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Atos do Capitulo Geral 27, ACG 418

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ÍNDICE DOS ATOS DO CG27

atos

do  Conselho Geral

da Sociedade Salesiana

de São João Bosco

Órgão oficial de animação e comunicação para a congregação SaleSiana

Nº 418 ano XCV maio 2014

“TESTEMUNHAS DA RADICALIDADE EVANGÉLICA” Trabalho e temperança

DOCUMENTOS DO CAPÍTULO GERAL XXVII

DA SOCIEDADE DE SÃO FRANCISCO DE SALES

Roma, 22 de fevereiro - 12 de abril de 2014

Tradução: Pe. José Antenor Velho

Impressão: Gráfica Salesiana, São Paulo-SP

EDITORA DOM BOSCO

SHCS CR - Quadra 506 - Bloco B Salas 65/66 - Asa Sul

70350-525 Brasília (DF) atendimento@edbbrasil.org.br www.edbbrasil.org.br

 

APRESENTAÇÃO

Caríssimos Irmãos,

o CG27, como já aconteceu no Capítulo Geral anterior, foi concluído no dia 12 de abril. Esta data é, para nós, particularmente cara, porque nos recorda o início da obra de Dom Bosco em turim Valdocco. 12 de abril de 1846, de fato, era dia de Páscoa, quando Dom Bosco pôde estabelecer-se num lugar “todo seu” para poder acolher os jovens. Recordando aquele dia, agora na iminência do bicentenário do seu nascimento, preparamo-nos como Congregação para um novo início, percorrendo o caminho traçado pelo Capítulo Geral.

todo Capítulo Geral apresenta um momento de preparação, que começa com a publicação da carta de convocação do Reitor-Mor e culmina com a realização dos capítulos inspetoriais; um momento de celebração, que é constituído por aquilo que a assembleia capitular viveu desde o dia do seu início até a sua conclusão; um momento de aplicação, que se abre a partir do final da celebração capitular e vai até o início do próximo Capítulo Geral. Com a publicação dos Atos do CG27, que agora vos apresento, abre-se a terceira fase capitular, a aplicativa.

Os Atos do CG27 subdividem-se em três partes fundamentais: o texto do desenvolvimento do tema “testemunhas da radicalidade evangélica”, as deliberações e os anexos. Estas partes são todas importantes e contribuem para compreender o evento capitular e o seu espírito. Acrescentam-se a estas partes a minha apresentação e o índice analítico sobre o desenvolvimento do tema. Não se deve esquecer que estes Atos encontram na carta de convocação do Capítulo, escrita pelo Reitor-Mor emérito P. Pascual Chávez, algumas linhas que podem

ajudar para uma melhor interpretação do mesmo evento capitular.

 

Testemunhas da radicalidade evangélica

O tema fundamental do CG27 é “testemunhas da radicalidade evangélica. trabalho e temperança”. indico-vos agora alguns relevos a respeito deste tema; outros aspectos importantes já estão presentes na introdução, como, por exemplo, o ícone bíblico da videira e dos ramos.

Conversão

O tema capitular é fascinante e prometedor para o futuro da Congregação,  mas,  ao  mesmo  tempo,  é  muito  empenhativo.  Ele pede-nos um caminho de conversão, que não podemos programar; podemos desejar que ela aconteça, mas não é acertado que se realize. A conversão é obra do Espírito que muda a nossa mente, o nosso coração e a nossa vida; a cada um de nós e a cada comunidade cabe a responsabilidade de viver, atentos e disponíveis, àquilo que o Espírito nos sugere; cabe-nos a tarefa de encontrar as condições que possam favorecer a conversão espiritual, fraterna e pastoral. A conversão é a meta indicada a todos nós pelo CG27, uma conversão que é ao mesmo tempo pessoal e comunitária.

Discernimento

Depois da experiência do CG25 e do CG26 chegamos a uma metodologia de discernimento que me parece melhor definida. Ela utiliza três expressões novas, mais coerentes com a ação do Espírito: escuta, leitura e caminho. Durante o Capítulo, foi uma metodologia difícil de compreender, especialmente na parte relativa à leitura, mas, afinal, parece-me que ela foi acolhida e aplicada. Esta metodologia inspira-se  naquela  muito  utilizada pela  igreja  na América  Latina e reafirmada na última Conferência Geral do Episcopado Latino-

-americano em Aparecida.1 Se assumida, poderá dar bons frutos para a

1 Cf. Documento de Aparecida, 19.

vida dos irmãos, das comunidades e das inspetorias; o discernimento é o caminho que hoje o Espírito nos indica para encontrar a vontade de Deus.

O ponto de partida pede-nos para nos colocarmos à escuta da vida, das situações, das expectativas das pessoas. Deus fala-nos através da vida, das pessoas que coloca ao nosso lado e dos acontecimentos da história. A escuta leva-nos a sair de nós mesmos, a contemplar a realidade, a deixar-nos interpelar por ela, a superar a autorreferência, para perceber o que é novo e desafiador na vida dos jovens e das famílias, da igreja e da Congregação, da cultura e do mundo. trata-se de uma escuta contemplativa que nos faz não só “escutar” a realidade, mas ajuda-nos a “vê-la”, contemplá-la à luz da Providência de Deus; é a escuta de fé feita enquanto crentes.

O segundo passo também é empenhativo: a leitura. É preciso interpretar os fatos e as situações, para compreendê-los melhor e individuar as suas causas. Não se pode parar nos sintomas, é preciso ir às raízes das situações. trata-se de uma leitura crente da realidade, que se baseia no evangelho e no carisma, que assume critérios vindos da fé e da razão e, portanto, faz um verdadeiro discernimento comunitário. Às vezes, pode acontecer o conflito das interpretações; é necessário, por isso, chegar a uma leitura compartilhada. O convite é de julgar a realidade segundo jesus Cristo, caminho, verdade e vida.

O caminho, enfim, propõe um itinerário a seguir, indicando um objetivo para o qual se orientar, os processos que individuam algumas situações de partida e os pontos para os quais tender, alguns passos que entendem dar concretude ao caminho nos próximos anos.

Os  três  momentos  formam  um  conjunto  inseparável;  eles são diversos, mas entrelaçados. Não devemos esquecer que se trata do discernimento para conhecer a vontade de Deus e colocá-la em prática. “A adesão crente, alegre e confiante no Deus Pai, Filho e Espírito Santo e a inserção eclesial na igreja [e na Congregação] são pressupostos indispensáveis que garantem a eficácia deste método”.2

2 Cf. Documento de Aparecida, 19.

Vocação e graça de unidade

Os elementos fundamentais que percorrem o documento capitular sobre o testemunho da radicalidade evangélica são a realidade da vocação e da graça de unidade. trata-se de realidades teológicas e teologais a assumir vitalmente.

O testemunho do evangelho vivido radicalmente é um chamado de Deus e não só uma decisão nossa. Como dom da vida consagrada salesiana, que Deus fez a cada um de nós, somos chamados a ser testemunhas do evangelho. O perfil do salesiano que devemos assumir torna-se, pois, o de alguém que é “chamado a ser místico no espírito, profeta da fraternidade e servo dos jovens”. O testemunho é antes de tudo um dom vocacional e, por isso, tarefa e responsabilidade. Brota daqui a importância de colocar o reconhecimento e a gratidão pelo dom da vocação como fundamento do nosso testemunho; sem este fundamento, o testemunho será frágil.

O dom gratuito de Deus e a nossa resposta cooperante entrelaçam-se numa relação de reciprocidade. Eis a graça de unidade, eis o primado de Deus em nossa vida. Eles são dom do Espírito para cada um de nós. Nas realidades em que nos encontramos com as nossas fragilidades pessoais e comunitárias, nas diversas dificuldades do contexto cultural e social e da missão, a graça de unidade é o caminho para responder com generosidade e sermos nós mesmos: salesianos consagrados, irmãos a serviço dos jovens. Acolhendo este dom encontraremos um traço característico da nossa espiritualidade que é a união com Deus; ela favorece a unificação da vida: oração e trabalho, ação e contemplação, reflexão e apostolado. Aqui encontraremos o êxtase da ação. O testemunho a que somos chamados não se refere a aspectos parciais da nossa vida; se quiser ser autêntica, deve ser totalizante.

Trabalho e temperança

Viver a radicalidade na sequela do Senhor não pode ser imposto, não é uma ordem, mas expressão do amor a jesus, a quem devemos estar vitalmente unidos; por essa razão, o documento capitular escolhe o ícone da videira e dos ramos.

trabalho e temperança constituem o modo salesiano de viver a radicalidade evangélica. Eles são o nosso distintivo e a nossa característica. São, para nós, duas realidades inseparáveis: “O trabalho é a visibilidade da mística salesiana e a expressão da paixão pelas almas, enquanto a temperança é a visibilidade da ascética salesiana e a expressão do ‘cetera tolle’” (ACG 413, p. 39). Não há mística sem ascética e vice-versa; não há trabalho sem temperança e não há temperança sem trabalho; isto também é graça de unidade.

O “da mihi animas” exprime-se visivelmente na vida do salesiano e da comunidade através do trabalho apostólico incansável, apaixonado e santificado; o “cetera tolle” exprime-se na temperança que é a renúncia, o sacrifício e o preço que estamos dispostos a pagar pelas almas. trabalho  e temperança unificam-se e sintetizam-se no dom total de si a Deus pelos jovens. Eles são um critério vocacional de discernimento e de formação. tudo isso nos leva ao que diz o artigo

18 das nossas Constituições.

Deliberações

As 19 deliberações capitulares dizem respeito às Constituições, aos Regulamentos gerais e à vida da Congregação. Em geral, elas referem-se às estruturas do governo central da Congregação, mas também têm um reflexo na vida dos irmãos, comunidades e inspetorias. todas as deliberações devem ser, portanto, estudadas também pelas consequências operativas que têm em todos os níveis. A título de exemplo, apresento algumas delas.

A deliberação que confia a Família Salesiana a um Secretariado geral diretamente dependente do Reitor-Mor, não comporta apenas uma mudança na organização e na outorga das atribuições, mas ajuda também a realizar uma mudança de mentalidade sobre o modo de a

nossa Congregação compreender e animar a Família Salesiana.3

3 Cf. Deliberação 4.

tomou-se  depois uma deliberação a respeito da modalidade de eleição dos Conselheiros de setor. Ela introduziu um critério importante para a designação de um irmão para um trabalho específico: é necessário conhecer previamente os nomes dos candidatos sobre os quais exercer o discernimento antes de uma votação e, ao mesmo tempo, ativar um processo transparente e comunitário para fazer emergir os candidatos. O mesmo critério poderá ser utilizado também para as nomeações dos irmãos ou dos leigos.4

Outra deliberação pede ao Reitor-Mor para criar uma comissão econômica central com atribuições de estudo, consultoria e controle. isso estimula a necessidade de monitorar a economia em todos os níveis de modo colegiado, ativar processos transparentes nas decisões e servir-se de competências profissionais.5

Um último exemplo de deliberação refere-se à responsabilidade da busca de pessoal para os lugares salesianos, que é confiada ao Reitor-Mor e ao seu Conselho. isso exige um maior envolvimento das inspetorias, chamadas a oferecer com generosidade irmãos competentes e disponíveis para serviços que se referem a toda a Congregação; isso também vale para as demais necessidades da Congregação.6

Anexos

A terceira parte dos Atos do CG27 apresenta alguns discursos importantes. Eles não são oferecidos, primeiramente, como documen- tação; eles são apresentados, sobretudo, para o estudo e a reflexão, porque contêm elementos importantes de compreensão das opções capitulares. Constituem o horizonte interpretativo das nossas ações.

Com a publicação dos Atos do CG27, temos, agora, uma referência para a qual olhar juntos; dessa forma, é-nos indicada a

4 Cf. Deliberação 9.

5 Cf. Deliberação 15.

6 Cf. Deliberação 17.

mesma direção do itinerário. A Assembleia capitular empenhou-se em oferecer textos essenciais. Cabe agora a todos – irmãos, comunidades e inspetorias – a tarefa de estudar e aprofundar estes documentos com mente aberta e coração disponível. Só conhecendo, estudando e compreendendo o que nos é oferecido, poderemos caminhar juntos e dar frutos abundantes.

Confiamos o caminho pós-capitular a Maria Auxiliadora, a quem invocamos como modelo de radicalidade evangélica. Ela é a Mulher da escuta, a Mãe da comunidade nova, a serva dos pobres. Ela ensine-nos a viver disponíveis ao Espírito; Ela guie-nos em nosso caminho  de  renovação e  de conversão.  Caminhemos  juntos  com

Maria!

Roma, 24 de maio de 2014.

Solenidade de Maria Auxiliadora

P. Ángel Fernández Artime

Reitor-Mor

 

“TESTEMUNHAS DA RADICALIDADE EVANGÉLICA”

Trabalho e temperança

 

INTRODUÇÃO

1

"A videira e os ramos" Antigo ícone- Grécia: séc. XV-XVII

 

SIGNIFICADO DO ÍCONE

Chama a atenção neste ícone, o entrelaçamento dos ramos que descreve o tronco da videira. Ele refere-se à metáfora evangélica “Eu sou a videira” e indica a solidez e a força da pessoa de Jesus para aqueles que por Ele são chamados e enviados. A figura do Cristo forma uma só coisa com a raiz da videira: seu rosto benévolo e reflexivo e seu duplo gesto de bênção aproximam-no da iconografia do Pantocrator. Contudo, neste contexto a ‘bênção’ do Senhor assume duplo valor eclesial: indica tanto o amparo e a proteção quanto uma espécie de

‘mandato’. Aquele que é o Mestre ampara os seus na comunhão, mas para enviá-los a anunciar o Reino.

Antes de tudo, esta vigorosa ligação com o Senhor floresce abundantemente. É o florescer da Igreja, e os frutos bem visíveis são o

‘colégio apostólico’. Este grupo é o ‘protótipo’ de todos os discípulos-

-apóstolos: assim como o Filho mantém a Palavra junto de si, cada personagem é apresentado com o texto a ele atribuído no Novo Testamento. Este também é o florescer da Congregação e da Família Salesiana.

Interessa notar ainda certa semelhança iconográfica entre os Doze e o Mestre, semelhança que não anula as diferenças e os traços fisionômicos característicos: jovens, adultos e anciãos. A relação de escuta e obediência a Cristo modela realmente a personalidade do discípulo sem alterá-la: só assumindo o ‘perfil’ do Mestre o discípulo torna-se capaz de escrever a riqueza do Evangelho com a sua vida.

Enfim, deve-se evidenciar que a relação fecunda dos discípulos com Jesus não permanece fechada em si mesma, mas dá equilíbrio à comunidade dos homens: note-se a expansão harmoniosa da videira por todo o quadro; esta relação torna-se expressão do serviço de

caridade que somos chamados a oferecer aos jovens.

Viver a “radicalidade evangélica” é o tema do CG27 convocado pelo Reitor-Mor P. Pascual Chávez, como “conclusão aberta” de um itinerário que, a partir das Constituições renovadas (1984), continuou até hoje visando acolher os grandes apelos do Concílio Vaticano ii, na escuta da voz do Espírito com referência especial à vida consagrada.

Os quatro últimos Capítulos Gerais concentraram a atenção nos destinatários da nossa missão (CG23), na participação, comunhão e corresponsabilidade de salesianos e leigos na única missão (CG24), na comunidade (CG25) e na espiritualidade salesiana (CG26). O CG27, em continuidade com os anteriores, evidencia o enraizamento evangélico da nossa consagração apostólica.

Os três núcleos (“místicos no Espírito”, “profetas da fraternidade”, “servos dos jovens”), sobre os quais refletimos e dos quais extraímos o itinerário para o próximo sexênio, constituem o único e tríplice dinamismo da “graça de unidade”, dom e tarefa para as nossas comunidades e para cada um de nós.

A experiência capitular foi um convite contínuo a escutar intensamente e ler em profundidade a nossa vida, para individuar linhas de abertura para a nossa Congregação. O Documento capitular pretende ser o seu reflexo, quase uma “onda de retorno” e uma entrega às comunidades locais e inspetoriais.

A videira e os ramos

O livro dos Evangelhos acompanhou com humildade e esplendor a experiência capitular. Diariamente, na sala da assembleia a Palavra do Senhor foi proclamada nas diversas línguas e solenemente entronizada.

Solicitados por  esta  escuta cotidiana, sentimo-nos particularmente interpelados pelo texto evangélico da “videira e dos ramos” (jo 15,1-11), ícone do tema e síntese dos trabalhos capitulares. Sua mensagem central remete ao vivermos profundamente unidos, “enraizados”, portanto, no amor a jesus, como aconteceu com Dom Bosco, que viveu a existência em profunda unidade, ao redor da pessoa do Filho de Deus, produzindo “muito fruto”.

Permanecer, amar, produzir fruto são, portanto, os três verbos que iluminam intensamente os núcleos do CG27. jesus permanece conosco e convida cada um de nós a permanecer n’Ele, para aprender o amor fraterno e servir com fruto os jovens a nós confiados. Neste amor fiel, experimentamos continuamente a proximidade do Pai, graças à escuta da palavra de jesus.

No amor, que se traduz no dom de si aos irmãos, está a plena realização da existência, tanto do indivíduo como da comunidade. E o amor que aprendemos de jesus, permanecendo unidos a Ele como o ramo à videira, é fecundo, sempre produz fruto.

A graça de unidade

A preparação das comunidades locais e inspetoriais e a experiência capitular ajudaram-nos a redescobrir a identidade salesiana segundo quatro ângulos, indicados na carta de convocação do CG27: “Viver na graça de unidade e na alegria a vocação consagrada salesiana, que é dom de Deus e projeto pessoal de vida; fazer uma intensa experiência espiritual, assumindo o modo de ser e agir de jesus obediente, pobre e casto, e sendo buscadores de Deus; construir a fraternidade nas nossas comunidades de vida e ação; dedicar-nos generosamente à missão, caminhando com os jovens para dar esperança ao mundo” (ACG 413, p. 5).

Os três núcleos – místicos no Espírito, profetas de fraternidade, servos dos jovens – não devem ser considerados independentes ou separados, mas compreendidos na “graça de unidade”: um único dinamismo de amor entre o Senhor que chama e o discípulo que responde (cf. Const. 23). trata-se da única e multiforme graça de Deus que se expande envolvendo pessoas, situações e recursos e gera um movimento de bondade, beleza e verdade.

Para corresponder à “graça de unidade” exige-se conversão

autêntica à radicalidade evangélica, transformação contínua da mente e do coração, purificação profunda. Este é o desafio a enfrentar com audácia e coragem e o processo a ativar para regenerar a nós mesmos, as comunidades educativo-pastorais e os jovens.

joão Paulo ii afirmava: “A vida espiritual deve ocupar o primeiro lugar [...]. Desta opção prioritária, desenvolvida no compromisso pessoal e comunitário, depende a fecundidade apostólica, a generosidade no amor pelos pobres, a própria atração vocacional sobre as novas gerações”.1

A referência às raízes, à profundidade do coração, deixa entrever, aos que estão ao nosso lado e nos observam as motivações da nossa entrega a Deus e aos jovens, o sentido último da nossa vida neste mundo. trata-se da realidade mais verdadeira e profunda que orienta a nossa existência.

Bastará contemplar jesus, Mestre e Senhor, para entrever n’Ele o Filho de Deus que, na encarnação, uniu-se a cada ser humano.2

Bastará contemplar Dom Bosco para perceber que nele transparece “uma esplêndida harmonia de natureza e graça [...] num projeto de vida fortemente unitário: o serviço dos jovens” (Const. 21).

O Papa Francisco também no-lo recordou na audiência de 31 de março: “imagino que durante o Capítulo [...] tivestes sempre diante de vós Dom Bosco e os jovens; e Dom Bosco com o seu lema: ‘Da mihi animas, cetera tolle’. Ele reforçava este programa com outros dois elementos: trabalho e temperança. Eu recordo que no colégio era vedado fazer a sesta!... Temperança! Aos salesianos e a nós! ‘O trabalho e a temperança – dizia – farão florescer a Congregação’. Quando se pensa em trabalhar pelo bem das almas, supera-se a tentação da mundanidade espiritual, não se buscam outras coisas, mas só a Deus e o seu Reino. temperança é, também, senso de medida, contentar-se, ser simples. A pobreza de Dom Bosco e de mamãe Margarida inspire em cada salesiano e em cada uma de vossas comunidades uma vida essencial e austera, próxima dos pobres, transparência e responsabilidade na gestão dos bens”.

Contemplação e ação, prática dos conselhos evangélicos, comunidade fraterna e missão apostólica são assim relacionadas com o “único movimento de caridade para com Deus e para com os irmãos” (Const. 3). Neste sentido “o trabalho é a visibilidade da mística salesiana e a expressão da paixão pelas almas, enquanto a

1 João Paulo II, Vita Consecrata, 93.

2 Cf. ConCílIo VatICano II, Gaudium et Spes, 22.

temperança é a visibilidade da ascética salesiana e a expressão do

cetera tolle’”.3

“O testemunho desta santidade, que se realiza na missão salesiana, revela  o  valor  único  das  bem-aventuranças e  é  o  dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens” (Const. 25). A santidade consiste para nós na “graça de unidade”, na humanidade plenamente realizada, na harmonia do que há em nós e ao nosso redor de “verdadeiro, digno de respeito ou justo, puro, amável ou honroso”, em tudo “o que é virtude ou louvável...” (Fl 4,8).

Ponto de chegada e ponto de partida

O CG27 adotou a metodologia do discernimento comunitário ritmada em três momentos, relacionados e consequenciais entre si: escuta, leitura, caminho.

No  primeiro  momento,  colocamo-nos  em  atitude  de  escuta para captar a situação em seus múltiplos e importantes aspectos: os mais positivos e prometedores e os mais críticos que, de algum modo, nos desafiam e interpelam. Dar atenção aos sinais e às expressões de radicalidade evangélica, já presentes em nossa vida e no momento histórico que estamos a viver, permitiu-nos distinguir as expressões de fidelidade e de testemunho daquelas de incoerência e de conformismo.

A partir da escuta da realidade, procuramos ler, interpretar e iluminar a situação, os sinais e as expressões de vida, considerados anteriormente, tentando ir às causas que os originam e colher os desafios provocados por eles, indo além da superfície e do aparente. As chaves interpretativas foram oferecidas pelo Evangelho, pela vida e pelo ensinamento da igreja, pela experiência carismática de Dom Bosco, pelas Constituições e pelos apelos que nos vêm dos jovens. tendo presente esta perspectiva, foi possível explorar a raiz profunda da nossa identidade de discípulos e apóstolos.

O terceiro passo, recolhendo os resultados dos dois primeiros, permitiu-nos delinear o caminho a percorrer, consolidando o que

3 ACG 413, p. 39; cf. Const. 18.

foi considerado  como  positivo,  individuando  novas  expressões de radicalidade evangélica e superando formas de infidelidade, fragilidade e risco, para transformar a nossa vida. O caminho propõe então um objetivo que constitui o horizonte para o qual orientar-se; prevê alguns processos que o tornam mais concreto, projetando uma possível situação de partida e o ponto para o qual tender que nos aproxima mais do objetivo. Os passos, como foram individuados, formulados e dispostos, pretendem dar concretude à caminhada da nossa Congregação nos próximos anos.

O fio condutor que une estes três momentos é expresso na redação definitiva numa frase colocada no início de cada sessão: Como Dom Bosco, em diálogo com o Senhor, caminhamos juntos movidos pelo Espírito, fazendo experiência de vida fraterna como em Valdocco, disponíveis à projetualidade e à colaboração, “em saída” para as periferias, sendo sinais proféticos a serviço dos jovens. A partir deste “mapa”, as realidades locais e inspetoriais poderão selecionar e dispor o próprio caminho, aderindo ao contexto em que vive e às múltiplas indicações vindas da experiência do CG27, do sentir da Congregação e da igreja local e universal.

Maria, modelo de radicalidade evangélica

A Maria imaculada e Auxiliadora, Mãe do “sim incondicional e radical”, entregamos a nossa adesão de fé, o nosso consenso e vontade de comunhão, o nosso trabalho apostólico entre os jovens.

Bendita és tu Maria, Mulher da Escuta,

porque viveste na busca da vontade de Deus sobre ti. E, quando te foi revelado o seu desígnio,

tiveste a coragem de acolhê-lo, abandonando o teu projeto de vida para fazer teu o do Senhor.

Mãe dos crentes,

ensina-nos a escutar Deus

e fazer nossa a Sua vontade,

a fim de que Ele possa realizar o seu desígnio para a salvação dos jovens!

Bendita és tu Maria, Mãe da comunidade nova,

que aos pés da cruz acolheste,

como teu filho, o discípulo amado por jesus e ajudaste o nascimento da igreja,

novo Corpo do teu Filho,

realidade mística de irmãos unidos pela fé e pelo amor. Acompanhaste a vida e a oração dos apóstolos,

invocando no cenáculo a efusão do Espírito do Ressuscitado.

Mãe dos irmãos do teu Filho, ensina-nos a formar comunidades

que sejam um só coração e uma só alma.

A nossa comunhão, a nossa fraternidade e a nossa alegria sejam testemunho vivo

da beleza da fé e da nossa vocação salesiana.

Bendita és tu Maria, Serva dos pobres, porque te colocaste prontamente em caminho, para servir uma mãe necessitada,

e te fizeste presente em Caná, compartilhando as alegrias e as tristezas de um jovem casal de esposos.

Não olhaste para tuas exigências, mas para as necessidades deles

e indicaste o teu Filho jesus

como o Senhor que pode dar à humanidade

o vinho novo da paz e da alegria no Espírito.

Mãe dos servos, ensina-nos a sair de nós mesmos, para ir ao encontro do nosso próximo,

a fim de que, enquanto respondemos às suas carências, possamos oferecer jesus, o dom de Deus, o dom mais precioso!

Amém.

 

I. ESCUTA
Como Dom Bosco, em diálogo com o Senhor

1.      Reconhecemos que o momento histórico em que vivemos é um lugar de encontro com o Senhor. temos o desejo de dar, como indivíduos e como comunidade, o primado a Deus na nossa vida, provocados pela santidade salesiana e pela sede de autenticidade dos jovens. Estamos muito cientes de que só o encontro pessoal com Deus, mediante a Sua Palavra, os Sacramentos e o próximo, torna-nos significativos e testemunhas autênticas na igreja e na sociedade. O desejo de Deus, que sentimos presente em nós, está vivo nos jovens e nos leigos: nós os vemos sensíveis aos valores da vida expressos na simplicidade, na austeridade e nas relações autênticas entre as pessoas. Os jovens, em particular, buscam adultos significativos que os acompanhem e façam amadurecer a sua vida.

2.      trabalhamos  em  diversos  contextos culturais nos  quais,  de maneiras variadas, se manifesta o sentido de Deus. O desejo de ter Deus no centro da vida pode defrontar-se, às vezes, com culturas que nos podem levar ao receio de falar d’Ele para não ofender, por respeito ao outro, para proteger-nos da opinião alheia. Algumas vezes, o encontro com o Evangelho não acontece pela indisponibilidade ou indiferença dos ouvintes; outras vezes, pela nossa indolência ou falta de audácia missionária. Outras vezes, consideramos o nosso tempo apenas como um problema; o nosso conhecimento da história e das culturas atuais é parcial e superficial. Adequando-nos acriticamente às exigências e necessidades da sociedade, calamos sobre a experiência de Deus e corremos o risco de não compreender a nossa missão específica de religiosos no mundo de hoje.

3.      sinais do primado de Deus em nossa vida: a fidelidade ao Senhor através da prática dos conselhos evangélicos, o serviço aos jovens pobres, o sentido de pertença à igreja e à Congregação, o crescente conhecimento de Dom Bosco e do seu Sistema Preventivo, o simples e rico patrimônio de espiritualidade do cotidiano, caracterizado pelo espírito de família e pelas relações interpessoais positivas, a sensibilidade pelo acompanhamento e a paternidade espiritual. Percebemos, ao mesmo tempo, que nem sempre o que somos e fazemos mostra-se enraizado na fé, na esperança e na caridade, e não indica claramente que a iniciativa parte de Deus e que a Ele tudo retorna. Às vezes, a Eucaristia não é percebida e não é vivida como fonte e sustento da comunhão, e muito facilmente se deixa a oração em comum que constrói e reforça a fraternidade. São, sobretudo, os jovens e as famílias a nos interrogarem sobre as nossas raízes espirituais e as nossas motivações vocacionais, despertando em nós a identidade de consagrados e a nossa missão educativa e pastoral.

Caminhamos juntos, movidos pelo Espírito

4.       Somos agradecidos a Deus pela fidelidade de muitos irmãos e pela santidade reconhecida pela igreja a alguns membros da Família Salesiana. Entramos todos os dias em contato com adultos e jovens, com irmãos jovens e anciãos, em plena atividade ou enfermos, que testemunham o fascínio da busca de Deus, a radicalidade evangélica vivida na alegria e a paixão viva por Dom Bosco.

5.       Em geral, a nossa consagração deixa transparecer o sentido de Deus na história e na vida dos homens, nas situações de busca de sentido ou de pobreza, com a força de um testemunho que dá esperança e entusiasmo e propõe uma humanidade venturosa, tornando-se alternativa à mentalidade do mundo.4 A prática da lectio divina com a partilha comunitária da Palavra de Deus e o projeto pessoal de vida tornaram-se para não poucos irmãos um grande recurso de renovação e antídoto eficaz contra a tentação da superficialidade espiritual.

4 Cf. Evangelii Gaudium, 93-97.

6.      Nas dificuldades e nos desafios atuais, relativos ao anúncio do Evangelho, estamos mais cientes de que há uma ligação estreita entre caridade pastoral e vida espiritual, como fonte da nossa fecundidade.

7.      Notamos alguns sintomas de autorreferência que não nos deixam sair de nós mesmos para abrir-nos às exigências de Deus e irmos ao encontro dos outros: a falta de atualização, de referência a um guia espiritual estável e a formação “por conta própria”. Muitas vezes, estas formas de autossuficiência fazem-nos esquecer de que somos cooperadores de Deus e impedem-nos de fazer de Cristo o ponto referencial da nossa vida.

Fazendo experiência de vida fraterna, como em Valdocco

8.      A partir do CG25, vem crescendo o esforço de viver de forma mais autêntica a nossa vida comunitária com uma maior animação dos momentos de oração, com o esforço de aumentar a participação e com um trabalho apostólico mais qualificado e participativo. Cresceram nas comunidades os encontros sistemáticos e melhorou a sua qualidade. Sobretudo algumas opções comunitárias favorecem o encontro comum como irmãos para viver, refletir e trabalhar juntos: o dia da comunidade, a proposta formativa anual, a lectio divina e a partilha espiritual, a reflexão sobre a experiência salesiana, os momentos de festa e de distensão. As estruturas comunitárias, os ambientes e a sua localização, o estilo e os ritmos de vida exprimem a nossa visão de comunidade e permitem-nos vivê-la.

9.      Alguns influxos negativos da sociedade são também percebidos em nossas comunidades. Corremos o risco de perder os nossos modos de pensar inspirados no Evangelho para assumir as categorias negativas da cultura atual. Por exemplo, camuflamos atrás do “respeito” e da “tolerância” a nossa indiferença ou ausência de preocupação com o irmão ou tornamos públicas de modo indevido informações que nos são reservadas. O emburguesamento e o ativismo fazem ver o tempo comunitário como tempo “roubado” à “esfera pessoal” ou à missão.

