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Lettere circolari di don Luigi Ricceri ai Salesiani 1968-1972

O CAPÍTULO GERAL ESPECIAL

 P. Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior n. 254

Turim, 25 de outubro de 1968

Caríssimos Irmãos,

Este número extraordinário dos Atos do Conselho vem anunciar-vos oficialmente que a nossa Congregação começa o trabalho preparatório para o Capítulo Geral Especial.

Deverei recordar que a S. Congregação dos Religiosos e dos Institutos Seculares, em resposta a uma nossa interpelação, depois de ter examinado os nossos quesitos, achou oportuno adiar o Capítulo Geral Especial para além do tempo previsto pelas “Normas” do Ecclesiae Sanctae. Contudo, acrescentou que não se ultrapassasse a data de 1971 e que, mesmo reunindo-se dentro do prazo normal, o nosso Capítulo Geral não podia perder aquele cunho particular e extraordinário conferido pelas “Normas”, quer na fase preparatória, quer na dos trabalhos, a fim de se alcançarem os objetivos indicados pela Autoridade Superior.

Trata-se de objetivos muito vastos, essenciais e desafiadores, indicados na Constituição Dogmática Lumen Gentium, no Decreto Perfectae Caritatis, e precisados no Motu Próprio Ecclesiae Sanctae.

Limito-me a algumas citações fundamentais. A Lumen Gentium sublinha o papel peculiar de testemunho que o estado religioso deve ter na Igreja:

“A profissão dos conselhos evangélicos aparece, na verdade, como sinal, que pode e deve atrair eficazmente todos os membros da Igreja a cumprirem com diligência os deveres da vocação cristã. Precisamente porque o Povo de Deus não tem aqui a sua cidade permanente, mas procura a futura, o estado religioso, que deixa os seus membros mais livres das preocupações terrenas, manifesta melhor a todos os crentes os bens celestes, já presentes neste mundo, testemunha a vida nova e eterna adquirida pela Redenção de Cristo, e prenuncia a Ressurreição futura e a glória do Reino Celestial. Este mesmo estado imita ainda de mais perto e renova perpetuamente na Igreja aquela forma de vida que o Filho de Deus ao vir ao mundo assumiu para cumprir a vontade do Pai, e propôs aos discípulos que o seguiam. Finalmente, mostra de modo particular a elevação do Reino de Deus acima de tudo o que é terreno, manifesta as maiores exigências que impõe e faz ver a todos os homens a maravilhosa eficácia de Cristo que reina, e o poder infinito do Espírito Santo que opera maravilhas na Igreja.

Portanto, este estado, cuja essência consiste na profissão dos conselhos evangélicos, embora não faça parte da estrutura hierárquica da Igreja, pertence, de modo indiscutível, à sua vida e à sua santidade” (LG 44).

Para que a vida religiosa consiga responder a esta missão, tão esplêndida e autorizadamente sintetizada, o Decreto Perfectae Caritatis pede a todas as famílias religiosas um empenho de renovação, para o que dita os seguintes princípios:

  1. Sendo a norma última da vida religiosa seguir a Cristo, como propõe o Evangelho, esta deve ser tomada por todos os Institutos como regra
  2. Contribui para o bem da Igreja o fato de que cada Instituto tenha o seu carácter e fins peculiares. Por isso, deve-se conhecer e conservar fielmente o espírito e as intenções próprias dos fundadores, assim como as sãs tradições que constituem o patrimônio de cada um dos
  3. Participem todos os Institutos na vida da Igreja de tal maneira que, segundo a própria índole, façam suas e fomentem com todas as forças as iniciativas e intentos da mesma, em matéria bíblica, litúrgica, dogmática, pastoral, ecumênica, missionária e social.
  4. Promovam os Institutos, entre os seus membros, o devido conhecimento acerca das condições dos homens e dos tempos e acerca das necessidades da Igreja, de forma que, apreciando, sabiamente, à luz da fé, as condições do mundo de hoje, inflamados de zelo apostólico, possam mais eficazmente auxiliar os
  5. Dado que a vida religiosa se ordena sobretudo a que os seus membros sigam a Cristo e se unam a Deus através da prática dos conselhos evangélicos, é preciso ter seriamente em conta que as melhores adaptações às necessidades do nosso tempo não surtirão efeito, se não vivificadas pela renovação espiritual, a que se há de dar sempre preferência, até mesmo na realização de atividades exteriores » (PC 2).

Enfim o Motu Próprio Ecclesiae Sanctae prescreve um Capítulo Geral Especial para promover a renovação e a adaptação nos vários Institutos, sendo dadas normas bem precisas para a sua preparação:

“E necessária a colaboração de todos, superiores e membros, para renovar em si mesmos a vida religiosa, para preparar o espírito dos Capítulos a fim de que os seus trabalhos sejam bem conduzidos, e finalmente para se observarem com fidelidade as leis e normas emanadas pelos mesmos Capítulos.

O Conselho Geral, ao preparar este Capítulo, deverá prover convenientemente a uma ampla e livre consulta dos membros, e coordenar oportunamente os resultados, como subsídio e diretriz do trabalho do mesmo Capítulo. Tudo isto poderá fazer-se, por exemplo, consultando os Capítulos Conventuais e Provinciais, constituindo comissões, propondo questionários, etc.” (II, I, n. 2 e 4).

Refletindo sobre tal plano de trabalho que nos é pedido pela Igreja, vê-se a necessidade, quer nos Convênios Continentais dos Inspetores, quer sucessivamente no Conselho Superior, iniciar o mais depressa possível a nossa preparação.

Esta minha carta quer ser exatamente a arrancada oficial do longo “iter” que nos levará ao Capítulo Geral Especial.

É um “iter” que nos empenha a todos, sem distinção, pois todos temos o dever e direito de dar o nosso contributo, tornando-nos assim responsáveis da vida e do futuro da Congregação. O contributo e corresponsabilidade são antes de mais indispensáveis para promover em nós e nas nossas comunidades aquela renovação interior, espiritual, apostólica, fundada sobre a nossa conformidade a Cristo, sobre a fidelidade ao carisma essencial de Dom Bosco e aos sinais dos tempos. Sem isto, toda a obra de renovação e adaptação reduzir-se-ia a formalismo, tecnicismo, corpo sem alma, ilusão de resolver problemas vivos com fórmulas e artigos.

São ainda indispensáveis o contributo e a corresponsabilidade de todos no estudo e na reflexão sobre os temas e problemas que o Capítulo Geral deverá enfrentar a fim de este estar à altura de conhecer o pensamento, as preocupações, as expectativas e os desejos dos irmãos.

Urge dar a esta preparação (em todos os níveis) prioridade sobre qualquer outro compromisso; trata-se de uma prioridade baseada na objetividade das coisas, como se pode facilmente averiguar.

O encargo de presidir e coordenar o complexo trabalho de preparação foi por mim confiado ao Conselheiro da Pastoral Juvenil, P. Gaetano Scrivo, a quem vos podereis dirigir para os eventuais esclarecimentos; ele terá todo o gosto em pôr-se à vossa disposição.

Encontrareis no anexo os grandes temas propostos pelos Documentos Conciliares e o iter de preparação do Capítulo. São fruto do trabalho que uma Comissão Técnica Preparatória1 nomeada por mim realizou em Roma de 30 de setembro a 6 de outubro passado.

O Conselho Superior examinou e aprovou o trabalho da Comissão. O iter prevê em todas as etapas, como podeis constatar, a participação ativa dos irmãos, e, portanto, pede que em cada fase dos trabalhos eles sejam exaustiva e tempestivamente informados e solicitados sobre o seu parecer e, por isso, capazes de apresentar as suas observações e propostas.

Por ora, num primeiro tempo, seis convidados a apresentar, como vos forem indicados, as vossas propostas sobre os diversos pontos de quatro “Grandes temas”, que abrangem sinteticamente os problemas essenciais da natureza e dos fins da Congregação, da nossa consagração religiosa, da formação do salesiano e, enfim, das estruturas de governo em cada nível.

As vossas intervenções servirão aos Capítulos Inspetoriais para prepara sobre cada tema os “Esquemas” que estarão na base de todo o trabalho sucessivo.

Os tempos previstos pelo iter para as várias fases não são muito longos: mas não se podia fazer diversamente sem comprometer as amplas consultas da Congregação em cada fase de trabalho e sem diferir ainda mais o início do Capítulo Geral. É indispensável,

1 Composição da Comissão Técnica Preparatória – Presidente: P. Gaetano Scrivo; Secretário: P. Carlo Borgetti; P. Gino Corallo (Itália-Pugliese), P. Walter Dermota (Iugoslavia), P. Giuseppe Gevaert (PAS), P. Tommaso Hall (Inglaterra), P. Valentino Klingel (Alemanha Sul), P. Umberto Leconte (França Norte), P. Demetrio Licciardo (PAS), Sr. Euniciano Martin (Espanha-Barcelona), P. Diamantino Monteiro (Portugal),

  1. Giuliano Ocaña (Espanha-Madri), P. Ivo Paltrinieri (Itália-Romana), P. Silvano Sarti (PAS), P. Piero Stella (PAS), P. Eugenio Valentini (Iáalia-Central), P. Adriano Van Luyn (Holanda).

pois, que todos nos empenhemos em respeitá-los, aceitando os necessários e relativos sacrifícios.

Antes de encerrar esta minha comunicação desejo fazer um apelo obrigatório.

O trabalho ao qual todos somos chamados para preparar-nos ao Capítulo Geral Especial não pode e não deve deter a atuação das deliberações do Capítulo Geral XIX, que mantém total validade em quanto o próximo não decida eventuais alterações. Sirva também recordar que o nosso Capítulo Geral XIX possui muita riqueza conciliar, como qualquer um pode constatar. Por tudo isso, não seria justificável iniciar mudanças na prática das nossas Constituições e dos Regulamentos pelo fato de durante este período de preparação poderem ser apresentadas ou discutidas propostas nesse sentido. Só o Capítulo Geral, convém recordá-lo, tem a autoridade para decidir mudanças do gênero.

Creio que quando receberdes esta minha carta teremos concluídos – com a festa da Imaculada – o ano centenário da nossa Basílica. Agrada-me muito e tenho como bom auspício que o início da preparação do Capítulo Geral Especial se dê enquanto ainda os nossos corações estão fervorosamente voltados Àquela que foi sempre a Mãe da nossa dileta Congregação.

Seja Ela a iluminadora do caminho que nos espera, como fez com o nosso Pai.

Apresento-vos a minha cordial saudação, grato se quiserdes recordar-me na vossa oração. Eu vos garanto a minha constante lembrança.

Vosso afeiçoadíssimo

Sac. Luis Ricceri, Reitor-Mor

 

OS CAPÍTULOS INSPETORIAIS EM PREPARAÇÃO AO CGE

 P. Luís Ricceri
Atos do Conselho Geral 255

Turim, 21 de dezembro de 1968

Caríssimos Irmãos,

Volto a vós depois de breve espaço de tempo para uma comunicação muito im- portante referente aos dois Capítulos Inspetoriais previstos pelo Iter de preparação ao nosso Capítulo Geral Especial.

Nos atos do XIX Capítulo Geral, Documento I, Cap. II, se lê: "O Capítulo Geral exa- minou com atenção o problema duma composição mais amplamente representativa do Capítulo Inspetorial. Após uma longa e profunda discussão, o Capítulo Geral expri- me o voto a favor de uma mais ampla funcionalidade representativa do Capítulo Ins- petorial: contudo, perante as grandes e múltiplas dificuldades práticas e pelo contraste de soluções propostas, reputando-se impossível uma decisão concreta e imediata, de- libera que o Conselho Superior estude e faça estudar o problema para poder apresen- tar à discussão e à eventual aprovação do próximo Capítulo Geral um plano bem defi- nido para a atuação do seu voto". (Atos CG XIX, p. 25).

Atendendo a essa deliberação capitular, o Conselho confiou o estudo do problema à Comissão encarregada da preparação técnica do Capítulo Geral Especial (cf. ACS 254, p. 7).

As diversas propostas dessa comissão foram atentamente estudadas e discutidas em reunião do Conselho Superior e finalmente foram elaboradas novas normas que fixam a composição do Capítulo Inspetorial e a eleição dos membros capitulares com critérios que nos parecem responder plenamente à citada deliberação do XIX Capítulo Geral.

Para que o Capítulo Geral possa pronunciar-se a seu tempo não só sobre uma fórmula mas sobre uma experiência concreta, achei oportuno, de acordo com o Conse- lho Superior, solicitar da Sagrada Congregação dos Religiosos e Institutos Seculares a autorização para aplicar as novas normas já nos dois Capítulos Inspetoriais Especiais. Tal autorização é necessária, porquanto as novas normas derrogam os art. 99-102 das nossas Constituições.

Tendo conseguido resposta afirmativa da Sagrada Congregação com rescrito N. 2.306/68 de 20 de dezembro de 1968, comunico aqui oficialmente o documento aprovado, cujas prescrições entram imediatamente em vigor. A elas, pois, deverão ater-se os Inspetores na convocação e preparação do Capítulo Inspetorial. Ao documento se- guem alguns esclarecimentos e indicações técnicas.

Faço votos que esta minha comunicação possa contribuir a aumentar e a aprofun- dar o empenho de cada um nesta fase de preparação do 1º Capítulo Inspetorial Especial, através de um sério estudo dos temas gerais.

Certamente ela vem reforçar a exigência que toda a preparação do Capítulo Geral seja o mais possível ampla e capilar.

Desejo a todos um bom trabalho assegurando-vos a minha constante lembrança junto do altar.

Afeiçoadíssimo

Pe. Luís Rícceri
Reitor-Mor

 

AINDA SOBRE A SOLIDARIEDADE O CENTENÁRIO DA CONGREGAÇÃO

Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 256

 Turim, 31 de janeiro de 1969
Festa de São João Bosco

Acolhida à carta sobre a pobreza. – Ainda sobre a solidariedade. – Obras propostas à “solidariedade fraterna”. – Os voluntários da América Latina no campo do trabalho. – Não basta discutir: é ainda  mais útil realizar. – Colaborar para melhorar. – Renovado apelo em favor da América Latina. – O Capí- tulo Geral Especial das FMA. – O Centenário da Congregação. – O significado da aprovação pontifícia.

– Escolhemos “vivere in unun”. – Apelo à unidade. – Unidade no pluralismo. – Unidade na fidelidade ao Papa. – Telegrama do Santo Padre pela festa de Dom Bosco. – Resposta do Reitor-Mor. – Um peri- go: a “secularização”. – A falsa miragem do messianismo social. – “Nós somos os tempos”.

Irmãos e filhos caríssimos,

torna-se para mim particularmente agradável retomar meu colóquio convosco no dia consagrado ao nosso Pai. Falo-vos enquanto aqui na Casa-Mãe, na Basílica, uma multidão devota e piedosa de salesianos, Filhas de Maria Auxiliadora, fiéis, entre os quais tantos jovens, se sucede ininterruptamente para prestar homenagem, para rezar ao Santo da juventude.

Penso com emoção que, nestas horas, em todos os continentes se eleva a Dom Bos- co a oração de milhares de corações que olham para ele como Pai e Mestre.

Gostaria, no entanto, de acrescentar que a homenagem mais verdadeira e mais vá- lida que o Pai nos pede, a nós que nos gloriamos de ser seus filhos nestes momentos agitados e confusos, não é tanto um sentimental e evanescente amor, mas a fidelidade a ele; sem isto, corremos o risco de criar tão somente um verbalismo vazio ou senti- mentalismo que nada tem a ver com o autêntico amor, o qual — é bom recordá-lo — se manifesta pelos fatos.

Há pouco, Paulo VI lembrava a um grupo de neossacerdotes Salesianos esta verda- de: “Vós podeis ter na Igreja — dizia ele — uma influência importante e grande exata- mente se fordes aquilo que sois”; em outras palavras, se formos verdadeiramente fiéis a Dom Bosco.

Quero agora agradecer sensibilizado a muitíssimos que enviaram cumprimentos por ocasião das festas natalinas. Aproveito esta oportunidade para fazê-lo, receando que a muitos não tenha conseguido fazer chegar pessoalmente o meu agradecimento; dese- jo, porém, assegurar que por todos tive um memento particular e reconhecido fazendo meus os votos e as intenções de cada um.

Com os cumprimentos estimei muito receber as notícias — muitas vezes tão alen- tadoras — sobre a vida e atividade de tantas obras nossas e, especialmente, me con- fortou verificar que em toda parte se compreendeu bem a importância do Capítulo Geral Especial, e já se trabalha seriamente e com afinco na preparação do Capítulo Inspetorial: digo seriamente, isto é, com fervor de estudos e de pesquisas com intuito de dar à Congregação, sem demagogias e extremismos, mas com um sentido sadia- mente realístico, a contribuição da própria experiência, antes, o sinal concreto do pró- prio amor, para uma verdadeira e fecunda renovação.

 

Acolhida à carta sobre a pobreza

Outras notícias confortadoras que acompanharam os cumprimentos são aquelas que dizem respeito à acolhida dispensada à carta “nossa pobreza hoje”.

Não posso esconder que fiquei emocionado ao verificar tanta aceitação, e, mais ainda, tantos propósitos sinceros.

Penso fazer-vos coisa agradável respigando entre as muitíssimas cartas recebidas.

Um irmão assim se exprime com diáfana simplicidade: “Havia-me cercado de muitas pequenas coisas sem perceber; lendo a sua circular corei. E dizer que me chamava a mim mesmo de missionário; e dizer que na nossa paróquia há uma pobreza que parece incrível. Mas já comecei a dispor de todas estas coisas para viver como verdadeiro con- sagrado... Receba a minha humilde carta: estou com o senhor”.

Outro irmão assim escreveu ao seu superior: “A carta do Reitor-Mor sobre a pobre- za começa a produzir efeito em mim. Anexo a esta uma ordem bancária oferecida por meu irmão para adquirir para mim um terno novo. Esse terno pode entregá-lo a um dos tantos pobres que bate à porta de seu coração”.

Um Diretor diz: “Muito obrigado pela carta sobre a pobreza. Era tempo de se ouvir uma palavra clara... Lemos nela três ou quatro títulos por dia como meditação: é um alimento que penetra nos ossos”.

Um Inspetor confessa: “Como resultado da carta, o Conselho se ocupou pela pri- meira vez expressamente da pobreza na Inspetoria, e ao lado de constatações conso- ladoras se verificaram outras que vão empenhar Superiores e irmãos na revisão e pro- vidências, antes de mais nada, para criar uma mentalidade de acordo com os princípios e as normas contidas na carta”.

Outro Inspetor, finalmente, convidou os irmãos da Inspetoria a enviarem com liber- dade todas as observações e sugestões tanto no que tange as responsabilidades pró- prias do Conselho Inspetorial com relação à pobreza, quanto no que concerne à Inspe- toria.

Em muitas comunidades estão se realizando reuniões nas quais com corajosa fran- queza não somente se faz o scrutinium, mas dele se deduzem conclusões práticas. Es- pero de cada Inspetor, a seu tempo, relação de todas as realizações que se efetuaram em cada Inspetoria.

Citei alguma amostra dentre tantas: o que nos conforta é a reação positiva que a nossa carta provocou em toda a parte.

Entretanto é necessário prosseguir, não deixando cair no vazio o grande apelo, não só, mas empenhando-nos todos para alimentar, verbo, e mais ainda, opere, o clima de pobreza vivida para o qual Dom Bosco, hoje, alinhado mais do que nunca com a Igreja, nos convida.

E este empenho, recordemo-lo bem, implica que cada um se preocupe antes de mais nada não com aquilo que os outros devem fazer, mas procure ver com sincerida- de aquilo que ele mesmo deve fazer.

Somente assim se conseguirá dar à Congregação aquela dinâmica jovem que pene- tra suas raízes na pobreza.

 

Ainda sobre a solidariedade

Com a pobreza está ligado o compromisso da solidariedade. Sei que também a este respeito já há movimentos nas Inspetorias. Está claro, como já escrevi, que se trata de uma obrigação que ao mesmo tempo é de justiça e de caridade fraterna. Exatamente por isso, os frutos dessa solidariedade devem provir de cada um de nós como pessoa, de nós como comunidade; não se trata, pois, de recolher ofertas entre benfeitores, de tomar iniciativas de coletas, rifas etc. para conseguir meios para as nossas obras ne- cessitadas

Não se deseja nem se quer isso.

De nossa pobreza vivida mais generosamente, de uma administração mais cautelo- sa e atenta, de uma economia inteligente e sábia e — por que não? — de certas re- núncias a não poucas coisas supérfluas e talvez inoportunas deverão surgir os frutos concretos da solidariedade para com os irmãos e para com tantas obras nossas neces- sitadas.

Crede-me que pude constatar de visu, que essas obras necessitadas muitas vezes faltam de meios primordiais para a vida de tal sorte que os irmãos não somente vivem em condições de extrema pobreza mas devem resignar-se a paralisar grande parte de sua ação tanto social como apostólica exatamente por falta de meios.

Por esse motivo creio acertado que vos apresente já uma primeira lista de nossas obras no mundo, as quais necessitam grave e urgentemente de ajuda. São obras cuja situação e pobreza são por nós bem conhecidas também devido às visitas dos Superio- res Regionais. Muitas delas eu pessoalmente pude visitar durante as minhas viagens; posso assegurar-vos, aliás, que estou sob a impressão edificante e muitas vezes até chocante de muitas destas obras pelas quais não podemos ficar insensíveis.

Nós do Centro temos feito e fazemos tudo o que está ao nosso alcance para socor- rer, mas as necessidades são enormes e as nossas possibilidades não são absolutamen- te proporcionadas aos pedidos.

Mas refleti quão grande ajuda se poderá realizar recolhendo os frutos da solidarie- dade de tantas Inspetorias.

Para que a distribuição se possa fazer proporcionalmente às verdadeiras necessida- des das diversas obras catalogadas, é conveniente que a ajuda seja remetida pelas Ins- petorias ao Centro com o endereço: “Ao Reitor-Mor para a solidariedade fraterna”, indicando na ordem de preferência duas ou três obras às quais se deseja destinar a oferta.

É claro que se levarão em consideração essas indicações.

Oportunamente nos Atos do Conselho será dada uma relação exata da atribuição das quantias.

É provável que no começo não funcione tudo tim-tim por tim-tim; procuraremos corrigir, à medida que caminhamos: o importante é começar com vontade decidida de não deixar cair no vazio o apelo à solidariedade para com os irmãos.

Estou certo que a minha espera não será vã no encontro da caridade fraterna.

 

Obras propostas à “solidariedade fraterna”

Eis algumas obras propostas à “solidariedade fraterna”. EUROPA

Além-da-cortina. Cinco obras para a formação do Pessoal. Por razões óbvias não ci- tamos o nome dessas obras e dos países.

AMÉRICA LATINA

  1. Bolívia. É uma das nações da América do Sul que mais sofre os problemas do de- senvolvimento. Em si mesma é uma nação rica de recursos naturais, mas possui ainda uma economia muito pobre. Os nossos salesianos, com auxílios generosos provindos do exterior, conseguiram construir uma boa parte do Aspirantado de Calacoto, onde atualmente se encontram perto de cem aspirantes. É necessário terminar a construção de dois andares, dos quais só existe a estrutura de concreto. É uma obra muito neces- sária porque a Bolívia é uma nação muito pobre de vocações.
  2. 1) Corumbá — “Cidade de Dom Bosco” (Inspetoria de Campo Grande). Tra- ta-se de uma obra que contribui ao desfavelamento de um bairro da cidade. Necessita de auxílio em dinheiro para a construção de pequenas oficinas, da Capela que será também Paróquia e finalmente de casas para os mais pobres.
  • Belém-Sacramenta — “Escola Industrial Salesiana” (Inspetoria de Manaus). É um internato para meninos abandonados. Necessita urgentemente de máquinas para as oficinas.
  • Missões do Rio Negro (Inspetoria de Manaus): paupérrimas e incapazes susten- tar-se por si. Necessitam de ajuda para sustentar os seis internatos indígenas.
  • As missões do Vicariato de Mendez (Inspetoria de Cuenca): Necessitam reconstruir os edifícios de cinco paróquias, porque são de madeira e já estragados e sem segurança.
  • É de todos conhecida a situação de miséria extrema em que vivem neste país centenas de milhares de pessoas. Em Porto Príncipe os nossos irmãos necessitam com muita urgência de ajuda para continuar a fornecer “um prato de arroz com fei- jão”, único alimento que recebem diariamente 3.000 crianças pobres, provenientes de todas as favelas da cidade. Solicitam também ajuda para pagar os professores que le- cionam a 1.200 crianças, debaixo de um enorme barracão.
  1. É uma Inspetoria que tem muita necessidade de ajuda. Não pode sus- tentar-se sozinha, porque as obras são pobres e o país não oferece muitas possibilida- des.

Entre as necessidades mais imediatas assinalamos:

  1. Aspirantado de Ypacaraí: Pede-se ajuda para construir a cozinha, o refeitório pa- ra os meninos e os salesianos e a Capela. Desses ambientes existem só as paredes. Uma ajuda substancial permitiria concluir o aspirantado e dedicar-se, sem muitas pre- ocupações econômicas, à formação dos
  2. O Oratório “São Luís” de Assunção (capital): É um oratório cotidiano frequentado por mais de 300 jovens, diariamente. Possui tão somente um ambiente que lhes serve de capela, sala de aula, cinema, reuniões e abrigo dos meninos quando chove. É urgen- te construir ao menos alguns ambientes para poder ministrar contemporaneamente aula de religião e fazer reuniões.
  1. Estudantado teológico e filosófico de Manga: faltam na biblioteca obras fundamentais de consulta, e isso com prejuízo da formação dos clérigos. A Inspetoria se encontra numa precária situação financeira devido à grave crise econômica que o país está atravessando. Aceitaria agradecida para a biblioteca obras de certo valor que os nossos irmãos nunca poderão conseguir sozinhos; por exemplo: Dictionnaire de Théologie Catholique, Dictionnaire de Spiritualité, Mansi, opp. Corpus Scriptorum Vin- dobonense, etc.

ÁSIA

  • Coréia. Os sofrimentos da Coréia do Sul são conhecidos em todo o mundo. Os nossos irmãos compartilham essas tribulações com a população onde trabalham. As- sinalamos:
  1. Mantimentos para os nossos irmãos em formação, para os quais devem angariar- se 1.200 dólares mensais e assim mesmo, com grande trabalho e preocupações cotidi- anas, não se consegue arrecadá-los.
  2. A construção do Aspirantado de Kwangju, que foi suspensa na metade por falta de 66.000 dólares que necessitariam ainda para ser
  • Índia. À margem do Ganges nos confins de Bilhar e Bengala, os nossos traba- lham com ótimos resultados no meio de 33.000 “Santalo”, uma população que facil- mente se converte. O sustento de uns 80 filhos de neófitos pesa fortemente sobre as finanças da Inspetoria que já luta para manter as suas casas de formação.

III. Vietnã. Este país tão atribulado possui um número consolador de aspirantes,  mas não sabe onde colocados. Com 80.000 dólares se solucionaria o problema do Aspirantado.

ÁFRICA

Congo: A “Cité des jeunes” de Lubumbashi (Inspetoria da África Central) pede ajuda para poder dar de comer aos famintos da periferia. Trata-se de uma obra para os mais pobres dos pobres.

 

Voluntários para América Latina no campo do trabalho

Mas é verdade que a caridade não é feita só de pão.

Na carta anterior vos dizia que também mandar ajuda de braços, onde faltam dra- maticamente, é uma forma de solidariedade ainda mais eficaz e não menos urgente do que aquela que se exprime em chave econômica.

Posso assegurar-vos que a expedição dos voluntários para a América Latina, ainda que sem pretensão de ter resolvido tantos problemas, foi uma benéfica transfusão de sangue para algumas Inspetorias, que se encontravam numa situação verdadeiramen- te grave. Aqueles Inspetores escrevem com entusiasmo dos irmãos que já vão se inse- rindo gradativamente no trabalho pastoral e cheios de gratidão para com as Inspetori- as que fizeram fraternamente a oferta de irmãos mesmo a custo de não leves sacrifí- cios.

Por sua vez eles me escrevem exprimindo a sua felicidade por terem encontrado tanto trabalho pastoral. “É verdade — escreve-me um deles, como interpretando um sentimento comum — vivemos em condições de vida muito diferentes daquelas em que nos encontrávamos nas Inspetorias de origem; existe muita e, muitas vezes, dura falta de conforto, mas não lamentamos aquilo que deixamos. Cada um de nós está contente por ter dado tudo ao Senhor e renova todos os dias a sua oferta”.

Eis em pouquíssimas palavras o programa dos nossos voluntários: “Dar tudo ao Se- nhor” que necessita de corações generosos e sabem dar-se sem reserva e sem medo de sacrifícios e renúncias. “Dar tudo às almas” que naqueles Países são em número incontável e disponíveis à ação do sacerdote, mas são ainda ovelhas sem pastor.

“Dar tudo” para ir ao encontro dos heroicos irmãos que naquelas terras, devido ao número de muito inferior às necessidades, devido às doenças e à morte, experimen- tam o desânimo diante das situações precárias daquelas Dioceses, daquelas obras apostólicas.

“Dar tudo” para testemunhar tanto aos irmãos que permanecem nas obras ordiná- rias, quanto aos jovens os quais, antes de consagrar-se, desejam ver uma Congregação que não se arrasta na mediocridade da rotina, mas vive intensamente o espírito missi- onário que Dom Bosco nos deixou por herança: espírito missionário que antes de mais nada significa espírito de fé vivida e sofrida que transborda em caridade paulina, isto é, aquela caridade, que se faz tudo para todos sem olhar para sacrifícios a fim de levar todos a Cristo.

 

Não basta discutir; é ainda mais útil realizar

Nesta altura me parece venha a calhar uma observação que à primeira vista pode parecer não pertinente.

Muitos observam que nestes tempos multiplicam-se ao infinito os encontros, as mesas redondas, os congressos, pondo demasiadas vezes tudo em discussão e termi- nando com nada de realizado, de concreto, de construtivo, antes, deixando demasia- das vezes nos participantes somente uma sensação de confusão de ideias, que traz como consequência um profundo mal-estar e desnorteamento com consequentes ar- bitrariedades e abusos, aqui e acolá, em todos os campos da atividade da Igreja e da mesma Congregação.

Eu não condeno absolutamente encontros, mesas redondas etc. Antes, se bem do- sados em número, argumentos, objetivos, participantes, dirigentes, despesas; se pre- parados com seriedade e desenvolvidos ordenadamente, eu os vejo úteis e benéficos.

Mas desejo dizer antes de tudo que esses encontros, e falo especialmente do nosso ambiente, não podem substituir nunca os organismos aos quais compete estabelecer diretrizes, e aquilo que se conclui nesses encontros (e tanto menos aquilo que alguém nem sempre com muito equilíbrio possa dizer) não pode ser apresentado e aceito co- mo norma ou justificativa para iniciativas ou linhas de conduta as quais, repito, são da alçada da autoridade competente. Esse modo de agir nos colocaria num plano que poderia em diferente medida levar-nos a um processo de dissolução, diria para o caos.

Mas aquilo que desejava dizer com relação a certa inflação de encontros, que se houve criticada em muitos lugares, é outra coisa. Talvez, como muitos irmãos fazem notar, muitas vezes seria mais útil à Congregação, assim como à Igreja, empenhar-se a estudar em concreto em tantos encontros como atuar as muitas disposições e diretivas utilíssimas e obrigatórias que nesses anos foram emanadas e ainda o são.

Certamente, parece mais profícuo para a Congregação, e para todos empregar o tempo num trabalho sério, organizado, sistemático, conduzido na linha já traçada por meio de tantos documentos conciliares, pontifícios e salesianos, no esforço comum de juntar as forças para construir, e não perder-se em logomaquias ou, pior ainda, críticas e contestações que muitas vezes não esclarecem nada e estão muito longe de produzir aquele verdadeiro enriquecimento do qual a Igreja e a Congregação necessitam urgen- temente

 

Colaborar para melhorar

Muito oportunas recordamos as palavras recentíssimas que Paulo VI dirigiu aos operários de Taranto. “... para exprimir-nos — ele dizia — com termos que hoje per- tencem à linguagem de todos, aquilo que agora mais leva a falar é à contestação, que parece querer desintegrar, quase demolir, eliminar, numa palavra, o sufrágio do afeto e da confiança nas instituições vigentes. Que ficará de tudo isso não sabemos; mas vendo-vos fiéis, tão prontos, tão vivos e tão sinceros ocorre ao nosso espírito uma ou- tra fórmula que vos entregamos. Ao invés de ser uma fórmula que destrói, quer ser uma fórmula que constrói: não aquela da contestação, mas da colaboração, colabora- ção! Experimentai, experimentai trabalhar juntos. Há milhares de erros e centenas de defeitos, inúmeras lacunas, tantas coisas por completar e tantas belas obras por fazer, novas, para as quais o mundo moderno oferece a possibilidade. Trabalhemos juntos, procuremos construir, procuremos edificar, sim, uma bela cidade moderna dos ho- mens e uma bela cidade de Deus, onde os cristãos se sintam irmãos e cidadãos” (L’Osservatore Romano, 27-28 de janeiro de 1968).

Nesta linha os nossos voluntários nos dão um magnífico exemplo: eles não discutem e menos ainda contestam, não se envolvem em problemáticas e problematicismos, eles com a simplicidade de todos aqueles que na Igreja são verdadeiros construtores, dizem: “Eis-me aqui! A minha contestação é a minha doação total: por Deus e pelas almas”.

 

Renovado apelo em favor da América Latina

É um exemplo que dá a todos nós coragem e confiança e ao mesmo tempo nos con- vida a pensar e — por que não? se o Senhor inspira — a imitá-los. Exatamente a pro- pósito de imitação venho também neste ano renovar o convite de voluntários para a América Latina. Nas mesmas condições: sacerdotes, por volta dos 40 anos, por um quinquênio, em atividades pastorais. Mas não quero ser injusto com os irmãos coadju- tores dos quais recebi protestos, aliás muito gratos, porque, no ano passado, foram excluídos do apelo para a América Latina. Pois bem: façamos um ato de reparação: estendo o convite também aos irmãos coadjutores nas mesmas condições dos sacer- dotes.

Tenho em cima da mesa diversos pedidos que chegaram nos últimos meses. Depois da renovação deste convite oficial tenho certeza que outros irmãos solicitarão com pleno conhecimento que vão enfrentar uma vida sem conforto sob todos os aspectos, para dar a contribuição pessoal à difusão da mensagem da salvação, em ajuda aos ir- mãos que naqueles países lançam o seu S.O.S. A mim me parece que tal serviço venha plenamente de encontro àqueles salesianos que desejam realizar o seu apostolado em um mundo pobre, a serviço dos pobres, na América Latina, que hoje é centro de inte- resse apaixonante de toda a Igreja. Dispõe-se de todos os elementos para satisfazer esses desejos. E as Inspetorias, que perdem algum elemento, serão amplamente re- compensadas pelo clima missionário que se desenvolverá e crescerá no seu ambiente e é fonte de espírito de generosidade, de fervor e chamariz eficaz de vocações.

Pediria que as “ofertas” dos voluntários endereçadas a mim, cheguem não além do mês de abril: isso é necessário para predispor muitas coisas inerentes à preparação.

 

Capítulo Geral Especial das FMA

Antes de passar para dois assuntos de particular interesse, permiti fazer-vos ainda uma comunicação. Nesses dias se desenrola em Roma, no novo Instituto Internacional “Maria Auxiliadora” o Capítulo Especial das Filhas de Maria Auxiliadora. Compreendeis muito bem a importância que ele assume, seja pelos problemas já propostos pela mesma natureza do Capítulo, seja pelo fato de, depois da edificante renúncia da Ma- dre-Geral e as consequentes demissões de todo o Conselho, dever-se providenciar também as eleições.

Como delegado apostólico do Instituto, acompanho os trabalhos da Assembleia, a qual demonstra toda a consciência e a responsabilidade da missão que lhe foi confiada nestes delicados momentos.

Devido à complexidade e ao número dos temas na ordem do dia, prevê-se que os trabalhos se prolongarão durante não poucas semanas.

É nosso dever fraterno acompanhá-las com a oração e os votos ardentes que deste Capítulo Especial o Instituto, que já conquistou tantas benemerências na Igreja, saia fortalecido e renovado, antes de tudo, espiritualmente e na autêntica fidelidade ao Fundador comum, e, ao mesmo tempo, sabia e corajosamente aberto e sensível aos sinais dos tempos para realizar a sua missão juvenil tão paralela à nossa.

 

O Centenário da Congregação

E vamos ao primeiro dos dois assuntos anunciados.

Acabamos apenas de encerrar, no dia 8 de dezembro passado, as celebrações do centenário da Basílica de Maria Auxiliadora, cuja relação encontraremos na rubrica “Atividades e Iniciativas do Conselho Superior”.

Agora vos convido a recordar outro centenário, a saber, a aprovação da nossa Con- gregação, com o Decreto da Santa Sé do dia 1º de março de 1869.

Eu diria que os dois acontecimentos não se sucedem casualmente. Com a constru- ção e a consagração do Santuário de Turim, Dom Bosco havia colocado a sua Congre- gação, nascida numa forma extremamente modesta em 1859, sob a proteção especia- líssima de N. S. Auxiliadora, e à sua intervenção materna havia confiado o porvir da sua criatura. A Congregação se havia afirmado validamente nos primeiros dez anos de vida, mas por motivos do seu mesmo crescimento e pelo seu original feitio havia multiplica- do em torno de si os motivos de contraste e as dificuldades para sua aprovação.

De tudo isso Dom Bosco tinha conhecimento pleno quando, a 8 de janeiro de 1869, partiu para Roma, mas a confiança em N. S. Auxiliadora não o demoveu da emprei- tada. Disse-o mais tarde aos seus: “Pensei ir a Roma. Interpunham-se obstáculos imen- sos... Muitos Bispos e outras pessoas, aliás piedosíssimas e mais ainda favoráveis a mim, queriam persuadir-me que seria inútil a minha viagem. De Roma me escreviam... ser inútil e tempo perdido ir até lá, porque nunca me seria concedido aquilo que eu pedia e que era impossível a aprovação das Regras. Eu pensei então: Tudo me é con- trário, entretanto o coração me diz que se vou a Roma, o Senhor, em cujas mãos re- pousa o coração dos homens, me ajudará. Então irei a Roma. E cheio de confiança par- ti, intimamente estava persuadido de que Nossa Senhora me ajudaria e disporia tudo a meu favor; e ninguém me teria demovido dessa persuasão”.

Nós sabemos como se processaram as coisas: Nossa Senhora, com sua intervenção extraordinária, abriu todos os caminhos e veio a atribulada e bem merecida aprovação.

 

O significado da aprovação pontifícia

Quando nosso Pai voltou de Roma, aqueles que viviam no Oratório intuíram o al- cance da grande vitória. O Com. Oreglia escrevia naqueles dias: “Parece que no Orató- rio enlouqueceram todos: quem canta, quem toca, quem grita, todos tão alegres que ninguém mais cabe em si. Nem sequer os sinos cessam de tocar um só momento, obri- gando também os distantes a participarem da alegria”.

Hoje nós vivemos numa posição pacificamente adquirida diante da Igreja e diante do mundo e talvez não consigamos captar os efeitos de um reconhecimento que a Congregação nos oferece sem que nada tenhamos feito para consegui-lo.

Mas transportemo-nos à primavera de 1869.

O Decreto pontifício dava à Congregação a sua aprovação e com ela o direito de vi- ver e agir de acordo com as próprias Regras, livre de intromissões externas, o reconhe- cimento de uma missão específica em favor da juventude. Turim devia ser o ponto de partida da obra, mas ela já tinha diante de si 'o mar aberto” do mundo.

Dom Bosco além disso, que em todos os seus empreendimentos era movido por princípios superiores da Fé, via na chancela de Roma a inserção oficial da Congregação no grande organismo espiritual da Igreja: isto para êle era motivo de extraordinário conforto, exatamente pela consciência viva que tinha da Igreja e pela ufania — não me parece fora de lugar esta palavra — que sempre havia experimentado, pessoalmente e para a sua família religiosa de colocar --se ao serviço de Reino de Deus. A sua missão no meio da juventude tornava-se parte da missão da Igreja.

 

Escolhemos “vivere in unum”

Mas falando e escrevendo aos salesianos naquela ocasião, Dom Bosco pôs em evi- dência, com força convicta e consciente responsabilidade, acima de tudo, outro resul- tado, aquele da unidade que a aprovação pontifícia vinha consolidar entre os membros da nova Congregação. O memorável discurso que ele pronunciou, na noite de 11 de março de 1869, para a Comunidade dos salesianos, reunida depois das orações no re- feitório, foi todo inspirado neste grande tema

Escutai as palavras de Dom Bosco: “Meus queridos, a Nossa Congregação está apro- vada; estamos vinculados uns aos outros; eu estou ligado a vós e vós estais ligados a mim e todos estamos ligados a Deus... Não somos mais pessoas particulares mas for- mamos uma sociedade, um corpo visível... Nesta noite vos digo poucas coisas, mas que deveis lembrar, porque são as bases da nossa Sociedade... nós escolhemos vivere in unum. Que quer dizer este viver in unum?” E o bondoso Pai, tendo assim proposto o seu argumento, desenvolve-o — como aprazia ao seu espírito prático — com abun- dância de pormenores e de exemplificações, pelos quais fica bem evidente o objetivo de definir um espírito e fixar uma ideia: a ideia da unidade, que deve ligar todas as forças dos salesianos na caridade, nos propósitos, no trabalho, na missão única.

Há um século de distância é nosso dever reconhecer que a afirmação e dilatação da nossa família é resultado, em grande parte, da solidez compacta do seu espírito.

Ao longo da nossa história, se olhamos as coisas no seu conjunto, na nossa família não surgiram forças dispersivas, não prevaleceu o individualismo ao interesse comum, procedeu-se com entusiasmo sincero e, se assim posso dizer, algumas vezes talvez até ingênuo nas obras mais corajosas; mas a figura e o pensamento de Dom Bosco perma- neceram acima de tudo como última norma de ação, o patrimônio espiritual das pri- meiras gerações se transmitiu às que seguiram como uma herança sagrada: não co- nhecemos graves movimentos de indisciplina e divisão. Somos um corpo que não co- nheceu feridas fatais: reconheçamos esse merecimento naqueles que nos precederam.

Hoje muitas vezes se escutam críticas sobre o passado e se apontam também defi- ciências. Mas a unanimidade daqueles irmãos, no espírito, no apostolado, no estilo, obtiveram tamanhos resultados positivos que constituem para nós uma lição de valor não desprezível depois daquela que nos vem da palavra e do exemplo de Dom Bosco.

 

Convite à unidade

Há cem anos daquela data histórica, no momento em que tudo é chamado a reno- var-se e enquanto o impulso para coisas novas com tantas conquistas sadias pode le- var também à confusão e à dispersão de energias, eu gostaria de retomar, para subli- nhá-lo, o discurso de Dom Bosco sobre o tema fundamental da unidade.

A Congregação precisa da contribuição responsável de todos os irmãos nesta labo- riosa vigília do Capítulo Geral Especial. Por isso a solicitei pessoalmente a cada um de vós.

Desejo que nada se perca do magnífico patrimônio de ideias, de experiências, de entusiasmo, dos quais todos vós sois depositários. Queremos pôr em ato todos os meios para estimular-vos para uma exata e filial obrigação de solidariedade e de cola- boração. Mas, para que isso se realize positivamente, é necessário que acima de tudo prevaleça o grande princípio da unidade. Os milhares de colaborações dos irmãos de- vem confluir numa única resultante que coincida com o bonum commune da Congre- gação. As mais brilhantes comunicações da inteligência, as propostas mais admiráveis de cada um ou dos grupos, as discussões de problemas em todos os níveis, correriam risco de reduzir-se a exercitações estéreis se não contribuírem para aperfeiçoar e tor- nar fecunda na unidade a missão inconfundível para à qual Congregação é chamada nos nossos dias.

 

Unidade no pluralismo

Hoje está em perigo esta unidade que é o centro vital e a razão de ser da nossa vo- cação: esse fenômeno é conhecido com o nome de pluralismo.

É necessário que as minhas palavras sejam claras.

O nosso esforço unitário não pode e não deve evidentemente anular as exigências de um pluralismo que tanto o Concílio Vaticano II como o nosso XIX Capítulo Geral san- cionaram solenemente.

Estão agora em execução muitas iniciativas que tendem a valorizar os recursos par- ticulares da nossa Congregação e que desejam vir ao encontro, na diversidade das formas, aos vários interesses ambientais, na fidelidade à nossa missão comum. O 20º Capítulo Geral poderá dizer a esse propósito a sua palavra mais específica e autoriza- da. Nós não queremos esquemas monolíticos que apagam as características e o viço das sensibilidades e das exigências particulares. Dom Bosco nos ensinou esse respeito dos homens e essa aceitação cordial da colaboração, e das exigências de todos na cau- sa do bem.

Desejo tão somente relevar que o pluralismo, se bem entendido, não pode excluir a necessidade imprescindível da unidade; gostaria, antes, de afirmar que tanto mais se deve garantir a unidade quanto mais o sentido da variedade das experiências é impe- rioso para salvaguardá-las da dispersão e pulverização. Queremos uma unidade que some e valorize as forças de todos, não uma densidade cinzenta que as desconheça e as sufoque. A unidade é exigida hoje, como era por outras razões há cem anos, não somente pela gravidade da missão que está diante de nós no Capítulo Geral Especial, mas antes ainda por causa da desorientação que — não vem ao caso escondê-lo — nos circunda e pode revolucionar também as nossas mentes, pela complexidade dos nos- sos problemas e a grandeza da nossa Instituição. Já o santo Padre nos pôs de sobreavi- so quando, citando um escritor antigo, advertiu a nossa Congregação: “Magnitudine laborat sua”. A vastíssima expansão da Congregação é de per si um perigo imanente.

Se Dom Bosco fazia apelo à unidade para dar firmeza e estabilidade à Congregação no seu início, nós hoje devemos retomar com força este apelo para a obra de renova- ção pós-conciliar em que responsavelmente estamos empenhados.

Será possível conservar a unidade construtiva da nossa Congregação se permanece- rem sólidos e luminosamente operantes em cada um os princípios fundamentais da nossa vida cristã e religiosa e os elementos realmente essenciais do nosso espírito. Não se constrói sobre a areia movediça de quem se arroga o direito de pôr tudo em discus- são com fácil presunção de si e com desabusada leviandade diante do bem da Congre- gação.

Está claro que definir em concreto aquilo que constitui elemento essencial de uni- dade e aquilo que convém a um pluralismo razoável não pode ser tarefa de cada ir- mão, mas poderá fazê-lo — no momento oportuno — somente aquele que tem auto- ridade; sair dessa norma elementar — repitamo-lo — levaria a Congregação a uma situação não só de confusão e incerteza, mas de anarquia absoluta e desagregação, e, portanto, de esterilidade.

 

Unidade na fidelidade ao Papa.

Permiti que vos cite ao menos um setor de primordial importância no qual devemos ser — onde quer que atuemos no mundo — cor unum et anima una, sem indulgência em momento algum... a pluralismos.

Falo da fidelidade ao Papa.

A nossa adesão ao magistério do Papa deve ter aquela espontaneidade e aquela to- talidade que é inspirada na nossa fé no Evangelho e na nossa fidelidade aos ensina- mentos de Dom Bosco.

Portanto não podemos perder, com distinções bizantinas, uma das nossas caracte- rísticas mais sagradas que não somente devemos exaltar nos momentos acadêmicos e oficiais das nossas celebrações, mas tornar viva e eficaz nos empenhos cotidianos do nosso apostolado, de modo especial nestes momentos em que, como todos verifica- mos dolorosamente, se põe em discussão sem reserva a autoridade do magistério pa- pal.

Esse magistério, convém recordá-lo, é o princípio da nossa unidade e da nossa uni- ão com a Igreja. Sem esta fidelidade parece-me poder afirmar que não seríamos mais filhos de Dom Bosco.

