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ACG 425 - A formação é permanente

ACG 425 - 2. ORIENTAÇÕES E DIRETRIZES

2.2. A formação é permanente

P. Ivo Coelho
Conselheiro Geral para a Formação

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Beberá da torrente ao longo do caminho;

por isso, erguerá a sua fronte (Sl 110,7)

Certo Salesiano terminara uma brilhante conferência sobre a importância do acompanhamento espiritual, procurando fazer com que o seu auditório ficasse tão entusiasmado quanto ele. Ao final do encontro ouviu de passagem o comentário de um jovem irmão: “Ainda bem que, finalmente, me tornei padre. Não preciso mais de acompanhamento”.

A formação é algo que se encerra e termina com a profissão perpétua ou com a ordenação sacerdotal? Ou é algo muito diferente, que tem a mesma duração da vida? Inspirando-se no recente documento da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Para vinho novo odres novos,[1] esta nossa comunicação leva-nos às Constituições e ao validíssimo comentário às Constituições, Projeto de vida dos Salesianos de Dom Bosco, para pôr-nos em sintonia com a aventura do Espírito’,[2] que é a formação, e oferecer-nos alguns pontos práticos para vivê-la.

A expressão ‘formação permanente’ tornou-se familiar nos últimos decênios, sobretudo no contexto da vida religiosa e sacerdotal.[3] Entretanto a realidade que evoca é tão antiga quanto o mundo, embora tenha se tornado objeto de reflexão apenas recentemente.

Foi mérito do existencialismo enfatizar a historicidade do ser humano como espaço da sua realização, em contraste com o essencialismo que tendia a considerar o ser humano como substancialmente ‘já constituído’. Sem dúvida, existiram exageros, como a famosa expressão de Jean-Paul Sartre, “a existência precede a essência”; mas justamente nesse excesso, serviu como retificação salutar de um modo muito estático de compreender a vida humana. Com maior equilíbrio, poder-se-ia falar da identidade do ser humano como constituída em boa medida pela sua experiência de vida concreta, pelos seus projetos e opções.

Nesse contexto, o conceito de experiência é fundamental com as suas conotações etimológicas, sobretudo as que se referem a risco e perigo: ex-perior, ex-perto, periculum, etc. Sem entrar na complexidade do conceito e do que ele indica, gostaria de deter-me em dois elementos que acredito ser importante distinguir: o acontecer como tal (evento, acontecimiento, événement) e o impacto que exerce sobre a pessoa – ou seja, o quanto alguém aprende do que acontece com ela. Em alemão, é possível fazer uma interessante distinção entre Erlebnis e Erfahrung, ou seja, entre a multiplicidade das ‘experiências’ (a vivência) e ‘experiência’ como quando alguém consegue aprender das muitas ‘experiências’ que vai fazendo. De fato, é possível ter muitas experiências sem nada aprender. Um irmão dizia de outro que continuava a vangloriar-se dos seus 25 anos de experiência: “Fez apenas um ano de experiência que, depois, se repetiu 25 vezes”. Fazer da vida espaço de formação não significa correr atrás de muitas coisas (‘fazer muitas experiências’), mas crescer na arte de aprender do que se vive (‘ser experto’). Esse é um ponto importante para compreender o que as Constituições nos querem dizer.

1. Formação permanente: significado da expressão

Tendo presente o que dissemos acima, poderíamos perguntar-nos: o que, então, significa a expressão ‘formação permanente’? Certamente não se refere a uma série de atividades organizadas por uma instituição (religiosa, profissional, ou de qualquer outra natureza) para a qualificação ou atualização dos seus membros, muitas das quais acontecerão fora do contexto ordinário da vida e do trabalho. Refere-se, menos ainda, a uma fase que começa depois da que se costuma definir como ‘formação inicial’. De fato, o Capítulo Geral 22 examinara diversas expressões alternativas, no esforço de evitar possíveis ambiguidades – formação continuada, formação pós-inicial, etc. –, que foram descartadas como inadequadas.

Para ir ao cerne da questão, tentemos prestar atenção ao uso da palavra ‘permanente’: trata-se de um adjetivo ou de um predicado? Mais simplesmente: qual dentre as duas expressões a seguir nos parece melhor para o que se quer dizer?