10.     A vida fraterna em comunidade ressente-se particularmente de uma escassa valorização do sentido da nossa vida consagrada salesiana que se manifesta na fraca preocupação com a vocação do salesiano coadjutor, com a sua contribuição específica à comunidade e à missão salesiana, e no excessivo clericalismo manifestado muitas vezes em nossas relações comunitárias e pastorais.

11.     Constatamos que a oração e a oferta sacrificada da vida dos salesianos anciãos e enfermos são verdadeiro apostolado com e pelos jovens; eles permanecem parte “ativa” da comunidade que vive o “da mihi animas”. As comunidades, com efeito, estão se empenhando para não excluí-los da missão. Encontramos também  algumas  dificuldades para  a acolhida  e  o  cuidado dos irmãos que vivem situações de fragilidade, inquietações, senilidade e enfermidade.5

12.     Há, também, em nós e em nossas comunidades, a demanda de paternidade espiritual, numa articulada trama de dar e receber, vivida em harmonioso espírito de família. Reconhecemos que nestes anos, sobretudo na formação inicial, foram desenvolvidas propostas válidas de crescimento humano em âmbito afetivo, relacional e espiritual.

Disponíveis à projetualidade e à participação

13.     O projeto comunitário e o Projeto Educativo-Pastoral Salesiano (PEPS), em quase todas as comunidades e obras salesianas, foram redigidos com maior frequência em relação ao passado, embora ainda se registrem um conhecimento limitado e uma aceitação

5 Cf. Evangelii Gaudium, 209-210.

frágil da consciência da função essencial da Comunidade Educativo-Pastoral (CEP). Reconhecemos a importância de trabalhar de modo corresponsável, apesar da dificuldade de nos sentirmos parte ativa da CEP e de reconhecê-la como sujeito da missão. Às vezes, o nosso projeto educativo-pastoral limita-se à organização de atividades, sem uma reflexão compartilhada dos objetivos, das prioridades, dos processos e do controle dos objetivos alcançados. Permanece ainda em alguns irmãos a dificuldade para a participação da missão devido à tendência de privilegiar campos pessoais de ação.

14.    Ampliou-se nestes anos o campo de intervenção dos diretores que, além da tarefa de guias espirituais dos irmãos e animadores da CEP, são absorvidos por atividades de gestão. Por isso, os diretores nem sempre têm condição de honrar o próprio serviço, muitas  vezes  não  recebem  uma  colaboração  adequada  da parte dos irmãos e, às vezes, em nível inspetorial, não têm um acompanhamento formativo sistemático.

15.    Constatamos o maior protagonismo dos leigos, favorecido pela participação e a corresponsabilidade na comunidade educativo-

-pastoral. Superaram-se algumas dificuldades relativas ao relacionamento entre salesianos e leigos, no esforço unânime de convergir ao redor de um projeto único. Nos lugares em que se realiza esta sinergia, mediante um clima de confiança e o espírito de família e no respeito dos papéis, o ambiente torna-se propositivo e fecundo, também vocacionalmente. Em alguns contextos, a formação sistemática para os leigos ainda é frágil.

16.    Alguns  de  nós  nos deixamos  envolver  por  atividades  de gestão ou nos refugiamos em zonas de conforto, delegando aos  irmãos  tirocinantes  ou  aos  colaboradores  a  assistência e a presença entre os jovens. Muitos leigos assalariados para papéis de animação e para a assistência oferecem um serviço verdadeiramente profissional e salesiano, em comparação com outros que demonstram carências, sobretudo devido ao nosso envolvimento ineficaz nos processos de formação.

17.     Acompanhamos   nestes  anos   o   desenvolvimento   de   um sadio  protagonismo  dos  jovens,  especialmente no  interior do Movimento juvenil Salesiano (Articulação da juventude Salesiana). Esta realidade permite-nos experimentar com alegria e satisfação a verdade regeneradora do carisma salesiano: evangelizar e educar os jovens com os jovens. Percebemos sempre mais que o voluntariado ajuda os jovens a amadurecerem integralmente, também na dimensão vocacional e missionária.6

Para  que  possa  ser  uma  experiência  autêntica  do  encontro com Cristo nos pobres, falta um adequado acompanhamento espiritual e pedagógico no interior do voluntariado juvenil salesiano.

18.     Adquirimos   um   maior   conhecimento  da   importância   de acompanhar os jovens no conhecimento de jesus e no encontro com Ele. Cristo e o seu Evangelho são um direito que devemos aos  jovens. Fortificados por  esta  convicção,  aprofundamos em alguns contextos a relação inseparável entre educação e evangelização, obtendo resultados apreciáveis.

19.     Cresceu a consciência de ser Família Salesiana, graças também às colaborações positivas nas comunidades inspetoriais e locais, aos Dias de Espiritualidade Salesiana, à Estreia anual do Reitor- Mor e à Carta de identidade carismática. Algumas experiências de trabalho “em comum” a favor dos jovens fizeram-nos crescer como corpo unido e corresponsável no interior da Família Salesiana, amadurecendo a consciência de ser um único movimento carismático. também a corresponsabilidade na missão entre salesianos e outros membros da Família Salesiana, leigos e jovens, ajudaram-nos a melhorar a qualidade do nosso ministério, a alargar os horizontes e a dilatar o coração da nossa missão apostólica.

6 Cf. Evangelii Gaudium, 106.

20.    Uma  frente  apostólica  emergente,  com  que começamos  a preocupar-nos, é a pastoral familiar, não só nos contextos paroquiais e de formação dos adultos, a ser considerada em ligação estreita com a pastoral juvenil.

21.    A  formação   inicial  permanece,  às  vezes,  desligada  dos processos  pastorais.  Concluída  a  formação  específica  dos irmãos candidatos ao presbiterado e dos coadjutores, surgem dificuldades e desconfortos para uma efetiva e significativa inserção  na  pastoral e  nas  dinâmicas  da  vida  comunitária. Nem todas as comunidades que acolhem os irmãos ao final da formação inicial são dotadas de um projeto explícito que preveja formas adequadas de inserção na atividade educativo-pastoral ordinária.

Em saída para as periferias

22.    A Congregação  vai-se  orientando mais  decididamente  para os jovens pobres e em situações de risco à escuta do seu grito de ajuda. Vai crescendo entre os irmãos a sensibilidade pela cultura dos direitos humanos, especialmente dos menores, em algumas opções proféticas nas novas fronteiras e nas “periferias existenciais”.

23.    A Congregação também se empenhou a reiterar intensamente que o uso de qualquer modalidade não respeitosa dos jovens e o recurso a qualquer forma de violência são claramente contrários à pedagogia salesiana. Em todas as inspetorias foram dados ou estão sendo completados os passos necessários para organizar tanto o código ético, como estatuto da nossa cultura pedagógica preventiva, quanto o protocolo de procedimento jurídico para enfrentar eventuais casos de abuso, segundo a normativa canônica e a legislação dos Países onde trabalhamos.

24.     tomamos ciência de que há certo distanciamento entre nós e os jovens; antes que físico, ele é mental e cultural. Em alguns contextos, olhamos para as novas gerações como se elas fossem um “problema” e não uma “oportunidade”, um apelo do Senhor, um reflexo eloquente dos “sinais dos tempos” e um desafio que nos interpela.

25.     As novas tecnologias de informação e comunicação e o ambiente digital em que vivemos constituem um espaço cultural, social e pastoral para favorecer a experiência de vida, fazem parte integrante da vida cotidiana e têm um impacto no nosso modo de sentir, pensar, viver e relacionar-se. Elas permitem manter ligações e cultivar relações sadias entre irmãos e jovens, reduzir as distâncias geográficas que, diversamente, impediriam a comunicação imediata e frequente. Como salesianos, sentimos que não estamos presentes neste ambiente de modo significativo como educadores e evangelizadores.

Sendo sinais proféticos a serviço dos jovens

26.     Em  resposta  às  necessidades dos  jovens  do  nosso  tempo fizemos  grandes  esforços  para  ressignificar  e  reestruturar as presenças a fim de tornar atual a identidade carismática e garantir a fidelidade criativa ao sistema educativo de Dom Bosco. Em alguns contextos, porém, a preferência pelos jovens mais pobres não é suficientemente clara. A preocupação com o sustento econômico das estruturas tradicionais limita a nossa abertura às novas pobrezas e às inéditas emergências sociais.

27.     O povo e os jovens admiram-nos, muitas vezes, pela quantidade de trabalho que realizamos em benefício deles. Contudo, alguns de nós, subjugados pelas múltiplas atividades, experimentamos sentido de cansaço, tensão, fragmentação, ineficiência e burnout. Às vezes, somos excessivamente marcados pelo extenuante esforço de conservação e sobrevivência das obras.

Às vezes, quando nos ocupamos dos jovens, temos somente em mira o seu bem-estar social e descuidamos do acompanhamento de sua vida espiritual e de sua vocação.

28.    Diminuiu  progressivamente a  visibilidade e  credibilidade da nossa vida consagrada. Nem sempre se percebe em nós o testemunho  do  primado  de  Deus  com  a  prática  dos  votos, a sobriedade de vida, o empenho no trabalho, a dedicação à missão, a oração pessoal e comunitária vivida com fidelidade.

29.    A multiculturalidade no interior das nossas comunidades é uma oportunidade, um testemunho de unidade para o mundo, mas também revela alguns limites da nossa caridade e manifesta preconceitos que resistem à fraternidade evangélica. As comunidades internacionais e a colaboração em projetos mundiais contribuem para criar um maior sentido de fraternidade e de solidariedade.

30.    Reconhecemos que a responsabilidade pela conservação da criação é uma sensibilidade emergente também em nossas comunidades. Contudo, ainda não estamos suficientemente persuadidos dessa prioridade na escolha do nosso estilo de vida sóbrio e essencial e na educação dos jovens.

II. LEITURA
Como Dom Bosco, em diálogo com o Senhor, caminhamos juntos movidos pelo Espírito

31.    imersos na história, marcada por expectativas e fragilidades, somos sustentados pela certeza de que Deus acompanha a humanidade com suas intervenções que têm o seu ápice na Páscoa do Senhor jesus: “A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição”.7  No seguimento de jesus, que se transfigura e envolve os seus discípulos na luz do tabor8 e ouvindo as advertências de Dom Bosco no “sonho dos dez diamantes”, valorizamos a graça da vocação salesiana, a fecundidade dos conselhos evangélicos, a fraternidade na comunidade e entre os jovens. Contemplamos a Virgem Maria, que no seu Magnificat canta a Deus que orienta fielmente o seu povo pelos caminhos da história, operando maravilhas e prodígios em favor dos humildes e dos pobres. Com Ela redescobrimos a alegria da fé que infunde otimismo e esperança.

32.    Como para Dom Bosco, assim também para nós, o primado de Deus é o fulcro que dá razão da nossa existência na igreja e no mundo. Este primado dá sentido à nossa vida consagrada, faz-nos evitar o risco de nos deixarmos absorver pelas atividades, esquecendo-nos de ser essencialmente “buscadores de Deus” e testemunhas do seu amor entre os jovens e os mais pobres. Somos chamados, portanto, a reconduzir o nosso coração, a nossa mente e todas as nossas energias ao “princípio” e às “origens”: a alegria do momento em que Jesus olhou para nós, a fim de evocar significados e exigências que fundamentam a nossa vocação.9

7 Cf. Evangelii Gaudium, 276.

8 Cf. Vita Consecrata, 14-16.

33.     A nossa mística exprime-se como humanização profunda da vida pessoal e comunitária.10 Ela está enraizada no mistério da Encarnação: jesus fez suas as necessidades e as aspirações do povo e realizou a vontade do seu Pai na construção do Reino. Dom Bosco viveu e transmitiu-nos um estilo original de união com Deus a ser vivido sempre (cf. Const. 12, 21, 95) e em todos os lugares segundo o critério oratoriano (cf. Const. 40). O salesiano, portanto, dá testemunho de Deus quando se gasta pelos jovens e está com eles com entrega sacrificada “até o último respiro”, vive o “cetera tolle” e sabe narrar para eles a própria experiência do Senhor.

34.     A  experiência  do  encontro com  Deus  pede  uma  resposta pessoal, que se realiza num itinerário de fé e numa profunda relação com a Palavra, porque “no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá à vida um novo horizonte e com isso a direção decisiva”.11

35.     Hoje,  além  de  constatar as  mudanças  culturais, estamos convencidos de viver uma viragem de época12 talvez sem precedentes.  Esta   viragem   modificou   sensivelmente   as motivações que levam a escolher e a viver a vida consagrada. O Papa Francisco convida-nos a escutar o grito dos pobres, a sair para recolher as necessidades mais urgentes, a viver a cultura do encontro e do diálogo,13 evitando a autorreferência e encarnando a espiritualidade missionária.

9 Cf. Congregação  Para  os InstItutos  de VIda  Consagrada  e as soCIedades  de Vida apostólica, Rallegratevi, n. 4.

10 Cf. Evangelii Gaudium, 87, 92, 266.

11 Bento XVi, Deus Caritas est, 1.

12 Cf. Evangelii Gaudium, 52, 61-70.

13 Cf. Evangelii Gaudium, 220.

36.    As dificuldades que experimentamos para responder ao chamado de  Deus,  para  viver  a  sequela  de  Cristo  com  radicalidade, são devidas à fraca convicção na fecundidade dos conselhos evangélicos para a realização da comunhão em comunidade e a missão pelos jovens. A acolhida do dom da vocação e a responsabilidade do nosso itinerário de formação continuada ajudam-nos a modelar a cultura com o Evangelho e a sermos homens de compaixão, sobretudo pelos pobres.

37.    Chamados a testemunhar as realidades do Reino e a dialogar com um pensamento que, às vezes, tende a relativizar e marginalizar o discurso religioso, tornamo-nos irrelevantes quando nos subtraímos ao nosso papel profético de propor uma cultura inspirada no Evangelho.

38.    O  perigo  de  sermos facilmente  considerados  apenas  como “agentes sociais”, em vez de educadores e pastores capazes de testemunhar o primado de Deus, de anunciar o Evangelho e de acompanhar espiritualmente, exige de nós o cuidado da nossa vocação. O desafio mais relevante consiste em encontrar modos criativos para afirmar a importância dos valores espirituais e o encontro pessoal com o Deus da vida, do amor, da ternura e da compaixão. isso exige que favoreçamos a experiência de fé e o encontro com jesus Cristo: os jovens exigem consistência e coerência em nosso estilo de vida.

Fazendo experiência de vida fraterna, como em Valdocco, disponíveis à projetualidade e à colaboração

39.    Acreditamos que a comunidade “se propõe como eloquente confissão trinitária”14  e que a nossa vida em comum é fruto da iniciativa de Deus Pai, que nos chama a sermos discípulos de Cristo para uma missão de salvação (cf. Const. 50). Para não perder este dom especial, oferecido a nós e a toda a igreja, a visibilidade da dimensão fraterna da nossa vida deve ser mais consciente, mais direta, eficaz e alegre (cf. Sl 133,1).

14 Vita Consecrata, 21; cf. 16.

40.     Reconhecemos que a vida de comunidade é um dos modos de fazer experiência de Deus. Viver a “mística da fraternidade”15 é  um  elemento essencial  da  nossa  consagração  apostólica e uma grande ajuda para sermos fiéis a ela. Há aí uma clara ligação com a nossa missão e com o mundo juvenil, sedento de comunicação autêntica e de relações transparentes. Numa época de desagregação familiar e social, oferecemos uma alternativa de vida baseada no respeito do outro e na cooperação com ele; num tempo de desigualdade e injustiça, oferecemos o testemunho da paz e reconciliação (Const. 49). A comunidade revela a si mesma também na missão comum. A unanimidade na ação apostólica realiza a profecia da comunidade e esse testemunho favorece o surgimento de novas vocações.

41.     Nossas limitações de incompreensão recíproca, os fechamentos em nós mesmos e as nossas fragilidades cotidianas dependem da acolhida ineficaz do amor e da graça derramados em nossos corações pelo Espírito de Cristo (cf. Rm 5,5). Reconhecemos que a comunhão no Corpo e no Sangue de jesus (cf. 1jo 10,16), de que nos nutrimos todos os dias, faz de nós “um só coração e uma só alma” (At 2,42; Const. 50). A Eucaristia constitui o cume e a fonte de nossa fraternidade, consagração e missão.16 impelidos pela caridade de Cristo e participantes do dom de si de jesus Bom Pastor, participamos da experiência espiritual de Dom Bosco e prodigalizamo-nos como ele pela salvação dos jovens.

42.     As  relações pessoais  em  comunidade  podem  ser formais, fragmentadas e pouco significativas devido a vários fatores: o individualismo e a aversão pessoal, uma formação pouco envolvente, a preocupação excessiva com o próprio trabalho ou

15 Cf. Evangelii Gaudium, 87, 92.

16 Cf. Lumen Gentium, 11.

o fato de ter pouco trabalho, as relações só funcionais, o refluxo no privado e o uso nem sempre equilibrado das mídias pessoais. Estes fatores tornam-se álibi fácil para não enfrentar o empenho na  vida  comunitária. Os  conflitos  não  devem  ser  vividos apenas como realidades negativas, mas como oportunidades de amadurecimento: sejam iluminados pelo Evangelho e enfrentados e resolvidos com mais coragem, competência humana e misericórdia.17

43.    Certa   tendência   ao   perfeccionismo  e,   opostamente,   ao imobilismo está na base de uma ineficaz renovação comunitária. Desaparece a capacidade de ser realista e, ao mesmo tempo, de saber sonhar. Sentimo-nos provocados pelo Papa Francisco: “Prefiro uma igreja  acidentada,  ferida  e  enlameada por  ter saído pelas estradas, a uma igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. [...] Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual do que à autopreservação”.18

44.    A nossa  proposta  comunitária entende  revelar  uma  “igreja em saída”,19 e realizar um ambiente educativo aberto e uma comunidade educativo-pastoral “extrovertida”. A comunidade salesiana tem a missão de criar fraternidade também com os leigos corresponsáveis, em especial com os membros da Família Salesiana, superando toda forma de clericalismo e dirigindo-se para novas fronteiras, deixando “as portas sempre abertas”.20

45.    Viver a espiritualidade de comunhão é o que nos pede hoje a igreja, integrando vida comunitária e serviço na obra,21 num renovado sentido de pertença. Para construir a comunidade é preciso passar da vida em comum à comunhão de vida, para que cada irmão instaure assim ligações profundas e se doe sem reservas, não sentindo a necessidade de distanciar-se ou de encontrar formas compensatórias e mundanas.22

17 Cf. Mt 5, 20-26; Evangelii Gaudium, 226-230.

18 Cf. Evangelii Gaudium, 49. 27.

19 Cf. Evangelii Gaudium, 20-24, 46.

20 Cf. Evangelii Gaudium, 46-47.

21 Cf. Novo Millennio Ineunte, 43-45.

46.     Na igreja, que é povo de Deus em caminho e comunhão de pessoas com carismas e papéis diversos, compartilhamos com os leigos o serviço da construção do Reino de Deus. O carisma salesiano pede-nos para nos preocuparmos com o envolvimento e a corresponsabilidade de todos os membros do núcleo animador da Comunidade Educativo-Pastoral (cf. Const. 47), salesianos e leigos, para promover a mentalidade de projeto e a ação comum em benefício dos jovens, das famílias e dos adultos dos ambientes populares.

47.     O Sistema Preventivo não serve apenas para a animação pastoral, mas também para regular de modo salesiano as relações no interior da comunidade. inspira-nos a sermos profetas de fraternidade uns para os outros, sobretudo nos momentos de sofrimento e na busca de relações mais profundas. Somos, pois, “sinais e portadores do amor de Deus” (Const. 2) não apenas diante dos jovens, mas também dos irmãos.

48.     “Casa”  e  “família” são  os  dois vocábulos  frequentemente utilizados por Dom Bosco para descrever o “espírito de Valdocco” que deve resplender nas nossas comunidades. Neste sentido, acolhemos o apelo evangélico e carismático à recíproca compreensão e corresponsabilidade, à correção fraterna e à reconciliação.

49.     A formação, tanto inicial como continuada, é chamada a incidir, valendo-se da contribuição das ciências humanas, nas dinâmicas relacionais profundas, da vida afetiva e da sexualidade, que influem nos equilíbrios da vida comunitária. Nos processos formativos, é coisa boa enfrentar esses argumentos de modo mais competente, frequente e compartilhado, sem confiná-los exclusivamente na direção espiritual e na prática do sacramento da reconciliação.

22 Cf. Evangelii Gaudium, 93-97.

50.    A formação, pessoalmente acolhida, ajuda-nos a purificar as motivações, habituando-nos a viver com reta intenção; educa-nos ao trabalho e à temperança com uma ação apostólica disciplinada e desinteressada que sabe desenhar os necessários limites nas relações interpessoais; treina-nos para um estilo de vida sóbrio que nos permite realizar o trabalho manual e os serviços ordinários em comunidade.

51.    O Diretor é uma figura central; ele, mais do que gestor, é pai que reúne os seus na comunhão e no serviço apostólico. Devido à complexidade de nossas obras, dos muitos encargos e de uma formação  pouco  adequada,  ele  nem  sempre  tem  condições de assumir o cuidado da vida fraterna, do discernimento e da corresponsabilidade segundo o projeto de vida da comunidade e o projeto educativo-pastoral. incide, em algumas situações, o fraco apoio dos irmãos.

Em saída para as periferias, sendo sinais proféticos a serviço dos jovens

52.    Os jovens são “a nossa sarça ardente”23  através da qual Deus nos fala. É um mistério a respeitar, acolher, do qual perceber os aspectos mais profundos, diante do qual tirar as sandálias para contemplar a revelação de Deus na história de todos e de cada um. Esta forte experiência de Deus permite-nos responder ao clamor dos jovens.24

53.    Estamos cientes de que a união com Deus deve ser vivida no meio dos jovens. “Nós cremos que Deus está a nos esperar nos jovens para oferecer-nos a graça do encontro com Ele e para

23 Cf. Ex 3,2ss; Cf. Evangelii Gaudium, 169.

24 Cf. Evangelii Gaudium, 187-193, 211.

dispor-nos a servi-lo neles, reconhecendo-lhes a dignidade e educando-os para a plenitude da vida”.25 A missão é realizada autenticamente quando a acolhemos como vinda de Deus, e quando d’Ele tiramos o sustento para o nosso serviço.

54.     Estamos cientes de que a força e a participação das motivações de fé e a busca cotidiana da união com Deus enriquecem a reflexão pastoral, dão criatividade ao anúncio do Evangelho, incentivam-nos a entregar a nossa vida aos jovens. Realiza-se, assim, o duplo movimento próprio do Sistema Preventivo: na escola do amor de Deus, que nos precede amando-nos (cf. 1jo

4,10.19) também através dos jovens, tornamo-nos capazes de um “amor preveniente” (Const. 15).

55.     Queremos ser uma Congregação de pobres para os pobres.

Como Dom Bosco, acreditamos que seja este o nosso modo de viver o Evangelho com radicalidade, a fim de vivermos mais  disponíveis  e  prontos  para  aderir  às  exigências  dos jovens, atuando em nossa vida um autêntico êxodo para os mais necessitados. Os migrantes, os refugiados e os jovens desempregados  interpelam-nos como  salesianos  em  todas as partes do mundo: convidam-nos a encontrar formas de colaboração e estimulam-nos a dar respostas concretas e a ter uma mentalidade mais aberta, solidária e corajosa.26

56.     O genericismo pastoral não exprime o carisma salesiano e é consequência de um planejamento inadequado (cf. ACG 334). isso se deve à escassa adesão às expectativas mais profundas dos jovens, à falta de valorização das orientações do magistério salesiano e à fraca observância das Constituições.

57.     A nossa ação educativa e pastoral está em sintonia com a Igreja local e colabora com as instituições do território, para um

25 CG23, 95.

26 Cf. Evangelii Gaudium, 210.

serviço mais incisivo e qualificado em favor dos jovens e dos ambientes populares. A pastoral juvenil e a proposta pedagógica salesiana não são nossa propriedade reservada ou para uso exclusivo no interior da Congregação, mas um dom precioso para a igreja e a transformação do Mundo.

58.    O  Sistema  Preventivo é,  para  nós  salesianos,  metodologia pedagógica, proposta de evangelização juvenil, experiência espiritual profunda. É preciso empenhar-se mais para a sua renovada  compreensão  e  prática nas  alteradas  condições atuais. Gostaríamos de evidenciar, sobretudo, que ele é uma “espiritualidade  a  viver”; a  fecundidade do  nosso trabalho é fruto de uma intensa vida espiritual vivida com os jovens (Const. 20) e para a salvação deles.

59.    A assistência salesiana é um aspecto fundamental da nossa espiritualidade.  Viver  com os  jovens e  fazer-se  próximos deles, conquistar a sua confiança e acompanhá-los na adesão de fé, permite encontrar Deus e escutá-lo, dar todas as forças “até o último respiro”27 e testemunhar o dom da nossa vida segundo a lógica da cruz. Vivendo dessa forma, participamos do dinamismo pascal, certos de que a beleza da ressurreição preenche de alegria e de paz a autêntica entrega de nós mesmos.

60.    Viver o binômio trabalho e temperança preenche a vida do salesiano, alimenta o seu zelo apostólico e torna-o próximo dos jovens, do Senhor e dos irmãos. A linha de frente apostólica deve ser proporcional à consistência qualitativa e quantitativa da comunidade e da CEP.

61.    Reafirmamos  a   necessidade  de   a   formação   levar   em consideração o treinamento e a preparação para o serviço dos jovens, também através do estudo profundo, do diálogo cultural e de experiências pastorais significativas, preocupando-se com a atualização continuada segundo as orientações da igreja e da Congregação.

27 MB XViii, p. 258.

62.     O  mundo  digital,  “novo areópago  do  tempo  moderno”,28 interpela-nos como educadores dos jovens: esse mundo é um “novo pátio”, um “novo oratório”, que exige a nossa presença e estimula em nós novas formas de evangelização e educação. A nossa “era do conhecimento e da informação” tende, porém, à mercantilização das relações humanas e à monopolização do saber humano, tornando-se assim “fonte de novas formas de um poder muitas vezes anônimo”29  que devemos enfrentar com a nossa ação pastoral e educativa.

28 João Paulo II, Redemptoris Missio, 37.

29 Cf. Evangelii Gaudium, 52.

III. CAMINHO
1. OBJETIVO

63.    testemunhar a “radicalidade evangélica” através da contínua conversão espiritual, fraterna e pastoral

1.  vivendo o primado de Deus na contemplação do cotidiano e na sequela de Cristo;

2. construindo comunidades autênticas nas relações e no trabalho segundo o espírito de família;

3.  colocando-nos  de  modo  mais  decidido e  significativo a

serviço dos jovens mais pobres.

2. PROCESSOS E PASSOS
Como Dom Bosco, em diálogo com o Senhor

64.    Para ser MÍSTICOS no Espírito é necessário passar:

1. de uma espiritualidade fragmentada a uma espiritualidade unificante, fruto da contemplação de Deus em jesus Cristo e nos jovens;

2.  da atitude de quem se sente já formado à humilde e permanente escuta da Palavra de Deus, dos irmãos e dos jovens.

65.     Para realizar estes processos, empenhamo-nos em:

1. Viver cotidianamente a Eucaristia como fonte da nossa fecundidade apostólica e celebrar o sacramento da Reconciliação como retomada frequente do nosso itinerário de conversão.

2.  Cultivar a oração pessoal no contato cotidiano com a Palavra de Deus, praticando cotidianamente a meditação, e cuidar da qualidade da oração comunitária, compartilhando-a com os jovens e os membros da CEP.

3.  Caracterizar o projeto de animação e governo em todos os níveis para o próximo sexênio, colocando no centro a Palavra de Deus.

Caminhamos juntos movidos pelo Espírito

66.     Para ser MÍSTICOS no Espírito é necessário passar:

1.  de um testemunho fraco dos conselhos evangélicos a uma vida cheia de paixão na sequela de jesus, capaz de despertar o mundo, convocando-o para os valores essenciais da existência;

2.  de uma visão pessimista do mundo a uma visão de fé que descobre o Deus da alegria nos acontecimentos da vida e na história da humanidade.

67.     Para realizar estes processos, empenhamo-nos em:

1.  Viver com alegria e autenticidade a graça da consagração, elaborando ou redefinindo o projeto pessoal de vida e o projeto comunitário.

2. ter um guia espiritual estável e tê-lo como referência periódica.

3. Aprofundar a nossa espiritualidade mediante a leitura frequente das Constituições e o estudo das Fontes salesianas.

4.  Prever momentos de partilha espiritual comunitária a partir da Palavra de Deus, valorizando particularmente a lectio divina.

5. Verificar e promover como comunidade e como irmãos individualmente a harmonia entre oração e trabalho, entre reflexão e apostolado, mediante scrutinia adequados.

6. Cuidar da tradução das Fontes salesianas nas diversas línguas.

7.  Atualizar o manual Em diálogo com o Senhor e os demais subsídios de oração.

8.  Ativar  iniciativas  de  formação  para  salesianos e  leigos e qualificar em nível regional um Centro de Formação Permanente ou valorizar os existentes em outras Regiões.

Fazendo experiência de vida fraterna como em Valdocco

68.     Para ser PROFETAS da fraternidade é necessário passar:

1. de relações funcionais e formais a relações cordiais, solidárias e de comunhão profunda;

2. de preconceitos e fechamentos à correção fraterna e à reconciliação.

69.     Para realizar estes processos, empenhamo-nos em:

1. Dar espaço à prática do diálogo com o outro,30 ativando dinâmicas positivas de comunicação interpessoal entre irmãos, jovens, leigos e membros da Família Salesiana, servindo-nos também da contribuição das ciências humanas.

2.  Viver relações de fraternidade, proximidade e escuta com os nossos dependentes e colaboradores, evitando atitudes autoritárias e contratestemunhos.

3.  Encorajar cada irmão a sustentar, com o Diretor e o seu

Conselho, a responsabilidade da comunidade.

4. ir ao encontro das necessidades dos irmãos enfermos e anciãos e envolvê-los na vida e missão comum, segundo as suas efetivas possibilidades.

5.  Apoiar particularmente as comunidades que trabalham nas “fronteiras”.

6. Garantir a consistência qualitativa e quantitativa das comunidades através do redesenho sábio e corajoso das presenças.

7. Preocupar-se com as duas formas complementares da vocação religiosa salesiana, assumindo as orientações do CG2631  e continuando a reflexão tanto na vertente da vida consagrada como na especificidade dos coadjutores, visando a vida fraterna e a missão.

8. Reforçar os itinerários de amadurecimento humano e espiritual e prever adequados itinerários de apoio para irmãos em dificuldade.

30 Cf. Evangelii Gaudium, 88.

31 Cf. CG26, 74-78.

9. Garantir adequados itinerários de acompanhamento para indivíduos envolvidos em eventuais casos de abuso.

10.Verificar e relançar, no plano do próximo sexênio, a proposta da formação dos Diretores.32

11. Providenciar pelo Reitor-Mor e Conselho Geral a atualização do Manual do Diretor e do Inspetor.

Disponíveis à projetualidade e à colaboração

70.     Para ser PROFETAS da fraternidade é necessário passar:

1. da  iniciativa  pastoral  individualista à  disponibilidade incondicional à missão e ao projeto comunitário e inspetorial;

2.  da consideração dos jovens como simples destinatários e dos leigos como colaboradores à promoção dos jovens como protagonistas e dos leigos como corresponsáveis da única missão.