Exatamente enquanto estou para encerrar estas páginas recebo fora de qualquer previsão, o telegrama que transcrevo na íntegra. Não posso esconder que pela espon- taneidade do gesto, pelo calor pessoal que anima todo o texto, pela confiança que o Santo Padre demonstra na nossa modesta obra no meio da juventude, devemos sentir- nos todos empenhados em viver sinceramente os sentimentos e os propósitos que expressei no telegrama de resposta que igualmente vos transcrevo.

 

Telegrama do Santo Padre na festa de Dom Bosco

Sr. Padre Luís Ricceri Reitor-Mor

da Pia Sociedade Salesiana Turim

Hodierna ocorrência festa de São João Bosco reaviva no nosso espírito o reconhe- cimento ao Senhor por ter suscitado na sua Igreja a valorosa Sociedade Salesiana à qual desejamos enviar uma especial bênção confortadora da sua vocação à causa da

formação da juventude para que quanto mais urgentes e maiores são as necessidades morais e espirituais da presente geração juvenil e quanto mais prometedores são os sinais da sua sempre nova capacidade corresponder generosos ideais de uma renovada vida moderna tanto mais se reascenda nos Filhos de Dom Bosco amor dedicação confi- ança pela infância e juventude dos nosso tempo auguro renovada efusão divina sobre alunos ex-alunos e seus mestres.

Papa Paulo VI

 

Resposta do Reitor-Mor

A Sua Santidade Paulo VI

Cidade do Vaticano

Profundamente comovido reverenciada Mensagem que Vossa Santidade se dignou enviar-nos como gesto de paterna benevolência ocasião festa litúrgica nosso Santo Fundador envio o vivíssimo agradecimento da Congregação que acolhe Sua encoraja- dora palavra como incentivo e motivo para renovado empenho a responder sempre melhor às expectativas da Igreja às necessidades e inquietudes juventude nosso tem- po. Nome todos Salesianos renovo Vossa Santidade devoção filial dos corações adesão plena das mentes na fidelidade ao Vigário de Cristo que guiou nosso Pai em tempos não fáceis e continua sagrada herança aos filhos.

Luigi Ricceri Reitor-Mor

 

Um perigo: a “secularização”

Permiti agora que aluda a outro perigo que ameaça várias camadas da Igreja e que passa pelo nome de ‘secularização’ ou também de ‘horizontalismo’. Essa atitude ame- aça ferir a unidade das ideias e da ação não somente da Igreja, mas também da nossa Congregação.

Dela se escreve e se fala em nível teológico, pastoral, religioso.

Não é tarefa minha nem pretendo tratar o complexo e grave fenômeno. Entretanto posso dizer que debaixo dessa palavra se quer fazer passar toda uma gama de concei- tos e princípios, dos quais alguns são aceitáveis, outros ao invés são totalmente sub- versivos; e é justamente nisso que está o perigo.

Agora eu desejo chamar a atenção para um conjunto de aplicações práticas que em nome da secularização vem ferir elementos essenciais da vida religiosa e ressaltar al- guma coisa a esse respeito. Dir-vos-ei antes de mais nada que esse fato está ocupando também a ‘União dos Superiores Gerais’. Isso indica a importância do assunto.

Para o nosso caso, neste momento, me parece oportuna, acima de todas as outras, seja pela autoridade como pela clareza, a palavra de Paulo VI. Ei-la: “Dois critérios prá- ticos hoje parecem competir na orientação dos ‘religiosos’: um é aquele, tão sentido e operante de nossos dias, de aproximar o mais possível o homem à sua atual, multíplice e mutável fenomenologia, de maneira a compartilhar ao máximo ‘ seu modo de pensar e viver, lembrando de alguma forma o exemplo de São Paulo: 'Faço-me tudo para to- dos, para poder, de algum modo, salvá-los em grande número’ (1Cor 9,22). Esse é um critério bem intencionado e é sinal de ardente amor apostólico, quando leva a viver melhor para os outros; nem sempre é critério sábio quando leva a viver como os ou- tros; é, portanto, critério que deve ser temperado por outro critério de acordo com as mesmas palavras do Apóstolo, que reafirma igualmente a sua imutável sujeição à lei de Cristo (cf. Ib., 21); de modo que o desejo louvável para melhor compreender e compar- tilhar a realidade concreta do mundo presente que deve ser evangelizado não deve transformar-se ou deformar-se em conformismo com as ideias e os costumes em voga, sempre variados e fugazes, nem em relativismo, que se afasta da imutável verdade dos dogmas católicos, ou seja, da coerência com as comprovadas e fecundas tradições. Será, pois, sabedoria (do religioso) de hoje como daquele de ontem, apegar-se sempre, na alternativa da norma do seu estilo religioso e apostólico, àquela linha de pensamen- to e de ação, que o Superior lhe traça, fazendo assim dele o soldado que com paridade de prontidão combate e obedece, e que se dobra à razoável indulgência para com o mundo que deve levar à salvação, ao mesmo tempo que se declara livre e sincero nos confrontos quando o exijam os empenhos de fé católica e as obrigações da profissão religiosa” (Carta ao Propósito Geral dos Jesuítas, 27 de julho de 1968).

Até aqui Paulo VI.

Se, pois, por ministério, por obediência (portanto não pelo desejo imoderado de experimentar, de viver de qualquer maneira a vida do mundo, nem por um estéril e certamente nocivo mimetismo com o mundo) somos convidados a caminhar em dire- ção a este mundo “secularizado” para levar a ele sinceramente o Cristo, a primeira condição insubstituível é que nos abramos mais e mais ao Cristo.

Ora o perigo maior está exatamente no fato que a “secularização” externa nos leve à secularização interna, isto é, a não ter mais em conta a “Graça” que é fundamento de toda a vida religiosa. Portanto, se for necessário ceder alguma coisa no plano exterior, insista-se mais fortemente sobre a relação pessoal com Deus. Direi que se trata quase de uma lei que aparece evidente na vida física: se alguém está obrigado a viver no gelo do polo, providência para que a alimentação, o vestuário e toda a conjuntura da vida compensem e de algum modo imunizem o organismo dos efeitos da baixíssima tempe- ratura do ambiente.

Pois bem, não se vê como possam ser obtidas “animação” e “imunização” da nossa ação “exterior” sem oração, o que quer dizer acima de tudo meditação, sem aquela restauração da alma que nos retiros periódicos se põe em contato com Deus e deles recebe novas energias, sem aquele alimento divino que é verdadeira comida dos que devem enfrentar a difícil caminhada pelas estradas do mundo de hoje, sem a leitura atenta e refletida dos livros sagrados e de espiritualidade que iluminam e sustentam.

 

Falsa miragem do messianismo social

No fenômeno da “secularização” há um outro aspecto que interessa não somente à nossa pessoa de religiosos como a de apóstolos. Hoje muitas vezes, exatamente em nome dela ou — como costumam dizer — do “horizontalismo” se quer fazer do cristi- anismo um messianismo social e vivê-lo reduzindo o testemunho cristão ao aspecto de serviço social, como se o Cristo houvesse ensinado tão somente o amor do próximo e isso não fosse ao invés uma consequência do amor de Deus.

Mas, como escreveu recentemente o Padre Danielou: “Se se reduz a caridade a uma simples entrega humana, compreende-se como muitos não vêm mais aquilo que dis- tingue um bom cristão de um bom marxista”. E o Cardeal Suenens, não menos claramente, num volume publicado faz pouco tempo, assim se exprime: “É necessário resis- tir à miragem de um messianismo social. A mensagem cristã, e, portanto, o apostolado da Igreja, pertence em primeiro lugar ao campo espiritual. “O meu reino não é deste mundo” disse Jesus. É necessário, portanto distinguir bem a atitude da Igreja preocu- pada em levar a sua plena colaboração à solução de problemas sociais, da atitude des- se messianismo falaz, que realiza o bem-estar material ou bem-estar temporal, sua única finalidade no caminho para o progresso. Não se pode esperar que melhore a condição social dos pobres, antes de pregar-lhes a mensagem evangélica” (Suenens, La corresponsabilité dans l'Église d'au-jourd'hui).

Então qual, na prática, a linha justa?

Admitido que “o fim próprio dessa atividade missionária é a evangelização da Igreja nos povos ou sociedades onde ainda não está radicada” (Ad Gentes, 6), devemos antes de tudo reconhecer que não há contradição e mútua exclusão entre evangelização e progresso humano, antes um termo lembra o outro, embora um não inclua nem esgo- te o outro.

Mas é também verdade — como afirma o Padre Chénu — que “a evangelização está na ordem diferente da civilização. Alimentar os homens não é salvá-los, embora a mi- nha salvação me imponha alimentá-los. Promover a cultura ainda não é converter à fé”.

Concluindo: o progresso humano já é abertura para Deus se por progresso enten- demos não somente o desenvolvimento econômico-técnico, mas o desenvolvimento integral segundo a Populorum Progressio, isto é “voltado à promoção de todo homem e do homem todo” (14), isso exige orientação para Deus criador e “inserção no Cristo vivificador” (16).

Somente entendido assim — que é o sentido verdadeiramente cristão — é que o fim último do desenvolvimento humano coincide exatamente com o fim último das Missões.

É necessário, portanto, que cada um de nós tenha bem presentes esses princípios claros para mergulhá-los na atividade missionária que devemos exercer com as mais diversas nuances.

Acrescento ainda que tais princípios são validíssimos também para os apóstolos que não são missionários no sentido estrito da palavra, mas pastorais. Quer dizer que toda a nossa atividade apostólica (chame-se Paróquia ou Centro Esportivo ou Juvenil, aula de canto, ou Curso Universitário) jamais pode separar os dois elementos de desenvol- vimento humano e de evangelização; somente da ação harmoniosa e proporcional dos dois elementos as nossas atividades resultarão apostolicamente positivas e fecundas.

 

“Nós somos os tempos”

Mas já é tempo de colocar um ponto final.

Voltando à lembrança que nos advém do Centenário da aprovação da nossa Con- gregação, não me parece estar fora da verdade se afirmo que a ideia da unidade na caridade, nas ideias, no trabalho, foi uma das grandes ideias-forças com que Dom Bos- co consolidou a sua família e que ele deixou em herança a seus filhos como distintivo característico, o segredo do sucesso apostólico.

“Unamo-nos em fazer o bem”, deixou escrito no regulamento dos cooperadores. “Permanecei unidos”, repetia frequentemente aos ex-alunos. “Vivamos in unum na caridade” é um lembrete constante que ele fez entender incansavelmente aos irmãos, imitando a exortação de São João Evangelista à caridade fraterna. Permiti que repita a insistente exortação de Dom Bosco, com o seu mesmo espírito, neste ano Centenário da Congregação, enquanto nos preparamos para a “grande empresa” do próximo Capí- tulo Geral Especial.

E concluo com um augúrio para cada um de vós. Foi o augúrio que me fez um que- rido irmão e me parece tão atual, embora dos tempos de Santo Agostinho, que estou certo encontrará o vosso agrado empenhando-vos na sua realização. Ei-lo: “os tempos são tão tristes. Vivamos bem, e os tempos serão bons. Nós somos os tempos”.

Este augúrio vai acompanhando cordialmente com a minha saudação e a minha prece. Também vós rezai muito por mim.

Afeiçoadíssimo

Sac. Luís Ricceri
Reitor-Mor

 

TODOS EMPENHADOS PARA O CAPÍTULO GERAL ESPECIAL

 Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 257

Os dois polos da renovação. – Volta às fontes. – Conhecer Dom Bosco: dever essencial. – Abrir-se aos sinais dos tempos. – Os extremismos não são construtivos. – Estudo e experiência, forças complemen- tares. – Uma osmose fecunda da caridade. - “Esperemos uns aos outros”. – Evitar modos contrapro- ducentes. – Amar e compreender a Congregação para renová-la. – Todo esforço será vão sem uma verdadeira “conversão”. – A nossa empresa precisa de uma alma. – Unidos a Dom Bosco com o cora- ção dos primeiros irmãos.

Turim, 1º de maio de 1969

Irmãos e filhos caríssimos,

com satisfação entretenho-me convosco sobre o acontecimento que, com razão, ocupa neste momento o centro dos nossos pensamentos e polariza a atividade e o interesse da Congregação em todos os seus membros, um acontecimento que é o cen- tro das esperanças comuns, embora talvez matizadas, não nos admiremos, por certa ansiedade. Compreendestes logo que me refiro ao nosso Capítulo Geral Especial e a todo o trabalho de preparação que a ele se liga.

Estamos todos convencidos de que se trata de um acontecimento que transcende muitíssimo a vida ordinária da Congregação. Basta pensar que é um fato excepcional, único, não só na história de nossa Congregação, mas de todas as famílias religiosas. Não é, pois, nada hiperbólico afirmar que a este Capítulo (e à sua adequada prepara- ção), está ligada a própria vida da Congregação no próximo futuro assim como a sua vital incidência na Igreja e no mundo, no sulco que a Providência nos indicou; podemos afirmar tranquilamente que se trata de um acontecimento histórico, ou melhor, de um encontro único, diria decisivo, para o qual a Igreja convida a Congregação: toca a todos nós fazer de modo que o encontro não falhe.

Estais lembrados das palavras que Paulo VI dirigiu aos membros do XIX Capítulo Ge- ral? Ele, depois de ter afirmado que “os Salesianos representam um dos fatos mais notáveis, mais benéficos, mais exemplares, mais promissores do Catolicismo no século XIX e no nosso”, acrescentou textualmente: “E queira Deus que assim seja nos séculos futuros”.

Pois bem, as palavras do Sumo Pontífice são um augúrio, é verdade, mas contêm uma advertência que nos deve levar à reflexão.

O Capítulo Especial, em torno do qual todos trabalhamos, deverá justamente fazer de modo que o alto elogio do Pontífice e da Igreja aos Salesianos do primeiro século seja ainda bem merecido pelos Salesianos dos novos tempos.

Não vos admireis, portanto, se ainda vos falo desse argumento, mesmo porque, atendendo à vontade da Igreja Conciliar, cada um de nós é chamado, segundo suas possibilidades, a dar a sua corresponsável contribuição para o feliz êxito desta extraor- dinária empresa.

 

Todos empenhados para o Capítulo Especial

Graças a Deus, das notícias que chegam até aqui se deduz que em todas as Inspeto- rias há um confortador empenho na preparação do 1º Capítulo Inspetorial Especial. Isto indica que existe a consciência geral de que o sucesso do Capítulo Especial está ligado em grande parte à participação ativa de todos os Irmãos nas fases de estudo e preparação.

Desta consciência foi animado e inspirado o trabalho, desenvolvido com cuidado e método, primeiro no nível das comunidades e em seguida nas Comissões preparatórias, com uma obra de sensibilização progressiva, com oportuna documentação, com relatórios e estudos de Irmãos especializados.

Notícias mais amplas, a respeito da preparação do Capítulo Geral podem ser encon- tradas em uma “rubrica” especial, sob a responsabilidade da Comissão Central de Coordenação que vai aparecer regularmente nos “Atos do Conselho Superior”.

Neste momento, não posso deixar de agradecer aos Capítulos Inspetoriais que, du- rante os seus trabalhos, quiseram exprimir a mim e aos Superiores o seu afeto filial e principalmente o sentimento unânime de amor e fidelidade a Dom Bosco.

Tudo me faz esperar que os esquemas que serão enviados pelos Capítulos Inspeto- riais constituirão uma base muito rica e significativa para as etapas seguintes que ainda teremos de percorrer antes do Capítulo Geral Especial.

Estamos todos de acordo que “a operação” que devemos realizar é de uma ampli- tude e complexidade verdadeiramente excepcional: ela abrange problemas que tocam ao vivo as carnes da Congregação e a nossa resposta pessoal a Deus, à Igreja e à socie- dade do nosso tempo, de modo que não é de admirar que surjam zonas de sombra, dúvidas, perplexidades e, consequentemente, do confronto das várias avaliações e sensibilidades também podem brotar tensões; mas justamente por causa dessas reais e sérias dificuldades parece-me que devemos ter bem presentes alguns princípios e orientações que indiscutivelmente ajudam a aplainar a estrada, a ver claro, a caminhar na pista certa com passo seguro no itinerário que devemos percorrer para chegar feliz- mente à meta.

Foi dito por alguém, que adquiriu grande experiência em Capítulos Especiais que seu sucesso está altamente condicionado à sua preparação.

Estou, também, convencido disso e estas minhas considerações respondem justa- mente a esta preocupação.

 

Os dois polos da renovação

Já ouvimos mil vezes que o Capítulo Especial tem por objetivo estudar a “renova- ção” da Congregação, a accomodata renovatio de que falamos e à qual se referem os documentos conciliares e pós-conciliares.

Agora, mais que nunca, não deveria haver em nós nenhuma dúvida sobre o signifi- cado desta palavra; entretanto, de fato, mais de uma vez se constatou, e por várias razões, que ela sofre as mais diversas interpretações, e até antitéticas conforme os casos, unilaterais, radicais, minimistas, etc. E isso principalmente por causa da carga emotiva com que, não raramente, enfrentamos o problema da renovação: de aqui, como dizia acima, os inevitáveis pontos de vista subjetivos e limitados, e de aqui tam- bém, infelizmente, certos desvios mesmo ideológicos e portanto, práticos.

O Padre Congar falando do Perfectae Caritatis, depois de ter afirmado que ele cons- titui a base, o fundamento, uma summa da vida religiosa, acrescenta: “Devemos tê-lo como ponto de referência todas as vezes que se enfrente ou se exponha qualquer ar- gumento relativo à vida religiosa. Não podemos falar de renovação da vida religiosa sem ter continuamente sob os olhos este decreto cujo cerne é justamente a renovação da vida religiosa” (Autores vários, Rinnovamento della Vita Religiosa).

Pois bem, a accomodata renovatio de que fala o decreto exprime uma contínua vol- ta às fontes de toda a forma de vida cristã e ao espírito primitivo dos Institutos e ao mesmo tempo uma adaptação dos mesmos Institutos às novas condições históricas  (PC 2; ES II, parte I)

A dúplice diretriz — acolhimento das exigências de hoje e — junto e inseparavel- mente tomada de contato com o espírito das origens — é o trilho sobre o qual deve- mos caminhar se quisermos realizar a renovação da Congregação.

O Padre Tillard, na obra citada, insiste, embora com outra imagem, sobre esse prin- cípio claro e básico. Diz ele: “É preciso conservar, ao mesmo tempo, o movimento para a raiz, da qual provém a linfa religiosa, e o movimento para o mundo de hoje. Daqui a situação de tensão — incômoda e sempre em busca — em que o seu próprio movi- mento imerge a vida religiosa”.

Também o Padre Congar se preocupa em esclarecer bem este princípio que chama- ríamos bipolar. “Uma reforma não é uma “revolução” porque respeita a continuidade, nem tão pouco é uma “restauração” porque não busca o restabelecimento do que havia antes”.

E continua: “Se eu não buscasse senão o conformismo com a situação presente, ja- mais haveria reforma. Se imaginasse tudo diferente, isto nunca seria uma reforma. É preciso conservar... não uma fidelidade rasa, adaptada somente à forma atual das coi- sas. É preciso que a minha fidelidade assuma o futuro, apoiando-se nas origens: em resumo, é preciso que assuma a densidade do tempo” (La Croix, 24-X-1968).

Não será demais repetir, portanto, que a nossa renovação deve apoiar-se contem- poraneamente em dois polos igualmente essenciais e necessários. E embora possa parecer um paradoxo, para que a nossa fidelidade seja autêntica e fecunda deve diri- gir-se ao mesmo tempo para o passado e para o presente. Quem, no trabalho de reno- vação da Congregação quisesse cindir estes dois termos, provocaria nela uma crise que comprometeria sua vida e sua missão.

 

Volta às fontes

Em concreto... o incessante retorno às fontes de toda a vida cristã traduz-se em guardar o Evangelho. Esta é a matriz originária do espírito religioso, a fonte inspiradora da oração, da doutrina, do apostolado religioso. É o texto da formação religiosa: o religioso nasce do Evangelho, amadurece no Evangelho, age sobre o Evangelho, é o ho- mem do Evangelho. Somente olhando o Evangelho é possível atuar aquela sequela Christi que é regra suprema de toda a vida religiosa.

Mas o Espírito Santo inspirou formas e modos diversos de viver a sequela Christi, suscitando vários Institutos religiosos “mediante homens particularmente dóceis às suas moções” (LG 43).

A nossa Congregação, suscitada pelo Espírito Santo, fundada pelo nosso amadíssimo Pai, reconhecida pela Igreja, tem uma missão própria, um carisma próprio, um espírito próprio, um estilo próprio, todo um patrimônio que a Igreja do Concílio quer que seja bem conhecido e identificado claramente por nós na sua essencialidade perene a fim de que não se disperse e nem seja arruinado pela ferrugem do tempo, mas, como linfa pura, produza incessantemente nutrição à Congregação que caminha na história.

É evidente toda a importância do conhecimento e do estudo das nossas origens, de Dom Bosco, do seu trabalho, do seu pensamento, do seu espírito peculiar, de quanto nele aparece contingente e momentâneo, fruto de sua adaptação ao momento históri- co em que ele se move, e de quanto, ao invés, é ideia constante projetada no tempo para cumprir sua missão que vai além do seu ambiente e da sua vida.

Não seria possível pensar que nós procederíamos a uma operação de renovação da nossa Congregação sem abastecer-nos em nossas origens, ou melhor, sem aprofundar tudo o que a ela se refere. Como se poderia discutir seriamente e com o coração sere- no o pensamento de Dom Bosco, a nossa missão na Igreja e na sociedade, o espírito salesiano, as constituições, que são sua expressão concreta, sem ter feito esta pesqui- sa? Até um simples estudioso, embora sem a preocupação e responsabilidades de es- colhas e orientações vitalmente decisivas, que nós temos, sentir-se-ia no dever de fa- zer tal pesquisa ao menos por amor à verdade histórica. Parece-me que não se poderia dar crédito a quem quisesse revisões e reformas na Congregação sem antes ter-se abastecido com tal documentação.

Louvo de coração aos não poucos irmãos que sentem a necessidade e o dever de documentar-se através de um estudo sério sobre os vários pontos da nossa história, seja das primeiras origens como das gerações sucessivas, antes de intervir com rela- ções e propostas sobre os vários temas que serão tratados no Capítulo Geral.

Este modo de agir denota senso de responsabilidade e tomada de consciência sobre a importância vital do assunto em jogo e das consequências a que se expõe a Congre- gação caso se enfrentem os problemas sem tê-los avaliado em todos os seus aspectos.

 

Conhecer Dom Bosco: dever essencial

Aproveito a ocasião para estender o apelo levando-o para fora e além do momento do Capítulo Geral. Somos Salesianos, filhos espirituais de S. João Bosco. Pois bem, para ser verdadeiramente e plenamente salesianos é claro que não basta ter professado e trabalhar nas nossas obras, viver em nossas comunidades. Para “ser” verdadeiros e conscientes filhos de Dom Bosco — não apenas para “chamar-nos” salesianos — é pre- ciso conhecer o nosso Pai, a sua figura, o seu pensamento, as suas características, o seu inconfundível espírito, a sua pedagogia; é do conhecimento que vem a apreciação, a valorização, o próprio amor a tudo aquilo que Dom Bosco significa e representa para a Congregação e para a Igreja.

Devemos reconhecê-lo: se se adverte que, aqui e acolá em nossos ambientes Dom Bosco está menos presente na vida e nas atividades de quem apesar disto é chamado seu filho, a razão não última está no fato de que estes não se preocupam em buscar um conhecimento adequado e aprofundado daquele que é seu e nosso Pai, o Funda- dor das três grandes famílias salesianas, o grande e humilde servidor da Igreja.

O convite para conhecer e estudar Dom Bosco não é certamente bairrismo ou triun- falismo, é unicamente um apelo a um dever elementar e coerente que a Igreja do Con- cílio faz a todo o Instituto religioso.

NÓS — através de nossa vocação salesiana — somos chamados a ser os homens do Evangelho, mas segundo a graça do nosso Fundador, devemos encontrar o Evangelho através da pessoa de Dom Bosco, devemos participar — como disse um autor — do “choque” do Fundador no seu encontro com o Evangelho.

“A vida é marcada pela partida. A árvore vive das suas raízes” (Paulo VI, 7-3-69). Mas como é possível tudo isto sem conhecer — e não só superficialmente e de for-

ma diletante — o patrimônio que existe na pessoa, na vida, no pensamento de Dom Bosco, a verdadeira fonte vital da nossa peculiar vocação salesiana?

A vossa inteligência e, mais ainda, o vosso sincero e autêntico amor a Dom Bosco e à vossa mesma vocação, tirem as consequências concretas destas minhas palavras.

Mas, voltemos ao nosso tema.

 

Abrir-se aos sinais dos tempos

O outro polo de nossa renovação é “a adaptação aos tempos atuais”. Esta é uma necessidade da Igreja: esta, de fato, “não pode deixar de ter em consideração a sua relação com o mundo que é, sim, de oposição ao mundo, mas também de penetração no mundo, de fermentação evangélica no mundo” (E. Ancilli, Vita religiosa e Concílio Vaticano, p. 314).

O difícil está em discernir entre o que se deve repelir e o que se deve assumir; mas a dificuldade não nos autoriza a fugir do problema, antes convida-nos à humilde busca de uma síntese vivida pelos valores modernos e pelos antigos e perenes. Nessa busca tenhamos presente que a “adaptação” não pode ser uma indiscriminada aproximação do mundo, que nos faça assumir modos de pensar e de viver do mundo.

A vida religiosa não pode e não quer ter por norma o mundo. Tenhamos presente que é fácil o equívoco em se tratando de adaptar-se ao mundo que é uma realidade ambígua.

A adaptação não se pode transformar em uma “partilha do que não pode ser parti- lhado, mas é antes um aproximar-se com critérios de Deus para ver a realidade como Deus a vê, para amar como Deus ama; com aquele amor que se coloca perto do mun- do para elevá-lo e enriquecê-lo, e não para se deixar influenciar pelo seu espírito” (Mo- linari, Commento al Perfecate Caritatis, p. 49).

Como disse acima, trata-se de uma empresa necessária, mas de extrema delicadeza também porque abrange toda a nossa vida: ascese e disciplina, formação e governo, apostolado e colaboração. Trata-se de uma renovação “de tal amplitude que não pode se localizar apenas em alguns setores: a relação com o mundo atual, as relações dos religiosos entre si, as práticas religiosas diretamente concernentes à oração, as atividades, a vida comum não são aspectos ou setores isoláveis; a renovação em um setor comporta também uma modificação nos outros”.

A renovação, pela enorme vastidão e complexidade dos problemas que investe, pe- la delicadeza e dificuldade de avaliação e de escolhas essenciais, exige de nós, de todos nós, mas especialmente dos que têm a responsabilidade na preparação e apresenta- ção de propostas e orientações, um conjunto de convicções e de atitudes que nos de- vam ser guia seguro em todo o nosso trabalho a serviço da Congregação.

 

Os extremismos não são construtivos

Primeiramente procuremos levar a todos os momentos da nossa atividade, em rela- ção ao Capítulo Especial, uma grande serenidade junto com um constante equilíbrio.

Os extremismos, constatamo-lo tristemente cada dia, nunca são fecundos de ver- dadeiro bem. Por isso digo àqueles que se consideram progressistas: — Caríssimos, atentos! A vossa pode tornar-se uma verdadeira mania de novidade pela novidade.

Aos assim chamados conservadores, digo: — Caríssimos, atentos! Vosso apego ao passado pode ser uma estéril e irracional fixidez.

De fato, progressistas e conservadores “podem ser movidos bem pouco pelo impul- so do Espírito Santo, e, pelo contrário, muito influenciados pelo seu temperamento e pelas suas experiências inconscientes” (Rivista di Ascética e Mistica, novembro 1965).

Pascal, a propósito dessas pessoas, diria: “Nunca se comete o mal tão plenamente e tão alegremente, como quando se faz por um pretendido princípio de consciência...!” (Pensamentos, n. 895).

Gostaria de acrescentar ainda uma observação: os termos “progredir” e “conservar” não indicam atitudes feitas para se contraporem, mas para se integrarem, pois não há progresso sem tradição e não há tradição sem progresso.

A sensibilidade aos sinais do tempo não compromete a verdade que se deve teste- munhar sempre.

Mais em concreto: está fora de discussão que deve haver mudanças, que deverão ser realizadas. Mas isto nada tem a ver com as manias irracionais de inovações. As mudanças só se justificam “quando se trata de uma grande e evidente utilidade”.

Mas, de outro lado, não é lícito negar a necessidade de mudanças só porque não queremos modificar a nossa vida. Sob as aparências de amor à tradição pode escon- der-se, mesmo inconscientemente, outro motivo: a renovação é incômoda, não condiz com os nossos hábitos mentais, obriga-nos a outro estilo de vida, por isso negamos sua necessidade.

 

Estudo e experiência, forças complementares

Parece-me, em conclusão, ainda atual o pensamento que exprimia dirigindo-me aos membros do XIX Capítulo Geral, em um momento de tensão: “nenhum de nós possui o monopólio da verdade e da solução dos problemas (nem o progressista, nem o conser- vador). A verdade é como um mosaico, fruto de muitas pedrinhas compostas juntas pelo estudo atento e convergente de vários artistas. Reconhecer que ninguém tem o monopólio da verdade, é verdadeira humildade, verdadeira inteligência” (CG XIX, p. 381).

Ninguém tem tudo, ninguém é completo, ninguém pode dizer tudo sobre qualquer argumento. O homem de estudos, por exemplo, pode dar certamente uma preciosa contribuição à nossa renovação com a sua cultura, mas digamos logo que por cultura nós entendemos não um conhecimento mesmo aprofundado de algumas disciplinas, dir-se-ia setorial; tanto menos pode-se falar de cultura pelo fato de que se leram mui- tos livros, ou porque se leram certas revistas. A verdadeira cultura, para nós e não para nós somente, é profunda elaboração de muitas disciplinas, é confronto ponderado de opiniões e de teses antes de chegar à síntese.

Mas, mesmo a autêntica cultura, as mesmas ciências sacras e as auxiliares tão valo- rizadas hoje, podem por si sós dizer uma palavra cabal e definitiva sobre a nossa reno- vação?

Justamente a propósito dessas ciências — de primeira importância — o Concílio e o Pós-Concílio preocupam-se que sejam pastoralizadas. E com razão, porque devem ser- vir, não a um mundo inexistente, mas ao homem, tal qual é hoje; como indivíduo, co- mo membro da sociedade eclesial e da cidade terrestre.

Pois bem, a renovação em torno da qual nós trabalhamos não é um fato caracteris- ticamente “humano”, isto é não deve servir para homens e não deve ser realizado através de homens no mundo da realidade salesiana?

Parece-vos então que o homem de estudo que vive entre os seus livros, mesmo en- riquecido da verdadeira cultura, possa sozinho dizer a palavra definitiva para a nossa renovação?

É claro que, como para a atuação pastoral o teólogo, o historiador, os sociólogos são preciosos, mas têm necessidade de ser integrados com quem vive a realidade do trabalho, da família, da paróquia, da escola, assim para a nossa renovação temos ne- cessidade, sim, da palavra dos homens de estudo, mas evidentemente devem ser inte- grados por outros que, vivendo encarnados na realidade salesiana, têm a experiência e a sensibilidade dos seus vários componentes.

 

Uma osmose fecunda na caridade

Digamos uma palavra a respeito do relacionamento entre os velhos e os jovens. Mesmo aqui estaria fora de toda a realidade quem achasse que possui com exclusivi- dade — jovens ou velhos — a fórmula da renovação.

Olhando bem, o ancião é levado à prudência, gosta do passado em que há também o filão da sã tradição e se desenrolou o fio da sua vida; vê com facilidade imprudências, intemperanças e desvios. Tal atitude, psicologicamente explicável, algumas vezes re- solve-se em um estado de tranquila aquiescência ou de defesa amarga do status quo.

Na outra margem está o jovem que recalcitra e protesta, eco da profunda agitação que faz trepidar este nosso tempo de transição e de crise. Em nome da ação ergue a bandeira do ativismo, o agir por agir sem metas precisas: pronto para fazer próprio o conteúdo do último artigo da revista da vanguarda, põe em discussão e sob acusação tudo, as estruturas da Igreja e o celibato, a vida religiosa e salesiana, o sentido dos vo- tos, o exercício do nosso apostolado. Extremismos infelizmente incontrolados.

Mas ao lado destes extremismos existem fermentos bastante válidos.

Eis outro jovem: não desconhece a tradição vivente e viva, mas não suporta as tra- dições sem vivacidade e lânguidas sob camadas de pó; olha para frente, ao longe, para um futuro não sem riscos, mas rico também de promessas. Lamenta que o elemento humano colocou algum freio na atuação do Concílio e do XIX Capítulo Geral. Como quer que seja, a sua tensão é animada por uma preocupação de autenticidade, intui, embora não veja claramente, que o Concílio abriu com poderoso dinamismo novos caminhos, para a Igreja e para a Congregação, e, portanto, espera, mesmo com uma certa dose de impaciência...

Diante deste quadro certamente cheio de lacunas, mas suficientemente indicativo, que devemos dizer?

Ainda uma vez: ninguém tem tudo! Há valores e desvalores de cá e de lá; nos velhos e nos moços.

Então? A conclusão é clara: somente a consciência das próprias limitações, sinal de maturidade, somente a compreensão dos valores positivos que existem nas atitudes do meu “adversário”, somente uma osmose de ideias e avaliações entre jovens e ve- lhos, na estima e na caridade recíproca, poderão transformar a natural tensão entre as gerações em preciosa fonte energética para a Congregação.

Evitar-se-á assim Cila sem ir de encontro a Caríbdis e se prestou um inestimável ser- viço à Congregação.

Como conclusão destas considerações pode ser agradável uma saída atribuída ao Papa João.

Durante o Concílio alguns prelados, preocupados com o fato de que os “velhos” não queriam ceder em nada e os “jovens” queriam trocar tudo, pediram conselho ao Papa João.

E eis a sua sábia resposta: “Dizei aos “velhos” que o mundo continuará também de- pois deles; e aos “moços” que o mundo já existia antes deles”.

Dispensa comentários!

Sejamos, pois, portadores de um espírito de colaboração, integremo-nos, tornando- nos reciprocamente sensíveis: teremos prestado um precioso serviço à Congregação.

 

“Esperemos uns aos outros”

Mas, como disse acima, esta atitude supõe e postula — e não pode ser de outra forma — um sentimento sincero de humildade, o sentimento honesto e inteligente  dos próprios limites e consequentemente a ausência da presunção de um certo profe- tismo, e o respeito aos outros, mesmo de quem não pensa como nós.

O Cardeal Garrone falando justamente de certas vocações para o profetismo diz  que “nem todas são fraudulentas, muitas, porém são ilusórias. É preciso abrir bem os olhos: Deus não multiplica os profetas e é preciso tempo para experimentar o valor  das suas mensagens”. Pode-se acrescentar também que é preciso ver até que ponto o estilo, o tom, o modo de agir, e especialmente a vida dos tais “profetas”, dão crédito e testemunham a bondade da sua mensagem.

Na verdade, fica-se até mesmo perplexos diante de certas formas de dogmatismos, de certas afirmações peremptórias, de certos violentos aut aut por parte de alguns a propósito da renovação... tanto mais quando provêm de gente evidentemente des- preparada, ou sem toda aquela experiência de vida que é um componente insubstituível para tratar seriamente dos problemas da renovação, ou que não se apresenta co- mo exemplar na vida religiosa.

A perplexidade se agrava quando nos encontramos diante de certos métodos que dir-se-iam de pressão psicológica tendentes a fazer aceitar a todo custo as próprias teses tomadas também para prestigiar certas hipóteses bastante ousadas e discutidas.

Caros Irmãos, rogo-vos vivamente que ninguém de nossa família se ponha neste caminho; um caminho falso, cheio de perigos, sem dúvida prejudicial.

É óbvio, de fato, que a clareza e a sinceridade com que temos o direito e o dever de afirmar quando em consciência achamos necessário para o bem da Congregação, não podem nem devem estar separadas do respeito a todos e a cada um dos irmãos, da ponderação e reflexão que devem preceder todo juízo de situações concretas, para que estas possam ser avaliadas em todos os seus aspectos negativos e positivos em uma visão a mais completa possível.

Deixando de lado tais critérios, corre-se o risco, entre outros, de conduzir uma ação contraproducente, e, portanto, com um resultado oposto ao que se quereria obter. De fato, ideias, propostas, observações total ou parcialmente válidas costumam também ser, por lei psicológica (mecanismo de defesa) rejeitadas totalmente, se na apresenta- ção aparecem afogados em um conjunto de juízos categóricos, condenações fáceis, tons definidores. Mas deve-se também dizer que ideias assim colocadas acabam por provocar reações totalmente opostas: todo extremismo produz fatalmente outro ex- tremismo.

Torna-se oportuna a palavra do Cardeal Döpfner: ele convida àquela que chama pa- ciência, mas que nada tem a ver com o imobilismo; antes, é uma sábia compreensão, isto é, humildade e caridade juntas. Eis as suas palavras repletas de sabedoria humana e cristã: “Esperemos uns pelos outros, na paciência de Deus que se manifesta em Cris- to: aqueles que empurram para frente esperem aqueles que têm necessidade de mais tempo; os que apreciam o que já se atingiu, disponham-se a acolher o novo. Falar de “paciência” pode parecer pretexto barato para não dar os passos necessários; todavia o máximo perigo parece hoje ser justamente a impaciência que é fruto de um zelo sem caridade” (Carta Pastoral, 1968).

A humildade paciente e respeitosa dos outros encontra a sua raiz e a sua força na pureza das próprias intenções.

Não pareça fora de lugar falar de intenções puras. O orgulho humano é multiforme e sutil; pode insinuar-se, sem que se perceba, nas dobras de nosso espírito. A história antiga (e também a atual) o ensina. Já Santo Agostinho dava o alerta: “É fácil confun- dir a própria verdade com a Verdade”. É preciso rever-se continuamente diante de Deus e da Congregação: a nossa deve ser em todos os momentos a busca sincera e serena do bem da Congregação. Para verificar tal “busca sincera do bem da Congrega- ção” nas próprias intervenções de qualquer gênero é preciso perguntar-nos sempre se o nosso zelo, como adverte o Arcebispo de Mônaco, é sem caridade ou com caridade. A eventual ausência da caridade (que pode tomar tantas formas) na nossa ação prepa- ratória ao Capítulo Especial, não pode deixar de fazer-nos duvidar da bondade da nos- sa ação e da sua eficácia construtiva. São Francisco de Sales observa que a violência que se pode manifestar de tantos modos — e que é ausência de caridade — não pode de modo algum ser a arma da Verdade.

 

Evitar modos contraproducentes

Talvez seja útil dizer alguma palavra mais concreta sobre este argumento. Gosto de pensar que estais persuadidos de que os Superiores desejam a colaboração de todos os irmãos; uma colaboração dada com plena liberdade e por causa disto mesmo com suma responsabilidade. O iter de preparação solicita-a e promove-a de muitas manei- ras, nas várias fases dos trabalhos. Acolhemos por isso com gratidão toda forma de colaboração, reservando sempre atenção e sincero apreço a todas as sugestões, ob- servações, intervenções.

Por isso o iter previu que os Salesianos por si ou em equipe possam fazer chegar ao Capítulo Inspetorial, ou diretamente à Comissão Central de Coordenação, propostas, estudos, documentos.

Justamente nesta perspectiva, devo dizer que já vieram de várias partes da Congre- gação apreensões, perplexidades, e mesmo reprovações de não poucos irmãos, até muito qualificados, abertos e sensíveis às justas exigências da renovação. E não se po- de dizer que tais reações sejam totalmente infundadas. Esses irmãos referem-se ao fato que por alguém isoladamente ou em grupo foram colocados em circulação escri- tos que solicitam particulares diretrizes, enviando-os não às Comissões Preparatórias Inspetoriais, ou à Comissão Central, mas praticamente a toda a Congregação. Tais es- critos fora do ambiente em que foram pensados e redigidos, são com frequência moti- vo mais de confusão e alarme ou de violentas reações do que instrumento de esclare- cimento construtivo.

Caríssimos irmãos e filhos, desejo assegurar a todos que ideias, propostas, suges- tões, serão acolhidas e consideradas como merecem. Disto são garantia também as Comissões pré-capitulares centrais que, como podeis constatar em outra parte dos “Atos”, são de vasta e variada formação; são seus componentes irmãos provenientes de todos os continentes, ricos de cultura nos mais diversos ramos; junto de Irmãos, sacerdotes e coadjutores, ricos de experiências diversas, há outros muito jovens. Me- recem toda a nossa confiança.

Mas evitemos transformar nossa colaboração ao Capítulo Especial que pode ser preciosa e determinante, em algo que, na realidade, pode anular a consecução daque- les objetivos que nos propusemos.

E os objetivos, é bom repeti-lo, resumem-se em poucas palavras: dar uma vida re- novada à Congregação, uma vida juvenilmente arejada e dinâmica, uma vida ricamente fecunda na autêntica vocação de sempre, que Dom Bosco lhe indicou.

 

Amar e compreender a Congregação para renová-la

Foi dito que desejar a renovação da Congregação é sinal de amor sincero para com ela. Não é uma figura retórica dizer que a Congregação é nossa Mãe. E nós, justamente porque nos sentimos filhos e a amamos concretamente, e por isso queremos libertá-la de toda a esclerose que o tempo lhe trouxe, queremos rejuvenescê-la de eventuais anemias devidas ao grande consumo de energias, queremos dar-lhe o entusiasmo e o ardor da sua primeira adolescência.

Mas este amor concreto jamais poderia traduzir-se em desprezo pela Congregação, pelo seu passado, remoto ou próximo, pelos homens que a acompanharam no seu crescimento e desenvolvimento, por todo o conjunto de normas e critérios que a guia- ram e ainda a regem.

Um sinal seguro do amor é a compreensão de quem se ama.

Pois bem, nós que amamos a Congregação (se algum não a amasse estaria de fato já fora da nossa família) compreendemos que se hoje vemos tantas coisas com olhos e com sensibilidades novas, correspondentes a situações e evoluções sociais, psicológi- cas, de costume, novas também na Igreja, isto não autoriza de maneira alguma a con- denar um passado que na verdade respondia a situações profundamente diferentes das nossas. A mãe que empregou tanto tempo em tecer manualmente um tecido, não será injustamente condenada pelo filho amoroso e inteligente em nome da auto- matização de hoje.

Este amor, que se faz compreensão, se dará conta que a Congregação é uma criatu- ra sui generis: não é uma Sociedade filantrópica, ou política, não é uma cooperativa de trabalho, um sindicato ou uma sociedade industrial ou comercial; a Congregação tem fins eminentemente sobrenaturais, apostólicos, religiosos; nós, na Congregação, uni- dos pelo vínculo da caridade, queremos trabalhar, viver no espírito de Dom Bosco a nossa consagração com um apostolado característico.

As mudanças, as transformações, os critérios da renovação, devem respeitar e ter presente estas realidades: o amor deve responder às exigências da coisa amada. Nós recebemos da Igreja a tarefa de renovar a vida religiosa na Congregação salesiana; não se trata de criar outra Congregação ou de mudá-la, quem sabe em que outra organiza- ção de bem ou de apostolado.

É bom servir-nos nos nossos trabalhos de ciências auxiliares que nos comunicam as realidades humanas e sociais em que devemos mover-nos. Estudemos também se- riamente os documentos que obviamente são os mais qualificados para iluminar-nos neste não fácil caminho da renovação. Quem teria a ousadia de achar que pode dis- pensá-los?

É também indispensável deixar-se guiar, sim, pelos sinais dos tempos e por todos os auxílios que nos possam vir das ciências e das técnicas para tal fim, mas antes de tudo deve-nos guiar a voz de Cristo e da Igreja e a fidelidade ao carisma e ao espírito do Fundador, que, lembremo-nos bem, muitas vezes repetiu ter pensado e querido a Congregação mediante clara inspiração do alto e com a assistência, em forma especia- líssima de predileção de N. S. Auxiliadora.

São pensamentos espontâneos diante de algum escrito circulante aqui e ali, cuja inspiração, motivação e sugestões são tomadas totalmente de autores, cuja autorida- de não se quer discutir, mas com completa, ou quase, exclusão da voz da Igreja, do Concílio e do Magistério Ordinário do Papa, que entretanto ofereceu, e continua a ofe- recer, a mais autorizada interpretação e aplicação do Concílio, e enfim do pensamento e da palavra de Dom Bosco, de que certamente não são pobres, as fontes salesianas.

 

Todo esforço será vão sem uma verdadeira “conversão”

Antes, porém, de encerrar esta carta, justamente para que todo o nosso trabalho preparatório ao Capítulo Especial tenha fundamento seguro e metas claras, desejo recordar a todos a advertência que é o ponto-chave do Decreto Perfectae Caritatis (18): “A Renovação não pode ser somente exterior”. A solução de todos os nossos problemas, seja em um plano geral seja no das escolhas particulares, está no espírito que deve animar as decisões que se deverão tomar. E isto nos diz que o problema de adap- tação da Congregação é uma realidade profunda, é essencialmente um problema de “conversão”: é o pensamento repetido com frequência por Paulo VI em tantas ocasi- ões. Para ser fiéis a Cristo e à Igreja no mundo atual e por consequência a Dom Bosco, nosso Pai e Fundador, somos convidados a “converter-nos”. Esta ação deverá levar muitas vezes a uma verdadeira inversão das posições tradicionais; a uma nova menta- lidade e sensibilidade, seja no campo do conhecimento como no da vida, da formação e do apostolado.

Tudo isto não se pode atuar senão através de uma adequada preparação dos espíri- tos, mas é o único modo de ser realmente fiéis ao nosso Pai e à Igreja atual.

O Concílio, e, portanto, o Papa, como aludia acima, colocaram bem em evidência este princípio: sem a renovação espiritual e interior, mesmo “as melhores formas de “aggiornamento” [atualização] não poderão ter sucesso” (PC 20).

As técnicas, as consultas, as ciências auxiliares, os programas, e portanto as novas estruturas, os novos métodos etc., devem ser postos em ação, certamente; mas todo este trabalho embora preciso se resolveria praticamente em nada se faltasse a alma, pois repito-o ainda, somos chamados não a criar uma organização qualquer mesmo com o objetivo de bem, mas a renovar a vida espiritual e apostólica de almas consa- gradas na família de Dom Bosco; dos salesianos de hoje e de amanhã; e o que é preciso para este fim é antes de tudo a intensidade da vida interior.

Von Balthazar afirmou que, para curar, a crítica deve ser repassada de amor: “Todos os grandes santos, isto é, dotados de verdadeiro amor, foram reformadores. Mas nem todos os reformadores foram santos, e por isso alguns deles, destruíram mais do que construíram”.

Se na Congregação cuidarmos intensamente, como indivíduos e como comunidade, da vida interior, da oração, da união com Deus, do espírito de sacrifício, do amor ao próximo, do amor à Igreja e a Dom Bosco, então a nossa vitalidade religiosa resolverá eficazmente os problemas de adaptação que os novos tempos impuserem.

Adaptar-se é próprio dos organismos “vivos”; onde não há “verdadeira vida” não há verdadeira adaptação.

A nossa empresa tem necessidade de uma alma

Como se vê, em definitivo e no fundo, o problema que nós enfrentamos no Capítulo Especial é um problema essencialmente espiritual. Por isso, lembrados de que sem a intervenção de Deus, que é o verdadeiro “construtor da nossa casa”, trabalharemos em vão, intensifiquemos a nossa oração; não há meio mais eficaz para obter a presen- ça ativa do Senhor em todo o nosso afã para renovar o edifício da nossa amada Con- gregação.

Rezar, portanto! Vejo com satisfação que em muitas Inspetorias esta realidade está presente, e os irmãos estão sendo mobilizados para acompanhar os trabalhos do Capí- tulo Especial com uma oração viva, autenticada e enriquecida pela caridade e pelo sofrimento.

