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Favorecer as comunidades internacionais, ACG 429

“Favorecer as comunidades internacionais” (CG27, 75.5), ACG 429

             

 

P. Francesco CEREDA
Vigário do Reitor-Mor

 

O CG27 pediu para reforçar a consistência da comunidade salesiana e aumentar a sua internacionalidade. Depois de oferecer algumas orientações sobre a consistência das comunidades, em ACG 422, consideramos agora as comunidades internacionais, segundo o que é pedido pelo próprio Capítulo Geral: “favorecer comunidades internacionais também através da redistribuição global dos irmãos e a promoção dos projetos missionários da Congregação”.[1]

Não é possível ter em todos os contextos irmãos provenientes de nações diferentes da própria. Onde não é possível constituir comunidades internacionais, consideramos ao menos a possibilidade de ter comunidades multiculturais e pluriétnicas, ou seja, comunidades nas quais estão presentes irmãos provenientes de grupos étnicos ou tribais diferentes. Constituir comunidades internacionais é a condição para oferecer um testemunho profético da “fraternidade intercultural”.

As orientações, agora propostas, foram compartilhadas com o Reitor-Mor e o Conselho Geral; elas entendem ajudar os irmãos e as Inspetorias a levarem a sério essa opção capitular e dar-lhe plena e generosa adesão.

1. Importância das comunidades internacionais

Vivemos hoje numa época de grande mobilidade de pessoas e de povos. Os motivos que provocam esse fenômeno são vários: pobreza, fome, guerra, perseguição, desertificação, mudanças climáticas, crescimento do nível dos mares, globalização e, consequentemente, busca de segurança e de condições melhores de vida. O resultado dessa mobilidade é a mescla de gente de todas as nações, culturas, etnias, religiões, línguas; esta situação requer que se enfrentem problemas de adaptação cultural, convivência civil e integração social; trata-se de uma situação que hoje se verifica na maior parte dos países, tanto ricos como pobres, e em todos os continentes.

A nossa Congregação não pode desinteressar-se do fenômeno migratório. Muitos jovens migrantes vivem sem trabalho e, portanto, sem futuro, excluídos da sociedade, expostos à delinquência e à violência. Para responder às suas necessidades as comunidades educativo-pastorais tornam-se sempre mais interculturais, também com a presença de voluntários provenientes de vários países; por isto, as Inspetorias sentem a necessidade de criar comunidades internacionais. Deve-se notar que entre os jovens migrantes das nossas comunidades educativo-pastorais começamos a ter vocações à vida consagrada salesiana.

No campo da formação inicial, diminuindo as vocações e faltando formadores, foram constituídas em diversas Inspetorias comunidades formadoras interinspetoriais e internacionais. Além de reforçar as comunidades formadoras, esta opção habilita os formandos para viverem uma fraternidade aberta ao contraditório, às relações, à diversidade cultural.

Também as necessidades crescentes das missões tornam necessário o envio de missionários para reforçar as comunidades existentes ou fundar outras novas; pense-se, por exemplo, nas novas comunidades de Kuching na Malásia, de Palabeck em Uganda para atender aos refugiados, de Kunkujang em Gâmbia que são constituídas por irmãos provenientes de vários países.

Não se pode esquecer, enfim, as comunidades que respondem às necessidades de toda a Congregação, como por exemplo, a comunidade da Sede Central, a Universidade Pontifícia Salesiana, os lugares salesianos, as comunidades formadoras mundiais, as comunidades do Vaticano e das Catacumbas. São comunidades internacionais que precisam da contribuição de irmãos de diversas Inspetorias.

Como se nota, já existe na Congregação um notável intercâmbio de irmãos. Todos os sinais descritos acima miram a uma maior internacionalização das comunidades. Por isso, o CG27, com visão profética, pediu para promover as comunidades internacionais e propôs dois caminhos para a concretização desse compromisso: a promoção dos projetos missionários da Congregação e a redistribuição global dos irmãos.

2. Disponibilidade para os projetos missionários da Congregação

De acordo com o CG27 um caminho para favorecer a surgimento de comunidades internacionais consiste em suscitar a disponibilidade dos irmãos para os projetos missionários da Congregação. É preciso, por isso, tornar esses projetos conhecidos, fazer aumentar o espírito missionário, ajudar os irmãos especialmente na formação inicial e ter um olhar aberto sobre a vida da Igreja e da Congregação, sobretudo é necessário formar para a disponibilidade. O que significa, em geral, formar para a obediência como disponibilidade e, em especial, para a disponibilidade missionária; tal tarefa cabe aos Inspetores, formadores e delegados inspetoriais para a animação missionária em sinergia com o setor para as missões da Congregação. Padre Alberto Caviglia costumava falar do grande desenvolvimento da Congregação que cresceu com a disponibilidade do “eu vou”, que ele considerava o “lema salesiano”. O desenvolvimento missionário devia-se à disponibilidade dos irmãos.