71.     Para realizar estes processos, empenhamo-nos em:

1.  Crescer na comunhão e na corresponsabilidade, mediante a acolhida do projeto comunitário e do PEPS, dando desenvolvimento e visibilidade à “cultura salesiana”.33

2.  Criar  sinergias  com  outros  grupos  da  Família  Salesiana que trabalham pelos e com os jovens e promovam os seus direitos.34

3.  trabalhar em rede conectando-se eficazmente com a igreja local, com as demais Famílias religiosas e as agências educativas, sociais e governativas.

4. Estruturar itinerários mais adequados na formação inicial, voltados para o envolvimento na pastoral juvenil, a habilitação à leitura das problemáticas sociais do território e

o planejamento educativo e pastoral.

32 Cf. CG21,46-57; CG25, 63-65.

33 Cf. AGC 413, p. 46.

34 Cf. Carta de identidade da Família Salesiana, 21, 41.

5. integrar no PEPS inspetorial e local a pastoral familiar, prevendo a formação e o envolvimento dos leigos como animadores.35

6. Organizar uma pastoral salesiana orgânica e integral nas comunidades inspetoriais e locais, segundo o “Quadro referencial da pastoral juvenil” e o planejamento concorde dos Conselheiros de Setor e Regionais.

7.  Garantir em todos os níveis a atenção à pastoral das famílias e à formação dos leigos, e favorecer a coordenação das reflexões e intervenções dos Setores da missão salesiana e da formação.

Em saída para as periferias

72.    Para ser SERVOS dos jovens é necessário passar:

1.  de um distanciamento em relação aos jovens à presença ativa e entusiasmada entre eles com a paixão do Bom Pastor;

2.  de uma pastoral de conservação a uma pastoral “em saída”, que parte das necessidades profundas dos jovens mais pobres considerados em seu ambiente familiar e social.

73.    Para realizar estes processos, empenhamo-nos em:

1. Promover  nas  inspetorias  uma  profunda  revisão  da significatividade e presença entre os mais pobres das nossas obras,  segundo  os  critérios oferecidos  pelos  Capítulos Gerais e pelos Reitores-Mores, em vista de uma “conversão pastoral estrutural” e de uma maior finalização em vista das novas pobrezas (cf. Reg. 1).

2.  Assumir juntamente com os leigos o “Quadro referencial da pastoral juvenil”, ativando processos de renovação, valorizando          as   forças   existentes   de   voluntariado   e considerando as novas fronteiras existenciais e geográficas dos jovens mais pobres.

35 CG26, 99, 102, 104.

3. Promover e defender os direitos humanos e dos menores através da abordagem inovadora do Sistema Preventivo, dando atenção especial ao trabalho infantil e ao comércio sexual, à dependência das drogas e a todas as formas de abuso, à desocupação e migração juvenil e ao tráfico de pessoas.

4.  Favorecer  nos  nossos ambientes  um  clima  de  respeito da  dignidade  dos  menores,  empenhando-nos  para  criar as condições que previnam qualquer forma de abuso e de violência, seguindo em cada inspetoria as orientações e diretrizes do Reitor-Mor e do Conselho Geral.

5. Educar os jovens para a justiça e a legalidade, para a dimensão sociopolítica da evangelização e da caridade, acompanhando-os a fim de serem agentes de transformação social numa lógica de serviço ao bem comum.

6. Sensibilizar as comunidades e os jovens a respeito da criação, educando para a responsabilidade ecológica mediante atividades concretas de salvaguarda do ambiente e de desenvolvimento sustentável.

Sendo sinais proféticos a serviço dos jovens

74.     Para ser SERVOS dos jovens é necessário passar:

1. de uma vida marcada pelo emburguesamento a uma comunidade missionária e profética, que vive a participação com os jovens e os pobres;

2. de uma pastoral de eventos e atividades a uma pastoral orgânica e integral, capaz de acompanhamento dos processos de amadurecimento vocacional, em sintonia com as novas perspectivas eclesiais e salesianas.

75.     Para realizar estes processos, empenhamo-nos em:

1.  Desenvolver a cultura vocacional e o cuidado das vocações à vida salesiana, cultivando a arte do acompanhamento e habilitando salesianos e leigos para serem guias espirituais dos jovens.

2.  Viver o binômio “trabalho e temperança”, preocupando- nos com um estilo de vida visivelmente pobre, eliminando os desperdícios e estando disponíveis para os serviços domésticos e comunitários.

3.  Praticar uma solidariedade eficaz com aqueles que passam por necessidades, com os pobres e entre as casas salesianas.

4.  Entrar  de  modo significativo  e  educativo no  mundo digital habitado particularmente pelos jovens, garantindo uma  adequada  formação  profissional e  ética dos  irmãos e colaboradores, aplicando o Sistema Salesiano de Comunicação Social (SSCS).

5. Favorecer comunidades internacionais também através da redistribuição global dos irmãos e a promoção dos projetos missionários da Congregação.

6. Ativar procedimentos, também através de auditorias, que garantam a transparência e o profissionalismo na gestão dos bens e das obras.

7. Fazer uma revisão diligente da Casa Geral e de outras estruturas edilícias da Congregação, para serem sinal claro e crível de radicalidade evangélica.

DELIBERAÇÕES DO CG27

Com base na avaliação das estruturas do governo central da Congregação, feita pelo Reitor-Mor e pelo Conselho Geral a pedido do CG26, n. 118, e com base nas propostas recebidas dos Capítulos inspetoriais, de irmãos individualmente, como também da mesma Assembleia capitular, depois do exame feito pela Comissão jurídica e pela Assembleia, o Capítulo Geral aprovou as seguintes deliberações. Algumas delas referem-se a artigos das Constituições e dos Regulamentos Gerais; outras são orientações operativas para o governo da Congregação.

1. DURAÇÃO NO CARGO DO REITOR-MOR E DOS MEMBROS DO CONSELHO GERAL

76.    O Capítulo Geral 27,

em relação aos artigos 128 e 142 das Constituições, que fixam a duração no cargo por seis anos, do Reitor-Mor e dos membros do Conselho Geral,

considerado que seis anos são um tempo adequado para governar e animar a Congregação,

confirma a duração de seis anos no cargo para o Reitor-Mor

e os membros do Conselho Geral, como previsto pelos artigos

128 e 142 das Constituições.

2. REELEGIBILIDADE DO REITOR-MOR E DOS MEMBROS DO CONSELHO GERAL

77.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 128 das Constituições, que prevê que o Reitor-Mor possa ser eleito apenas para um segundo sexênio consecutivo, e em relação ao artigo 142 das Constituições, que prevê que o Vigário do Reitor-Mor, os Conselheiros de setor e os Conselheiros regionais possam ser eleitos apenas para um segundo sexênio consecutivo no mesmo cargo,

considerado que a atual formulação dos artigos 128 e 142 deixa a Assembleia capitular livre para:

-   confirmar ou não para um segundo sexênio no mesmo cargo o Reitor-Mor, o Vigário do Reitor-Mor, os Conselheiros de setor, os Conselheiros regionais;

-   valorizar  a  experiência  adquirida  para  um  eventual outro cargo no Conselho Geral,

A. confirma a possibilidade de eleger o Reitor-Mor apenas para um segundo sexênio consecutivo, como previsto pelo artigo 128 das Constituições;

B. confirma a possibilidade de eleger o Vigário do Reitor-

-Mor, os Conselheiros de setor e os Conselheiros regionais para apenas um segundo sexênio consecutivo no mesmo cargo, como previsto pelo artigo 142 das Constituições.

3. COMPOSIÇÃO DO CONSELHO GERAL

78.    O Capítulo Geral 27,

em relação aos artigos 130, 131 e 133 das Constituições, relativos às atribuições e à composição do Conselho Geral,

considerado que a atual estrutura do Conselho Geral composto pelo Vigário, pelos Conselheiros encarregados de setores especiais e Conselheiros regionais encarregados de grupos de inspetorias, permite a integração da visão global da Congregação, própria do Reitor-Mor, do Vigário e dos encarregados de setores especiais, com a visão aprofundada dos grupos de inspetorias, própria dos Conselheiros regionais,

confirma a atual estrutura do Conselho Geral prevista pelo

artigo 133 §1 das Constituições.

4. VIGÁRIO DO REITOR-MOR

79.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 134 §3 das Constituições, que atribui ao

Vigário do Reitor-Mor a tarefa de animar a Família Salesiana,

considerado o pedido feito pelo Capítulo Geral 26 de fazer uma avaliação desta atribuição ao final do sexênio,1

uma vez que acredita ser preferível confiar a animação da Família Salesiana a um Secretariado central diretamente dependente do Reitor-Mor, conforme o artigo 108 dos Regulamentos gerais, pelas seguintes motivações:

a)  deu-se grande impulso nestes anos à Família Salesiana, que cresceu no número de seus membros, na sua consciência carismática  mediante  a  aceitação da  Carta de  identidade da Família Salesiana e da Estreia do Reitor-Mor, na sua visibilidade mundial e inspetorial;

b) o Reitor-Mor, enquanto sucessor de Dom Bosco, é a única referência carismática de toda a Família Salesiana;

c) um Secretariado central instituído pelo Capítulo Geral e dependente  diretamente  do  Reitor-Mor  pode  garantir  de modo melhor essa referência de forma estável e com maior disponibilidade e continuidade de tempo pelas pessoas chamadas a compor o Secretariado;

d) as atribuições confiadas ao Vigário do Reitor-Mor pelo art.

134 das Constituições são potencialmente muito amplas, e também são multíplices e pontuais aquelas descritas no Vade-

-mécum para a vida e ação do Conselho Geral, exigindo uma ação muito absorvente;

A. suprime o §3 do artigo 134 das Constituições, que atribui ao Vigário do Reitor-Mor a tarefa de animar a Família Salesiana;

1 CG26, 116.

B. institui um Secretariado central para a Família Salesiana diretamente dependente do Reitor-Mor, segundo a norma do artigo 108 dos Regulamentos, com as seguintes atribuições:

-   animar a Congregação no setor da Família Salesiana e garantir a interação com os demais setores da Congregação em nível mundial;

-   promover, segundo a norma do artigo 5 das Constituições, a comunhão dos vários grupos, respeitando a sua especificidade e autonomia;

-   orientar e assistir as Inspetorias para que se desenvolvam em seus territórios, segundo os respectivos estatutos, a Associação dos Salesianos Cooperadores, o movimento dos Ex-Alunos e a ADMA.

5. NÚMERO E ÁREAS DOS CONSELHEIROS DE SETOR

80.    O Capítulo Geral 27,

em relação aos artigos 133, 136 e 138 das Constituições,

confirma que os Conselheiros encarregados de setores especiais são: o Conselheiro para a formação, o Conselheiro para a pastoral juvenil, o Conselheiro para a comunicação social, o Conselheiro para as missões e o Ecônomo Geral, como indicado no artigo 133 §2 das Constituições.

6. ATRIBUIÇÕES DO CONSELHEIRO REGIONAL

81.    O Capítulo Geral 27,

em relação aos artigos 140 e 154 das Constituições, relativos respectivamente às atribuições do Conselheiro regional e dos grupos de inspetorias (ou regiões),

considerado que as atribuições confiadas pelas Constituições aos Conselheiros regionais são adequadas às exigências atuais da Congregação porque, sem constituir um nível intermediário de governo, permitem:

-   promover a unidade da Congregação e a fluidez dos processos de animação na diversidade dos contextos;

-   manter viva a ligação entre o Reitor-Mor e o Conselho Geral de um lado e, de outro, as inspetorias, as comunidades locais e os irmãos individualmente;

-   ter no interior do Conselho Geral uma visão real e atualizada das diversas áreas da Congregação, sendo que tal conhecimento é decisivo para a animação e o governo;

-   tornar presente, especialmente durante a visita extraordinária, um aspecto fundamental do nosso carisma que é a atenção ao irmão e a escuta,

confirma as atribuições confiadas aos Conselheiros regionais

pelo artigo 140 das Constituições.

7. MODALIDADE DE ELEIÇÃO DO REITOR-MOR

82.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 141 das Constituições e aos artigos 126,

127 e 128 dos Regulamentos gerais, relativos à modalidade de eleição do Reitor-Mor e dos membros do Conselho Geral,

considerado que o processo de discernimento, orientado e coordenado pela pessoa do facilitador, externo à Congregação, permite criar um clima positivo e de busca da vontade de Deus,

confirma a modalidade de eleição do Reitor-Mor indicada pelo artigo 141 das Constituições e pelos artigos 126 e 127 dos Regulamentos gerais.

8. MODALIDADE DE ELEIÇÃO DO VIGÁRIO DO REITOR-MOR

83.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 141 das Constituições e aos artigos 126,

127 e 128 dos Regulamentos gerais, relativos à modalidade de eleição do Reitor-Mor e dos membros do Conselho Geral,

considerado que

-   a atual modalidade atribui plena e exclusiva responsabilidade ao Capítulo Geral, que detém na Sociedade a autoridade suprema e a exerce segundo a norma do direito (Const. 147);

-   a eleição direta por parte da Assembleia sublinha melhor o papel institucional do Vigário do Reitor-Mor,

confirma a modalidade de eleição do Vigário do Reitor-Mor indicada pelo artigo 141 das Constituições e pelos artigos 126 e 127 dos Regulamentos gerais.

9. MODALIDADE DE ELEIÇÃO DOS CONSELHEIROS DE SETOR

84.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 141 das Constituições e dos artigos 126,

127 e 128 dos Regulamentos gerais, relativos à modalidade de eleição do Reitor-Mor e dos membros do Conselho Geral,

considerado que, na fase de discernimento para a eleição dos

Conselheiros de setor, é preciso:

-   individuar os candidatos mais adequados por capacidade e competências;

-   favorecer a corresponsabilidade e a participação de todas as regiões “na escolha dos responsáveis de governo” (Const.

123) em nível mundial;

-   envolver os membros do Capítulo, reunidos por regiões, num processo de discernimento que amadurece no diálogo e na busca comum;

-   fazer   amadurecer   algumas   convergências   sobre  alguns candidatos,

delibera que a eleição dos Conselheiros de setor seja precedida de um discernimento da parte dos irmãos capitulares subdivididos por regiões sobre os principais desafios do setor e o perfil do candidato. O processo de discernimento termina com  a  proposta à Assembleia  de um candidato da própria região e outro de fora da própria região, individuados com votação em escrutínio secreto. Neste sentido, modifica-se o artigo 127 dos Regulamentos gerais.

10. MODALIDADE DE ELEIÇÃO DOS CONSELHEIROS REGIONAIS

85.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 141 das Constituições e aos artigos 126,

127 e 128 dos Regulamentos gerais, relativos à modalidade de eleição do Reitor-Mor e dos membros do Conselho Geral,

considerado que a formulação do artigo 128 dos Regulamentos gerais como modificada pelo Capítulo Geral 262  permite à Assembleia capitular conhecer com maior clareza a orientação prevalente dos irmãos da Região,

confirma a modalidade de eleição dos Conselheiros regionais

indicada pelo artigo 128 dos Regulamentos gerais.

2 CG26, 119.

11. COORDENAÇÃO NO CONSELHO GERAL

86.    O Capítulo Geral 27,

vistos os artigos 133 das Constituições e 107 dos Regulamentos gerais,

vista a deliberação do Capítulo Geral 26, n. 117,

considerado o resultado da consulta das inspetorias, com as motivações e sugestões expressas por elas, como também o debate da Assembleia precedente à eleição dos membros do Conselho Geral, dos quais emergiu de modo evidente a necessidade de uma maior coordenação da ação dos Conselheiros encarregados de setores específicos entre si e com os Conselheiros regionais,

por acreditar que

a)  a composição do Conselho Geral, prevista pelo artigo 133 das Constituições, entende favorecer simultaneamente uma ação de raio mundial em setores específicos e uma ação de proximidade às inspetorias em determinadas áreas geográficas (as regiões ou grupos de inspetorias);

b) tal articulação, para ser eficaz, requer sinergia e coordenação para evitar a dispersão e a fragmentação das intervenções;

delibera modificar como segue o artigo 107 dos Regulamentos gerais:

“A animação da missão salesiana em nível mundial requer a  individualização de  objetivos  comuns  e sinergias entre os Conselheiros encarregados de setores específicos e a coordenação das intervenções com os Conselheiros regionais, mediante encontros sistemáticos de programação e revisão.

Os Conselheiros gerais encarregados de setores específicos, para realizar as atribuições que lhes são confiadas, servem-se de ofícios técnicos e de consultas.

A sua criação, o seu orgânico e as modalidades de funcionamento são de competência do Reitor-Mor com o consenso do seu Conselho”.

12. CONFIGURAÇÃO DAS REGIÕES DA EUROPA E ORIENTE MÉDIO

87.    O Capítulo Geral 27

vistos os resultados da consulta de todas as inspetorias da Europa e do Oriente Médio,

considerado o parecer do Conselho Geral,

considerado que a configuração interna às três Regiões foi alterada significativamente depois das últimas reestruturações da França – Bélgica Sul (2008), da itália (2008) e da Espanha (2014),

levando em conta a diminuição do número de irmãos em toda a Europa e o redimensionamento em ato das obras em diversas inspetorias,

considerado que o “Projeto Europa” iniciado pelo Capítulo Geral

263 entende promover e reforçar as sinergias entre as diversas inspetorias, em vista também do revigoramento do carisma,

considerado que no interior das Regiões poder-se-ão criar várias Conferências inspetoriais (Const. 155), para garantir uma ligação mais estreita,

considerado que, continuando válida a importância da visita extraordinária para o conhecimento dos irmãos e da realidade de cada inspetoria, podem-se adotar outras modalidades de realização das visitas (por exemplo, com um visitador extraordinário que não coincida sempre com o Conselheiro regional), de modo a

3 CG 26, 108.111.

garantir o serviço de animação do Conselheiro regional como expressão de comunhão e coordenação,

em substituição das Regiões Europa Norte, Europa Oeste, Itália e Oriente Médio, institui os seguintes dois grupos de inspetorias:

– Região MEDITERRÂNEA, formada pela Circunscrição Itália Central, pela Circunscrição Piemonte e Valle d’Aosta e pelas inspetorias Itália Lombardo-Emiliana, Itália Meridional, Itália Nordeste, Itália Sicília, Oriente Médio, Portugal, Espanha-Barcelona, Espanha-Bilbao, Espanha- Leon, Espanha-Madri, Espanha-Sevilha, Espanha-Valência.

– Região EUROPA CENTRO E NORTE, formada pelas Inspetorias da Áustria, Bélgica Norte, Croácia, França- Bélgica Sul, Alemanha, Grã-Bretanha, Irlanda, Polônia- Cracóvia, Polônia-Piła, Polônia-Varsóvia, Polônia-Wroclaw, República Checa, Eslováquia, Eslovênia, Hungria e Circunscrição da Ucrânia.

13. VISITA EXTRAORDINÁRIA

88.    O Capítulo Geral 27,

em relação ao artigo 104 dos Regulamentos gerais,

considerado o parecer positivo das inspetorias consultadas e as motivações apresentadas,

considerado o parecer do Conselho Geral e as motivações apresentadas,

acredita que a visita extraordinária seja uma modalidade válida para animar de modo fraterno as inspetorias, as comunidades locais e cada irmão individualmente, além de instrumento jurídico de governo, previsto pelo CiC.

Acredita também que:

a) em relação ao número das inspetorias de uma região, às línguas faladas, ao número total dos irmãos, para consentir ao  Conselheiro  regional  realizar  as  demais atribuições  a ele confiadas pelas Constituições e pelos Regulamentos gerais, o Reitor-Mor, segundo quanto previsto pelo artigo

104 dos Regulamentos gerais, possa confiar, de acordo com o Conselheiro regional, a incumbência de fazer a visita extraordinária, além de ao Conselheiro regional, a outro membro do Conselho Geral ou a um ou mais irmãos por ele designados;

b) é necessário que cada região tenha um órgão de estudos e documentação, para apoio da ação do Conselheiro regional em vista também da visita extraordinária;

c)  é indispensável a escuta pessoal de cada irmão durante a visita extraordinária e o encontro com os organismos de participação e os leigos em postos de responsabilidade;

d) a preparação da visita extraordinária, o acompanhamento posterior e o encontro periódico com o inspetor e o Conselho inspetorial são elementos fundamentais para favorecer o apoio fraterno, a unidade com o Reitor-Mor e a aceitação das orientações dos Capítulos Gerais.

Portanto,

delibera que seja confirmada a modalidade da visita extraordinária, prevista pelo artigo 104 dos Regulamentos gerais.

14. VISITA DE CONJUNTO

89.    O Capítulo Geral 27,

considerada a praxe em uso que prevê, na metade do sexênio de governo do Reitor-Mor e do Conselho Geral, a realização em cada região de uma ou mais “Visitas de conjunto”,

porque acredita que ela seja um instrumento útil de animação, que permite com modalidades flexíveis,

-  o maior conhecimento das regiões,

-  a  partilha  de problemáticas  comuns  e  de  orientações da

Congregação,

-  a comunhão com o Reitor-Mor e o Conselho Geral,

-  a escuta direta dos Conselhos inspetoriais,

-   a  revisão  da atuação  das  deliberações  do  Capítulo Geral precedente,

confirma a validade da “Visita de conjunto” como instrumento de animação da Congregação, segundo modalidades flexíveis que permitam a escuta direta e a partilha.

15. COMISSÃO ECONÔMICA

90.    O Capítulo Geral 27,

visto o relatório do Ecônomo geral à Assembleia capitular,

considerada a necessidade de dar forma estável, para o nível mundial, ao que é previsto pelo art. 185 dos Regulamentos gerais,

pede ao Reitor-Mor e ao Conselho Geral a instituição de uma “Comissão Econômica”, composta por membros não residentes, salesianos e profissionais não salesianos, que colaborem estavelmente com o Ecônomo geral.

A Comissão econômica terá as seguintes atribuições:

a) analisar  os  orçamentos  e  os balanços  das  inspetorias  e visitadorias da Congregação;

b) apresentar um relatório anual ao Conselho Geral sobre o estado econômico e financeiro das inspetorias e visitadorias;

c)  estudar a alocação do patrimônio mobiliário da Direção geral no respeito dos critérios éticos e de gestão responsável e prudente dos recursos;

d) fazer a revisão das estruturas edilícias da Direção geral, do seu emprego, dos custos de manutenção ordinária e extraordinária;

e)  rever  o  orçamento  e  o  balanço  anual da  Direção geral, sugerir ações de melhoria segundo critérios de pobreza, funcionalidade, transparência, e informar as inspetorias e visitadorias sobre o emprego dos recursos;

f)  propor formas de solidariedade;

g) examinar  a  situação  de inspetorias  e  visitadorias  em dificuldade econômica e sugerir as intervenções necessárias;

h) examinar   anualmente  o   andamento   econômico  da Universidade Pontifícia Salesiana e da Visitadoria UPS, em vista da sua sustentabilidade;

i)  verificar anualmente os convênios em ato com a Circunscrição especial do Piemonte e Valle d’Aosta (iCP) para os lugares salesianos maiores (Valdocco Casa-Mãe, Colle Don Bosco);

j) oferecer  consultoria sobre  exigências  particulares do Economato geral ou problemáticas indicadas pelo Reitor-Mor e pelo Conselho Geral;

k) elaborar com o Ecônomo geral os programas dos cursos de formação dos ecônomos inspetoriais.

16. REPRESENTAÇÃO NO CAPÍTULO GERAL

91.    O Capítulo Geral 27

visto o artigo 114 dos Regulamentos gerais sobre a participação no Capítulo Geral,

visto o artigo 123 das Constituições que sanciona o princípio da participação dos irmãos na escolha dos responsáveis de governo e na elaboração de suas decisões, “segundo as modalidades mais convenientes” (Const. 123);

considerado que:

1.  de acordo com a sua natureza, o Capítulo Geral deve ter uma composição tal que seja representativa de toda a Sociedade, segundo o estabelecido pelo artigo 151 das Constituições, onde são elencados primeiramente os membros “ex officio” ou de direito e, depois, os delegados eleitos entre os professos perpétuos nas várias circunscrições da Congregação;

2.  para garantir a prevalência do número dos Capitulares eleitos em relação ao número dos membros participantes de direito no Capítulo Geral, foi codificado o procedimento da eleição dos delegados segundo o critério quantitativo;

3.  as progressivas unificações das inspetorias com números muito elevados, feitas na Congregação, e a presença de inspetorias com número exíguo de irmãos, torna necessária uma revisão dos critérios de eleição dos delegados ao Capítulo Geral, em vista de uma justa representatividade no mesmo, em relação ao número dos irmãos presentes na inspetoria,

modifica como segue o artigo 144 dos Regulamentos gerais:

As inspetorias com menos de duzentos professos e as visitadorias enviarão ao Capítulo Geral um delegado eleito pelos respectivos Capítulos. As inspetorias também enviarão outro delegado a cada duzentos professos ou fração. As demais eventuais circunscrições jurídicas de que se trata no artigo 156 das Constituições, terão a representação definida em seu decreto de ereção.

17. PESSOAL PARA OS LUGARES SALESIANOS

92.    O Capítulo Geral 27,

visto o pedido feito pelo Capítulo inspetorial da Circunscrição especial do Piemonte e Valle D’Aosta (iCP),

vista a linha de ação n. 1 do Capítulo Geral 26 que empenhava o Reitor-Mor com o seu Conselho a promover “uma equipe internacional de irmãos para a animação dos lugares de origem do carisma salesiano” (CG 26, 12),

considerada a importância histórica e carismática dos lugares salesianos que são patrimônio de toda a Congregação a ser conservado, promovido e valorizado,

considerada a necessidade de um projeto que valorize plenamente os lugares das origens salesianas em chave pastoral e vocacional, para os jovens e para a Família Salesiana, sobretudo em previsão do bicentenário do nascimento de Dom Bosco,

delibera que a busca do pessoal salesiano das comunidades de Turim-Valdocco “Maria Auxiliadora” e do Colle Don Bosco seja da competência do Reitor-Mor e do seu Conselho, no interior de um projeto global que empenhe o Conselho Geral, o Inspetor e o Conselho inspetorial ICP, a solidariedade de todas as inspetorias.

18. ATOS DO CONSELHO GERAL, PORTAL www.sdb.org, AGÊNCIA INFO SALESIANA

93.    O Capítulo Geral 27,

considerado o resultado da consulta das inspetorias,

considerado o parecer do Conselho Geral,

considerado que:

-   os Atos do Conselho Geral constituem o boletim oficial de informação do Reitor-Mor e do Conselho Geral;

-   o portal web www.sdb.org permite o conhecimento e a difusão de uma grande riqueza de conteúdos;

-   a  Agência  iNFO   Salesiana (ANS)  consolidou-se  como instrumento necessário de informação interna e externa à Congregação,

confirma a validade dos Atos do Conselho Geral, do portal web www.sdb.org, da Agência INFO Salesiana (ANS) como instrumentos de informação e de formação.

19. PROJETO DE ANIMAÇÃO E GOVERNO DO REITOR-MOR E CONSELHO GERAL PARA O SEXÊNIO

94.    O Capítulo Geral 27,

considerado o resultado da consulta das inspetorias, considerado o parecer do Conselho Geral, considerado que:

-   o Projeto de animação e governo do sexênio do Reitor-Mor e do Conselho Geral é um instrumento que permite indicar as linhas do projeto de animação e governo em nível mundial, a partir das orientações do Capítulo Geral;

-   ele permite, no interior do Conselho Geral, individuar os objetivos, criar sinergias e coordenar as intervenções nas formas e nos prazos;

-   o diálogo com as Regiões e com as Consultas mundiais dos setores específicos, antes de redigir o Projeto, favorece o envolvimento e permite colher expectativas e sensibilidades;

-   um texto essencial, operativo e verificável continuamente, com uma clara demarcação temporal das intervenções, favorece a comunicação e a harmonização com as programações das inspetorias e das Conferências inspetoriais,

confirma a validade do Projeto de animação e governo do sexênio redigido pelo Reitor-Mor e pelo Conselho Geral, para atuar as orientações do Capítulo Geral e responder às necessidades da Congregação.

ANEXOS

anexo 1
DISCURSO DO REITOR-MOR PADRE PASCUAL CHÁVEZ VILLANUEVA NA ABERTURA DO CG27

“Caminhai, pois, no Senhor Jesus como o recebestes, bem enraizados e fundados nele, inabaláveis na fé em que fostes instruídos,

com o coração a transbordar de gratidão” (Cl 2,6-7)

1. Uma palavra de saudação e boas-vindas

Eminência Reverendíssima

Card. joão Braz de Aviz,

Prefeito da Congregação para os institutos de Vida Consagrada e as

Sociedades de Vida Apostólica

Eminências Reverendíssimas

Card. tarcisio Bertone Card. Ricardo Ezzati Card. Raffaele Farina

Card. Oscar Rodríguez Maradiaga

Excelentíssimo Dom Gino Reali Bispo de Porto e Santa Rufina Excelentíssimo Dom Francesco Brugnaro,

Arcebispo de Camerino – Ex-aluno salesiano

Excelentíssimos Arcebispos e Bispos Salesianos

Gentilíssima Madre Yvonne Reungoat,

Superiora Geral do instituto das Filhas de Maria Auxiliadora

Caríssimos Responsáveis dos vários Grupos da Família Salesiana

Reverendíssimo Padre David Glenday,

Secretário Geral da União dos Superiores Gerais

Em nome de todos os Capitulares, agradeço-vos de coração pela acolhida do convite para estarem conosco compartilhando a alegria e a oração no dia de abertura do Capítulo Geral 27 da Sociedade de São Francisco de Sales. Apreciamos a vossa presença como sinal de proximidade fraterna e contamos com a vossa simpatia e as vossas orações pelo bom êxito desta Assembleia. Obrigado a todos.

Caríssimos irmãos Capitulares, inspetores e Superiores de Visitadorias, Delegados inspetoriais, observadores convidados, vindos do mundo todo para participar desta importante assembleia da nossa amada Congregação.

2. Guiados pelo Espírito

Domingo, 10 de novembro de 2013, último dia da visita à inspetoria de Calcutá, tive a graça de visitar, novamente, a casa-mãe das irmãs da Caridade de Madre teresa. Se na primeira vez fui acolhido por Madre Nirmala, desta vez foi Madre Prema a receber-me e acompanhar-

-me na oração diante do leito em que Madre teresa expirara, no mesmo quarto onde vivera até a sua Páscoa. Nossa oração continuou, depois, diante de sua sepultura, na Capela da Casa-Mãe.

Confesso-vos que, naquele momento, senti uma profunda inspiração sobre o que representa para nós a “radicalidade evangélica”, semelhante àquela vivida diante da urna do Padre Pio em julho passado. Os santos, em particular Padre Pio e Madre teresa, como Dom Bosco, testemunham-nos um modo de viver radicalmente o evangelho.

2.1 Na trilha da ‘radicalidade evangélica’

Naquele momento, naqueles lugares santos, rezei por toda a Congregação e pelo bom êxito espiritual e pastoral do nosso Capítulo Geral. Espero muito que esta experiência especial de oração e reflexão possa levar-nos a Cristo, à sua gramática, que é o seu Evangelho, e à sua lógica, que é a da cruz.

Gostaria de reiterar aqui que o que nos preocupa não é o futuro da Congregação, como se fosse uma questão de sobrevivência, mas principalmente a nossa capacidade de profecia, ou seja, a nossa identidade carismática, a nossa paixão apostólica, que é a verdadeira relevância social e eclesial, segundo o critério dado pelo próprio jesus: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (jo 13,35).

identidade carismática e paixão apostólica são dadas pela “radicalidade evangélica” que não é outra coisa senão a contemplação de Cristo numa forma tal que nos permite ser, aos poucos, a Sua imagem fiel. A conformação com Cristo, por outro lado, consiste em apropriar-se do seu modo de ser e agir obediente, pobre e casto, cheio de compaixão pelos mais pobres, amando-os e amando a pobreza, fazendo dela uma verdadeira bem-aventurança, a ponto de vivê-la com alegria, humildade e simplicidade.