Rezar! Esta palavra neste nosso tempo parece às vezes estar fora de moda. Li com pesar o quanto refere um jornalista como conclusão de um seu amplo inquérito sobre a crise e as fermentações religiosas em vários países da Europa. Nota ele que mais de uma vez entretendo-se com Religiosos e sacerdotes, embora interessados intensamen- te nos problemas da renovação da Igreja, achou que causasse constrangimento falan- do de santidade, e que eles se sentiam pouco à vontade quando se levava a conversa para a oração.

Esta constatação que não queremos aceitar como um fato geral, tanto menos na nossa família, é, porém, para todos nós uma advertência, tanto mais que sobre isso é preciso ouvir na Igreja apelos bem mais autorizados que os de um jornalista.

Vejamos por exemplo, a palavra do Cardeal Garrone: “Em que ponto se encontra a oração na Igreja? Os que têm a responsabilidade de abastecer de água potável uma cidade, nunca perdem de vista as camadas profundas de onde surgem as fontes. Aque- les que sustentam o peso da Igreja ficam profundamente perturbados ao constatar, por tantos sinais, a decadência da oração em sacerdotes envolvidos pela ação, desabi- tuados da adoração eucarística, da oração, e até do breviário. O que será dos fiéis se os seus pastores são assim? O que esperar das pesquisas em curso, das novas estruturas, se a busca não se alimentou com a oração e não deu as desejadas soluções? As comu- nidades religiosas que procuram renovar-se devem estar certas de que os seus pro- blemas, que requerem o estudo de elementos de todos os gêneros, jamais poderão ser resolvidos se a atmosfera em que se desenvolve o seu trabalho não for a sobrenatural da fé, da oração e da caridade. A Igreja sente a necessidade de profetas que indiquem o caminho. Mas é mais necessário que sinta a necessidade da santidade. Ocorre olhar os modelos que no decorrer dos séculos recomendaram-se à sua confiança mais pela santidade que pelos empreendimentos exteriores. Então nada haverá a temer. Então não haverá o risco de conhecer o valor das pesquisas pacientes, das observações e dos estudos, mas não confundirá os instrumentos técnicos com as forças espirituais e, mais ou menos, o fim com os meios. Então, principalmente, estabelecendo-se permanen- temente na verdade, se atingirá uma nova esperança” (L’Osservatore Romano, 30 de março de 1969).

Caríssimos irmãos, convido-vos a meditar estas palavras, admoestadoras e ao mes- mo tempo iluminantes: servir-nos-ão para nos persuadir de que no contato filial com Deus encontraremos a soma de energias tão necessárias a uma empresa tão difícil e delicada como a nossa renovação. Tais energias, por si mesmas, jamais nos poderão ser dadas pelas técnicas e as ciências humanas, por todas as nossas louváveis perspicá- cias. A nossa renovação não é um simples problema de escrivaninha. A oração nos da- rá segurança e conforto nas dificuldades e nas dúvidas que se apresentarem ao roteiro que ainda temos que percorrer: a oração aumentará a nossa caridade (Deus é amor); apesar da variedade de atitudes far-nos-á concordes na busca sincera (Deus é verdade) de tudo o que possa verdadeiramente dar um renovado vigor à nossa dileta Mãe, a Congregação.

 

Unidos a Dom Bosco com o coração dos primeiros irmãos

Unidos na oração e na caridade sentir-nos-emos unidos ao redor do nosso Pai: to- dos, idosos e jovens, coadjutores e sacerdotes, homens de estudos e missionários, formadores e irmãos em formação nos reuniremos ao redor do nosso Pai com os mesmos sentimentos dos nossos primeiríssimos irmãos de há mais de um século, quando a Congregação estava no seu alvorecer.

Lembrais daquelas palavras? Soam como um juramento! “Cada um, no lugar em que estiver, mesmo que todos os nossos companheiros estivessem dispersos, se não existem senão dois, se houvesse apenas um, este se esforçará para promover esta pia Sociedade e observar, o quanto possível, as regras” (MB VI, 630). “Promover a nossa Congregação”, isto é, fazê-la progredir é a palavra que nos disse Paulo VI, mas progre- dir como quer a Igreja, como quereria Dom Bosco.

Pois bem, a decidida vontade daqueles que viveram o nascimento da Congregação seja também a nossa vontade.

Toca a nós a sorte de servir em certo sentido de artífices e colaboradores do renas- cimento da Congregação: a renovação no fundo tem esse significado.

Nesta ação vital em que todos temos o privilégio de ser chamados pela Igreja, le- vemos o sentido de entrega, de fidelidade e de amor a Dom Bosco que animava os nossos primeiros irmãos: o sucesso não poderá faltar.

A Virgem Auxiliadora, que guiou os passos do nosso Pai ao nascer e no progredir da Congregação, será também para nós e para o nosso trabalho Guia e Mestra.

Saúdo-vos com vivo afeto, rogo-vos que vos lembreis de mim todos os dias assim como de minhas intenções e necessidades. Eu vos tenho sempre presentes.

O Senhor vos abençoe e conforte.

Sac. Luis Ricceri
Reitor-Mor

 

SOLIDARIEDADE E FRATERNIDADE RELIGIOSA

A PREPARAÇÃO PARA O CAPÍTULO GERAL ESPECIAL

 Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 258

A verdadeira finalidade da carta. – A resposta ao apelo pela solidariedade. – Um episódio exemplar de solidariedade fraterna. – Um motivo de pesar. – Os valores da solidariedade. – A fraternidade religio- sa. – Uma contradição na prática da solidariedade. – As atuações da solidariedade são muitas. – Di- versidades desconcertantes. – Consequências práticas. – Como se realiza a solidariedade entre nós? – O “Boletim Salesiano”, veículo de solidariedade. – Perspectivas encorajadoras. – A preparação do Capítulo Geral Especial. – Duas “descobertas” dos Capítulos Inspetoriais. – Diálogo e estudo: exigên- cias do momento. – Um problema em aberto: o apostolado da escola. – A pastoralização da escola. – Os jovens pedem uma escola formativa. – Outro problema: o Oratório. – Em que ponto está a pastoral das vocações? – Por que o Capítulo Geral XIX ainda não é uma realidade. – Discutir, sim, mas sobretu- do realizar.

Turim, 1º de setembro de 1969

Caríssimos irmãos e filhos,

ao entreter-me convosco desejo abordar algumas questões que me parecem atuais e, ao mesmo tempo, úteis e interessantes para a nossa família.

A carta sobre a “nossa pobreza hoje” com o convite ao “scrutinium” e o apelo à “so- lidariedade fraterna” mereceram uma acolhida calorosa, diria entusiasta, em toda a Congregação. Confirmam-no as cartas de fervorosa adesão que chegaram de todas as partes, as informações fornecidas pelos Superiores Regionais e especialmente as reali- zações concretas já postas em prática em numerosas Inspetorias, como se pode notar pelas relações pormenorizadas que tenho recebido juntamente com notáveis quantias destinadas às Obras por mim indicadas como particularmente carentes da vossa ajuda fraterna.

Em outra parte dos “Atos” encontrareis o primeiro elenco das quantias recebidas e a sua distribuição.

 

A verdadeira finalidade da carta

Mas não era essa a finalidade essencial e primária da carta sobre a pobreza: as pre- ocupações e as instâncias que a animavam são mais vastas e profundas.

E posso assegurar-vos que muitas Inspetorias e comunidades demonstraram ter compreendido plenamente. Tenho sobre a minha mesa as relações pormenorizadas do “scrutinium paupertatis” realizado em cada uma das comunidades de algumas Inspeto- rias devidamente sensibilizadas, e o “scrutinium” também de vários Conselhos Inspeto- riais.

Com as constatações sinceras e corajosas, há também deliberações não menos co- rajosas que interessam os mais diversos setores da nossa pobreza e da nossa vida reli- giosa.

Somente a título de exemplo desejo citar a Inspetoria de Santo Estanislau da Polô- nia.

Todos nós sabemos em que condições vivem aqueles irmãos. Pois bem, numa as- sembleia adrede realizada, superiores e irmãos decidiram em espírito de caridosa con- vivência e compreensão vir ao encontro concretamente, através do Inspetor, às casas necessitadas nos momentos difíceis, “sobretudo em casos de doença, de falta de mei- os materiais para a vida ordinária, nos casos de graves desventuras, ao iniciar uma ação pastoral”.

Mas, quantos outros exemplos poderia citar!

Numa Inspetoria tomou-se consciência que se descuida o Oratório, tanto no que se refere ao pessoal como ao seu equipamento; em outra se reconhece que o nível socio- econômico das nossas obras no seu conjunto deve refletir corajosamente a nossa pe- culiar vocação popular.

Por outro lado, observa-se que construções e despesas mesmo urgentes não são previamente estudadas e aprovadas pelos Conselhos competentes, ou que certos bens imóveis não necessários à atividade das obras devem ser alienados.

Numa outra se estabelece que as iniciativas de trabalhos nas diversas casas serão realizadas de acordo com uma ordem de prioridade reconhecida pelo Conselho Inspe- torial.

Em outra comunidade toma-se o propósito de informar regularmente os irmãos acerca da situação econômico-financeira.

E, enfim, em outra Inspetoria foi enfrentado o problema da qualificação dos irmãos de acordo com um plano orgânico e financeiro sugerido pela experiência destes anos, resultando num plano que começará a ser atuado no próximo ano.

Numa Inspetoria se reconhece que se deve cuidar mais das casas de formação tanto na parte econômica como no seu aparelhamento.

Como vedes, mesmo só através desta pequena amostragem de exemplos, a carta sobre a pobreza despertou úteis tomadas de consciência que certamente hão de ter um desenvolvimento fecundo.

 

A resposta ao apelo à solidariedade

Mas há outro aspecto que devo colocar em evidência.

Falo das “reações” positivas da Congregação ao meu convite à “solidariedade fra- terna”, convite unido ao “scrutinium paupertatis”.

Não quero privar-vos da alegria de conhecer, entre tantos, ao menos alguns dos gestos mais significativos que alegram e dão confiança no clima não sempre animador que hoje se vive.

É-me particularmente agradável fazer notar que de tantas iniciativas de “caridade fraterna”, os protagonistas muitas vezes são irmãos jovens ou obras e comunidades muito pobres. Escolherei a fina-flor.

Os alunos de um nosso Estudantado Teológico quiseram renunciar à excursão anual para destinar a quantia poupada “à Casa Salesiana que o Reitor-Mor achar mais opor- tuno”.

E eis com que sentimentos uma casa de formação da Índia, muito pobre, quis acompanhar a sua pequena oferta: “Recebemos tanta coisa e muitas vezes de pessoas que possuem menos do que nós; é, pois, mais do que conveniente que também nós nos sintamos mobilizados nesta ‘operação de fraternidade’. A nossa contribuição é também um sinal de reconhecimento à Divina Providência que nos fornece não só os meios materiais, mas boas vocações antes de tudo; de fato, proximamente 31 noviços farão a profissão religiosa”.

Também de outras casas de formação tenho recebido ofertas, fruto de sacrifícios pessoais, com expressões que confirmam claramente como o dever e a alegria da soli- dariedade fraterna são sentidos pelas novas gerações.

Escutai agora o que escreve o diretor de um orfanato que abriga centenas de jovens aprendizes e vive da caridade cotidiana dos benfeitores. “Um nosso grande benfeitor quis dar-me um presente para ‘meninos particularmente necessitados’. Pensei então em dividir pelo meio em favor das missões mais pobres. O senhor disponha como achar melhor”.

Na América Latina, o diretor de um oratório pobre envia uma oferta modesta para outro oratório mais pobre e a faz acompanhar com estas palavras: “Acredito ser meu dever cooperar com um grão de areia para as necessidades urgentes de um oratório extremamente pobre; faço-o de todo coração lembrando que eu também tive durante muitos anos um oratório sem abrigo, sem igreja, somente com um pátio... faço-o para externar a minha amizade fraterna em favor da obra do oratório aberto a centenas e centenas de meninos pobres, mas que nem sempre recebe a ajuda necessária seja economicamente como de pessoal”.

Ainda na América Latina. Duas Inspetorias daqueles Países assumiram o compro- misso de sustentar as despesas dos estudantes de teologia de algumas Inspetorias do mesmo Continente que se encontram em dificuldades econômicas.

Outro gesto que me deixou imensamente comovido vem de além-cortina. Um da- queles caríssimos irmãos obrigados a viver em diáspora e em extrema pobreza, tendo tomado conhecimento não sei de que modo do meu apelo à solidariedade, escreve que não possui nada para ajudar de alguma maneira, mas toma empenho de celebrar todos os meses dez Santas Missas na intenção do Reitor-Mor. Respondi-lhe que não podia fazer oferta mais grata e rica.

Poderia continuar a escolher flores e flores entre tantas que até agora chegaram, mas devo limitar-me a sublinhar ainda que em toda essa floração de caridade fraterna verifica-se um fato consolador e admoestador para todos nós. Ei-lo.

Como já fazia notar acima, os irmãos que vivem na pobreza autêntica demonstram uma sensibilidade pronta e generosa ao apelo da necessidade dos irmãos: são eles que, longe de recorrer a cômodos álibis para eximir-se da ajuda fraterna, estão pron- tos, e não com muitas palavras, a “compartilhar” o pão, no sentido mais pleno da pala- vra, a dividir pelo meio não aquilo que sobra, mas também o necessário para viver, pensando que outros irmãos talvez tenham ainda mais necessidade.

 

Um episódio exemplar de solidariedade fraterna

Acho que cometeria uma injustiça contra vós não citando um episódio comovente e exemplar que nos vem da Índia. Não se trata de auxílios econômicos ou materiais: tra- ta-se de uma ajuda muito mais preciosa prestada num momento dramático pela Inspe- toria de Madras à Inspetoria de Guwahati.

Talvez nem todos na Congregação tenham conhecimento do momento extrema- mente crítico que atravessam as nossas Missões naquele imenso país, e propriamente no Assam.

As autoridades afastaram daquela Região os Missionários estrangeiros que até en- tão constituíam o núcleo principal. Diante de tal situação que ameaça aniquilar tantos anos de heroicos trabalhos dos nossos generosos irmãos, fiz apelo à solidariedade da Inspetoria de Madras. E eis a resposta imediata. Onze irmãos indianos já se encontram no Assam para suprir as graves lacunas deixadas pelos missionários expulsos. É supér- fluo dizer que a resposta não foi sem sacrifício da Inspetoria. Este é um gesto digno de ser conhecido por toda a Congregação. O Inspetor que soube vir ao encontro de ir- mãos necessitados sem entrincheirar-se atrás de fáceis considerações sobre a escassez de pessoal, os irmãos que numerosos se ofereceram para substituir a quem foi obriga- do a abandonar o campo do seu apostolado, dão a todos nós um exemplo luminoso de interpretação concreta da “solidariedade fraterna” que não podemos deixar cair.

 

Um motivo de pesar

A este respeito, permiti que vos exprima, com paterna sinceridade, um certo pesar. Confesso que diante da resposta fervorosa, pronta  e generosa  de  muitas  comuni-

dades, tanto inspetoriais  como  locais,  à  carta  sobre  “a  pobreza hoje”, não sei como

explicar o silêncio de algumas Inspetorias, das quais até agora não chegou nenhuma notícia de como foram postas em prática as instruções claras e precisas que tracei. Não posso acreditar que seja desinteresse em tornar operante e frutífera a carta.

Ela de fato tinha em vista suscitar na Congregação uma corajosa e profunda tomada de consciência num setor da vida religiosa e salesiana que hoje representa um centro de interesse e ao mesmo tempo um teste da verdadeira renovação.

Muitas vezes ouço dizer que é desejo que o Centro da Congregação seja não apenas semáforo, mas centro propulsor e animador. O desejo é mais do que plausível. A carta sobre a Pobreza pretendia exatamente responder a essa instância.

Mas está claro que toda animação visa... não cair no vazio, isto é, supõe que se res- ponda eficazmente, não só com palavras de apreço, mas especialmente com fatos. São eles que têm valor e são eles exatamente a finalidade última de toda animação.

Quero crer que as preocupações urgentes e prioritárias do Capítulo Inspetorial Es- pecial tenham até agora impedido ou diminuído a marcha em algumas inspetorias de todo o trabalho sugerido a respeito da Pobreza. Seria um sinal triste e diria preocupan- te se até mesmo uma só inspetoria ficasse insensível diante das múltiplas advertências sobre a pobreza e, como consequência natural, sobre a solidariedade. Tenho plena confiança de que em breve todas as Inspetorias me darão a alegria de uma resposta exaustiva e concreta.

São inumeráveis e diversíssimas as implicações e as incidências que a Pobreza tem em toda a nossa vida, e em seus setores vitais (basta ler com um pouco de atenção o “scrutinium”!). Por isso, seja qual for a situação peculiar de uma Inspetoria ou comuni- dade, há sempre matéria mais do que abundante para exame, correção, melhoras, propósitos.

 

Valores da solidariedade

Limitando-me agora ao aspecto da solidariedade, quisera convidar-vos a descobrir comigo quais preciosos valores de coerência, de caridade fraterna e de renovação ela contém.

Talvez alguém não tenha tido tempo de refletir sobre o significado profundo dessa solidariedade, ou a tenha considerado, digamos assim, com uma visão... estritamente utilitária, como um certo expediente de conseguir... um pouco de dinheiro para algu- ma casa pobre.

Dir-vos-ei, aliás, que fiquei decepcionado e perplexo diante dos que pensaram res- ponder ao apelo para a solidariedade mandando uma oferta retirada de qualquer ma- neira da caixa comum, ou conseguida através de ofertas dos meninos, benfeitores etc.

Não, meus queridos filhos, a solidariedade de que falamos é algo de mais profundo e muito mais importante. Cada vez que reflito me convenço sempre mais que para a nossa Congregação, como para a Igreja, ela tem, neste momento, uma importância vital. Vai muito além do fato econômico e da simples ajuda, por mais generosa que seja, para as obras pobres. Bem compreendida e praticada, envolve, informa e incre- menta toda a nossa vida religiosa, não só no setor da pobreza, mas sobretudo no setor bem mais importante da caridade evangélica, eclesial e salesiana.

É justamente isto que desejo explicitar brevemente: o significado da solidariedade. Vamos partir de duas considerações cujos termos parecem contraditórios.

 

A fraternidade religiosa

A vida religiosa é antes de tudo COMUNHÃO fraterna. É Koinonia e fraternidade.

Como Koinonia mergulha suas raízes na agapé de Deus, no amor trinitário que se derrama sobre o mundo e que, segundo a forte expressão de São Paulo, faz todo cora- ção gritar: Abba, isto é, Pai.

Como fraternidade é, por assim dizer, a expressão plástica do amor unitivo de Deus, que entra no mundo para santificar a tendência à união conatural à natureza humana, porque social.

Mas a fraternidade, como elemento visível a todos (“vede como se amam”), é sa- cramento, isto é, sinal por meio do qual se revela ao mundo a presença de Cristo (“on- de se encontram dois ou mais reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles” (Mt 18,20). “Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”  (Jo 13,35).

Pois bem, como a vocação religiosa não se explica se não tem na raiz um grande amor, o amor de Cristo que chama e se torna exclusivo, assim a vida religiosa, como vida vivida, não teria sentido se não fosse a manifestação em ato, evidente, deste amor, que, germinando no coração de cada um dos religiosos, faz deles outros tantos irmãos. É o que se lê num trecho da Perfectae Caritatis, quase atirado sem particular relevo, mas que é uma joia encastoada: “A união entre irmãos chega mesmo a mani- festar o advento de Cristo (cf. Jo 13,35; 17,21) e dela emana uma grande força apostó- lica” (PC 15). E antes: “... pelo amor de Deus difundido em seus corações graças ao Espírito Santo (Rm 5,5), a comunidade, como verdadeira família reunida em nome do Senhor, alegra-se com sua presença (cf. Mt 18, 20)” (PC 15).

São evidentes as consequências que derivam para a nossa vida destas realidades sobrenaturais: é verdade, porém, que é mister vivê-las com fé profunda, caso contrário permanecem inoperantes e ineficazes, como nos prova, infelizmente uma certa expe- riência.

Uma segunda consideração.

Na vida religiosa, os valores próprios da consagração batismal, passando por cima dos obstáculos que encontrariam num contexto de vida puramente humana e mergu- lhada no mundo, podem expandir-se e aparecer com toda a sua pujança. Eis porque a vida religiosa vivida com coerência leva quase necessariamente à Koinonia e à frater- nidade. A alma da vida religiosa é o Espírito Santo, o mesmo que foi dado no batismo, e que estimula todo religioso a viver com plenitude o ato da salvação. Pois bem, visto que este ato de salvação consiste na reconciliação de todos, na caridade, com o Pai e entre si, eis que a comunidade deve ser um encontro de amor evangélico sempre cres- cente. Poderíamos dizer que a comunidade é quase a cópia em miniatura, mas perfei- ta, ao mistério da grande família de Deus que é a Igreja.

  1. Galot (Il carisma della vita consacrata, p. 123-124) sintetiza muito bem as nossas considerações: “Os membros de cada comunidade religiosa, nascida sobre a base de uma consagração comum ao Senhor, estão ligados por um vínculo sobrenatural: o vín- culo da caridade; eles demonstram que uma sociedade cuja origem não são os laços de parentesco, raça, mentalidade, interesses, é capaz de levar a viverem juntos seres hu- manos sem que eles, para permanecerem unidos, tenham necessidade de laços natu- rais. Cada comunidade religiosa assim constrói a Igreja na sua caridade, e na caridade comunitária a Igreja realiza melhor o ideal de unidade”.

Essas considerações de teologia da vida religiosa, que poderiam parecer um tanto abstratas, tendem a colocar bem no centro, a pôr em evidência a importância funda- mental e primária da caridade fraterna na vida religiosa. Não podemos nos enganar: a caridade fraterna é um valor primário, essencial, que não pode ser ignorado ou des- cuidado sem afetar a mesma essência da vida religiosa, e a sua importância é tão enorme e tão profunda que não pode, sem deformações, reduzir-se a uma diplomacia estudada, a uma convivência formalmente gentil, à simpática camaradagem ou a qual- quer colaboração ainda que válida.

Duas observações ainda: A fraternidade religiosa não passa através da carne e do sangue, mas é dom de Deus... Isso significa que é mais profunda, é muito mais exten- sa... Não pode amesquinhar-se, pois, em farisaísmo disfarçado que escolhe os seus “próximos”... que forma a “sua comunidade” de acordo com os caracteres congênitos, com afinidades de ideias e de caráter, etc.

A fraternidade religiosa deve ser evidente, isto é, deve aparecer a todos, saltar aos olhos, porque é testemunha do Senhor (cf. 1Jo 4, 14-12). Dom Bosco diria que ao nos- so próximo não só devemos amar, mas demonstrar-lhe que o amamos. Quantas con- sequências práticas se podem deduzir dessas considerações!

 

Uma contradição na prática da solidariedade

Numa forma antitética com esta primeira consideração teológica se apresenta um dado de fato: a “diversidade” existente entre os religiosos da mesma Congregação, entre as casas da mesma província, entre diversas províncias. Diversidade na alimenta- ção, na moradia, no nível de vida, no volume e no tipo de trabalho...

É evidente que não se pode pretender uma uniformidade rígida, um nivelamento absoluto. Seria impossível e ridículo. Mas mesmo admitindo diversidades decorrentes de situações geográficas, sociais, étnicas, ambientais, ou então consequentes de tem- peramentos, saúde, situações especiais, existe sempre um limite para a diversidade.

Ora, é um fato que na Congregação, além desse limite, existem diversidade muitas vezes chocantes em não poucos setores.

Um exemplo. Os salesianos, que vivem e trabalham nos países chamados industri- ais, muitas vezes possuem um nível de vida muito elevado, poder-se-ia dizer bur- guês..., enquanto que os que trabalham nos países subdesenvolvidos muitas vezes não têm o suficiente para viver.

O mesmo podemos dizer das obras. Enquanto em alguns países as obras estão bem aparelhadas e dispõem de todas as possibilidades para proporcionar formação acurada aos jovens salesianos, em outros países ao contrário se luta privando-se muitas vezes do necessário, para chegar a construir uma miserável escolinha; e muitas vezes por falta de meios não se pode prover à necessária e suficiente formação e qualificação dos jovens salesianos.

 

As atuações da solidariedade são muitas

Mas essas diversidades não se limitam somente aos bens materiais. Dir-se-ia, mui- tas vezes, que é mais chocante em referência ao pessoal...

O meu apelo aos voluntários para a América Latina responde exatamente a esta si- tuação.

A esse propósito, abrindo um parêntese, tenho a grata satisfação de dizer-vos que também neste ano partirá um grupo de irmãos para aqueles países depois de um perí- odo de preparação. Mas devo também dizer-vos que o número é muito pequeno: e os pedidos são cada vez mais dramáticos. Devemos conseguir saldar os cinco anos iniciais com remessas notáveis de maneira que se estabeleça num certo momento o fluxo e refluxo dos Voluntários que vão e voltam depois de cinco anos. Mas precisa-se de ge- nerosidade e senso de solidariedade de cada Inspetoria.

Devo dizer-vos, e o faço por gratidão e admiração, que não poucas Inspetorias de- monstram esse senso de solidariedade e, mais ainda, a responsabilidade missionária, com uma generosidade comovedora, tanto mais digna de apreço quando se trata mui- tas vezes de Inspetorias que lutam com sérias dificuldades de pessoal.

Essa atitude corresponde antes de tudo à nossa mais genuína tradição. Dom Bosco, mesmo com a escassez de pessoal muito mais grave do que aquela que hoje passam certas Inspetorias, enviou pessoal às missões com uma prodigalidade que teria des- concertado a quem não tivesse a sua fé ardente e o seu desejo não menos ardente de almas. E essa tradição foi sempre mantida viva e em certos momentos ainda intensifi- cada pelos seus sucessores.

Também a Igreja do Concílio nos dirige um apelo explícito e enérgico para que não deixemos apagar entre nós o espírito missionário.

O Perfectae Caritatis diz textualmente: “De toda forma se conserve o espírito missi- onário nos Institutos Religiosos e conforme a índole própria de cada um se adapte às condições hodiernas, de forma que a pregação do Evangelho entre todos os povos se realize de maneira mais eficiente” (PC 20).

Como vedes, caríssimos Inspetores, Diretores, Irmãos, temos todos, cada um de acordo com as suas responsabilidades, muitos e tão graves motivos para alimentar a chama missionária nas nossas comunidades.

Sei que há irmãos prontos e desejosos. Devemos fazer com que todo esse fervor missionário não se esvazie nem se inutilize. Bloqueando de qualquer maneira essas vocações, que acabam por se frustrar, a vantagem é sempre muito discutível. Ao con- trário, uma Inspetoria, como a experiência o demonstra, sai sempre ganhando com a sua generosidade missionária.

 

Diversidades desconcertantes

Mas voltemos ao argumento mais amplo da solidariedade fraterna que se choca contra a diversidade. Por que essa dúplice “diversidade”? Como a podemos justificar entre irmãos? O “Perfectae Caritatis”, e bem vos lembrais, fala claramente a esse res- peito: “As províncias e as casas dos institutos devem pôr em comum umas com as ou- tras os bens temporais, de forma que aquelas que mais possuem ajudem as que pade- cem necessidade” (PC 13).

Ir. Jeanne d'Arc OP, comentando este trecho do Perfectae Caritatis (L’adaptation et la rénovation de la vie religieuse, in “Vatican II” Ed. Du Cerf, 1968), a propósito dessas chocantes diferenças tem palavras de indignação que em parte já referi na carta sobre a pobreza. Ela diz: “aqueles que fazem profissão de tender incessantemente à plenitu- de do amor, e devem levar ao mundo a imagem mesma de uma comunidade de ir- mãos, por quais regras jurídicas puderam ser aprisionados, por quais leis de contabili- dade puderam ser amarrados para que muitas vezes esse intercâmbio tão simples não lhes venha à mente...?”

A Irmã lamenta, pois, que tenha sido necessário celebrar-se um Concílio para dizer aquilo que é, em toda família realmente cristã, um gesto que se diria espontâneo: o de repartir com os irmãos aquilo que se possui...

Caríssimos irmãos, a solidariedade, sobre a qual estou insistindo tanto na linha do Perfectae Caritatis, tende, se não a fazer diminuir aquilo que Jeanne d'Arc chama es- candalosa diversidade, mas afunda suas raízes não somente na necessidade de praticar uma pobreza mais evangélica, mas sobretudo no estimulante imperativo da caridade segundo as palavras de São Paulo: “Levai uns os pesos dos outros”.

 

Consequências práticas

As consequências práticas dessas duas “verdades”, não será difícil a cada irmão, a cada comunidade deduzir. Somente alguma pista.

Solidariedade como exigência da pobreza. É um convite a nos privarmos de tan- tas coisas supérfluas e pratiquemos uma vida mais autenticamente pobre — e por que não? — mais austera; é um convite àquela renúncia que, digamo-lo claro, hoje não parece despertar excessivos entusiasmos em não poucos religiosos que discutem tanto sobre a Igreja dos pobres. Entretanto, olhando bem, se há uma contestação especial- mente por parte de jovens irmãos, muitas vezes provém da constatação que em mui- tas comunidades o teor de vida não é certamente de renúncia. Ao contrário, devemos reconhecer que não foi nunca a vida cômoda que tornou os religiosos mais santos e mais apostólicos.

  • Solidariedade como exigência da verdadeira fraternidade. Parto de uma conside- ração. Hoje a sociedade humana partindo, talvez inconscientemente, de instâncias profundamente cristãs está totalmente voltada para um senso de solidariedade entre todos os

O Concílio coloca esse sentido “entre os sinais do nosso tempo” e o define “crescen- te e irrefreável” (AA 14).

Paulo VI, nas pegadas do Papa João, é o cavaleiro dessa santa cruzada: Todos po- demos notá-lo, mesmo quando esse movimento muitas vezes é bloqueado e obstaculi- zado por fenômenos de egoísmo violento que explodem e se aninham em certos seto- res sociais e em diversas partes do mundo. Mas fica sempre o fato evidente que a hu- manidade percebe a necessidade incontestável e as vantagens enormes de uma solida- riedade entre as classes, os povos, as raças e as nações.

  • Solidariedade significa dar e receber. A solidariedade supõe sempre dar e rece- ber, segundo a palavra do Evangelho: “Date et dabitur” (Lc 6,38). Não só a lei da soli- dariedade importa que exatamente em vista de um bem maior de interesse mais am- plo, geral e prioritário, cada um — entidade ou pessoa, não importa — renuncie a de- terminados interesses

Está claro que não se pode invocar a solidariedade somente para exigir ajuda quan- do nos encontramos necessitados, fechando a porta quando a ela batem irmãos que por sua vez necessitam da nossa ajuda. Solidariedade, pois, não em sentido único, só para receber, mas — no momento oportuno — também para dar.

Como tive oportunidade de dizer em outra ocasião, as Inspetorias, e antes ainda, as Casas, mesmo dentro de uma razoável autonomia, não devem cultivar um isolamento egoísta, não são compartimentos fechados, mas vasos comunicantes.

 

Como se realiza a solidariedade entre nós?

Na Igreja já está em ato um movimento para levar à prática as grandes orientações do Concílio a propósito daquela solidariedade que afunda suas raízes na essência mesma do cristianismo e na natureza da Igreja.

Nesta linha vemos como também entre as famílias religiosas se desenvolve e toma forma sempre mais concreta o princípio da solidariedade. Em cada País cada um pode constatar progressos neste setor: iniciativas que anos atrás pareciam impossíveis hoje são uma realidade. Sirvam de exemplo os “consortium” para os estudos teológicos e filosóficos que vão aparecendo um pouco em toda a parte; e nós, onde é possível, es- tamos dando a nossa contribuição muitas vezes também assaz notável para a realização dessas iniciativas que correspondem — de uma ou outra maneira — às diretrizes do Concílio e da Igreja.

Ora, diante de toda essa floração de atividades sob o sinal da solidariedade, surge espontânea uma pergunta: “No âmbito da nossa família, para os irmãos que são o pri- meiro próximo designado a nós pela Providência e por nós escolhidos quando abraça- mos a vocação salesiana, como sentimos e como atuamos esse princípio?”

Dir-vos-ei que pude manusear os estudos feitos por uma grande Ordem Religiosa exatamente para atuar alguns princípios de solidariedade entre as numerosas Provín- cias, princípios que abordam pontos os mais diferentes. Deve-se notar que a tradição da ordem até agora era que cada Província tivesse uma vida a sé, quase sem nenhuma relação com as outras; hoje as mesmas Províncias sentem a necessidade de uma cola- boração e de um intercâmbio nos campos mais diversos, no interesse de todas e — alguém pode até dizer — para a sobrevivência. Este é um fato que nos deve fazer pen- sar.

Se olhamos, não superficialmente, as nossas origens, de acordo com a advertência do Perfectae Caritatis, damo-nos conta imediatamente que também o nosso Pai consi- derou como valor a não descuidar o “intercâmbio dos bens” na Congregação: a solida- riedade. Entre as obras dos primeiros tempos — Oratório, Mirabello, Lanzo, Alassio, etc. — havia um verdadeiro e incessante intercâmbio, de homens, de meios, etc.; po- der-se-ia dizer que tudo era em comum.

É verdade que as situações foram evoluindo com o andar dos tempos, mas fica de pé o fato que também o espírito das nossas origens nos leva a desenvolver esta frater- na osmose: não precisamos criar nada ex novo, como pode acontecer a outros religio- sos: para nós basta reportar-nos às origens.

 

“Boletim salesiano” veículo de solidariedade

Olhando ainda o nosso tema em nosso ambiente salesiano devemos dizer que Dom Bosco teve a esse respeito uma intuição muito feliz criando o Boletim Salesiano. A fisi- onomia que ele quis dar-lhe, como se deduz de repetidas declarações suas, responde à preocupação de unir os Salesianos através da informação sobre as obras e atividades que a Congregação desenvolve no mundo. Sucessos e insucessos, iniciativas e necessi- dades, o Boletim, no pensamento de Dom Bosco, traz ao nosso conhecimento toda a vida da Congregação em suas alternativas de alegrias e sofrimentos, de triunfos e pro- vações. E está claro que do conhecimento vem o interesse, o amor pelos irmãos dis- tantes que operam com os mesmos ideais, no mesmo espírito, amor e interesse que desembocam também na ajuda dada de mil maneiras.

Compreende-se então como a leitura do Boletim Salesiano sirva “para favorecer a caridade fraterna” dos Salesianos (Const. 14), e se percebe que vínculo de unidade se elimina na Congregação quando o Boletim não é lido, ou então se reduz a um periódi- co de interesse meramente local, ou que trata de assuntos totalmente estranhos aos objetivos colimados por Dom Bosco.

Dir-vos-ei que a “ideia” de Dom Bosco despertou o interesse de vários Institutos Re- ligiosos que procuram informações sobre muitos pontos.

Gostaria de aproveitar desta ocasião para fazer uma viva recomendação aos Inspe- tores e Redatores. Seja cuidado com seriedade e dignidade o Boletim, dando-lhe uma roupagem e um enfoque sadiamente modernos, evitando vulgaridades e triunfalismos contraproducentes, mas não se reduza a uma publicação que ignore a dimensão uni- versal da Congregação, nem se transforme num periódico carregado de artigos que tanto pelo conteúdo como pelo estilo se afastam dos objetivos que Dom Bosco quis atribuir ao periódico que lhe era tão caro.

 

Perspectivas animadoras

Caríssimos irmãos, com base nessas considerações não é otimismo irreal afirmar que se podem resolver com relativa facilidade tantos problemas que angustiam cada casa, as Inspetorias, a Congregação.

Pensemos um momento quais são e como podem ser utilmente travadas as rela- ções entre Colégio e Paróquia, Oratório e Escola, Internato e Externato, Centro Inspe- torial e Casas, e entre as Inspetorias, para pregação, ensino, serviços e atendimentos especiais.

Na verdade, já estamos enveredados por esse caminho e já se estão dando passos nas comunidades locais e nas Inspetorias; muitas iniciativas embora não perfeitas são promessas animadoras para uma solidariedade mais consciente e ampla, concreta e sistemática. Compreendo as dificuldades, mas elas não nos devem deter; no máximo poderão exigir-nos maior empenho para superá-las. Sobre isso, mais do que outra coi- sa, é necessário que formemos uma mentalidade renovada, saindo de mesquinhos pontos de vista de interesses imediatos e particulares, dignos, permiti que o diga, de estreitos egoísmos e individualismos, para abrir-nos a visões mais amplas que enquan- to correspondem ao espírito que anima e permeia hoje toda a Igreja e a mesma vida religiosa, resultarão em vantagem definitiva para todos.

Como vedes, o tema da solidariedade, que busca a sua primeira origem na nossa consagração e da nossa consequente vida, ligada pelo vínculo da fraternidade sobrena- tural, abrange implicações não imaginariamente vastas e de natureza não somente material e econômica. Convido-vos a aprofundar o assunto fazendo-o objeto de con- versações e conferências nas vossas comunidades; estou convencido de que todos tirarão não pequena vantagem, especialmente se depois de ter focalizado as ideias básicas, houver a preocupação de chegar a conclusões concretas.

Passemos ao segundo assunto.

 

A preparação do Capítulo Geral Especial

Foi concluída dias atrás em Roma a primeira fase do “iter” para o Capítulo Geral Es- pecial. As comissões pré-capitulares, reunidas em S. Tarcísio, trabalharam com admirá- vel dedicação durante quase dois meses sobre todo o rico material elaborado pelos Capítulos Inspetoriais.

Em outro lugar dos Atos encontrareis informações mais detalhadas sobre o trabalho realizado e podereis apreciá-lo quando puderdes ter uma visão dele.

Eu aqui desejo pôr em evidência como os irmãos chamados a Roma — sacerdotes, coadjutores, clérigos — procedentes de todos os continentes, exatamente de 22 Na- ções, souberam criar um clima exemplar de família salesiana que contribuiu não pouco para tornar mais leve a grande empreitada e facilitar o diálogo feito de respeito cordial e compreensão, muito necessários numa atividade tão delicada e complexa.

A esses caríssimos irmãos quis exprimir pessoalmente, também em vosso nome, o reconhecimento pelo inteligente e generoso serviço prestado à Congregação com amor filial. Ao renovar através destas páginas o meu agradecimento desejo estendê-lo às Inspetorias que, a custo de sacrifícios, enviaram esses irmãos a Roma.

Mas também a vós tenho o prazer de exprimir o merecido louvor e o meu profundo reconhecimento, em nome de toda a Congregação pelo empenho e a serenidade com que foi enfrentado e realizado o importantíssimo trabalho dos Capítulos Inspetoriais.

Soube com grande satisfação que em todos os lugares foram preparados cuidado- samente e que as fases de “sensibilização” e “estudo” empenharam a fundo as forças vivas da Inspetoria. De acordo com o convite que vos fiz, esse trabalho teve a priorida- de absoluta sobre qualquer outro. Não se pouparam sacrifícios nem econômicos nem de pessoal em vista da preparação e o feliz êxito desta primeira fase do “iter”. Posso medir o valor dessa generosa correspondência, desde que conheço bem a dolorosa escassez de pessoal de algumas Inspetorias e o enorme trabalho apostólico a que se devem obrigar.

 

Duas “descobertas” dos capítulos inspetoriais

Não quero deixar passar a ocasião de fazer convosco alguma reflexão sobre esse acontecimento que polariza o interesse da Congregação. As notícias que vós mesmos deram me oferecem matéria para isso.

Um sentimento quase geral, como resulta das vossas cartas e dos comentários reco- lhidos, é que os Capítulos Inspetoriais serviram para fazer importantes “descobertas”.

A primeira dessas “descobertas” é das pessoas. No Capítulo Inspetorial — segreda- va-me um valoroso velho missionário — descobri os jovens: “Eu os vi culturalmente mais preparados do que nós, amantes também eles da Congregação. É verdade, fala- vam uma linguagem diferente, davam uma impressão que traziam... a “revolução”, mas penso que era necessário um pouco da sua inquietude, do seu ardor, ainda que às vezes intemperante, para movei as águas!”.

“Eu — escrevia um jovem sacerdote, delegado da sua Inspetoria ao Capítulo Inspe- torial — fiquei impressionado ao ver certos sacerdotes idosos tão dispostos a dialogar conosco, tão abertos, mas ao mesmo tempo tão preocupados com o porvir da Congre- gação”.

“Compreendi que a experiência tem muitas coisas verdadeiramente preciosas, que não se aprendem em nenhum livro”, dizia outro. E assim tantos outros comentários nessa linha de descobertas e compreensão.

Ninguém se admira pois — o que é evidenciado com satisfação por todos — que os Capítulos Inspetorias se tenham realizado num clima de caridade fraterna, de respeito- sa compreensão. Discutiu-se com vivacidade e clareza, com absoluta liberdade de ex- pressão. Houve naturalmente diversidade de opiniões, às vezes se defrontaram menta- lidades diversas, em determinados momentos chegou-se até a “tensões”, mas fora da sala capitular reinou um clima de sinceridade, de serena fraternidade, que se pode considerar um primeiro fruto palpável dessas reuniões.

A segunda “descoberta” dir-se-ia uma brincadeira de gosto discutível, se não fosse uma realidade. “Descobrimos — foi afirmado em diversos Capítulos Inspetoriais — o XIX Capítulo Geral”.

Naturalmente a afirmação não deve ser tomada ao pé da letra. Seria muito doloro- so que à distância de quatro anos do XIX Capítulo Geral, em que pese todo esforço feito para conhecer na Congregação as riquezas contidas naqueles “Atos”, houvesse salesianos que ainda não tivessem tomado contato com a rica doutrina nele contida e com as deliberações nele emanadas. Falando de descoberta se quis notar, a meu ver, que um estudo aprofundado como aquele, obrigado pela preparação dos Capítulos Inspetoriais, a elaboração dos documentos e a discussão dos mesmos, fez constatar a autêntica e vasta riqueza nele contida.

Mas penso que a “descoberta” do XIX Capítulo Geral, através de uma análise séria, um confronto corajoso com a realidade da vida Salesiana como é vivida nas diversas Inspetorias fez ver claramente quanto caminho ainda falta para realizar aquilo que o Capítulo Geral já então pedia. Devemos pois reconhecer sinceramente que muitas de- liberações do XIX Capítulo Geral representam metas ainda não alcançadas e são metas sempre válidas, às quais devemos tender.

 

Diálogo e Estudo: exigências do momento

As duas “descobertas” nos oferecem o ensejo para alguma reflexão útil. A “desco- berta das pessoas” — que significa o mútuo apreço e aceitação entre jovens e anciãos, que se sentem unidos no comum amor à Congregação — lembra-nos uma verdade não nova, mas infelizmente sempre atual, isto é, que nas nossas atitudes para com as pes- soas muitas vezes nos deixamos levar por preconceitos. Como a mesma palavra diz, deu-se um julgamento ainda antes (preconceito) do contato, antes do conhecimento, um conceito pré-fabricado e — naturalmente — infundado e quase sempre injusto e nocivo. Com essa atitude coloca-se entre nós um diafragma que impede um desapai- xonado confronto de ideias.

Remédio para esse maléfico diafragma, para esses preconceitos, para essas ideias preconcebidas é o diálogo, diálogo sincero, sereno, objetivo, aberto, com a única preo- cupação de conhecer e descobrir os valores do meu interlocutor.

Todo encontro fraterno realizado, não com a intenção, ainda que menos conscien- te, de impor as próprias ideias, mas para encontrar a verdade, traz sempre consigo uma aproximação das pessoas. E isso constitui, de um modo especial neste momento, a grande necessidade da Congregação, enquanto é o caminho obrigatório para cons- truir verdadeiras comunidades evangélicas, de fé, de culto, de amor, que possam tes- temunhar existencialmente a presença de Cristo entre nós, e, de modo mais concreto, unir todas as forças de que dispõe a Congregação, para a renovação — verdadeira e fecunda — que é o objetivo primário do próximo Capítulo Geral Especial.

“A descoberta do XIX Capítulo Geral”, e podemos acrescentar sem medo de errar, do Concílio Vaticano II, propõe-nos questionamentos sobre as quais já insisti mais de uma vez, mas que conservam ainda (é o caso de dizer, infelizmente!) a sua atualidade.

Por que nem todos conhecem suficientemente o XIX Capítulo Geral e o Concílio Va- ticano II?

Talvez porque não se tenha tido tempo para ler os documentos, estudá-los, assimi- lá-los? Talvez porque não se tenha avaliado a importância desse estudo?

Mas naturalmente vem logo outra pergunta: por que o XIX Capítulo Geral não foi posto em prática? Sei que este é um problema muito complexo e a sua resposta excede em muito o conhecimento e a visão da Congregação que cada irmão possa ter. Mas há deliberações conhecidas por todos que deviam ser praticadas na letra e no espírito, mas não o foram! É o caso de perguntar então: por que?

 

Um problema aberto: o apostolado da escola

Demos um exemplo, neste setor que empenha com tanta responsabilidade a nossa peculiar vocação juvenil em todos os continentes: a pastoralização da escola. Que pas- sos foram dados no caminho e com o método proposto pelo XIX Capítulo Geral, a fim de que nossas Escolas não só ensinem, mas eduquem formando o cristão de hoje?

Não vos escondo a minha preocupação ao dirigir-vos esta pergunta. Não gostaria de ser mal-entendido.

Recordo antes de tudo e ponho bem em claro que a missão específica e primária da Congregação — o carisma — é a educação da juventude, e da juventude que razoa- velmente se possa hoje reconhecer pobre; e isso representa uma área de apostolado muito mais vasta, rica e árdua que o simples “dar aula”.

Mas também se deve admitir que a escola — em todas as suas formas — na mão de almas apostólicas, é um meio eficaz para educar, e educar cristãmente. Nesta perspec- tiva ela entra nas nossas atividades.

Com essa premissa devo acrescentar que sei de certa contestação no nosso ambi- ente com relação ao apostolado da escola.

Devemos afirmar que essa atitude — sic et simpliciter — não tem nenhum funda- mento.

Afora qualquer outra consideração, o Concílio falou claro, enquanto o Papa e a hie- rarquia dos diversos continentes continuam a confirmar em todas as ocasiões as sole- nes afirmações do Concílio.

Recordemos algumas delas:

“A presença da Igreja no setor escolar manifesta-se com especial evidência através da escola católica” (Gravissimun Educationis, 8). E mais claramente: “Portanto, nas atuais conjunturas, mantém a Escola Católica sua importância capital, pois pode con- tribuir tão decisivamente para realizar-se a missão do Povo de Deus, ajudando tam- bém o diálogo entre a Igreja e a comunidade dos homens, em benefício de ambas as sociedades” (ibidem). E mais adiante: “O Santo Sínodo declara que o ministério desses professores é autêntico apostolado. Que condiz ao máximo e é necessário também aos nossos tempos, não deixando de ser verdadeiro serviço prestado à sociedade” (ibi- dem).

O Santo Padre Paulo VI falando em 26 de agosto de 1967 ao Capítulo Geral dos Es- culápios, recomendava a eles “a fidelidade à causa da Escola Católica, causa sacrossan- ta e de suma importância nos nossos tempos, quando a sua necessidade e oportunida- de infelizmente não são tidas em seu justo valor”. E acrescentava: “Por isso, fiéis à causa da Escola Católica, envidai todos os esforços para defendê-la com o mesmo em- penho proporcionado à veemência com que ela é combatida”. E explicitava: “Nada se pode imaginar de mais santo e mais útil que dedicar-se à educação da juventude, da qual depende o porvir da Igreja e da civilização” (L’Ossservatore Romano 27 de agosto de 1961).

Também nos “Documentos de Medellín”, a Assembleia do Episcopado Latino- Americano acentua a atualidade da escola: “através da história, a igreja, serva da hu- manidade, preocupa-se com a educação, do homem, não só catequética, mas integral. A Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano reafirma esta atitude  de serviço e prosseguirá preocupando-se por meio de seus institutos de educação, aos quais reconhece plena validez, em continuar esta tarefa adequada às mutações histó- ricas. Por isso mesmo incentiva os educadores católicos e congregações docentes a prosseguirem, incansavelmente, em sua abnegada função apostólica e exorta à sua renovação e atualização, dentro da linha proposta pelo Concílio e por esta Conferên- cia” (Documentos finais de Medellin III, 2.1.).