Quando Dom Bosco redigiu as Constituições Salesianas, colocou a obediência como o primeiro dos conselhos evangélicos, superando a ordem tradicional que previa primeiramente a pobreza, depois a castidade e em seguida a obediência. Após a promulgação do Código de Direito Canônico de 1917, a ordem tradicional foi inserida em nossas Constituições. O Vaticano II, depois, deu o primeiro lugar à castidade e pediu aos Institutos religioso que renovassem as Constituições. Para essa tarefa de revisão, o Código de Direito Canônico de 1983 indicou que o “a mente e os objetivos dos fundadores... no que se refere à natureza, à finalidade, ao espírito e à índole do instituto, bem como suas sãs tradições, tudo isso constitui o patrimônio desse instituto e seja fielmente conservado por todos”.[2] Por isso, o CG22 colocou de novo a obediência em primeiro lugar na edição definitiva das Constituições.

Dom Bosco via a obediência religiosa como disponibilidade a Deus para a missão, e como prontidão para fazer qualquer coisa que fosse em qualquer lugar em que houvesse necessidade. Certa vez, enrolando o lenço como uma bola, passava-o de uma à outra mão, enquanto os jovens silenciosos observavam aquele movimento, até que disse de repente: “Oh, se pudesse ter comigo doze jovens dos quais eu pudesse dispor como disponho deste lenço, gostaria de difundir o nome de Jesus Cristo não só em toda a Europa, mas além, fora dos seus limites, nas terras distantes”.[3]

Comenta o P. Vecchi: “Nasceu na Congregação, quase como resposta a esse convite, a tradição que encoraja os irmãos, que se sentem chamados, a fazer ao Reitor-Mor uma oferta especial de disponibilidade para as missões ad gentes. Ela, superando todas as fronteiras geográficas, ‘os torna prontos em seu espírito para pregar o Evangelho onde quer que seja’ e dá à obediência salesiana uma dimensão especial de totalidade e mundialidade... própria da nossa tradição”.[4] Tornamo-nos, dessa forma, uma Congregação mundial.

“A dimensão missionária”, afirma o atual Sucessor de Dom Bosco, “faz parte da nossa identidade”.[5] E continua: “Nós Salesianos de Dom Bosco, embora tenhamos uma organização jurídica que se concretiza nas Inspetorias, não fazemos profissão religiosa para um determinado lugar, uma terra ou uma pertença. Somos Salesianos de Dom Bosco na Congregação e para a Missão, aonde haja necessidade de nós e aonde o nosso serviço seja possível”.[6]

Quando Dom Bosco estava para iniciar as missões da América em 1875, ele convidou os Salesianos a oferecer-se livremente. Hoje, o chamado de Deus à missão da Congregação chega aos irmãos através dos Capítulos Gerais: o CG21 deu início ao Projeto África e o CG26, ao Projeto Europa. Os Reitores-Mores, em seguida, repetidamente, dirigiram convites missionários aos irmãos indicando algumas prioridades. Também o atual Reitor-Mor, em sua primeira carta à Congregação fez um apelo aos irmãos, indicando algumas zonas missionárias que se encontram carentes; em seguida, ele renova o seu apelo todos os anos na festa da Imaculada.

As vocações missionárias são dom de Deus, mas precisam ser invocadas na oração, suscitadas nos irmãos, acompanhadas no seu crescimento; requerem discernimento e nascem onde há clima de disponibilidade. Não pareça, por isso, fora de lugar, afundar as raízes da vocação missionária numa vida vivida como obediência a Deus, como escuta das necessidades da Igreja, da Congregação, dos jovens pobres, como discernimento e resposta. A obediência não é só disponibilidade às solicitações de um Superior, mas é, sobretudo, a oferta generosa e disponível de si.

3. Redistribuição global dos irmãos

Segundo o CG27, um segundo caminho para favorecer o surgimento de comunidades internacionais consiste na redistribuição global dos irmãos. Esse caminho é mais difícil de realizar; enquanto o primeiro caminho descrito acima baseia-se na disponibilidade de irmãos que se oferecem espontaneamente, o segundo requer a intervenção de um Superior que, vendo as necessidades, pede a um irmão a disponibilidade ao menos temporária para ir a uma Inspetoria carente.

