado, tanto pelo seu significado quanto pela real ajuda econômica oferecida nestes anos difíceis que vivemos na Direção Geral Obras de Dom Bosco, com processos judiciários (devido ao conhecido “caso Gerini”), foi a decisão tomada pelo CG27 para que a solidariedade das Inspetorias, segundo as suas diversas possibilidades, pudesse ajudar a manter o serviço de animação e governo do Reitor-Mor e seu Conselho, como também da comunidade salesiana que o ajuda em prol de toda a Congregação no mundo.

Essa ajuda foi muito importante. Em não poucas ocasiões, serviu para enfrentar as situações e emergência que vivemos, tanto na Sede Central como em algumas Inspetorias. Desejo aproveitar esta oportunidade para agradecer pela generosidade demonstrada por todos. E renovo o pedido de apoio a essa finalidade. Ao mesmo tempo, na dinâmica de solidariedade e comunhão, o Reitor-Mor com seu Conselho continuará a apoiar, especialmente pelas Procuradorias que dependem diretamente dele, quase dois terços das Inspetorias da Congregação, com alguma forma de ajuda: para a formação, a construção de estruturas educativas e outras necessidades.

Agradeço novamente pela generosidade sempre crescente demonstrada por algumas Inspetorias mais sólidas sob o perfil econômico em relação às mais pobres. É muito significativo e belo.

Enfim, quero evidenciar uma forma de solidariedade ainda mais importante da que recordei até agora. Refiro-me à solidariedade relacionada com o intercâmbio de irmãos entre as diversas Inspetorias. Não é preciso dizer muito mais do que todos já sabemos. Todos nós professamos como Salesianos de Dom Bosco na Congregação Salesiana. A profissão religiosa diante de Deus não se faz nem para uma Inspetoria nem para uma nação. Por isso, caros irmãos, o próximo sexênio, depois de um tímido início no precedente, deverá distinguir-se ainda mais por esse intercâmbio recíproco, entrega, disponibilidade dos irmãos das Inspetorias que têm a graça de um maior número de vocações – e que, normalmente, são as mais pobres – em prol da missão pastoral e juvenil que a Congregação é chamada a realizar em todas as partes do mundo. Somos chamados de muitas nações para abrir novas presenças e não podemos deixar de responder por falta de disponibilidade. Sem dúvida, precisamos dar passos significativos nessa direção. Não pareceria muito justo que as Inspetorias que têm mais vocações e crescem com mais intensidade continuem a aceitar de bom-grado ajudas de todos os tipos do restante da Congregação, mas não estejam dispostas a oferecer a riqueza que possuem. Um pedido que, como nos Atos dos Apóstolos, não se faz nem de ouro nem de prata, mas do próprio Jesus Cristo Senhor na pessoa dos irmãos salesianos dispostos a servir generosamente aonde quer que sejam requisitados pelas necessidades.

 

3.8. Providência e graça: do caso Gerini ao Sacro Cuore (Roma)

Enquanto escrevo esta relação para o Capítulo Geral, vai-se fazendo uma tentativa final para resolver o longo processo do “caso Gerini”, se possível, com um acordo que traria vantagens não só para os nossos adversários, mas também para nós. Na relação anterior ao CG27 o Reitor-Mor referia sobre esse “caso”, cujo processo fora ulteriormente acentuado a partir de 2007, quando uma transação com as contrapartes foi firmada em junho daquele ano envolvendo como garante a Direção Geral (ou seja, a Congregação, nós Salesianos) e não a Fundação Gerini, que é o verdadeiro objeto da contenda.[35] A situação agravou-se notavelmente pelo resultado da “arbitragem legal” que avaliou de modo errado e exagerado o valor do patrimônio da Fundação e consequentemente colocou a Direção Geral na situação de ter que corresponder com exorbitantes valores financeiros, jamais possuídos e impossíveis de possuir. Isso tudo também justificou a nossa resistência, através de meios legais e judiciários para procurar impedir os adversários de obterem essa iníqua e desproporcional vantagem econômica. Desde então (2007) foram doze anos de contenciosos cansativos e custosos nas salas dos tribunais.

Nestes seis anos foi também firmado um acordo com a Fundação Gerini que se compromete, mediante a venda de seus bens, a restituir à Congregação o que a Direção Geral antecipou para cumprir com as obrigações como garante da transação de 2007.

Neste sexênio, precisamente em junho de 2017, os nossos adversários tornaram-se proprietários da nossa Casa Geral conhecida como La Pisana, graças a uma ordem executiva firmada pelo juiz. A intenção era exercer a máxima pressão com a finalidade de obter o dinheiro correspondente à Pisana. Em troca eles teriam restituído a propriedade da Casa em que vivíamos.