 

A pastoralização da escola

Não resta a menor dúvida que a Escola Católica é autêntico apostolado. Mas deve- mos imediatamente acrescentar e precisar. A escola não é automaticamente autêntico apostolado. O mesmo Concílio elenca as condições para a escola católica ser verdadei- ramente apostolado. Começa afirmando: “Lembrem-se, porém, os professores serem eles os primeiríssimos promotores do que a Escola Católica pode levar a concretizar em seus propósitos e iniciativas” (GE 8) e acrescenta uma série de normas precisas: “... preparem-se pois com interesse especial, munidos de títulos idôneos de comprovada ciência profana e religiosa, e dotados da arte pedagógica de acordo com as pesquisas mais recentes. Ligados por laços de caridade entre si com os alunos e imbuídos de es- pírito apostólico, tanto pela vida quanto pela doutrina deem testemunho do único Mestre que é Cristo. Associem-se sobretudo aos pais em seu trabalho. Junto com eles tenham em devida conta a educação total, a diferença do sexo e a finalidade de um e outro sexo no seio da família e da sociedade, conforme o que preestabeleceu a divina Providência. Façam o possível por despertar a atividade pessoal dos mesmos alunos. Continuem a segui-los depois de concluído o currículo, por conselhos, amizade, como também pela fundação de associações dotadas de verdadeiro espírito eclesial” (ibi- dem).

Como vedes estamos diante de uma estratégia completa e atualizada para fazer da escola um instrumento válido de educação cristã em favor da juventude do nosso tempo. São diretrizes que substancialmente encontramos também nos atos do XIX Capítulo Geral.

O problema então não se coloca para nós sobre o dilema simplista: escola sim, esco- la não; mas escola católica sim, escola não católica não, ou, para usar a terminologia do XIX Capítulo Geral (I-IX, cap. 2): à escola amorfa e na prática pouco ou nada diferen- te das outras escolas, nós dizemos não; à escola pastoralizada, de tal modo que não somente forme os jovens para uma vida autenticamente cristã, mas que faça também deles líderes católicos, nós dizemos — e devemos dizer — sem mais o nosso sim.

Talvez a intolerância pelas atividades escolares se explique, ao menos em boa parte, pelo fato que o processo de pastoralização da nossa escola, indicado nas deliberações do XIX Capítulo Geral e confirmado plenamente pela Declaração sobre a Educação Cristã, nem sempre e em toda parte tenha tido a resposta e a atuação necessárias.

Sei muito bem que não são problemas simples, mas também é verdade que são problemas essenciais que se tornam cada vez mais urgentes, são problemas que não podemos contornar pelo fato de serem difíceis de resolver.

Infelizmente, nos últimos tempos mais de uma vez houve precipitação em desmon- tar tradições e estruturas que, de alguma forma, preenchiam a sua função pastoral que tinha eficácia formativa, mas não se providenciou contemporaneamente a substituí-las com outras iniciativas adequadas sugeridas pelo mesmo XIX Capítulo Geral. Nestes casos sobrevém um doloroso “vazio” que reduz a bem pouca coisa a ação formativa da Escola Salesiana.

Trata-se de responsabilidade de base: é necessário que Inspetores e Diretores com os respectivos Conselhos e cada comunidade estudem as situações peculiares e prove- jam em seguida com critério e coragem.

 

Os jovens pedem uma escola formativa

Aliás também os alunos — especialmente os mais reflexivos das classes superiores

— exigem da nossa escola aquela formação cristã que é a sua razão de ser. Confesso- vos que fiquei impressionado ao ouvir, em diversas ocasiões, as insistências dos jovens a esse respeito.

Citarei, a título de exemplo, algum trecho de uma longa correspondência recebida de um grupo de candidatos à Universidade no momento em que deixavam as nossas escolas, para ingressar na Universidade:

“Ao deixar o Instituto depois de tantos anos nos damos conta de tudo quanto te- mos recebido: é algo que não podemos medir, e toda a nossa formação de homens e de cristãos; entretanto temos tido também oportunidade de ver alguns aspectos me- nos eficientes como, por exemplo, o cuidado pela formação dos meninos que não é acompanhada como se deveria (e por formação entendemos instrução religiosa, in- teresse e acompanhamento para maior consciência do cristianismo)”.

E continuam: “Se realmente se quer ‘construir’ jovens que não saibam apenas o ca- tecismo de cor, mas saibam compreender consciente e coerentemente a estupenda realidade do cristianismo, então não basta mais o pequeno pensamento pastoral inse- rido mais ou menos a respeito pelo sacerdote-professor no desenvolvimento da sua missão; nem sequer basta garantir o desenvolvimento regular e adequado das aulas de Religião!”

“É necessário uma ação ampla, profunda, contínua, seriamente enquadrada, bem estudada, guiada e coordenada: retiros espirituais, debates formativos... sem desani- mar pelos inevitáveis pequenos e grandes fracassos... Nesta perspectiva adquiririam um significado mais profundo e obteriam resultados mais válidos também os exercícios espirituais, que não seriam mais algo de improvisado e passageiro, mas o ápice de um caminho andado”.

Destes trechos da carta de jovens saídos de nossos ambientes escolares se podem tirar muitas lições; há também matéria para algum exame de consciência útil, mas uma coisa me parece sem mais deva ser posta em evidência.

Os jovens exatamente em questão de formação, não são minimistas; naturalmente é necessário sabê-los compreender, é necessário antes de mais nada amá-los sincera- mente dando-se totalmente a eles com espírito sobrenatural o que não significa acompanhá-los nos eventuais gostos deteriorados. Ao contrário, os jovens sabem apreciar quem demonstra com os fatos que não procura a si mesmo, mas o seu verdadeiro bem e correspondem com aquela generosidade que é a característica da sua idade, aberta aos ideais até o sacrifício.

Mas noto que me demorei sobre o argumento da nossa escola e da sua pastoraliza- ção.

Conforta-me a esperança de que a minha advertência leve a quantos têm a respon- sabilidade a insistir sobre este argumento que envolve grande parte da nossa missão.

E passemos a outro questionamento sugerido pela “descoberta” do XIX Capítulo Geral.

 

Um outro problema: o Oratório

Qual foi o nosso empenho para “imprimir o novo impulso do Oratório como Centro Juvenil, capaz de responder às exigências da Juventude de hoje e às esperanças que a Igreja, justamente, tem na nossa Congregação” (ACG XIX, p. 157)?

É verdade: alguma Inspetoria respondeu concretamente ao convite insistente do Capítulo Geral. Sabemos de iniciativas ousadas e modernas, de transformações de ati- vidades juvenis em outras mais de acordo com as novas exigências, conhecemos admi- ráveis esforços para preparar, antes mesmo dos locais e dos equipamentos, também necessários, aquilo que vale ainda mais, o pessoal para essas obras, dando-se conta da sua importância e função. Porém devemos reconhecer com toda sinceridade que exa- tamente neste setor a meta está ainda muito distante: e com igual sinceridade se pode dizer que não sempre e em toda parte se pôs todo empenho exigido hoje neste carac- terístico apostolado salesiano.

Está claro que esse empenho não pode subsistir com caráter de seriedade, se não partindo de quanto se lê nos Atos do XIX Capítulo Geral: “O XIX Capítulo Geral afirma solenemente que, embora em situações sociais modificadas, o Oratório, como centro de vida juvenil, conserva o seu valor e é mais atual do que nunca, sobretudo na atual situação de abandono moral da juventude. A pastoral renovada do Concílio Vaticano II sublinhou a validade deste processo de abordagem dos jovens, com formas abertas, inseridas na vida, aderentes à sua psicologia, correspondendo aos seus mais vivos e variados interesses juvenis, criadoras de um ambiente ideal para o encontro entre sa- cerdotes e jovens” (p. 160).

Para julgar se esta solene afirmação se tornou critério operativo ou ficou simples expressão verbal, é necessário olhar em concreto se, e quais providências, tenham sido antes estudadas e depois programadas, e finalmente postas em prática para conseguir os objetivos indicados pelo XIX Capítulo Geral. Em particular, o Capítulo pedia que o Oratório, além do tradicional interesse pelos jovens que normalmente o frequentam, procurasse cuidar da abordagem, “em espírito de diálogo e em espírito missionário de todos os jovens da paróquia, do bairro, da cidade, e dos afastados”.

O Capítulo sublinhava também a importância de o Oratório ter um programa educa- tivo claro para as diversas idades dos jovens, aperfeiçoando a Catequese, a Liturgia, a iniciação dos melhores em compromissos apostólicos, empenho dos oratorianos na sociedade e na Igreja também através do trabalho dos diversos tipos de associação.

Recomendava enfim aos Oratórios que qualificassem as próprias atividades cultu- rais e recreativas e “se completasse com novas iniciativas: centros juvenis, centros sociais, centros culturais, centros universitários... centro de consulta moral e religiosa para os jovens, centro de orientação” (ACG XIX, p. 161).

Para encaminhar um programa tão árduo e complexo, o Capítulo Geral achava ser indispensável redimensionar a distribuição do pessoal segundo as concretas exigências pastorais e missionárias do Oratório; selecionar tal pessoal em base à sua conhecida capacidade; prepará-lo nos Noviciados, Estudantados, Institutos de Magistério e du- rante o ano de Pastoral; cuidar da sua atualização continuada; sustentar a teoria com exercícios práticos” (ACG XIX, p. 162).

Reconhecemos que todo esse programa importa dificuldades e sacrifícios de gênero variado. Mas esta obra é de tal importância capital que exige uma corajosa e decisiva ação à luz das orientações do XIX Capítulo Geral. Sem esta coragem é inútil esperar no relançamento e no reflorescimento daquela que foi chamada a “primeira glória e obra- prima de Dom Bosco”.

Deve-se temer, porém, que a crise se agrave, não só no sentido de crescimento quantitativo, mas — o que é pior — em sentido qualitativo e que assim se torne velha, anacrônica, superada, por falta de animação interna, uma obra que como escreveu o então Arcebispo de Milão Card. Montini “é uma obra educativa no estado potencial: quem estuda de perto as suas necessidades e leis, percebe que é susceptível de novos e maravilhosos incrementos”.

Tenho confiança que essas breves, mas sinceras considerações levem a sério e efi- caz exame sobre este tema para nós tão essencial.

Permiti-me ainda uma pergunta.

 

Em que ponto está a pastoral das vocações?

Em muitas Inspetorias sei que houve progressos consoladores: Centros de Orienta- ção Vocacional muito bem organizados com pessoal seriamente preparado; Pastoral Juvenil ativa e coordenada de modo a desenvolver entre os jovens das nossas obras (terreno natural das nossas vocações) os germes de vocação; seleção cuidadosa dos candidatos sem preocupação irracional de número; pessoal para o Aspirantado (sem- pre válido desde que criado e conduzido com critério sugerido por uma sadia renova- ção), seriamente escolhido, premissa essencial para um desenvolvimento harmonioso das vocações da Inspetoria.

São todos progressos que, graças a Deus, se verificam em muitas Inspetorias. E nas outras?

Eu sei, no setor vocacional as dificuldades aumentam (espero tratar desse assunto em outra ocasião), mas exatamente por isso é necessário multiplicar as energias e as iniciativas, corrigir eventuais erros de método.

Trata-se da vida da Congregação.

Mas é tempo de encerrar a série das perguntas. Minha intenção não é apresentar- vos uma longa lista de problemas, nem apresentar um exame geral de consciência, mas quero tão somente recordar o fato, sobre o qual devemos humilde e sinceramen- te refletir: o XIX Capítulo Geral em muitas de suas decisões e diretrizes espera ainda ser posto em prática.

 

Porque o XIX capítulo geral não é ainda uma realidade.

Entre os vários motivos que podem explicar essa deficiência, alguns me parece mui- tas vezes presentes.

A falta de conhecimento e estudo de documentos tão importantes me faz pensar numa atitude que diria um tanto comum entre nós: somos vítimas do imediatismo, da atividade opressiva de cada dia e consideramos perda de tempo, menos produtiva, a reflexão sobre ideias, sobre princípios, no estudo de métodos, na predisposição de planos.

A falta de atuação embora dependendo de causas muito complexas, poderia tam- bém porvir da tentação de uma falsa segurança nas próprias posições, que gera certo imobilismo. É evidente que o XIX Capítulo Geral, e mais ainda o Concílio Vaticano II estavam a exigir mudanças, também substanciais, que vinham talvez sacudir e inco- modar a nossa posição, que nos obrigavam talvez a confessar que algumas coisas não andavam bem e que nos obrigavam a trocar critérios e métodos. E mudar não é fácil. Por essa razão, às vezes, sem perceber, fecham-se de algum modo os olhos para não ver; barram-se a priori os caminhos para toda eventual revisão. Talvez este sentimento também possa estar na base de certa falta de atuação do XIX Capítulo Geral e do Con- cílio Vaticano II e que podem ter dado a sensação de indiferença e tenham levado a certo imobilismo.

Caríssimos irmãos, quis evocar esses pensamentos sugeridos de algum modo por vós mesmos, porque enquanto — viribus et cordibus unitis — nos preparamos para o próximo Capítulo Geral Especial, não esqueçamos que essa preparação não exclui, an- tes exige que nos empenhemos todos para tornar operantes tantas deliberações e normas do XIX Capítulo Geral.

De fato, está claro que o Capítulo Especial longe de anular, confirmará ou aperfei- çoará muitas dessas diretrizes de que é rico o Capítulo Geral precedente.

E, então, qual é o meio mais eficaz para dispor-nos a acolher a seu tempo com fruto as conclusões do Capítulo Especial?

 

Discutir, sim, mas sobretudo realizar

Fiquei impressionado recentemente com a leitura de uma entrevista do Cardeal Lé- ger. Todos conhecemos esse digno prelado que depois do Concílio se retirou num le- prosário da África.

Ao jornalista que lhe perguntava por que quis retirar-se num leprosário, respondeu: “Depois de tanto falar no Concílio, por motivos de coerência, sentia o dever de fazer alguma coisa”. E acrescentava: “Falou-se e continua-se a falar demais; existe um ver- dadeiro frenesi de palavras; mas se trabalha em medida proporcionalmente inversa. Seria de maior lucro para a Igreja se se falasse muito menos para trabalhar muito mais”.

A observação do Cardeal Léger coincide com aquilo que me escreveu há pouco tempo um nosso grande Irmão, o heroico Dom Trochta, da Checoslováquia.

“O mundo — dizia ele — não se conquistará para Deus com as discussões, mas com sacrifícios, com a nossa vida, como fez Dom Bosco e todos os salesianos dos tempos heroicos da Congregação”.

Esta convergência de ideias e de juízos, embora nas compreensíveis nuances, por parte dos dois Prelados, tão ricos de experiência eclesial e pastoral, convida-nos a re- fletir. Nasce espontânea a lembrança da palavra que o nosso querido Pai repetia: “Poucas palavras... e muitos fatos!”

Naturalmente, ninguém pensa desestimular o estudo de tantos problemas que nos pressionam, e o “iter” do nosso Capítulo Especial prevê exatamente a participação ampla e consciente dos irmãos nesse estudo. Mas devemos evitar o perigo de esgotar a nossa atividade em intermináveis reuniões, discussões, esquecendo que existem de- liberações e normas validíssimas e urgentes que esperam ainda serem postas em prá- tica.

Estude-se primeiramente como atuar essas normas. Os problemas, dizia-me um querido irmão não se resolvem estudando tudo aquilo que os outros devem fazer para a renovação, mas começando por atuar eu mesmo aquela parte que me toca. Em ou- tras palavras o nosso primeiro e insubstituível trabalho é sermos “factores verbi”, reali- zadores das ideias: renovar-se para renovar.

Preparemo-nos, pois, para o Capítulo Geral Especial não só participando do estudo dos temas e das propostas, mas ao mesmo tempo pondo em ação tantas preciosas diretrizes do XIX Capítulo Geral.

Será um proveitoso treino para encontrar-nos psicológica e espiritualmente prepa- rados para aceitar — com os fatos — tudo aquilo que o Espírito Santo dirá à nossa Con- gregação através do organismo máximo deliberativo, para a sua fecunda renovação.

Continuemos, entretanto, a preparar-nos com a oração.

Envio as saudações mais afetuosas com o desejo de todo bem no Senhor. Dom Bosco vos abençoe a todos

Sac. Luís Ricceri
Reitor-Mor

 

TRABALHO RESPONSÁVEL PELO CAPÍTULO GERAL ESPECIAL

 P. Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 259

Apelo renovado para os Voluntários e a solidariedade fraterna. – Um empenho responsável em vista do Capítulo Geral. – Unidos na oração como na colaboração. – Representação alargada no Capítulo Geral. – Colaborar com otimismo construtivo. – Deixemo-nos conduzir pelo amor.

Turim, 1º de dezembro de 1969

Irmãos e filhos caríssimos,

Escrevo estas páginas sob o olhar materno da Virgem Imaculada, para cuja festa iminente estamos preparando-nos, num clima quase de Natal. Uma e outra ocorrência têm em cada um de nós, como Cristãos e como Salesianos, ressonâncias particulares. A festa da Imaculada nos leva instintivamente às nossas origens e mais uma vez nos faz sentir o quanto a vida e o desenvolvimento da nossa querida Congregação estejam ligados à Santa Virgem. As festas de Natal, não reduzidas a uma espetacular e no en- tanto vazia “operação” para estimular o consumo da sociedade do chamado bem- estar, fazem-nos reviver o inefável mistério pelo qual apareceu no mundo a Graça e a Bondade de N. S. Jesus Cristo, trazendo para os homens a redenção e a paz do amor.

Embora sabendo que esta minha carta não poderá chegar-vos antes do Natal, dese- jo assegurar que nesses dias, principalmente na noite de Natal, eu vos terei todos pre- sentes, sobretudo os que em qualquer parte do mundo são provados pelo sofrimento, fazendo meus os vossos votos, as vossas penas, os vossos propósitos, quer para a vida espiritual, que sempre necessita renovar-se, quer para a atividade apostólica sempre diante de novas exigências que nos pedem renovado empenho.

Eu quisera poder oferecer-vos outros presentes, mas além do presente da oração fraternal, posso apenas renovar para todos vós a doação do meu modesto e total ser- viço aos interesses da nossa querida Congregação, com tudo o que isso comporta nes- tes momentos difíceis, com tantos problemas que se atropelam e urgem. Não é muito, mas o que tenho e posso, dia a dia, tudo ofereço à Congregação, nossa Mãe, e em concreto pelo bem de cada um de vós.

 

Apelo renovado par os Voluntários e a solidariedade fraterna

Mas venho também eu agora pedir um presente a vós e às Inspetorias. Qual será? Antes de mais nada, venho também neste ano pedir Voluntários para a América Latina: Sacerdotes e Coadjutores nas condições já conhecidas, quer quanto à duração do “ser- viço” (5 anos), quer quanto à idade dos voluntários (pelos 40 anos, como norma geral).

Bem conheço as condições de tantas Inspetorias quanto a pessoal, mas como disse na outra vez, a situação na América Latina é infinitamente mais grave e as necessida- des têm proporções não facilmente imagináveis.

O sacrifício que importa a uma Inspetoria privar-se de algum elemento é um sinal tangível (e certamente fecundo) da solidariedade operante, na qual estou insistindo e cujos efeitos confortadores começam a verificar-se.

Os Irmãos que sentem no coração essa inspiração especial podem escrever direta- mente ao Reitor-Mor, que ficará feliz em acolher a oferta filial.

Será bom não demorar a fim de que se possa oportunamente providenciar todo o conjunto de formalidades para as quais se exige não pouco tempo.

Desde agora invoco uma larga e fecunda bênção sobre os generosos Irmãos que se oferecerem para esse precioso voluntariado e sobre as Inspetorias que derem, até a custo de sacrifícios, a ajuda fraterna de novas energias às Inspetorias tão necessitadas.

Quanto às outras formas de solidariedade, devo dizer-vos com prazer que, após a minha última carta, tenho recebido muitas notícias consoladoras: várias Inspetorias ainda realizam iniciativas edificantes e úteis: por isso, me reservo dar relação delas no próximo número dos Atos. Entretanto lembro que a prática da solidariedade, com as suas variadas aplicações, não pode ser uma iniciativa momentânea, mas deve tornar- se uma ação permanente, como permanente e estável deve ser a prática da caridade fraterna, da qual a solidariedade não é senão um aspecto.

 

Um empenho responsável em vista do Capítulo Geral

O outro presente que vos peço é o empenho sério, consciente e construtivo para a preparação do Capítulo Geral Especial.

É um empenho que deve estar sempre presente para cada um de nós na oração, na docilidade à graça do Espírito Santo, no esforço da renovação interior para uma fideli- dade sempre mais autêntica ao nosso Fundador, na reflexão pessoal e comunitária, para uma nossa resposta à voz de Deus, da Igreja, da humanidade.

A mim parece que sejam mesmo essas as atitudes fundamentais que devem carac- terizar este momento histórico da Congregação.

Não me detenho sobre cada uma delas porque já em outras ocasiões tive ensejo de fazê-lo, mas acho que me assiste o dever de frisar a sua importância, e sublinhar ainda uma vez que o Capítulo Geral Especial será condicionado e determinado por essas dis- posições do nosso espírito, na sua preparação, na sua realização e sobretudo na sua eficácia “existencial”.

Com efeito, jamais como nesta ocasião, cada Irmão deve sentir-se pessoalmente responsável por tudo quanto diz respeito ao Capítulo Geral, que não por acaso se chama Especial. Muito do seu sucesso dependerá precisamente do modo e da medida da participação dos Irmãos em todas as fases da preparação.

Parece-me que neste instante a Congregação vai dizendo a cada um de seus filhos:

“in manibus tuis sortes meae” (SI 30,16) — a minha vida está nas tuas mãos.

Eu quisera que cada um de nós ouvisse essas palavras como sendo dirigidas a cada um pessoalmente, por nosso Pai, que consumou fibra a fibra toda a sua vida para dar a nossa Congregação à Igreja. Quem pode dizer o quanto custou a Dom Bosco em fadi- gas, lágrimas e sangue a fundação da Congregação? E os Irmãos da primeira hora o quanto não sofreram para dar-lhe solidez, para fazer dela um instrumento vivo e di- nâmico de apostolado juvenil a serviço da Igreja?

Pois bem, essas fileiras de salesianos nos vão repetindo com Dom Bosco: Empenhai- vos, colaborai para dar à Igreja não outra Congregação, mas uma Congregação reno- vada no espírito autêntico do Pai para as necessidades dos tempos novos.

 

Unidos na oração como na colaboração

Mas neste ponto convém também lembrar que o Capítulo Geral Especial diz respei- to a uma Congregação Religiosa, que tem fins essencialmente espirituais: não se trata de interesses materiais ou puramente humanos; por isso, não podemos apoiar-nos somente em nossos recursos humanos. Sem renunciar a nenhum deles, devemos to- dos ter presente a palavra da Escritura: “Nisi Dominus aedificaverit domum, in vanum laborant qui aedificant eam” (SI 126,1). Demos, portanto, com coração de filhos, como sinal concreto do amor sincero e filial para com a Congregação, toda a nossa con- tribuição, de acordo com as possibilidades de cada um; vamos agir com a mais reta intenção, procurando somente o verdadeiro bem da Congregação, mas ninguém se esqueça de interessar “toto corde” Aquele que ilumina as mentes e dá energia às von- tades. Como queremos estar unidos na ação de preparação do Capítulo Geral, ainda mais unidos encontremo-nos na oração ao Senhor: em todo esse período recomende- mo-nos também a tantas almas boas, especialmente às que podem enriquecer a sua oração com a oferta do amoroso sofrimento.

Podemos destarte esperar obter de Deus a luz, a energia e a santa coragem neces- sárias para atingir as finalidades que o Concílio atribui ao Capítulo Geral Especial.

Indo agora mais ao concreto, após a fase de trabalho no Centro, volta às vossas mãos o “iter” da preparação.

Tereis ou havereis de ter o mais depressa possível à vossa disposição os dois docu- mentos elaborados pelas Comissões Pré-Capitulares. Convido-vos a ler com grande atenção a “apresentação” que abre os dois Documentos, e quanto está comunicado na rubrica especial dos “Atos do Conselho Superior” redigida aos cuidados da Secretaria do Central de Coordenação. Limito-me a renovar ainda uma vez a cada um de vós o convite para a colaboração, sentida como dever primário e exigida pela corresponsabi- lidade que cabe a todos nós pelas sortes da Congregação.

 

Representação alargada no Capítulo Geral

Neste contexto, devemos estar todos cientes de que, como escrevi também no nú- mero precedente dos “Atos”, a “operação” a que todos devemos dar uma mão é de amplitude e complexidade verdadeiramente excepcional, envolve problemas que to- cam ao vivo a carne da Congregação e a nossa resposta pessoal a Deus, à Igreja e à sociedade do nosso tempo.

Estas reflexões levaram-me, com o acordo unânime do Conselho Superior, a pedir à

  1. Congregação dos Religiosos e dos Institutos Seculares, uma derrogação ao vigente art. 129, item 6, das Constituições.

Ficando sem variação os outros itens, pediu-se que o item 6 seja assim modificado:

“Um delegado para cada Inspetoria, devidamente eleito no Capítulo Inspetorial, se os irmãos professos (perpétuos e temporários) da Inspetoria forem menos de 250. Dois delegados para cada Inspetoria, se os irmãos professos (perpétuos e temporá- rios) da Inspetoria forem mais de 250”.

Tendo obtido da S. Congregação resposta afirmativa com rescrito 15788/69 de 28 de setembro de 1969, comunico aqui oficialmente o Documento aprovado. (Achá-lo- eis integralmente citado na p. 31 deste número dos Atos).

Os segundos Capítulos Inspetoriais Especiais deverão, portanto, ater-se a isso — e às indicações técnicas que serão enviadas pelo Secretariado Central de Coordenação

— para as eleições do Delegado e dos Delegados da Inspetoria ao Capítulo Geral Espe- cial.

Entre as várias formas possíveis de eleição elaboradas depois de atento estudo da Comissão Técnica Central, o Conselho Superior preferiu a que vos apresentei com base nos seguintes critérios:

  • prevalência do número dos Capitulares eleitos sobre o número de membros participantes de direito ao Capítulo Geral;
  • certa proporcionalidade com o número de eleitores;
  • composição do Capítulo Geral que não comprometa ou torne muito difícil, pelo número dos componentes, a funcionalidade e eficiência da Assembleia;
  • a máxima simplicidade possível na técnica das votações para a escolha do se- gundo Delegado.

Naturalmente será competência do Capítulo Geral Especial pronunciar-se para uma definição de toda a complexa matéria.

Foi também pedido e alcançado que as Visitadorias sejam equiparadas às Inspeto- rias, no que se refere à representação e eleições para o Capítulo Geral Especial.

Enfim, para tirar qualquer perplexidade de ordem jurídica e para atender ao desejo de todos, em plena correspondência com as orientações conciliares, declaro, seguindo a autorização explícita da S. Congregação, que os Irmãos Coadjutores podem ser elei- tos “pleno jure” delegados, tanto ao Capítulo Inspetorial como ao Capítulo Geral, sob a única condição — que vale também para os sacerdotes e para os clérigos — que sejam professos perpétuos (Cf. Const. Art. 98).

Estou certo de que recebereis estas comunicações com sincera satisfação e que elas hão de servir para tornar ainda mais eficaz o sentido da responsabilidade de todos na preparação do Capítulo Geral Especial.

 

Colaborar com otimismo construtivo

Depois de todas estas preliminares, excetuados os casos de impossibilidade física ou de constrição política externa, ninguém poderia justificar uma atitude inspirada em desinteresse ou em certa desconfiança.

O desinteresse seria sinal de penosa insensibilidade aos problemas vitais do mo- mento e de forte enfraquecimento do nosso amor à Congregação: como pode um filho desinteressar-se da sorte e do futuro da sua própria mãe? A desconfiança é certamen- te uma tentação sempre possível, hoje talvez ainda mais. É necessário, porém, alimen- tar a virtude teológica da esperança e robustecer a virtude cardeal da fortaleza. Ape- nas dessas virtudes é que nos vem a maturidade necessária para superar a tentação da desconfiança, que nos pode assaltar quando vemos as coisas procederem ou mais len- tamente ou em sentido diverso do que esperávamos, ou quando generalizamos situa- ções particulares, ou quando pesam sobre nós os condicionamentos que nos vêm de situações complexas e de mentalidades diversas da nossa, que só a humildade e a ca- ridade nos dão a força de encarar construtivamente. A quem se sentisse tentado a ter essas atitudes negativas, quereria lembrar as palavras do Papa João XXIII: “O pessi- mismo e a desconfiança jamais construíram nada”.

É bom acrescentar que a uma atitude de renúncia ditada por desinteresse e descon- fiança opõe-se, em sentido contrário e igualmente condenável, a atitude de quem pre- tendesse exercer verdadeira “pressão” para levar adiante determinadas orientações, ou, tratando-se de eleições, determinados homens.

 

Deixemo-nos guiar pelo amor

Tendo já falado sobre isto, não é o caso que volte a estender-me no assunto. A livre e responsável circulação das ideias, no respeito cristão das pessoas, todos nós a que- remos e favorecemos em qualquer nível: disso é um eloquente testemunho a publica- ção da “Radiografia”. Parece-me, porém, que seria contraproducente e lesivo ao res- peito da pessoa transformar em instrumentos de pressão o estudo, a reflexão pessoal e comunitária, as discussões entre grupos de irmãos.

A Congregação precisa da colaboração pessoal de cada Irmão e a solicita. Isso re- quer que cada um forme a própria consciência iluminada pela sua experiência, pela  sua sensibilidade salesiana, a fim de expressar o próprio juízo sobre tantos quesitos que se ventilam; por consequência lógica, por um lado não se pode tomar emprestado de outrem, a esmo, o juízo sobre problemas de Congregação; por outro lado, ninguém tem, de maneira nenhuma, o direito de impor o próprio juízo a outrem.

Dar a nossa contribuição (em nossa Casa ou no Capítulo Inspetorial, ou diretamente ao Secretariado Central de Coordenação) para o esforço comunitário de buscar as ver- dades, é direito e dever de cada um. Pressionar sobre os outros, com formas de juízos discriminatórios e por isso ofensivos, não é lícito a ninguém.

Qual deve ser, então, a atitude de cada verdadeiro Salesiano?

Deixemo-nos todos guiar pelo amor nesta operação histórica para a qual somos chamados, um amor sentido, mas ao mesmo tempo concreto e eficaz.

Quem ama busca o bem da pessoa amada, preocupa-se em proporcionar-lhe o ver- dadeiro bem e, ao fazê-lo, evita tudo o que possa ser nocivo ou causar prejuízo à pes- soa amada. Ajamos todos, Irmãos caríssimos, como filhos que amam sinceramente a própria mãe, e os frutos virão como os espera a Igreja, como os esperam, com Dom Bosco, aqueles que construíram a Congregação. O ano novo para todos seja portador da Graça e da Paz de Cristo, nossa Cabeça e nosso Irmão.

Agradeço-vos a lembrança que por mim tereis em vossas orações.

Af.mo

Luís Ricceri
Reitor-Mor

 

A CRISE DAS VOCAÇÕES

P. Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 260

Solidariedade fraterna em ação. – Um problema vital. – Aspectos gerais da crise. – Causas remotas da crise vocacional. – A crise na Congregação. – Os irmãos que deixaram o sacerdócio. – A nossa respon- sabilidade. – Uma palavra aos jovens. – Crise de vocação é crise de fé. – A nossa vocação e uma entre- ga total a Deus. – O comprometimento afetivo. – Advertências que fazem pensar. – Nenhum de nós é uma ilha. – Atitudes decepcionantes. – Os elementos que alimentam a nossa vocação. Uma institui- ção sempre atual. – Renovar sem extremismos. – Um ponto importantíssimo: a seleção das vocações.

Turim, 1º de março de 1970

Irmãos e filhos caríssimos,

Aqui estou para o nosso encontro periódico, enquanto em toda a Congregação fer- ve o trabalho preparatório para o Capítulo Geral Especial. As notícias que chegam um pouco de todas as Inspetorias referem o interesse e a seriedade com que se responde ao convite do Reitor-Mor para uma participação pessoal, consciente, iluminada.

Também nós procuramos fazer a nossa parte: ao passo que já se pensa na sede e em tudo o que ela implica, está-se organizando a Comissão Técnica que deverá fichar organicamente o material que chegará dos Capítulos Inspetoriais. Estamos também estudando a formação das cinco Comissões Pré-capitulares que terão o delicado en- cargo de preparar as relações de base a fim de servirem depois para o estudo das Co- missões Capitulares.

Desde logo entendei que se trata de um trabalho assaz importante, cujo feliz êxito dependerá muito da preparação e da sensibilidade salesiana dos membros das cinco Comissões. Por outra parte, olhando também para a experiência de outras ordens reli- giosas, o profícuo desenvolvimento dos trabalhos do Capítulo Geral Especial está es- treitamente ligado à preparação séria e sistemática que lhe quisermos dispensar; e é o que todos juntos pretendemos fazer.

Se, pois, nas Inspetorias fôr preciso algum sacrifício para pôr à disposição os irmãos necessários ao Centro para todo esse precioso trabalho, eu vos peço que o aceiteis de bom-grado, convictos de que se trata de um serviço prioritário de colaboração, no in- teresse de toda a Congregação.

 

Solidariedade fraterna em ação

Neste número dos Atos achareis um longo elenco de todas os valores vindos (tam- bém dos enviados desde o início e referidos no primeiro elenco) para a solidariedade fraterna, com as relativas destinações desses valores.

Desejo expressar por meio destas páginas o mais vivo reconhecimento a cada um dos irmãos, aos grupos, às Comunidades que, para virem ao encontro dos irmãos em necessidade, souberam achar muitas maneiras e meios que somente o verdadeiro amor fraterno pode sugerir. Os irmãos e as comunidades beneficiadas saberão achar o modo de exprimir a sua gratidão: eu o faço desde agora por todos.

Em muitas Inspetorias a “operação solidariedade” ainda está em andamento. No próximo número dos Atos procuraremos publicar uma nova lista que abranja essas outras Inspetorias. Mas quisera, entretanto, convidar a todos que não desistam dessa ação de caridade fraterna, que é ao mesmo tempo um poderoso vínculo de união.

A caridade, especialmente em nossas condições, não pode ser roupa de gala para festas excepcionais, mas a de todos os dias.

A Quaresma e o Advento são especialmente ocasiões que a cada ano vêm estimu- lar-nos a renovarmos concretamente a nossa caridade para com os irmãos. Espero-vos, portanto, para o encontro da solidariedade. Estou certo de que não faltareis.

 

Um problema vital

Permiti que agora vos entretenha sobre um assunto no qual estou pensando há tempo. É um argumento de extrema atualidade, não só, mas de tal natureza, que nos toca, como sói dizer-se, na carne: trata-se de um problema que interessa toda a vida da Congregação e ao mesmo tempo a de cada um de nós; é o problema da vocação, ou, melhor, a crise das vocações.

É um fenômeno que há muito tempo atinge toda a Igreja, mas que se tornou muito mais agudo e preocupante nestes últimos anos. A nossa Congregação não podia passar ilesa por esta situação. É verdade que até alguns anos atrás, no conjunto, o balanço das vocações marcava um ativo todos os anos; mas é também verdade que, embora várias Inspetorias continuem a ter um consolador aumento de vocações, de alguns anos para cá, no conjunto da Congregação o balanço não está ativo como no passado.

É uma situação que devemos encarar com grande humildade e sinceridade, com se- rena coragem, sem nos perdermos em estéreis queixumes e acusações emotivas. Dian- te da crise de pessoas das quais nunca, nem de longe, teríamos duvidado, de pessoas que pelos graus de hierarquia ocupados, pelos encargos desempenhados, pareciam já seguras contra todo ataque, devemos deixar de lado qualquer farisaico sentimento de escândalo, para nos recolhermos em oração e pedir a Deus que, pelo que nos toca, nos ajude a ver com a máxima objetividade a situação, individualizando as causas e os re- médios cabíveis.

O problema, repito, interessa todos, porque todos temos uma vocação não somen- te a salvaguardar e defender, mas ainda mais a valorizar e tornar fecunda para estes nossos tempos.

Além disso, sentimos que somos bastante responsáveis pela vocação dos irmãos que nos rodeiam (ninguém de nós é uma ilha, e cada um, tenha ou não tenha consci- ência, influi na vocação do mais próximo... e do menos próximo...) e também pelas novas vocações de que a Congregação precisa para viver e continuar a realizar a sua missão na Igreja.

Como aludia acima, a crise das vocações religiosas e sacerdotais dá-se em toda a Igreja, de maneira aguda em algumas regiões, e suavemente noutras regiões que po- demos dizer privilegiadas.

 

Aspectos gerais da crise

A União dos Superiores Gerais quis estudar e fazer estudar seriamente o fenômeno em seus vários aspectos, em plano mundial. Apresento muito sinteticamente alguns resultados que são interessantes também para nós. A crise aparece mais forte nos Paí- ses em que — até um recente passado — as estruturas eclesiásticas eram fortes e mais ou menos imóveis: deu-se um passo para frente demasiado rápido, para o qual as mentalidades não estavam preparadas. Em muitos Países a situação complicou-se por fatores sociais, econômicos ou políticos. Verifica-se que as saídas são mais raras onde a vida é mais dura e difícil. Poucas são as deserções de missionários, poucas as de sacer- dotes e religiosos do Leste Europeu onde as vocações se conservam ainda bastante firmes; também para os religiosos dedicados ao Ministério e para os religiosos leigos constata-se um número relativamente menor de perdas.

Até aqui a “geografia” das crises vocacionais, naturalmente muito sintética.

No estudo citado há também um diagnóstico que não podia ser senão genérico. No entanto é interessante notar que as Comissões de estudo — embora refletindo países e situações bem distantes e diversos — chegaram substancialmente às mesmas con- clusões.

Fato constatado comumente é o do arrefecimento da fé. Põe-se tudo em discussão: o conteúdo da fé, os dogmas, a Igreja, a autoridade, a obediência, os compromissos solenes: questiona-se o valor fundamental da vocação; demitiza-se a vida religiosa, dando grande valor ao matrimônio “sacramento”, ignorando Concílio, Magistério...

Aceitam-se sem aprofundar ideias mal digeridas de uma filosofia e teologia mais ou menos marginais e em contraste evidente com o Magistério...

O desejo de conhecer tudo e tudo experimentar, com a justificativa de estar com todos, encaminha lentamente, mas com certeza para o enfraquecimento da fé.

Muitos na sua ânsia de apostolado, reduzido muitas vezes a compromissos de or- dem temporal, afirmam querer estar “com os outros”, mas demonstram com os fatos ser “como os outros”.

Daí uma vida espiritual e religiosa cada vez mais pálida e frágil. Doutro lado, a inefi- cácia de tantos atos rotineiros de culto, de sacramentos, de práticas de piedade, cria um estado de apatia, de vazio e de apelo para “alguma outra coisa” ou “alguma outra pessoa”. Daí também a busca de relacionamentos e contatos especialmente femininos, motivados por atividades de ministério, daí a familiaridade excessiva com os jovens, causas que provocam culpas morais, que se procuram justificar no plano da doutrina e da fé.

É também verdade que a comunidade muitas vezes, por um conjunto de causas es- truturais e humanas, não oferece ao indivíduo o calor de caridade de que todo ser hu- mano sente necessidade, levando-o assim a procurar compensações fora da comuni- dade.

Há também uma crise de confiança nas estruturas da Igreja, nas estruturas da vida religiosa, e nas atividades exercidas pelos Institutos Religiosos.

 

Causas remotas da crise vocacional

A tudo isso acrescentem-se elementos e motivos provindos de longe, que as diver- sas Comissões de estudo encontraram sempre presentes nas crises: a falta de seleção que levou adiante pessoas sem vocação autêntica, que deveria ter sido estudada no período da formação; e falhas na ação formativa, que não levou ao amadurecimento necessário certos aspectos da vida humana, que depois colocam em crise a perseve- rança na vocação.

Um elemento que não falta nunca como componente da crise vocacional é a deca- dência — e não raro o abandono total — da oração. Esse fato está estreitamente liga- do ao arrefecimento da fé.

Verifica-se enfim que a publicidade dada à problemática e à crise da vocação sacer- dotal e religiosa em linha negativa, e mais ainda a publicidade dada às deserções, es- pecialmente algumas mais sensacionais, produz um efeito deprimente em almas incer- tas e frágeis, agravando nelas o estado de crise e acelerando o epílogo infelizmente negativo.

É este o quadro, certamente doloroso, que resulta do estudo promovido pelos Su- periores Gerais. Como afirmei acima, necessariamente tive que sintetizar, mas parece- me haver matéria suficiente para que tomemos conhecimento da situação e das cau- sas mais gerais da crise. Ela atinge também a nós, pois não pretendemos viver numa redoma nem num hortus conclusus.

Precisamente por isso, embora reconhecendo que muitas constatações feitas pelos Superiores Gerais se aplicam também a nós, e que a mesma descrição do diagnóstico já é uma indicação dos remédios, não obstante parece-me não somente útil, mas obri- gatório, dizer alguma coisa de mais específico a respeito de nossa situação.

Numa família de adultos, deve-se falar com clareza também dos acontecimentos tristes.

 

A crise na Congregação

Até 1964-65 a crise limitava-se a algumas Inspetorias e era compensada no conjun- to da Congregação pelo crescimento de muitas outras.

Já em 1966-67 começou-se a notar uma leve diminuição que continuou, embora sem se acentuar demais, nestes dois anos.

Para que não tenhais conhecimento deformado da situação, parece-me oportuno fornecer-vos alguns dados.

A diferença a menos dos sócios na Congregação, entre o ano de 1965 e 1969 incluí- do, é na realidade de cerca de 250 irmãos. Acrescente-se a este número cerca de 150 irmãos de além-cortina, que faleceram ou se retiraram no último decênio, dos quais antes não tínhamos informações.

Muitas Inspetorias ainda têm um aumento anual natural de vocações. Na Europa, a Inspetoria Jugoslava (da qual logo se há de separar a Croácia) de 1965 a 1969 teve um aumento de 112 irmãos.

Assim ainda tiveram certo incremento algumas outras Inspetorias da Europa; mas o andamento das Inspetorias da Europa do Norte e da América do Norte acusa uma bai- xa, em algumas, bem sensível, mesmo por causa das saídas não compensadas por no- vas vocações, ao passo que para a maior parte das Inspetorias a baixa é discretamente contida.

As Inspetorias da América Latina no seu conjunto estão em decréscimo; em algumas o decréscimo é bastante sensível; uma ou outra assinala ainda uma linha de cresci- mento constante.

Todas as Inspetorias da Ásia, menos duas, assinalam um aumento confortador: Vi- etnã e Filipinas estão na frente.

Também a Austrália, de 1965 a 1969, sempre avançou.

Dar-vos-á prazer saber como se apresentam os nossos noviciados neste ano de 1969-70.

Segundo os dados chegados ao Centro, o número total de noviços é de 673, assim divididos: Europa 359, dos quais 105 na Itália, 120 na Espanha, 134 nas outras Ins- petorias da Europa (incluídas Checoslováquia e Hungria); América (incluídos os Estados Unidos) 186; Ásia 118, dos quais 69 na Índia e 35 no Vietnã; Austrália 10; África: está suspenso o noviciado. Deve-se notar que outras Inspetorias (oito) também suspende- ram o noviciado, para prolongar o curso de estudos que o precede.

Uma constatação que deve fazer pensar é a notável diminuição (e em certas Inspe- torias a falta completa) de noviços coadjutores. O fato convida a todos, mas especial- mente aos Inspetores, a uma reflexão séria, também em vista do Capítulo Geral. A nossa Congregação tem no Salesiano coadjutor uma componente essencial da sua na- tureza e da sua missão.

Concluindo esta resenha, a diminuição total do número dos sócios é um fato que — ainda que com pesar — devemos constatar.

 

Os irmãos que deixaram o sacerdócio

Isso dito, devemos ter presente que são duas as fontes da passividade, sobre as quais devemos sentir-nos mobilizados: conter as perdas (mas as verdadeiras perdas), das vocações já adiantadas no curriculum salesiano, aumentar as novas vocações (na- turalmente as autênticas vocações).

Sobre as perdas, se todas elas são sempre motivo de tristeza, as dos nossos irmãos que deixam o sacerdócio, nós o sentimos no coração, entristecem-nos profundamente.

O fato mais grave destes anos é certamente a crise desses nossos irmãos. Os jornais publicaram no ano passado uma estatística dos sacerdotes reduzidos ao estado laical. Entre os Institutos religiosos a nossa Congregação aparecia no sexto lugar. É preciso dizer, porém, que naquela estatística, como depois o Osservatore Romano esclareceu, contavam-se muitos casos verificados dezenas de anos atrás e só regularizados nestes anos; por este motivo, e ainda tendo em vista o número total dos nossos padres, a porcentagem era na realidade bem menor do que a indicada pelos jornais.

Mas é também verdade que tais perdas continuaram, e que — apesar da correção dos números — não cessam de ser profundamente dolorosas, especialmente as de alguns irmãos que, pela sua idade ou pelo cargo que desempenhavam, suscitam mais profundo senso de pena e tristeza.

Em 1969 os sacerdotes salesianos reduzidos ao estado laical foram exatamente 59; deles uma dezena estavam em situação irregular há muitos anos e puderam regularizá- la. Os sacerdotes atualmente na Congregação vão além de 11.000.

Seria interessante um exame de quanto escrevem estes nossos pobres irmãos, e conhecer certas confissões: haveria muito para meditar.

Apraz-me notar aqui um pormenor que serve de resposta a certas vozes: ao deixar a Congregação, a grande maioria tem palavras de profundo reconhecimento por todo o bem que recebeu dela. Um deles, não há muito, escrevia-me textualmente: “À Con- gregação eu devo tudo: para mim ela foi mãe generosa e benéfica”. Muitos outros afirmam o mesmo com palavras diversas. Mas tudo isto não pode apagar a nossa dor e não pode dispensar-nos de fazer o nosso exame de consciência.

 

A nossa responsabilidade

Nós todos, sem exceção, devemos perguntar com sinceridade:

Que responsabilidades temos diante das defecções de nossos irmãos? Sei qual pode ser a resposta de alguém. Mas eu retruco: — Nós não podemos penetrar nem muito menos interferir no mistério da consciência humana: esses nossos irmãos responderão pessoalmente à própria consciência e a Deus também. Mas a nós incumbe o sacros- santo dever de perguntarmos: O que a seu tempo deveríamos ter feito nós, como su- periores, como irmãos, para atalhar a este irmão, aqueloutro, o passo extremo? E que fazemos e podemos fazer hoje para evitar que outros o repitam? Esta pergunta nos atinge como pessoas e como comunidade, como homens de governo em todos os ní- veis, como irmãos que têm sempre alguma responsabilidade, chame-se confessor, pre- feito, provedor, assistente...

Percebo que a pergunta implica um cúmulo de problemas e de empenhos para to- dos, ao mesmo tempo que é preciso reconhecer que não se pode sempre dizer que tudo depende de nós; porém, repito, a nós nesta sede incumbe ver a nossa parte de responsabilidade.

E isto vale, não só em relação aos sacerdotes que nos deixam, mas também a todos os irmãos, de modo especial os jovens (que oferecem a mais elevada porcentagem de saídas), os quais hoje são pressionados — e violentamente — por um redemoinho de ideias, de problemas reais ou aparentes, que respiram, por assim dizer no ar, um pou- co por toda parte. É preciso encontrar-se com eles pessoalmente (isto vale especial- mente para os Diretores), dar provas de afeição, fazê-los falar, ouvi-los, compreendê- los. Em clima de amizade sincera, é muito mais fácil esclarecer, separar o ouro da gan- ga, e, portanto, orientar, guiar, corrigir...