2.2 Escutando o Senhor

Eis a importância desta assembleia, que nos é oferecida como um kairós, um momento forte de graça, na história da Congregação e, portanto, na história da salvação, enquanto a mesma Congregação participa da comunhão e da missão da igreja, até quando o Senhor o quiser.

Na vida da Igreja

Parece-me  obrigatório  referir-me aqui  ao  modelo  cativante e carismático introduzido na igreja pelo Papa Francisco. Com seus gestos, suas atitudes e intervenções já a está renovando profundamente, procurando iluminar as mentes, aquecer os corações e reforçar as vontades de todos com a luz e a energia do Evangelho para fazer de  todos  nós testemunhas  corajosas,  “discípulos missionários  de Cristo”, enviados ao mundo, sem temor, para servir os mais pobres e marginalizados e assim transformar esta sociedade. Não creio que, como Congregação, possamos ficar indiferentes ou distantes; através d’Ele, estou convencido, o Espírito está a falar às igrejas e propõe-nos uma verdadeira “conversão pessoal e pastoral”.

Evidenciaria, primeiramente, as suas atitudes e os seus gestos. Não são apenas notícia para a crônica dos jornalistas, que estão a dar grande relevância a tudo o que faz, e, também, como o faz. Eles já comunicam a sua visão de igreja, o seu magistério e a sua forma de governo.

Com efeito, desde a sua primeira fala aos Cardeais eleitores, o Papa Francisco propôs um modelo de igreja em sintonia com as grandes opções do Vaticano ii – embora não fale muito sobre ele; naturalmente, em harmonia com a nova evangelização – embora não o sublinhe explicitamente –; sob o influxo da pastoral latino-americana, desde Medellín, com a opção pelos pobres, até Aparecida com a opção de uma igreja formada por discípulos missionários de Cristo plenamente inseridos na realidade cotidiana.

A primeira coisa a assinalar no Papa Francisco é, justamente, o seu conservar-se atento à realidade concreta, mas com uma delicada sensibilidade pastoral, procurando contemplar a Deus em tudo e a tudo contemplar com o olhar de Deus. Dessa forma, podemos descobrir a necessidade de salvação, própria desta sociedade, e a urgência de iniciar processos de transformação adequados a torná-la mais humana e fraterna, em maior consonância com o plano de Deus. Ele procura fazer tudo isso mantendo e construindo a unidade, sem exasperar as dinâmicas sociais.

É esta a igreja que o Papa Francisco se sente chamado a construir na fidelidade a jesus e ao seu Evangelho: uma igreja a serviço deste mundo.  trata-se  de  uma igreja  livre  da  mundanidade  espiritual que leva à vaidade, à prepotência, ao orgulho; elementos todos que constituem uma verdadeira idolatria. Ele quer uma igreja livre do narcisismo teológico, da tentação de congelar-se no próprio quadro institucional, do risco da autorreferência, do emburguesamento, do fechamento sobre si mesma, do clericalismo.

trata-se, ainda, de uma igreja que seja verdadeiramente o corpo do Verbo feito carne e, como Ele, encarnada nesta realidade, atenta aos mais pobres e aos que sofrem; uma igreja que não pode reduzir-se a uma pequena capela, sendo chamada a ser uma casa para toda a humanidade; uma igreja sempre em caminho em direção aos últimos, aos quais exprime a sua predileção sem abandonar os demais; uma igreja que se sente bem nas fronteiras e nas margens da sociedade.

isso não significa que a igreja deva fazer de todos os homens e mulheres do mundo seus filhos, e também não quer dizer que devamos pressionar para que todos entrem nela. A igreja do Papa Francisco quer oferecer-se como lugar aberto em que todos possam estar e encontrar-se, porque nela há espaço para o diálogo, a diversidade, a acolhida. Não devemos obrigar o mundo a entrar na igreja; é a igreja que deve acolher o mundo como o mundo é, isto é, como lugar de salvação.

O sonho deste Papa é uma igreja que saia às estradas para evangelizar, para tocar com as mãos o coração das pessoas; uma igreja pronta a servir, que se propõe chegar não só às periferias geográficas, mas as da existência onde, por vezes, os nossos irmãos e irmãs lutam para viver; uma igreja pobre, que privilegia os pobres e dá-lhes voz, que vê nos idosos, nos doentes ou nos jovens portadores de deficiência as “chagas de Cristo”; uma igreja que se empenha em superar a terrível cultura da indiferença em que vivemos e que leva à violência aquele que se sente sempre mais frustrado, explorado e marginalizado; uma igreja que dá uma justa atenção e importância às mulheres, tanto na sociedade como no interior de suas instituições.

Muitos destes elementos podem ser encontrados nas crônicas e nas reportagens de jornais, semanários ou revistas religiosas como se fossem simples episódios curiosos. Contudo não é assim. Aquilo que o Santo Padre está a nos propor de forma simples e cotidiana são elementos de um magistério rico de novidade evangélica! Há aqui uma nova concepção de igreja! Há aqui um novo modo de pensar o mesmo governo da igreja! Há muito a aprender!

Ao falar aos Bispos do Brasil, ele dizia: “Parece que a igreja se esqueceu de que não há nada de mais elevado do que jerusalém, de mais forte do que a fragilidade da cruz, de mais convincente do que a bondade, o amor, o ritmo veloz dos peregrinos; porque a nossa não é, de fato, uma maratona, mas uma peregrinação”. É preciso, portanto, adequar o passo ao do povo que devemos acompanhar, para encontrar tempo de estar com aqueles que caminham, para poder acompanhá-los cultivando a paciência, a capacidade de escuta e a compreensão de situações tão diversas. Não é preciso viajar velozmente a ponto de não se ver nada do que nos rodeia!

Dirigindo-se no Rio de janeiro aos dirigentes da política e da cultura, o Papa quis sublinhar a importância da cultura do encontro para promover uma sociedade que consiga dar espaço a todos, a não excluir ninguém, a não fazer dos homens um material descartável. Uma cultura do encontro que deve eliminar a marginalização social dos jovens, aos quais, muitas vezes, é negada a possibilidade de trabalho e de futuro.

Sobretudo no discurso aos jovens, o Papa os convidava a pôr em jogo a própria vida, a investir suas energias na construção da igreja e da nova sociedade, a gastar a vida pelas coisas pelas quais vale a pena viver, em especial jesus Cristo e o serviço aos pobres, sem deixar que lhes arrebatem a esperança e a alegria e sem ceder às promessas de paraísos de felicidade a baixo custo.

A igreja, às vezes, não tem vitalidade, não tem fascínio, não tem visibilidade e credibilidade para continuar a atrair a si os homens e as mulheres deste tempo, sobretudo as novas gerações. Em menos de um ano de pontificado, o Papa Francisco apresentou-se como uma aragem nova do Espírito que está tirando a poeira da igreja, que está fazendo diminuir a burocracia, que está tornando mais pobre e simples a igreja, e, sobretudo, está levando-a a sair às estradas do mundo para evangelizar. Fez perceber que a igreja é uma Mãe cheia de ternura e de amor, de doçura, de humildade, de paciência. E ensinou-o com os seus gestos, com as suas atitudes e com as suas opções pessoais, com o seu modo de relacionar-se com o mundo.

Caros Capitulares, isso tudo representa um exemplo admirável e um estímulo poderoso para nós! Se quisermos levar os jovens ao encontro do mistério de Deus, isso deve acontecer mediante grandes experiências de amor, que abram o coração e não transmitam apenas ideias ou conhecimentos sobre Ele. E deve ser atuado por nós na escassez dos nossos meios. De fato, como o Papa Francisco disse aos Bispos brasileiros, a igreja não é um “transatlântico”, mas uma pequena barca, uma simples barca de pescadores. O que significa que Deus atua através de meios pobres. O sucesso não pode apoiar-se na suficiência humana, mas na energia e na criatividade de Deus. E tudo isso é claramente válido também para nós.

No caminho da Congregação

Parece-me importante reconhecer, entender e assumir este esplêndido momento eclesial que estamos vivendo. Sem excessivas pretensões, diria que o caminho que estamos vivendo como Congregação e como Família Salesiana, em preparação ao bicentenário do nascimento do nosso amado Pai e Fundador Dom Bosco, está justamente nessa linha. Como Capitulares, estamos cientes, estou certo disso, de que este evento pede a todos e a cada um de nós a máxima responsabilidade, para poder escutar a voz do Senhor, discernir a sua vontade e assumi-lo como projeto de vida. Só assim teremos a capacidade de ler a realidade juvenil de hoje e enfrentá-la como o fez Dom Bosco ontem.

Gostaria de convidar-vos, então, a colocar no centro da nossa Assembleia, já a partir desta celebração de abertura do Capítulo Geral, a Palavra de Deus, de modo que seja Ele a fazer-nos entender o que Cristo quer hoje da Congregação. Sabemos o que Ele pediu a Dom Bosco e como ele entregou toda a sua existência “à glória de Deus e à salvação das almas” para realizar o ‘sonho’ de Deus e confiá-lo a nós para continuá-lo, expandi-lo e consolidá-lo.

Hoje, muita gente não chega a crer em Cristo porque o seu rosto está ofuscado ou até mesmo escondido por instituições religiosas que  carecem  de  transparência.  Sofremos  muito  nos  últimos  12 anos devido a inúmeros acontecimentos desagradáveis nos quais se encontram muitos irmãos e inspetorias. Entretanto, estou certo de que, com a ajuda de Deus, estes males poderão ser superados plenamente e esta experiência dolorosa levará a Congregação a recuperar o seu esplendor e a sua credibilidade justamente onde vieram a faltar. Em todo caso, para que isso seja possível é preciso enfrentar os problemas com humildade e coragem.

Demos, agora, um passo adiante colocando-nos a questão sobre qual é, neste momento, a vontade de Deus a nosso respeito como instituição. Estou convencido de que como para a igreja também para a nossa Congregação, a sua identidade, unidade e vitalidade seja o summum desideratum da parte de Cristo, que quer que os seus discípulos sejam “sal da terra”, “luz do mundo”, “cidade construída sobre o monte” (cf. Mt 5,13-16).

Desafios a enfrentar

Graças a Deus, a Congregação, até agora, não sofreu divisões e foi muito amada e abençoada pelo Senhor. Graças a Deus, ela cresceu muito nestes 150 anos, multiplicando as suas presenças no mundo todo. Hoje, porém, novos e poderosos desafios apresentam-se no horizonte. Em meu modo de ver, e com a experiência destes 12 anos de governo, os desafios aos quais devemos dar atenção especial, são três:

A vida de comunidade

Antes de vir a faltar, o padre Vecchi, na carta de convocação do CG25, acreditava que a vida de comunidade fosse não só um tema a estudar, mas, sobretudo, um elemento de mudança e renovação da vida da Congregação. Estava convencido de que se fôssemos capazes de criar comunidades ricas e fascinantes do ponto de vista humano, animadas ao mesmo tempo por uma grande tensão espiritual, a ponto de nos lançar novamente entre os jovens como seus companheiros de caminhada, a Congregação se renovaria profundamente.

A vida em comum não encontra maior segurança apenas na sua consistência quantitativa, o que não é indiferente, mas fundamenta-se principalmente na capacidade ou não de criar relações interpessoais profundas. O grande desafio é justamente passar da vida comunitária à comunhão de vida. Às vezes, a vida de comunidade arrisca-se a degradar-se numa espécie de comunitarismo; de fato, viver reunidos nos mesmos ambientes, unidos nos tempos de oração e nos lugares de trabalho não comporta necessariamente compartilhar o que se sente, o que se pensa e se quer, o que nos faz realmente companheiros de estrada; viver em comum não é de per se compartilhar um projeto carismático, uma missão apostólica.

No Conselho Geral, nós nos esforçamos para renovar as comunidades, procurando superiores, inspetores e diretores, que fossem realmente a alma de suas comunidades (inspetoriais ou locais) e fossem, antes de tudo, pessoas com uma tríplice concentração.

Primeiramente, a concentração carismática no sentido de que o superior deve ser o ponto de referência em relação à identidade salesiana. O seu exercício de autoridade, que se transmite através da presença paterna e benévola entre os irmãos, promove a criação da

‘cultura salesiana’: boas-noites, seleção de leituras, tipo de retiros que se fazem, acompanhamento espiritual que se oferece aos irmãos.

Um segundo aspecto, para o diretor ou o inspetor, é representar a especial concentração de fraternidade. Devemos escolher e formar superiores com verdadeira paternidade espiritual, que tenham a capacidade de criar clima de fraternidade, espírito autêntico de família, que estejam sempre dispostos a acolher e acompanhar os irmãos.

A terceira dimensão é a concentração pastoral. Esperamos ter superiores capazes de serem realmente a alma e o coração do projeto pastoral, sobretudo num momento como este, em que há uma grande participação da missão e dos encargos importantes com os leigos.

Para isso, é necessário dedicar-se totalmente, alma e corpo. Não é possível realizar part time as funções que nos são confiadas, menos ainda as que se referem ao exercício da autoridade.

Os jovens

Quando ouvimos o Papa Francisco dizer que “não podemos manter as portas fechadas, que devemos abrir as portas e mantê-las abertas, sair para a estrada”; que ele prefere “uma igreja acidentada na estrada a uma igreja que morre de asfixia”, sinto-me confirmado numa convicção profunda que tenho exprimido há tempo: se não formos ao encontro dos jovens – especialmente daqueles que não vêm até nós

–, se nos contentarmos com os milhares de jovens que frequentam nossas obras e, apesar disso, pensarmos conhecer e servir os jovens, estamos redondamente errados. O grande desafio atual é, de fato, como alcançar os jovens mais distantes e em maiores dificuldades, como chegar realmente ao mundo deles, como entender a cultura deles, a sua linguagem, as suas carências, as suas expectativas. Permanecendo fechados em nossas obras, o risco é pensar que estamos vivos pastoralmente, enquanto estamos morrendo de asfixia. Os jovens, in primis aqueles que não nos buscam e vagam sem bússola pela vida, são a nossa pátria, a nossa missão.

Pessoalmente, gostaria de dizer-vos que um dos grandes dons que o Senhor me concedeu, foi o de ser chamado a viver entre os jovens, a amar os jovens. Vo-lo confesso! Não posso entender a minha vida, o meu ministério sem pensar nos jovens! Para mim, eles nunca foram um passatempo, uma fase da história da vida salesiana, como quando era tirocinante; ou melhor, foi justamente ali, durante o tirocínio, que comecei a entender que era para eles que o Senhor me chamava a gastar a minha vida.

Os jovens tornaram-se um enorme desafio para nós. O grave risco que corremos e, ao mesmo tempo, a grande tentação pela qual podemos ser subjugados, é o de sermos administradores de obras, deixando de ser pastores-educadores dos jovens. A isso nos pode levar a idade ou uma cultura salesiana não correta ou também uma maneira limitada de entender a missão identificada, muitas vezes, com a gestão de obras. Se não conseguirmos retornar para o meio deles e trabalhar não só para eles, mas também com eles, realmente não conseguiremos conhecê-los, entendê-los e, sobretudo – o que é mais trágico – amá-los. “Basta que sejais jovens para que eu vos ame muito”. O grito de Dom Bosco não pode ser sufocado. Ele deve ser transmitido continuamente pela nossa vida.

Quando o Papa afirma que o pastor deve ter o cheiro das ovelhas, recorda-nos a nossa experiência salesiana, aquela que todos nós fizemos quando vivíamos entre os jovens, brincando com eles e suando com eles. É uma expressão muito eloquente, mas, sobretudo em sintonia com o que Dom Bosco viveu e com o que vivemos muitos de nós. Na carta de convocação do Capítulo Geral precedente, eu escrevera que os jovens eram muito sensíveis a três valores particulares

– a liberdade, a vida e a felicidade – que, às vezes, podem ser mal compreendidos e levar a desvios perigosos. Hoje, não falaria mais de desafios próprios dos jovens; cheguei à convicção de que para nós o desafio são os próprios jovens, o seu mundo, a sua cultura.

A vocação e a formação

O terceiro desafio que a Congregação é chamada a enfrentar é o ponto que se refere à “vocação e formação” dos Salesianos. Considero este tema de vital importância. Por isso quis fazer dele objeto da última carta do meu reitorado. tão estratégica considero a problemática vocacional e formativa!

infelizmente são muitíssimos os irmãos, e não só jovens, que vivem a vida salesiana como se fosse um voluntariado. Começa-se quando e onde se quer; e ela é interpretada, vivida e abandonada por que e como se quer. Não se pensa num plano salvífico, numa vontade de Deus que me envolve de modo tal a fazer-me ver que vale a pena vivê-lo e torná-lo realidade, dando uma mão – a própria vida – a Deus. Sem esta perspectiva de fé, com motivação meramente social, vive-se a vocação como um serviço livre e temporário, numa forma arbitrária, sem qualquer referência a um projeto definitivo.

Na última visita feita à inspetoria de Calcutá, tive a oportunidade de encontrar-me com os Superiores religiosos daquela região.  Comunicando-me  com  eles,  referi-lhes  um  fato  que  me tinha impressionado durante o Simpósio sobre a Vida consagrada, organizado pela USG e pela UiSG, realizado em Roma. Nessa ocasião, uma teóloga, representante da Ásia Sul, evidenciara um problema encontrado em seu país. Dizia que “as pessoas, quando querem resolver suas particulares necessidades sociais, costumam vir até nós, mas, quando precisam de experiências espirituais, procuram alhures”. Na mesma circunstância, dialogando com a Superiora Geral das irmãs da Caridade fundadas por Madre teresa,  ela me confirmou que, de fato, é realmente assim. O que está matando o sentido mais profundo da vida consagrada é o fato de ela ser conhecida e valorizada apenas pelo serviço social realizado por muitas Congregações. Acontece então que os consagrados são considerados como social services providers e nada mais. Esta visão distorcida é, muitas vezes, uma das causas da diminuição das vocações.

Essa dupla observação ficou muito impressa em meu coração. Creio que aquilo que continua a ser um grande desafio para todos nós é a graça de unidade, que harmoniza a nossa entrega a Deus e o nosso serviço aos irmãos. Vivendo como Dom Bosco, deveríamos realizar em nós uma esplêndida convergência entre natureza e graça, vivendo o nosso ser consagrados a Deus e, ao mesmo tempo, entregues incansavelmente aos destinatários (cf. a apresentação de Dom Bosco no artigo 21 das Constituições).

também  pretendi  reafirmar na  última carta  circular,  que  a nossa vocação é, antes de tudo, uma vocação gratuita de Deus, que deve ser acolhida cultivando o esforço da formação permanente. já é um fato preocupante que muitos dos que batem às nossas portas para entrar na Congregação não provenham das nossas obras, ou seja, que não tenham um adequado background salesiano e familiar. Para muitos irmãos, o carisma não foi assimilado, quase por osmose, desde a pré-adolescência, como, de fato, costumava acontecer entre nós, no passado. Mais ainda, não poucos irmãos tiveram, não raramente, experiências que não os favoreceram na opção de vida salesiana. Acrescente-se a isso que, nem sempre, quem faz a seleção vocacional escolha pessoas com uma psicologia proativa, pessoas com iniciativa, capazes de tomar decisões corajosas e organizar a própria vida ao redor delas.

Vemo-nos hoje, na formação, a responder à tríplice problemática que brota da fragilidade psicológica, da inconsistência vocacional e de certo relativismo ético. Em nosso recente encontro de Superiores Gerais, o Papa Francisco insistiu na importância da seleção, que deve ser cuidadosa e responsável. É preciso, disse, não aceitar pessoas doentes mentalmente ou corrompidas moralmente. As pessoas que pensam, sobretudo, em si mesmas e não aceitam ser um dom de Deus para os outros, não servem para a nossa causa.

Nós Salesianos fomos formados prevalentemente, sobretudo, para criar ambiente comunitário, conduzir e animar grupos de jovens, mas nem sempre fomos habituados a acompanhar pessoas em seu itinerário pessoal humano e espiritual. Às vezes, em nossos ambientes educativos, mas também nas casas de formação, acolhemos meninos e  jovens  com  backgrounds  familiar,  social, religioso,  salesiano muito diferentes e, com pouca sabedoria formativa, colocamo-los todos juntos, ignorando tudo o que viveram anteriormente, para simplesmente fazerem as mesmas coisas. É evidente que tudo isso não é formar interiormente uma pessoa, mas conformá-la a um ambiente, a situações e regras externas. É claro que, se Deus me chama, me chama não só com o meu temperamento, mas também com a minha história, com as minhas sensibilidades, com as minhas qualidades, e com um percurso vital já feito. Formar os nossos jovens e os nossos irmãos, tendo em conta tudo isso, é muito empenhativo, muito mais difícil. insisto, pois, que a formação é um problema nevrálgico e, para atuar uma formação adequada, precisamos de formadores novos, capazes de entender, motivar, corrigir, acompanhar, entusiasmar. Põe-se, portanto, também o tema de preparar novos formadores e requalificar os que já atuam nessa missão.

Tarefas do Capítulo

Por isso, a Congregação é chamada neste Capítulo, que representa um momento extraordinário para a preparação espiritual e carismática da celebração do bicentenário do nascimento de Dom Bosco, a conhecer sempre mais profundamente o seu Fundador e Pai e assumir com convicção a sua experiência pedagógica, o seu sistema preventivo e a fazer própria com convicção a sua espiritualidade marcada pela caridade educativo-pastoral. A Congregação é chamada neste Capítulo a renovar-se de tal modo que possa ter o frescor das suas origens, o impulso missionário da sua adolescência, o dinamismo da sua juventude, a santidade da sua maturidade.

Precisamos recuperar fecundidade espiritual sendo santos, enquanto vivemos o dom precioso da nossa vocação salesiana; fecundidade pastoral enquanto  realizamos  a  missão salesiana  em favor dos jovens; e fecundidade vocacional enquanto ajudamos os jovens a entender a vida como vocação, descobrir a beleza do “viver para os outros”, pôr em jogo a própria existência pelas causas que valem a pena serem assumidas. Acompanhando-os com o mesmo amor de Dom Bosco e caminhando ao lado deles, queiramos ajudá-los a amadurecer projetos de vida verdadeira.

A unidade da Congregação não significa, porém, uniformidade. Os Salesianos, com efeito, são chamados a encarnar e inculturar o carisma de Dom Bosco em contextos muito diversos do ponto de vista social, econômico, político, cultural, religioso. É evidente, portanto, que o Capítulo deva abrir as portas para uma discussão que tenha em consideração todos estes elementos. todos são livres de exprimir os seus pensamentos sobre a missão atual da Congregação e a respeito dos desafios mais urgentes. Ao mesmo tempo, todas as propostas devem ser encontradas na linha e no espírito do Evangelho, na fidelidade ao que nos indicam as Constituições, que são a nossa forma salesiana de ler e querer viver o Evangelho, e em conformidade com o que constitui a sadia tradição da Congregação, fruto da sua história.

Leis e tradições, que são puramente acidentais, podem certamente ser mudadas, mas nem toda mudança significa progresso. É preciso discernir se essas mudanças contribuem verdadeiramente para reafirmar a identidade, reforçar a unidade, promover a vitalidade, a santidade da Congregação. Deve-se evitar, decerto, toda mudança que não tenha estes processos positivos como critérios.

isso tudo será possível, se deixarmos que o Espírito Santo continue a animar e renovar a nossa vida, impulsionar a nossa missão, tornar fecundas as nossas presenças. Ele transcende qualquer análise sociológica ou previsão histórica. Supera os escândalos, as políticas internas, os arrivismos e os problemas sociais que poderiam ocultar o rosto de Cristo que, contudo, deve brilhar também através das densas nuvens da complexidade atual.

2.3 Relendo hoje o carisma

A vida consagrada na Europa foi analisada na assembleia da União dos Superiores Gerais de novembro de 2011 e percebeu-se uma situação alarmante motivada por alguns fatores determinantes. Entre estes, o envelhecimento do pessoal, o fluxo vocacional fraco ou nulo, o desequilíbrio entre pessoal disponível e obras a administrar. O quadro, embora preocupante, entretanto, não deve ser considerado desesperador. De fato, sempre são possíveis novos projetos e campos de missão.

Um dado foi ressaltado: muitos dos institutos de vida religiosa apostólica foram fundados depois da revolução francesa, em uma sociedade e para uma sociedade em que tudo estava desagregado do ponto de vista espiritual e moral. É preciso, porém, que os religiosos esclareçam  os  objetivos fundamentais  da  própria presença  no mundo de hoje,1  fazendo referência aos elementos fundamentais que caracterizaram o seu surgimento.

Urgência de conhecer as origens

O convite dos Superiores Gerais a olhar para as origens não era motivado pela nostalgia do passado, mas pela necessidade de saber como os Fundadores e os institutos religiosos enfrentaram os desafios sociais e as necessidades apostólicas do seu tempo e como lhes responderam. Ao mesmo tempo entendiam perguntar-se como é possível responder hoje na fidelidade renovada ao carisma original

aos desafios da missão, da educação e da evangelização, num clima espiritual e cultural muito semelhante (hoje, na Europa, mas com tendência constante a expandir-se ao mundo todo) ao de então. De fato, as duas épocas (a dos nossos Santos Fundadores do século 19 e a nossa) resultam ter um caráter semelhante enquanto deram lugar a “viradas epocais”.

O convite dos Superiores Gerais parece oportuno e necessário; é preciso ir às raízes do surgimento de tantas congregações. Elas apareceram num momento histórico preciso, como resposta do Espírito a demandas precisas da sociedade e da igreja. Cabe-nos, hoje, a tarefa de interrogar-nos para ver como podemos responder em nosso momento histórico às atuais necessidades dos jovens e às exigências

1 Cf. E. BIanChI, Testimoni, número 14 de 2011.

da sociedade e da igreja, sem nos reduzirmos, porém, a simples provedores de serviços sociais. E devemos fazê-lo “investigando novamente” o carisma das origens para colher a sua atualidade e capacidade de responder a essas demandas.

Durante este triênio de preparação ao bicentenário do nascimento de Dom Bosco, mas ainda desde o Capítulo precedente com o seu apelo a “retornar a Dom Bosco” nós nos perguntamos como ele se moveu no seu tempo. Ele fundou a Congregação num período em que já começava a afirmar-se um clima de descristianização. Entretanto, ele soube encontrar estratégias, modalidades e uma proposta especial de formação humana e cristã para ir ao encontro dos adolescentes e jovens que deixavam o campo e iam a turim sem casa, sem preparação profissional, sem pontos de referência, vulneráveis à exploração e à delinquência.

Como outros Fundadores seus contemporâneos, Dom Bosco sentiu profundamente a urgência e a necessidade da formação das consciências, primeiramente as das pessoas e das instituições centrais para a sociedade. Eis, então, a atenção ao mundo juvenil (mediante a escola e outros ambientes próprios dos jovens), à família (lugar de convergência de muitos fatores vitais), à catequese (para a formação cristã não superficial), à pregação (para o anúncio atualizado da Palavra de Deus). São todos setores de apostolado que ele nos deixou em herança. São âmbitos nos quais nos devemos empenhar com ação profissional e paixão apostólica.

Hoje, como então, o desafio é o mesmo: reconduzir os valores do Evangelho, mediante a educação, à vida moral, social, cultural, política, não certamente para recriar uma nova “cristandade” e nem para recuperar espaços ou privilégios perdidos, mas para contribuir à formação de uma cultura individual e coletiva que saiba colocar em primeiro plano as necessidades reais da pessoa humana.

Significado histórico e eclesial de Dom Bosco

No meu modo de ver, contudo, a contribuição original de Dom Bosco deve ser buscada, antes de nas muitíssimas “obras” e em alguns elementos metodológicos  relativamente  originais,  como  o  famoso “sistema preventivo de Dom Bosco”:

- na percepção intelectual e emotiva que ele teve do peso universal, teológico e social do problema da juventude “abandonada”,  isto  é,  da  enorme  porção  de  jovens  dos quais não se ocupava ou se ocupava mal, com soluções não adequadas;

-  na intuição da presença em turim, antes – na itália e no mundo, depois –, de uma forte sensibilidade, no civil e no “político”, do problema da educação da juventude e da sua compreensão por intelectuais atentos à situação social e eclesiásticos abertos a novas respostas e, em geral, por um grande estrato da opinião pública;

-  na ideia de iniciar intervenções obrigatórias em larga escala no mundo católico e civil, como necessidade primordial da vida da igreja e para a mesma sobrevivência da ordem social;

-  e na capacidade de comunicar o seu projeto envolvendo largas fileiras de colaboradores, benfeitores e admiradores.

Nem político, nem sociólogo, nem sindicalista ante litteram; simplesmente padre-educador, Dom Bosco partiu da ideia de que a educação podia muito, em qualquer situação, ser realizada com o máximo de boa vontade, empenho e capacidade de adaptação. Empenhou-se em mudar as consciências, formar para a honestidade humana, para a lealdade cívica e política e, nessa perspectiva, para “mudar” a sociedade, mediante a educação.

transformou os valores fortes nos quais acreditava – e que defendeu contra todos – em fatos sociais, em gestos concretos, sem dobrar-se à dimensão espiritual ou ao âmbito eclesial entendido como espaço alheio aos problemas do mundo e da vida. Antes, forte de sua vocação de sacerdote educador, cultivou um estilo de vida cotidiano que não era ausência de horizontes, mas dimensão encarnada do valor e do ideal. Não queria que fosse um nicho protetor e uma renúncia ao enfrentamento aberto, mas um sincero confrontar-se com uma realidade mais ampla e diversificada. Suas opções não eram no sentido de recusar toda tensão, todo sacrifício exigente, todo risco, toda luta. teve para si e para os salesianos a liberdade e a altivez da autonomia. Não quis ligar a sorte da sua obra à imprevisível alternância dos regimes políticos. A glória de Deus e a salvação das almas eram seu único projeto.

3. O Capítulo Geral

Quis colocar a citação da carta aos Colossenses no início deste discurso de abertura porque me parece expressar muito bem o que somos chamados a fazer neste Capítulo Geral.

Com efeito, mediante uma acalorada parênese, Paulo nos diz que devemos viver em Cristo, permanecendo fiéis ao Evangelho contra qualquer falsa teoria. Se a exortação a “caminhar no Senhor” é apelo a uma vida que corresponda à vocação que recebemos, a expressão “bem enraizados e fundados nele, inabaláveis na fé”, que se serve de imagens tomadas da natureza (‘raiz’) e da edilícia (‘fundamento’), está a reafirmar a exigência absoluta da íntima ligação com Cristo. O termo da comparação “em que fostes instruídos”, em paralelo com o “como o recebestes”, exprime a ligação com o que é essencial e perene, não dependendo das sensibilidades culturais.

Sendo verdade que todo Capítulo Geral é um acontecimento que supera na substância a simples realização formal do que é prescrito pelas  Constituições,  com  maior  razão,  acredito  que  deva  sê-lo  o CG27. Ele será um evento pentecostal, que terá o Espírito Santo como principal protagonista. Por isso, será realizado entre memória e profecia, entre gratidão fiel às origens e abertura incondicional à novidade de Deus. E todos nós seremos sujeitos ativos, com as nossas responsabilidades e expectativas, ricos de experiência, disponíveis à escuta, ao discernimento, à acolhida da vontade de Deus sobre a Congregação.