          A formação permanente é... (permanente = adjetivo)

          A formação é permanente (permanente = predicado)

É óbvio que a segunda expressão descreve o que nós entendemos aqui. É no interior dessa formação que permanece viva em todo o ciclo da vida – até o último dia – que tem sua razão de ser também a que definimos como ‘formação inicial’. Vistas assim, as ênfases dadas pela Ratio à ‘formação a serviço da identidade salesiana’ são visivelmente ricas de sentido; está claro que a formação não se refere apenas às fases iniciais da vida salesiana.[4] A formação permanente, para dizê-lo com outras palavras, não é a continuação natural da formação inicial. Ela é, na verdade, a forma habitual de viver a nossa vocação. É um modo novo de compreender a vida consagrada, acolhida e compreendida como participação na ação do Pai que, através do Espírito, forma e modela no coração os sentimentos e as atitudes do Filho.[5] A formação dura a vida toda, até a hora em que a nossa existência de consagrados alcançar a “o remate supremo”.[6]

3. Formação permanente nas Constituições salesianas: análise

Como já dissemos, o conceito de ‘formação permanente’ é relativamente novo. Em nossa Congregação, ele surgiu explicitamente durante o CG22 no contexto da elaboração definitiva do texto constitucional. A comissão que preparava os artigos sobre a formação foi a única que não partiu de um texto anterior (Constituições ad experimentum de 1971-72), justamente porque este era um modo totalmente novo de entender a formação. Não podemos nos deixar enganar pelo fato de haver no capítulo 9 das Constituições dois artigos dedicados expressamente à formação permanente (118 e 119). Como anota o Projeto de vida dos Salesianos de Dom Bosco (1986), o princípio organizador de toda a seção terceira das Constituições era a formação permanente.[7] Com outras palavras, a formação permanente é a ideia mãe e o critério organizador de tudo o que as nossas Constituições têm a dizer sobre a formação.

a) A formação é, antes de tudo um chamado: “Jesus chamou pessoalmente seus apóstolos para que ficassem com Ele” (C 96). É muito importante distinguir chamado de opção. Em nosso tempo, a opção tornou-se uma das principais categorias com que se organiza a realidade, compreendida a dimensão religiosa da existência. Isso tem o seu lado positivo: encoraja a responsabilidade pessoal e dá valor à intenção com que se age, ultrapassando os limites da aceitação cega e da pertença passiva. Contudo, tornando-se a ‘forma’ como se organiza o itinerário de vida espiritual, o seu maior limite está em colocar o indivíduo no centro. Chamado, entretanto, pressupõe que estamos diante de alguém que chama. Falar de chamado é reconhecer alguém que chama, é ter consciência de que a iniciativa gratuita de Deus sempre precede todos os nosso planos e projetos. A vida consagrada não é uma opção que nós fazemos. É resposta a um chamado.

b) A formação é a nossa resposta ao chamado de Deus. Diz o artigo 96: “Respondemos a esse apelo com o empenho de uma formação adequada e contínua, para a qual o Senhor dá cada dia a sua graça”.[8] Podemos tirar disso duas consequências imediata:

-        Só se pode compreender a formação como permanente se se compreende também a vocação como permanente. O Senhor continua a chamar-me dia após dia: “Toda manhã ele desperta os meus ouvidos” (Is 50,4). O mártir protestante D. Bonhoeffer faz notar que a primeira e a última palavra de Jesus a Pedro é a mesma: ‘Segue-me’ (Jo 21,22).[9]

-        A vida não é formativa se não for vista do ponto de vista do crescimento vocacional. O beato J. H. Newman costumava dizer: “Não te preocupes com o fato de que a tua vida vai acabar. Preocupa-te muito mais com a possibilidade de que jamais tenha começado”. Quando tratamos de formação, o verdadeiro risco é que para algum de nós a formação jamais tenha realmente começado.[10] O nosso discernimento poderia ser inadequado ou até mesmo falseado, caso não tenha como critério básico o crescimento na vocação, entendida como resposta ao Senhor que chama. Por outro lado, paradoxalmente, muitas experiências negativas e crises podem ser formativas, quando a pessoa é capaz de enfrentá-las do ponto de vista do crescimento na vocação.