É verdade que cada um é responsável pela própria vocação; não é menos verdade que tantos elementos e valores que a defendem e potenciam, tornam-na parte da nossa vida e fonte de alegria, estão fatalmente ligados à maneira de agir de cada um de nós, mas especialmente dos que devem ser os animadores das nossas comunida- des.

 

Uma palavra aos jovens

E aos jovens salesianos, sacerdotes ou não, que direi? — Vós, entre outras coisas, aguardais com impaciência uma Igreja e uma Congregação diferentes das que se vos apresentam hoje. Em muitas coisas tereis também razão. Mas, antes de tudo... videte quod tractatis. Pensais que baste o vosso “sentir”, o vosso ponto de vista, para que tudo mude imediatamente?

Como seria possível na Congregação mudar tudo ou quase tudo, segundo as ideias deste ou daquele?

Se, por hipótese, se aceitasse este princípio, não é necessário muito esforço para nos capacitarmos de que seria o caos, a dissolução, e isto não somente para uma Con- gregação, mas para qualquer vida associada, embora devendo acrescentar que não somos um sindicato ou partido político.

Por outro lado, é bom pensar que estamos felizmente às portas do Capítulo Geral Especial, ao qual a Igreja confia precisamente o mandato de rever, renovar, na fideli- dade ao carisma de nosso Pai, tudo o que se fizer mister para dar vida fecunda à Con- gregação diante dos novos tempos.

É o modo mais lógico, sábio e razoável (e alguém diria também democrático) não para caminharmos às cegas, mas para avançar, progredir e melhorar de acordo com a nossa finalidade. Naturalmente antes nos Capítulos Inspetoriais Especiais, nos quais direta ou indiretamente todos têm voz, e em seguida no Capítulo Geral, se estudará e discutirá com toda a liberdade, com sentido de responsabilidade e principalmente com verdadeiro amor à Congregação, aquele amor que se preocupa de ter sempre presente Dom Bosco, o seu espírito, a sua missão, o Concílio, o Magistério; e serão tomadas in nomine Domini todas as resoluções, mesmo corajosas, que forem necessárias.

É este o caminho honesto, límpido, seguro para chegarmos à desejada renovação: não pode haver outros caminhos.

Mas eu quisera ainda acrescentar: — Queridos filhos, jovens e anciãos, não nos ilu- damos: as reformas, mesmo as mais geniais e arrojadas, de nada valerão se os homens não se reformarem, se não nos reformarmos a nós mesmos!

Por isso digo a todos, a quem exerce autoridade e a quem não tem essa preocupa- ção: Enquanto nos preparamos para o Capítulo Especial, preocupemo-nos em realizar as muitas orientações do XIX Capítulo Geral, que, embora validíssimas, ainda esperam para serem postas plenamente em prática.

Essa realização terá como resultado final, se não eliminar, certamente diminuir mui- tos elementos que provocam a crise das vocações.

Com efeito, ao examinar com um pouco de atenção o quadro descrito acima sobre  a crise das vocações, perceberemos logo que também em nosso ambiente muitas defi- ciências se podem eliminar se nos pusermos a executar certas normas bem precisas do XIX Capítulo Geral.

 

Crise de vocação é crise de fé

Penso que agora convém, justamente através destas linhas, lembrar e sublinhar al- guns princípios e orientações de valor perene, que são suporte insubstituível de toda vocação religiosa — são-no hoje, sê-lo-ão amanhã depois do Capítulo Geral Especial e sempre.

No mencionado estudo dos Superiores Gerais, põe-se em evidência como na base dos motivos complexos e variados das defecções vocacionais há sempre uma crise de fé. Nem sempre se trata de perda total, mas sempre há pelo menos um declínio, um obscurecimento da fé. A mesma constatação se encontra em outras pesquisas sobre o assunto. E é lógico: a vocação é um fato intimamente ligado ao transcendente, à fé no sobrenatural. Sem a fé a nossa vocação não tem sentido, não se sustenta, carece de base.

Não por nada diz Maritain: “A vocação religiosa não tem nenhum parâmetro huma- no para ser catalogada”. E nós acrescentamos: está acima do humano.

Procuremos então aprofundar essa realidade fundamental.

“Para reforçar e defender a nossa vocação faz-se mister partir da fé, fundamento e motivo dela”. Achei esta afirmação com agradável admiração num psicólogo moderno que estuda, do seu ponto de vista, os problemas vocacionais. Esse homem de ciência, evidentemente cristão, durante um longo debate, promovido por um nosso Capítulo Inspetorial da América Latina, repete por bem três vezes que “atualmente só se pode conservar a vocação por meio da fé”.

Pois bem, nós recebemos de Deus este dom sobrenatural, no Batismo, que o radi- cou em nossa alma. Ora, em nossa vida a fé deve nascer de dentro do nosso espírito, para então transbordar em nossa existência.

Infelizmente devemos confessar que a nossa fé muitas vezes — como afirma um es- critor — é quase só epidérmica e superficial, é informação, é algo de exterior a nós, uma frase feita, não jorra de dentro para transformar-se em vida.

Reconheçamo-lo: a nossa fé não parece tantas vezes que está a dormir? Não é tal- vez uma reminiscência depositada no fundo do nosso espírito, mais que vibração pro- funda do coração de Deus dentro de nós?

Diante de dom tão maravilhosamente grande como é a fé, talvez a fé que nós prati- camos é mais incredulidade que fé.

Devemos libertar a nossa fé — capacidade de ver o invisível, de ouvir a voz do Deus vivo, pessoa viva — devemos libertar a nossa fé da ferrugem de certo hábito, de certo automatismo, para que Nosso Senhor seja realmente o Senhor em nossa existência.

Há um meio para que isto aconteça: a oração permeada de confiança e humildade, que devemos renovar todos os dias como o pobrezinho do Evangelho diante de Jesus: “Senhor, creio, quero crer, mas vem em auxílio da minha incredulidade”.

A nossa vocação está intimamente ligada, toma sentido e se sustenta somente com a fé.

 

A nossa vocação é entrega total a Deus

À luz da fé, vejamos esse segundo dom precioso que o Senhor nos quis dar, depois do dom da fé, com o Batismo.

Antes de tudo tenhamos bem presente que o Senhor — através de seus caminhos misteriosos — chamou-nos para a vida consagrada na Congregação salesiana: a nossa vocação, portanto, é vocação religiosa e salesiana.

O sacerdócio não é, de per si, o objeto da vocação religiosa, o objeto da nossa con- sagração salesiana. Parece-me necessário evidenciar essa realidade, porquanto, preci- samente por falta de clareza, muitas vezes verificam-se ideias erradas e atitudes não menos erradas e crises que não têm bases objetivas.

Como salesianos, nós somos consagrados. É uma palavra que deve ser aprofundada: ela nos desvenda ou pelo menos nos faz sentir de novo todos os valores e implicações que contém. Cada um de nós, a seu tempo, cumpriu em plena liberdade e consciência um gesto não tanto jurídico quanto religioso, no sentido profundo da palavra, de en- trega total a Deus.

Com a nossa consagração tornamo-nos, por nossa vontade, propriedade de Deus — propriedade exclusiva, plena, integral —; oferecemos-lhe, definitivamente, tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que podemos.

Entregamos-lhe o corpo com os seus membros, com as suas potências e faculdades; entregamos-lhe a inteligência e a vontade: uma oferta com integridade verdadeira- mente desconcertante. Seria verdadeiramente tal se não tivesse uma adequada moti- vação: o amor de Deus.

Em plena e alegre liberdade nós renunciamos a valores autênticos — como por exemplo o matrimônio — mas por um valor excelente, por Deus, para amar a Ele, e, portanto, para amar melhor.

Nós nos fizemos propriedade absoluta, escravos integrais de Deus, sem mais, como diz Galot, mas somente por amor do Pai, para seguir a Cristo que se entregou total- mente a Deus Pai.

Como vedes, a nossa vocação tem duas motivações, dois mananciais vitais: a fé an- tes de tudo, e com ela o amor, que é uma consequência da mesma fé, a caridade, que, partindo de Deus nosso Pai e de Jesus Cristo nosso irmão, se reflete, como se fosse por lei física, no próximo, segundo a palavra de S. João: “É mentira amar a Deus (que não se vê), se não se ama o próximo (que se vê)”.

Por isso o apostolado, o serviço dos irmãos, que segundo o carisma salesiano são de preferência os jovens, e entre eles os mais necessitados, é consequência e manifesta- ção externa do nosso amor para com Deus, que nos levou à nossa doação total a Ele, e por Ele aos nossos próximos.

Por tudo o que se disse, estamos bem persuadidos de que somos Salesianos porque cremos em Deus e, portanto, cremos no amor do Pai, nosso bem supremo, por nós; e ao seu amor respondemos com a nossa entrega total, que se traduz em amor de servi- ço pelas almas.

A nossa consagração, portanto, de per si, não é dirigida ao próximo; só Deus pode tornar sagrada essa entrega. Não somos “voluntários da paz”, nem simples técnicos do desenvolvimento: somos algo profundamente diferente e mais nobre. Nós professa- mos os conselhos evangélicos para seguir Cristo pobre, casto, obediente. E seguindo o Cristo total, o seguimos na caridade que Ele trouxe a esta terra, caridade que para ser verdadeira e cristã desenvolve-se sempre em duas diretrizes inseparáveis: Deus e pró- ximo.

Essa é a essência e a natureza da nossa vocação.

Devemos ter essas realidades bem presentes para torná-las operantes, a fim de que se mantenham límpidas e vivazes também diante das dificuldades, diante das diversas tentações, diante das confusões de hoje. Alimentadas pela oração simples que é con- tato filial com Deus, elas nos farão viver a nossa vocação numa coerência generosa e fiel, mais do que certas discussões ou debates, mais do que tantos artigos de revistas, que muitas vezes servem somente para confundir as ideias e perturbar as consciências.

Eu disse acima: coerência fiel e generosa”. Parece-me necessário sublinhar estas pa- lavras. Se cremos, se cremos verdadeiramente que fizemos a nossa entrega total por amor pelo Deus bondoso, não é possível, principalmente hoje, arrastar uma vocação na mediocridade, na rotina, pior ainda, no comprometimento.

A primeira vítima do comprometimento é a mesma pessoa que o vive. No fundo da alma ele está insatisfeito. Por isso, amiúde é amargo, crítico, contestador. Os próprios leigos reagem duramente quando percebem que se acham diante de quem vive a sua vocação incoerentemente, com uma vida em que parece haver duas almas que se anu- lam reciprocamente. Isto acontece sobretudo quando se trata do comprometimento afetivo como se diz hoje.

Não me parece fora de lugar entreter-nos um pouco sobre este assunto. É um dos motivos mais frequentes das crises vocacionais.

 

O comprometimento afetivo

Maturidade afetiva, integração afetiva.

Hoje no ambiente religioso se fala e se escreve de complementação dos sexos, da abolição da separação dos sexos, de uma chamada terceira via entre matrimônio e celibato consagrado. Vários paladinos destes novos princípios acabaram por enveredar pelo caminho do matrimônio. Não é para se admirar. Essas teorias, com efeito, são desvios insustentáveis na vida religiosa.

Se a nossa consagração é total (e não creio que disto se possa duvidar), como se pode pensar em comprometimento do tipo a que levam tais teorias?

Nenhum documento de autoridade alguma da Igreja jamais disse coisas semelhan- tes.

Infelizmente há quem na prática nutre a ilusão de poder realizar essa “terceira via”, pretendendo acordo entre castidade consagrada e vida mundana, relacionamentos femininos mais ou menos ousados, que procura justificar com várias motivações.

Há quem, sem ter nenhum encargo, procura por conta própria apostolados femini- nos, mas esses apostolados, se não forem confiados pela obediência, se não forem pedidos por verdadeira necessidade das almas, se não forem realizados no modo, no tempo e no estilo que se devem exigir (e os mesmos leigos exigem) de um Salesiano, então não servem, não podem servir de álibi para uma evasão, para essa terceira via que, infelizmente, acaba muitas vezes levando ao abandono da vocação, mesmo de- pois de muitos anos de profissão e de sacerdócio.

A experiência repete-nos todos os dias que não bastam para defender-nos nem mesmo os cinquenta ou sessenta anos de idade, os altos cargos que se ocupam, não basta nem sequer a ordenação episcopal.

Dir-se-á que não se pode viver dentro de quatro paredes, que é necessário abrir-se, que não se pode e não se deve considerar a mulher como antes, etc.

Sim, é preciso abrir, e a Congregação apoia todas as aberturas construtivas para o Salesiano e para as almas. É preciso abrir; mas esta palavra não pode servir para que qualquer um jogue à ruína os irmãos especialmente os mais novos.

Por exemplo, a propósito da chamada mixité, há normas e princípios claros; como são observados? Aliás, nota-se que em certos casos demonstra-se tanto zelo no apos- tolado feminino, enquanto no mesmo ambiente os jovens, a nossa porção específica, estão praticamente abandonados.

Nesse campo houve tristes experiências, aqui e acolá, recentemente até. A verdade é esta: a realidade humana é sempre a mesma. O homem é sempre homem ao lado de uma mulher. E com todas as solicitações eróticas e afrodisíacas que aumentaram enormemente em toda parte, o consagrado fica ainda mais exposto, precisamente porque não é destinado ao matrimônio.

 

Advertências que fazem pensar

Dom Ancel, o bispo dos padres operários, tem palavras de realismo sadio e sem preconceitos, mas que retomam o ensinamento de sempre: “Se quisermos conservar perfeita castidade — diz ele — devemos saber renunciar ao que, de fato, determinaria em nós obsessões ou impulsos a que não poderíamos resistir. Quem acha que pode ler tudo, ouvir tudo, ver tudo, quem recusa dominar a própria imaginação e as suas ne- cessidades afetivas, não deve comprometer-se no caminho do celibato”.

E o cardeal Pellegrino, comentando estas palavras para jovens clérigos, acrescenta: “Trata-se de escolher: achais que podeis ler tudo, ouvir tudo, ver tudo, não quereis empenhar-vos em dominar a imaginação e necessidades afetivas? Então convém to- mardes, e em tempo, outro caminho. Se alguém disser: Eu posso ler qualquer coisa, ver qualquer coisa sem perigo algum, sem nenhuma perturbação — continua o cardeal Pellegrino — não posso levá-lo a sério. Afinal, não sois de aço, sois de carne também vós”.

Dom Ancel concluía: “Deus não poderia continuar a ser fiel a vós; não se pode exigir de Deus que estabeleça para vós uma salvaguarda milagrosa”.

Mas desejo trazer-vos aqui uma advertência que vem dos que estiveram muitos anos unidos a nós pelos vínculos da consagração e do sacerdócio, e depois nos deixa- ram, abandonando consagração e sacerdócio.

Em confronto com alguns que parecem negar a realidade do pecado original, as confissões desses irmãos convidam a refletir.

No estudo sociológico com o título: O drama dos “ex”, o P. Burgalassi traz os seguin- tes resultados sobre as causas do abandono.

95% afirmam que foi o fato de terem deixado a oração; 75%, o amor por uma mu- lher; 83%, o desajuste de uma consciência não mais em paz.1 E P. Burgalassi conclui: “Os ex não têm dificuldade em admitir que a sua decisão foi a conclusão lógica de um estado que durava há tempo (“há muito não vivia em paz com a minha consciência”) em que diminuíram e afrouxaram os meios normais de auxílios espirituais”.

Como se vê, não se chega ao triste epílogo improvisamente, e a certo ponto se cru- zam e confundem causas e efeitos, abandono da oração e relacionamentos femininos; infelizmente a conclusão é sempre dolorosa e negativa.

Não gostaria que alguém tivesse de tudo o que disse a impressão de medo excessi- vo, de fechamento custe o que custar. Não se quer absolutamente nada de tudo isso, repito-o ao longo de toda a minha carta. Quer-se apenas travar uma conversa leal e construtiva, a partir de uma posição de realismo, sem encobrir a verdade com nuvens de fumaça de palavras retumbantes, mas equívocas.

E a verdade é esta: a nossa consagração exige um coração indiviso. Qualquer um então compreende, mesmo do ponto de vista da dignidade humana, a situação repug- nante em que viria a achar-se o Salesiano que quisesse viver uma vida de compromis- so. É preciso ter a coragem e a lealdade coerente de uma verdadeira escolha.

Insisti até agora sobre qual deve ser a linha de defesa da nossa castidade consagra- da, mas como poderia calar sobre a outra verdade? A ajuda primária para a nossa cas- tidade vem da Graça e consequentemente da oração.

Ouvistes sobre isso as confissões de advertência de ex-sacerdotes; ouçamos agora as palavras de um grande teólogo do nosso tempo, Padre K. Rahner: “... Tratando de teologia do celibato (vale bem para nós, consagrados!), estamos tratando de uma par- te da teologia que se adquire não da cátedra acadêmica, não das conversas de muitos, não das compensações medíocres, mas que se adquire de joelhos, na oração” (Carta sobre o celibato).

Concluamos estas considerações iluminados pelo nosso Pai. Dom Bosco teve que tratar largamente com o mundo feminino (basta ler as Memórias e o Epistolário); em todas as suas abordagens nunca se mostrou complexado, mas na sua amável sociabili- dade foi sempre sacerdote.

Olhemos para ele que também nisto é para nós mestre admirável; procuremos an- tes de tudo ser, e em seguida viver, pensar, agir e apresentar-nos como sacerdotes em todo lugar, como ele, e como ele poderemos viver a nossa castidade integral e alegre, e exercer serenamente o nosso apostolado para o nosso bem e o bem das almas.

 

Nenhum de nós é uma ilha

Mas nenhum de nós é uma ilha.

1 O autor da pesquisa faz notar que a porcentagem total supera os 100% porque cada entrevistado fez mais de uma opção.

Somos responsáveis também pela vocação dos nossos irmãos. O dito Mandavit unicuique de próximo suo [mandou a cada um que cuidasse do seu próximo] parece- me valha antes de tudo para a nossa família.

Fala-se de corresponsabilidade: precisamente nós — e nesse ponto de modo espe- cial — podemos construir ou destruir, salvar ou perder vocações (até sem disso termos consciência). Os Superiores (que não são só os Inspetores e Diretores, embora tenham eles a responsabilidade primária da vocação dos irmãos) cuidem realmente disto.

Mesmo numa comunidade responsável de adultos maduros, como hoje se diz, os irmãos não podem ficar entregues a si próprios; e confiança não quer dizer nem de- sordem nem caos. As vítimas, afinal de contas, acabam por ser os mesmos irmãos.

Mas é preciso também dizer que cada Salesiano continua sempre a ser um homem, que necessita de conforto, guia, às vezes, ainda, de ajuda.

A ausência desses elementos determina, às vezes, situações que se refletem negati- vamente, embora de modo lento, nas vocações. Isso vale especialmente (mas não se diz exclusivamente) para os irmãos no tirocínio, para os estudantes universitários.

 

Atitudes decepcionantes

Há, porém, responsabilidades maiores, mais profundas, que têm seus reflexos na vocação dos irmãos, responsabilidades, em modo particular, dos que exercem alguma autoridade nos vários níveis da comunidade, mas não só eles.

Explico-me. Pensemos no Redimensionamento... Quantas e quais consequências não têm, para a vida e vocação do Salesiano de hoje, uma desarrazoada defesa do pas- sado! ... Pensemos na renovação mais do que desejada pelo Concílio e pelo XIX Capítu- lo Geral, e que ainda não foi posta em prática... Pode-se pensar que isso deixe os ir- mãos insensíveis? Pensemos, por exemplo, numa escola que não seja animada por um sopro vivificador de formação cristã; não se podem ignorar as frustrações de irmãos diante de situações teimosamente imóveis, precisamente nesse setor do nosso aposto- lado. Fechar-se hermeticamente diante de pedidos razoáveis e construtivos (por exemplo, o modo de exercer a autoridade, a corresponsabilidade...) é uma atitude que provoca reações e deixa nas mãos do extremo oposto certas iniciativas que infelizmen- te pecam por excesso. Assim, “rejeitando tudo”, quase fatalmente se acaba por pro- vocar os que “aceitam tudo”.

A Congregação não é, nem deve ser, instituição esclerosada... Infelizmente, porém, há os que, sem perceber, apresentam-na dessa forma. Urge apresentar a Congregação com fisionomia e movimento juvenis.

Não se pode admitir o princípio: Quieta non movere. A história não espera por nós.

Isso, porém, não significa que tudo seja lícito, que qualquer um possa tomar todas as iniciativas que lhe passem pela cabeça. Os documentos tanto conciliares, como pós- conciliares, dizem claramente que as “experiências” devem ser promovidas, e, em to- do caso, devem ser sempre aprovadas de antemão, pela autoridade competente. É norma ditada por uma experiência sábia.

Mas depois de esclarecer isso, talvez seja o caso de perguntar: Que é que fizemos para realizar de fato o XIX Capítulo Geral e o Concílio, na Inspetoria, na casa, na paróquia? Para um sem número de ações importantes e preciosas, não eram necessárias licenças complexas; bastava apenas a vontade decidida de atuá-las.

Não é então o caso de verificar o modo como correspondemos às expectativas ra- zoáveis, nesse campo, por parte dos irmãos? Bem triste seria se vocações autênticas precisassem sofrer penosas frustrações, por causa da atitude fechada de quem deve- ria... abrir. Por exemplo: Que é que se faz para informar os irmãos sobre a vida, inte- resses e problemas da casa? Que é que se faz para que se dê vida à comunidade edu- cativa? Que é que se faz para a vida litúrgica da comunidade dos Salesianos e dos jo- vens?

Mas há também o defeito oposto (é sempre verdade que in medio stat virtus). Não se pode, em nome de uma renovação interpretada de maneira completamente pesso- al, acabar com toda norma de vida religiosa, até as mais essenciais, fazendo da comu- nidade religiosa um agrupamento de indivíduos que só se encontram na hora das re- feições.

Bem sei que é difícil, especialmente nos dias que correm, evitar desvios e abusos. É verdade que esse é muitas vezes o tormento de quem carrega sobre si o peso da res- ponsabilidade. Mas o que está em jogo é tão importante que é preciso enfrentar qual- quer sacrifício para evitar tais desvios. Está em jogo a vida da Congregação: diante des- sa perspectiva, ninguém, de forma alguma, pode desertar.

 

Elementos que alimentam a nossa vocação

Entretanto, existem elementos essenciais que, na medida em que interessam à nos- sa vocação pessoal, ao mesmo tempo contribuem para alimentar na comunidade a consagração e vocação de cada um dos seus membros.

A nossa consagração e, portanto, a nossa vocação, não são fatos ocasionais, de um momento. Precisam se renovar, podemos dizer, a cada instante.

Ora, a renovação contínua, total e alegre, da nossa consagração, é eficazmente po- tenciada pelo “clima” que, nas comunidades, é fruto de vários componentes. Estes,  por sua vez, atuam em virtude da ação de cada membro da comunidade e, de modo particular, dos que nela gozam de influência ou têm responsabilidades.

Quais são os principais componentes do clima que alimenta a vocação dentro da comunidade?

  1. A oração

Antes de tudo a oração.

No estudo dos Superiores Gerais sobre as crises vocacionais, em dado ponto se lê: “Quem sabe rezar, persevera”; e, como contraprova, indica-se o fato de que, em geral, os falidos na vocação confessam que iniciaram o caminho do abandono quando deixa- ram a oração.

Direta e explicitamente os ex-sacerdotes interpelados pelo P. Burgalassi, sociólogo, pesquisador das causas de abandono do sacerdócio confirmam a mesma coisa. Como já referi, 95% deles colocam entre as causas o abandono da oração.

Nem podia ser diferente.

Se é verdade que a oração é contato com Deus, fonte e canal da graça que é absolu- tamente necessária à vida consagrada, então é necessário reconhecer a dramática verdade da afirmação: “Quem sabe rezar persevera”.

A oração, porém, não é rezar de qualquer maneira, mas é saber rezar. E isso é, tal- vez, não raramente, um ponto fraco em nossa vida pessoal e também em nossas co- munidades.

Não é por acaso que o Perfectae Caritatis estabelece claramente que a oração deve ser a preocupação primária de toda alma consagrada. Pode-se dizer que a cada página retorna e insiste nesse conceito. Eis uma passagem fundamental: “Os que professam os conselhos evangélicos procurem e amem antes de tudo a Deus que os amou por primeiro, e em todas as circunstâncias esforcem-se para alimentar a vida escondida com Cristo em Deus. Por isso... cultivem assiduamente o espírito de oração e a mesma oração, haurindo-os das fontes genuínas da espiritualidade cristã” (PC 6).

Em poucas frases temos os elementos essenciais da oração verdadeira e, por isso, eficaz. A busca constante de Deus, o amor a Deus concretizado em fatos, a vida escon- dida com Cristo em Deus: eis as fontes profundas que tornam a oração e o espírito de oração vivos e ativos, alimentados nas fontes genuínas da espiritualidade cristã, fontes que são principalmente a Palavra de Deus e o Corpo de Cristo, como observa um escri- tor (P. Anastácio, em La Preghiera).

“Cristo Pão e Cristo Palavra” são os alimentadores insubstituíveis da vida e, por isso, da vocação religiosa.

Uma pergunta, então: Como se cultiva em nossas comunidades a oração, que, por sua natureza deve levar a criar “comunhão”? Sem excluir, é claro, a oração pessoal, sobretudo na forma de oração mental, tão necessária à “mais íntima e eficaz participa- ção no sacrossanto mistério da Eucaristia e da oração pública” (ES, II, 21).

Se a oração tem uma importância primária, é preciso que isso seja reconhecido concretamente nas comunidades, “defendendo a custo de qualquer sacrifício a dimen- são orante da vida consagrada”.

Isso vale para cada Salesiano e mais ainda para os que têm o mandato de serem os “animadores” das comunidades. Não se pode, com efeito, esquecer o perigo da secula- rização que hoje paira continuamente sobre a vida consagrada e apostólica. Precisa- mente por isso devemos aproximar-nos mais de Cristo: assim também conseguiremos dar Cristo ao mundo.

  1. A caridade

Da oração, contato filial, pessoal e comunitário com Deus, nasce a caridade frater- na, também ela componente essencial do clima que dá vida à nossa vocação.

Este ano, e não foi por acaso, quis convidar a nossa Família para a prática conscien- te e concreta dessa virtude teologal. Digo teologal, porque o amor aos irmãos para quem tem fé — e nós queremos tê-la — é virtude teologal, como o é o amor de Deus.

Tem-se escrito muitíssimo sobre essa virtude. Mas é também verdade que hoje pa- rece que, justamente nos ambientes religiosos e eclesiásticos, deve-se constatar dolo- rosa falta dessa virtude. Não é o caso de se fazer o diagnóstico. O fato, infelizmente, existe.

Comunidade fria, mesquinha, cheia de distâncias; comunidade cujos membros não têm tempo e modo ou vontade de se encontrarem com serenidade; que não se sen- tem parte viva de uma família de adultos; que não se ajudam nem se compadecem uns dos defeitos dos outros; que não se toleram na diversidade de ideias e mentalidades; que não se substituem no trabalho, quando necessário; comunidade assim não causa admiração que se transforme em túmulo para muitas almas.

Dolorosamente verdadeira é a palavra de Bernanos (Diário de um Pároco de Aldeia): “O inferno é não mais amar”.

Como é importante acolher a palavra que Nosso Senhor dirige a cada um dos mem- bros das nossas comunidades, e mais ainda aos Superiores: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei, e por isso entregai-vos!” Empenhai-vos em serdes os primeiros a vos entregar aos vossos irmãos! Empenhai-vos, todos os dias, para criar com a vossa contribuição pessoal um clima de verdadeira caridade: nunca errareis. Os frutos dessa doação, de um modo ou de outro, não faltarão, nem para os indivíduos, nem para as comunidades. É o que Nosso Senhor nos garante e a experiência de cada dia vai con- firmando.

  1. A pobreza

E como poderia faltar a pobreza numa comunidade que quer verdadeiramente dar testemunho da própria consagração perante as pessoas de fora, e — antes ainda — perante os próprios membros? Nós já sabemos. Depois do Concílio, em medida nunca vista no passado, sente-se a necessidade de uma coerência levada às últimas conse- quências na sequela de Cristo pobre.

Mas devemos reconhecer também que às muitas palavras que se disseram e escre- veram, ao menos em certa proporção, não corresponderam os fatos. Por exemplo: depois da minha carta sobre a pobreza, a par de esforços corajosos e dignos de louvor, constata-se também, cá e acolá, certa insensibilidade e às vezes uma penosa resistên- cia, certa atitude de defesa e justificação de situações que se foram estratificando com o correr do tempo, mas que não podem perdurar, sem que se comprometa a vida, a nossa verdadeira vida, que é antes de tudo religiosa, de consagrados, numa palavra, de voluntários pobres, portanto.

Se quisermos dar à Congregação um ar de juventude, se quisermos que as novas ge- rações aceitem a Congregação, o caminho obrigatório é o da pobreza vivida, praticada, mesmo no sofrimento. Pobreza sólida, não de retórica fácil e exibicionista, mas pobre- za que se encarna na vida e no estilo pessoal de cada um, nas roupas e nas viagens,  nos veículos e na alimentação, nas férias; pobreza que se respira na comunidade cujos membros, em ambientes simples, porém asseados, vivem do próprio trabalho que oferecem generosamente, segundo as próprias forças e possibilidades, à comunidade, sem egoísmos nem preferências pessoais, sem desigualdades em função dos próprios comodismos, inimigos mortais da paz e união fraterna; pobreza que se verifica nas obras atendidas segundo o carisma salesiano e no estilo que se confere a elas.

Deixando de atender ao apelo dessa pobreza, daremos alimento ao clima de abur- guesamento que é o anestésico maléfico do entusiasmo e do amor ao sacrifício e à renúncia, condições indispensáveis para uma vida religiosa e apostólica empenhada e fecunda, e para atrair vocações de valor para a Congregação.

  1. A alegria

Quereria, por fim, recordar que sem alegria a nossa vida religiosa seria como a de uma família condenada a viver num tugúrio onde não entra o sol. Parece-me poder dizer que há vocações que acabam falindo porque encontram na comunidade um cli- ma de frieza, às vezes de desalento, amargura e pessimismo; numa palavra muito usa- da, de frustração.

No espaço de uma carta como esta não é possível analisar a fundo tais estados de espírito. É verdade que as causas podem ser muitas, objetivas e subjetivas, com expli- cações que em certo sentido as justifiquem, ou então sem qualquer justificação.

Mas, sem descer a análises, quereria dizer: — Se os membros da comunidade vivem uma vida de fé, manifestada e alimentada pela oração e pela caridade fraterna (esse é o ponto), por uma pobreza generosa que nasce da vontade de seguir Jesus de perto, não é difícil viver ao menos com serenidade, apesar das inevitáveis ocasiões de obstá- culos, contradições e fraquezas.

Todavia, ainda diria algo a mais. Se acredito firmemente na minha vocação, se a vi- vo plenamente com espírito de fé, as ineficiências, as mesmas infidelidades de toda espécie por parte de quem convive comigo, não me abalam. Sei que me consagrei a Nosso Senhor e não aos homens; dele espero a palavra que recompense a minha con- sagração. Os grandes e verdadeiros santos, mesmo nos momentos mais obscuros da vida da Igreja, não se deram por vencidos, não desertaram, não perderam a esperança mesmo diante do descaminho de quem estivesse ao seu lado, em posição até de res- ponsabilidade. Sabiam, sentiam que a própria fidelidade se apoiava não em homens, mas em Nosso Senhor. “Scio cui credidi”. Daí o “nada te perturbe” de Dom Bosco. Isso, porém, não significa evidentemente insensibilidade nem indiferença.

Diante dos interesses, os autênticos interesses da Congregação, que são sempre meus, sem perder a paz, posso e devo desempenhar a minha parte, e isso especial- mente hoje, quando a Congregação convida todos os seus filhos a darem a própria contribuição ao processo de renovação que também a Igreja quer de nós. Todos co- nhecem as maneiras e os instrumentos dessa participação.

 

Atitudes erradas e prejudiciais

Há infelizmente outras atitudes vindas de motivos bem diferentes e em nada “edifi- cantes”.

Há às vezes na casa religiosa e talvez — por que não? — mesmo em casas salesia- nas, pessoas cujas palavras e mesmo o tom e a atitude habitual, denotam um coração exacerbado, cheio de amargura, diria, uma alma que continua a viver fisicamente den- tro das paredes da casa religiosa, sentando-se à mesa comum, gozando das suas van- tagens, mas permanece a ela alheada e até hostil. Quais seriam as causas desse estado de espírito?

Deixando de lado os casos de caráter psíquico, cito um ou outro à maneira de exemplo de uma vocação errada, que não se ajustou, uma vocação não retificada: é como a agulha magnética da bússola que se agita para todos os lados enquanto não encontra o seu norte. “Almas há que são tristes e cheias de amargura, porque não são o que deveriam ser”.

Ao lado desses casos, vem o de quem persiste em viver uma vida de compromisso, especialmente afetivo: diríamos que se trata de uma vida dupla, absolutamente in- compatível com os empenhos sagrados que assumiu. Um escritor, P. Fabi (Due mani piene di Dio), diz a esse respeito: “A raiz profunda de alguns descontentes, de alguns hipercríticos, com excessivas veleidades de evasões, saídas, insatisfações profundas, inexplicáveis, de exigências indefiníveis, de cansaço apostólico, a raiz profunda é esta: doença de coração. Não houve solução correta para o problema afetivo, faltou a su- blimação adequada, faltou a suficiente integração afetiva num sincero amor aos ir- mãos, aos Superiores”.

A experiência quotidiana nos faz tocar com a mão que o autor acertou em cheio. A quem se achasse nessas condições, nós repetimos a palavra de Nosso Senhor: “Nin- guém pode servir a dois senhores”. E que ele tire pessoalmente a conclusão, em vista de uma vida mais serena.

Mas pode haver também quem fale com pessimismo cheio de fel das coisas da Con- gregação, afirmando que nela permanece para “mandar tudo pelos ares”, e isso “por amor à Congregação”. Boas intenções à parte, claro que se trata de uma atitude que pelo menos causa muita perplexidade.

Antes de tudo, não se compreende como — por amor — se possa destratar dessa maneira a própria mãe, mesmo se cheia de defeitos. Mas, depois, os reformadores da Igreja, e o argumento vale muito bem para a Congregação, os que verdadeiramente a quiseram purificar e melhorar, não os que a dilaceraram e cobriram de lama, tiveram sempre um comportamento bem diverso. Nunca dinamitaram a casa da própria Mãe, para fazê-la desmoronar sem se preocuparem com as consequências; mas começaram a apresentar em sua própria pessoa, como refere um escritor, “a amostra do tecido que queriam vender”, ou, sem metáforas: apresentaram-se com um passado limpo e em regra, com uma vida religiosa e sacerdotal exemplar, que é o único sinal pelo qual se reconhecem os verdadeiros “profetas”. Além disso, ao invés de recorrerem a atitu- des demagógicas e demolidoras, que nada constroem, procederam com caridade e respeito, especialmente com a oração. Assim é que acabaram por ter razão. Esse é o caminho para demonstrar, com fatos, que se procura verdadeiramente a glória de Nosso Senhor, que se ama a Congregação e se deseja eficazmente a sua renovação.

Nestes momentos em que estamos sendo, por assim dizer, bombardeados de todos os lados, com solicitações e sugestões de toda espécie, penso ser útil dar atenção a observações tão simples e claras. Elas têm o único mérito de provirem de quem possui experiência de homens e coisas, e um grande amor à nossa Mãe, a Congregação.

 

Um motivo de confiança

Voltando ao argumento da alegria, embora entre mil ineficiências e incertezas, en- tre mil problemas e desilusões, temos motivos para cultivar a alegria e a confiança. Antes de mais nada, por sermos cristãos. Bernanos repreende-nos pelo fato de que, sendo cristãos, não se concebe tenhamos um rosto (e uma alma) triste. Que dizer en- tão da alma consagrada que crê e vive as palavras de Jesus: “Bem-aventurados os po- bres... Bem-aventurados os puros...”? Como ser triste o religioso que crê em Jesus- Verdade?

Depois, quando do meu escritório vou passando em resenha, como numa tela de cinema, os Salesianos espalhados por todos os continentes, encontro motivos tangí- veis, diria, de confiança, alegria e esperança. Esses são também os motivos da alegria de cada Salesiano. Temos sim, temos casos que inspiram compaixão (não somos, tal- vez, homens?); temos problemas que enfrentar e resolver (não somos, talvez, homens vivos?), problemas urgentes, que não nos dão trégua; mas temos, também, muitos e muitos Salesianos que não vivem promovendo debates ou mesas redondas, mas vivem as Bem-Aventuranças; servem realmente a Nosso Senhor; trabalham em silêncio, mas com inteligência e dedicação, para a glória de Deus; amam como filhos a Congregação; vivem intensamente os interesses que ela tem e demonstram-no, sofrendo em si, sem exacerbar as suas feridas, preocupados tão somente em mitigá-las.

Vejo esses milhares de irmãos e, entre eles, muitos jovens, outros já amadurecidos em idade, sobrecarregados de trabalhos, que, disseminados pelos continentes, se sa- crificam alegremente nas missões, nas paróquias populosas e muitas vezes paupérri- mas, nos leprosários, na periferia miserável das grandes cidades; vejo-os empenhados nos oratórios, no confessionário, na catequese, no meio de milhares e milhares de ór- fãos, de meninos, de jovens — operários, camponeses ou estudantes, não importa — aos quais se prodigalizam de corpo e alma, com autêntico heroísmo encoberto, porém, de encantadora simplicidade. Vejo muitos outros ainda, que, nas mais variadas ocupa- ções, das mais humildes às mais qualificadas, amam a Nosso Senhor in simplicitate cordis, apesar de ricos de cultura vasta e profunda. E o servem alegremente na pessoa do próximo sem se envolverem em problemáticas corrosivas.

Essa visão — que não é fantasia — é para mim motivo de confiança, otimismo e alegria, e deve sê-lo também para todos vós, caríssimos. A Congregação tem um mag- nífico potencial de homens que acreditam na própria vocação e prestam grande servi- ço à Igreja, enquanto vivem do melhor modo a própria consagração. Como poderíamos cair então numa atitude de desconfiança e desalento?

Em cada casa, em cada comunidade, alarguemos a visão para além do estreito cír- culo das pequenas deficiências locais. Reconhecendo o grande bem que existe e circula na Congregação, certamente sem desconhecer limitações e falhas, esforcemo-nos para ser, não digo fomentadores de otimismo vazio, mas realizadores de todas as condições preliminares que nos deem o direito de olhar para o porvir da Congregação com oti- mismo sadio e construtivo.

Caros irmãos, não saberia sugerir modo e meios diferentes dos que acima mencio- nei, a fim de que as nossas comunidades alimentem um clima que dê força e confiança para vivermos a nossa vocação.

Parece-me, aliás, que sem tais componentes — Oração, Caridade, Pobreza, trabalho e otimismo sadio — será difícil evitar as crises que tanto dano causam a todos.

 

As novas vocações

Se, todavia, o primeiro cuidado e a primeira responsabilidade diz respeito à nossa vocação pessoal e à dos nossos irmãos, não nos podemos desinteressar das futuras vocações.

Se nos sentimos parte viva da família, se amamos a Congregação e queremos que, renovada e rejuvenescida, continue no tempo a missão que lhe foi destinada pela Pro- vidência, não podemos deixar de nos interessar pela condição, que não se pode derro- gar, para a sobrevivência fecunda da Congregação: é o problema das novas vocações.

Em algumas Inspetorias (felizmente ainda são poucas) já se verifica uma média bas- tante alta da idade dos irmãos. Isso demonstra claramente a diminuição numérica de novas vocações, diminuição que não é de hoje.

Tenho presente que o problema é difícil e complexo. Mais que repetir lamúrias e ca- talogar dificuldades e obstáculos, Dom Bosco nos ensina a superá-los com confiança e ao mesmo tempo com a coragem de olhar para a realidade e pôr em prática as medi- das adequadas. É trabalho urgente e bem mais importante do que construir novos edi- fícios ou quadras esportivas.

Uma afirmação preliminar. Há vocações. Ao menos em germe elas existem. A afir- mação não é minha, mas de um psicólogo orientador em escolas estatais. Depois de ter examinado milhares de rapazes, dos 12 aos 15 anos de idade, verificou que certa porcentagem demonstrava vocação sacerdotal ou religiosa.

Embora dando o valor que se pode dar a uma “vocação” nessa idade, o fato é que, em ambientes não certamente atendidos do ponto de vista religioso, se manifestem os germes vocacionais. Vem, pois, espontânea a pergunta: “Será possível que também nos milhares de alunos e oratorianos das nossas casas, não haja meninos com germes de vocação?”

Esse ponto é fundamental.

Diz-se muitas vezes — e no-lo repetem também vozes externas — as vocações de- vem surgir do nosso mundo juvenil. É verdade: de várias partes nos estão lembrando que nos primeiros tempos da Congregação, com Dom Bosco e depois dele, as vocações provinham dos nossos ambientes. Devemos até dizer que a nossa Congregação tem entre suas finalidades a promoção das vocações. Perguntemos então: “O que fazemos para promovê-las (e a palavra encerra um conjunto de consequências) e o que não fa- zemos, enquanto poderíamos e deveríamos fazer?” Certamente, se cada comunidade criar um clima favorável para que as vocações germinem, elas hão de aparecer. Esse clima, porém, é fruto do trabalho de todos; clima de alegria serena, de caridade entre os irmãos, e entre estes e os meninos; clima de trabalho e sacrifício generoso (não de vida mais ou menos hedonista e mundana); clima missionário, salesiano, onde não se tem medo de tornar conhecidos a vida e o estilo da Congregação e de Dom Bosco; cli- ma de clara piedade litúrgica e mariana; clima, enfim, de amizade cristã que se mani- festa também nos contatos pessoais com os meninos.

Num ambiente assim animado, a ação discreta, mas inteligente e, mais ainda, per- passada de fé, ação digo do Diretor, do Catequista, do bom Confessor, de simples sa- cerdotes e coadjutores, muito dificilmente deixará de produzir seus frutos.

Por outro lado, está comprovado que, não obstante toda a avalanche de uma litera- tura que nos apresenta a juventude de hoje como desvairada, vítima do sexo, das dro- gas, da revolução, a realidade põe diante de nós, todos os dias, muitos e muitos jovens não só disponíveis, mas ainda abertamente decididos contra qualquer forma de medi- ocridade ou renúncia às responsabilidades. Esses jovens dão-nos muitas vezes lições  de generosidade e doação, que ecoam uma reprovação ao medo que temos de empe- nhá-los a fundo. A verdade é que nós, por primeiro, devemos ser e mostrar-nos seria- mente empenhados e coerentes.

 

Uma instituição sempre atual

A esta altura é oportuna uma palavra a propósito de polêmicas a respeito das casas que tradicionalmente chamamos “aspirantados”, ou também “seminários menores”...

Bem sei que há fortes correntes contra esses Institutos; conheço as críticas que se fazem cá e acolá; sei também que, depois das críticas demolidoras, feitas nos anos passados, sucederam-se juízos bem mais ponderados, prudentes e construtivos. Quero dizer que, após a experiência totalmente negativa da abolição desses Institutos e estu- dos mais profundos de especialistas, muitas Dioceses e Institutos religiosos tiveram que rever posições, reconhecendo como válida a ideia do “seminário menor”; mas revendo, também e profundamente, sua feição e estrutura.

É meu dever acrescentar que um estudo, feito pela União dos Superiores Gerais, chegou a esta conclusão que exponho em síntese: um candidato pode muito bem amadurecer num seminário menor, desde que se lhe dê formação adequada às neces- sidades da idade que tem e com mais abertura do que no passado.

O Cardeal Pellegrino, depois de ter dito que “os seminários menores (a que cha- mamos aspirantados) constituem ainda instrumento necessário, ao qual não podemos renunciar, para o recrutamento em geral e para o cultivo das vocações”, acrescenta: “Parece-me sermos ingenuamente presunçosos quando pretendemos indicar a Deus a idade e momento em que deva fazer ouvir a sua voz!”

O estudo dos Superiores Gerais conclui assim: “O seminário menor, numa ou noutra forma (internato, semi-internato, aulas em outros Institutos religiosos que mereçam toda a confiança...) deve, por quanto possível, ser mantido. As despesas são grandes; mas não devemos calcular a renda unicamente pelo número dos que atingem a meta”.

E nós, o que faremos? Antes de tudo perguntaria: Temos vocações vindas das obras em que trabalhamos? Infelizmente a resposta não é muito confortadora. Pouquíssi- mas, mesmo sendo verdade que há belas e consoladoras exceções.

Como então poderemos tranquilamente eliminar Institutos que, com devidos e sa- dios ajornamentos, em ambiente de bem-entendida abertura e liberdade, organizados e dirigidos à luz dos documentos conciliares e pós-conciliares e da Congregação, sejam apropriados para desenvolver os germes de vocação que se podem encontrar em de- terminados indivíduos com elementos de vocabilidade?

Parece-me que eliminar esses Institutos seria trair a Congregação, dar-lhe golpe mortal. Mas, isto dito, devo logo acrescentar: reconheço que as melhores vocações devem ser recrutadas em nossas obras: oratórios e centros juvenis (campos mais fe- cundos de magníficas vocações salesianas), colégios, pensionatos, paróquias. Sobretu- do, o surgimento dessas vocações será a “prova dos nove” de que a nossa comunidade soube criar o clima em que os misteriosos germes da vocação encontram modo de se manifestar e desenvolver.

Mas enquanto não isso não acontecer, poderemos, em consciência, fechar as casas criadas para as vocações? Penso que ninguém que tenha consciente sentido de res- ponsabilidade ousará responder afirmativamente.2

 

Renovar sem extremismos

É claro que em muitos aspectos os aspirantados devem ser postos num plano dife- rente em relação ao passado. Não quero com isso de modo algum encorajar certos extremismos, de efeitos absolutamente negativos, que todos, e não só os Inspetores, conhecem. Vou ser mais explícito. Em alguns lugares, substituiu-se, de um momento para outro, um regime fechado, como de estufa, por outro de liberdade sem controle, permitindo até o que nenhum colégio discretamente sério, e muito menos pais consci- entes de seus deveres de educadores, teriam tolerado. Perdeu-se o senso do equilíbrio e da gradualidade, confundindo desafortunadamente a educação para a liberdade — que é exercício progressivo de algo a ser graduado inteligentemente — com a con- cessão de indiscriminada e liberdade não razoável, de que os mesmos jovens mais ma- duros se lamentaram, protestando contra esses graves erros de seus educadores. Não quereria ser mal-entendido. Embora tenha que me repetir, afirmo: — Nos aspiranta- dos (e de maneira semelhante nas outras casas de formação) é preciso que se faça o ajornamento. É preciso, pois, que se estudem seriamente os documentos das autori- dades competentes (não o primeiro artigo de revista de quem só tem um conhecimen- to superficial desses problemas); organizem-se planos e programas, não aéreos, teóri- cos e abstratos, mas tendo em vista o tipo de meninos e jovens, a idade, o ambiente familiar e social em que viveram, o ano de estudos em que estão (uma coisa é o meni- no das primeiras séries, outra é o rapaz que está nas últimas séries antes do novicia- do).

 

Ponto importantíssimo: a seleção das vocações

Especialmente sobre um ponto desejo pedir a atenção, sobretudo dos irmãos dire- tamente encarregados da questão das vocações: a seleção. Devemos falar claramente. Mesmo com boa intenção, muitas vezes, teve-se a preocuparão do número das voca- ções. Por vários motivos a seleção foi falha. Infelizmente, com o correr dos anos, se vai verificando muitas vezes o efeito negativo de uma seleção falha.