Posso garantir ao Capítulo Geral e a toda a Congregação que o momento era muito delicado. Contudo, era claríssima para mim e para o Conselho Geral uma convicção: não fazer nada que pudesse deixar aos futuros Reitores-Mores uma grande dívida por muitos anos! Outras soluções poderiam ser encontradas, mas não essa. Ao mesmo tempo, não tínhamos esquecido a sugestão ouvida durante o CG27 sobre a nossa permanência na sede da Pisana. À luz disso tudo, fizemos um sereno discernimento na fé tomando a decisão – creio que corajosa – de deixar a Casa Geral da Pisana. Portanto, não de “perdê-la”, mas de “deixá-la” aos nossos adversários segundo o valor estabelecido pelo juiz. Desse modo, a dívida com eles seria rebaixada, como de fato aconteceu.

Não tínhamos nenhum outro lugar para onde ir. E, em três meses, deveríamos deixar livre uma casa tão significativa, com 50 anos de história, com realidades únicas como, por exemplo, o Arquivo histórico central salesiano. A decisão, porém, foi firme e clara.

A disponibilidade dos irmãos da comunidade da Casa Geral foi exemplar. Em três meses nos transferimos para o Sacro Cuore de Roma, casa pertencente à Inspetoria ICC. Os irmãos acolheram-nos com grande generosidade, colocando-nos à disposição todos os espaços necessários.

Naquele momento, informei a Congregação inteira. A decisão tomada foi acolhida muito bem em todas as partes do mundo, tanto pelos irmãos Salesianos como pelos membros pertencentes aos grupos da Família Salesiana.

O próprio Papa Francisco me disse, numa audiência privada, que rezara muito por nós e que estava feliz com a decisão tomada por aquilo que significava e testemunhava.

Por essa razão, creio poder afirmar que vivemos um tempo de verdadeira Providência e graça do Senhor.

Depois de um ano e meio, compartilhando os espaços da casa com o Inspetor ICC e seu Conselho e com a comunidade do Sacro Cuore, através de diálogos e contatos frequentes, chegamos à decisão de tornar definitivamente o Sacro Cuore, presença emblemática desejada pelo próprio Dom Bosco e que lhe custou tantos esforços, Sede Central do Reitor-Mor e seu Conselho e da comunidade que com eles colabora nos vários serviços à Congregação e à Família Salesiana no mundo. A Inspetoria ICC individualizou uma sede à altura para ali transferir os seus escritórios e a comunidade; e, o mesmo fez, também, o Centro Nacional de Pastoral Juvenil das Inspetorias Italianas (CISI). As despesas para a reestruturação dos espaços para a acolhida das duas novas comunidades e seus respectivos serviços foram sustentadas pelo Reitor-Mor e seu Conselho. A Inspetoria ICC também será reembolsada pelo valor econômico da casa do Sacro Cuore (exceto a Basílica).

 

4. OLHANDO PARA O FUTURO COM FÉ E ESPERANÇA

4.1. Uma esperança fundada «naquele em quem depositei a minha fé» (2Tm 1,12)

Na Carta Apostólica enviada a todos os consagrados por ocasião do Ano dedicado à Vida Consagrada, o Papa Francisco indicou três objetivos muito precisos: olhar com gratidão o passado, viver com paixão o presente e abraçar com esperança o futuro.[36]

Creio que o que o Santo Padre propõe para toda a Vida religiosa seja aplicável sem qualquer dúvida à nossa Congregação e possa ser um programa para o nosso CG28. Também nós temos um grande passado a contemplar com autêntica gratidão, agradecendo ao Espírito Santo pelo grande dom que o nosso amado pai Dom Bosco foi para a Igreja e a Família Salesiana.

Não resta dúvida de que o presente seja vivido por muitos irmãos com autêntica paixão educativa e evangelizadora, como foi para Dom Bosco; com a mesma paixão pela salvação dos jovens que animou Dom Bosco, verdadeiro evangelizador e catequista, grande educador na fé, com uma forte e terna devoção pela Virgem Maria, Imaculada e Auxiliadora.

Entretanto, este apelo à autenticidade passa hoje através de um futuro abraçado com esperança. Não nos ocultemos as dificuldades vividas pela Vida consagrada, e nós nela. São as dificuldades de que fala o próprio Papa:[37] diminuição das vocações, envelhecimento sobretudo no mundo ocidental, problemas econômicos, desafio da internacionalidade e da globalização, insídias do relativismo, da marginalização, da irrelevância social, etc.

Sem dúvida, reconhecemo-nos na realidade de que fala o Papa; mas é nessas dificuldades, que compartilhamos com tantos religiosos e religiosas do mundo, que devemos realizar a nossa esperança, fruto da fé no Senhor da história, que nos acompanha repetindo: «Não tenhas medo... porque eu estou contigo».[38]

Embora moderadamente, também a nossa Congregação sofreu uma diminuição numérica durante o sexênio. Mas a esperança de que falamos não se baseia nem nos números nem nas obras; e também não podemos ceder à tentação de refugiar-nos na busca da eficiência, confiando apenas em nossas forças. É necessária outra visão. Trata-se da esperança que se fundamenta n’Aquele em quem depositamos a nossa confiança e que nos sustenta.[39] Somente uma forte experiência de Deus pode sustentar e dar fundamento sólido à nossa Vida religiosa, sendo sua fonte e sua principal missão, capaz de fazer-nos testemunhar Deus com a nossa vida. Caso contrário, corremos o risco de não comunicar nada de precioso e de não compreender a nossa tarefa específica como religiosos e salesianos no mundo de hoje.