A questão de uma distribuição adequada dos presbíteros é muito viva na Igreja. Por exemplo, em Malta há 1 sacerdote para 337 habitantes; em Cuba, 1 sacerdote para 20 mil fiéis; em algumas dioceses do nordeste do Brasil há 1 sacerdote para 35 mil fiéis e até 1 para 45 mil. São casos-limites, todavia se sabe que os países da América Latina, onde residem 43% dos católicos do mundo, têm apenas 13% do total mundial dos sacerdotes; enquanto os países da Europa e da América do Norte, com menos de 39% dos católicos do mundo, têm mais de 73% do total dos sacerdotes. Estes números são muito eloquentes sobre o desequilíbrio entre o norte e o sul da Igreja. Assim iluminados, compreende-se a preocupação do Vaticano e dos Papas em estimular uma distribuição mais justa do clero entre as dioceses do mundo, também mediante a solicitação às Congregações religiosas a se empenharem em novas fronteiras ou dioceses enviando temporariamente presbíteros “fidei donum”.

Voltando agora à vida da Congregação, deve-se favorecer certamente as vocações missionárias “ad vitam”, mas também são uma ajuda válida as transferências temporárias de irmãos entre Inspetorias. Essas transferências poderiam ter duração trienal – quinquenal; e ainda poderiam levar ao amadurecimento de vocações missionárias “ad vitam”. Isso requer nas Inspetorias e nos irmãos uma visão mais ampla do bem-comum, o amadurecimento do senso de solidariedade e também a consideração da vantagem recíproca no favorecimento à disponibilidade missionária.

Em sua primeira carta aos irmãos o Reitor-Mor P. Ángel manifestou a convicção de que “uma grande riqueza da nossa Congregação é justamente a sua capacidade missionária”.[7] Recordou que as diferenças e o multiculturalismo são uma riqueza, a identidade do carisma salesiano não é monocrômica e é preciso preparar irmãos com visão global. Por isso, pediu o intercâmbio entre Inspetorias recomendando, além da oferta “ad vitam”, a disponibilidade temporária de irmãos às Inspetorias carentes.[8] Orientou, também, a não impedir os jovens irmãos de estudarem fora da Inspetoria e oferecer, especialmente aos formadores, a oportunidade de frequentarem centros internacionais de estudo e fazerem uma experiência missionária.

Pode haver nas Inspetorias irmãos que precisam de renovação espiritual e pastoral de tipo experiencial que pode ser, possivelmente, o que o Papa Francisco chama de “saída para as periferias”. O nosso Capítulo Geral Especial já considerara o relançamento missionário como “um termômetro da vitalidade pastoral da Congregação e um meio eficaz contra o perigo do aburguesamento”.[9] E o P. Viganò ao lançar o Projeto África em 1980 escrevera uma carta em que dizia: “As missões libertam-nos da tendência a uma vida cômoda e fácil, da superficialidade nas coisas espirituais e do genericismo”.

A fim de concretizar na Congregação uma redistribuição global dos irmãos será necessário o crescimento de uma mentalidade solidária entre os Inspetores e também a intervenção do Reitor-Mor e dos Conselheiros Gerais para favorecer os envios temporários.

4. Experiência intercultural como profecia de fraternidade

Há na Congregação diversas tipologias de comunidades internacionais: comunidades de missão “ad gentes”, de ação apostólica entre migrantes, de serviços mundiais, de formação e estudo. As comunidades internacionais e multiculturais oferecem a possibilidade de testemunho da profecia da fraternidade mediante a experiência intercultural.

Os irmãos, embora provenientes de diversos países, reconhecem-se como irmãos em Dom Bosco; a comunhão entre eles fundamenta-se nos vínculos da profissão religiosa e do carisma salesiano. Criando relações de estima e amizade, com paciência e humildade interagem sempre mais e crescem na aceitação e afeto recíprocos. Consideram progressivamente as diferenças de cultura, sensibilidade e modos de ver, não como obstáculo às boas relações, mas como enriquecimento. Isso requer a capacidade de relativizar o próprio modo de ver e construir a comunhão sobre elementos de unidade; dessa forma, todos são transformados pelas experiências alheias e crescem na entrega recíproca.