2 Enquanto se está imprimindo esta carta, a Sagrada Congregação para a Educação Católica publica a “Ratio fundamentalis” da formação sacerdotal. Nela se encontram orientações e normas muito úteis também para os “Seminários menores”. É um documento fundamental que deve ser conhecido e estu- dado especialmente pelos Inspetores e nas Casas de formação

Não me esqueço da palavra que ouvi de um sacerdote de larga experiência na for- mação de religiosos: cinco candidatos medíocres não dão um bom religioso. O que de- vemos então dizer de alguém que fizesse ir para a frente candidatos que têm verdadei- ras contraindicações? Todos os documentos pontifícios, conciliares e salesianos são concordes na exigência de uma seleção rigorosa. Isso não só no início dos estudos, mas durante todo o tempo da prova. E em todos os documentos se acentua claramente não ser suficiente a ausência de fatos graves, mas requer-se a existência de qualidades humanas e espirituais, para se dar um parecer positivo.

Muitas e muitas lágrimas bem amargas não teria chorado e não choraria a Congre- gação, se, no momento oportuno, tivesse sido feita a devida e necessária seleção, de acordo com os critérios indicados. Teria sido mesmo um ato de caridade para com o candidato. Pois diante de certas carências e perturbações psicológicas do caráter ou diante de certas manifestações de temperamento, é pelo menos ingênuo pensar em “salvar vocações”. Pelo contrário, “salvam-se” endereçando-se a um caminho mais consentâneo indicado pela Providência: pois não há verdadeira vocação religiosa quan- do faltam dotes essenciais, que nunca poderão ser supridos nem compensados com outras qualidades.

E hoje, especialmente no período dos 16 aos 25 anos de idade, é necessário que se dê atenção especial às ideias. Não pode ser religioso e salesiano quem já nos anos de prova é intelectualmente rebelde a claros e graves ensinamentos da Igreja e do Papa; quem não aceita, e até despreza, as normas essenciais que regulam a vida religiosa e salesiana. Convém recordar que essas ideias são elementos ainda mais negativos do que certos fatos esporádicos, fruto às vezes de leviandade. Atentos, pois, a certas for- mas, que diríamos demagógicas, muitas vezes explosões exteriores de graves proble- mas pessoais não resolvidos, mas que criam confusão na comunidade, especialmente nas casas de formação. Proceda-se com coragem, embora envolvida pela caridade e a paciência, que não pode ser confundida, porém, com fraqueza bonachona ou com me- do camuflado de prudência. O Superior deve defender os direitos da comunidade. Não pode deixá-la à mercê de quem, com atos e mais ainda com ideias, se põe contra a comunidade e fora da Congregação.

Finalmente pediria a quantos se devem ocupar com esses problemas: resistamos, a todo custo, contra a preocupação com o número e as lacunas a preencher em postos de trabalho. Não é esse, principalmente hoje, o caminho adequado para ter as voca- ções necessárias à Congregação. Os nossos são tempos de autenticidade.

Caríssimos Irmãos,

é tempo de concluir esta minha longa carta. Procurei falar-vos de coração aberto, sem eufemismos cômodos, mas também sem pessimismos obscuros, sobre o tema vital da vocação salesiana diante das crises que a ameaçam.

Tomo emprestado dois pensamentos que se integram mutuamente e apresentam, de maneira sintética, os sentimentos e atitudes que devem ser nossos, diante da ques- tão da vocação.

O primeiro pensamento é do P. Anastasio, profundo pesquisador de espiritualidade da vida religiosa, Superior Geral emérito dos Carmelitas Descalços:

“... façamos o nosso exame de consciência e, em vez de nos colocarmos diante de Nosso Senhor, dizendo: 'Senhor, Senhor, porque não nos mandas vocações?', digamoslhe com muita humildade: 'Senhor, tem piedade de nós, que tornamos a vida religiosa tão pouco resplandecente, tão pouco contagiante. Perdoa-nos por termos feito dela mais uma realidade arqueológica do que uma aventura profética. Isso por falta de co- munhão e por falta de compreensão daquilo que ela é no mistério da Igreja e no misté- rio do teu Cristo” (In Ascolto di Dio).

O outro pensamento é de Paulo VI:

“... Nós gostaríamos de infundir em vós o conforto que vem da certeza de saber que se caminha pelo bom caminho... Dizemo-lo a vós, religiosos, atacados pelas críticas  que se fazem à opção magnânima que qualifica a vossa vida: escolhestes a ‘melhor parte’ e se fordes fiéis e fortes em vossa vocação singular, ‘ninguém a tirará de vós’. Deveis saber aderir com firmeza à santa Igreja, da qual sois membros vivos e santos; e não tenhais medo; ouvi, apesar do vozerio confuso que vos rodeia, a voz segura e infa- lível, porque voz divina, voz de Cristo: ‘Tende confiança, Eu venci o mundo’ (Jo 16,33)”. (Osservatore Romano, 14-1-1970).

Caríssimos, só nos resta dirigir a nossa oração à Virgem Auxiliadora, Mãe da Igreja e da Congregação: que Ela nos ajude a transformar em ação corajosa e fecunda os nu- merosos apelos que recebemos desta carta.

Que nosso Pai nos abençoe a todos. Rezemos sempre ad invicem.

Af.mo,

Luís Ricceri Reitor Mor

IMPORTANTE

Creio conveniente que se faça não somente a leitura comunitária desta carta no momento e lugar mais oportuno, mas seja também objeto de comentários e debates, para que em todas as Comunidades tirem dela para si as conclusões práticas que mais convierem.

 

A CONGREGAÇÃO E O SUBDESENVOLVIMENTO

Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 261

Reações à última carta do Reitor-Mor. – Encontro fraterno de gerações. – A experiência do “segundo noviciado” na América Latina. – A redescoberta da oração. – Não perder o contato com a fonte. – O dramático problema do “subdesenvolvimento”. – A “geografia” da fome. – A tomada de consciência dos povos “subdesenvolvidos”. – O subdesenvolvimento não só um fato econômico. – A corajosa presença da Igreja. – A Congregação diante do subdesenvolvimento. – A ação concreta da Congregação. – Renovado empenho da Congregação para o futuro. – Uma responsabilidade comum. – Nenhuma conivência com a riqueza, com o poder. – Sempre no âmbito da caridade. – Libertar-se de uma mentalidade burguesa. – Dar a nossa contribuição pessoal. – Esclareçamos as ideias relativas ao nosso apostolado. – A nossa vocação de “educadores”. – Uma fórmula sempre válida. – Uma educação libertadora. – Façamos um exame de consciência. – Eduquemos os jovens à socialidade. – A nossa preferência é sempre mais pelos pobres. – “Integração” das diversas obras. – Olhemos corajosamente para a realidade.

Turim, 1º de julho de 1970.

Irmãos e filhos caríssimos,

Por diversas circunstâncias fui obrigado a adiar este nosso encontro periódico, encontro este tão agradável para mim e, espero, igualmente apreciado e útil para vós.

 

Reações à última carta do Reitor Mor

Pude constatar, através de grande número de cartas que me chegaram às mãos, que a minha carta de março, sobre “a crise das vocações”, suscitou, um pouco em todas as parte, reações positivas, sobretudo porque mais profundamente tomamos consciência da responsabilidade que cada um de nós tem de cuidar constantemente, antes de tudo da própria vocação, e, ao mesmo tempo, da dos irmãos que vivem na comunidade, e dos que, entrando em contato conosco, sentem o desejo de seguir de perto a Jesus Cristo, com o carisma de Dom Bosco.

Dentre as muitíssimas cartas que recebi e que se referiam a esse assunto tão vital, quero escolher uma que me parece condensar os sentimentos expressos por muitos ir- mãos. O remetente é um Salesiano jovem, estudante numa Universidade Pontifícia. Penso ser de agrado de todos que eu lhes cite as passagens mais significativas: parecem-me estar imbuídas daquele equilíbrio sereno, que é a condição fundamental para o trabalho construtivo que, neste momento, cada um de nós está convidado a oferecer à Congregação, como contribuição pessoal.

“... Gostaria de sintetizar tudo o que senti ao meditar suas palavras num ‘obrigado’, que fosse ao mesmo tempo uma promessa de empenho para traduzi-las em vida. Obri- gado, sobretudo, pela compreensão tão profunda dos problemas e as inquietudes que possuem os Salesianos jovens. Sua carta dá-nos a conhecer que seus olhos contemplam alternadamente a duas faces da Congregação: depois da análise dolorosa e amorosamente severa dos excessos, fraquezas e imprudências, segue-se imediatamente a compreensão de tudo o que é válido. Não há dúvidas de que, pensando em tantos Salesianos fiéis, o otimismo se impõe. O senhor sabe muito bem que há muitos jovens que buscam, com sinceridade e amor, um caminho; o senhor sabe que por detrás da impetuosidade própria da idade e do mesmo entusiasmo, esconde-se um verdadeiro desejo de fazer com que o carisma de Dom Bosco penetre no mundo em que vivemos para salvá-lo. Penso em Dom Bosco que orientou com profunda compreensão a impetuosidade de um Cagliero e de um Magone”.

“Lamentavelmente, ouvem-se apenas os protestos dos amargurados. E, muitas vezes, nós, jovens, somos julgados em bloco, como se todos fôssemos como alguns poucos. Estou perfeitamente convencido de que muitos clérigos subscreveriam estes sentimentos, e é justamente por este motivo que lhe escrevo estas linhas em nome daqueles que não gritam, mas trabalham para mudar o que deve ser mudado. Sua carta nos servirá de auxílio para um empenho maior. No silêncio da meditação as suas palavras farão grande bem”.

“Creio que as suas palavras farão refletir também os mais velhos e sobretudo o fará o exemplo deles. Um colega me dizia uma vez: — O padre fulano me reconciliou com a Congregação! — Precisamos desses Salesianos que nos reconciliem com a realidade, conosco mesmos; isto não quer dizer que devam aprovar tudo..., o senhor compreende. A ‘transmissão’, esse é o nosso problema vital. Nós, jovens, não  podemos partir do nada. Há valores que devem ser absolutamente ‘transmitidos’, porque são os que fazem a Congregação”.

“Costuma-se dizer que o futuro está em nossas mãos. Mas eu diria que ele não está menos nas mãos dos nossos mais velhos; a afirmação é sua quando, numa ocasião, garantia que os filhos são iguais ao fundo dos pensamentos dos pais. Se o futuro não pode ser construído sem o passado, então o nosso futuro não depende apenas de nós. Somente o espírito de família e a comunidade podem ser o clima propício para essa transmissão. Não se canse, Pai, de insistir. O fato de querermos ser adultos, filhos adultos, como é justo, não pode destruir a família; querermos evitar a massa não deve eliminar a comunidade e fazer-nos passar diretamente ao individualismo. Tenho receio, e muitos comigo, que a busca exagerada da técnica da organização, por mais democrática que queira ser, termine por matar justamente aquilo pelo que somos invejados: a familiaridade. Um religioso me dizia: — Vocês poderão ter os defeitos que tiverem, mas se perderem o espírito de família, não serão mais Salesianos...!”.

“...Caríssimo Pai, creio que como eu muitos jovens esperam reconhecidos suas palavras de otimismo e orientação. Certamente, direta ou indiretamente, alguma voz de protesto chegará ao senhor. Mas nas dificuldades e na dor — dimensão esta que hoje é própria de qualquer autoridade (penso no pobre do Papa!) — continue ouvindo com ouvido atento este grito silencioso, que não faz alarde e que se levanta de tantos Salesianos jovens que estão ao seu lado. Siga adiante, caro Pai, que a verdade afinal acaba por se impor, no íntimo da alma; lá onde não nos interessam a popularidade e a aparência superficial de uma modernidade demagógica, cuja falsidade não resiste diante de uma meditação profunda e sincera...”.

 

Encontro fraterno de gerações

A longa citação convida a todos, novos e velhos, a refletirem. Na busca sincera e humilde do verdadeiro bem da Congregação, no que todos têm algo de positivo para dar e receber; no encontro fraterno entre as diversas gerações e mentalidades, conscientes de que todas são necessárias, e ao mesmo tempo todas são complementares; e especialmente na caridade vivida verbo et opere, corde et animo em cada comunidade, encontraremos o caminho seguro para dar embalo, vigor e fecundidade à nossa vocação, hoje mais que nunca tão válida e rica de motivações.

Ao terminar este ponto, quereria evidenciar que nos defrontamos com problemas incontáveis, complexos e urgentes, que interessam à mesma vida da Congregação e de todas as Inspetorias. Não podemos evitá-los nem os subestimar; devemos enfrentá-los para encontrar uma solução adequada par eles. Mas para tanto o verdadeiro método é um só: integrar-nos, ajudar-nos, pondo em comum todas as forças, não para alimentar tensões emocionais, nem para escavar abismos, mas no intento único de lançar pontes a fim de conseguirmos vencer obstáculos e dificuldades: na união de todas as forças — que são muitas e muito válidas — encontraremos a salvação. A desunião nos levaria à mais triste desintegração.

 

A experiência do “segundo noviciado” na América Latina

Mudando de assunto, todos souberam que no primeiro semestre passei várias semanas na América Latina: entre outras coisas, tive a alegria de encontrar-me com os irmãos sacerdotes que faziam a primeira experiência do assim chamado “segundo noviciado”, desejado pelo 19º Capítulo Geral.

Deve-se dizer que, mesmo com as limitações e imperfeições próprias de uma experiência, especialmente por ser totalmente nova, os irmãos que participaram são unânimes em reconhecer as grandes vantagens que dele tiraram. Evidencio algumas afirmações significativas, que os participantes quiseram dar ao final do “Curso de Atualização Ascético-Pastoral” (esse foi o nome dado ao segundo noviciado).

“Foi um bem fundamental ter dado ao curso uma entoação principalmente espiritual, sobre bases teológicas. As aulas de teologia atual, de teologia bíblica e moral, de psicologia religiosa, abriram-nos horizontes mais amplos e claros na vida cristã, salesiana, sacerdotal...”.

“As ideias teológicas, que dia a dia pudemos assimilar, nos servirão para melhor atuar o nosso apostolado, sobretudo porque, graças ao professor, transformamos a teologia em vida...”.

“Tivemos tempo e modo de reorganizar a nossa vida, reconhecendo nossas grandes limitações, que impedem a eficácia de nossa ação...”.

“O curso, com horas de estudo e reflexão, deu-me maior segurança no sacerdócio, tornando-me mais responsável no meu compromisso com Cristo...”.

“Viveu-se uma verdadeira fraternidade religiosa, com diálogo entre superiores e irmãos, e mútua compreensão no suportar-se, dada a grande diversidade de caracteres”.

“Exemplar a disponibilidade para servir à mesa, para a limpeza da casa e a dedicação de muitos irmãos que deram tudo de si para o bom andamento do curso, trabalhando por horas e horas...”.

Parece-me que uma síntese dos juízos tão variados e positivos sobre o Curso encontra-se na carta coletiva que os irmãos, por meu intermédio, quiseram mandar a todos os irmãos da Congregação.

“... Com a reflexão e o estudo — dizem eles — tocamos com as mãos a necessidade urgente que existe na Congregação de preencher o vazio espiritual que o trabalho e a pressa com que se vive, impedem de ver em toda a sua tremenda realidade. Estamos convencidos de que, sem uma profunda base espiritual, o nosso trabalho apostólico se torna sempre menos eficaz e, dada a mutabilidade do ambiente em que vivemos, diminui a nossa criatividade apostólica”.

“Estamos plenamente satisfeitos e sinceramente cheios de alegria e entusiasmo. Foi um encontro com Deus, conosco mesmos, com a Congregação, com os irmãos, em nível de Igreja. Saímos desse encontro revitalizados e enriquecidos sob todos os aspectos”.

 

A redescoberta da oração

Às palavras tão ricas desses queridos irmãos, desejo acrescentar uma consideração que, além do mais, nos põe em sintonia com um dos motivos mais insistentes que ocorrem (compreende-se porque) antes que em minhas falas, intervenções, circulares, etc. nas palavras do Santo Padre o Papa e de quem quer que sinta, especialmente  hoje, a pesada responsabilidade de guiar almas religiosas.

Em todos os encontros que mantive, seja com cada um dos participantes do curso, seja com a comunidade reunida, seja, ainda, com os membros da equipe responsável pelo curso, um sentimento emergiu claro, sincero e jubiloso: os irmãos do “Curso de Atualização” sentiam-se felizes e profundamente agradecidos à Congregação, porque nos seis meses passados em San Antonio de los Altos, ao mesmo tempo que se deram conta do vazio criado pelos anos no profundo de sua alma em meio a uma vida tão ativa e movimentada, haviam feito a jubilosa e exaltante redescoberta da oração. É um grande apelo esse que nos chega de San Antonio de los Altos.

O nosso P. Aubry, no seu pequeno e substancioso volume, Teologia da Vida Religiosa, evidencia que a vida de oração do religioso de vida ativa (é o nosso caso), na linha do Perfectae Caritatis, não pode ser concebida como uma coisa a se: o liame entre oração e ação é definitivamente muito mais sólido porque se tornou intrínseco. Mas logo a seguir acrescenta que o novo papel da oração não diminui a necessidade absoluta da oração; tanto pela natureza da nossa vocação de consagrados, de pessoas, portanto, consagradas a Deus (e a oração é uma forma viva e eficaz de dedicação a Deus), quanto para haurir, da fonte viva que promana do contato com Deus, energias indispensáveis na luta quotidiana contra as forças do maligno, quanto, enfim, para a eficácia e a fecundidade do nosso mesmo apostolado, de qualquer apostolado.

 

Não perder o contato com a fonte

Convém, pois, recordar que cada um de nós nada mais é que um “enviado”, um instrumento. Se o Salesiano, como aliás qualquer apóstolo, se afastar da fonte, não será mais nada: “Sem mim nada podeis fazer”. São palavras que à luz da experiência quotidiana se revelam cheias de espantosa verdade.

Temos diante dos olhos casos muito tristes de elementos brilhantes e muito ativos que chegavam a despertar admiração e palmas, mas que em seguida desmoronaram miseravelmente: por dentro estavam vazios...

É por isso necessário verificar incessantemente junto ao Mestre a verdade da própria “dependência” dele, porque, hoje mais do que nunca, é muito comum o “pecado apostólico” de procurar a si mesmo e dar preferência às próprias opiniões pessoais. E é justamente este pecado que cria as aparências ilusórias de uma atividade apostólica fecunda seja para o apóstolo seja para as almas.

Convençamo-nos: somente na oração se realiza o “contato” pelo qual o apóstolo, o Salesiano, vive o “mistério” que, antes, ele mesmo deve encarnar em sua vida, para depois comunicar aos demais. Não se trata de transmitir uma lição preparada com diligência e apresentada corretamente. Não se trata de um trabalho de funcionário, a executar com precisão. Trata-se de dar “testemunho”, e, até certo ponto, trata-se de comunicar uma experiência vivida. As palavras de S. João exprimem com extrema clareza esta realidade: “O que nós vimos e tocamos, isso nós vos anunciamos”.1

Concluindo, desejaria, caríssimos irmãos, que a experiência feita pelos irmãos do “Curso de Atualização” servisse, mais uma vez, para nos dar esta convicção profunda e concreta: o Salesiano que não reza é um contrassenso; sua ação, seja ela qual fôr, está destinada a degradar-se num ativismo puramente humano: será a ação de um motor rodando em falso: nada produz e acaba por fundir-se.

Olhemos, ao invés, para tantos irmãos que, mesmo sem conhecer “escolas e problemáticas de espiritualidade”, vivem a própria fé com simplicidade e coerência, sem racionalismos, mas na escuta humilde da Palavra de Deus, e, portanto, em  contato filial, confiante e encorajador com o Pai e com Jesus Cristo, seu Filho e nosso Irmão.

A Congregação, pela graça de Deus, é rica de tais irmãos: muitos deles realizam verdadeiras maravilhas no seu apostolado, mesmo em condições muito difíceis. É o fruto evidente daquele “incremento” que somente pode brotar do contato com a fonte da verdadeira vida.

                                              

1 Cf. Jo 1,1.

 

O dramático problema do “subdesenvolvimento”

Acenei à minha viagem à América Latina: uma das finalidades era encontrar-me  com os Inspetores da América Latina, em três capitais, para verificar a atuação das deliberações tomadas na reunião de Caracas em 1968.

Nesses encontros, interessava-me muito tratar de um assunto bastante importante: a posição da nossa Congregação diante do problema do subdesenvolvimento.

Tratamos dele amplamente, fixando orientações claras e tomando deliberações práticas.

Agora, nesta carta, desejo expor a todos vós as grandes linhas das ideias e orientações expostas nos três encontros, ajuntando indicações e sugestões, que, de algum modo, vão interessar a todos.

De fato, como homens, como cristãos, e mais ainda como salesianos, devemos sentir-nos interessados no problema do subdesenvolvimento.

A gravidade desse problema, que não conhece fronteiras e que interessa ao mundo inteiro, e o fato, mais decisivo ainda, de o subdesenvolvimento chamar em causa o nosso carisma e a nossa missão de Salesianos, induziram-me a escolhê-lo como tema central desta minha carta. E o faço pensando nos milhares de Salesianos que vivem trabalhando nas duas terças partes do mundo onde a fome impera...

O “subdesenvolvimento” e o seu correlativo “desenvolvimento” são problemas muito complexos. Os mesmos especialistas não estão de acordo na definição, ou melhor, na caracterização do subdesenvolvimento.

O P. Lebret, conhecido especialista na matéria, enumera as seguintes características: a) baixa renda nacional per capita, b) subalimentação de parte importante da população e difusão das doenças de massa, c) agricultura primária, ro- tineira, não mecanizada, d) deficiente densidade de infraestruturas (estradas, produção de energia elétrica, hidráulica, térmica, movimento nos portos, etc.), e) fraca industrialização, f) analfabetismo, g) falta ou insuficiência de técnicos ou cientistas etc.2

A Encíclica Populorum Progressio descreve dramaticamente algumas das situações desumanas que acompanham o subdesenvolvimento: “as carências materiais daqueles que estão privados do mínimo vital, e as carências morais daqueles que estão mutilados pelo egoísmo; as estruturas opressoras, quer venham dos abusos da propriedade ou dos abusos do poder; quer da exploração dos trabalhadores ou das injustiças das transações”.3 “Criam-se deste modo situações cuja injustiça clama aos céus. Quando populações inteiras, desprovidas do necessário, vivem num estado de dependência tal, que se lhes impeça qualquer iniciativa ou responsabilidade e, também, qualquer possibilidade de promoção cultural e de participação à vida social e política, grande se torna a tentação de afastar com a violência tais injúrias à dignidade humana”.4

                                              
2 P. LEBRET, Dynamique concrète du développement, Paris 1961.
3 Populorum Progressio, n, 21.
4 Ib., n.4.

 

A “geografia” da fome

Fala-se hoje de uma “geografia da fome” e este mapa trágico abarca dois terços da população mundial. É claro que existem diferenças.

Nem todos certamente devem suportar a sorte desumana daqueles que “todos os dias devem ir procurar no lixo o seu alimento ou daqueles que pela manhã são recolhidos porque morreram de fome durante a noite em algumas grandes cidades da Ásia”. Mas em todos os lugares, nesta “geografia”, encontra-se uma constante trágica: a esquálida miséria com seu séquito: doenças, ignorância, atraso, insegurança, opres- são etc. Houve quem observasse com razão que é ilusório falar de inteligência e de liberdade quando se tem um nível infra-humano de vida. “Quando será que o mundo ocidental vai tomar consciência do fato que também a miséria aniquila a criatura humana, reduzindo-a a um aviltamento infra-humano? Quando irá compreender deveras que “liberdade” é expressão oca e sem sentido para aquele cuja casa não me- rece o nome de casa, cuja comida não alimenta, que não tem com que se vestir, nem tem um mínimo de possibilidades de educação e de verdadeiro trabalho?”.5

  1. Hélder Câmara, numa entrevista com Pedro Gheddo, dizia: “Penso com frequência que esses dons divinos (a inteligência, a liberdade) são quase que um luxo para quem vive num nível infra-humano. Para que serve neste caso a inteligência, para que serve a liberdade? Afirma-se muitas vezes: — É necessário respeitar a pessoa humana, a liberdade do indivíduo. — Muito justo! Mas é necessário acrescentar que se exigem condições preliminares para que a pessoa humana possa exprimir-se, para que a inteligência e a liberdade possam servir para alguma coisa. Para quem vive num estado de subnutrição, tudo se atrofia: a inteligência, a dignidade humana e o senso da liberdade pessoal...”.6

 

A tomada de consciência dos povos subdesenvolvidos

Esta situação, já de per si tão grave, torna-se gravíssima, antes de tudo porque os meios de comunicação social levam a essa tomada de consciência, não somente os interessados, que têm o sacrossanto direito de ter os olhos abertos, mas também a humanidade inteira, em escala mundial. O Santo Padre já o notava em 1965 para o Episcopado da América Latina: “... A massa da população toma sempre mais cons- ciência de suas incômodas condições de vida e cultiva um desejo irreprimível e bem justificado de mudanças satisfatórias, manifestando, às vezes de modo violento, uma insatisfação crescente, que poderia constituir-se numa ameaça para as mesmas estruturas fundamentais de uma sociedade bem organizada”.7 E aos camponeses da Colômbia, por ocasião do Congresso Eucarístico de 1968, dizia: “Conhecemos as vossas condições de vida: para muitos de vós são condições miseráveis, inferiores, muitas vezes, às necessidades normais da vida humana. É certo que, neste momento, nos escutais em silêncio. Mas bem que nós ouvimos o clamor que se eleva dos vossos sofrimentos e dos sofrimentos da maior parte da humanidade”. E depois de lembrar o que a Igreja fizera no passado com as suas Encíclicas sociais, acrescentava: “Hoje, porém, o problema se tornou grave, porque vós tomastes consciência das vossas necessidades e dos vossos sofrimentos e, como muitos outros no mundo, não podeis tolerar que semelhantes condições durem para sempre e não sejam remediadas solicitamente”.8

O sociólogo P. Houtart explica ainda: “Graças à expansão dos meios de comunicação, que permitem intercâmbios velozes, tanto de coisas como de ideias, a humanidade vive uma vida com dimensões planetárias. Se o fenômeno nos demonstra a unidade do gênero humano, apesar das diferenças culturais, também provoca a indiscutível tomada de consciência dos desequilíbrios que dividem o mundo de hoje. O homem dos países do Terceiro Mundo tem sofrido até agora física e moralmente os efeitos desses desequilíbrios. Mas agrava-se ainda mais a situação, quando as causas profundas são postas às claras. Por que então estranharmos se cresce o sentimento de uma profunda injustiça?”.9

Para aumentar a gravidade da situação contribui também o desnível  crescente entre ricos e pobres, quer se trate de indivíduos, quer se trate de nações. Alguém disse que a pobreza é um subproduto do bem-estar e que as nações subdesenvolvidas são, em parte, o tributo pago para o desenvolvimento das outras. Dessa forma, enquanto alguns países aumentam a riqueza e o bem-estar, os outros se afundam, em vertiginosa progressão geométrica, na miséria.

A Populorum Progressio declara-o corajosamente: “É necessário apressar-se: muitos homens sofrem, e aumenta a distância que separa o progresso de uns e a estagnação, para não dizer involução, de outros”.10 E adverte que para resolver a situação não basta somente a iniciativa individual e o simples jogo da concorrência: “Não se pode correr o risco de aumentar ainda mais a riqueza dos ricos e o poder dos fortes, reforçando a miséria dos pobres e tornando mais pesada a escravidão dos oprimidos”.11

Para confirmar essas angustiantes verdades basta olhar para as estatísticas. Cito apenas uma, mas que fala por si: em 1939 o nível de vida dos Estados Unidos era 15 vezes superior ao da Índia. Hoje é 35 vezes maior.

                                              
5 H. CÂMARA, Terzo Mondo defraudato, Milão 1969, p. 27.
6 Ib. p. 39
7 Encicliche e Discorsi di Paulo VI, Ed. Paoline, VIII, p. 177.
8 Ib., p. 437ss.
9 P. HOUTART, La Chiesa di fronte allo sviluppo del Terzo Mondo, in Teologia del Rinnovamento, Assis, p. 115.
10 Populorum Progressio, n. 29.
11 Ib., n. 33.

 

O subdesenvolvimento não é só um fato económico

As citações feitas acima evidenciam principalmente a parte econômica, a fome, a miséria. Não deixa de ser um aspecto muito importante do subdesenvolvimento. Mas não é o único. Di-lo claramente a Populorum Progressio: “O desenvolvimento não se reduz ao simples crescimento econômico. Para ser autêntico o desenvolvimento deve ser integral, isto é, ter em vista a promoção de todos os homens e do homem todo”.12 A promoção, portanto, deve ser cultural, social, política, ao que, obviamente, devemos acrescentar a promoção moral e religiosa.

A ignorância religiosa, por exemplo, com todas as consequências no setor do comportamento moral, social e cívico, representa um aspecto do subdesenvolvimento. Di-lo claramente G. Huyghe quando afirma que não devem ser considerados como pobres somente os que carecem de bens econômicos. Pobres, diz ele, não são apenas “os que estão desprovidos de bens de fortuna ou de segurança no seu trabalho, mas também todos os que estão privados dos bens essenciais à vida humana e sobrenatural, e que nós possuímos. Pobres são os que não conseguem nunca matar totalmente a fome, os que estão mal alojados, os que, pelas condições do próprio trabalho, encontram-se continuamente em estado de insegurança. Pobres são os que não são amados, aqueles cujo lar está destruído ou os que nunca o tiveram: os que vivem no deserto do coração. Pobres são aqueles que não têm o apoio da estima alheia. Pobres enfim são aqueles que não possuem a luz da vida divina e não sabem que Cristo veio principalmente para eles e que ele bate à porta da sua vida...”.13

Há também o fato da delinquência juvenil e, agora, o da droga que se alastra tão rapidamente. São, de certo modo, aspectos do subdesenvolvimento. Embora a droga seja especialmente um produto da assim chamada sociedade do bem-estar, está outrossim muito difundida no ambiente da miséria. São raízes diferentes, mas que levam ao mesmo resultado. Os que buscam o prazer recorrem a elas porque nunca estão satisfeitos com seus paraísos artificiais; os miseráveis, ao invés, procuram nelas talvez uma evasão, para fugir à sua realidade infeliz.

 

A corajosa presença da Igreja

Não é de hoje que a Igreja se interessa pelos problemas sociais. Todos conhecemos as grandes Encíclicas sociais, desde a Rerum Novarum até a Populorum Progressio, mas perante a urgência e a crescente gravidade do problema no mundo inteiro, a Igreja reagiu de forma muito ativa. Basta considerar, além da Mater et Magistra, da Pacem in Terris, da já citada Populorum Progressio, da Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II, os Documentos do Episcopado Latino-Americano reunido em Medellín em 1968, os Documentos das Conferências Episcopais Africanas e Asiáticas.

Nesses documentos a Igreja denunciou corajosamente a situação e os abusos decorrentes da mesma, condenou as injustiças e apelou a todos os homens de boa vontade para que se unissem na luta contra o subdesenvolvimento. “Os povos da fome interpelam hoje de maneira dramática os povos da opulência. A Igreja estremece perante esse grito de angústia e chama a cada um a responder com amor ao apelo do seu irmão”.14 Denuncia o escândalo de desigualdades gritantes, não só no gozo dos bens, mas mais ainda no exercício do poder. Enquanto em certas regiões uma oligarquia goza de uma requintada civilização, o resto da população, pobre e dispersa, caminha quase desprovida de toda possibilidade de iniciativa pessoal e de responsabilidade, e amiúde também constrangida a condições de vida e de trabalho in- dignos da pessoa humana.15

Os documentos de Medellín estigmatizam “a falta de solidariedade, que leva no plano individual e social a cometer verdadeiros pecados, cuja cristalização se evidencia nas injustas estruturas que caracterizam a situação na América Latina”.16

O Santo Padre prometeu aos camponeses da Colômbia: “Continuaremos a denunciar as iníquas desigualdades econômicas entre ricos e pobres; os abusos autoritários e administrativos em prejuízo vosso e da coletividade. Continuaremos a incentivar as iniciativas e os programas das Autoridades responsáveis e das Entidades internacionais, como também das nações abastadas, em favor das populações em vias de desenvolvimento”.17

Tudo isso está a demonstrar-nos a renovada sensibilidade da Igreja, depois do Concílio Vaticano II, perante a dramática situação em que vivem milhões de homens.

Disso é prova autorizada, mas não única, a palavra do Cardeal Léger, que, como se sabe, quis comprometer-se pessoalmente nesse ponto. Afirma o Cardeal: “De tudo o que o Concílio nos pode inspirar de bom, nada me parece mais importante do que uma atitude radicalmente nova diante do problema da pobreza. Melhor, devemos dizer que o Concílio não terá sido nada caso não consiga sacudir-nos do sono e fazer-nos tomar essa nova atitude”.18

12 Ib., n. 14.
13 Mons. G. HUYGHE, Per un rinnovamento della vita religiosa, in W., I religiosi oggi e domani, Roma 1968, p. 226.
14 Populorum Progressio, n. 3.
15 Cf. Gaudium et Spes, n. 63.
16 Documenti di Medellín, Ed. Dehoniane, I, 1.
17 Encicliche e Discorsi di Paulo VI, XVI, p. 49.
18 Card. LÉGER, L’uomo problema sfida la Chiesa, Ed. Cittadella, Assis, 1968, p. 52.

 

A Congregação diante do subdesenvolvimento

A essa altura, parece natural que perguntemos: — Diante de um fenômeno que tanto interessa à Igreja, qual foi no passado e qual é hoje a posição da Congregação?

É preciso dizer que, por um conjunto de causas, o problema, nos termos que hoje conhecemos, colocou-se somente nestes últimos anos. Mas, considerando bem, a preocupação e consequentemente o trabalho de Dom Bosco com os jovens nasceu de uma situação de subdesenvolvimento, isto é, de ver nas prisões de Turim menores delinquentes, fruto do ambiente miserável e do abandono moral em que viviam.

Isso nos autoriza a responder sem mais que o problema dos pobres está ligado ao carisma da Congregação desde as origens. O mesmo Dom Bosco no-lo confirma nas “Memórias do Oratório”. Entrando nas prisões sob a guia do P. Cafasso, para exercitar- se no ministério sacerdotal, ficou tão chocado com as condições daqueles pobres jovens que começou a pensar seriamente na maneira de prevenir aquela situação dramática.19 Uma vez iniciado o Oratório, decidiu corajosamente o que devia fazer. “Foi então — diz ele — que toquei com a mão que se os jovens, ao saírem do lugar de punição, encontrassem mão benévola que deles cuide, que os assista nos dias-santos, que se interesse em achar-lhes emprego junto de algum patrão honesto, e os visite alguma vez durante a semana, esses jovens davam-se a uma vida honrada, esqueciam o passado, tornavam-se bons cristãos e honestos cidadãos”20

Essa motivação da preservação da delinquência está sempre presente em Dom Bosco quando descreve a sua obra e evidencia as suas vantagens.

Eis algumas citações entre as mil que se poderiam respigar nos ditos e escritos de Dom Bosco. São tomadas das suas Cartas porque me parecem refletir seu pensamento de maneira mais viva e fiel.

Em 1877, assim escrevia ao Dr. Carranza, presidente da Sociedade de São Vicente em Buenos Aires: “A experiência nos persuade que é este o único meio para sustentar a sociedade civil: cuidar dos meninos pobres. Recolhendo meninos abandonados, diminui a vagabundagem e diminuem os batedores de carteira... e os que talvez iriam povoar as prisões, e que seriam para sempre o flagelo da sociedade civil, tornam-se bons cristãos, cidadãos honestos, glória do lugar onde moram, honra da família a que pertencem, ganhando honestamente o pão da vida com o suor e com o trabalho”.21

Uma carta ao irmão de José Vespignani deixa-nos entrever a sua coragem e sua audácia e decisão quando se trata de salvar os jovens: “Nas coisas que são de proveito para a juventude em perigo, ou que servem para ganhar almas para Deus, eu corro para a frente até à temeridade. Por isso, no projeto de iniciar alguma coisa em prol dos meninos pobres e em perigo, o objetivo que temos em vista é tirá-los do perigo de irem para a prisão, e fazer deles bons cidadãos e bons cristãos”.22

Para ele, “a porção talvez mais digna da sociedade, são os filhos do povo humilde”.

Assim se exprime numa carta ao Prefeito de Turim, em 3 de janeiro de 1873.

19 MO, Turim 1946, 123ss.
20 Ib., p. 127.
21 Epistolario, III, p. 221, carta 1939.
22 Ib., III, p. 166, carta 1877.

 

A ação concreta da Congregação

A esta altura, é natural que perguntemos: Como a Congregação correspondeu, nos seus mais de cem anos de vida, a esta vocação e a este destino? Quer-me parecer que, em nome da honestidade e da objetividade, e em nome da justiça para com os milhares de irmãos que construíram a Congregação na linha traçada por Dom Bosco, possamos responder que, no seu conjunto, apesar de todas as inevitáveis deficiências humanas, ela correspondeu fielmente. Repito, no conjunto de todo o seu tão vasto e variado desenvolvimento no tempo e no espaço. Portanto, de maneira alguma en- tendo ignorar certas hipertrofias de obras orientadas numa direção que não testemunha claramente o carisma salesiano, e, como consequência, uma atrofia daquelas obras que são próprias do carisma salesiano e o caracterizam, em certas regiões do mundo, em que está presente. É um fato real que urge examinar com atenção e serenidade, a fim de se fazer um projeto de ação mais eficaz para retificar, corrigir, melhorar para orientar o conjunto das nossas obras na linha autenticamente salesiana, onde quer que seja.

Ainda há pouco, repeti que em certas zonas do nosso mundo é preciso uma corajosa “guinada”, para nos sentirmos na linha autêntica de Dom Bosco. E hoje só tenho que confirmar essa palavra. Mas, dito isso, penso com toda a sinceridade que só se pode discordar de certas contestações e, eu diria, de certas condenações globais da Congregação, como se, no seu conjunto, ela se tenha afastado do caminho traçado por Dom Bosco, o caminho dos pobres. Não é possível apresentar agora uma estatística das inumeráveis obras que, nos diversos continentes, os Salesianos promoveram e levaram a efeito em prol dos pobres. A seu tempo espero que se possa ter uma estatística completa e atualizada, não para vã exibição, mas para justo ato de reconhecimento aos irmãos que se prodigalizaram em tantas obras beneméritas; e, ao mesmo tempo, como prova das nossas numerosas atividades a favor da que Dom Bosco chamou “a porção talvez mais digna da sociedade, os filhos do povo humilde”.

Poder-se-á então constatar com evidência que o nome da Congregação Salesiana está ligado de bom direito ao da juventude pobre e abandonada, ao cuidado e promoção dos pobres, mesmo se isso não acontece em todas as nações na mesma medida e nas mesmas formas.

Dar-vos tais referências, queridos irmãos, pode parecer fora de lugar, como triunfalismo inútil. Mas para mim, repito, é dever de justiça e honestidade. Devemos ser críticos severos quando se trata de nós mesmos, e não fecharmos os olhos diante dos defeitos e limitações que a nossa Congregação e a nossa ação podem ter. Eu por primeiro quero apontar com clareza defeitos, distorções e abusos. Mas percebo com tristeza, aqui e ali, atitudes de algum espírito crítico que julgo excessivo diante da Congregação, de uma espécie de “autolesão”, de certo azedume no julgar as obras e iniciativas da mesma.

Há, certamente, o que corrigir, como eu dizia acima, há orientações a mudar, e o Capítulo Geral Especial poderá reestudar ideias de fundo e dar diretrizes consequentes e comuns.

Certas críticas e juízos generalizados, contudo, que pretendem acusar a Congregação de desvio, como se não tivesse feito nada pelos pobres, pela juventude abandonada, antes, como se tivesse traído a sua missão, o seu espírito originário, não são críticas justas nem objetivas. Amiúde elas provêm de quem menos tem capacidade de emitir juízos responsáveis, quer pela pouca idade, quer pelo limitado conhecimento de toda a Congregação, ignorando a verdadeira situação de todo o conjunto da mesma.

 

Renovado empenho da Congregação para o futuro

Mas se é verdade que a nossa Congregação não tem um passado negativo diante do fato do subdesenvolvimento, devemos reconhecer que hoje tal fato se apresenta com características novas, especialmente pela consciência que se tem do problema em nível mundial, seja da parte dos mesmos povos subdesenvolvidos, seja da parte dos progredidos e abastados. Diante desse despertar, que recebeu impulso eficaz do Concílio Vaticano II e da atividade do Papa Paulo VI, é justo que perguntemos: — O  que pensa fazer a Congregação Salesiana para corresponder às suas responsabilidades, nesse setor tão crítico e tão de acordo com a natureza da sua vocação?

É claro que o Capítulo Geral Especial enfrentará em profundidade essa pergunta.

Mas parece-me que desde agora se podem dar algumas respostas claras.

Desejo afirmar antes de tudo um princípio geral, do qual derivam muitas consequências, de que procurarei salientar as mais importantes.

A luta contra o subdesenvolvimento pertence à essência da Congregação Salesiana. Ela se sente, portanto, empenhada a fundo nessa luta. Mas deve fazê-lo segundo o seu carisma, isto é, na linha, no estilo, no espírito de Dom Bosco, e, portanto, com coragem, inteligência, realismo, e sempre com caridade.

Como bem compreendeis, filhos caríssimos, o que eu disse não é uma frase retórica que nos pode deixar indiferentes. É e deve ser um princípio vital, cheio de consequên- cias, que se deve transformar em linha de ação e de comportamento.

Em primeiro lugar, a atitude da Congregação diante do problema de desenvolvimento é de interesse, de preocupação, de empenho.

 

Uma responsabilidade comum

Com toda a certeza, esse empenho não é uma coisa artificial, fictícia, postiça. Não é uma atitude secundária. É vital, pertence ao ser mesmo de Salesiano. Quem diz Congregação Salesiana ou Salesiano, deve dizer “empenho”, preocupação pela libertação da juventude abandonada, e, portanto, pela luta contra o subdesenvolvimento.

Isto não significa naturalmente que o Salesiano deve viver em contínua tensão, nem que deve assumir a luta revolucionária como uma das suas dimensões estruturais. Certamente que não! Empenho, para nós, significa que cada Salesiano, se quiser ser verdadeiramente Salesiano, deve sentir e assimilar ao longo dos anos de sua formação uma autêntica e concreta vocação de serviço pelos irmãos mais necessitados.

Esse empenho é da Congregação inteira. Portanto, não são somente os irmãos que trabalham nas missões ou em obras em contato mais direto e imediato com os pobres que devem ter essa preocupação. Não são somente os irmãos que vivem nas zonas subdesenvolvidas que devem empenhar-se na luta contra o subdesenvolvimento. Esta é uma “missão” e uma “vocação” da Congregação e, portanto, de todos e de cada um dos Salesianos.

Nasce disso, como primeira consequência, a solidariedade de toda a Congregação na obra de “libertação”. De solidariedade já falei repetidamente e à saciedade. Não in- sisto, portanto. Quereria apenas lembrar que solidariedade tem alcance muito mais vasto do que certa ajuda econômica, e que não deve reduzir-se nem a uma organização impessoal nem a uma época especial do ano. É, ao invés, uma esplêndida possibilidade de mantermos vivos e operantes os profundos vínculos internos da nossa família e da nossa vocação; para mantermos acesa uma chama que nasce do fundo da nossa existência de Salesianos. Esse sentido de “solidariedade”, uma vez aprofundado e assimilado, tem a possibilidade de desenvolvimentos e aplicações muito vastas e sobremaneira válidas.

A iniciativa dos “Voluntários” para a América Latina é um exemplo desses desenvolvimentos tão eficazes. Também neste ano mais de cinquenta irmãos, em boa parte sacerdotes, provenientes de muitas Inspetorias, não só europeias, irão ajudar os irmãos que trabalham no Terceiro Mundo.

É necessário, porém, dizer que esse empenho para debelar o subdesenvolvimento não requer que todas as obras da Congregação estejam na mesma frente de batalha, que tenham o mesmo alcance, a mesma estrutura, a serviço das mesmas categorias.

Já esclarecemos que o conceito de “pobre” vai além da falta de meios econômicos e abraça uma série inteira de aspectos que não se podem identificar só com a fome e só com a miséria. Neste ponto existe dentro da Congregação um certo pluralismo, devido à diversidade de situações locais e nacionais. Com isso não se pretende justificar indiscriminadamente todas as obras atualmente existentes. Nem se quer afirmar que todas correspondem plenamente ao nosso carisma. Mas também não se pode pretender que todas as obras sejam talhadas para a mesma categoria de pessoas.

Para confirmá-lo não pode haver voz mais autorizada do que a de Dom Bosco. Num Relatório ao Prefeito [no tempo de Dom Bosco: Delegado real para a Província] de Turim, respondendo a perguntas que lhe fizeram a respeito da pendência sobre as aulas ginasiais do Oratório, Dom Bosco, depois de provar que “aparece claro que o Oratório Salesiano por sua natureza é um Instituto de beneficência em prol da juventude abandonada”, e declara mais adiante: “Como remate desta resposta, creio necessário advertir que Dom Bosco tem outros Institutos de Educação em diversos lugares da Itália, os quais sendo destinados às classes medianamente abastadas, cobram a pensão regular de 24 liras mensais ou também mais, e neles dão aulas Professores munidos de títulos legais. Evidentemente, não se deve confundir com tais Institutos, como alguém fez, o Oratório de Turim, de todo diferente, por natureza e  por condição”.23

 

Nenhuma conivência com a riqueza, com o poder

Uma segunda consequência muito importante, que se deve tirar do princípio acima enunciado, é a que segue.

A Congregação não quer qualquer conivência com a riqueza, qualquer ligação com os ricos e com os poderosos que nos faça perder a nossa liberdade.

A Congregação não quer, não pode querer a nossa indiferença diante das injustiças, donde quer que elas venham: econômicas, políticas, sociais.

Não escondo que esta afirmação categórica feita pelo Reitor-Mor adquire um relevo todo especial e poderia desconcertar algum irmão. Quero apresentar por isso meu pensamento com exatidão, para evitar equívocos e mal-entendidos.

Comecemos dizendo que a “não conivência” com a riqueza, a “não indiferença”, a “não tolerância” das injustiças deve realizar-se na linha, no estilo, no espírito de Dom Bosco.

Concretamente, o que isso quer dizer?

Olhemos para o comportamento de Dom Bosco. Duas constantes caracterizam sempre o seu modo de agir: a caridade e a liberdade de espírito.

Caridade para com todos: com os pobres em primeiro lugar, mas também com os ricos. Dom Bosco nunca foi, em nenhuma ocasião, semeador de ódio. Dom Bosco, que vivia entre os meninos mais abandonados de Turim, ele mesmo proletário e  camponês, jamais fez o papel de demagogo ou classista. Qualquer forma de ódio de classe estava muito longe do seu pensamento. E dizer que Dom Bosco era profundamente democrático e popular, nascimento, missão e vocação instintiva que o levava ao “povo simples”, mas sobretudo por sentir como ninguém as aspirações dos trabalhadores, que viviam do fruto do suor de cada dia e produziam riqueza sem possuí-la.

Com os ricos teve muitas relações. Frequentava-os. Deles conseguiu os meios econômicos que lhe permitiram desenvolver o seu quase milagroso apostolado. Pedia com elegância e, na sua humildade, era extremamente grato pela menor oferta que recebia.

Também com os políticos, em tempos difíceis e agitados, teve contatos frequentes. Pediu e alcançou. Abordou personagens que estavam no polo oposto de suas ideias religiosas.

Mas tanto com os ricos como com os políticos, Dom Bosco sempre conservou a sua independência, a sua plena liberdade. Nunca se sentiu amarrado ou obrigado a compromissos.

Dois episódios para ilustrar essa atitude constante de nosso Pai.