c) O nosso chamado é para seguir Jesus de modo específico: como pessoas consagradas no espírito de Dom Bosco. Seguir Jesus significa ser como Ele, filhos no Filho, permitindo ao Pai que plasme em nós o coração e a mente do seu Filho, para que vivamos e sintamos, pensemos e entendamos, avaliemos e julguemos, decidamos, amemos e nos comportemos como ele. Com São Paulo, possamos dizer: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Seguir Jesus como consagrados significa ser memória viva dele, até seguir também as suas concretíssimas opções de vida celibatária, pobre e obediente por amor do Reino, antecipando desde agora o que esperamos ser um dia.

d) O chamado nunca é “para si mesmo”: o Senhor chama para enviar. Portanto, a missão é o modo no qual se vive a eleição. A formação do Salesiano é toda orientada para a missão e motivada pela missão (C 97).[11] “Imerso no mundo e nas preocupações da vida pastoral, o Salesiano aprende a encontrar Deus naqueles a quem é mandado” (C 95). O objetivo é encontrar Deus no meio da nossa vida e trabalho; o caminho para chegar até lá é o itinerário formativo. Não se pode sair para fora da vida ordinária a fim de se formar; ao contrário, é preciso entrar nela, mas da maneira adequada. Trata-se de passar do deixar-nos viver a começar a aprender da experiência como as Constituições nos indicam. Se nos sintonizarmos com esse estilo, começaremos a viver em “permanente estado de missão” que é, ao mesmo tempo, um estado permanente de formação.[12]

e) A formação não é uma fase ou uma parte da vida salesiana, mas um modo de ser que abrange a vida inteira, até que tudo – oração, vida fraterna, trabalho apostólico e prática dos conselhos evangélicos – se torne formativo, ou seja, resposta ao Senhor que nos chama (em cada momento, durante a vida toda).[13]

f) O artigo 119 fala-nos da natureza da nossa vida entendida como formação: “Vivendo entre os jovens e em constante contato com os ambientes populares, o Salesiano se esforça para discernir nos acontecimentos a voz do Espírito, adquirindo assim a capacidade de aprender da vida”.[14] O artigo acrescenta: “Sente-se ainda chamado a viver com interesse formativo qualquer situação, considerando-a tempo favorável para o crescimento da sua vocação”. Nenhuma experiência é inútil ou irrelevante se formos capazes de aprender. Obviamente não bastarão os nossos esforços, a nossa inteligência e perspicácia; é preciso a fé, que nos habilita a “discernir nos acontecimentos a voz do Espírito”.

g) Isso tudo abre caminho para uma grande pergunta: qual é o papel da formação inicial? Esclareça-se, antes de tudo, que a formação inicial NÃO é o princeps analogatum ou a pedra de toque de toda a formação (como somos levados a crer ainda hoje). Ela tem a sua razão de ser no que “vem depois” (caso contrário, não se explica a qualificação ‘inicial’). Faz parte de uma formação que é permanente. Não menos importante, a formação inicial tem as suas peculiaridades. Tem a importância que a universidade tem para um médico: não é fim a si mesma, mas um tempo privilegiado para adquirir os instrumentos indispensáveis em vista do que virá em seguida. Tomemos como exemplo a ‘direção espiritual’. Longe de ser uma prática reservada à formação inicial, ela lança os fundamentos para o acompanhamento espiritual que, por sua natureza, deve continuar a vida toda. Tendo em mente o texto do artigo 119, poderíamos concluir simplesmente que a finalidade da parte inicial da nossa vida entendida como formação é aprender como aprender.[15] E quando, na parte restante da vida, o aprendizado permanente continua, a vida torna-se formação, uma resposta que continua dia após dia ao amor de Deus que, miserando et eligendo,[16] jamais deixa de chamar como jamais deixa de amar.

4. Formação permanente nas Constituições Salesianas: a síntese

Consideramos até aqui algumas características da formação permanente como é apresentada nas nossas Constituições. Creio que podemos concluir com a síntese extraordinária oferecida pelo artigo 98: a experiência formativa.