O nosso CG28 deverá ter um olhar profético não tanto para indicar caminhos pelos quais a Congregação possa simplesmente “sobreviver” por alguns decênios, mas sobretudo para oferecer o frescor de um carisma que procuramos encarnar, apesar das nossas limitações, com o grande desejo de ser Dom Bosco hoje, no século XXI e no futuro. Pessoalmente, considero um “pecado” carismático preocupar-se apenas com a sobrevivência”. A nossa Congregação não pode cair nessa tentação, por nenhum motivo. Creio que não cedemos à tentação, mas precisamos estar sempre atentos e viver muito vigilantes quanto a isso. Tão somente permanecendo como “buscadores de Deus” nos libertaremos do imobilismo, da tentação da insatisfação e da estagnação, e poderemos viver para a missão, recebida como um apelo de Deus em Dom Bosco.

O futuro da nossa Congregação deverá ser atravessado pela esperança na qual «como para Dom Bosco, assim também para nós, o primado de Deus é o fulcro que dá razão da nossa existência na Igreja e no mundo. Este primado dá sentido à nossa vida consagrada, faz-nos evitar o risco de nos deixarmos absorver pelas atividades, esquecendo-nos de ser essencialmente “buscadores de Deus” e testemunhas do seu amor entre os jovens e os mais pobres. Somos chamados, portanto, a reconduzir o nosso coração, a nossa mente e todas as nossas energias ao “princípio” e às “origens”»[40] do nosso carisma e do chamado vocacional para cada um de nós. Com esta clareza faremos a escolha decidida por aquilo que era essencial para Dom Bosco: levar os jovens ao encontro com Jesus!

 

4.2. Deus continua a abençoar-nos. O desafio de uma formação atenta, corajosa e responsável

Recordamos, certamente, que no sexênio precedente vocação e formação foi um dos temas que empenhou o Reitor-Mor e seu Conselho.[41] Pois bem, posso garantir à Assembleia capitular e a toda a Congregação, representada por vós, que também durante este sexênio a formação inicial e permanente na Congregação foram uma verdadeira prioridade. Trabalhou-se muito intensamente, com maiores resultados na formação inicial em todas as fases, na reconfiguração das casas de formação da Congregação, na preparação de formadores e na constituição de boas equipes formadoras capazes de acompanhar as diversas etapas.

As maiores falhas são encontradas na formação permanente, questão ainda não resolvida de modo satisfatório, apesar de muitas e repetidas iniciativas e de propostas formativas já consolidadas.

Nos últimos três sexênios a Congregação deu passos importantes no que se refere à identidade salesiana como consagrados e ao esforço por um acompanhamento mais satisfatório na formação permanente e inicial. Creio que posso afirmar que nestes últimos seis anos foi feito um trabalho importante para obter uma maior coordenação e uma colaboração mais eficaz entre os vários dicastérios e setores.

Em rigorosa continuidade com o sexênio precedente procurou-se favorecer, de 2014 a 2020, uma maior compreensão da vocação consagrada salesiana nas suas duas formas específicas. Foi feito um bom caminho, contudo temos a tarefa de ajudar cada irmão e cada comunidade a viverem com profundidade e convicção sempre maiores a nossa identidade de consagrados. O CG28 poderá dizer a sua palavra, mas provavelmente veremos com mais clareza que os Salesianos dos quais a juventude de hoje precisa devem ser pessoas que vivem a sua vocação como pessoas consagradas, coadjutores ou presbíteros, com um profundo sentido de Deus, uma profunda convicção, uma total transparência de vida e grande alegria interior e exterior.

Embora o número de candidatos à vida salesiana seja muito diferente segundo as Regiões, como Congregação, consideramos uma bênção do Senhor o número de noviços que iniciam todos os anos a vida salesiana. Sem dúvida, o Senhor espera que o nosso trabalho na pastoral juvenil e no acompanhamento continue dando muito fruto.

Há outros sinais que humanamente nos falam da esperança e do caminho decidido que devemos seguir nos próximos anos:

  • A redução numérica destes sexênio, consideradas as situações irregulares enfrentadas e resolvidas, foi significativamente menor do que no passado. Em dezembro de 2013, o Anuário da Congregação elencava 14.371 Salesianos e 122 Bispos. Hoje, os Salesianos são 14.184.

Compreende-se de maneira mais completa e reconhece-se a tendência positiva quando se leva em conta o fato que nestes cinco anos foram resolvidas 583 situações irregulares: tratava-se sobretudo de irmãos que ainda apareciam formalmente como Salesianos e que há anos tinham deixado a Congregação. A verdadeira queda numérica, nestes cinco anos, foi, portanto, de cerca de 100 irmãos. Esta “contenção” pode infundir muita esperança para o futuro desde que se dê uma atenção constante à vocação dos irmãos, antes de tudo de nós mesmos e da comunidade local e inspetorial de que somos uma parte.