Conhecemos todos a famosa declaração feita em Florença, em dezembro de 1866, ao ministro Ricasoli, antes de iniciar as tratativas sobre as nomeações dos Bispos: — “Excelência! Saiba que Dom Bosco é padre no altar, padre no confessionário, padre no meio de seus jovens, e como é padre em Turim, assim é padre em Florença, padre na casa do pobre, padre no palácio do Rei e dos ministros!”.24

A sua liberdade e decisão em lembrar aos ricos a obrigação estrita da esmola e do bom uso das riquezas tocava quase os limites da prudência e lhe valeu mais de uma polêmica com sacerdotes que queriam contentar-se com normas mais benignas, segundo a opinião dos moralistas do tempo.

A um Capuchinho, confessor de pessoa muito rica, que todos os anos distribuía cerca de 20.000 liras de esmolas (grande quantia para aqueles tempos), disse: “Se quisesse obedecer a Jesus Cristo, dando numa medida proporcional às riquezas que possui, não bastariam cem mil liras por ano. Que pensa fazer com o seu dinheiro?”. E recomendou ao Capuchinho que lhe impusesse uma esmola adequada ou não a fizesse.25

Numa conferência em Lucca, no dia 18 de abril de 1882, foi ainda mais explícito: “Alguém terá mil francos de renda e poderá viver honestamente com oitocentos; pois bem, os duzentos que sobram caem debaixo das palavras: Date elemosynam.

“Mas uma necessidade imprevista, uma falha na colheita, uma desgraça no comércio... — Mas estareis ainda vivos quando isso acontecer? E Deus, que vos ajuda no presente, não haverá de vos ajudar, especialmente se tiverdes dado amor d’Ele? — Eu digo que quem não dá o supérfluo está roubando de Nosso Senhor, e digo com S. Paulo que regnum Dei non possidebit”.26

Essa conferência, publicada depois no Boletim Salesiano, suscitou uma espécie de controvérsia, porque alguns padres “assaz respeitados por piedade e ciência” pensavam que as “teorias sustentadas no Boletim coincidiam com as teorias dos comunistas” (sic!).27

Embora as razões e os argumentos teológicos alegados por esses padres tivessem o seu peso para a mentalidade católica do tempo, no entanto, como glosa o P. Céria diz que, “em Dom Bosco, tratando-se de esmola, mais do que argumentos teológicos influenciavam os imperativos e as ameaças do Evangelho contra os ricos”.28

Como se vê, diante dos ricos Dom Bosco não era servil nem dependente; conservava e exercitava plenamente a sua liberdade a fim de lembrar o dever e exigir, em termos desconhecidos na sua época, o emprego justo e cristão das riquezas.

“Duas categorias de ricos eram para ele indesculpáveis — escreve ainda o P. Céria

— e por isso eram por ele alvejados: os verdadeiramente bons, que sem motivos razoáveis conservam ocioso o dinheiro no cofre, e os menos bons, que, fazendo embora caridade, esbanjam à vontade em luxo e prazeres”.29

23 Ib. III, p. 600, carta 2063.
24 MB VIII, 534.
25 MB XV, 521.
26 MB XV, 52.
27 Ib.
28 Ib.
29 Ib.

 

Sempre no âmbito da caridade

Não se encontra, porém, nas palavras de Dom Bosco, nem em seus escritos, e muito menos em suas atividades, coisa alguma que possa ser interpretada como instigação ao ódio, ou pior ainda, à luta, à revolta.

Nós, Salesianos, portanto, nas pegadas do nosso Pai, dizemos decididamente o nosso “não” à violência, ao ódio, ao emprego da força. E isso, mesmo quando houvesse situações tais que a reação mais instintiva, do ponto de vista humano, seria sem mais o emprego da força e da violência.

É este aliás o pensamento claríssimo da Igreja, expresso pelo Santo Padre em repetidas ocasiões e também por autorizados prelados. Em 24 de junho de 1968, Paulo VI dizia assim aos membros do Colégio dos Cardeais: “Sobre a violência, mesmo em suas formas armadas e sanguinolentas, se formularam teorias para explicá-la, justificá- la, exaltá-la como única e salutar resposta a situações de opressão, a estados de violência institucionalizada, como às vezes se diz, a uma ordem que acusam de ser, na realidade, uma desordem estabelecida, a uma legalidade formal que acobertaria substanciais ilegalidades”.

“A essas justificativas se quer, não raro, ajuntar razões tiradas do pensamento cristão e de suas exigências, de tal sorte que ouvimos falar de uma teologia da violência, derivada de uma precedente teologia da revolução.

“Profundamente atingido pela dureza de muitas situações de indivíduos, de classes sociais, de Nações ou de grupos de povos; mais do que ninguém sensível ao clamor que se levanta de tantas partes do mundo pedindo ajuda e oportunas mudanças; consciente de nossa própria missão de ser tutor franco e aberto de uma progressiva justiça entre os homens, não hesitamos em repetir nossa compaixão por todo o sofri- mento humano e deplorar as ações culposas ou a negligência que ocasiona esse sofrimento. E exortamos vivissimamente... a iniciarem uma ação resoluta e corajosa para remediar eficaz e solicitamente estados de coisas que a consciência humana, e especialmente a cristã, não pode tolerar”.

“Sentimos, porém, ao mesmo tempo, o dever de acautelar nossos filhos e todos os homens da fácil, mas ilusória, tentação de crer que mudanças tumultuadas e precipitadas de uma ordem que não satisfaz sejam, por si mesmas, garantia de uma ordem boa, ou ao menos de uma ordem melhor, onde essa ordem não tiver sido devidamente preparada; e sobretudo que a violência, também se ditada pela revolta sincera contra a injustiça, assegure quase naturalmente a instauração da justiça. A experiência nos ensina que o mais das vezes acontece justamente o contrário”.30

Aos Bispos da América Latina o Santo Padre ainda dizia: “... Se nós não podemos ser solidários com sistemas e estruturas que encobertam e favorecem graves e  oprimentes desigualdades entre as classes e cidadãos de um mesmo país... repetimos ainda mais uma vez a esse propósito: não é o ódio, não é a violência a força da nossa caridade”.31

O mesmo Dom Hélder Câmara, que luta pela causa dos pobres, afirma categoricamente: “... Eu não creio no ódio”.

Eu quisera insistir ainda sobre um aspecto que se poderia dizer ligado ao anterior: trata-se da tendência a reduzir a ação em prol do desenvolvimento simplesmente à denúncia chamada “profética” da injustiça.

Está fora de dúvida — já o dissemos acima — que nós, Salesianos, não podemos ficar indiferentes perante a injustiça. É também verdade que há muitas, muitíssimas situações injustas: opressões, explorações etc. Nós devemos certamente defender os pobres, os oprimidos, e combater a injustiça. Mas como?

Não podemos, com certeza, ser omissos no que, em determinadas circunstâncias e situações, pode ser um dever de consciência e um dever de ministério para os sacerdotes. A palavra de Deus não está sujeita a amarras: Verbum Dei non est alligatum! Mas penso que o nosso estilo não é falar, falar e falar contra a injustiça. Não podemos nos transformar numa espécie de líderes, sindicalistas, chefes do povo, com perigo de cair no jogo falaz da política. E então?

Eu diria: imitemos o nosso Pai. Seu lema era: “Poucas palavras e muitos fatos!”. Trabalhou a vida inteira, e com muita eficiência. Escreveu muito, falou muito, mas sobretudo trabalhou e realizou. Quer-me parecer que esta deva se a nossa linha: eu a chamaria assim: “o profetismo dos fatos”.

Dom Bosco foi sempre e em toda parte o mensageiro da liberdade absoluta, mas ao mesmo tempo, o realizador da caridade que constrói, e constrói com a política do Pai Nosso.

30 Encicliche e Discorsi di Paolo VI, XVI, p. 209ss.
31 Ib. XVI, p. 469.

 

Libertar-se de mentalidade burguesa

Até agora preocupamo-nos em elucidar alguns equívocos, esclarecer alguns conceitos. Demos, agora, um passo para a frente, procurando demarcar uma linha concreta de ação salesiana frente ao subdesenvolvimento.

Ação ainda de caráter preliminar, se se quer, mas muito concreta e importante é a que se refere pessoalmente a nós, como Salesianos. Precisamos tomar consciência da importância, urgência e gravidade do fenômeno e do nosso dever em relação a ele. Talvez precisemos, também nós, estudar atentamente, assimilar a doutrina social da Igreja e os documentos que se referem a esse fenômeno.

Nas reuniões com os Inspetores da América Latina notou-se que por vezes temos uma mentalidade que se poderia definir burguesa, “instalada”, mais inclinada a defender a ordem estabelecida, qualquer seja ela, mesmo se injusta e opressora, do que ver e reconhecer-lhe as falhas e injustiças.

Fomos educados, disse um Inspetor, no terror do comunismo. Conhecemos todos os seus erros e as suas consequências desastrosas. Ninguém pensa em defendê-lo;  mas é também verdade que muito pouco nos foi ensinado sobre os males do capitalismo. Tal estado de coisas foi reforçado e talvez também usado pela situação política: por longos anos vivemos com o pesadelo do comunismo, sem que percebês- semos o outro monstro que é o capitalismo.

Pois bem, essa mentalidade torna-nos, por exemplo, apavorados diante de  qualquer reivindicação da classe operária. Suspeitamos logo que se trata de manobra oculta do comunismo.

Não poucas vezes nosso comportamento e nossas relações com os que de nós dependem refletem mentalidade que se pode dizer capitalista, própria de patrões. Quantas vezes não procuramos evitar as leis trabalhistas, recorremos a subterfúgios legais, para não termos que pagar todas as somas exigidas como benefícios sociais?

Essa mentalidade tem que ser mudada e decididamente.

Se devemos condenar o comunismo com toda a triste sequência de males que causa ao homem, ao cristão, à sociedade, não devemos por outro lado ser indulgentes diante das verdadeiras e às vezes cruéis injustiças cometidas pelo capitalismo.

Devemos esforçar-nos para conhecer e assimilar a doutrina social da Igreja, a fim de adquirirmos uma sensibilidade nova, aberta, favorável às mudanças e reformas que são tão urgentes no campo social.

 

Dar a nossa contribuição pessoal

Há uma atitude que brota espontânea da nossa ação social e atinge diretamente o nosso modo de ser Salesianos: a coerência.

Se temos uma vocação, uma missão, um compromisso de lutarmos contra o subdesenvolvimento, devemos agir de maneira consentânea, sermos coerentes com o nosso compromisso. Numa palavra, como diz a Populorum Progressio, devemos “dar a nossa contribuição pessoal”.32

E em que consiste essa coerência? Já dissemos alguma coisa ao falarmos da “mentalidade”. Mas é necessário algo mais. A coerência deve compenetrar a vida, a nossa vida comunitária e individual. Devemos viver realmente como pobres. Estar na mesma linha dos pobres. Guerra, pois, à vida burguesa! Temos verdadeira necessidade dessa guerra, caríssimos irmãos. Tratei desse assunto difusamente na carta sobre a pobreza, mas faz-se mister repetir o apelo.

Bem fácil é tomarmos nesse ponto posição defensiva, continuando modo e nível de vida, que, na realidade, pode ser uma paródia da pobreza. Um irmão, precisamente a tal respeito, escrevia-me: “A palavra burguesia aborrece, provoca reações em certos indivíduos; mas a realidade é que, por causa da falta de formação para a pobreza pessoal própria de quem vive hoje uma vida de consagrado, deixam-se levar por uma tendência bem marcada e infantil para a vida burguesa: levantar-se sempre mais tarde, prolongar cada vez mais o tempo dos divertimentos, das viagens, dos espetáculos, comer sempre melhor, dispor cada vez mais de dinheiro para caprichos pessoais inteiramente supérfluos...” É por certo um quadro triste. Gostaria que não fosse verdadeiro.

É por demais importante que se encarem as situações com lealdade e se tomem corajosas providências. Toda medida concreta nesse sentido na comunidade é uma operação que dá novo vigor e saúde espiritual a todos. Parece-me oportuno, ao tratar desse assunto, esclarecer também a posição da Congregação diante de comportamentos que talvez derivem do desejo de viver com maior coerência a nossa pobreza, mas que não parecem corresponder ao estilo salesiano.

32 Populorum Progressio, n. 32.

 

Esclareçamos as ideias relativas ao nosso apostolado

Alguém quererá viver em meio aos favelados, isto é, compartilhar de maneira total o nível de vida dos mais pobres, para dar testemunho de pobreza e demonstrar-lhes que estamos com eles e os compreendemos. Por isso alguns desejariam que se formassem pequenas comunidades de Salesianos, que morassem entre os favelados, compartilhando a sorte deles e ganhando o pão com o trabalho das próprias mãos como se fossem operários ou empregados.

Isso pode ser, e de fato é um carisma suscitado pelo Espírito Santo na Igreja. Religiosos há que têm precisamente essa missão e a cumprem com edificação e, creio, com fruto. Enchem-nos de admiração. Mas é preciso acrescentar logo, com toda a franqueza, que essa não é uma vocação salesiana.

Nosso compromisso não se esgota com um puro testemunho. Melhor ainda, nosso testemunho principal é o do nosso trabalho. Dom Bosco era pobre, viveu sempre pobre, mas promoveu sempre o progresso, a elevação social. Logo que podia, me- lhorava as condições de vida dos seus meninos. Não deixou perpetuamente a casa Pinardi como a encontrou no início. Para nós, interessar-nos pelos pobres não pode significar tão somente viver numa favela, mas significa trabalhar em prol deles, para a sua educação, formação e promoção. Na verdade, temos um bom número de Salesianos que vivem e trabalham entre os favelados. Há-os em muitas nações. São heróis autênticos na vanguarda. Nós os encorajamos de todos os modos. Mas querer agir fora desses casos, poderia ser uma espécie de esnobismo artificial, ainda mais que se acaba por não compartilhar plenamente a sorte dos pobres: pois não temos a falta de segurança que têm eles, por estarmos amparados pela Congregação e apoiados nela.

Coisa semelhante se deve dizer do trabalho feito fora de casa. Os Salesianos, graças a Deus, nunca falharam a essa característica que lhes é própria: trabalhadores, incansáveis trabalhadores. É como que um orgulho da nossa Congregação. Trabalhou- se. Trabalha-se muito. Nós não vivemos da renda de terrenos, nem de bens imóveis, nem de depósitos bancários. Vivemos do nosso trabalho e daquilo que a Providência nos põe nas mãos mediante os nossos benfeitores. Para nós, portanto, não é uma novidade viver do nosso trabalho. Mas crer que trabalho é tão somente o que se faz fora da casa religiosa é no mínimo um contrassenso. Deixar a secretaria do colégio para ser o secretário de uma empresa; deixar as aulas ou a catequese ou o ministério, que é o meu trabalho específico, para trabalhar como carregador de porto, querendo ao mesmo tempo continuar Salesiano, não se compreende que sentido isso possa ter.

 

A nossa vocação de “educadores”

Onde está então o núcleo central da nossa ação salesiana contra o subdesenvolvimento?

Não somos nem técnicos nem políticos. Nem sequer dispomos de enormes capitais para planos de desenvolvimento. Somos educadores cristãos, pastores e, em parte, missionários. Nessas três linhas é que se insere a nossa ação, que se pode resumir nesta única afirmação: a nossa ação é uma ação educativa no sentido mais rico que a palavra possa ter.

Voltemos ao exemplo de Dom Bosco, que para nós é norma segura. Que é que fez Dom Bosco? Frente a situações de subdesenvolvimento (meninos pobres, abandonados, sem teto, com fome, etc.), ele não se contentou em dar esmolas, uma ajuda em dinheiro, um prato de comida, uma cama para dormir. Dom Bosco, na primeira fase da sua atividade, procurou logo um emprego para os meninos de que cuidava e, em seguida, começou logo a prepará-los pelo aprendizado de uma profissão, “a ganharem com o suor do próprio rosto o pão da vida”. Era uma verdadeira obra de promoção popular, qualificando e formando o futuro operário.

Também na atividade missionária cumpre salientar que Dom Bosco não se contenta com uma obra puramente evangelizadora (pregação do Evangelho). Quer que seja acompanhada ou precedida por um trabalho de promoção e de civilização. Antes de tudo leva para a frente a ideia, que é nova em certo sentido, de começar a obra missionária criando colégios, escolas, internatos, “nas cercanias dos lugares onde ha- bitam os selvagens”, a fim de que estes recebam a mensagem cristã por intermédio de seus próprios filhos. Vem em seguida a obra de cunho promocional, que Dom Bosco quer unida à pregação do Evangelho. Em seu Memorial sobre as Missões Salesianas, de 13 de abril de 1880, apresentado a Leão XIII, Dom Bosco dizia que a finalidade da sua obra era “abrir internatos, nas redondezas da zona dos selvagens, a fim de servirem como seminário menor e abrigo para os mais pobres e abandonados. Esse é o meio para abrirmos caminho a fim de propagarmos o Evangelho entre os índios Pampas e Patagões”.

Depois de explicar o que se havia feito, acrescenta: “Enquanto alguns se ocupam ensinando artes, ofícios, agricultura nas colônias já estabelecidas, outros continuam a avançar entre os selvagens para catequizá-los e, se possível, fundar colônias em zonas mais para o interior do deserto”.33

E numa carta ao P. Bodrato diz como foi levado a “aceitar... o oferecimento das missões destinadas à civilização e evangelização dos habitantes daquelas regiões vastas e incultas” e que fora falar com o Santo Padre, “porque desejava tornar sempre mais estável a obra civilizatória entre aqueles povos e, portanto, facilitar entre os Índios o conhecimento e a prática das artes, dos ofícios e da agricultura”.34

33 Epistolario¸ III, p. 572, carta 2031.
34 Ib. III, p. 577, carta 2035.

 

Uma fórmula sempre válida

A exemplo de Dom Bosco, a colaboração que havemos de dar ao desenvolvimento é, de modo principal, educação, qualificação e formação dos homens, os quais são os fatores principais do desenvolvimento.

É muito satisfatório para nós, Salesianos, poder constatar que ainda hoje a ação educadora é considerada pelos especialistas como a “chave do desenvolvimento” e que, portanto, pode dizer-se com justiça que a nossa colaboração está bem centrada e é eficiente.

A Encíclica Populorum Progressio afirma claramente que “a educação de base é o primeiro objetivo de um plano de desenvolvimento” e que “saber ler e escrever, adquirir uma formação profissional é recobrar confiança em si mesmo e descobrir que se pode progredir com os outros”.35

E os Documentos de Medellín confirmam-no explicitamente, quando dizem: “A educação é efetivamente o meio-chave para libertar os povos de toda escravidão e fazê-los subir de condições de vida menos humanas a condições mais humanas,36 levando em conta que o homem é o responsável e o artífice principal de seu êxito ou de seu fracasso37”.38 Além disso, “a educação é a melhor garantia de desenvolvimento das pessoas e de progresso social; já que, conduzida de maneira correta, não só prepara os autores do desenvolvimento, mas também é a melhor dispensadora dos seus frutos, que são as conquistas culturais da humanidade”.39

Também os estudiosos leigos concordam plenamente com essa estratégia. Alfredo Sauvy, especialista em desenvolvimento, escreve no jornal Le Monde: “Depois de muitos erros e indecisões, os economistas de todas as nações, também da América, chegam, pouco a pouco, a sustentar que a chave do desenvolvimento não é o dinheiro, como por muito tempo se acreditou, nem os capitais, mas a cultura, a capacidade dos homens em saber usufruir das riquezas naturais que possuem. A sabedoria chinesa enunciou de há muito este fato evidente: ‘Dai um peixe a um homem: terá o que comer por um dia; ensinai-lhe a pescar: terá o que comer para toda a vida’.40

Está de pleno acordo com isto o Arcebispo de Dacar, Dom Thiandum, que, em conferência feita na França, afirmou: “Creio possa dizer sem medo de errar, que as nações subdesenvolvidas têm maior necessidade de um esforço na linha da educação do que de dinheiro ou roupas. Para um povo que queira conquistar o seu lugar nos quadros da economia mundial, a ajuda financeira, por valiosa que seja, nunca substituirá a capacidade e o trabalho pessoal dos seus filhos. A missão fundamental da assistência técnica parece-me seja antes e acima de tudo uma obra de educação”.41

Esses conceitos, se por um lado confirmam nossa decisão de nos mantermos no caminho que queremos trilhar, não nos devem tranquilizar demais nem nos levar a dormir, dando-nos a falsa segurança de que tudo corre às mil maravilhas e de que basta sejamos educadores para estarmos prestando serviço ativo e eficiente em prol do desenvolvimento.

35 Populorum Progressio, n. 35.
36 Ib., n. 20.
37 Ib, n. 15.
38 Documenti di Medellín, 4, II, 1.
39 Ib., 4, III, 1,1.
40 P. GHEDDO, Predicare il Vangelo o aiutare i poveri?, in Umanesimo ed evangelizzazione, Milano 1969.
41 Mons. THIANDUM, Vision Chrétienne des déséquilibres

 

Educação libertadora

É necessário que perguntemos com mentalidade crítica: a educação que damos é fator de desenvolvimento? É de verdade? Como alcançarmos tal objetivo?

Os Documentos de Medellín usam uma expressão que me parece muito feliz. Dizem que a educação deve ser “libertadora”. Dizem que toda educação é libertadora, traz consigo uma libertação. Libertação, em primeiro lugar, da ignorância, que é uma espécie de escravidão; e depois de muitas outras coisas, que são em parte fruto da ignorância e que põem o homem em situação de dependência, diria, constitucional. A educação, como formação moral, deve também libertar do egoísmo, do pecado, dos vícios etc.

Mas o conceito de “educação libertadora” significa algo mais no contexto da luta contra o subdesenvolvimento, contexto em que deve estar inserida. Significa preparar os “libertadores”, isto é, os realizadores das mudanças e do desenvolvimento.

Amadurecer homens com personalidade integral, harmoniosa, cristã, capazes de se libertarem a si próprios e libertarem a outros de estruturas opressoras, de situações injustas; homens que não se fechem como conchas no próprio bem-estar individual, mas sintam profundamente a vocação cristã de “servirem” os irmãos; homens capazes de serem mensageiros da esperança cristã, ainda quando os horizontes humanos poucos motivos deem de esperança.

 

Façamos um exame de consciência

Surge aqui espontânea uma pergunta sobre o que nos cabe de perto: como e até que ponto é libertadora a educação que estamos dando? Para responder a essa pergunta devemos fazer sincera e leal “revisão” do conteúdo do nosso trabalho educativo.

Confesso-vos que, às vezes, tenho a impressão de que em nossa obra educativa talvez estejamos dando pouca importância e relevo aos valores e compromissos sociais do cristão. Parece que a nossa principal e única preocupação seja formar a personalidade, mas personalidade por demais individual, como uma ilha, autossuficiente, quase a prescindir do mundo socializado em que vivemos, e que se torna cada vez mais socializado (não no sentido marxista, mas no sentido de relações de pessoa a pessoa).

Deveríamos, então, examinar bem quais são os principais valores que transmitimos, quando educamos. Dirá alguém que são valores humanos e cristãos. E é certo: esse é o nosso empenho principal. Mas há, por assim dizer, “valores latentes”, transmitidos não através de ensinamento direto, mas assimilados como partes de um sistema. Precisamente em vista desses valores latentes é que receio formarmos mais para um isolamento egoísta do que para a inserção na sociedade; mais para a responsabilidade pessoal do que para a responsabilidade social; mais para o respeito da ordem estabelecida (capitalista, burguesa) do que para as mudanças, para a melhora dessa mesma ordem. Numa palavra: educamos para “ter mais” e não para “servir mais”. Talvez por isso é que, se bem considerarmos, não são muitos como deveriam ser os dirigentes cristãos, empenhados, que saem dos nossos Institutos.

 

Eduquemos os jovens para o sentido social

Parece-me, pois, útil e prático descer a alguma sugestão concreta, para alcançarmos maior eficácia na educação que oferecemos e torná-la “fator fundamental e decisivo do desenvolvimento”.

— Intensifique-se a formação social da juventude pela qual somos responsáveis, antes de tudo da juventude que segue o currículo da formação salesiana. Isto se dará pelo conhecimento da doutrina social cristã e dos principais documentos relativos à mesma (Mater et Magistra, Pacem in Terris, Populorum Progressio, Gaudium et Spes, Documentos de Medellin etc.). Devemos chegar a uma formação sólida e segura; um simples verniz já não é suficiente. A doutrina social, entre nós, deve ser matéria de sério ensinamento.

  • Proporcione-se também, de maneira gradual, o conhecimento profundo e crítico dos sistemas filosóficos, sociais, econômicos mais difundidos, especialmente do marxismo e do capitalismo. Este último, de maneira especial, deve ser apresentado no seu verdadeiro aspecto, porque em geral a informação que dele se recebe tem muitas lacunas.
  • Deem-se também amplas informações e conhecimento dos problemas da fome, da miséria, do subdesenvolvimento, orientando os alunos, desde pequenos, para a visão cristã, para o interesse fraterno em relação a esses problemas e despertando neles atitudes e disposições de serviço para com os irmãos do Terceiro Mundo. A Populorum Progressio faz precisamente esse apelo, do qual talvez não tenhamos feito caso: “Educadores, a vós é que cabe suscitar desde a infância o amor para com os povos que vivem na miséria”.42
  • Dê-se com muita prudência, mas também com clareza, uma formação política adequada, levando com objetividade nossos alunos dos Cursos Superiores ao conhecimento e exame crítico dos sistemas políticos e programas dos principais partidos políticos, preparando-os nesse campo para opções que correspondam à formação cristã que receberam. A recomendação de Dom Bosco de que “não nos metamos em política” e de que “não falemos de política” não pode significar deixar nossos alunos despreparados num setor tão importante da vida ou que os deixemos receber essa formação do primeiro jornal, colega ou encontro, quando chegarem à Universidade.
  • Ajudem-se, guiem-se os alunos ao conhecimento e análise ponderada dos fenômenos e dos processos locais (economia, problemas familiares, delinquência juvenil, drogas, racismo, colonialismo, guerrilhas, paz etc.). Isso se poderá fazer util- mente com leitura crítica dos jornais, cinefórum, círculos de estudo, conferências
  • Procure-se desenvolver nos alunos o sentido comunitário e a abertura, numa linha de serviço, para o ambiente humano que os rodeia, especialmente para os mais pobres. Há nos Salmos sobre isso uma frase muito profunda: “Feliz do que se elevou até à compreensão do pobre e do indigente”. Talvez devamos reconhecer serem em muitos casos verdadeiras as palavras que já no seu tempo Bossuet bradava aos seus ouvintes: “Parece-me que de todos os lados se levanta um grito de angústia que deveria partir-nos o coração e que talvez nem chegue aos nossos ouvidos!”. Por que uma surdez assim? Por que essa incompreensão do pobre, do indigente? É falta de fé? de coração? de atenção? Sim, é falta daquela sensibilidade alimentada pela fé que não nos deixaria passar através das misérias do próximo sem nada

Às vezes, nossos Institutos podem ser verdadeiras “ilhas”, sem nenhuma influência imediata e ativa no ambiente que os rodeia, e que tantas possibilidades lhes ofereceria de aberturas sociais. Muito importante é que o “sentido comunitário” não se feche sobre si mesmo. Isso poderia levar o jovem de hoje, o homem de amanhã, a viver emparedado dentro de pequenos grupos egoístas. O sentido comunitário deve ser aberto, deve preparar o jovem à plena participação na sociedade, compreendendo e reconhecendo as carências e as responsabilidades do mundo em que vai viver; o sentido comunitário, sobretudo, deve tornar o jovem consciente e capaz de assumir os direitos e exercer as responsabilidades sociais. Isso, em última análise, não é outra coisa que o preparar para as mudanças e transformações das estruturas que disso tiverem necessidade e urgência.

— Cultive-se enfim nos jovens, desde os primeiros anos, o espírito de generosidade, de serviço, combatendo decididamente o egoísmo. Procure-se habituá-los ao diálogo e estimular-lhes as capacidades criadoras.

Tudo isso deve ser feito à luz de uma visão cristã do mundo, que é difusão do amor, não sementeira de ódio; é construção, não destruição; confraternização que une, não luta que cava abismos. Todo esse programa de ação deve ser atuado sem suscitar, direta ou indiretamente, rancores, ressentimentos, ódios. Deve-se evitar toda e qualquer demagogia fácil. O trabalho a que devemos pôr mãos (e dele somos responsáveis diante de Deus) não é formar guerrilheiros nem revolucionários, mas cristãos profundamente comprometidos.

Recomendo vivamente aos caríssimos Inspetores e Diretores que estudem e façam estudar a maneira de pôr em prática as sugestões que fiz, e outras que parecerem adequadas e oportunas, segundo as condições das diversas nações e de cada lugar. Como disse acima, o problema interessa a todos, seja qual fôr a parte do mundo em que vivem e trabalham. Formas e maneiras podem, porém, variar conforme as cir- cunstâncias. Espero que as minhas palavras não se reduzam a vãs exortações. Confio- as à sensibilidade cristã e salesiana de cada um de vós, de acordo com as próprias responsabilidades.

42 Populorum Progressio, n. 83.

 

A nossa preferência é sempre pelos pobres

Permiti-me acrescentar ainda um convite, num plano de ação muito concreto.

Na Assembleia dos Inspetores salesianos da Ásia, em Bangalore, assumiu-se este empenho formal: “Viveremos mais como pobres e seremos sinal mais patente de Cristo pobre, se nos diversos países em que trabalhamos, todos puderem verificar que o primeiro lugar em nossas obras se dá à juventude que, naqueles países, é considerada como pobre e abandonada”.43

E a Conferência dos Inspetores salesianos da América Latina, em Caracas, exortou que voltássemos corajosamente “ao trabalho entre a juventude pobre e abandonada, principalmente nos lugares em que esse testemunho se haja obscurecido e a imagem da Congregação se haja deformado. Em nosso mundo subdesenvolvido, esse testemunho é urgente e nos obriga a esmerada e contínua revisão de nossos passos”.44

Essa exortação continua a ser sempre válida e necessária, e eu calorosamente a renovo mais uma vez.

Olhando para a Congregação no seu conjunto, podemos afirmar que trilhamos o caminho que Dom Bosco nos traçou e estamos no caminho certo. Mas pode haver obras que, iniciadas em favor das classes pobres e modestas, foram aos poucos elevando o nível social, acabando por se tornarem, diria, quase aristocráticas. Poderia dar-se que essas obras hoje não correspondam mais à nossa missão. Não quero com essas palavras pronunciar juízo global e unilateral sobre todas as obras que não se ocupam exclusivamente dos pobres. Obras há que são muito válidas, que desempenham missão preciosa, porque estão a formar dirigentes, homens conscientes de sua responsabilidade social, cristãos e cristãos convictos. Não me refiro, portanto, a tais obras. Mas, como já disse repetidamente, creio ser necessária em todas as Inspetorias uma revisão, um “redimensionamento” mais corajoso, libertando-nos de certo sentimentalismo irracional e recolocando várias das nossas obras na linha autenticamente salesiana.

43 ACS, julho 1968, p. 37.
44 Ib., p. 77.

 

“Integração” das diversas obras

Há outro problema muito ligado a esse: o problema da “integração” das nossas obras. Talvez algumas delas se tenham enclausurado e limitado por demais à “escola” e mesmo a um determinado tipo de escola. Tais obras podem e devem dinamizar-se, abrir-se, “integrar-se”. Isso quer dizer que é urgente apelar para certa imaginação criadora a fim de completar a atividade escolar com outras atividades extraescolares e pós-escolares, por exemplo, com aulas noturnas para jovens operários, tão caras a Dom Bosco. Recordo que, ao ser oferecida ao nosso Pai a obra de San Nicolás de los Arroyos, pediram-lhe que a equiparasse a um colégio de “condição civil”. Aceitou com esta advertência: “Como o fim principal da Congregação Salesiana é cuidar dos meninos pobres e em perigo moral, espero que os Salesianos possam ter a liberdade de abrir para eles as aulas noturnas...”.45 É um exemplo que nos deve fazer refletir.

Há também em muitas nações o trabalho de alfabetização, obra tão útil, em que vários dos nossos irmãos se tornaram realmente beneméritos.

Como essas, muitas outras iniciativas. Não vou enumerá-las. A vossa imaginação e mais ainda a vossa sensibilidade salesiana saberão realizar muitas outras, porque há muita necessidade disso.

45 Epistolario, II, p. 431, carta 1260.

 

Encaremos a realidade com coragem

Quero prevenir-vos contra um perigo: o instinto de defesa, que vai achar mil e uma justificativas para vos convencer de que tudo corre bem, que não é preciso mudar nada, e que afinal as coisas não estão assim tão mal. Devemos ser leais, corajosos e, mais ainda, constantes. A maior coragem é a coragem da constância!

Caríssimos filhos, quis despertar a vossa atenção para o fenômeno do subdesenvolvimento que estrangula como num “círculo infernal”46 dois terços da humanidade. Este problema não interessa somente a muitos excelentes irmãos que estão na linha de frente, trabalhando com heroísmo verdadeiro, embora revestido de simplicidade. Este problema interessa também a toda a Congregação.

É verdade que estamos às portas do Capítulo Geral Especial, que certamente se vai ocupar de todo esse conjunto de problemas. Mas penso que o coração dos salesianos não queira esperar por essa hora para responder com os fatos ao grito que se levanta de milhares de vozes que choram, grito que a Igreja e Dom Bosco nos transmitem, dizendo: “Tende pena desses vossos irmãos!”.

Caríssimos, saúdo-vos com vivo afeto, um por um, e vos peço a caridade das vossas orações por tantas minhas necessidades pessoais e pelas responsabilidades que pesam sobre meus ombros.

Que a Virgem Auxiliadora vos abençoe a todos. Af.mo

Luís Ricceri,
Reitor Mor

46 Lettre Pontificale à M. Alain Barrere, président des Semaines sociales de Franc, Dijon, Juiller, 1970.

 

CONVOCAÇÃO DO CAPÍTULO GERAL ESPECIAL

OS EX-ALUNOS

Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 262

A resposta das Inspetorias ao apelo pelas missões. – O Congresso Mundial dos Ex-alunos. – Convocação do Capítulo Geral Especial. – As Comissões Pré-Capitulares. – Convite à oração. – “Sentimo-nos mais ricos”. – A retidão do coração. – A função legislativa tarefa exclusiva do Capítulo Geral. – A palavra do Pai. – No exemplo de Dom Bosco e de seus Sucessores. – Paternidade espiritual.

– Os Ex-Alunos centro de interesse da Congregação. – O que a Igreja nos pede. – Adentrar-se nos tempos. – Um exame de consciência. – O nosso empenho hoje. – Duas observações. – Por uma Congregação renovada.

Turim, 1º de outubro de 1970

Irmãos e filhos caríssimos.

Desta vez tenho um belo ramalhete de notícias que me sinto realmente feliz de levar ao conhecimento de todos.

Começo por anunciar-vos que no próximo mês de dezembro, exatamente no dia da festa da Imaculada, o nosso muito querido e venerado P. Renato Ziggiotti celebrará suas bodas de ouro sacerdotais. Com a humildade e simplicidade que todos conhecemos, ele teria preferido comemorar a data no silêncio e recolhimento. Eu, porém, faltaria a um estrito dever se não comunicasse a todos vós esse aconte- cimento.

Padre Ziggiotti consumiu generosamente a sua vida pela Congregação em todas as fases do seu longo curriculum salesiano, e depois de cumprir com dedicação e fidelidade o seu encargo mais alto, o de Reitor-Mor, no fim, deu-nos a todos a lição edificante de sereno desapego e consequentemente de autêntico amor à Congregação. Temos todos mil motivos para lhe exprimir a nossa cordial gratidão. No dia da Imaculada, festa tão querida ao coração de cada Salesiano, sentir-nos-emos todos próximos, em qualquer lugar estivermos no mundo, a fim de agradecer com ele a Deus por tudo quanto quis fazer de graças e bens na pessoa do Padre Ziggiotti nesses cinquenta anos; mas nos sentiremos também unidos, cheios de reconhecimento, para invocar sobre ele, que tanto deu à Congregação, não só com a sua ação, mas sobretudo com a sua exemplaridade de vida de Salesiano e de Sacerdote, as recompensas que somente Nosso Senhor pode dar, para os muitos anos que ainda lhe desejamos, sempre serenos e fecundos, e em seguida, quando Deus o quiser, para o dia do prêmio.

A ocorrência do jubileu sacerdotal do caríssimo Padre Ziggiotti me traz à mente a figura de tantos outros Salesianos venerandos e beneméritos, que celebram, na alegria familiar das nossas comunidades e Inspetorias, acontecimento semelhante.

São irmãos que, nos encargos mais diversos, contribuíram para “construir” a Congregação em todos os Continentes. Quando fico informado, não deixo nunca de me tornar presente, nessas ocasiões, a esses ótimos irmãos: tenho o dever de fazer sentir a participação reconhecida e afetuosa da Congregação na data que torna feliz o seu coração.

Gostaria de servir-me desta ocasião para lembrar a todos de que atenção filial devemos cercar os nossos irmãos anciãos, não só porque queremos ser sempre uma autêntica família, na qual quem lhe consagrou os dias de sua vida tem todo o direito à consideração respeitosa e cordial de quem à família pouco ainda pôde dar, mas ainda mais, e não devemos esquecê-lo, porque foram os idosos que prepararam na Congregação, dia a dia, à custa de sacrifícios não raro e também heroicos, as realidades que hoje nós verificamos e das quais também gozamos. Esquecer, não ter presentes essas verdades, seria não somente falta de gratidão, mas, antes ainda, indicaria uma maneira pouco inteligente e irresponsável de encarar as realidades, não digo cristãs e religiosas, mas também humanas em que vivemos.

Mas para conforto comum, pude ver, até pessoalmente, de que atenção afetuosa e filial são rodeados os irmãos anciãos e ainda mais os doentes. Pois bem! Isso é “fazer família”, a verdadeira família cristã, não essa que hoje se encontra aqui e ali, carente e esvaziada dos valores do amor evangélico, que vê no parente idoso um peso embaraçante.

Queremos ser uma família unida e sustentada pelo vínculo vivo e eficaz da caridade.

 

A resposta das inspetorias ao apelo para as missões

E passemos para a segunda notícia. Como se acenou no número precedente dos ACS, também neste ano pudemos mandar à América Latina e a outros Países de Missões mais cinquenta Salesianos, dos quais boa parte são sacerdotes. Nestes meses eles chegarão aos locais a que foram destinados, após terem feito um curso de preparação.

A propósito dessa terceira remessa de “Voluntários”, desejo salientar alguma coisa. Antes de tudo agradeço, desde estas páginas, perante toda a Congregação, às Inspetorias das quais provêm os Voluntários. Pelo elenco que se acha em outra parte dos ACS concluireis que eles não vêm apenas da Europa, mas até mesmo da Austrália e da Ásia!

O meu agradecimento muito especial vai às Inspetorias que chamaria mais generosas, e são muitas; apraz-me entre elas colocar em evidência alguns dos Países do Leste da Europa e — primeiro caso na nossa história missionária! — da Inspetoria do Assam (Índia) que deu um jovem sacerdote para a América Latina, precisamente para a missão dos Carchá (Guatemala).

Cito o fato porque me parece significativo, e diz como, em força da “solidariedade fraterna”, que deve ser eficaz na Congregação, uma Inspetoria essencialmente missionária, como a do Assam, faz o sacrifício de um elemento que seria muito útil “in loco”, para ir em auxílio de outra Missão não menos necessitada. O gesto fala de muita fé e ao mesmo tempo é indicador de caridade concreta: fé e caridade que Deus bondoso não pode deixar sem frutos fecundos. Eu quisera que exemplos como esse servissem para nos tornar mais sensíveis, especialmente as Inspetorias que nestes  anos estiveram menos presentes nessa obra de ajuda fraterna às regiões mais urgentemente necessitadas.

Para o próximo ano, a experiência sugere que se faça desde agora o convite aos “Voluntários”, nas mesmas condições.

O motivo da antecipação do meu convite está no fato que se querem evitar os muitos atrasos para a partida. Recebendo a “oferta” dos Voluntários nos meses de janeiro-fevereiro, podem-se principalmente encaminhar os trâmites nas Inspetorias e em seguida as providências quanto à destinação, às viagens, etc.

Espero, portanto, que para 1971, o ano do Capítulo Geral Especial, um bom número de Sacerdotes e também de Coadjutores venha oferecer-se ao Reitor Mor para a América Latina e para outros lugares de Missão.

Será um modo assaz eloquente para demonstrar a vitalidade espiritual e apostólica da Congregação: a vocação missionária, com efeito, com todos os valores que ela contém, é índice evidente de vitalidade apostólica e, mais ainda, religiosa e espiritual.

Em outra parte dos ACS achareis o 4º elenco da solidariedade fraterna. É consolador ver como muitas Inspetorias sentiram e sentem esse “motivo” de união feito de caridade, na família da Congregação.

Esse sinal de solidariedade, porém, é ainda mais edificante quando provém de Inspetorias e obras estritamente pobres, que têm necessidade em absoluto da ajuda dos outros. Cito, por exemplo, a Inspetoria Missionária de Cuenca no Equador, e a missão de Krishnagar na Índia, mas poderia continuar com outros nomes. As suas ofertas, embora modestas, são fruto de sacrifícios não raramente muito duros.

O exemplo dessas Inspetorias e obras parece-me que deve ser um apelo eficaz para quem, sem estar nas condições tão incômodas acima descritas, demonstra insensibilidade pelas necessidades dos irmãos.

Devemos lembrar: não nos podemos iludir pensando que amamos os pobres se não fazemos pessoalmente alguma coisa por eles, se não pagamos com algo de nós mesmos; e na Congregação temos realmente muitos “pobres” autênticos, que são nossos irmãos, o primeiro — embora não único — o nosso próximo.

 

O Congresso Mundial dos Ex-alunos

Como sabeis, no mês de setembro passado realizou-se o Congresso Mundial dos nossos Ex-alunos, em coincidência com o Centenário da sua Organização. Não vou aqui fazer-vos a crônica desses dias, demorando-me em pormenores — embora tão belos — que podeis conhecer lendo-os em outro lugar. Penso, aliás, que quantos parti- ciparam do Congresso levaram para os Países de que provieram as impressões vivas e sobremaneira positivas recolhidas nesses dias intensos.

Aqui desejo dizer a todos que nessa ocasião tornou-se ainda mais evidente toda a nossa responsabilidade e o nosso interesse apostólico-educativo a fim de que nos ocupemos seriamente desta vasta porção da nossa missão na Igreja.

Precisamente para desenvolver melhor e mais amplamente ideias e orientações a esse respeito, pareceu-me oportuno preparar uma carta dirigida a toda a  Congregação: encontrá-la-eis em outra parte destes ACS. Peço a todos que dediquem a essa carta a atenção que o assunto merece.

 

Convocação do Capítulo Geral Especial

Mas esperais que eu vos diga alguma coisa de concreto sobre o nosso Capítulo Geral Especial. É um desejo totalmente justificado e louvável: vou satisfazê-lo.

Começo por anunciar a toda a Congregação, segundo o art. 128 das Constituições, que o Capítulo Geral Especial será aberto no dia 10 de maio de 1971 às 10 horas, em Roma, na nova Casa Geral, na Via della Pisana, 1111.

Os técnicos garantem-nos que, nos meses ainda disponíveis, quer a Casa Geral quer a Casa para retiros e encontros, que está ao seu lado, estarão prontas para receber os Capitulares na data fixada.

Acompanhemos o trabalho muito complexo e muito difícil dos técnicos com a nossa oração, para que não sobrevenham acontecimentos imprevisíveis, que possam prejudicar o programa do Capítulo.

Permiti agora que à comunicação oficial do início do nosso Capítulo Geral Especial acrescente alguma informação útil e alguma consideração não menos útil.

O segundo turno de Capítulos Inspetoriais já se encerrou em todas as Inspetorias, e os seus resultados, chegados ao Secretariado Central de Coordenação, estão sendo objeto de catalogação e fichamento a fim de serem postos à disposição das Comissões pré-capitulares, e a seu tempo, do mesmo Capítulo Geral.

Desejo exprimir a minha satisfação juntamente com o mais vivo obrigado pela colaboração inteligente e generosa que oferecestes durante dois anos: isso é sinal evidente de amor à Congregação para cuja renovação vos sentis filialmente responsáveis.

Como no início do caminho de preparação dirigi convite pessoal a cada um de vós, assim vos peço aceiteis a minha satisfação e meu obrigado como expressão  de gratidão pessoal a todos e a cada um individualmente.

Realmente pode dizer-se que a vossa participação na preparação do Capítulo Geral Especial foi irrestrita. Ainda não posso apresentar-vos a porcentagem exata das respostas e votações pessoais nas instâncias e propostas contidas em “Problemas e Perspectivas para o Segundo Capítulo Inspetorial Especial”, mas já sou capaz de afirmar que ela é sociologicamente relevante e significativa, e decididamente superior ao que sabemos haver-se verificado em casos análogos.

Torno a dizer que tudo isso é expressão clara e consoladora do amor comum à Congregação e do desejo vivo de cada irmão de vê-la como Dom Bosco a quis, capaz  de responder adequadamente à expectativa da Igreja e dos tempos.

Tal manifestação de corresponsabilidade valoriza-se tanto mais quanto maiores sacrifícios ela exigiu de todos os irmãos, de modo especial das comissões capitulares inspetoriais. Bem sei que o trabalho para o Capítulo veio a acrescentar-se a todas as vossas ocupações ordinárias, reduzindo também o período do descanso necessário.

Isso confirma que o princípio da corresponsabilidade e o método da “participação” na elaboração das linhas programáticas — elementos pedidos com tanta insistência pelos documentos conciliares e pelo Perfectae Caritatis em todos os níveis — se bem compreendidos, não são pretexto ou álibis para abaixar o tom da nossa vida religiosa ou para mitigar a sua seriedade e as suas exigências, mas antes uma solicitação à generosidade, à disponibilidade de cada um e de cada comunidade, na superação contínua de todo fechamento individualista ou, pior, de desinteresse egoísta.

Agora o trabalho passa do nível local ao central.

 

As Comissões Pré-Capitulares

Foram formadas cinco Comissões Pré-Capitulares, correspondentes aos temas gerais. Os nomes dos membros estão em outra parte dos ACS. Em cada comissão está presente algum Salesiano que já trabalhou na primeira fase dos trabalhos das Comissões Pré-Capitulares, em Roma — S. Tarcísio, no verão de 1969: está assim garantido o necessário entrosamento com o trabalho desenvolvido precedentemente. Além disso, foram chamados para fazer parte das Comissões alguns Inspetores e Delegados Inspetoriais — de várias partes do mundo salesiano — que vão participar do Capítulo Geral Especial e que, portanto, vão tornar possível outro entrosamento indispensável: das Comissões Pré-Capitulares com os trabalhos capitulares. As Comissões Pré-Capitulares trabalharão de 10 de dezembro deste ano até o final de fevereiro de 1971, na Casa de Retiros da Inspetoria Romana, em Frascati — Vila Tuscolana. Será sua tarefa organizar — tendo presentes os resultados dos dois Capítulos Inspetoriais Especiais — os “ESQUEMAS” dos documentos que se devem apresentar como base para os trabalhos do Capítulo Geral Especial.

Permiti-me fazer agora alguma reflexão sugerida pelo momento atual e pelos problemas que estamos vivendo nesta laboriosa vigília.

 

Convite à oração

A participação direta, pessoal e comunitária na preparação do Capítulo Geral Especial da parte de todos os Salesianos não pode e não deve considerar-se encerrada: nos próximos meses, porém, deve assumir uma feição diferente, mas nem por isso menos preciosa, e insubstituível: ao debate, ao confronto, ao estudo e ao diálogo deve agora suceder, de maneira determinante, o empenho da oração, acompanhada pelas disposições interiores, de vida e de ação, que todos conhecemos como indispensáveis para tornar eficaz e autêntica a mesma oração. Temos absoluta necessidade da assistência do Espírito Santo, que torne presente no meio de nós Cristo Senhor, sem o qual nada podemos fazer. Para merecê-la devemos dar ao período de tempo que nos separa do Capítulo Geral Especial o sentido e o valor de um particular empenho espiritual e apostólico. Cada Casa, cada Inspetoria e a Congregação inteira devem trabalhar em “clima de cenáculo”: ao redor de N. S. Auxiliadora e de Dom Bosco, na expectativa humilde, dócil, fervorosa, do Espírito, do qual promanam, como dons do alto e sementes de fecundidade espiritual, todos os carismas.