Deste ponto de vista, o CG27 tem em mira algo de novo e inédito. impele-nos a urgência da radicalidade evangélica. Somos chamados a retornar ao essencial, a ser uma Congregação pobre para os pobres e a reencontrar inspiração na mesma paixão apostólica de Dom Bosco. Somos convidados a beber nas fontes originais do carisma e, ao mesmo tempo, abrir-nos com audácia e criatividade a modalidades novas para exprimi-lo hoje.

Para nós, é como descobrir novas facetas de um mesmo diamante, o nosso carisma, que nos permite responder melhor às situações dos jovens, compreender e servir às suas novas pobrezas, oferecer novas oportunidades para o seu desenvolvimento humano e a sua educação, para o seu itinerário de fé e a sua plenitude de vida.

3.1 Atitudes de participação

Como viver então a experiência capitular de forma construtiva? Que tipo de empenho assumir da parte de cada capitular? Com quais atitudes participar do Capítulo Geral?

A consciência de sermos convocados por Deus desperta em nós o espírito profético, que comporta o sentido de dependência d’Ele e a aceitação profunda da missão que Ele nos confia. O que exige de nós deixar ao Espírito Santo o protagonismo para que seja Ele a fazer-nos conhecer a vontade de Deus, o que lhe é bom e agradável. De nós se pede uma escuta contínua, humilde, obediente, em atitude de discernimento e de confronto sobre a vida da Congregação e o nosso carisma, que é um grande dom de Deus à igreja e aos jovens.

O   CG27   propõe-nos   o   envolvimento   total   das   nossas pessoas. Somos todos chamados a viver este acontecimento com responsabilidade, perceber a sua importância vital e reavivar todos os dias o interesse e a disponibilidade ao caminho que o Espírito nos leva a trilhar.

O discernimento à luz do que o Espírito nos vai querer revelar, exige da assembleia e de cada capitular em particular reflexão séria, oração serena e profunda, contribuição pessoal, consciência da própria adesão, escuta de Deus e de si mesmo.

Estou certo de que os dias vividos nos Becchi e em turim, os  Exercícios  Espirituais  e também  os  dois  dias  de  apresentação da Congregação através do relatório dos Setores e das Regiões contribuíram para criar este clima espiritual.

O Espírito age, sopra o seu hálito de vida e derrama as suas chamas de fogo onde há uma comunidade reunida no nome de Cristo e unida pelo amor. É a comunhão dos corações que nos convoca ao redor do mesmo projeto apostólico, o de Dom Bosco, e torna possível a unidade na pluralidade dos contextos, das culturas, das línguas.

É o Espírito que nos faz ouvir a voz de Deus na história. E hoje a situação do mundo e da igreja pede-nos para caminhar com o Deus da história. A vocação cristã, em geral, e a vocação religiosa, em particular, são marcadas pela dimensão profética, que nos leva a ser

‘sentinelas’ do mundo e ‘sensores da história’, capazes de ler os sinais dos tempos e dar vida a novos sinais e dinamismos transformadores da história, o que tem a ver com a nossa identidade, credibilidade e visibilidade.

A abertura às demandas, às provocações, aos estímulos e aos desafios do homem moderno, em nosso caso, dos jovens, liberta-nos de toda forma de esclerose, de atonia, de bloqueio, de emburguesamento e coloca-nos em caminho “no passo de Deus”. Só assim poderemos superar o risco – nada imaginário – da ‘mundanidade espiritual’, da autorreferência e do narcisismo teológico, estigmatizados pelo Papa Francisco desde o início de seu pontificado.

Elemento típico de Dom Bosco e da Congregação sempre foi a sensibilidade histórica e, hoje, mais do que nunca, não podemos descuidar dela. Ela nos tornará atentos às demandas da igreja e do mundo. Far-nos-á “caminhar” e “sair” à busca dos jovens. O que deve traduzir-se num documento capitular essencial, corajoso, capaz de encher de fogo o coração dos irmãos. Eis porque é importante a leitura dos “sinais dos tempos”, alguns dos quais eu quis indicar com a carta de convocação do CG27 nos ACG 413.

Não se pode ser ‘testemunhas da radicalidade evangélica’ sem viver fundados em Cristo. Esta é a única garantia segura de construir sobre a rocha. Entre as numerosas tentativas de renovar a vida consagrada nos últimos 50 anos, falou-se de ‘refundação’. Pois bem, adverte-nos São Paulo: “Cada um esteja atento em como constrói. De fato ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está ali, que é jesus Cristo” (1Cor 3,10b-11).

A explicação é muito simples: a nossa comunidade e a nossa vida  não  podem  ser edificadas sobre  outro  fundamento  diferente de Cristo, nem se pode construí-las com material de má qualidade. Muitas experiências convalidam a suspeita de que, por vezes, cá e acolá, desejou-se construir a casa sobre a areia, e não sobre a rocha. Destina-se à falência toda tentativa de refundar a vida consagrada que não nos leve novamente a jesus Cristo, fundamento da nossa vida, e não nos torne mais fiéis a Dom Bosco, nosso fundador.

Se quisermos recuperar o entusiasmo das origens e sermos presença de Deus na igreja e no mundo, deveremos evitar a tentação de nos conformarmos à mentalidade secularizada, hedonista e consumista deste mundo e deixar-nos guiar pelo Espírito, que fez surgir a Vida consagrada como forma privilegiada de sequela e imitação de Cristo.

3.2 O tema

O  tema  escolhido  para  o  CG27  refere-se ao  testemunho da radicalidade evangélica, que encontra no lema “trabalho e temperança” (cf. Const. 18) uma explicitação do programa de vida de Dom Bosco: “Da mihi animas, cetera tolle”. Ele quer ajudar-nos a aprofundar a nossa identidade carismática, tornando-nos cientes da nossa vocação de viver em fidelidade o projeto apostólico de Dom Bosco.

O argumento é vasto. Por isso, quisemos focalizar a atenção do CG27 ao redor de quatro áreas temáticas: viver na graça de unidade e na alegria à nossa vocação consagrada salesiana, que é dom de Deus e projeto pessoal de vida; fazer uma intensa experiência espiritual, assumindo o modo de ser e agir de jesus obediente, pobre e casto, e servos buscadores de Deus; construir a fraternidade em nossas comunidades de vida e ação; dedicar-nos generosamente à missão, caminhando com os jovens para dar esperança ao mundo.

Ser “testemunhas da radicalidade evangélica” é um apelo dirigido a toda a Congregação, que encontra sua tradução salesiana no binômio “trabalho e temperança”. A primeira parte do conhecido sonho dos ‘dez diamantes’ apresenta-nos o salesiano ‘sicut esse debet’, caracterizado por uma intensa fisionomia teologal – fé, esperança e caridade –, tonificada pelo trabalho e pela temperança e caracterizada por uma vida consagrada ao Senhor, encontrando sustento no jejum e na oração.

A segunda parte do sonho é apresentada como advertência do que poderia acontecer, caso a nossa vida pessoal, comunitária, institucional  não  estivesse  à  altura  do  dom  da  vocação  recebida. A imagem do personagem, desgastada e feia, não poderia ser mais eloquente. Eis por que fomos aos Becchi e a Valdocco: não pelo gosto da nostalgia, mas para nutrir a chama do entusiasmo e o empenho de fidelidade dos primeiros Salesianos.

O tema da radicalidade evangélica pode ser bem ilustrado ao tomar em consideração a sua perspectiva semântica e etimológica. De fato, a palavra radicalidade tem a ver com raiz, com enraizamento. Para compreender melhor as coisas podemos nos servir da imagem da planta e da semente. Vejamos quais são as características e o valor das raízes:

-  a estabilidade e solidez da planta dizem-nos que uma árvore sem raiz, seca ou cai. Nesse sentido, a imagem é análoga – não igual – à de uma construção sem fundações;

-  a vitalidade, porque as substâncias que nutrem uma planta provêm, sobretudo, das raízes, embora evidentemente não só, porque também há o ar, o sol etc.;

-  o caráter de “enterramento”, ou seja, o seu lugar natural é debaixo da terra, elas estão “escondidas”.

Neste sentido, o título do nosso tema, “testemunhas da radicalidade evangélica”, exprime em si mesmo um paradoxo interessante. De um lado, de fato, a palavra testemunhas fala-nos de manifestação pública, portanto de visibilidade, de “sacramentalidade”, enquanto, paradoxalmente, o termo “radicalidade” alude justamente ao que não se vê, ao que está escondido, “sepultado”.

Creio que, com frequência, quando se fala de radicalidade, se entende a partir do conceito semântico da palavra, sublinhando o significado de incondicionalidade, de fidelidade absoluta, de opção sem acomodações, de vontade de ser “por inteiro” etc., esquecendo o significado etimológico mais exato.

Por vezes, há também a tendência de identificar a radicalidade com a perfeição ou a sua busca, mas não é assim; de uma pequena planta e, com maior razão, de uma semente apenas plantada na terra não se esperam frutos, mas que afundem raízes, boas e profundas. A quem quer entrar na vida salesiana, ou na vida religiosa em geral, não se pode pedir para já ser “santo” (infelizmente, às vezes, nem depois de muitos anos de vida consagrada), mas para ser radical em suas opções de vida.

Creio que isso tenha suas implicações na formação, primeiramente na etapa da formação inicial, em que eu acentuaria dois aspectos na linha semântica do conceito de radicalidade. O primeiro é o da profundidade (típica da raiz) de vida, convidando os jovens irmãos a remarem contra a corrente, inseridos como estão numa cultura que acentua mais a extensão superficial do que a capacidade de colher no profundo o que é verdadeiro, justo, válido e nobre para a vida de um homem e, muito mais, de um religioso. O segundo aspecto refere-se a uma virtude muito esquecida no nosso tempo, talvez porque muitas vezes foi mal-entendida: a humildade. Sabemos que a raiz desta palavra vem de húmus... Húmus e raiz são inseparáveis. A humildade não é outra coisa senão a “vida escondida em Cristo”, da qual, e só da qual, pode brotar a fecundidade (os frutos) espiritual, apostólica e vocacional.

Radicalidade para todos nós é, portanto, um retorno fecundo a Cristo, ao Evangelho, à fidelidade da sequela, e é também um retorno ao específico do nosso carisma. ir às raízes do surgimento da Congregação significa agradecer a Deus por Dom Bosco, pelo seu amadurecimento espiritual e o seu itinerário apostólico; interrogar-nos sobre o chamado que Deus nos faz no momento atual e responder neste momento histórico, com fidelidade e generosidade, às necessidades dos jovens e às demandas da sociedade e da igreja.

3.3 Objetivo e frutos

O CG27 pretende ajudar cada irmão e cada comunidade a viver em fidelidade o projeto apostólico de Dom Bosco. O CG27 deseja, portanto, em continuidade com o CG26, fortalecer ainda mais a nossa identidade carismática. tal objetivo é apresentado nos artigos iniciais das Constituições: nós salesianos somos chamados a “realizar numa forma específica de vida religiosa o projeto apostólico do fundador” (Const. 2); além disso, em nossa forma específica de vida, “missão apostólica, comunidade fraterna e prática dos conselhos evangélicos são elementos inseparáveis da nossa consagração, vividos num único movimento de caridade para com Deus e para com os irmãos” (Const. 3).

Como frutos do CG27, esperamos tornar a nossa vida salesiana ainda mais autêntica e, por isso, visível, crível e fecunda. isso é possível quando ela se fundamenta profunda e vitalmente em Deus, se enraíza com coragem e convicção em Cristo e no seu Evangelho. A consequência lógica é o reforçamento da sua identidade. Pelo mesmo motivo, durante o sexênio passado, nós nos esforçamos para retornar a Dom Bosco, despertando o coração de cada irmão com a paixão do “Da mihi animas, cetera tolle”.

Viver com fidelidade o projeto apostólico de Dom Bosco, ou seja, viver a nossa identidade carismática haverá de nos tornar mais autênticos; da identidade vivida nascerá, depois, uma visibilidade mais clara, uma credibilidade mais convincente e uma fecundidade vocacional renovada. Visibilidade não é principalmente a preocupação com a imagem, mas o belo testemunho da nossa vocação. Se testemunharmos com alegria, generosidade e fidelidade o projeto apostólico de Dom Bosco, isto é, a vocação consagrada salesiana, então a nossa vida será atraente, será fascinante especialmente para os jovens e, então, teremos uma nova fecundidade vocacional em todos os lugares.

4. Conclusão

Caríssimos irmãos Capitulares, em 25 de março de 2008, o CG26 reelegeu-me Reitor-Mor e, nos dias sucessivos, foram eleitos o Vigário e demais Conselheiros de Setor e de Região com a missão de animar e governar a Congregação no sexênio 2008-2014. Durante estes seis anos procuramos viver essa missão com intensidade investindo as nossas melhores energias.

Graças a Deus, neste sexênio, não tivermos a morte de nenhum membro do Conselho Geral e eu mesmo, superado o momento mais crítico da doença, fui agraciado e abençoado pelo Senhor que me deu a saúde necessária, a energia, o entusiasmo e a serenidade para levar o mandato que me foi confiado até o seu fim natural.

Contudo, não faltaram situações que nos levaram a mudanças necessárias na composição do Conselho. Primeiramente, um sério problema cardiológico levou o padre Stefan turansky  à decisão de apresentar sua renúncia do encargo de Regional da Região Europa Norte, em 21 de julho de 2010. Para substituí-lo, com o consenso do Conselho Geral, nomeei, seis dias depois, em 27 de julho de 2010, o padre Marek Chrzan, então inspetor da inspetoria de Cracóvia.

Apenas seis meses depois, em 26 de janeiro de 2011, o Ecônomo  Geral,  Sr.  Claudio  Marangio,  deixou  o  seu  cargo  para iniciar um período de discernimento acompanhado por mim mesmo, que se concluiu em 10 de outubro de 2011 com o indulto de deixar a Congregação Salesiana, com a dispensa dos votos e das obrigações da profissão religiosa. Novamente, com o consenso do Conselho Geral, em 25 de janeiro de 2011, nomeei o Sr. jean Paul Muller, então Diretor da Procuradoria de Bonn, como novo Ecônomo Geral. Nos dois casos, fizemos a escolha daqueles que já tinham sido indicados como candidatos para estes encargos no CG26.

Enquanto agradeço a cada um dos Conselheiros pela proximidade e colaboração leal, generosa e qualificada nos diversos papéis a eles confiados, é agora o momento de dar novamente voz à Assembleia Capitular, que representa a máxima expressão de autoridade na vida da Congregação. A todos vós, caríssimos irmãos, portanto, a palavra, mas também o convite a abrir o coração ao Espírito, o grande Mestre interior que nos guia sempre para a verdade e a plenitude de vida.

Concluo confiando este acontecimento pentecostal da nossa Congregação  a  Nossa  Senhora,  a  Maria  imaculada  Auxiliadora. Ela sempre esteve presente na nossa história e não nos fará faltar a sua presença e o seu auxílio nesta hora. Como no Cenáculo, Maria, a especialista do Espírito, haverá de nos ensinar a deixar-nos guiar por Ele “para poder discernir a vontade de Deus, o que é bom, a Ele agradável e perfeito” (Rm 12,12b).

Roma, 3 de março de 2014

 

anexo 2
DISCURSO DE JOÃO BRAZ CARD. DE AVIZ, PREFEITO DA CONGREGAÇÃO PARA OS INSTITUTOS DE VIDA CONSAGRADA E AS SOCIEDADES DE VIDA APOSTÓLICA
O testemunho da radicalidade evangélica na vida consagrada

Apresento uma saudação cordialíssima – também em nome de S. Ex.cia D. josé Carballo e do Dicastério – aos Cardeais e Bispos salesianos, ao Reitor-Mor P. Pascual Chávez, à Madre Yvonne Rengouat, Superiora Geral das Filhas de Maria Auxiliadora, e a todos os Salesianos Capitulares.

Introdução

Na carta de convocação deste XXVii Capítulo Geral, o Reitor-

-Mor P. Pascual Chávez perguntou-se: “Qual vida consagrada será necessária e significativa para o mundo de hoje?”. E continuou: “A resposta não pode ser senão a de uma vida religiosa mística, profética, serva, com radicalidade evangélica tanto pessoal quanto comunitária, uma vida, por isso mesmo, rica de humanidade e de espiritualidade, fonte de esperança para a humanidade. também a nossa Congregação é chamada hoje a colocar-se nessa estrada”.1 Parece-me ser a tradução atual do programa de vida de Dom Bosco: “da mihi animas, cetera tolle” (cf. Const. 4).

Ele explicou assim os três adjetivos: “mística, profética, serva”

em outro ponto da carta: “Centrar a nossa vida em Deus, o único

1 P. CháVez, Carta de convocação do Capítulo Geral XXVII, 8 de abril de 2012, ACG 413, p. 35.

Absoluto, que nos chama e nos convida a seguir o seu Filho na entrega da vida por amor; viver a profecia da comunhão e da fraternidade; redescobrir a missão entre os jovens como lugar por excelência do encontro com Deus que continua a nos falar”.2

Entre os muitos aspectos nos quais somos chamados a exprimir o nosso testemunho radical do Evangelho, e que o P. Chávez sintetizou nos três modos recordados acima, ponho aqui em evidência apenas um, que me parece mais decisivo no contexto eclesial e social de hoje, para que a nossa vida de consagrados seja autêntica e se torne realmente testemunho crível da nossa opção por Deus e da vitalidade do Evangelho também para o nosso tempo: viver a profecia da comunhão e da fraternidade. É daqui que pode derivar novo arrojo na recuperação da beleza da nossa opção de vida a serviço do Evangelho e novo estímulo na atuação da missão que – especificamente para vós Salesianos – é levar aos jovens o amor de Deus, como dizem desde o início as vossas Constituições (cf. Const. 2).

Seguir a Cristo em comunhão

também para vós Salesianos, como para todos os consagrados, os elementos fundamentais da vossa identidade são a escolha de Deus expressa na prática dos conselhos evangélicos, a vida fraterna em comunidade e a missão, como bem resume o artigo 3 das Constituições: “Missão apostólica, comunidade fraterna e prática dos conselhos evangélicos são elementos inseparáveis da nossa consagração, vividos num único movimento de caridade para com Deus e para com os irmãos”.

Como já tive a oportunidade de dizer outras vezes, parece-me que um elemento de novidade para os consagrados, que se manifesta como necessário na cultura atual é a passagem da sequela Christi individual, que continua sempre necessária, à sequela Christi comunitária. Alguém, parafraseando a imagem de Santa teresa D’Ávila, escreveu que hoje devemos empenhar-nos em construir além do “castelo interior”, isto é, a relação pessoal com Deus, também o

2 idem, p. 10.

“castelo exterior”: ir a Deus com os irmãos e as irmãs. isso, certamente, vale não só para os consagrados, mas para todos os batizados na igreja, para todos os cristãos. Mas, para nós consagrados, isso deveria valer de maneira especial. A igreja, de fato, confia-nos justamente como tarefa específica ser até mesmo de exemplo para os demais cristãos sobre como é possível viver a opção radical de Deus e do Evangelho não só como indivíduos, mas em comunhão: comunhão com Deus e comunhão entre nós.

No documento Religiosos e promoção humana, da Congregação para os institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, os religiosos foram definidos como “especialistas de comunhão”. Lemos no n. 24: “Versados em ‘comunhão’, os religiosos são, portanto chamados a ser, na igreja, comunidade eclesial e, no mundo, testemunhas e artífices daquele ‘projeto de comunhão’ que está no vértice da história do homem segundo Deus. Antes de tudo, com a profissão dos conselhos evangélicos, que liberta de todo impedimento o fervor da caridade, eles tornam-se comunitariamente sinal profético da íntima comunhão com Deus sumamente amado. Além disso, pela experiência cotidiana da comunhão de vida, de oração e de apostolado, como componente essencial e distintivo da sua forma de vida consagrada, fazem-se ‘sinal de comunhão fraterna’. testemunham,  de fato – num mundo muitas vezes tão profundamente dividido, e diante de todos os seus irmãos na fé – a capacidade de comunhão dos bens, do afeto fraterno, do projeto de vida e de atividade, que lhes provém de terem escutado o convite a seguir mais livremente e mais de perto Cristo Senhor, enviado pelo Pai para que, primogênito entre muitos irmãos, instituísse, no dom do Seu Espírito, uma nova comunhão fraterna”.3

Um novo paradigma – a espiritualidade de comunhão

Estamos hoje num novo momento da história da humanidade e da vida da igreja, marcado por fenômenos como o secularismo, a globalização, o refugiar-se no privado, e outros ainda, que tendem a levar a humanidade a novas escolhas de sentido para a vida. O

3 Congregação Para  os InstItutos  de VIda  Consagrada e as soCIedades  de VIda aPostólICa, Religiosos e promoção humana, 25 de abril de 1978, n. 24.

novo milênio que agora vivemos, comporta também para a igreja a necessidade de tomar consciência desta mudança e atuar os valores evangélicos neste novo momento para abrir horizontes de vida e de esperança para a humanidade.

A proposta mais significativa, para nós cristãos, parece-me ser a que veio em 2001 pelo Bem-aventurado Papa joão Paulo ii que, ao introduzir a igreja no novo milênio, indicou a promoção de uma espiritualidade de comunhão como novo paradigma para a vida da igreja e princípio educativo em todos os lugares onde se plasmam o homem e o cristão, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes de pastoral, onde se constroem as famílias e as comunidades.4

Não podemos entender nem atuar as relações entre consagrados e com as demais vocações na igreja como comunhão, missão e serviço, sem viver cientes e decididos no assumir este princípio vital da espiritualidade de comunhão. É a nota teológica e eclesiológica indispensável do momento atual, que diz o que o Espírito Santo pede hoje à igreja para dar novo impulso à missão evangelizadora. “Fazer da igreja casa e escola de comunhão: eis o grande desafio que está diante de nós no milênio que se inicia, se quisermos ser fiéis ao plano de Deus e responder também às profundas expectativas do mundo”.

A espiritualidade da comunhão proposta pelo Bem-aventurado joão Paulo ii não se reduz certamente a um fato intimista. Depois de nos ter recordado que a sua fonte está na mesma vida de Deus trindade, são enunciadas algumas consequências muito concretas, que têm a ver diretamente com a vida das nossas comunidades de consagrados: “Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como

‘alguém que faz parte de mim’, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade. Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver antes de tudo o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um ‘dom para mim’, como o é para o irmão que diretamente

4 Cf. João Paulo ii, Carta apostólica Novo millennio ineunte, 6 de janeiro de 2001, n. 43.

o recebeu. Por fim, espiritualidade da comunhão é saber ‘criar espaço’ para o irmão, levando ‘os fardos uns dos outros’ (Gl 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes. Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento”.5

Se toda a igreja deve viver esta orientação do Beato joão Paulo ii,  os consagrados são como que os seus “especialistas”, porque esta é a essência da sua opção de vida: a união com Deus e a união entre si na vida fraterna. Por isso, a igreja confia à comunidade dos consagrados a missão peculiar de “fazerem crescer a espiritualidade da comunhão, primeiro no seu seio e depois na própria comunidade eclesial e para além dos seus confins”.6 Podemos bem compreender que também o viver juntos em comunidade, como é próprio dos consagrados, mesmo quando a convivência fosse bem estruturada e com os mais belos programas, se não for informada em profundidade por este espírito de comunhão, reduz-se a mero fato sociológico. Para dizer com as palavras do P. Chávez: “Uma comunidade sem comunhão, com tudo o que isso comporta de acolhida, afeto e estima, ajuda recíproca e amor, reduz-se a um grupo no qual as pessoas se justapõem, deixando-as, porém, no isolamento”.7 E isto pode acontecer também onde, ao contrário, deveria mostrar-se evidente o “espírito de família” que vos pertence como carisma, segundo a expressão cara a Dom Bosco.

“Assim na terra como no céu” – o modelo é a Trindade

Entre as múltiplas imagens com que se pode descrever a igreja (e a Lumen Gentium enumera brevemente algumas delas: redil, rebanho, campo de Deus, edifício, família, templo, esposa, corpo; todas tiradas

5 idem, n. 43.

6 João Paulo ii, Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, 25 de março de

1996, n. 51.

7 P. Chávez, Carta de convocação do Capítulo Geral XXVII, 8 de abril de 2012, p.

30. da Sagrada Escritura), o Concílio deu preferência à de povo de Deus (LG dedicou-lhe um capítulo inteiro, o ii). Este povo tem por cabeça Cristo, por lei o novo preceito do amor na medida do seu, e é “para toda a humanidade o germe mais forte de unidade, de esperança e de salvação” (LG n. 9). Fonte e modelo da comunhão entre aqueles que formam este único povo é a trindade, a ponto de se poder definir a igreja como “um povo que deriva a sua unidade da unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (LG n. 4), segundo a célebre expressão de São Cipriano. Segue-se daí que a tarefa da igreja na história é ajudar os homens a viverem a comunhão com Deus e entre si que jesus já realizou definitivamente com a sua morte e ressurreição, mas que agora deve informar progressivamente a vida dos crentes e, depois, de todos os homens, para que se realize aquele “assim na terra como no céu” que pedimos todos os dias na oração do Pater, até que “todos sejam um” (jo 17,20).

Assim como o emigrante que, quando deixa a sua pátria para ir a um país distante, leva consigo os costumes, a língua, o modo de viver da sua terra de origem, também jesus – divino emigrante – vindo à terra trouxe para nós o modo de viver da sua pátria de origem, a trindade. Não só no-la deu a conhecer, mas ensinou-nos a viver do mesmo modo entre nós. Por isso, gosto de interpretar o versículo do “Pai-nosso”: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”, neste modo: ajudai-nos a viver aqui na terra como se vive no céu, atuando entre nós a mesma dinâmica de relações que se vivem na trindade.

A vida consagrada, sendo parte viva da igreja, participa com título especial da única comunhão eclesial e expressa-a de maneira significativa e característica, propondo-se por isso como lugar privilegiado de experiência e testemunho da vida da trindade. “Qualquer forma de comunidade na igreja, com efeito, busca a profundidade do próprio ser da comunidade trinitária, através da comunicação  que  a  trindade faz  de si  mesma e  do mistério  da própria unidade (...). A dimensão trinitária, de fato, envolve a vida consagrada em todas as suas dimensões de consagração, comunhão, missão”.8 Embora na variedade das inspirações e das formas com que se expressou historicamente, a vida consagrada sempre esteve ciente de precisar olhar não só para o exemplo de comunhão indicado nos Atos dos Apóstolos entre a primitiva comunidade cristã de jerusalém, onde todos eram “um só coração e uma só alma” (At 4,32), mas ainda mais radicalmente no seu modelo original, no protótipo de comunhão das três divinas pessoas na trindade.

Certamente, nem sempre esta referência normativa à comunhão trinitária foi explícita nos fundadores e fundadoras. Mas, em diversas regras e nos escritos de diversos deles é possível encontrar esta inspiração de fundo. Alguém que se exprime com extrema precisão é São Vicente de Paulo, escrevendo às Filhas da Caridade fundadas por ele: “Do mesmo modo com que Deus é um só em si mesmo, e nele há três Pessoas, sem que o Pai seja maior do que o Filho, nem o Filho do Espírito Santo, assim também é preciso que as Filhas da Caridade, que devem ser a imagem da Santíssima trindade, embora muitas sejam, contudo, um só coração e uma só alma (...). Assim fareis desta Companhia uma reprodução da Santíssima trindade. De tal modo que a vossa Companhia representará a unidade da Santíssima trindade”.9

É belo que também as vossas Constituições contenham uma referência explícita a este altíssimo modelo normativo da nossa vida que é a unidade das três Pessoas na trindade.  De fato, explicando o valor do viver e trabalhar juntos, diz-se: “nos reunimos em comunidades, nas quais nos amamos a ponto de tudo compartilhar em espírito de família e construímos a comunhão das pessoas. Na comunidade reflete-se o mistério da trindade; nela encontramos uma resposta às aspirações profundas do coração e nos tornamos sinais de amor e unidade para os jovens” (Const. 49). Eis, portanto, como a vida comunitária vivida segundo o modelo de amor da trindade, torna-se a fonte da alegria e da autorrealização de cada um, e nos torna capazes de realizar a missão apostólica em favor dos jovens.

É preciso esclarecer que a vida de comunhão de marca trinitária que constitui a identidade e a missão da igreja por primeiro, e depois

8 F. CIardI, Koinonia. Itinerario teologico-spirituale della comunità religiosa. Città

Nuova, Roma, 1992, p. 206-207.

9 Citado em: F. CIardI, Esperti di comunione. Pretesa e realtà della vita religiosa.

San Paolo, Cinisello B. (Milão), 1999, p. 113.

da vida consagrada, é antes de tudo um dom; caso contrário seria uma pretensão sobre-humana e seria um ideal impossível de alcançar. Para a Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici n. 31, o dom da comunhão eclesial é “reflexo no tempo da eterna e inefável comunhão de amor de Deus Uno e trino”; sendo um dom, é comparado ao talento que “exige ser movimentado numa vida de crescente comunhão”. Por sua vez, “a comunhão gera comunhão”10  e alarga-se como em círculos concêntricos no interior da igreja, com os cristãos de outras confissões, com os fiéis de outras religiões e com toda a humanidade. É o que torna crível o testemunho dos cristãos e a própria igreja: “Assim, a vida de comunhão eclesial torna-se um sinal para o mundo e uma força de atração que leva à fé em Cristo: ‘Como tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que tu me enviaste’ (jo 17,21)”.11

Aplicado à comunidade religiosa, Vita Consecrata assim o expressa: ela é o “humano habitado pela trindade, que difunde assim na história os dons da comunhão próprios das três Pessoas divinas”.12 justamente porque se tornaram participantes da vida trinitária, como de resto todos os batizados, ou melhor, são nela introduzidos, os consagrados podem depois ser suas testemunhas críveis e proféticas na igreja e no mundo, também entre os jovens.

O terceiro preceito do amor – “amai-vos uns aos outros”

O esforço de viver na comunidade relações fraternas segundo o modelo da comunhão trinitária tornou-se possível porque o mesmo amor que liga os três na trindade foi derramado nos nossos corações por meio do Espírito Santo (cf. Rm 5,5). Realizando o mandamento novo que Cristo nos deixou: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (jo 13,34-35; 15,12-13.17), vivemos aquele amor recíproco que é participação e sinal da comunhão existente entre as pessoas divinas

10 João Paulo ii, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici, 30 de dezembro de 1988, n. 32.

11 idem, n. 31.

12 Vita Consecrata, n. 41.

da trindade. De fato, este amor, na medida do vivido por Cristo (e é a medida da cruz), antes de ser fruto da nossa boa vontade, é consequência do mesmo amor divino que age em nós. Foi Deus, de fato, que nos amou por primeiro e sanou, com a redenção, a nossa capacidade de amar a ele e aos próximos.

Como bem explica o documento A vida fraterna em comunidade: “Antes de ser uma construção humana, a comunidade religiosa é um dom do Espírito. De fato, é do amor de Deus difundido nos corações por meio do Espírito que a comunidade religiosa se origina e por ele se constrói como uma verdadeira família reunida no nome do Senhor. Não se pode compreender, portanto, a comunidade religiosa sem partir do fato de ela ser dom do Alto, de seu mistério e de seu radicar-se no coração mesmo da trindade santa e santificante”.13

Naturalmente, do dom da comunhão trinitária, brota a tarefa da resposta pessoal (a relação com Deus) e da construção cotidiana de uma verdadeira fraternidade. Esta dupla dimensão de comunhão pessoal com Deus e de comunhão entre os membros “é o elemento basilar que constitui a unidade da família religiosa”.14  Se da parte de Deus, o dom da comunhão é pleno desde o início, da nossa parte, ele deve ser conquistado e reconquistado a cada dia, ao longo de um itinerário que requer o esforço de todos e que pode conhecer arrefecimentos de velocidade e cansaço. A realização de uma vida comunitária fraterna é, de fato, uma tarefa que exige renúncia de si, aceitação dos limites dos irmãos, enfim, um caminho corajoso e perseverante de ascese.