  • Igualmente, o percentual dos abandonos nas etapas formativas diminuiu levemente, reduzindo o número das saídas neste sexênio.
  • O exercício da escuta feita com o estudo e a pesquisa dirigida a mais de 3.000 irmãos em formação e aos seus formadores, evidenciou alguns pontos frágeis da formação inicial. Estar conscientes disso é uma ajuda para crescer.
  • O discernimento vocacional na pastoral juvenil e nos aspirantados e pré-noviciados ajudará, como aconteceu nos últimos 15 anos, a obter uma maior perseverança tanto no noviciado como no período da profissão temporária.
  • Acreditamos, também, que processos adequados de discernimento e acompanhamento na animação vocacional levarão a uma expressiva melhora na formação e à diminuição do fenômeno da fragilidade vocacional, especialmente em algumas Regiões da Congregação.
  • A preparação sempre mais atenta dos formadores representa outra grande oportunidade; nessa direção, precisamos continuar a linha potencializada no sexênio. Foi feito um importante esforço para a formação dos formadores e das equipes de formação nas várias fases. Foram dados alguns passos. Contudo, existem situações na Congregação marcadas ainda por notáveis fragilidades. Consolidar-se na formação dos formadores, para oferecer-lhes as competências necessárias à própria tarefa, é um itinerário longo e obrigatório. Contudo, estamos confiantes pelos frutos que ela trará à formação.
  • A nossa formação não pode ser algo abstrato. A missão do Salesiano em prol dos jovens de hoje condiciona a formação do Salesiano. É importante ajudar os jovens salesianos a descobrirem vitalmente que a atual missão é uma missão compartilhada com os leigos e, às vezes, com outros consagrados. Desde o início da Congregação fomos formados na missão e pela missão. O que se viveu em Valdocco com Dom Bosco continua a ser modelo para nós hoje.
  • A formação do Salesiano de hoje deve caracterizar os próximos anos com a escuta e o diálogo, o respeito e a aceitação dos ritmos pessoais de crescimento e amadurecimento. Formar não significa “formatar”, e “caminhar com” deve levar a processos autênticos de crescimento e transformação pessoal. Esse serviço pede dos formadores uma visão clara e uma flexibilidade necessária para aceitarem estar sempre em caminho. Nesse sentido se fala de formadores capazes de viver em contínuo “êxodo”.
  • A esperança de que falamos será realmente reforçada pelas ações que faremos e que darão uma verdadeira continuidade às diversas fases da formação.
  • Enfim, precisamos crescer na convicção de que a formação dura a vida toda e, por isso, todas as fases da vida devem ser acompanhadas, também a fase da maturidade salesiana e da ancianidade.

A visão a que a Congregação chegou hoje, depois do caminho percorrido nos últimos decênios, deve ser certamente aprofundada por este Capítulo Geral.

 

4.3. Precisamos de ti entre nós: o grito dos jovens ao CG28!

Lemos na Carta de Roma: «Observei e vi que bem poucos padres e clérigos se misturavam com os jovens e bem menos ainda eram os que tomavam parte em seus divertimentos. Os superiores já não eram a alma do recreio. A maior parte deles passava conversando entre si, sem ligar ao que faziam os alunos; outros olhavam o recreio sem se preocupar absolutamente com os jovens (...). Vou concluir. Sabeis o que deseja de vós este pobre velho, que gastou toda a vida por seus caros jovens? Nada mais do que, feitas as devidas proporções, retornem os dias felizes do Oratório primitivo. Os dias do afeto e da confiança cristã entre jovens e superiores; os dias do espírito de condescendência e tolerância por amor de Jesus Cristo de uns para com outros; os dias dos corações abertos com toda a simplicidade e candura; os dias da caridade e da verdadeira alegria para todos».[42]

Caros Irmãos, posso assegurar-vos, já no início do nosso CG28, que a voz dos jovens do mundo todo é um grito que nos pede para estar entre eles, com eles e para eles.

Em todas as Inspetorias e nações onde estamos presentes, quando perguntamos aos jovens o que esperam de nós e o que querem de nós, o seu grito foi justamente esse.

Sem dúvida, esta reflexão nos ocupará nos próximos dias e será, provavelmente, uma das grandes linhas programáticas para o futuro. Porque a vida do carisma da nossa Congregação passa através de um autêntico e sempre permanente retorno a Dom Bosco para substituir, onde for necessário, a gestão com a presença, a administração com a prioridade de cada jovem, a autoridade como poder com o serviço, até fazer que se torne realidade para cada um de nós, e todos os dias, as palavras do nosso Pai: «No que é de vantagem da juventude periclitante ou serve para ganhar almas para Deus, eu me avanço até à temeridade».[43]

O Magistério da nossa Congregação está repleto de belíssimas páginas e expressões que nos recordam que eles, os jovens, são a nossa prioridade; somos nós mesmos, Salesianos de Dom Bosco, que o dizemos. Neste CG28 são os mesmos jovens que no-lo gritam, no-lo suplicam. Dos muitos textos que li e nos quais refleti, ofereço um à Assembleia capitular. São algumas linhas da mensagem do CG25 aos jovens, em que dissemos a eles:

«Reunidos em Roma,

provindos de todos os continentes,

nós, Salesianos de Dom Bosco,

vos escrevemos, caros jovens,

a vós que sois a razão de ser da nossa vida.