“Iluminado pela pessoa de Cristo e pelo seu Evangelho, vivido segundo o espírito de Dom Bosco, o Salesiano se empenha num processo formativo que dura toda a vida e lhe respeita os ritmos de amadurecimento. Faz experiência dos valores da vocação salesiana nos diversos momentos de sua existência e aceita a ascese que esse caminho implica.

Com a ajuda de Maria, Mãe e Mestra, tende a tornar-se educador-pastor dos jovens na forma laical ou sacerdotal que lhe é própria”.

Antes de tudo, encontramos aqui a formação entendida como processo: “Faz experiência dos valores da vocação salesiana”. Durante as fases iniciais da formação tornamo-nos familiares desses valores fundamentais. Entretanto, conhecê-los não é a mesma coisa que ‘fazer experiência deles’. Para estar prontos a dar o grande passo da profissão perpétua não é suficiente conhecer de cor as Constituições; é preciso ter experimentado a vida salesiana, isto é, ter aprendido da vida.

O artigo evidencia ainda que a formação dura a vida toda. Quando a formação é entendida como resposta, e quando a missão é entendida como epifania, o entusiasmo e a paixão já não têm nem limites nem fim, porque mesmo na idade madura e nas últimas estações da vida continua o diálogo de amor entre o Senhor e cada pessoa; o Salesiano torna-se, de modo sempre mais claro e transparente, sinal e portador do seu amor, vultus misericordiae.

E, ainda, não se pode ignorar a ascese que faz parte da nossa vida, que deve ser entendida como formação. As rosas dos valores naturais ao espírito salesiano têm também os seus espinhos, como Dom Bosco procurou ensinar-nos mediante o sonho do caramanchão de rosas.

Vale a pena insistir no fato de a formação acontecer essencialmente num contexto de fé, vivido no interior do carisma salesiano: “Iluminado pela pessoa de Cristo e pelo seu Evangelho, vivido segundo o espírito de Dom Bosco”. Ser como Dom Bosco significa ser um com Jesus, percorrendo ao mesmo tempo ‘a aventura do Espírito’ – e é impensável ser um consagrado filho de Dom Bosco sem uma relação pessoal, apaixonada, esplêndida com Cristo.

Enfim, devemos dar atenção às palavras conclusivas: o Salesiano, todo Salesiano, é essencialmente educador-pastor. É educador-pastor antes de ser coadjutor ou diácono ou padre. O Salesiano coadjutor que não é pastor não é salesiano; e o Salesiano padre que não é educador não é salesiano. Em última análise, a nossa eficácia tem vida a partir da relação que temos com o Senhor, a partir do nosso conformar-nos ao coração de Cristo. Porque, de fato, educamos através do que somos, do que amamos. A partir da plenitude do coração nós falamos, agimos e somos. Cor ad cor loquitur, como dizia São Francisco de Sales.

Tudo isso “com a ajuda de Maria, Mãe e Mestra” que nos educa “para a plenitude da doação ao Senhor” (C 92). Somos convidados a ser filhos no Filho, deixando que Maria modele em nós um corpo e um coração como o de Cristo; deixando que ela nos ensine a amar justamente como ensinou a Dom Bosco (C 84) ou, podemos dizer ainda melhor, como ela ensinou o próprio Jesus.

5. Como viver em formação a vida toda

Falamos até aqui sobre ‘o quê’. Mas também se deve olhar para o ‘como’, baseando-nos nas Constituições e na Ratio; diga-se, porém, que um bom “o quê” já é de per si também um ‘como’.[17]

O artigo 119 das Constituições, já citado, contém algumas palavras sobre as quais não nos detivemos antes: “o Salesiano se esforça para discernir... adquirindo assim a capacidade de aprender da vida”. Esse aprender e esforçar-se acontece ao longo de todo o ciclo da vida, mesmo tendo o seu tempo privilegiado durante a ‘formação inicial’.