Pode ser que este discurso seja um tanto duro para alguns. Só o podemos compreender e acolher a partir da lógica da cruz, do dom total de si por amor a Deus e aos irmãos: “Amai-vos como eu vos amei”. Leio ainda um passo de A vida fraterna em comunidade: “É necessário admitir que esse assunto causa problema hoje, tanto junto aos jovens como junto aos adultos. Muitas vezes os jovens provêm de uma cultura que aprecia excessivamente a subjetividade e a busca da realização pessoal, enquanto os adultos ou estão ancorados em estruturas do passado ou vivem certo desencanto (...). É bom preparar

13 Congregação Para  os InstItutos  de VIda  Consagrada e as soCIedades  de VIda aPostólICa, A vida fraterna em comunidade, 2 de fevereiro de 1994, n. 8.

14 Congregação Para  os relIgIosos e os InstItutos  seCulares, Elementos essenciais do ensinamento da Igreja sobre a vida religiosa, 31 de maio de 1983, n. 18.

os jovens, desde o início, para serem construtores e não somente consumidores da comunidade; para serem responsáveis um pelo crescimento do outro; para estarem abertos e disponíveis a receber um o dom do outro, capazes de ajudar e ser ajudados, de substituir e ser substituídos. Uma vida comum, fraterna e partilhada tem um natural fascínio sobre os jovens, mas depois o perseverar nas reais condições de vida pode se tornar um pesado fardo”.15

Neste sentido, eu entendo a famosa frase do jovem jesuíta São joão Berchmans (1599-1621): “Vita communis mea maxima poenitentia”. talvez tenha sido interpretada muitas vezes apenas em sentido negativo, evidenciando a dificuldade que representa viver juntos em comunidade. Na verdade, esta frase indica muito mais. Para aqueles que são chamados por Deus a seguir a Cristo junto com outros irmãos ou irmãs numa comunidade religiosa, não é necessário buscar outras penitências ou formas de ascese para se santificar. As exigências cotidianas do amor ao irmão, à irmã, com todas as nuanças que a caridade evangélica exige, são o ginásio onde exercitar a nossa virtude, o nosso espaço característico para nos santificarmos juntos. O que comporta, certamente, um aspecto de ascese, de renúncia ao homem velho, mas é também a nossa grande oportunidade de encontrar e amar a Deus na concretude do rosto do irmão, da irmã que vive ao nosso lado. Então, a ascese exigida também pela vida fraterna não é fim a si mesma, mas floresce depois numa nova experiência do amor de Deus: é “a ‘mística’ de viver em comum” à qual acena também o Papa Francisco, que faz da nossa vida “uma santa peregrinação”.16

Do ideal à vida concreta

Um dom altíssimo, portanto, o da comunhão trinitária da qual somos feitos participantes, mas também uma grande responsabilidade de fazer frutificar o dom recebido e demonstrar que a vida divina em cada um dos membros leva a superar as diferenças e os obstáculos que toda convivência humana comporta. Não queremos nos iludir: sem perder de vista o modelo humano-divino no qual nos queremos

15 A vida fraterna em comunhão, n. 24.

16   Papa   Francisco,  Exortação apostólica Evangelii Gaudium, 24 de novembro de 2013, n. 87.

inspirar, sabemos que precisamos enfrentar todos os dias o limite humano e com a raiz do pecado e do egoísmo ainda presente em nós. Somos muito diferentes uns dos outros, com temperamentos, gostos, histórias que nos distinguem, e isso torna a vida fraterna empenhativa.

Sabemos que também a primeira comunidade de jerusalém, descrita idealmente nos assim chamados “sumários” dos Atos (cf. At 2,42-47; 4,32-35; 5,12-16) e que a vida religiosa sempre olhou como ao seu paradigma,17   não era destituída de dificuldades e de aspectos problemáticos. jesus mesmo, antes de morrer, conhecendo bem a fragilidade humana, pedira ao Pai, como dom especial do alto a unidade dos apóstolos e de todos os crentes: “Pai santo, conserva no teu nome aqueles que me deste, para que sejam uma só coisa (...). Não peço somente por estes, mas também por aqueles que, pela palavra deles, acreditarão em mim; para que todos sejam uma só coisa (...) para que sejam perfeitos na unidade” (jo 17,11.20-21.23).

É interessante notar, percorrendo as cartas dos apóstolos endereçadas às primeiras comunidades, nas quais e em muitas indicações práticas se concretiza o mandamento novo de jesus do amor recíproco. Em seu conjunto, estas orientações configuram-se como verdadeiro “manual” da vida fraterna em comunidade:

- “amai-vos uns aos outros com afeto fraterno, concorrei no estimar-vos reciprocamente” (Rm 12,10);

-  “cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fl 2,3);

-  “tende os mesmos sentimentos uns para com os outros” (Rm 12,16);

-  “acolhei-vos uns aos outros como Cristo vos acolheu” (Rm 15,7);

-  “corrigi-vos uns aos outros” (Rm 15,14);

-  “esperai uns pelos outros” (1Cor 11,33);

- “mediante a caridade permanecei a serviço uns dos outros” (Gl 5,13);

-  “confortai-vos reciprocamente” (1ts 5,11);

-  “suportai-vos reciprocamente com amor” (Ef 4,2);

17 Concílio Vaticano II, cf. Perfectae Caritatis, n. 15.

- “sede  bons  uns  para  com os  outros,  misericordiosos, perdoando-vos reciprocamente” (Ef 4,32);

- “sem buscar o próprio interesse, mas também o dos outros” (Fl 2,4);

-  “submetei-vos uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5,21);

-  “orai uns pelos outros” (tg 5,16);

- “revesti-vos todos de humildade uns para com os outros” (1Pd 5,5);

- “amai-vos ardentemente uns aos outros com coração puro” (1Pd 1,22);

-  “fazei tudo sem murmurações e sem críticas” (Fl 2,14).

Encontrei um belo eco destas orientações práticas também no texto do vosso fundador Dom Bosco: “Em primeiro lugar, exerçamos a caridade entre nós Salesianos, suportando os defeitos dos outros, suportando-nos uns aos outros. Animemo-nos para fazer o bem, para pôr em prática todas as regras, para amar-nos e estimar-nos como irmãos. Rezemos, para que possamos todos formar um só coração e uma só alma para amar e servir o Senhor”.18

O  amor  recíproco entre  irmãos  na  comunidade  religiosa garante ao mesmo tempo a unidade entre os membros sem mortificar as diferenças e os dons de cada um. Como na trindade, temos a perfeita unidade pelo amor divino que circula, mas ao mesmo tempo os três não se confundem e agem de maneira distinta um do outro, de modo que na comunidade o amor recíproco reforça a fraternidade e a comunhão, garantindo liberdade a cada um segundo o desígnio de Deus sobre ele. também esta dinâmica de unidade e distinção, segundo o modelo das relações entre as três Pessoas, é fruto do respeito recíproco e do empenho comum para realizar a fraternidade. Para que a comunidade possa favorecer ao mesmo tempo a realização humana e espiritual de cada um de seus membros e o alcance comum das finalidades apostólicas, “é necessário perseguir o justo equilíbrio, nem sempre fácil de alcançar, entre o respeito à pessoa e o bem comum, entre as exigências e necessidades de cada um e as da comunidade, entre os carismas pessoais e o projeto apostólico da comunidade

18 Memorie Biografiche di San Giovanni Bosco, iX, p. 356.

(...). A comunidade religiosa torna-se, então, o lugar onde se aprende cotidianamente a assumir aquela mentalidade renovada que permite viver a comunhão fraterna através da riqueza dos diversos dons e, ao mesmo tempo, impele esses dons a convergir para a fraternidade e para a corresponsabilidade no projeto apostólico”.19

A presença do Ressuscitado

O fruto mais importante deste estilo de vida comunitária marcado pela comunhão trinitária e guiado pela lógica da cruz, é a presença estável e experiencial de Cristo ressuscitado, segundo a sua promessa: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei entre eles” (Mt 18,20; cf. PC 15 a). Estar juntos “em seu nome” significa no seu amor, na realização da sua vontade, sintetizada no mandamento que ele mesmo definiu “seu” e “novo”. Então, ele mesmo se torna presente, de modo místico, mas real, e esta sua presença pode ser experimentada e quase tocada, especialmente graças aos dons pascais que o Ressuscitado entre nós não deixará de fazer-nos experimentar: a paz, a alegria de estar juntos, a luz, o “espírito de família” (segundo a expressão cara a Dom Bosco), o ardor apostólico.

“A vida de comunidade – anota ainda Vita Consecrata – deve tornar tangível, de algum modo, que a comunhão fraterna, antes de ser instrumento para uma determinada missão, é espaço teologal no qual se pode experimentar a mística presença do Senhor ressuscitado”,20 segundo a promessa de Mt 18,20. também as vossas Constituições referem-se àquele versículo do evangelho: “A profissão dos conselhos ajuda-nos a viver a comunhão com os irmãos da comunidade religiosa, como numa família que se alegra com a presença do Senhor” (Const. 61). Em Cristo, também está presente ao mesmo tempo o Pai e o Espírito: por isso a comunidade unida pelo vínculo do amor recíproco goza da presença de Deus-trindade e torna-se seu símbolo e testemunho.

19 A vida fraterna em comunidade, n. 39.

20 Vita consecrata, n. 42c.

O “espírito de família” de que fala o vosso fundador, e também as Constituições, é o clima de alegria e de liberdade no qual todos os membros da comunidade se sentem à vontade, alegram-se com a presença dos outros, sentem-se acolhidos e compreendidos, veem valorizados os próprios dotes e desculpam as inevitáveis fragilidades. Então “é belo e doce viver em comum” (cf. Sl 132), e o fruto mais visível é a alegria, como também recordou o Papa Francisco ao falar em outubro passado às clarissas de Assis: “Cuidai da amizade entre vós, da vida de família, do amor recíproco. E que o mosteiro não seja um Purgatório, mas uma família. Os problemas existem e existirão, mas como se faz numa família, com amor, procurai uma solução com caridade; não destruais esta para resolver aquela; que não haja competição. Cuidai da vida de comunidade, pois quando na vida de comunidade é assim, em família, é precisamente o Espírito Santo que se encontra no seio da comunidade. Sempre com um coração grande. Deixando passar, não vangloriar-se, suportar tudo, sorrir a partir do coração. E o sinal é a sua alegria”.21

Cristo ressuscitado, presente na comunidade, unida no seu amor, saberá fascinar ainda hoje a muitos jovens e chamá-los à família religiosa salesiana, para continuar a testemunhar aos jovens do mundo o amor a Deus.

21  PaPa  FranCIsCo, “Por uma clausura de grande humanidade”, Assis, 4 de outubro

2013, cf. L’Osservatore Romano, domingo 6 de outubro, p. 6.

anexo 3
SAUDAÇÃO DE HOMENAGEM DO REITOR-MOR AO SANTO PADRE NA OCASIÃO DA AUDIÊNCIA PONTIFÍCIA

Caríssimo Papa Francisco, Querido Pai,

Estamos realmente felizes por estar aqui com o Senhor. Obrigado por este momento de encontro. É para nós um dom precioso e uma ocasião única que nos permite testemunhar-Lhe os sentimentos que trazemos no coração. Nós o amamos, Pai! Admiramos a sua coragem e o seu testemunho. Constatamos com alegria o seu grande amor pelo Senhor jesus, pela igreja e o seu desejo de uma renovação profunda de toda a Comunidade Cristã que o Senhor preside no serviço e na caridade.

Nós recordamos bem que, para Dom Bosco, o amor ao Papa significava amor à igreja e amor à missão. E este nosso encontro não  teria  sentido  se  não  fosse,  ao  mesmo  tempo,  acompanhado do desejo de expressar-Lhe, querido Pai, a vontade de renovar o nosso empenho carismático e missionário em favor da igreja e do mundo, com atenção especial aos jovens, sobretudo os mais pobres e abandonados. Acolhemos, portanto, o seu convite a abrir as portas das nossas casas e do nosso coração para sermos anunciadores da alegria do Evangelho, crendo intensamente num Deus que ama o homem e deseja a sua salvação. Com as palavras da Gaudium et Spes, queremos compartilhar as alegrias e os sofrimentos do mundo de hoje e dos jovens que o habitam, envolvendo-nos plenamente na construção do Reino de Deus.

Durante  este   Capítulo   Geral,   que   tem  como   tema   ser

“testemunhas da  radicalidade evangélica”,  nós  nos  sentimos  em

profunda sintonia com a sua Exortação apostólica Evangelii Gaudium.

Este texto iluminou e orientou a nossa reflexão.

Foi uma ocasião para refletir profundamente sobre a nossa identidade carismática salesiana, tendo presente ao mesmo tempo a necessidade de interpretar de modo atual o que Dom Bosco viveu e nos transmitiu. identificamos um itinerário de renovação no qual nos empenhamos a viver a dimensão mística de pessoas consagradas que pretendem dar o primado absoluto a Deus, Senhor da nossa vida. Movidos pelo Espírito de jesus, queremos ser, portanto, “buscadores e testemunhas de Deus”, acompanhando com alegria os jovens num itinerário de crescimento humano e cristão.

Propusemo-nos renovar o testemunho profético da nossa vida fraterna. Num mundo frequentemente dilacerado por situações de conflito em todos os níveis, parece-nos que a nossa vida religiosa tenha uma de suas principais tarefas no testemunho da alegria de uma comunhão de irmãos que se sentem discípulos do Senhor. trata-se de uma fraternidade que envolve a nossa vida cotidiana, o nosso trabalho, a nossa oração e torna-se ela mesma anunciadora de uma vida que se exprime em relações novas inspiradas pela palavra do Evangelho e capazes de atrair os jovens à preciosa experiência de uma vida entregue aos outros, segundo o carisma de Dom Bosco.

Em nossa missão, desejamos reafirmar o nosso desejo de sermos servos dos jovens, mediante uma proposta inspirada pelos valores evangélicos e com uma ação generosa para a transformação do mundo. Desejamos reconfirmar o critério da opção de Dom Bosco: a opção da disponibilidade preferencial em relação aos jovens mais pobres, das populações mais desfavorecidas e de periferia, nos contextos missionários tradicionais e naqueles das sociedades mais secularizadas.

Querido Papa Francisco, acolhemos a sua palavra e as suas orientações para a opção eclesial das grandes linhas que nos guiarão neste próximo sexênio.

Colho a ocasião para agradecer-Lhe, com toda a Família Salesiana, por ter aceitado ir a turim por ocasião do Segundo Centenário do nascimento de Dom Bosco. Com o afeto de filhos garantimos-Lhe a nossa oração, confiando a Sua missão à Virgem Auxiliadora, Mãe da igreja, e pedimos a Sua bênção paterna.

Roma, 31 de março de 2014

 

anexo 4
DISCURSO DE SUA SANTIDADE FRANCISCO NA AUDIÊNCIA AOS CAPITULARES DE 31 DE MARÇO DE 2014

Queridos irmãos,

sede bem-vindos! Agradeço ao P. Ángel pelas suas palavras. A ele e ao novo Conselho Geral desejo que saibam servir guiando, acompanhando e sustentando a Congregação Salesiana no seu caminho. O Espírito Santo vos ajude a recolher as expectativas e os desafios do nosso tempo, especialmente dos jovens, e interpretá-los à luz do Evangelho e do vosso carisma.

imagino que durante o Capítulo – que tinha como tema “Testemunhas da radicalidade evangélica” – tivestes sempre Dom Bosco e os jovens diante de vós; e Dom Bosco com o seu lema: “Da mihi animas, cetera tolle”. Ele reforçava este programa com outros dois elementos: trabalho e temperança. Eu recordo que no colégio era vedado fazer a sesta!... Temperança! Aos salesianos e a nós! “O trabalho e a temperança – dizia – farão florescer a Congregação”. Quando se pensa em trabalhar pelo bem das almas, supera-se a tentação da mundanidade espiritual, não se buscam outras coisas, mas só a Deus e o seu Reino. temperança é, também, senso de medida, contentar-se, ser simples. A pobreza de Dom Bosco e de mamãe Margarida inspire em cada salesiano e em cada uma de vossas comunidades uma vida essencial e austera, próxima dos pobres, transparência e responsabilidade na gestão dos bens.

1. A evangelização dos jovens é a missão que o Espírito Santo vos confiou na igreja. Ela está estritamente unida à sua educação: o caminho de fé insere-se no de crescimento, e o evangelho enriquece também o amadurecimento humano. É preciso preparar os jovens para agirem na sociedade segundo o espírito do Evangelho, como agentes de justiça e de paz, e a viverem como protagonistas na igreja. Para isso, servi-vos dos necessários aprofundamentos e atualizações pedagógicas e culturais, a fim de responder à atual emergência educativa. A experiência de Dom Bosco e o seu “sistema preventivo” vos sustentem sempre no esforço de viver com os jovens. A presença entre eles distinga-se pela ternura que Dom Bosco chamou de amorevolezza, experimentando também linguagens novas, mas bem sabendo que a linguagem do coração é fundamental para aproximar-se deles e ser seus amigos.

Fundamental aqui é a dimensão vocacional. Às vezes, a vocação à vida consagrada é confundida com uma opção de voluntariado, e esta visão distorcida não faz bem aos institutos. O próximo ano 2015, dedicado à vida consagrada, será ocasião favorável para apresentar a sua beleza aos jovens. Contudo, é preciso evitar visões parciais, para não suscitar respostas vocacionais frágeis e sustentadas por motivações fracas. As vocações apostólicas são ordinariamente fruto de uma boa pastoral juvenil. O cuidado das vocações exige atenções específicas: primeiramente a oração, depois as atividades adequadas, os itinerários personalizados, a coragem da proposta, o acompanhamento, o envolvimento das famílias. A geografia vocacional mudou e está mudando, e isso significa novas exigências para a formação, o acompanhamento e o discernimento.

2. trabalhando com os jovens, encontrais o mundo da exclusão juvenil. O que é tremendo! Hoje, é tremendo pensar que aqui, no Ocidente, há mais de 75 milhões de jovens sem trabalho. Pensemos na enorme realidade do desemprego, com tantas consequências negativas. Pensemos nas dependências que, infelizmente, são múltiplas, mas derivam da raiz comum da falta de amor verdadeiro. ir ao encontro dos jovens marginalizados requer coragem, maturidade e muita oração. A este trabalho devem ser enviados os melhores! Os melhores! Pode haver o risco de deixar-se levar pelo entusiasmo, enviando para essas fronteiras pessoas de boa vontade, mas não adequadas. Por isso, é preciso o discernimento atento e o acompanhamento constante. O critério é este: os melhores devem ir para lá! “Preciso deste para fazê-lo superior aqui, ou para estudar teologia...”. Mas se tens aquela missão, manda-o para lá! Os melhores!

3. Graças a Deus vós não viveis e não trabalhais como indivíduos isolados, mas como comunidade: e agradais a Deus por isso! A comunidade sustenta todo o apostolado. Às vezes, as comunidades religiosas são atravessadas por tensões, com o risco do individualismo e da dispersão, enquanto há necessidade de comunicação profunda e de relações autênticas. A força humanizadora do Evangelho é testemunhada pela fraternidade vivida em comunidade, feita de acolhida,  respeito,  ajuda  recíproca,  compreensão,  cortesia,  perdão e alegria. O espírito de família que Dom Bosco vos deixou ajuda muito neste sentido, favorece a perseverança e cria atração pela vida consagrada.

Queridos irmãos, o bicentenário do nascimento de Dom Bosco já está às portas. Será um momento propício para repropor o carisma do vosso Fundador. Maria Auxiliadora jamais deixou faltar a sua ajuda na vida da Congregação, e certamente também não a fará faltar no futuro. A sua intercessão materna vos obtenha de Deus os frutos desejados e esperados. Abençoo-vos e rezo por vós e, por favor, rezai também por mim! Obrigado!

Roma, 31 de março de 2014

 

anexo 5
MENSAGEM DO CAPÍTULO GERAL AOS IRMÃOS SALESIANOS

Queridos irmãos,

Nós, que participamos do Capítulo Geral 27, queremos compartilhar convosco a experiência extraordinária vivida nestes meses, convocados a Roma em nome do Senhor e sustentados pela força do Espírito. O Capítulo foi para cada um de nós um evento de graça do qual queremos dar testemunho ao voltar para casa. Queremos contar-vos, retomando nossos trabalhos e preocupações, que “o Senhor foi grande conosco e por isso estamos alegres” (Sl 125,3).

No início houve Valdocco

iniciamos o nosso caminho na terra Santa Salesiana, em Valdocco, lugar de Evangelho e de milagres cotidianos. Fomos até lá como quem sobe um rio à busca da fonte. Estávamos sedentos e a água fresca das origens restaurou-nos. A história do nosso Pai é um convite sempre novo. Em sua vida e em sua proposta buscamos inspiração para fazer reviver hoje o mesmo carisma. Redescobrir Dom Bosco ajudou-nos a enraizar mais profundamente a nossa vocação evangélica e a reavivar os motivos para viver, como ele fez, a entrega pelo Reino em favor dos jovens mais pobres. À luz da sua experiência, caminhamos sob o olhar de Maria Auxiliadora e seguros da sua mediação materna.

Deus nos deu um Pai

Ao voltar para Roma, iniciamos os nossos trabalhos com reflexões e deliberações empenhativas. O tom fraterno e a busca comum tornaram possível tecer, de imediato, relações cordiais e sinceras entre nós, que nos ajudaram a experimentar a riqueza da interculturalidade e a profecia da fraternidade, vividas em primeira pessoa já durante as jornadas capitulares.

Sentimo-nos em comunhão com as comunidades que, nos países em conflito, vivem momentos dramáticos da própria história. A Síria, a Venezuela, a República Centro-Africana, o Sudão estiveram muito presentes em nossas orações. A sua lembrança fez-nos abrir os olhos para os sofrimentos de tantos povos e fez resplender o testemunho de numerosos irmãos que vivem o Evangelho com radicalidade em situações difíceis e dramáticas. isso, para nós, serve de estímulo a nos entregarmos sem parcimônia à nossa vocação e missão.

Depois, Deus nos deu um pai. Enquanto exprimimos a nossa gratidão pelo ministério luminoso e fecundo do P. Pascual Chávez Villanueva, sentimos que a eleição do P. Ángel Fernández Artime como Reitor-Mor e décimo sucessor de Dom Bosco foi um dom da Providência para nós, para toda a Família Salesiana e para os jovens. Seu sorriso aberto e sincero, sua simplicidade, sua grande humanidade e seu relacionamento espontâneo com cada um dos irmãos, depressa nos fizeram ver nele o rosto do pai prometido: “Será eleito um novo Reitor que cuidará de vós e da vossa salvação eterna. Escutai-o, amai-o, obedecei-lhe, rezai por ele...” (Dom Bosco). Obrigado, P. Ángel, pelo teu coração de bom pastor e pela tua generosidade.

Papa Francisco nos fascinou

O encontro com o Papa Francisco foi um momento de intensidade especial. Acolheu-nos e abençoou-nos e, em nós, a cada um de vós e os jovens que o Senhor nos confia. Sua palavra precisa e incisiva tocou- nos o coração. No espírito da Evangelii Gaudium, recordou-nos que, como Dom Bosco, devemos ser homens de Evangelho, que vivem com simplicidade e generosidade a vida cotidiana com estilo austero e livre. Recordou-nos que o nosso Pai Dom Bosco ensinou-nos a amar os jovens com a amorevolezza que torna presente a ternura de Deus pelos seus filhos mais frágeis. Pediu-nos com insistência a sairmos para as periferias onde habitam os jovens e se manifesta mais intensamente a sua pobreza. Pediu-nos a não economizar esforços para destinar as pessoas melhores aos mais pobres que vivem sem perspectivas e sem futuro.

O Papa Francisco inflamou realmente o nosso coração salesiano. Seu abraço foi expressão de afeto sincero aos filhos de Dom Bosco e o apertar as nossas mãos na sua renovou a nossa adesão filial ao sucessor de Pedro, como Dom Bosco sempre quis dos seus filhos. A mensagem do Santo Padre ficará em nossos corações e é um programa para todos nós.

Contracorrente e com esperança

O tema do nosso Capítulo Geral, a radicalidade evangélica, suscitou uma profunda reflexão que nos estimulou à conversão. Aprofundamos, a partir da Palavra com a riqueza de experiências diversas e na busca comum, o apelo que Deus nos faz hoje para sermos místicos no Espírito, profetas da fraternidade e servos dos jovens. Estamos convencidos de que aquilo que vivemos nestas semanas já é uma antecipação do caminho que queremos percorrer com todos vós e com as comunidades educativo-pastorais. Sonhamos o futuro e nos esforçaremos para que se torne realidade.

Unidos à Videira e como ramos novos (cf. jo 15,1-8), nós salesianos sonhamos uma vida consagrada que, vivida com atitudes profundamente evangélicas, seja capaz de dialogar com a cultura e interrogar a realidade social em que vivemos. Desejamos para as nossas comunidades um estilo de vida simples, marcado pela alegria do Evangelho e a paixão pelo Reino. Queremos viver como homens marcados por uma forte experiência de Deus e com os pés no chão, capazes de dar razão da esperança que trazemos no coração, com uma existência plenamente doada, autêntica, íntegra; empenhados na busca das periferias e nos desertos dos jovens mais abandonados.

Se vivermos contracorrente, seremos hoje significativos. Enquanto o individualismo cresce à nossa volta, a fraternidade torna-se uma alternativa crível. Assumamos o desafio de edificar comunidades nas quais aprendamos a passar do “eu” ao “nós”, antepondo sempre o bem do irmão. Devemos ser capazes de abrir espaços de acolhida e de diálogo que ajudem a curar as feridas com relacionamentos maduros e regeneradores. torna-se necessário o nosso decidido empenho para humanizar a vida comum a fim de superar as solidões e multiplicar a misericórdia. Em nosso mundo, a aposta pelo perdão e a paz torna crível o nosso modo de viver e mais claramente evangélico o nosso anúncio.

Descentrados

Cientes do novo momento eclesial em que vivemos, estamos convencidos de que a nossa vida consagrada é um grito contra o egoísmo e a autorreferência: trata-se de ir ao encontro das necessidades dos outros com a atitude misericordiosa de jesus e a partir da nossa vida pobre e solidária. O nosso claustro é o mundo dos jovens em dificuldade e a nossa oração são as nossas mãos elevadas e a nossa ação empenhada em dar novamente dignidade aos mais excluídos. Por isso, não podemos economizar energias, nem tenhamos mais tempo para “as nossas coisas”, ou para fechar-nos em nossos interesses pessoais. tenhamos diante de nós um êxodo que nos ajudará a alcançar outra terra, mil vezes prometida: a dos mais abandonados e dos mais pobres. Ali, como salesianos, encontraremos o nosso tabor.

Francisco convidou-nos a nos situarmos nas fronteiras, nas margens, nas periferias do mundo, nos desertos existenciais onde muitos vivem como ovelhas sem pastor e não têm o que comer (cf. Mt 9,36). Esta é a chave de interpretação que o Papa nos oferece para nos descentrarmos, ou seja, buscar outros olhares que ofereçam pontos de vista diferentes e ajudem-nos a ler a realidade além de nós mesmos. Este é o desafio para a vida religiosa hoje: pensar e viver descentrados do nosso modo de olhar a realidade, muito seguros de nós mesmos, acomodados em obras já garantidas, ocupados num trabalho estruturado e satisfatório. Quando pensamos na renovação da nossa Congregação, não teremos aqui um critério de significatividade que nos pode ajudar a abrir novos horizontes às nossas estruturas? Não é fácil descentrar-nos, mas é urgente fazê-lo se quisermos continuar a ser fiéis ao apelo de Deus.

Queridos irmãos,

Sentimos nestes dias o sopro do Espírito que “faz novas todas as coisas” (Ap 21,5). É o momento de tornar operativas as linhas do itinerário que nos é proposto pelo nosso Capítulo Geral. Movidos pela força do Espírito Santo e iluminados pela sua luz, queremos “avançar mar adentro” (Lc 5,4), navegar para águas mais profundas, na nossa vida consagrada e na missão juvenil e popular. Ouçamos a urgência de anunciar com audácia o Evangelho libertador de jesus Cristo, boa notícia para os pequenos e os pobres. E se, ao ver a entrega da nossa vida e da nossa alegria, alguém nos perguntar: “Por que o fazeis?”, responderemos com liberdade que Deus preenche a nossa existência e o seu grande amor nos interpela e grita em nós para que os jovens “tenham vida e a tenham em abundância” (jo 10,10).

Roma, 12 de abril de 2014

 

anexo 6
DISCURSO DO REITOR-MOR PADRE ÁNGEL FERNÁNDEZ ARTIME NO ENCERRAMENTO DO CG27
O CG27: Uma ocasião para pertencer mais a Deus, mais aos irmãos, mais aos jovens

“Quem permanecer em mim e eu nele esse dá muito fruto, porque separados de mim, nada podeis fazer.

Nisto é glorificado meu Pai, para que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.” (Jo 15,5.8)

Queridos irmãos,

com este meu discurso e a saudação de despedidas que nos daremos, concluímos o nosso Capítulo Geral 27, verdadeiro tempo de Graça e de Presença do Espírito.

Creio que traduzimos em realidade o que é afirmado em nossas Constituições. Foi um momento particularmente importante, um “sinal da unidade na diversidade da Congregação” (Const. 146), no qual, num encontro verdadeiramente fraterno, concluímos a reflexão comunitária que nos ajudará a nos mantermos fiéis ao Evangelho e ao Carisma do nosso Fundador, e sensíveis às necessidades dos tempos e dos lugares (cf. Const. 146).

Nestas simples páginas, que dirijo aos irmãos Capitulares e a todos os irmãos na Congregação, pretendo expressar algumas das coisas que me parecem mais importantes e que podem acompanhar a reflexão e a assimilação do que é central: aquilo que o Capítulo Geral oferece a toda a Congregação como fruto do trabalho, da reflexão e da vida compartilhada durante a sua realização.

1. Breve roteiro das diversas etapas do CG27

As sete semanas que vivemos como Capítulo Geral foram marcadas pelos diversos momentos que lhe conferiram um caráter próprio e nos ajudaram a trilhar um caminho muito denso iniciamos nosso Capítulo em turim e arredores, com uma Peregrinação pessoal e comunitária ao nosso local de nascimento: I Becchi. Com grande intuição, o Reitor-Mor P. Pascual Chávez propôs iniciar a caminhada com este Ícone que tanto nos agradou: todos, pela nossa condição de salesianos, nascemos nos Becchi. tratou-se, então, de um retorno ao local do nosso nascimento, não só o de Dom Bosco. Sem dúvida, o nosso coração salesiano viu-se envolvido então numa atmosfera histórico-espiritual. Lugares como os Becchi-Colle Don Bosco, Valdocco (Capela Pinardi, São Francisco de Sales e Basílica de Maria Auxiliadora...), Valsálice, Santuário da Consolata e São joão Evangelista... foram cenários que nos interpelaram intensamente, num belo clima de meditação, oração e fraternidade. Começávamos a nos conhecer mais e melhor, e a colocar as bases de algo que foi muito especial em nosso CG27: a intensa experiência de comunhão e de fraternidade a partir da diversidade e universalidade da nossa Congregação. Muitos de nós não chegamos ao nosso ‘local de nascimento’ pela primeira vez, pois já estivéramos ali antes, mas esta ocasião estava carregada de uma singularidade: o aqui e agora do Capítulo Geral. Outros irmãos visitavam  pela  primeira  vez  ‘I  Becchi’ e “nossos lugares santos” como experiência espiritual e carismática a reviver, como espaço e oportunidade de ficar mais vinculados e ‘aprisionados’ pelo fascínio que Dom Bosco desperta em todos e, muito especialmente, em nós seus filhos. Para todos, sem dúvida, foram dias que tocaram profundamente o coração, porque os Becchi e Valdocco nunca deixam indiferente quem tem coração salesiano.