(...)

Queremos viver convosco e para vós,

nas situações de pobreza,

nos dramas da guerra,

nos conflitos que dividem

e onde quer que a vida esteja ameaçada

e o crescimento impedido.

Estamos convosco na busca do Amor,

Amor que dá sentido pleno à vida,

e traz felicidade.

(...)

Queremos também dizer-vos

que as portas dos nossos corações e das nossas casas

estão sempre abertas para vós».[44]

Continuar a realizar essas promessas é garantia de fidelidade a Dom Bosco e, nele, ao Senhor.

 

4.4. Uma Congregação Salesiana no século XXI com a prioridade pelos mais pobres

Dissemos no CG27: «Queremos ser uma Congregação de pobres para os pobres. Como Dom Bosco, acreditamos que seja este o nosso modo de viver o Evangelho com radicalidade, a fim de vivermos mais disponíveis e prontos para aderir às exigências dos jovens, atuando em nossa vida um autêntico êxodo para os mais necessitados. Os migrantes, os refugiados e os jovens desempregados interpelam-nos como Salesianos em todas as partes do mundo».[45]

Dom Bosco concentrou toda a sua vida nos jovens e soube adequar-se a eles, à realidade deles e ao ambiente deles. Também nós, com o mesmo amor e a mesma vontade educativa e evangelizadora, devemos continuar a descobrir os tesouros que cada um deles traz no coração.

Nossa prioridade absoluta permanece os jovens e, entre eles, os «pobres, abandonados e periclitantes». É Dom Bosco quem usa frequentemente essa expressão, desde o primeiro artigo das Constituições escrito por ele. É, pois uma «uma prioridade na prioridade: a ajuda aos “mais necessitados”».[46] E os últimos Capítulos Gerais, de uma maneira ou outra, num contexto ou outro, puseram sua atenção sempre sobre a missão em favor dos jovens mais pobres e necessitados.

O temor de não ser totalmente fiéis a essa prioridade sempre existiu. O padre Ricceri, no CGE advertiu esse perigo e convidou a corrigir «certas hipertrofias de obras orientadas num sentido que não dá claramente testemunho do carisma salesiano (para os pobres) e uma atrofia própria das obras que por sua natureza e atuação o exprimem melhor».

Eu mesmo no discurso de encerramento do CG27 dizia: «ouso pedir que, com “coragem, maturidade e muita oração” com que somos enviados aos jovens mais excluídos, optemos em cada Inspetoria por rever onde devemos permanecer, aonde devemos ir e de onde podemos sair... Com seu clamor e seus gritos de dor, os jovens mais carentes nos interpelam».[47]

Creio que posso dizer com honestidade que nestes seis anos a Congregação esteve atenta e vigilante em relação a essa prioridade. Repeti no mundo todo que quando se deve tomar uma decisão, fazer uma opção pastoral, de qualquer tipo, não se deve transcurar a prioridade dos jovens e dos jovens mais necessitados. E creio que não nos desviamos ao longo do caminho. Ao mesmo tempo, porém, devo recordar que é muito forte a tendência, em alguns países e Inspetorias, especialmente nos ambientes escolares, de colocar em primeiro lugar os que “podem pagar” esquecendo os mais pobres. É uma tentação que facilmente se justifica “a priori” com a necessidade de sustentar as obras, com a necessidade de garantir a sua sustentabilidade, sem buscar suficientemente, até o fim, os meios alternativos que garantam a sustentabilidade das obras e sem jamais – digo jamais – transformar as nossas presenças em espaços elitistas ou reservados apenas para aqueles que têm muitas oportunidades. De fato, entre os irmãos e nas Inspetorias, existe o real perigo de pensar apenas ou sobretudo no próprio bem-estar e conforto, sem a disponibilidade para ir às zonas mais pobres da Inspetoria ou deixar as cidades pelas presenças mais remotas e humildes. É particularmente preocupante que em algumas situações alguns jovens Salesianos não tenham em seus corações o desejo da entrega e doação radical de si mesmos, qualquer que seja o preço a pagar ou o esforço que devem fazer.

Enquanto escrevo esta reflexão, convicto da existência de muitas opções em favor dos pobres presentes em nossa Congregação, mas também do grande perigo de ficar no meio do caminho, dirijo o olhar e penso no que Madre Teresa de Calcutá (hoje Santa) recomendou quando interveio no CG22, em 17 de abril de 1984: «Não permitais que ninguém e nada separe o vosso amor por Cristo do amor pelos pobres».[48]

Neste CG28, olhar para o futuro com esperança deve significar, também neste caso, retornar a Dom Bosco e propor à Congregação verdadeiros desafios de vida que preencham o coração de todo Salesiano, para ser como Dom Bosco hoje e para os jovens de hoje.