Tanto o artigo 118 como o 119 indicam áreas a serem desenvolvidas se quisermos que a vida se torne realmente um lugar formativo: “Procuramos crescer na maturidade humana, conformar-nos mais profundamente a Cristo e renovar a fidelidade a Dom Bosco, para responder às exigências sempre novas da condição juvenil e popular” (C 118). “Durante o tempo de sua atividade plena [o Salesiano], encontra ocasiões para renovar o sentido religioso-pastoral da própria vida e habilitar-se a desenvolver com maior competência o seu trabalho” (C 119). Dois aspectos típicos da formação emergem claramente do texto: processo e responsabilidade pessoal. Nessa linha, gostaria de apresentar alguns pontos metodológicos que têm a ver sobretudo com as fases iniciais da formação.

a) A dimensão qualitativa deve prevalecer sobre a quantitativa: a questão está em aprender da experiência, mais do que se limitar a ter muitas experiências.

b) Devemos desenvolver a habilidade de aprender das nossas experiências, mesmo daquelas que poderiam ser consideradas ‘negativas’.

c) Ainda antes da insistência sobre aprender das nossas experiências, podemos aprender com o Papa Francisco a deter-nos diante do mistério da vida, da beleza da natureza, do mistério do outro, quer se trate de um jovem ou de um nosso irmão ou de quem compartilha conosco a mesma missão. Levemos a sério a insistência do Papa sobre o ‘olhar pastoral’ e sobre a ‘serena atenção’.[18] Não descuidemos da nossa experiência vivida. Se nos importa realmente ‘aprender de’ precisamos, antes de tudo, ‘aprender a’ habitar, permanecer, estar diante do mistério. Detendo ali os nossos passos perceberemos que vivemos em terra santa, que nos encontramos diante da sarça ardente.

d) A Palavra de Deus é o critério hermenêutico em nosso aprender e discernir. A Palavra é luz e força, alimento para o caminho (C 87). A vida salesiana dá espaço à escuta prolongada da Palavra de Deus,[19] mediante a leitura pessoal e a lectio divina em comunidade.

e) Formação significa também retorno constante às Constituições, que são, para nós, a concretização da Palavra de Deus, e às fontes salesianas, que conservam a aventura do Espírito, vivida por Dom Bosco e por muitos Salesianos depois dele. Podemos e devemos pensar na formação inicial também como iniciação às fontes: retornar regularmente às nossas fontes, para ali habitar e obter a vida que delas flui.

f) A arte de aprender requer acompanhamento. Não se aprende sem um mestre, ou sendo mais exato, sem um experto (palavra que deriva de ex-perior, mesma raiz de experiência). Convém insistir de novo que, como para a vocação e a formação, também o acompanhamento espiritual pessoal é permanente e continua tanto quanto a vida.[20]

g) Não se trata, realmente, de uma aprendizagem unidirecional; ela sempre acontece na rede de relações que é a comunidade – tanto a comunidade salesiana (C 99) como no âmbito mais amplo da comunidade educativo-pastoral.[21] “Para educar um filho é necessária uma aldeia”, diz um provérbio africano citado pelo Papa Francisco.[22] O artigo 101 das Constituições recorda-nos que “a comunidade inspetorial acolhe e acompanha a vocação de cada irmão”, e que, por sua vez, cada irmão “contribui, com a oração e o testemunho, para sustentar e renovar a vocação dos irmãos”.

h)  Adquirimos a habilidade de dar qualidade formativa à vida ordinária, e o formador criativo se servirá de todos os meios à sua disposição para encorajar o aprendizado a partir da experiência, a reflexão em clima de oração, o discernimento espiritual como estilo de vida. Gostaria de insistir aqui também sobre a importância da leitura.[23] Fiquemos atentos para não correr o risco de subestimar a força de mudança pessoal inerente às boas leituras, a começar da leitura da Palavra de Deus e das Constituições, como já dissemos.[24]

i) Demos espaço à ascese conatural à nossa vida e missão não só em aceitá-la de bom grado, mas também aprendendo dela. Encontra-se aqui o espaço e a importância da meditação cotidiana, dos momentos de oração pessoal, do acompanhamento espiritual pessoal e, também, da partilha espiritual à qual fomos convidados pelos nossos últimos Capítulos Gerais.[25]

Encontramos ainda em nossas Constituições e Regulamentos uma série de outros instrumentos e meios relevantes para a formação. Baste recordar aqui que todo projeto pessoal de vida (R 99) deve ser lido claramente na ótica da formação como resposta ao chamado, ao serviço daquilo de que a Inspetoria precisa (R 100). O mesmo pode ser dito sobre as iniciativas ordinárias e extraordinárias promovidas pela Inspetoria ou por grupos de Inspetorias, pela Igreja e pela sociedade (R 101) e, obviamente, sobre os momentos dedicados à renovação pessoal (R 102).