Chegados a Roma, dedicamos alguns dias à apresentação e conhecimento do estado da Congregação com o relatório do Reitor-Mor e a apresentação dos diversos Setores e Regiões. Depois, a entrega do livro que recolhe o estado da Congregação encerrava esse espaço tão bem cuidado que tivemos na apresentação de dados, estatísticas, avaliação do programa do sexênio e desafios e carências que se percebiam no momento presente. Sem dúvida, foi de grande ajuda conhecer e aprofundar esse relatório para tomar ciência da realidade da nossa Congregação com suas luzes e sombras e com a certeza de que nós todos somos Congregação e nós todos lhe damos vida e brilho, ou a limitamos com nossas carências pessoais. O relatório permitiu-nos enfocar, sem dúvida, com maior precisão, as subsequentes aproximações do tema que nos esperava como núcleo do CG27.

Creio não exagerar ao dizer que nos dias dos Exercícios Espirituais fomos envolvidos desde o primeiro momento num ambiente especial.

Manifestamos várias vezes naqueles dias e nas semanas seguintes a convicção de que estávamos vivendo muitos momentos numa profunda chave de Fé, de Esperança e de presença do Espírito. Neste sentido, vivemos os Exercícios Espirituais centrados no questionamento que a Palavra de Deus nos fazia, com um esmerado silêncio, com muitos momentos pessoais e comunitários de oração, com bem preparadas celebrações da Eucaristia e da celebração da Reconciliação em que nos sentimos agradavelmente envolvidos. E tudo isso – envolvido pelas reflexões que nos convidavam à autenticidade a partir do Evangelho – nos foi preparando para o que íamos viver e trabalhar nos dias seguintes.

tenho a sensação de que se produziu em nós, em nível pessoal e comunitário, uma vivência espiritual e de Fé, que manifestava o melhor de nós. Quando se experimenta o abandono no Amor de Deus, Amor que é sempre restaurador em si mesmo, o Espírito faz com que cada pessoa se disponha a dar o melhor que tem em si mesma. E creio que foi essa a atitude vital com que iniciamos os trabalhos capitulares propriamente ditos.

As três primeiras semanas de trabalhos capitulares foram caracterizadas pela imersão nas tarefas que nos permitiram tomar contato com o desafio proposto na carta de convocação do Reitor-Mor:

ser Testemunhas da radicalidade evangélica como Místicos no Espírito, Profetas da Fraternidade e Servos dos jovens.             Os trabalhos em comissões e seu primeiro retorno em assembleia deu- nos a sensação de que tínhamos muitas luzes e também sombras que gostaríamos que não nos impedissem de ser, na realidade, aquilo para o que fomos sonhados, a bela opção que fizemos pela nossa vida religiosa consagrada como Discípulos do Senhor com o estilo de Dom Bosco.

Acreditei ver nas entrelinhas desses primeiros momentos uma espécie de nostalgia: a de poder ver realmente a realidade de cada comunidade, de cada presença salesiana, de cada inspetoria e da Congregação inteira como corpo muito vivo e cheio de autenticidade, um corpo no qual experimentamos a dor quando por nós mesmos ou por outros não estamos à altura do que almejamos, ou quando não existem as atitudes próprias de quem realmente ama os jovens, preocupa-se com suas vidas, transmite vida e dá a própria vida. Percebia-se o desejo de voar mais alto com verdade, autenticidade, radicalidade e sentia-se que, às vezes, ainda se voava muito baixo.

O Reitor-Mor, P. Pascual Chávez, convidou-nos a olhar com perspectiva, com realismo esperançoso e com valentia, na hora de nos propormos desafios como Congregação. Em seguida, as reflexões, os diálogos e as intervenções na assembleia estiveram, sobretudo, em sintonia com este clima. E acrescento algo mais. O fruto do nosso Capítulo não pode estar tão somente na busca de novidades. A força neste CG27 passa, em primeiro lugar, pela conversão pessoal e a transformação de espírito e mente de todos os participantes; passa através da nossa capacidade de entusiasmar nossos irmãos e comunicar-lhes a ‘Boa Notícia do que vimos e ouvimos, do que sonhamos e compartilhamos, da fraternidade que se tornou vida nestas semanas. E tudo isso com a esperança de sermos capazes de ser geradores de vida e estimuladores do desejo de enfrentar nas inspetorias, com verdadeira coragem, este novo momento da nossa Congregação e da nossa vida: um novo momento de evangelização e paixão pelos jovens.

Acompanhados de modo muito especial pelo P. josé Cristo Rey García Paredes no discernimento, iniciamos a semana que nos levaria à eleição do novo Reitor-Mor e do Conselho Geral.

Muito do que expressei sobre a nossa peregrinação aos lugares santos salesianos e aos Exercícios Espirituais teve sua concretização nesta semana. Cada um de nós a viveu com a própria sensibilidade e com ressonâncias muito pessoais, mas ousaria dizer que a maior parte de nós sente que foi uma semana de busca do melhor a partir da Fé: uma busca em consciência, em liberdade e verdade. Creio não ser o único a dizer que a metodologia adotada para a eleição dos conselheiros de setores foi de grande acerto. É possível que um posterior aprofundamento no próximo Capítulo Geral nos permitirá afinar um pouco mais o método, extensivo, quem sabe, ao discernimento inclusive para a eleição do Reitor-Mor e do seu Vigário e dos Conselheiros Regionais.

A semana foi marcada, portanto, por uma profunda experiência de busca, na verdade que vem do Espírito, e também por um verdadeiro agradecimento àqueles de nós que aceitavam a nova responsabilidade e, mais ainda, aos irmãos que concluíam seus seis anos ou mais de serviço, a começar pelo Reitor-Mor P. Pascual Chávez, seu Vigário P. Adriano Bregolin e os demais membros do Conselho Geral. Eles deram o melhor de si nestes anos com uma entrega sem medida pelo bem da Congregação e da missão. Os aplausos emotivos, como no último boa-noite do Reitor-Mor P. Pascual Chávez, foram uma manifestação clara desse profundo agradecimento.

No dia 31 de março, tivemos o esperado presente. A audiência com o Papa Francisco satisfez, sem dúvida, as expectativas, inclusive dos mais exigentes. O Papa cativou-nos com sua proximidade e simplicidade, da qual tanto se fala, também com sua espontaneidade e decisão, tão aplaudida, de cumprimentar pessoalmente cada um dos membros da nossa Assembleia Capitular, sendo cada irmão apresentado pelo P. Pascual Chávez, estando eu ao seu lado, como testemunha desse momento especial.

Mas, também trouxemos conosco uma mensagem do Papa Francisco que não pode reduzir-se para nós a simples episódio. E, de fato, não o será porque faz parte das nossas conclusões do Capítulo, destas minhas palavras finais e também da programação e das decisões que caberão ao Reitor-Mor e seu Conselho, e aos capitulares em suas inspetorias, tão logo regressem a elas.

O   Papa   sublinhou-nos   várias   coisas   muito   importantes, das quais enumero apenas algumas, além de outras que terão seu desenvolvimento nas páginas seguintes:

- “É preciso preparar os jovens para agirem na sociedade segundo o espírito do Evangelho, como agentes de justiça e de paz, e a viverem como protagonistas na igreja”.

-  “tivestes sempre diante de vós Dom Bosco e os jovens; e Dom Bosco com o seu lema: ‘Da mihi animas, cetera tolle’. Ele reforçava este programa com outros dois elementos: trabalho e temperança”.

-  “A pobreza de Dom Bosco e de mamãe Margarida inspire em cada salesiano e em cada uma de vossas comunidades uma vida essencial e austera, próxima dos pobres, transparência e responsabilidade na gestão dos bens”.

-  “ir ao encontro dos jovens marginalizados requer coragem, maturidade e muita oração. A este trabalho devem ser enviados os melhores! Os melhores!”

- “Graças a Deus vós não viveis e não trabalhais como indivíduos isolados, mas como comunidade: e agradais a Deus por isso!”

-  “As vocações apostólicas são ordinariamente fruto de uma boa pastoral juvenil. O cuidado das vocações exige atenções específicas...”.

2. Chaves para ler a reflexão do CG27
2.1 Como Dom Bosco, envolvidos na trama de Deus

“Com a profissão religiosa oferecemo-nos a nós mesmos a Deus para caminhar no seguimento de Cristo e trabalhar com Ele na construção do Reino” (Const. 3). Reconhecemos, em nosso documento capitular, que por mais que o tempo em que nos cabe viver não seja o que mais facilita a transcendência, nós temos o desejo, tanto pessoal como comunitariamente de dar o primado a Deus em nossa vida, estimulados pela santidade salesiana e pela sede de autenticidade dos jovens. A isso mesmo nos convidou o Papa quando no início de sua saudação nos disse que “quando se pensa em trabalhar pelo bem das almas, supera-se a tentação da mundanidade espiritual, não se buscam outras coisas, mas só a Deus e o seu Reino”. Esta foi a grande certeza e paixão de Dom Bosco, que se viu completamente envolvido na ‘Trama de Deus’ e, abandonando-se a Ele, chegava também à temeridade.

É nesta dimensão transcendente, neste garantir que toda a nossa vida se encontre na trama de Deus e que Ele tenha o primado na nossa vida, que encontramos a nossa força quando se torna realidade, e é também o lugar no qual descobrimos a nossa fragilidade.

Somos chamados a dirigir o nosso coração, a nossa mente e todas as nossas energias ao ‘princípio’ e às ‘origens’, ao primeiro amor, no qual experimentamos a alegria de nos sentirmos observados pelo Senhor Jesus e, por isso, dissemos sim. Queremos viver o primado de Deus na contemplação cotidiana da vida ordinária, na sequela de Cristo.

Como eu sugeria anteriormente, é aqui que deve acontecer a nossa maior conversão. Encontramos certamente muitos irmãos que são exemplares neste aspecto, mas quando tantos Reitores-Mores (para referir-me apenas aos últimos: P. EgídioViganò, P. juan Edmundo Vecchi e P. Pascual Chávez) nos advertiram sobre esta fragilidade, isso significa que se trata de algo a ser levado mais a sério. O CG27 convida-nos a reverter esta tendência. Seria realmente preocupante se alguém chegasse a pensar que a ‘fragilidade que constatamos na vivência do primado de Deus em nossa vida’ faça parte do nosso DNA salesiano. Não o é! Não o foi em Dom Bosco que, ao contrário, viveu envolvido radicalmente na trama de Deus. Portanto, para nós, é – nada mais nada menos – do que o ponto central da nossa conversão, o que nos levará a uma maior radicalidade pelo Reino.

2.2 Uma fraternidade que seja ‘irresistivelmente profética’

“Missão apostólica, comunidade fraterna e prática dos conselhos evangélicos são elementos inseparáveis da nossa consagração” (Const. 3).

Em diversos momentos da assembleia capitular manifestamos a nossa convicção de que a fraternidade vivida como comunidade é uma das maneiras de fazer experiência de Deus, de viver a mística da fraternidade, num mundo em que, às vezes, as relações humanas estão arruinadas. “A fraternidade vivida em comunidade, feita de acolhida, respeito, ajuda recíproca, compreensão, cortesia, perdão e alegria dá testemunho da força humanizadora do Evangelho”, disse-nos o Papa Francisco.

Esta é outra chave com que ler não só o documento capitular, mas principalmente a nossa vida e a revisão que dela fazemos e queremos continuar a fazer. Os jovens precisam que nós sejamos realmente irmãos. irmãos que, com a simplicidade e o espírito de família típico de Dom Bosco, vivamos uma fraternidade autêntica que, embora não sendo isenta das dificuldades do dia a dia, cresce e purifica-se a partir da fé chegando a ser tão “contracultural” e atrativa como o Evangelho propõe.

temos uma grande oportunidade de renovação e crescimento na Profecia de uma verdadeira fraternidade vivida na simplicidade cotidiana.

isso significará para nós, não poucas vezes, também uma mudança de mentalidade. Com não pouca frequência, nos quatro pontos cardeais onde nossa Congregação está implantada, corremos certo risco de sacrificar a comunidade, a fraternidade e, às vezes, também a comunhão, por causa do trabalho, da atividade ou mesmo do mero ativismo. Por isso, as nossas Constituições, com pedagogia preventiva, proclamam que os três elementos da consagração são inseparáveis. Quando um deles é frágil ou inexistente, não podemos falar de consagração a partir do carisma de Dom Bosco; será outra realidade, mas não a salesiana.

2.3 Uma radicalidade muito salesiana: “Trabalho e temperança”

“O trabalho e a temperança farão florescer a Congregação” (Const. 18). Um binômio tão conhecido por nós, que o P. Viganò, em suas reflexões sobre a Graça de Unidade, definia como ‘inseparável’. “As duas armas com que nós conseguiremos vencer tudo e todos, escreveu Dom Bosco” (Dom Bosco citado nos ACG 413, p. 37). O Papa também se referiu a este binômio em suas palavras da audiência enquanto nos encorajava a este compromisso: “A pobreza de Dom Bosco e de mamãe Margarida inspire em cada salesiano e em cada uma de vossas comunidades uma vida essencial e austera, próxima dos pobres, transparência e responsabilidade na gestão dos bens”.

Demos várias orientações sobre isso na reflexão capitular. É muito claro o ensinamento que sobre este binômio nos foi deixado pelo P. Pascual Chávez na convocação do CG27, e o podemos ler igualmente no P. Vecchi e no P. Viganò. Não nos falta iluminação a respeito. Creio que o desafio passa pela vida e, se é certo que temos em muitíssimas partes da Congregação presenças que têm os últimos, os mais pobres, os excluídos como prioridade é igualmente certo que o brilho desse testemunho será pleno se o nosso modo de vida se caracterizar pela sobriedade, pela austeridade e também pela pobreza. Sem dúvida, o confronto com a realidade que professamos passa através da consciência pessoal de cada um, mas teremos de nos ajudar comunitariamente durante este sexênio. Somos convidados a fazer com que o testemunho de pobreza e sobriedade seja mais evidente onde não o é. todo movimento, progresso, animação que aconteça nas diversas inspetorias neste sentido será demonstração de autenticidade e concretização da radicalidade evangélica que nos propomos.

2.4 Servos dos jovens, donos de nada e de ninguém...

“Nossa vocação é marcada por um dom especial de Deus, a predileção pelos jovens: ‘Basta que sejais jovens para que eu vos queira muito’. Esse amor, expressão da caridade pastoral, dá sentido a toda a nossa vida” (Const. 14).

Com Dom Bosco, acompanhamos o Senhor jesus que colocou uma criança no centro, quando lhe foi perguntado sobre quem era o maior no Reino. Nós, salesianos de Dom Bosco, gerados nos Becchi como ele e nascidos em Valdocco, oferecemos a nossa vida ao Pai para sermos consagrados por Ele, a fim de viver para os jovens. Como expressamos no documento capitular, os jovens são a “nossa sarça ardente” (cf. Ex 3,2ss). Por meio deles Deus nos fala e neles nos espera. Eles são a razão pela qual nos sentimos capazes de dizer sim ao chamado do Senhor, eles são a razão da nossa vida como salesianos-educadores-pastores dos jovens. Como poderíamos ficar no meio do caminho? Como poderíamos dedicar-nos somente por alguns momentos, como se fosse um dia de trabalho? E ainda mais, como poderíamos ficar tranquilos quando em nosso bairro, região, cidade há jovens afligidos pela pobreza, pela solidão, pela violência familiar, pela agressividade de quem os domina...? Somos chamados a emprestar-lhes a voz que, nessas circunstâncias da vida, eles não têm, somos chamados a oferecer-lhes amizade, ajuda, acolhida, a presença do adulto que lhes quer bem, que só quer deles que sejam felizes, ‘aqui e na eternidade’. Ser os amigos, irmãos, educadores e pais que só querem que eles sejam protagonistas e senhores da própria vida... E a partir desta chave é possível ser servo e nunca senhor, dono, “autoridade”...

3. Para onde dirigir nossas opções futuras depois do CG27

Como é facilmente compreensível, não pretendo sugerir numa intervenção como esta todas as opções que poderíamos pôr em ação depois do Capítulo. O que vivemos nele, as amplas reflexões que compartilhamos e o estudo que fizemos do estado da Congregação permitem-nos vislumbrar alguns caminhos que considero irrenunciáveis e prioritários. As inspetorias estabelecerão, sem dúvida, outras opções adequadas ao seu contexto e realidade, sempre no quadro do CG27.

Faço apenas um elenco daquelas que me parecem prioritárias e universais. Posteriormente, o Conselho Geral com a devida programação e as inspetorias com as suas programações poderão estabelecer o itinerário adequado a seguir em todo o mundo salesiano.

3.1 Conhecimento, estudo e assimilação do CG27

Em algumas das primeiras intervenções em assembleia, assim como nas reuniões de comissão, foi-se manifestando a preocupação de se chegar a um documento final que não fosse destinado a ficar “estacionado” numa biblioteca, sem incidência para a renovação. Para superar esse temor, creio que o primeiro passo deve ser o compromisso de todos nós pensarmos as maneiras e o método espiritual – algo mais do que simples estratégias – que possam favorecer o conhecimento daquilo que o CG27 oferece a toda a Congregação. Em seguida, convido-vos a buscar o modo adequado de chegar à sua assimilação pessoal e comunitária e, também, à conversão (se o Espírito assim no- lo conceder). Apenas esta assimilação e conversão serão geradoras de vida nova.

Acredito que seria um erro pensar que o objetivo estaria cumprido ao favorecer aos irmãos o conhecimento do CG27 num retiro ou encontro de fim de semana. Proponho, então, que dediquemos ao menos os três primeiros anos a lê-lo, a refletir sobre ele e fazê-lo objeto de nossas programações locais e inspetoriais, e dos diversos projetos  de  animação e  governo das  Inspetorias;  verificá-lo, depois, no próximo Capítulo Inspetorial (conhecido como Capítulo Inspetorial Intermédio) e ver quais frutos está produzindo.

3.2 Profundidade de vida interior: testemunhas do Deus da vida

Como disse em páginas anteriores, creio que devemos reconhecer que, na Congregação, ao falar em termos gerais, a profundidade da vida interior não é o nosso ponto forte. Resisto a admitir, dizia-lhes, que seja algo do nosso DNA salesiano porque nem Dom Bosco foi assim e muito menos nos quis assim. Reconhecendo esta fragilidade (expressada abundantemente pelos Reitores-Mores precedentes, assim como por alguns Capítulos Gerais), e com a ajuda do Espírito, devemos encontrar a força para reverter essa tendência. Requer-se uma autêntica conversão à radicalidade evangélica que toca a mente e o coração. Quando o Papa joão Paulo ii,  dirigindo-se à Vida Consagrada, nos pede que a vida espiritual esteja ‘no primeiro lugar’, não nos está convidando a um espiritualismo estranho, mas à profundidade de vida que nos faz ao mesmo tempo realmente fraternos e generosos ao nos entregarmos aos outros, à missão e, em especial, aos mais pobres, tornando assim verdadeiramente atraente a nossa opção de vida.

Esta profundidade de vida, esta autenticidade, esta radicalidade evangélica, este caminho de santificação é “o dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens” (Const. 25). De fato, em Dom Bosco, não se explica sua predileção radical pelos jovens sem jesus Cristo. “Na sequela de Cristo encontra-se a fonte borbulhante da sua origem e vitalidade. isto é um dom inicial do Alto, o ‘primeiro carisma’ de Dom Bosco” (P. Viganò, ACG 290, p.14).

Por isso sugiro que cada Comunidade possa ‘dizer a si mesma’ de maneira concreta, e como fruto do CG27, o que pensa e o que propõe para que se possa notar e verificar este colocar ‘Deus no primeiro lugar’, em seu ser comunidade salesiana convocada pelo Senhor, que não só se reúne, mas vive em seu nome.

3.3 Cuidemos de nós mesmos, cuidemos de nossos irmãos, cuidemos de nossas comunidades

“Por isso nos reunimos em comunidades, nas quais nos amamos a ponto de tudo compartilhar em espírito de família e construímos a comunhão das pessoas” (Const. 49).

Para  nós,  salesianos,  a  vida  comunitária,  a  ‘comunhão  da vida em comum’, não é apenas uma circunstância, um modo de nos organizarmos, um meio para sermos mais eficazes na ação. Para nós, a autêntica fraternidade que se vive na comunhão das pessoas é essencial, constitutiva; é um dos três elementos inseparáveis de que fala o já citado artigo 3 de nossas Constituições.

E, pela força testemunhal própria da fraternidade evangélica, eu convido a todos a tomarem verdadeira ciência de que precisamos cuidar de nós mesmos, para estar vocacionalmente bem e vocacionalmente em forma, e precisamos cuidar de nossos irmãos de comunidade com atitudes de verdadeira “acolhida, respeito, ajuda recíproca, compreensão, cortesia, perdão e alegria” (audiência com o Papa). Viver o verdadeiro amor fraterno que, em definitivo, aceita e integra as diversidades e combate a solidão e o isolamento; e precisamos cuidar da mesma forma de nossas comunidades nas inspetorias.

já dei a entender nas páginas anteriores. Sacrificamos, com frequência, a vida comunitária e os espaços e momentos comunitários por causa do trabalho. Esta realidade, no final, faz-nos pagar uma fatura muito elevada, tremendamente dolorosa. Por isso, peço que cada Inspetoria faça um verdadeiro estudo e o esforço prático para cuidar das nossas comunidades, consolidá-las, garantir a solidez em qualidade humana e em número de irmãos, mesmo que seja ao preço de não poder ter comunidade religiosa em algumas presenças, e caminhar na significatividade e no redesenho das Casas e das Inspetorias, como nos vem sendo pedido nos últimos anos e em diversas visitas de conjunto às Regiões. Certamente, precisaremos vencer grandes resistências que nascem dos afetos, dos anos vividos numa casa, da pressão da própria comunidade educativa, do bairro ou associações citadinas, e até de governos locais e regionais..., mas as dificuldades previsíveis não podem reduzir nem a nossa lucidez nem a nossa capacidade de atuar com liberdade prudente.

3.4 Basta-me que sejais jovens para vos amar

Lemos no CG26 que retornar aos jovens é ‘estar no pátio’, e sabemos que estar no pátio vai além do espaço físico. É querer estar com eles e entre eles, é encontrá-los em nossa vida cotidiana, é conhecer o seu mundo, animar o seu protagonismo, acompanhá-los no despertar de seu sentido de Deus e animá-los com audácia a viverem sua existência como a viveu o Senhor jesus.

Quando contemplamos Dom Bosco naquilo que nos contam os que mais o estudaram e no fascínio que ele próprio desperta, ficamos admirados pela força da sua paixão e vocação pelos jovens. P. Ricceri escreve numa de suas cartas um fragmento que me parece belo, quando diz: “A predileção pastoral pelos meninos e jovens mostrava-se em Dom Bosco como uma espécie de ‘paixão’, ou melhor, como a sua

‘supervocação’ à qual se dedicou evitando todo obstáculo e deixando todas as coisas, mesmo as boas, que lhe dificultassem de alguma maneira a sua realização” (ACG 284, 1976, p. 27).

E a predileção pelos jovens chega a ser a maior opção de fundo em sua vida, e é a missão da Congregação. É muito o que poderíamos encontrar escrito e pensado sobre esta realidade de Dom Bosco e também o que foi dito em nossos Capítulos Gerais. O último deles, o CG26, dedica várias linhas de ação a este “retornar aos jovens”.

Não falamos sobre o tema do ‘retorno aos jovens’ como Assembleia Capitular, e por isso não estou certo em que medida se tornou realidade neste último sexênio, mas é algo que sempre será de atualidade permanente. É por isso que ouso pedir a cada Inspetoria e às comunidades locais que, como resposta ao projeto de animação e governo de cada Inspetoria, onde o irmão tem força, paixão educativa e evangelizadora, vocação autêntica para viver pelos jovens e no meio deles, seja qual for a sua idade, faça o possível para ver-se livre de outras tarefas e gestões, e possa fazer o que melhor deveríamos saber fazer por vocação: ser educadores-pastores dos jovens. Convido a concretizar e traduzir ainda mais em decisões de governo o que bem conhecemos como fruto de um patrimônio da herança salesiana.

3.5 Para nós, como para Dom Bosco: a nossa prioridade são os jovens mais pobres, os últimos, os excluídos

P. Vecchi escreve numa de suas cartas: “Os jovens pobres foram, e o são ainda, um dom para os salesianos. O retorno a eles haverá de fazer-nos recuperar o traço central da nossa espiritualidade e da nossa práxis pedagógica: a relação de amizade que cria correspondência e desejo de crescer” (ACG 359, p. 25). Evidentemente, ninguém pode pensar que o P. Vecchi estivesse defendendo a pobreza, mas sim, entende-se, que onde lamentavelmente houver pobreza e jovens pobres, se nós estivermos com eles e no meio deles, eles serão os primeiros a nos fazer um bem, eles nos evangelizam e nos ajudam a viver de verdade o Evangelho com o carisma de Dom Bosco. Ouso dizer que são os jovens pobres que nos salvarão.

O nosso ser Servos dos jovens passa, como refletimos em nosso Capítulo Geral, pelo abandono das nossas seguranças, não só de vida, mas também de ação pastoral, para caminhar para uma pastoral ‘em saída’, que parte das necessidades profundas dos jovens e em especial dos mais pobres. “trabalhando com os jovens, encontrais o mundo da exclusão juvenil. O que é tremendo!” (Papa Francisco na audiência).

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Por isso ouso pedir que, com “coragem, maturidade e muita oração” com que somos enviados aos jovens mais excluídos, optemos em cada Inspetoria por rever onde devemos permanecer, aonde devemos ir e de onde podemos sair... Com seu clamor e seus gritos de dor, os jovens mais carentes nos interpelam. Eles, a seu modo, nos chamam. isso se traduz em espaços de reflexão em cada inspetoria durante este sexênio para que, à luz do CG27 e da nossa opção de sermos Servidores dos jovens... para as periferias, cheguemos a decisões de governo inspetorial, sempre em diálogo com os irmãos, que tornem realidade o que lhes peço com coragem, maturidade e profunda visão de fé. Não tenhamos receio de ser proféticos nisso.

3.6 Evangelizadores dos jovens, companheiros de caminhada, audaciosos em propor-lhes desafios

O artigo 6 de nossas Constituições encerra em essência toda a riqueza da missão que por carisma nos foi confiada: “Fiéis aos compromissos que Dom Bosco nos transmitiu, somos evangelizadores dos jovens, especialmente dos mais pobres; cultivamos de modo particular as vocações apostólicas; somos educadores da fé nos ambientes populares, em particular com a comunicação social; anunciamos o Evangelho aos povos que não o conhecem”. Este é e continuará a ser o nosso grande desafio porque mesmo nos maiores sucessos, sempre poderemos fazer mais, nunca se fará o suficiente e, com certa frequência, nos caberá constatar que ficamos pelo meio do caminho.

Dom Bosco é nosso grande modelo neste ‘saber fazer’ com coração salesiano na educação e evangelização dos jovens. Seus jovens estavam convencidos de que Dom Bosco os amava e queria o bem deles, tanto nesta vida como na eternidade. E é por isso que aceitavam sua proposta de conhecimento do Senhor e amizade com Ele. Como educadores, devemos saber conviver com o jovem e acompanhá-lo a partir da sua realidade e situação concreta, em seu processo pessoal de amadurecimento. Como evangelizadores, nossa meta é acompanhar os jovens para que, com liberdade, possam encontrar-se com o Senhor jesus.

Por  isso,  irmãos,  embora  na  brevidade  destas  linhas,  não posso deixar de sublinhar este parágrafo como essencial: somos evangelizadores dos jovens, e como Congregação, como comunidades inspetoriais e locais concretas, devemos viver e crescer numa verdadeira predileção pastoral pelos jovens. Será muito difícil consegui-lo se não dermos caráter de prioridade e urgência ao Anúncio do Senhor Jesus aos jovens e, ao mesmo tempo, se não formos capazes de acompanhá-los em sua realidade de vida. Deveria ser o nosso ponto forte acompanhar cada jovem a partir da sua situação, contudo, com frequência é uma tarefa que deixamos a outros ou dizemos não saber realizar. Neste acompanhamento, é de vital importância iniciar na cultura vocacional da qual se nos tem falado tanto. Contudo, não o temos conseguido. Ela costuma assustar-nos, ou nós a desqualificamos com a ‘autojustificação’ de que não acreditamos ser preciso usar

‘uma vara de pesca’. Se realmente pensamos assim e ‘vendemos este discurso’ estamos matando algo que é muito nosso, do nosso carisma: a capacidade de acompanhar cada adolescente, cada jovem em suas buscas pessoais, em seus desafios, em suas questões sobre a vida, em suas opções de vida. Uma coisa que é fascinante em nossa vocação salesiana, nós deixamos de lado ou nas mãos de outros... ou de ninguém. Por isso peço a cada Inspetoria que destine os irmãos mais capazes para a pastoral juvenil e vocacional, com verdadeiras propostas de evangelização, desenvolvendo itinerários sistemáticos de educação na fé, privilegiando a atenção à pessoa e ao seu acompanhamento pessoal, propondo desafios corajosos no discernimento de seus projetos de vida, com propostas também corajosas para todo tipo de vocações na Igreja, também a vocação salesiana em suas diversas formas, e envolvendo toda a comunidade.

Esperemos que não aconteça o que o CG23 constatava – uma das visões mais brilhantes do nosso magistério capitular sobre a educação dos jovens na fé – quando diz que no itinerário ao qual me referi, pode chegar o momento do abandono, “não só pelas dificuldades apresentadas pela fé, mas pela falta de atenção dos educadores, mais preocupados com as coisas do que em acompanhar fraternalmente o diálogo entre o jovem e Deus” (CG23, 137).

3.7 Com os leigos na urgência da missão compartilhada

Constatamos em nossa reflexão capitular o maior protagonismo  dos  leigos, favorecido pela corresponsabilidade e a missão compartilhada na comunidade educativo-pastoral. Há dezoito anos, no CG24 – para não remontarmos a um magistério anterior – pedia-se ao Reitor-Mor e seu Conselho que se desse a conhecer  iniciativas  e  experiências  de  colaboração  entre  sdb  e leigos  (CG24,127), e  se  reconhecia,  na  reflexão  capitular,  que “o caminho do envolvimento leva à comunhão no espírito e o da corresponsabilidade faz compartilhar a missão salesiana. Comunhão e participação, envolvimento e corresponsabilidade são as duas faces da mesma medalha” (CG24,22).

Progredimos no modo de ver a missão compartilhada. O P. Pascual Chávez manifestou várias vezes, como fruto da sua reflexão sobre este tema, que, com o olhar e a visão teológica e eclesiológica de hoje, não se pode imaginar a missão salesiana sem os leigos, porque a sua contribuição também é vital para nosso carisma.