 

4.5. Uma Congregação que crê realmente na missão compartilhada com os leigos

Fazendo uma rápida exploração dos nossos Capítulos Gerais, do CGE20 ao CG27, procurei, com certa curiosidade, todos os números que direta, concreta e amplamente se referem aos leigos, à sua formação e ao seu trabalho, à sua colaboração, à missão realizada, compartilhada... Todas essas expressões apareceram em 82 números, além de em todo o CG24 dedicado ao tema “Salesianos e leigos: comunhão e participação no espírito e na missão de Dom Bosco”.

Esse dado nos fala, irmãos, de uma sensibilidade que vem de longe em nossa reflexão e em nosso Magistério. Em algumas zonas da Congregação fez-se um bom caminho; mas em geral a realidade confirma-nos hoje que assumir esse caminho, aceitá-lo, integrá-lo na vida das Inspetorias e dos irmãos não é tão evidente e fácil. Também esse tema deverá ser enfrentado pelo nosso CG28.

Dom Bosco sempre foi um homem de bom trato, de diálogo, de amizade, sempre em busca de colaboradores. Ainda em 1972, o nosso CGE20 dizia que «também nós devemos ser generosamente abertos para tornar corresponsáveis do nosso trabalho pastoral os leigos que têm “funções próprias e necessárias” na missão da Igreja».[49] E no mesmo Capítulo, há 47 anos, já se projetava que os leigos poderiam ocupar-se «de funções administrativas que atualmente nós exercitamos»,[50] como também convidava a «procurar o parecer e a colaboração dos leigos, na administração das obras, constituindo eventualmente conselhos de administração, nos quais eles estejam ativamente presentes».[51] A reflexão atual faz-nos compreender que a missão compartilhada é muito mais do que uma delegação de funções administrativas. Isso é certo, mas acontece com frequência que justamente em relação à entrega de funções administrativas algum irmão oponha mais resistência. De fato, justamente aí se requer a realização de tarefas e programas «em comunhão com os leigos corresponsáveis no trabalho pastoral».[52]

A relação do Reitor-Mor ao CG21 oferecia uma importante afirmação a respeito: «Reconhecemos que, hoje sobretudo, não só nem primeiramente por necessidade, mas por motivos óbvios de eclesiologia e de pedagogia, tempos necessidade de leigos, que sejam conscientes e capazes colaboradores nossos para integrar eficazmente a nossa obra educativa, pastoral, evangelizadora».[53]

Irmãos, estamos nesse caminho. A nossa Congregação, nos próximos anos, deve dar passos decididos nessa direção. Mesmo onde há mais abundância de vocações? Certamente. Sobretudo, porque isso nos tornará institucionalmente muito mais livres e nos oferecerá muitas oportunidades pessoais para concentrar diretamente muitas energias na missão evangelizadora, catequética e pastoral.

Escrevo isso consciente de que se trata de um ponto “sensível e incômodo”. Sensível e incômodo como tudo o que foi dito anteriormente, tanto por mim como, a seu tempo, pelo padre Pascual Chávez, sobre a questão do clericalismo. Em todo caso, a impopularidade de algumas questões não pode tirar-nos a coragem de evidenciá-las. É uma tarefa associada a este serviço. Convido a Assembleia a ser corajosa sobre esse tema.

Foi escrito no CG21 que «os leigos têm o direito a uma função de colaboração e corresponsabilidade; e para este fim devem ser preparados»[54]. Já observei algumas razões pelas quais a Congregação é muito clara sobre isso: «Quando os colaboradores leigos são cristãos convictos, sua presença coloca os jovens frente a uma gama mais completa de modelos de vida cristã, dá maior possibilidade aos Salesianos de trabalhar no seu campo específico de animadores, e permite um diálogo mais vasto e atualizado com os problemas da família e da profissão».[55]

A decisão está em nossas mãos. A vida mostra-nos que é o caminho certo. Será necessário apenas superar a nossa resistência em favor de uma missão capaz de estabelecer estilos novos, positivos e contagiosos na missão compartilhada entre Salesianos e leigos. Desejo evidenciar que a formação inicial das novas gerações de Salesianos deve enfrentar francamente essa realidade.

 

4.6. Capazes de entender e acompanhar a nova mudança do paradigma comunicativo.

Estamos às portas de uma era totalmente nova no campo das comunicações sociais.[56] Ainda em 1971, a Instrução pastoral Communio et Progressio evidenciava a existência dessa realidade totalmente nova. Hoje, contemplando o mundo em que vivemos e o âmbito das comunicações sociais, estamos exatamente no que era apenas esboçado há 48 anos.

De todas as partes ouvimos afirmar que estamos vivendo uma mudança de “paradigma”. Em pouco tempo, as tecnologias, os hábitos e as mentalidades humanas se transformaram. No próximo decênio, a partir de 2020, são previstas grandes mudanças em escala global. Muitos países já se imergiram no mundo das “inteligências artificiais”, da comunicação com a tecnologia 5G, nos “Big Data”, nas biotecnologias, no uso das nanotecnologias, etc.

É evidente que estamos numa época de mudanças profundas que influenciam não só o nosso modo de pensar e agir, como também a nossa Vida religiosa e o modo de expressar a nossa consagração e a nossa fé. Como educadores observamos todos os dias adolescentes e jovens mudarem rapidamente seus hábitos, seus modos de olhar, pensar e compreender o mundo, suas relações pessoais e de grupo, seus valores fundamentais da existência, do mundo e de Deus (manifestando fé ou indiferença).