A fraternidade vivida na comunidade, e especialmente numa comunidade internacional, é a missão primeira e fundamental. Quando os jovens e os leigos veem que nós, embora vindos de vários países e culturas, superamos nossas diferenças, trabalhamos em espírito de compreensão e ajuda recíproca, dedicando-nos à missão juvenil, todo isso se torna estímulo e inspiração para suas vidas. A fraternidade torna-se, então, profecia da Igreja comunhão e serviço. A Exortação apostólica “Vita consecreta” pede que as pessoas consagradas sejam especialistas de comunhão e vivam a sua espiritualidade. A comunhão é um sinal para o mundo e uma força de atração que leva a crer em Cristo. Dessa forma, a comunhão abre-se à missão, torna-se ela mesma missão.[10]

Para constituir comunidades internacionais nas Inspetorias é preciso disponibilidade para a acolhida de missionários, permanentes ou temporários, e o envio de irmãos a outras culturas. É necessária também uma ação de discernimento da parte dos Inspetores de modo que nas comunidades estejam presentes irmãos de várias proveniências, etnias e culturas e sejam garantidas a riqueza e a variedade das diferenças; de outra parte, não é fácil construir a fraternidade em comunidades internacionais, se os irmãos não forem formados ao menos para a abertura à experiência intercultural. Vê-se também como necessário que cada irmão, além da própria língua, aprenda outra língua internacional. As Inspetorias deveriam oferecer essa oportunidade de aprendizagem especialmente aos irmãos jovens.

5. Conclusões operativas

Oferecem-se como conclusão, a título de exemplo, algumas orientações operativas. Com a contribuição de todos poderemos encontrar outras opções concretas neste âmbito tão prometedor das comunidades internacionais e interculturais.

Cabe aos Inspetores configurar as comunidades salesianas com irmãos pertencentes a diversas nacionalidades, culturas, línguas e grupos étnicos. Isso favorece a experiência intercultural que é sinal da profecia da fraternidade; isso responde também às exigências da missão juvenil sobretudo no caso das migrações. A acolhida nas comunidades educativo-pastorais de jovens e voluntários provenientes de outras culturas e nações também ajuda a dar um rosto internacional às comunidades.

As Inspetorias são convidadas a enviar irmãos às comunidades formadoras e aos centros internacionais de estudo da Congregação como Roma Gerini, Jerusalém, Roma Testaccio, Universidade Salesiana, Universidades Pontifícias Romanas. Os ambientes internacionais favorecem a abertura da mente, o conhecimento de outras culturas, o cotejo com diversas experiências salesianas e eclesiais, o estudo do italiano. Essa experiência internacional é importante particularmente para a formação dos formadores das comunidades formadoras e dos professores dos centros salesianos de estudo.

É útil para as Inspetorias programar experiências missionárias, por exemplo, durante as férias, especialmente para jovens irmãos, formadores e professores de centros de estudo. Também o estudo de uma língua internacional, além da própria, precisa de programação e não pode ser deixado à improvisação; trata-se de um aprendizado a oferecer aos jovens irmãos e aos formadores da comunidade e dos centros internacionais de estudo. O estudo do italiano é particularmente necessário quando se trata de comunidades mundiais postas ao serviço da Congregação.

Cabe aos Inspetores, aos delegados inspetoriais da animação missionária e aos formadores favorecer especialmente nos jovens irmãos o discernimento sobre a vocação missionária “ad vitam” e, depois, o envio de missionários disponíveis ao Reitor-Mor. É também importante para as Inspetorias estarem disponíveis para acolher e acompanhar missionários em situações particulares, como o Projeto Europa ou em contextos específicos de migração. Deve-se igualmente cuidar das missões ou das capelanias para estrangeiros que requerem atenção para a inserção nos projetos e nas comunidades das Inspetorias.

Entre as Inspetorias, também com a ajuda dos Conselheiros Gerais, sejam favorecidas as transferências temporárias de irmãos às Inspetorias pobres de pessoal e carentes de ajuda ou às comunidades formadoras. Essas transferências devem ser regulamentadas por oportunos convênios.

 

[1] CG27, 75.5.

[2] Can. 578.

[3] MB IV, p. 424. Cf. também III, p. 546; VI, p. 11; XIII, p. 210.

[4] J. VECCHI, ‘Eis-me aqui! Venho para fazer a tua vontade’, in ACG 375, p. 37.

[5] A. FERNANDEZ, Pertencer mais a Deus, mais aos irmãos, mais aos jovens, in ACG 419, 2014, p. 23.

[6] Oc. cit. p. 25-26.

[7] A. FERNANDEZ, Pertencer mais a Deus, …, p. 24.

[8] Cf. ibid., p. 25.

[9] CGE n. 296.

[10] Cf. Vita Consecrata, 46