Acrescento ainda isto, queridos irmãos: A missão compartilhada entre SDB e leigos deixou de ser opcional – se alguém ainda pensasse assim –, e é assim porque a missão salesiana no mundo de hoje no-lo pede insistentemente. É verdade que na Congregação temos diversas  ‘velocidades’ nas  inspetorias e  na relação  entre  si,  mas a missão compartilhada entre leigos e sdb, a reflexão sobre essa missão, o processo de conversão dos nossos irmãos sdb a respeito, é irrenunciável. Por isso ouso pedir que cada Inspetoria faça com que seja realidade, no primeiro triênio depois do CG27, a concretização do Projeto e do programa de missão compartilhada que se está realizando entre SDB e leigos – onde já é realidade – ou o estudo da realidade inspetorial e o Projeto e programa concreto a ser realizado nos anos seguintes até o próximo Capítulo Geral.

3.8 Missão ‘Ad gentes’, Projeto Europa e Bicentenário

Não desenvolvo estes temas. Faço apenas constar que não se trata de algum esquecimento; ao contrário, são três realidades que deverão ter lugar na programação do sexênio. Os dois últimos, Projeto Europa e Bicentenário, já têm um desenvolvimento próprio, que precisamos continuar a tutelar, e a Ação Missionária da Congregação (Missio ‘Ad Gentes’) terá uma atenção especial, sempre enquadrada na coordenação de todos os setores da missão que abrange a pastoral juvenil, especialmente para os mais pobres, a educação das classes populares, com cuidado atento na comunicação social, e o anúncio do Evangelho aos povos que não o conhecem – Missio ad gentes (cf. Const. 6).

3.9 Um agradecimento de coração

Não posso concluir estas palavras sem me referir ao anterior Reitor-Mor e seu Conselho.

De todo coração, eu te agradeço, caríssimo P. Pascual, 9º Sucessor de Dom Bosco, que foste nosso Reitor-Mor durante os últimos doze anos, dando vida, entregando tua vida, sendo Pai, conduzindo nossa Congregação com convicção e segurança, como bom capitão que sabe encontrar o rumo apesar das névoas e da chegada da noite em cada entardecer. Obrigado porque foste Pai para toda a Família Salesiana, Sucessor de Dom Bosco para os jovens de todas as partes do mundo. Obrigado pelo teu Magistério rico e sólido, obrigado por levar a bom porto a nave da Congregação na longa travessia dos últimos doze anos. O Senhor te abençoe e Dom Bosco premie toda a tua doação em seu nome.

Por isso estou plenamente certo de que estas minhas palavras como Reitor-Mor são as palavras de toda a Assembleia Capitular do CG27, de todos os irmãos da Congregação, de toda a Família Salesiana e de muitos jovens do mundo que quereriam ter voz neste momento.

E também um obrigado, vivíssimo e cheio de afeto ao teu Vigário e a todos os membros do Conselho Geral que, por seis ou doze anos cuidaram com zelo de cada uma das parcelas (seja Setores de animação ou Regiões do mundo) que a Congregação lhes confiou. Em nome de todos os irmãos, da Família Salesiana e dos jovens um grande obrigado por tanta generosidade e doação.

Concluo, invocando a Mãe, a nossa Mãe Auxiliadora, a quem, na oração que o P. Pascual preparou para o documento capitular, invocamos como Mulher da Escuta, Mãe da  nova comunidade e Serva dos pobres. Que Ela, com sua intercessão nos obtenha o dom do Espírito para termos um coração que pertença mais a Deus, junto com os irmãos, para os jovens e entre eles.

Dom Bosco nos guie e acompanhe para traduzir em vida o que vivemos, pensamos e sonhamos neste CG27. Com um coração semelhante ao seu nos faça verdadeiros buscadores de Deus (Místicos), irmãos capazes de amar a quem Deus nos coloca no caminho da vida (Profetas da fraternidade), e verdadeiros Servos dos jovens com o coração do Bom-Pastor.

Roma, 12 de abril de 2014

 

ELENCO DOS PARTICIPANTES NO CG27
Conselho Geral
1   P CHÁVEZ VILLANUEVA Pascual Reitor-Mor, Presidente
2   P BREGOLIN Adriano Vigário do Reitor-Morore
3   P CEREDA Francesco Conselheiro para a Formação - Regulador
4   P ATTARD Fabio Conselheiro para a Pastoral juvenil
5   P KLEMENT Václav Conselheiro para as Missões
6   P GONZÁLEZ Plascencia Filiberto Conselheiro para a Comunicação Social
7   L MULLER Jean Paul Ecônomo Geral
8   P BASAÑES Guillermo Conselheiro Regional
9   P CHRZAN Marek Conselheiro Regional
10 P FRISOLI Pier Fausto Conselheiro Regional
11 P KANAGA Maria Arokiam Conselheiro Regional
12 P NÚÑEZ MORENO José Miguel Conselheiro Regional
13 P ORTIZ G. Esteban Conselheiro Regional
14 P VITALI Natale Conselheiro Regional
15 P WONG Andrew Conselheiro Regional
16 P STEMPEL Marian Secretário Geral
17 P MARACCANI Francesco Procurador Geral
Região salesiana: ÁFRICA E MADAGASCAR
18 P GEBREMESKEL Estifanos Sup. Visit. África Etiópia e Eritreia
19 P TAKELE Seleshi Delegado África Etiópia e Eritreia
20 P NGOY Jean-Claude Inspetor África Central
21 P MAKOLA MWAWOKA Dieudonné Delegado África Central
22 P ROLANDI Giovanni Inspetor África Leste
23 P ASIRA LIPUKU Simon Delegado África Leste
24 P DUFOUR François Sup. Visit África Meridional
25  L MHARA Marko Delegado África Meridional
26 P GARCĺA PEÑA Faustino Inspetor . África Occidental Francófona
27  L CORDERO Hernán Delegado África Occidental Francófona
28 P CRISAFULLI Jorge Inspetor África Occidental Anglófona
29 P OCHE Anthony Delegado África Occidental Anglófona
30 P SWERTVAGHER Camiel Sup. Visit África Grandes Lagos
31 P NGOBOKA Pierre Célestin Delegado África Grandes Lagos
32 P RODRĺGUEZ MARTIN Filiberto Sup. Visit.. Angola
33 P SEQUEIRA GUTIÉRREZ Victor Luis Delegado Angola
34 P JIMÉNEZ CASTRO Manuel Sup. Visit. África Tropical Ecuatorial
35 P NGUEMA Miguel Ángel Delegado África Tropical Ecuatorial
36 P CIOLLI Claudio Sup. Visit.. Madagascar
37 P BIZIMANA Innocent Delegado Madagascar
38 P CHAQUISSE Américo Sup. Visit.. Moçambique
39 P SARMENTO Adolfo de Jesus Delegado Moçambique
40 P CHALISSERY George Sup. Visit.. Zâmbia-Malauí-Namíbia-Zimbábue
41 P MBANDAMA Michael Kazembe Delegado Zâmbia-Malauí-Namíbia-Zimbábue
Região salesiana: AMÉRICA CONE SUL
42 P CAYO Manuel Inspetor Argentina Norte
43 P ROMERO Héctor Delegado Argentina Norte
44 P FERNÁNDEZ ARTIME Ángel Inspetor Argentina Sul
45  L VERA Hugo Carlos Delegado Argentina Sul
46 P MARÇAL Márcio Delegado Brasil Belo Horizonte
47 P SHINOHARA Lauro Inspetor Brasil Campo Grande
48 P FIGUEIRÓ Tiago Delegado Brasil Campo Grande
49 P ALVES DE LIMA Francisco Inspetor Brasil Manaus
50 P RIBEIRO Antonio de Assis Delegado Brasil Manaus
51 P FISTAROL Orestes Inspetor Brasil Porto Alegre
52 P DA SILVA Gilson Marcos Delegado Brasil Porto Alegre
53 P VANZETTA Diego Inspetor Brasil Recife
54 P RODRIGUES João Carlos Delegado Brasil Recife
55 P CASTILHO Edson Inspetor Brasil São Paulo
56 P SIBIONI Roque Luiz Delegado Brasil São Paulo
57 P LORENZELLI Alberto Riccardo Inspetor Chile
58 P ALBORNOZ David Delegado Chile
59 P LEDESMA Néstor Inspetor Paraguai
60 P ZÁRATE LÓPEZ Nilo Damián Delegado Paraguai
61 P CASTELL Néstor Inspetor Uruguai
62 P COSTA Daniel Delegado Uruguai
Região salesiana: ÁSIA LESTE E OCEANIA
63 P CHAMBERS Greg Inspetor Austrália
64 P GRAHAM Bernard Delegado Austrália
65 P FEDRIGOTTI Lanfranco Inspetor China
66 P FUNG Ting Wa Andrew Delegado China
67 P CRUZ Eligio Inspetor Filipinas Norte
68 P GARCES Alexander Delegado Filipinas Norte
69 P MILITANTE George Inspetor Filipinas Sul
70 P GERONIMO Honesto Delegado Filipinas Sul
71 P CIPRIANI  Aldo Inspetor Japão
72 P YAMANOUCHI  Mario Michiaki Delegado Japão
73 P GUTERRES João Paulino Sup. Visit. Indonésia e Timor Leste
74 P SOERJONOTO Yohannes Boedi Delegado Indonésia e Timor Leste
75 P NAM Stephanus (Sanghun) Inspetor Coreia
76 P YANG Stefano Delegado Coreia
77 P VALLENCE Maurice Sup. Visit.. Mianmar
78 P SOE NAING Mariano Delegado Mianmar
79 P PRASERT SOMNGAM Paul Inspetor Tailândia
80 P SUPHOT RIUNGAM Dominic Savio Delegado Tailândia
81 P TRAN Hoa Hung Giuseppe Inspetor Vietnã
82 P NGUYEN Thinh Phuoc Giuseppe Delegado Vietnã
83 P NGUYEN Ngoc Vinh Giuseppe Delegado Vietnã
Região salesiana: ÁSIA SUL
84 P D’SOUZA Godfrey Inspetor Índia Mumbai
85 P FERNANDES Ajoy Delegado Índia Mumbai
86 P ELLICHERAIL Thomas Inspetor Índia Kolkata
87 P PUYKUNNEL Shaji Joseph Delegado Índia Kolkata
88 P GURIA Nestor Inspetor Índia Dimapur
89 P CHITTILAPPILLY Varghese Delegado Índia Dimapur
90 P VATTATHARA Thomas Inspetor Índia Guwahati
91 P ALMEIDA Joseph Delegado Índia Guwahati
92 P RAMINEDI Balaraju Inspetor Índia Hyderabad
93 P THATHIREDDY Vijaya Bhaskar Delegado Índia Hyderabad
94 P ANCHUKANDAM Thomas Inspetor Índia Bangalore
95 P KOONAN Thomas Delegado Índia Bangalore
96 P VETTOM Jose Delegado Índia Bangalore
97 P RAPHAEL Jayapalan Inspetor Índia Chennai
98 P SWAMIKANNU Stanislaus Delegado Índia Chennai
99 P ANTONYRAJ Chinnappan Delegado Índia Chennai
100 P PEEDIKAYIL Michael Inspetor Índia Nova Déli
101 P PARAPPULLY Jose Delegado Índia Nova Déli
102 P FIGUEIREDO Ian Inspetor Índia Panjim
103 P RODRIGUES Avil Delegado Índia Panjim
104 P MALIEKAL George Inspetor Índia Silchar
105 P LENDAKADAVIL Anthony Delegado Índia Silchar
106 P JOHNSON Albert Inspetor Índia Tiruchy
107 P JOSEPH Antony Delegado Índia Tiruchy
108 P KAHANAWITALIYANAGE Nihal Sup. Visit.. Sri Lanka
109 P SAJEEWAKA Paul Delegado Sri Lanka
Região salesiana: EUROPA NORTE
110 P OSANGER Rudolfo Inspetor Áustria
111 P KETTNER Siegfried Delegado Áustria
112 P TIPS Mark Inspetor Bélgica Norte
113 P WAMBEKE Wilfried Delegado Bélgica Norte
114 P VACULĺK Petr Inspetor República Checa
115 P CVRKAL Petr Delegado República Checa
116 P ORKIĆ Pejo Inspetor Croácia
117 P STOJIĆ Anto Delegado Croácia
118 P COYLE Martin Inspetor Grã-Bretanha
119 P GARDNER James Robert Delegado Grã-Bretanha
120 P GRÜNNER Josef Inspetor Alemanha
121 P GESING Reinhard Delegado Alemanha
122 P VON HATZFELD Hatto Delegado Alemanha
123 P CASEY Michael Inspetor Irlanda
124 P FINNEGAN John Christopher Delegado Irlanda
125 P WUKEK Andrzej Inspetor Polônia Varsóvia
126 P KULAK Wojciech Delegado Polônia Varsóvia
127 P YASHEUSKI Aliaksandr Delegado Polônia Varsóvia
128 P CHMIELEWSKI Marek Inspetor Polonia Pila
129 P KABAK Vladimir Delegado Polônia Piła
130 P KLAWIKOWSKI Zenon Delegado Polônia Piła
131 P LEJA Alfred Inspetor Polônia Wrocław
132 P LOREK Piotr Delegado Polônia Wrocław
133 P BARTOCHA Dariusz Inspetor Polônia Cracóvia
134 P KIJOWSKI Tomaz Delegado Polônia Cracóvia
135 P MANĺK Karol Inspetor Eslováquia
136 P IŽOLD Jozef Delegado Eslováquia
137 P POTOČNIK Janez Inspetor Eslovênia
138 P MARŠIČ Franc Delegado Eslovênia
139 P PISTELLATO Onorino Sup. Circ. Ucrânia
140 P VITÁLIS Gábor Suplente Hungria
141 P DEPAULA Flavio Delegado Hungria
Região salesiana: EUROPA OESTE
142 P FEDERSPIEL Daniel Inspetor França e Bélgica Sul
143 P ROBIN Olivier Delegado França e Bélgica Sul
144 P PEREIRA Artur Inspetor Portugal
145 P MORAIS Tarcízio Delegado Portugal
146 P ASURMENDI Angel Inspetor Espanha Barcelona
147 P CODINA Joan Delegado Espanha Barcelona
148 P URRA MENDĺA Félix Inspetor Espanha Bilbao
149 P VILLOTA José Luis Delegado Espanha Bilbao
150 P RODRĺGUEZ PACHECO José Inspetor Espanha León
151 P BLANCO ALONSO José Maria Delegado Espanha León
152 P ONRUBIA Luis Inspetor Espanha Madri
153 P VALIENTE Javier Delegado Espanha Madri
154 P GARCĺA SANCHEZ Fernando Delegado Espanha Madri
155 P RUIZ MILLÁN Francisco Inspetor Espanha Sevilha
156 P PÉREZ Juan Carlos Delegado Espanha Sevilha
157 P SANCHO GRAU Juan Bosco Inspetor Espanha Valência
158 P SOLER Rosendo Delegado Espanha Valência
Região salesiana: INTERAMERICANA
159 P PICHARDO Victor Inspetor Antilhas
160 P SANTIAGO Hiram Delegado Antilhas
161 P LÓPEZ ROMERO Cristóbal Inspetor Bolívia
162 P APARICIO BARRENECHEA Juan F. Delegado Bolívia
163 P HERNÁNDEZ Alejandro Inspetor América Central
164 P SANTOS René Delegado América Central
165 P MORALES Jaime Inspetor Colômbia Bogotá
166 P GRAJALES Wilfredo Delegado Colômbia Bogotá
167 P GÓMEZ RUA John Jairo Inspetor Colômbia Medellín
168 P BEJARANO Rafael Delegado Colômbia Medellín
169 P FARFÁN Marcelo Inspetor Equador
170 P GARCĺA ITURRALDE Robert Germán Delegado Equador
171 P SYLVAIN Ducange Sup. Visit. Haiti
172 P MÉSIDOR Jean-Paul Delegado Haiti
173 P MURGUĺA VILLALOBOS Salvador Cl. Inspetor México Guadalajara
174 P OROZCO Hugo Delegado México Guadalajara
175 P HERNÁNDEZ PALETA Gabino Inspetor México México
176 P OCAMPO URIBE Ignacio Delegado México México
177 P DAL BEN Santo Inspetor Peru
178 P PACHAS José Antonio Delegado Peru
179 P DUNNE Thomas Inspetor Estados Unidos Leste
180 P PACE Michael Delegado Estados Unidos Leste
181 P PLOCH Timothy Inspetor Estados Unidos Oeste
182 L VU Alphonse Delegado Estados Unidos Oeste
183 P STEFANI Luciano Inspetor Venezuela
184 P MÉNDEZ Francisco Delegado Venezuela
Região salesiana: ITÁLIA e ORIENTE MÉDIO
185 P MANCINI Leonardo Sup. Circ. Itália Central
186 P BERTO Gino Delegado  Itália Central
187 P COLAMEO Roberto Delegado Itália Central
188 P MARCOCCIO Francesco Delegado. Itália Central
189 P MARTOGLIO Stefano Sup. Circ. Itália Piemonte e Valle d’Aosta
190 P BESSO Cristian Delegado Itália Piemonte e Valle d’Aosta
191 P STASI Enrico Delegado Itália Piemonte e Valle d’Aosta
192 L MANZO Piercarlo Delegado Itália Piemonte e Valle d’Aosta
193 P CACIOLI Claudio Inspetor Itália Lombardo Emiliana
194 P CUCCHI Daniele Delegado Itália Lombardo Emiliana
195 P VANOLI Stefano Delegado  Itália Lombardo Emiliana
196 P CRISTIANI Pasquale Inspetor Itália Meridional/td>
197 P BELLINO Fabio Delegado Itália Meridional
198 P DAL MOLIN Roberto Inspetor Itália Nordeste
199 P BIFFI Igino Delegado Itália Nordeste
200 L PETTENON Giampietro Delegado Itália Nordeste
201 P RUTA Giuseppe Inspetor Itália Sicília
202 P MAZZEO Marcello Delegado Itália Sicília
203 P EL RA’I Munir Inspetor Oriente Médio
204 P CAPUTA Giovanni Delegado Oriente Médio
Universidade Pontifícia Salesiana
205 P D’SOUZA Joaquim Sup. Visit.. UPS
206 P NANNI Carlo Delegado UPS
Casa Geral e Comunidade Vaticana
207 P LÓPEZ Horacio Adrián Delegado RMG
Observadores convidados
208 L KURIAS Cyriac Convidado Índia Nova Déli
209 L CALLO Raymond Convidado Filipinas Norte
210 L BEHÚN Rastislav Convidado Eslováquia
211 L PIÑUELA Matías Convidado Espanha León
212 P BAQUERO Peter Convidado Filipinas Norte
213 P POOBALARAYEN Ferrington Convidado África Leste
214 P KARIKUNNEL Michael Convidado África Ocidental Anglófona
215 P OBERMÜLLER Petrus Invited Áustria
216 P DERETTI Asidio Convidado Brasil Porto Alegre
217 P DOS SANTOS Gildásio Convidado Brasil Campo Grande
218 P BICOMONG Paul Convidado Filipinas Norte
219 P GOMES Nirmol Convidado Índia Kolkata
220 P CAUCAMÁN Honorio Convidado Argentina Sul

 

ÍNDICE ANALÍTICO DO TEMA CAPITULAR

Abertura à cultura

-   Abertura às dinâmicas culturais do mundo 2, 5, 35, 37, 43, 62, 71.4

Acompanhamento dos jovens

-   Acompanhamento espiritual 17, 18, 27, 38, 59, 75.1
-   Acompanhamento para o seu amadurecimento 1, 73.5
-   Acompanhamento vocacional 74.2, 75.1

Alegria

-   A alegria que vem da nossa fé 31, 66.2
-   A alegria que vem da nossa vocação e missão 4, 17, 32, 39, 59, 67.1

Ambiente digital

-   O mundo digital nos interpela 25, 42, 62, 75.4

Autenticidade

-   Autenticidade, a testemunhar na vida salesiana 1, 8, 55, 59, 63.2, 67.1
-   Autenticidade, necessidade dos jovens 1, 17, 40

Colaboração e colaboradores

-   Colaboradores dos Salesianos 16, 69.2, 70.2, 75.4
-   Salesianos abertos à colaboração 19, 29, 55, 57, 71.3

Compreensão

-   Compreensão recíproca 41, 48

Comunhão

-   Comunhão em comunidade 3, 36, 41, 45, 46, 51, 68.1, 71.1

Comunicação relacional

-   Comunicação interpessoal 25, 40, 69.1

Comunidade educativo-pastoral

-   Papel proativo dos Salesianos para com a CEP 13, 14, 15, 44, 46, 60, 65.2

Comunidade salesiana

-   Comunidade e missão 11, 21, 40, 43, 44, 60, 63.2, 69.5, 74.1
-   Comunidade e vida fraterna 8, 9, 10, 11, 12, 31, 36, 40, 42, 45, 47, 48, 49, 50, 63.2, 67.5, 69.3, 69.6
-   Comunidade em relação com Deus 1, 5, 33, 39, 40
-   Comunidades internacionais 29, 75.5
-   Consistência 60, 69.6

Conversão

-   Conversão espiritual, fraterna e pastoral 63, 65.1, 73.1

Correção fraterna

-   Acolhida da correção fraterna 48, 68.2

Corresponsabilidade

-   Corresponsabilidade com a CEP e a Família Salesiana 13, 15, 19, 44, 46, 51, 70.2, 71.1
-   Corresponsabilidade na comunidade salesiana 48, 51, 69.3, 71.1

Cuidado dos irmãos

-   Cuidado dos irmãos em situações difíceis 9, 11, 47, 69.4

Cultura salesiana

-   Promoção da cultura salesiana 67.3, 67.6, 71.1

Deus

-   Busca de Deus 1, 2, 4, 32
-   Deus Espírito 41, 64, 66
-   Deus Pai 33, 39
-   Encontro com Deus 1, 2, 17, 18, 34, 38, 53, 59, 66.2
-   Experiência de Deus 2, 33, 40, 41, 52, 64.1
-   Primado de Deus 1, 2, 3, 7, 28, 32, 38, 63.1
-   União com Deus 33, 53, 54

Diálogo

-   Abertura ao diálogo 35, 37, 61, 69.1

Direitos

-   A promoção e defesa dos direitos humanos e dos menores 22, 71.2, 73.3

Diretor

-   A necessidade sentida da sua paternidade espiritual 12, 14, 51
-   O cuidado do diretor 69.3, 69.10, 69.11

Distanciamento em relação aos jovens

-   Distanciamento em relação aos jovens 24, 72.1

Dom Bosco

-   Seguir Dom Bosco 3, 4, 31, 32, 33, 41, 48, 55

Ecologia

-   Educar as comunidades e os jovens ao respeito da criação 30, 73.6

Educação dos jovens

-   A nossa vida consagrada deve transparecer no trabalho de educação 3, 18, 38, 44, 53
-   Novos campos de educação dos jovens 25, 30, 62, 73.5, 73.6, 75.4

Emburguesamento

-   Busca de uma vida confortável 9, 16, 45, 74.1

Escuta

-   Escutar colaboradores e dependentes 69.2
-   Escutar Deus nos jovens e nos pobres 22, 35, 52, 59, 64.2
-   Escutar Dom Bosco 31

Espírito de família

-   Comunidades autênticas segundo o espírito de família 3, 12, 15, 48, 63.2

Espiritualidade

-   Espiritualidade do cotidiano 3
-   Espiritualidade missionária 35, 45, 64.1
-   Espiritualidade salesiana 19, 58, 59, 67.3

Eucaristia

-   Eucaristia, fonte e sustento da vida consagrada 3, 41, 65.1

Evangelização dos jovens

-   Novos campos de evangelização dos jovens 25, 62, 73.5
-   O desafio de evangelizar os jovens 2, 17, 18, 27, 37, 47, 54, 58

Família Salesiana

-   Trabalhar com outros grupos da Família Salesiana 19, 44, 69.1, 71.2

-   Favorecer o crescimento na fé 38, 54, 59
-   Viver de fé 3, 31, 34, 66.2

Fidelidade

-   A nossa fidelidade 3, 4, 26, 28, 40
-   Deus é fiel 31

Formação dos salesianos

-   Formação afetiva, interpessoal e espiritual 12, 49, 50, 69.8
-   Formação dos diretores 51, 69.10
-   Formação inicial 21, 49, 71.4
-   Formação pastoral 21, 50, 61, 71.4, 71.5, 75.4
-   Formação permanente 7, 8, 36, 42, 49, 64.2, 67.8

Fraternidade

-   Fraternidade com os colaboradores 44, 69.2
-   Meios para construir a fraternidade 3, 10, 29, 31, 41, 47, 51, 68.2, 69.7
-   Testemunho da fraternidade 39, 40, 63, 68, 68.2

Gestão dos bens e das obras

-   Absorção em tarefa de gestão 14, 16, 27
-   Transparência e profissionalismo na gestão 75.6

Graça de unidade

-   A evangelização e a educação 17, 18, 25, 38, 58
-   Consagração, fraternidade e missão 36, 40, 41, 63
-   Encontrar Deus nos jovens 1, 53, 64.1, 64.2
-   O espiritual e o humano 6, 27, 32, 33, 67.5

Guia espiritual

-   Necessidade de um guia espiritual estável 7, 67.2

Individualismo

-   Preocupação excessiva com o próprio trabalho 13, 42, 70.1

Jesus Cristo

-   Amor por Jesus 32, 41, 64.1, 66.1, 72.1
-   Apelo de Jesus 24, 32, 33, 39, 66.1
-   Encontro com Jesus 1, 18, 31, 34, 38, 60, 64.1

Lectio divina

-   Contato proveitoso com a Palavra de Deus 5, 8, 67.4

Leigos

-   Contribuição dos leigos 15, 16, 71.5 75.1
-   Corresponsabilidade dos leigos 15, 19, 44, 46, 69.1, 70.2, 71.5
-   Formação dos leigos 15, 16, 20, 67.8, 71.5, 71.7, 73.2
-   Sensibilidade aos valores 1

Maria

-   Maria ajuda a redescobrir a alegria da fé 31

Meditação

-   Prática cotidiana 65.2

Missão salesiana e missionariedade

-   Corresponsabilidade na missão salesiana 13, 19, 70.2, 71.7
-   Experiência de Deus e missão salesiana 2, 3, 41, 53
-   Fraternidade e missão salesiana 11, 39, 40, 69.4, 69.7, 70.1
-   Missionariedade 2, 17, 35, 43, 74.1, 75.5
-   Vida consagrada e missão salesiana 9, 10, 28, 36

Mística

-   Na base de tudo, a relação com Deus 33, 40, 64, 66

Movimento juvenil salesiano (AJS)

-   O amadurecimento dos jovens mediante o MJS (AJS) 17

Mundo

-   O mundo precisa de testemunho 5, 29, 40, 66.1, 66.2

Oração

-   A oração, um verdadeiro apostolado 11
-   A oração comunitária 3, 8, 28, 65.2 67.5
-   A oração pessoal 28, 65.2, 67.5
-   Manual de oração a atualizar 67.7

Paixão

-   Paixão por Dom Bosco 4
-   Paixão por Jesus Cristo 66.1, 72.1

Palavra de Deus

-   Contato com a Palavra de Deus 5, 34, 52, 64.2, 65.2, 65.3, 67.4

Partilha

-   Partilha com os leigos e os jovens 15, 46, 65.2, 74.1
-   Partilha espiritual 5, 8, 54, 65.2, 67.4
-   Partilha na missão 13, 46

Pastoral

-   Dificuldades na pastoral 21, 56, 70.1
-   Pastoral dinâmica / proativa 71.6, 72.2, 74.2

Pastoral familiar

-   Cuidado das famílias 3, 20, 46, 71.5, 71.7

Pastoral juvenil

-   Pastoral juvenil, dom para a Igreja e para o mundo 20, 57
-   Renovação da pastoral juvenil 71.4, 71.6, 73.2

Periferias juvenis

-   Novas fronteiras e “periferias existenciais” 22, 26, 35, 43, 44, 55, 63.3, 69.5, 72.2, 73.1, 73.2, 73.3
-   Serviço aos jovens pobres 3, 5, 6, 17, 22, 26, 31, 32, 35, 36, 63.3, 74.1, 75.3

Presença entre os jovens

-   Viver com os jovens 16, 24, 59, 62, 72.1

Projeto

-   Projeto comunitário 13, 67.1, 70.1, 71.1
-   Projeto educativo-pastoral (PEPS) 13, 51, 71.1, 71.5
-   Projeto inspetorial 70.1, 71.5
-   Projeto pastoral e salesiano 56, 71.4, 71.6
-   Projeto pessoal de vida 5, 67.1

Protagonismo dos jovens

-   Jovens protagonistas 17, 70.2, 73.5

Proteção dos menores

-   Respeito da dignidade dos menores 23, 73.4
-   Acompanhamento dos indivíduos envolvidos em casos de abuso 69.9

Radicalidade evangélica

-   Testemunho da radicalidade evangélica 4, 36, 55, 63, 75.7

Reconciliação

-   A reconciliação para ser profeta da fraternidade 40, 48, 68.2
-   Sacramento da Reconciliação 49, 65.1

Redimensionamento

-   Redesenho das presenças 26, 69.6

Reflexão

-   Reflexão pastoral 13, 54, 67.5, 71.7
-   Reflexão sobre a vocação e vida salesiana 8, 69.7

Relacionamentos e Relações

-   A formação favorece relações interpessoais 12, 49, 50, 69
-   Relacionamentos superficiais a superar 10, 42, 62, 68.1
-   Relações fraternas 1, 3, 12, 15, 25, 40, 45, 47, 68.1, 69.2

Sair

-   Ir ao encontro das necessidades 7, 35, 43, 44, 72.2

Salesiano coadjutor

-   Cuidado da vocação do salesiano coadjutor 10, 69.7

Sequela de Jesus

-   Sequela de Jesus na vida consagrada 33, 36, 63.1, 66.1

Servos dos jovens

-   Formação, preparação para o serviço aos jovens 61
-   Oração e sacrifício, serviço dos jovens 11
-   Serviço a Deus nos jovens 53
-   Serviço aos jovens pobres 3, 63.3
-   Serviço comum 57

Sistema preventivo

-   É necessária uma renovada compreensão e prática do Sistema Preventivo 3, 16, 26, 47, 54, 58, 59, 73.3
-   Sistema preventivo, uma espiritualidade 54, 58, 59

Temperança

-   Vida sóbria e essencial 30

Testemunho

-   Testemunho de Deus 1, 3, 4, 5, 28, 32, 33, 37, 38, 39
-   Testemunho de radicalidade evangélica 59, 63, 66.1
-   Testemunho de unidade 40

Trabalho

-   Trabalho em comum 8, 13, 19, 71.2, 71.3
-   Trabalho fecundo 8, 50, 58, 63.2, 67.5
-   Trabalho pouco significativo 27, 28, 38, 42

Trabalho e temperança

-   Viver o binômio trabalho e temperança 50, 60, 75.2

Valdocco

-   Vida fraterna como em Valdocco 48, 68

Vida consagrada

-   Deus, fulcro da vida consagrada 5, 31, 32, 41, 67.1
-   Fraternidade e vida consagrada 40, 69.7
-   Identidade da vida consagrada 3, 10, 31, 69.7
-   Vocações à vida consagrada 35, 75.1

Vida espiritual

-   Trabalho e vida espiritual 6, 58
-   Acompanhamento da vida espiritual dos jovens 27

Vocação

-   Cuidado das vocações 15, 17, 27, 40, 74.2, 75.1
-   Vocação salesiana 3, 10, 31, 32, 36, 38, 69.7

Voluntariado

-   Valorizar o voluntariado 17, 73.2