Constata-se no mundo o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa, o aumento das plataformas de comunicação online cujos conteúdos são gerados pelos próprios usuários. Entram nesta categoria os blogs, os fóruns online, as diversas mídias online que permitem criar e compartilhar muitíssimos conteúdos. Entre as plataformas mais importantes temos os Social-network (hoje Facebook, Twitter, Instagram... e amanhã, outros) definidos como “plataformas digitais de comunicação global que põem em contato um grande número de usuários). Tais social-network e seu canal privilegiado “Internet” tornaram-se instrumentos fundamentais de uso “intensivo” e “imprescindível” na socialização juvenil, com o dilema do que é virtual, do que é real ou de como o virtual é sempre “real” porque faz parte da vida.

Os lugares onde os jovens vivem não são apenas espaços físicos, mas “lugares digitais”, que se tornam lugares reais porque jovens e também muitos adultos ali se encontram, em cada instante, em cada momento. Ali fazem ouvir sua voz e sua presença. Esse universo virtual cresce exponencialmente num intercâmbio comunicativo que reduz as instâncias entre os macrogrupos de “amigos desconhecidos” que se conectam e comunicam entre si.

Entrevê-se um novo mundo de relações com um simples processo chamado “interação”. Um feedback contínuo que se alimenta entre os jovens que habitam o universo dos três WWW. Nessa interação são trocados um número infinito de mensagens, fotografias, vídeos, com conteúdos que fazem aumentar essa juventude imersa no mundo dos monitores, no que poderia ser o futuro de hoje: aprisionados nos modernos “smartphones”, os jovens são “prossumidores”: ao mesmo tempo produtores e consumidores de informações e até de conhecimentos.

Seria possível aprofundar e descrever ainda mais esta realidade. É mais do que evidente para nós, educadores dos jovens, que ter uma atitude apocalíptica, negativa e indiferente diante desta realidade não pode ser a nossa perspectiva educativa nem a nossa praxe. Ao contrário, da nossa parte será necessária uma atitude “inteligente” e “ativa”, que envolva uma compreensão profunda e integral das possibilidades e dos limites que esses meios oferecem, buscando gerar o conhecimento das novas linguagens, e nos apossando delas para conhecê-las, entendê-las, dialogar com elas de modo crítico, empenhando-nos no acompanhamento dos nossos jovens.

Dom Bosco, referindo-se à boa imprensa, meio de comunicação do seu tempo, escrevia: «Peço-te que não descuides deste aspecto muito importante da nossa missão»;[57] e na carta circular aos Salesianos, de 19 de março de 1885, dizia: «A imprensa foi um dos principais empreendimentos que me foram confiados pela Divina Providência. Não hesito em chamar este meio de divino, pois Deus mesmo o usou para a regeneração do homem».[58] E aquele que seria o futuro Papa Pio XI, chegou a dizer: «Neste (campo) Dom Bosco quer estar na vanguarda do progresso».[59]

® Pergunto-me se, como educadores dos jovens a nossa Congregação e os Salesianos de hoje e de amanhã serão capazes de preparar-se sempre mais e sempre melhor para esse novo contexto digital em que os jovens vivem.

® Pergunto-me se, como educadores dos jovens, conhecemos, refletimos, conversamos e aprofundamos a realidade dos social-network até sermos competentes para interagir com os jovens que encontramos.

® Permanece em suspenso um desafio para nós educadores. Perguntemo-nos se os espaços educativos formais que oferecemos nas escolas, nas paróquias e nos oratórios, nas IUS, serão suficientemente “sensíveis” e “permeáveis” para entrar em sintonia com os jovens e o “seu mundo digital”.

Essa é uma dimensão de tal importância que não podemos descuidar, como se não fosse algo vital, fundamental na evangelização e na educação dos jovens. E porque é tão vital e fundamental, deve ser levada em consideração na formação das novas gerações de Salesianos, porque se trata de um campo em que eles, “nativos digitais”, são chamados a ser, como nós, educadores e evangelizadores dos jovens numa Congregação, a nossa, em que educamos e evangelizamos «em particular com a comunicação social».[60]

 

CONCLUSÃO: EXORCIZAR A TENTAÇÃO DE DESÂNIMO E AFIRMAR A ESPERANÇA QUE NOS VEM DO SENHOR

Concluo esta relação. Preparei-a com paixão e convicção e teria muito mais a compartilhar. Talvez, o possamos fazer no diálogo dos próximos dias, graças às vossas perguntas.