Esta breve reflexão sobre a formação permanente não pode ser concluída sem uma palavra sobre a devoção – que para São Francisco de Sales é a capacidade de encontrar Deus em tudo e de viver com frescor e alegria, ‘correndo e saltando’ na via dos mandamentos de Deus.[26]

Peçamos que o Senhor nos ajude a sermos fiéis dia a dia – a “beber da torrente ao longo do caminho” (Sl 110,7) – de modo que nos voltemos sempre para ele, a fonte de água viva, e que rios de água viva possam brotar do nosso interior (Jo 7,38), para a vida de muitos.

 



[1] CIVCSVA, Para vinho novo, odres novos: A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto: Orientações (6 de janeiro de 2017), cf. n. 16 e 35. Coleção “Documentos da Igreja” n. 46, São Paulo: Paulinas.

[2] Ángel Fernández Artime, Estreia 2016: “Com Jesus, percorramos juntos a aventura do Espírito!”

[3] CIVCSVA, Identidade e missão do religioso irmão na Igreja (2015): na versão em inglês, utiliza no n. 35 a expressão “lifelong formation” (= formação ao longo da vida).

[4] A formação dos Salesianos de Dom Bosco. Princípios e normas (FSDB), 4ª edição (online, 2016) capítulo 2, seção: “A formação a serviço da identidade salesiana”. Cf. em italiano /it/formazione-it.html (28.01.2017).

[5] Vita Consecrata 66.

[6] C 54.

[7] O projeto de vida dos Salesianos de Dom Bosco. Guia à leitura das Constituições Salesianas (Brasília, 2016) 789ss. Não queremos retomar e repetir aqui tudo o que esses textos têm a dizer sobre a formação entendida como permanente.

[8] “Responder ao chamado significa viver em atitude de formação” (O projeto de vida dos Salesianos de Dom Bosco 686). “Formação é acolher com alegria o dom da vocação e torná-lo real em cada momento e situação da existência” (FSDB 1).

[9] Entretanto, o apóstolo a quem essa palavra é dirigida não é realmente ‘o mesmo’: na segunda vez, novamente no mar de Tiberíades, é menos presunçoso, mas muito mais centrado, porque o seu centro agora é Cristo Jesus e o seu amor misericordioso. A transformação de Pedro até chegar ao martírio oferece à teologia o ponto de partida para a reflexão sobre graça e liberdade, que inicia em Agostinho e percorre os séculos através de Tomás de Aquino até chegar aos nossos dias: uma reflexão que tem a ver em tudo e por tudo com a formação que permanece e continua ao longo de toda a vida.

[10] Cf. A. Cencini, Formazione permanente: Ci crediamo davvero? (Bolonha: Dehoniane, 2011) 131.

[11] “A formação continuada deve ser orientada segundo a identidade eclesial da vida consagrada. Não se trata apenas de nos atualizarmos em termos de novas tecnologias, das normas eclesiais ou dos novos estudos relativos à própria história e ao carisma do Instituto. O que se deve fazer é consolidar, ou muitas vezes também reencontrar o próprio lugar na Igreja, a serviço da humanidade” (Para vinho novo, 35).

[12] Cf. EG, n. 25 cujos reflexos se encontram em GC27, 74.1.

[13] Cf. VC, n. 65, e CIVCSA, ‘Partir de Cristo’: um renovado compromisso da vida consagrada no terceiro milênio. Instrução, 15. Roma, 19 de maio de 2002.

[14] O artigo em inglês diz: “the ability to learn from life’s experiences” (= a capacidade de aprender com as experiências da vida).

[15] A formação inicial “não pode contentar-se em formar para a docilidade e para os saudáveis hábitos e tradições de um grupo, mas deve tornar o jovem consagrado realmente docibilis. Isso significa formar um coração livre para aprender com a história de cada dia ao longo de toda a vida, ao estilo de Cristo, para se colocar a serviço de todos” (Para vinho novo, 35).