Quero concluir fazendo minha uma expressão do padre Egídio Viganò no seu discurso de encerramento do CG23. Dizia: «Não é preciso que eu repita aqui o que o Capítulo autorizadamente afirmou. Quereria apenas exorcizar a tentação de desânimo: tudo bonito o que o documento propõe, mas com que irmãos podemos cumpri-lo, por ex., nesta casa? É preciso enfrentar logo duas dificuldades concretas. É necessário reagir, a começar por si mesmos. Convencer-se de que em cada casa existem muito mais possibilidades do que às vezes se pensa; e, sobretudo, é mister aumentar a confiança na verdadeira e ativa presença do Espírito, na energia da ressurreição dada por Cristo nos sacramentos, na ajuda materna e constante de Maria, na intercessão de Dom Bosco, dos nossos Santos e de toda a Igreja celeste».[61]

Em última análise, a diferença entre otimismo e esperança está precisamente na fé. Em algumas ocasiões podemos ser otimistas se os dados que administramos nos oferecem resultados favoráveis, mas essa atitude é frágil e efêmera. Devemos iniciar o caminho, todos os dias, não tanto com otimismo quanto com esperança, aquela esperança que tem suas raízes, justamente, na fé e na presença do Espírito. Uma esperança que sabe o que significa dizer ter uma Mãe Auxiliadora que continua a fazer tudo enquanto acompanha a família de Dom Bosco; e um Pai, Dom Bosco, que continua a guiar, embora com pobres mediações humanas, esta obra que não é nem sequer sua, mas fruto do Espírito. Possa esse mesmo Espírito Santo guiar-nos no trabalho do Capítulo que nos foi confiado pela Congregação inteira.

Um abraço fraterno deste vosso irmão,

Ángel Fernández Artime, SDB

Reitor-Mor

 

[1] Cf. CG27, 3.

[2] CG27, 32.

[3] CG27, 28

[4] VC, 93.

[5] CG27, p.121.

[6] Const. 25.

[7] EG, 92.

[8] CG27, 42.

[9] CG27, 52.

[10] Francisco, Como Dom Bosco, com os jovens e para os jovens. Cara do Papa Francisco ao Reitor-Mor dos Salesianos, LEV, p. 9.

[11] J. Bosco, O jovem instruído na prática dos seus deveres dos exercícios de piedade cristã, in ISS, Fontes Salesianas. 1. Don Bosco e a sua obra, EDB, Brasília 2015, p. 1422.

[12] Os números relativos ao acompanhamento no CG27 são: 1, 18, 27, 38, 59, 74.2, 75.1.

[13] ChV, 299.

[14] Cf. M. Lasarte-D. Medeiros (Coord.), Amazonia Salesiana. El Sinodo nos interpela, Elle Di Ci, Leumann (Turim) 2019, 19.

[15] Ad gentes, 40.

[16] Cf. MBp II, 182-183 (MBp = Memórias Biográficas, ed. em português).

[17] E. Ceria, Annali, II-IV passim; ACS, Indices ad vocem Missio.

[18] Cf. CG27, 19.

[19] CG20 (CGE), 151.

[20] MB XVI, 313.

[21] CG26, 55.

[22] Const. 4.

[23] CG27, Relação do Reitor-Mor ao Capítulo, Roma 2014, p. 331.

[24] ACS 93 (1939), p. 180.

[25] CG24, 252.

[26] Const. 37.

[27] CG27, Discurso do Reitor-Mor no encerramento do Capítulo, p. 139.

[28] Cf. MB VI, 334-335.

[29] MB XVIII, 258.

[30] Const. 24.

[31] A. Montan, Il religioso presbitero nella Chiesa oggi: attualità, contenuti, prospettiva di un qualificato seminario della CISM, in CISM, Il religioso presbitero nella Chiesa oggi. Atti del Seminario di studio (Roma, 31 de março de 2005), preparado A. Montan, Il Calamo, Roma, 2005, 7-17, 7.

[32] CIVCSVA, Economia a serviço do carisma e da missão. Orientações, n. 41, Edições CNBB, Documentos da Igreja 45.

[33] Ibid.

[34] CGE (CG20), 726.

[35] Cf. Relação do Reitor-Mor ao CG27, Roma, 2014, p. 334.

[36] Cf. Francisco, Carta Apostólica a todos os consagrados por ocasião do Ano da Vida Consagrada, Cidade do Vaticano, 2014, n. 1-3.

[37] Cf. o.c., 15-16.

[38] Jr 1,8.

[39] Cf. 2Tm 1,12.

[40] CG27, 32.

[41] Cf. CG27, Relação do Reitor-Mor, o.c. p. 328.

[42] J. Bosco, Carta de Roma à comunidade salesiana do Oratório de Turim-Valdocco, in Fontes Salesianas. 1. Dom Bosco e sua obra. Coletânea antológica, EDB, Brasília 2015, p. 521.525.

[43] Const. 19 e MB XIV, 662.

[44] CG25, 116.

[45] CG27, 55.

[46] CGE20, 48.

[47] CG27, p. 128.

[48] CG22, n. 107, p. 109.

[49] CGS20, 428.

[50] CGS20, 393.

[51] CGS20, 620.

[52] CGS20, 439.

[53] CG21, 66.

[54] CG21, 76.

[55] CG21, 77.

[56] Cf. Communio et Progressio 181, 187, citato in CGS20, 442.

[57] Epistolario IV, 321.

[58] Epistolario IV, 318-319.

[59] MB XIX, 322.

[60] Const. 6.

[61] CG23, 352.