[16] Lema do Papa Francisco, tirado das homilias de São Beda o Venerável sobre o chamado de Mateus (CCL 122, 149-151).

[17] Para vinho novo, 35, diz que ainda há uma cultura da formação continuada e que, em nível de praxe pedagógica, ainda não encontramos itinerários concretos, no plano individual e comunitário, para tornar efetiva a formação permanente. O documento também pede uma reflexão sobre a dimensão estrutural-institucional da formação permanente: “Como outrora, depois do Concílio de Trento, nasceram seminários e noviciados para a formação inicial, hoje somos chamados a realizar formas e estruturas que sustenham o caminho de cada consagrado na progressiva conformação com os sentimentos do Filho (cf. Fl 2,5). Isso seria um sinal institucional extremamente eloquente” (Ibid.).

[18] Cf. EG, 51, e também 125, 141, 169; e LS, n. 225-226.

[19] Congregação para os Religiosos e os Institutos seculares, A dimensão contemplativa da vida religiosa (março 1980) 20. Cf. http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccscrlife/documents/rc_con_ccscrlife_doc_12081980_the-contemplative-dimension-of-religious-life_po.html (28.01.2017).

[20] Enquanto as nossas Constituições falam de entregar-se com simplicidade a um diretor espiritual como uma das atitudes e um dos meios para progredir na castidade (C 84) e os Regulamentos pedem que cada irmão “mantenha viva a disponibilidade à oração, à meditação, à direção espiritual pessoal e comunitária” (R 99), a Ratio afirma que “ordinariamente na idade adulta não é necessária aquela direção metódica exigida pelo primeiro período da formação” (n. 267). Vita Consecrata (1996) diz que: “Serve de grande apoio para progredir no caminho evangélico, especialmente no período de formação e em certos momentos da vida, o recurso confiante e humilde à direção espiritual, graças à qual a pessoa é ajudada a responder às moções do Espírito com generosidade e a orientar-se decididamente para a santidade” (VC 95). Os nossos últimos Capítulos Gerais iniciam uma mudança quando nos convidam a caminhar na direção do acompanhamento permanente desde que o objetivo da formação é conformar-se a Cristo (cf. CG26, 62 e CG27, 67.2). O Diretório para a vida e o ministério dos presbíteros (73, edição 2013) fala da direção espiritual como de uma necessidade para os presbíteros: “para contribuir ao melhoramento da sua espiritualidade é necessário que os presbíteros pratiquem eles próprios a direção espiritual”. A Nova Ratio da Igreja (2016) apresenta o acompanhamento pessoal como uma das dinâmicas mais importantes para a formação permanente: “O presbítero não deverá isolar-se; ele terá, em vez disso, necessidade de amparo e acompanhamento no âmbito espiritual e psicológico. Em todo caso, será útil intensificar a relação com o Diretor espiritual para que das contrariedades se tirem ensinamentos positivos, aprendendo a fazer luz sobre a verdade da própria vida e a compreendê-la melhor à luz do Evangelho” (Congregação para o Clero, O dom da vocação presbiteral: Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis n.  84)

[21] FSDB 560.

[22] Discurso do Santo Padre Francisco ao mundo da escola italiana, 10 de maio de 2014.

[23] Cf. R 99: “Cada um cultive o hábito da leitura…”

[24] Sobre Palavra de Deus e Constituições como os dois polos principais da nossa leitura formativa, cf. Projeto de Vida dos Salesianos de Dom Bosco 699.

[25] GC27, 67.4.

[26] “Um homem ainda convalescente duma enfermidade anda com passo lento e só por necessidade: assim um pecador recém convertido vai caminhando na senda da salvação devagar e arfando, só mesmo pela necessidade de obedecer aos mandamentos de Deus, até que se manifeste nele o espírito da piedade. Então, sim, como homem sadio e robusto, caminha, não só com alegria, como também envereda corajosamente pelos caminhos que parecem intransitáveis aos outros homens, para onde quer que a voz de Deus o chame, já pelos conselhos evangélicos, já pelas inspirações da graça”. Francisco de Sales, Introdução à vida devota, Parte 1, capítulo 1.