O clima de oração deve ter a intensidade proporcional à importância e delicadeza da tarefa que grava sobre o Capítulo Geral Especial.

Ao invés de indicar a todos formas determinadas e idênticas de oração e de empenho espiritual, prefiro deixar à iniciativa de cada Inspetoria combinar e decidir quanto julgar mais oportuno e conveniente, na certeza de que, como foi geral a contribuição no estudo e nos debates, assim também será geral a contribuição da oração e do fervor de vida. A esta contribuição procuraremos associar, como nos trabalhos precedentes, os nossos alunos, ex-alunos e cooperadores. Quem puder, interesse também comunidades religiosas e grupos particulares de pessoas e paróquias para que se unam a nós com a sua oração.

Gostaria de saber da parte dos Inspetores o que se programar e fizer nesse sentido.

 

“Sentimo-nos mais ricos”

Uma segunda reflexão foi-me sugerida pelas informações e pormenores chegados de diversas partes sobre os trabalhos dos Segundos Capítulos Inspetoriais Especiais.

E aqui desejo aproveitar a ocasião para agradecer sensibilizado a muitos Capítulos Inspetoriais Especiais que, durante seus trabalhos, quiseram exprimir ao Reitor-Mor e Superiores os sentimentos calorosos do seu apego filial a Dom Bosco e à Congregação.

“Sentimo-nos todos intelectualmente, espiritualmente, pastoralmente mais ricos, como religiosos e como Salesianos”.

Foi esta em síntese a opinião que me expressaram de muitos lugares, depois de dois anos de difíceis trabalhos. Agrada-me pensar que essa afirmação possa valer para toda a Congregação.

Como já vos dizia na carta precedente, posso ainda confirmar que os Capítulos Inspetoriais se desenvolveram, na maior parte das Inspetorias, em clima de grande caridade e ao mesmo tempo de liberdade, responsabilidade, respeito mútuo. Os debates foram francos e leais, os confrontos sinceros, o diálogo vivo e, às vezes, acalorado: mas no fim todos os participantes se sentiram mais ricos. Com tonalidades diferentes, da grande maioria dos Capítulos vieram estas constatações: “Fomos obrigados a refletir e a pensar, a investigar temas fundamentais da nossa vida religiosa e da comum ação pastoral, a confrontar-nos com nós mesmos,  deixando-nos interpelar por Cristo, pela Igreja, por Dom Bosco, pelos jovens e pelos homens do nosso tempo”.

Surgiu assim um material precioso para o trabalho do próximo Capítulo Geral Especial, mas também, estou certo, um mais vivo sentido da urgência e atualidade da missão para a qual fomos chamados, e, portanto, um renovado sentido da responsabilidade que paira sobre cada um de nós de se reformar interiormente — in justitia et sanctitate veritatis — para nos colocarmos à altura da mesma missão.

Se o diálogo universal da Congregação não servisse para colocar-nos nessas disposições de ânimo, o Capítulo Geral Especial poderia dar-nos talvez ótimos documentos e sábias diretrizes, mas não alcançaria de maneira alguma, ou muito limitadamente, a finalidade pela qual a Igreja o quis.

 

A retidão do coração

Para que esse enriquecimento espiritual não seja apenas impressão de alguns, mas realidade para todos nós, parece-me sobremaneira necessária uma virtude: a retidão do coração.

Considero-a como uma virtude “sinfonia”, para a qual confluem, como temas de uma mesma sinfonia, outras virtudes fundamentais que a sustentam e desenvolvem. Ela implica antes de tudo uma perfeita pureza de intenção no caminho da renovação: o que deve contar para nós não é a vitória dos nossos pontos de vista pessoais (que aliás cada um pôde exprimir e motivar livremente); nem muito menos a defesa da nossa vida cômoda, talvez inconscientemente camuflada por nós mesmos como fidelidade, que não seria senão fidelidade formalista; não é tampouco uma espécie de expectativa messiânica, desencarnada de qualquer sentido de realismo. O que conta, para o coração reto, é que a Congregação saiba interpretar e viver a mensagem que Deus hoje lhe apresenta.

Por isso, a retidão de coração implica profunda humildade, que nos torne disponíveis à voz de Deus. A humildade do homem, consciente de que Deus não concedeu a ninguém com exclusividade o privilégio da verdade, e que, portanto, sabe e quer “ouvir”. A humildade do cristão que está profundamente persuadido de que a mensagem do Pai a cada um e às diversas comunidades se insere necessariamente na mensagem do seu Filho Divino, confiada à Igreja toda sob a guia daqueles que o Espírito Santo pôs para reger a Igreja de Deus: sem isto, cada um e cada comunidade, perderiam o contato vital com a fonte ou, para dizê-lo com Paulo VI, tornar-se-iam “regatos que não formam um rio”.

A humildade do Salesiano, enfim, que percebe a própria limitação, que deriva do fato de não ser ele, com todos os seus irmãos, chamado a fundar uma nova Congregação, mas tornar sempre mais fecundo e adequado no tempo o carisma dado a Dom Bosco como “Fundador”. Ele sabe, portanto, que é condicionado por Dom Bosco: pela sua vida, pelas suas realizações, pela sua palavra, pelos seus escritos; mas julga tal condicionamento, que o estimula a um generoso estudo da figura do Pai, não como uma corrente que torna o passo pesado e vagaroso, mas como uma luz que, iluminando o caminho, faz correr mais desembaraçadamente, com mais segurança e coragem. Para usar as palavras de um relator em recente congresso de teologia, trata- se de uma delicada concordância a realizar entre dois poios inseparáveis: “anamnese” (fidelidade às origens) e “profecia” (leitura do Evangelho e, para nós, do carisma de Dom Bosco, hoje).

Com a humildade, da retidão do coração nasce a esperança que não confunde e não desanima o Salesiano. O coração reto, enquanto se empenha com todas as suas forças em ouvir e atuar a mensagem de Deus, espera dele, juntamente com a Palavra, a graça para entendê-la e a força para realizá-la. Encontra, então, o segredo da serenidade e do otimismo cristão e salesiano, embora na consideração realista da fraqueza humana e das enormes dificuldades dos problemas que afligem hoje a humanidade, a Igreja, a Congregação. Ele sabe em quem confia: em Jesus crucificado, ressuscitado e atualmente vivo.

 

A função legislativa, tarefa exclusiva do Capítulo Geral

Ainda uma reflexão que acho obrigatória a propósito dos Capítulos Inspetoriais Especiais.

Estes Capítulos — para os problemas gerais e fundamentais da Congregação — foram uma fase intermediária, em ordem ao Capítulo Geral Especial e em função do mesmo, e, portanto, não foram a fase definitiva. As ideias expressas por eles, as escolhas feitas deverão achar um confronto mais amplo e universal no Capítulo Geral, e por isso não podem absolutamente ser consideradas como deliberações efetivas e executivas; a função legislativa é tarefa exclusiva do Capítulo Geral.

O enriquecimento de que vos falava acima deve servir também para isso: para nos persuadir de que, se o estudo e o confronto das ideias a nível das Casas e dos Capítulos Inspetoriais nos têm enriquecido, tanto mais seremos enriquecidos pelo estudo e por um confronto que poderá usufruir de todas as contribuições particulares dos Capítulos Inspetoriais e juntamente de uma visão universal dos problemas.

Portanto é razoável e necessário ficarmos numa expectativa confiante e disponível, sem pretendermos nos antecipar às decisões capitulares e sem condicionarmos a sua aceitação ao acolhimento de nossos pontos de vista particulares

 

A Palavra do Pai

Ainda uma palavra: como é natural para os filhos, vamos colhê-la nos lábios do Pai.

Dom Bosco na ocasião do primeiro Capítulo Geral da Congregação, aberto em 5 de setembro de 1877, entre outras coisas dizia aos Salesianos reunidos em Lanzo: “Nós empreendemos coisa de máxima importância para a nossa Congregação”.

E tinha razão. Parece-me que a mesma coisa, embora por motivos diversos, também nós podemos dizer hoje em vista do nosso próximo Capítulo Geral Especial.

Naquela ocasião nosso Pai lembrava aos nossos primeiros irmãos que, estando reunidos em nome de Cristo Salvador, e buscando sinceramente a glória de Deus e a salvação das almas, não podia faltar-lhes, segundo a palavra do Senhor no Evangelho,  a presença iluminadora e confortante do mesmo Cristo.

É este o convite e augúrio que em nome do Pai comum faço a todos nós.

Unidos na caridade sincera, na oração, na humilde busca da vontade de Deus para o verdadeiro bem da Congregação e das almas, Cristo Senhor (podemos esperá-lo com razão), estará presente e nos ensinará o caminho para chegarmos à meta feliz.

Naquela mesma ocasião, Dom Bosco convidava os Salesianos a colocar o Capítulo sob a proteção especial de N. S. Auxiliadora: “Maria — dizia ele — é luz dos cegos: peçamos-lhe que se digne mesmo iluminar as nossas fracas inteligências durante todo o tempo dessas reuniões”.

Sentimos nessas palavras vibrar o amor e a confiança de nosso Pai para com Nossa Senhora, em cujo nome sempre se iniciou qualquer empresa na Congregação.

A seu exemplo, e aceitando o seu paterno convite, coloquemos filialmente o nosso Capítulo sob a proteção da Virgem Auxiliadora. Nós nos empenhamos em interessá-la nessa grande empresa.

A Virgem santa haverá de nos guiar até a conclusão do nosso Capítulo, iter para tutum, a fim de que ele corresponda plenamente às expectativas da Igreja, das almas, da sociedade.

Enquanto os ACS estão para ir ao prelo, chega-me de Roma a esperada e agradabilíssima notícia da aprovação dos dois milagres do Venerável Padre Miguel  Rua.

Essa aprovação, como sabeis, era o último passo para a beatificação.

Voltarei a falar deste acontecimento que para a Congregação é não somente motivo de grande alegria, mas também, pela feliz coincidência com o nosso Capítulo Geral (já agora, podemos dizer, às portas), um feliz apelo ao amor e fidelidade a Dom Bosco, do qual o Padre Rua foi magnífico exemplo elevado, eu diria, a símbolo.

Enquanto vos convido a dar graças a Deus pela dádiva que faz à Congregação, neste momento especial da sua história, procuremos também aprofundar o conhecimento daquele que, não somente foi o primeiro Sucessor de Dom Bosco, mas esteve sempre ao seu lado com a fidelidade de filho autêntico nos difíceis inícios da nossa Congregação.

Peço que aceiteis, todos e cada um, com a minha saudação muito cordial, a garantia de que vos lembro diariamente.

Com muito afeto,

Luís Ricceri
Reitor-Mor

OS EX-ALUNOS SALESIANOS

Atos do Conselho Superior 262

Carta do Reitor-Mor por ocasião do Centenário da Organização dos Ex-alunos

Caríssimos Irmãos,

O “Congresso Mundial dos Ex-alunos de Dom Bosco”, que se realizou em Turim e em Roma, de 17 a 23 de setembro último, por ocasião do Centenário da Organização, fez-nos constatar com evidência não só a extensão do Movimento dos nossos Ex- alunos, organizado como está hoje com 60 Federações Nacionais, mas também a ação espiritual que pode exercer através de seus membros e Associações em todo o mundo.

Um fato sobretudo me impressionou durante o Congresso: vi os Ex-alunos pedirem, diria melhor, invocarem, com sentida insistência, um interesse mais vivo por parte da Congregação no que lhes diz respeito.

Foi uma prova dos laços de afeto que os unem, na linha dos sentimentos que animavam os Ex-alunos de Dom Bosco cem anos atrás. Foi mais ainda um apelo que não deve deixar de ser atendido e que desejo responder, concretamente, como prometi. E o faço com esta exortação que vos dirijo, onde quer que estejais e em qualquer nível de responsabilidade vos acheis empenhados no mundo salesiano. Os que se achavam presentes em Turim podem compreender qual o impulso que dá origem a esse apelo e quais os resultados que tem em vista.

Como Salesianos, enquanto juntamente com os Ex-Alunos contemplamos, com legítima complacência, o caminho percorrido no primeiro Centenário, queremos e devemos estar mais perto e ser animadores mais ativos e eficientes dos Ex-alunos, para as novas e, esperamos, mais válidas atuações, cujas perspectivas se nos abrem para o segundo Centenário.

 

A exemplo de Dom Bosco e dos seus Sucessores

A nossa atitude para com os Ex-alunos deriva antes de tudo do exemplo de Dom Bosco. Dom Bosco, a princípio, acompanhou, individual e ocasionalmente, seus Ex- alunos, mas bem depressa cuidou de sua organização.

Ele viu com simpatia e animou por todos os modos as reuniões anuais que se faziam por ocasião do seu onomástico. Criou, no espírito cordial de família, o clima que desejava se formasse entre Salesianos e Ex-alunos. Definiu claramente a finalidade do movimento que nascia, isto é, a assistência espiritual aos mesmos Ex-alunos e a sua preparação, como cristãos leigos, para servirem à Igreja e à sociedade. Viu neles mensageiros de seu espírito em meio aos homens, preocupando-se em torná-los válidos colaboradores seus e convidando-os a se inscreverem como Cooperadores Salesianos. Na primitiva organização já estavam presentes todas as bases para os desenvolvimentos posteriores e o conteúdo de ideais para uma grande Associação de Leigos na Igreja.

Os primeiros Sucessores de Dom Bosco promoveram de todos os modos a ideia de Dom Bosco sobre os Ex-alunos e tiveram um duplo merecimento: foram os primeiros a fazer surgir, entre as instituições desse gênero, uma organização de Ex-alunos numa linha unitária e mundial, e compreenderam que a Associação dos Ex-alunos deveria ter uma constituição de tipo laical, como ao depois ensinou o Concílio Vaticano II. A história dos Ex-alunos Salesianos, nos primeiros decênios do século, em várias nações, uma história que talvez pouco conheçamos, demonstra terem estado eles na van- guarda das Associações leigas, que prepararam tempos novos para a vida da Igreja.

 

Paternidade espiritual

O dever que temos de nos interessar pelos Ex-Alunos é inerente à essência mesma do sistema educativo de Dom Bosco. O Santo, ao enumerar as razões em prol do sistema preventivo, afirma entre outros motivos o seguinte: “O aluno conservará sempre grande respeito para com o educador, e lembrará com gosto a educação recebida e considerará ainda os seus mestres e demais superiores como pais e irmãos”.

Essas palavras subentendem realidade muito profunda. Quando um jovem entra em contato com um Salesiano, o encontro jamais se dá por acaso. Foi a Providência que encaminhou o encontro e confia para sempre um encargo sagrado ao educador. Estabeleceu-se um vínculo de paternidade espiritual entre ele e o jovem e desde esse momento começa para o Salesiano uma responsabilidade a que não pode fugir, principalmente no tocante aos interesses espirituais.

Nesse sentido é que se deve entender a paternidade salesiana e a essa luz é que se pode compreender o que Dom Bosco pedia amorosamente aos seus Ex-alunos: “Chamem-me sempre de Pai”. O educador permanece para sempre, na ordem espiritual, o pai dos jovens que Nosso Senhor lhe vai confiando no correr dos anos.

 

Os Ex-alunos, centro de interesse da Congregação

A nossa Congregação tem como finalidade básica de apostolado a educação dos jovens. Mas a educação dos jovens não é fim a si própria. A meta que temos em vista, quaisquer que sejam as obras em prol dos jovens, é essencialmente a de conseguir a formação de leigos adultos, bem preparados espiritual, humana e profissionalmente, para se inserirem na sociedade e a animarem com espírito cristão.

Dom Bosco, com a larga visão que o caracterizava, enquanto educava os jovens, visou sempre a fazer deles, quando adultos, instrumentos conscientes e válidos para a solução dos grandes e graves problemas da sociedade. Foi apanágio seu propor finalidades sociais concretas ao seu apostolado em meio aos jovens e nós outros esvaziaríamos os intentos educativos que tinha, se renunciássemos a essas perspectivas.

Seremos, pois, fiéis à nossa missão se ficarmos ao lado dos nossos Ex-alunos no momento em que deixam nossas obras para se inserirem no mundo e se continuarmos a servir-lhes de guia na medida em que forem assumindo as responsabilidades que lhes couberem na família, na sociedade e na profissão que abraçarem.

Não é tanto pelo número de alunos que tenhamos, ou por brilhantes resultados escolares, ou ainda por outros resultados de atividades várias dos jovens que se mede a eficácia da nossa missão educativa, mas pela coerência da vida deles com os ensinamentos que lhes tivermos dado e pela influência concreta que, como adultos, exercerem na Igreja e na sociedade.

Tudo isso nos obriga a um sério trabalho, organizado, para os Ex-alunos, trabalho não paralelo, mas inserido nas atividades próprias da comunidade. As nossas obras, com efeito, não se limitam à idade juvenil dos alunos, mas atingem a plenitude da sua finalidade no relacionamento eficaz que soubermos manter com os Ex-alunos. Em outra circunstância, para ilustrar a incoerência que demonstramos quando não nos interessamos, no modo devido, pelos Ex-alunos, empreguei a imagem do semeador que ara o campo, lança a semente e depois não se preocupa com a colheita. É essa uma sensibilidade falha e perigosa, de que, parece-me, temos muitas vezes de nos acusar.

 

O que é que a Igreja nos pede

O Concílio Vaticano II, enquanto põe em relevo a vocação dos leigos ao apostolado, a espiritualidade que devem cultivar, os vários setores de atividade a que se podem dedicar e as características da ação que desenvolvem, recomendou repetidas vezes ao clero e às instituições religiosas a preparação dos leigos, aos quais se atribui hoje insubstituível missão na Igreja.

A Declaração “sobre a educação cristã dos jovens” (n. 8) exorta nesse sentido os educadores a que “continuem – são palavras do documento – a segui-los, depois de terminados os estudos por conselhos, amizade, como também pela fundação de associações dotadas de verdadeiro espírito eclesial”. Mediante a palavra insistente do Papa, a recomendação tomou o tom de um apelo cheio de ansiedade. Ecoa ainda em nossos corações, mais ainda que aos ouvidos, a palavra de Paulo VI na audiência de 23 de setembro último, dirigida aos nossos Ex-alunos, por ocasião das Celebrações do Centenário: “Amai a vossa Associação, sede-lhe fiéis e sobretudo esforçai-vos com todas as forças por irradiardes nos outros o espírito que a anima, com um testemunho cristão aberto, generoso, dispensador de serenidade e alegria, conforme os ensinamentos de Dom Bosco. O mundo que vos rodeia tem necessidade urgente desse testemunho. É a Igreja que hoje vos pede isto, pela voz autorizada do Concílio Vaticano II”.

Ora, já que o nosso apostolado tem a sua expressão principal na educação dos jovens, é precisamente uma instituição religiosa como a nossa que deve responder ao convite insistente da Igreja e preparar leigos adultos que deem testemunho cristão em meio aos homens e tomem posições de responsabilidade e chefia no campo do apostolado leigo. É esse o primeiro dos nossos deveres para com a Igreja. É verdade que o Movimento dos Ex-alunos no passado deu não poucos dos seus homens ao serviço eclesial e que muitos dos melhores elementos foram também animadores das Associações católicas mais diversas. Mas gostaria de sublinhar que não devemos nos comprazer demais com o que se fez no passado. É preciso fazer mais ainda, muito mais e melhor. Podemos e devemos fazê-lo, para dar à Igreja os homens de que necessita especialmente nos dias de hoje.

Neste setor nós talvez, possamos dar uma resposta concreta e específica às graves exigências da Igreja de hoje; e nesta linha temos possibilidades de nos inserir de maneira prática e com eficácia incisiva no grande movimento renovador do Concílio. Leva-nos a isso o espírito mesmo de Dom Bosco, que se encontra bem dentro das necessidades dos homens do nosso tempo; leva-nos a isso a expansão da Congregação por todo o mundo, o número dos nossos Ex-alunos, sua presença em todos os setores da vida social, o sentido de responsabilidade, abertura e adesão aos interesses da Igreja, que nos deve caracterizar em todas as nossas atividades. É a ocasião a que não devemos faltar, a fim de prestarmos à Igreja, com humildade, mas ao mesmo tempo com a generosidade de Dom Bosco, um serviço que é atual como nunca. Também o setor cada vez mais vasto dos nossos Ex-alunos pagãos é uma resposta à preocupação missionária da Igreja.

 

Adaptar-se aos tempos

Por mais que possamos inspirar-nos no passado, para reencontrar o esplêndido clima espiritual em que surgiu o nosso Movimento dos Ex-alunos, devemos reconhecer que o mundo progrediu e que por isso devemos adaptar-nos às novas exigências. E  não é difícil individuá-las.

Os leigos já não aceitam as formas de paternalismo que ponham limites à sua autonomia de ação, autonomia que a própria Igreja reconhece; eles querem assumir diretamente a responsabilidade das Associações que lhes são próprias, na consecução de suas finalidades específicas. Não vejo como isso seja inaceitável, uma vez que reconheçamos as nossas competências no campo propriamente espiritual e salesiano.

Os leigos hoje, especialmente os jovens, não querem mais limitar os interesses das suas associações a encontros de caráter sentimental, convivial, recreativo, ou a finalidades vagas e, diria, acadêmicas. Eles querem compromissos pessoais de trabalho, interesses bem definidos, realizações concretas. Se não os atendermos no que desejam e quisermos mantê-los na posição executores passivos e irresponsáveis, os melhores acabarão por nos deixar e irão à procura de grupos onde possam afirmar sua capacidade de assumirem compromissos. Mais do que geralmente se pensa, eles pedem interesses espirituais, abertura para os problemas essenciais da vida e do mundo, diálogo que é meio de enriquecimento. Os leigos já não aceitam formas e conteúdo do passado que se sustentam só por força de tradições ou por respeito a autoridades de fora. Querem adequação com a realidade concreta, com os homens e as situações dos nossos dias, compreensão da sensibilidade que lhes é própria.

Assim sendo, já não se podem limitar seus interesses e atividades somente ao âmbito da vida interna da Associação, como que querendo fazer dos sócios uma elite de privilegiados. Desejam relações com outras Associações, abertura para o mundo, comunicação com os próximos e os distantes.

São os “sinais dos tempos” que é necessário compreender prontamente e secundar, embora com a prudência e equilíbrio que Dom Bosco nos ensinou, precisamente quando tomava atitudes de adaptação e abertura aos valores e características do seu tempo. Se pudéssemos aprofundar o estudo da história do Movimento dos Ex-alunos, ela nos demonstraria que as Associações floresceram com pujante atividade, onde as tradições tinham tais riquezas espirituais que souberam adaptar-se às exigências vivas do ambiente e dos tempos.

 

Um exame de consciência

Se olharmos para o Movimento dos Ex-alunos como se manifestou nestes cem anos de vida, podemos verificar realizações confortadoras. O mesmo Congresso do Centenário nos deu sua dimensão.

Mas há também alguns elementos negativos que devemos pôr em relevo. E devemos fazê-lo com lealdade e humildade. As gerações passadas foram todas dedicadíssimas ao trabalho entre os jovens sob o impulso sempre urgente de expansão. Esse fato desviou muitas vezes a atenção e o interesse que devíamos ter para com o empenho salesianíssimo e necessário no setor dos Ex-alunos. Daí as consequências práticas: não tínhamos Salesianos para cuidar dos Ex-alunos, ou os encarregados não tinham consciência exata do trabalho que lhes cabia, ou não tiveram condições de atuá-lo, ou finalmente não dispunham de meios e auxílios em vista de uma organização séria das próprias atividades.

As nossas comunidades ficaram por vezes praticamente alheias a esse setor e, na programação das iniciativas, os Ex-alunos permaneceram à margem do interesse que se lhes devia. Prescindindo de outros elementos, que não é o caso de analisar, saliento principalmente que talvez não tenhamos preparado os nossos alunos a se inscreverem no Movimento organizado dos Ex-alunos. Não se tratava só de dar-lhes informações sobre a existência da Associação, mas principalmente de educá-los para a inserção numa vida associativa livre, depois da vida que tinham levado na juventude, vida um tanto protegida e regulada externamente. Seria preciso ter-lhes despertado o  interesse pessoal com relação aos problemas religiosos, abri-los ao dever da caridade, desenvolver e alimentar sistematicamente o sentido comunitário da vida, a necessidade e o gosto de se associarem para prestar serviço aos outros. São todas ideias que já focalizei na minha carta anterior sobre o subdesenvolvimento. Como vedes, são ideias “verdadeiras” e por isso, recorrentes.

Isso tudo induziria os nossos alunos que terminam a se manterem em contato conosco, contato pelo qual teriam podido realizar as suas aspirações. Não os tomamos sensíveis a esse empenho que os aguardava depois dos anos da primeira educação e nem sequer criamos o ambiente e os recursos de que necessitavam. Especialmente não preparamos nem destinamos as pessoas necessárias e capazes de os acolherem. Assim é que em muitos casos verificou-se uma dispersão; e nós, talvez, facilmente iludidos, ficamos satisfeitos com demonstrações de cordialidade e entusiasmo, que  nos puderam dar alguns dos nossos Ex-alunos, em reuniões mais ou menos ocasionais.

Caríssimos, o nosso trabalho de educadores, para corresponder de fato aos seus fins, deve preocupar-se em pôr, entre nós e os jovens das nossas obras, bases e condições sistemáticas e eficazes, que continuem a se desenvolver durante toda a vida. Esse é o modo de garantir verdadeira fecundidade a tantas de nossas fadigas.

 

O nosso empenho hoje

De tudo o que disse derivam consequências bem claras e concretas. Nosso primeiro empenho consiste essencialmente em tomar consciência de que interessar-nos pelos Ex-alunos é tarefa estritamente salesiana, inerente ao nosso título de educadores e não algo a mais, ou que não nos atinge. Essa convicção deve ser cultivada em todos os níveis: no nível dos que devem dar as diretrizes e escolher o pessoal, colocando-o em condições de desempenhar o seu encargo; no nível dos delegados que devem pôr-se à frente desse trabalho com a mesma diligência com que executam qualquer ocupação salesiana que a obediência lhes haja confiado. Também cada um dos Salesianos deve sentir-se espiritual e pessoalmente responsável pelos seus antigos alunos. Enfim, a comunidade toda deve considerar o setor dos Ex-alunos como próprio e parte integrante do trabalho da mesma comunidade educativa salesiana.

O redimensionamento das nossas obras pode e deve ser feito em muitos setores, mas certamente consiste também em saber dar justa e proporcionada consideração a todas as nossas tarefas educativas e garantir a sua execução, de acordo com o fim geral do nosso apostolado. Não há dúvidas de que o cuidado dos Ex-alunos se deve ter presente no trabalho do redimensionamento, tendo justo lugar na consideração que os Irmãos lhe devem dar e nas atividades de que a comunidade se deve sentir respon- sável.

Com a consciência da importância dessa tarefa educativa, devemos ter também ideias claras sobre as finalidades que queremos alcançar com o nosso trabalho entre os Ex-alunos.

Depois do que se disse até aqui, não é difícil definir tais objetivos. Em primeiro lugar, exige-se de nós o esforço de dar aos nossos antigos alunos uma formação espiritual sempre renovada e mais profunda. Sabemos que devemos criar com eles clima cordial de família e amizade; devemos estar presentes com humana compreensão nas vicissitudes alegres e tristes da sua vida; devemos constituir com as nossas Associações verdadeiros centros para encontros de serenidade, distensão, verdadeira amizade. Os Ex-alunos precisam de tudo isso. Mas persuadamo-nos de que tudo isso não basta. Eles são mais sensíveis do que se pensa ao nosso interesse por aquilo a que Dom Bosco chamava “as coisas da alma”. Por isso, é neste plano de verdadeira assistência espiritual que devemos estabelecer com eles nossas relações.

Certamente nem todos são susceptíveis de uma mesma ação. Conheço bem os matizes extremamente variáveis de situações que se nos deparam, desde quem de muito longe deve ser trazido para Deus, até quem deve ser posto no caminho do cristianismo integral e de empenho. Mas apesar das fórmulas diferentes e do ritmo diverso, a finalidade é sempre a mesma. O atendimento espiritual aos Ex-alunos abre caminho para atingirmos outra meta: ajudá-los a se inserirem eficazmente na sociedade e a animarem cristãmente os vários setores da vida familiar, profissional e social. Formamos assim o homem integral e preparamo-lo para dar à sociedade uma contribuição construtiva. Não é presunção querermos isso: basta ver o número, a expansão e a posição que muitos Ex-alunos ocupam no mundo. São essas amplas perspectivas e grandiosos ideais que dão impulso aos empreendimentos e sacrifícios do nosso apostolado.

Gostaria de acrescentar uma palavra sobre a figura do Delegado, elemento verdadeiramente determinante da vitalidade das Associações. Os Ex-alunos, em todos os encontros, voltam sempre a insistir com ansiedade sobre a função insubstituível do Delegado Salesiano, embora peçam para assumirem eles mesmos a responsabilidade da organização. O Delegado tem uma tarefa toda particular de guia espiritual da Associação, animador de todas as atividades, responsável pela fidelidade à Igreja e a Dom Bosco, vínculo de união com a Congregação. Deve desaparecer a figura do Delegado Salesiano factótum, que deixa de lado as suas prerrogativas para se substituir aos outros. Deve ser igualmente superada a mentalidade de quem o considera quase à margem da vida da casa, à busca de evasões pessoais. Deve antes ser parte viva da comunidade numa operação que coordena e integra o trabalho dos irmãos com a porção mais numerosa dos que Deus Nosso Senhor confiou à nossa responsabilidade, os Ex-alunos.

Naturalmente nesta pauta é que o Delegado deve agir com fidelidade, empenhando-se verbo et opere em atuar as várias tarefas que mencionamos, evitando com toda diligência qualquer desvio em sua atividade e mais ainda em sua vida de Salesiano.

 

Duas observações

Desejo concluir com uma dupla observação.

Acontece ouvir muitas vezes Salesianos que se queixam de erem que limitar sua atividade exclusivamente às aulas ou, como quer que seja, a atividades com os jovens, sem a possibilidade de apostolado direto também com adultos. Já em outra circunstância escrevi que as aulas, o Oratório, a mesma assistência são autêntico apostolado quando se exercem com coração e com finalidades de pastor. Acrescento agora que o campo vastíssimo dos Ex-alunos se presta otimamente para satisfazer a aspiração legítima de trabalho com adultos, para não falar também dos Cooperadores etc. O empenho é mais vasto do que possa parecer, ao considerarmos a variedade de iniciativas que podemos promover. Quem experimentou, com verdadeiro zelo sacerdotal e salesiano e não para evasão pessoal, sabe o conforto reservado a quem trabalha com os Ex-alunos e que frutos pode colher.

Quero dizer uma palavra especial sobre um desses frutos: o trabalho com os Ex- alunos ajuda-nos em nosso apostolado com os jovens. Pode acontecer que especialmente quem está por demais e exclusivamente preso ao ambiente escolar, de disciplina, de recreios com os meninos, perca o contato com a vida real do mundo, para o qual devemos preparar os nossos alunos. Há talvez então o perigo de uma educação infantil, pouco aberta às exigências dos adultos, alheia à realidade. Quando, porém, a casa é aberta a um justo contato com os Ex-alunos, faz-se grande experiência da vida através dos problemas que eles trazem consigo. Precisamente por esse caminho os Salesianos tornam-se mais sensíveis e maduros para as suas tarefas de educadores. Os antigos educandos tornam-se de certo modo mestres de seus educadores.

Em segundo lugar, desejaria que os Ex-alunos, espalhados na estrutura tão diversificada da sociedade, quase como prolongamento e remate das nossas obras, pudessem demonstrar, com a sua vida e atividade, que as nossas casas, mais do que redomas protetoras para a formação dos nossos jovens, são e querem ser autênticos centros de irradiação de ação apostólica nos ambientes que nos rodeiam. Com os Ex- alunos a nossa ação se prolonga para fora das nossas comunidades, entra nas famílias, no trabalho profissional, na sociedade e na Igreja. Certamente já é muito eficaz o testemunho pessoal de fé cristã, porém consegue-se muito mais ainda se os Ex-alunos estão organizados em Associação. Uma Associação que seja organizada, mesmo com critérios próprios do nosso tempo, encarna, de forma mais visível e convincente, uma ideia, e com suas iniciativas promove-a de maneira mais ampla e eficaz.

Cada um de nós, na própria Inspetoria ou nação, pode ter diante de si o exemplo de Ex-alunos que desempenham papel de notável eficácia na vida religiosa e civil, mesmo em grandes cidades. Parece-me que Dom Bosco tenha visto nessa perspectiva a presença das nossas casas no mundo e seríamos traidores dessa característica de nossas casas, se não as abríssemos para essa dimensão social e eclesial.

 

Por uma Congregação renovada

Nós hoje, seguindo as orientações do Concílio, queremos uma Congregação renovada nas formas de apostolado; razoavelmente aberta e inserida no mundo para animá-lo cristãmente; aderindo aos tempos e lugares onde trabalha; capaz de compreender os graves problemas da Igreja e da sociedade e capaz de contribuir para resolvê-los; voltada à ação, não isoladamente, mas em união com todas as outras organizações e movimentos católicos. Penso que o vastíssimo apostolado entre os Ex- alunos, bem compreendido e realizado da melhor maneira, em clima de autêntica e construtiva renovação, poderá ser elemento importante da contribuição que daremos para atender às necessidades da Igreja e da sociedade atual.

A data centenária que estamos celebrando abra-nos a essa grande perspectiva; faça-nos compreender sua urgência e responsabilidade, e principalmente nos leve a tomar decisões com a visão e a coragem de Dom Bosco, para atuações práticas que derivam com evidência desta minha carta.

Invoco sobre todos a bênção do nosso Pai.

Luís Ricceri
Reitor-Mor

 

PADRE RUA, APELO À SANTIDADE

Padre Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 263

Apelo à santidade. – Consagrados = profissionais da santidade. – Dois exemplares modernos de santi- dade. – A palavra de Dom Bosco. – A resposta do Padre Rua. – “Bondade indescritível”. – Atividade extraordinária. – Sensibilidade e abertura aos problemas dos tempos. – A fonte. – “Sacerdote do Pa- pa”. – Padre Rua convida-nos.

Turim, 1º de março de 1971.

Irmãos e filhos queridos,

Comunicando-vos nos últimos Atos a notícia da beatificação do Padre Rua a realizar- se no correr do ano de 1971, acrescentava que teria voltado a falar sobre o assunto. É o que pretendo fazer com esta minha carta. É um dever e, antes ainda, um motivo de grande alegria para mim poder entreter-me convosco sobre este acontecimento tão rico de significado para a nossa família, melhor, para cada um de nós.

O fato de o Padre Rua, o primeiro sucessor de nosso Fundador, receber o crisma eclesial da santidade, depois de um roteiro lento e laborioso, durante o qual cada do- bra e aspecto de sua vida foram diligentemente e, diria, severamente averiguados, neste momento da vida da Igreja, enquanto a Congregação está empenhada na busca da sua autêntica renovação, tudo isso me parece ser um amável e fecundo gesto da Providência, que nos oferece um presente de grande valor, e ao mesmo tempo nos faz uma advertência ao chamamento dos valores perenes e essenciais que estão na base de toda verdadeira vida cristã, ainda mais se consagrada.

 

Apelo à Santidade

Digamo-lo com palavras claras, a beatificação de Padre Rua é um chamamento à nossa vocação fundamental, que é vocação à santidade. Ao dizer esta palavra parece- me ouvir uma objeção que poderia vir de alguma parte, espero não de vós, caríssimos irmãos.

Falar de santidade, hoje? Não está fora do lugar? Não seria anacronismo?

Devemos reconhecer que a palavra “santidade”, com tudo o que ela comporta, hoje em tanta literatura que se diz religiosa, parece desaparecida. Mas, a mesma palavra não pode ser cancelada da vida da Igreja, menos ainda da vida dos consagrados. Para fazê-lo, seria necessário antes de tudo eliminá-la, com todos os valores e os compro- missos que ela comporta, do Evangelho, de toda a constante doutrina e da mesma vida da Igreja, herdeira e realizadora da palavra evangélica.

Mas podemos dizer mais: mesmo em nossos tempos, mais de dois mil Padres do Vaticano II que “abriu de par em par as janelas da Igreja”, não só não riscaram dos seus documentos a santidade (aliás, como poderiam fazê-lo sem trair o seu mandato?), mas antes recolheram e reavivaram com sopro renovador o ensinamento do Evangelho e dos Apóstolos e o ininterrupto dos Padres da Igreja, chamando todo o Povo de Deus a sua vocação primária à santidade que definitivamente consiste em viver o Evangelho, todo o Evangelho, vida que se torna de per si testemunho eficaz.

Precisamente no Concílio Vaticano II houve um Bispo que disse: “Nos Estados Uni- dos, o único Evangelho que muitos ateus conheceram foram as Irmãs encontradas nos hospitais. Qual seria a força desse ‘Evangelho’ não lido, não pregado, mas visto a ser vivido, é atestado pela curiosidade neles despertada em saber alguma coisa sobre es- sas mulheres vestidas de branco. Esta primeira curiosidade atraía a outra, isto é, a de ouvirem falar d’Aquele que totalmente desconhecem, e no qual esses anjos de bonda- de acreditavam a ponto de lhe consagrarem a vida e tudo o que a vida, a formosura e comodidades lhes ofereciam, a fim de se dedicarem ao serviço dos outros: que manei- ra admirável de se travar um diálogo construtivo com os que estão longe”. A quem percorre os documentos do Vaticano II não pode escapar o chamamento recorrente à santidade embora dirigido às mais diversas classes do Povo de Deus.

Bispos e leigos empenhados, contemplativos e missionários, esposos e sacerdotes e consagrados, a todos eles os documentos conciliares não somente lembram a exigên- cia da santidade, mas ainda lhes indicam sempre o caminho e os meios.

Citemos pelo menos algumas dessas afirmações conciliares.

Na Lumen Gentium lemos a seguinte, clara e solene: “Todos os cristãos de qualquer condição ou estado são chamados pelo Senhor, cada um por seu caminho, à perfeição da santidade de que é perfeito o próprio Pai” (LG, 11).

Em outra passagem, a mesma Constituição expressa em forma dir-se-ia mais pre- mente esse empenho do simples (se autêntico) cristão: “Todos os fiéis cristãos... são convidados e obrigados a buscar a santidade e a perfeição do próprio estado” (LG, 42).

 

Consagrados = profissionais da santidade

E para nós consagrados? A Igreja do Concílio faz de nós os profissionais da sequela Christi, da conformidade a Cristo, na qual, em sua essência, é a santidade, capaz, por- tanto de testemunhar a santidade da Igreja, seguindo o Mestre pobre e obediente, virgem e orante.

Por isso ainda a Lúmen Gentium diz textualmente de nós consagrados. “Solicita- mente cuidem os religiosos que através deles a Igreja possa, de fato, manifestar sem- pre melhor Cristo tanto aos infiéis como aos fiéis” (LG, 46).

Se queremos ser corajosamente sinceros, portanto, o problema de fundo, ou me- lhor, a razão de ser da vida religiosa é a santificação dos membros. As mesmas estrutu- ras, as mesmas pessoas que exercem na vida religiosa uma autoridade, têm como fina- lidade primária e substancial facilitar aos irmãos, dos quais são responsáveis, o cami- nho da santidade. É interessante a propósito disso a definição que um escritor de espi- ritualidade dá ao exercício da autoridade na vida consagrada: Mandar significar ajudar o religioso a fazer a vontade de Deus, ou seja a fazer-se santo” (Padre Anastásio, Ascol- to di Dio).

Nessa linha evangélica e conciliar movem-se e agem também hoje muitas almas na Igreja de Deus. É verdade que elas não são notícia, não encontram muito espaço nas colunas dos jornais, mas nem por isso é menos real a sua presença e menos eficaz a sua ação. A um olhar vigilante e atento não passam desapercebidas e são motivo de confiança e esperança no meio de tantos sinais que levariam a pensar num humanis- mo que, segundo a palavra de um escritor, se identificaria mais com um autêntico sa- tanismo.

Dessas almas encontram-se, providencialmente, em todas as classes do povo de Deus, entre os que têm altíssimas responsabilidades na hierarquia da Igreja, entre hu- mildes almas consagradas e obscuros apóstolos, entre leigos que se dedicam, por um sentido de missão cristã, às difíceis tarefas da promoção social e da própria política, entre modestos trabalhadores, entre almas minadas pelo sofrimento por vezes atroz e prolongado, e até mesmo entre homens que, embora mergulhados nos negócios, sem serem nada prisioneiros e contaminados, levam-lhes o sentido da justiça e da caridade evangélica.

 

Dois modernos exemplares de santidade

Quisera apenas lembrar, entre tantos, dois homens dos quais podemos falar tran- quilamente não só porque são de todos conhecidos, mas também porque hoje não nos condicionam com o véu do respeitoso pudor da intimidade natural quando se deva falar de pessoas viventes: Papa João e o Cardeal Bea. Duas grandes figuras contempo- râneas, assaz diferentes entre si, mas ambas sedentas, é a palavra, de santidade. Para nos convencermos se é certamente indicativa e impressionante a sua vida e atividade exterior, o é ainda mais a sua vida interior.

Quem leu o “Diário íntimo” do Papa João XXIII e o Diário do Cardeal Bea, viu-se di- ante de dois gigantes da santidade vivida, precisamente nestes nossos tempos.

Eles, enquanto incansavelmente e com ardor juvenil, multiplicam, também em ida- de mais que avançada, a sua atividade pelo reino de Deus, alimentam-se sistematica- mente no contato simples, filial com Deus, vão aprimorando sem cessar e purificando  a própria humanidade para uniformizar-se o mais possível com a figura daquele que representa o ideal vivo, entusiasmante de sua vida: Cristo Senhor:

Seguindo o roteiro da vida de José Roncalli sobressai evidente através do Diário ín- timo a preocupação constante que encontra, podemos dizer, em cada página do “Diá- rio”: a própria santificação. Extraio do Retiro para o seu 80º aniversário, em 1961.

“A santificação... Estou ainda bem longe de a possuir de fato; mas o desejo e a von- tade de a conseguir são em mim bem vivos e decididos”.

E depois para levar a vontade a um plano concreto vai trazendo, aplicando-os a si, alguns períodos tirados de um precioso livrinho do grande Antonio Rosmini, grande não só pela alta inteligência, mas talvez, mais ainda, pela santidade da vida.

“Conservai o grande pensamento de que a santidade consiste no gosto de ser con- trariado e humilhado sem razão ou com ela; no gosto de obedecer; no gosto de espe- rar com grande paz; ...em reconhecer os benefícios que se recebem, e a indignidade própria; em ter uma grande gratidão; respeito para com a pessoa alheia e... na caridade sincera: tranquilidade, resignação, doçura, desejo de fazer o bem a todos e a labo- riosidade...” (La perfezione Cristiana, Stresa, 1840).

A essas palavras Papa João acrescentou com extrema simplicidade e naturalidade: “Para minha edificação, são estas as aplicações ordinárias do meu lema pessoal tirado de Baronio: Oboedientia et pax, ó Jesus, ficai sempre junto de mim. Dou-vos graças por esta doutrina que me segue por toda a parte”.

Penso ser impossível compreender o Papa João pelos gestos imprevisíveis e corajo- sos e repassados sempre de grande bondade sem conhecer essa fonte da qual ele hau- ria incessantemente com a vontade sempre ansiosa de aproximar-se do exemplar, Cristo, que aliás quer dizer trabalhar pela própria santificação.

Fiz alusão ao Cardeal Bea. É interessante ouvir o que refere ao P. Schmitd, seu anti- go secretário particular que organizou também o Diário.

Quando foi nomeado Presidente do Secretariado para a União dos Cristãos o Car- deal entrara no seu octogésimo ano.

Isso não o impediu de fazer numerosas viagens na Europa, quatro nos Estados Uni- dos, uma a Constantinopla. Só nos primeiros nove meses de 1962 deu vinte e cinco entrevistas à impressa, rádio, e TV. No Concílio fez quatro relações, além disso fez de- zenove intervenções a título pessoal na sua qualidade de Padre conciliar. Desde a sua nomeação como Cardeal, ele deu à imprensa duzentas e sessenta publicações diferen- tes, entre as quais há oito livros traduzidos em média em quatro ou cinco línguas.

Estamos certamente diante de um homem de uma atividade extraordinária que suscita maravilha em se olhando também a idade.

A descoberta, depois da sua morte, do seu Diário Espiritual, levado quase até ao fa- lecimento, veio a projetar luz clara e descobrir o manancial das maravilhosas energias deste homem que foi uma das personalidades centrais do Concílio.

As notas da sua vida – e por que não? – do seu laborioso itinerário espiritual, redigi- das com sinceridade, diligência constante e humildade, revelam-nos também nele uma profundidade e uma riqueza espiritual, uma ânsia incansável, um esforço cotidiano para aproximar-se do modelo: Cristo.

Ele não se cansa de repetir a si mesmo diante de Deus: no meio do trabalho imenso que deve enfrentar dia a dia, o cuidado profundo da vida espiritual é o elemento de- terminante, não só para a própria salvação, mas também para a fecundidade da ativi- dade apostólica. A ação do apostolado, são suas repetidas reflexões, é tanto mais pro- funda, quanto mais íntima é a sua união com Cristo, do qual deve ser instrumento dó- cil.

Ainda outras ideias constantes que encontramos no Diário.

Cristo deve ser o centro da sua vida, mas amor a Cristo para ele significa também esforço contínuo para se tornar semelhante a Cristo, sobretudo no autêntico amor ao próximo, na humildade e na sincera aceitação da Cruz.

 

A palavra de Dom Bosco

Queridos Irmãos, estamos diante da realidade de sempre, que infelizmente hoje se procura muitas vezes ignorar ou, pior ainda, revirar.

A atividade mais febril é verdadeiramente fecunda, é “apostolado”, quando é como a projeção do amor de Cristo que no Apóstolo é ao mesmo tempo fonte, guia e meta de toda a vida. Em essência está aqui a santidade. Também hoje, graças a Deus, temos na Igreja, e podemos acrescentar na Congregação, mesmo em diferentes formas e si- tuações, não poucas almas que vivem intensamente essa divina tensão, que na prática é a atuação da palavra dirigida aos consagrados pelo Concílio: “Os membros de todo e qualquer instituto, procurando antes de tudo e tão somente a Deus, devem unir a con- templação, pela qual aderem a Deus com o espírito e o coração, ao amor apostólico, pelo qual se esforçarão por associar-se à obra da Redenção e por dilatar o Reino de Deus (PC, 5).

Para nós, porém, é natural, como filhos confiantes, ouvir o nosso Pai, também a propósito de santidade. Dom Bosco tem alguma coisa a dizer-nos a respeito.

Justamente ao Padre Rua que foi o primeiro Mestre de Noviciado em Valdocco, Dom Bosco havia escrito estas palavras que remontam aos albores da Congregação: “Primeiro objetivo da nossa Sociedade é a santificação dos membros. Cada qual im- prima-o bem na mente e no coração; começando pelo Superior Geral até o último dos Sócios nenhum é necessário na Sociedade. Deus somente deve ser o Chefe, o Patrão absolutamente necessário” (Ceria, Epistolario, Carta 559).

Como se vê, nosso Pai sobre esse ponto é de uma clareza e decisão que não dá lu- gar a nenhuma dúvida. Entretanto, convém lembrá-lo, não se pode dizer que Dom Bosco fosse um verticalista, um amante do quieta non movere, um severo asceta de mosteiro medieval.

Mas justamente porque devorado pelo zelo dinâmico e incansável e criativo pelo bem do próximo, compreendia e queria fazer compreender bem aos seus filhos que o ponto de partida e de chegada para quem quer que entre, viva e trabalhe na Congre- gação é Deus: o que se identifica com a santificação dos membros da Sociedade, como Ele mesmo repete muitas vezes em notas claras e confirma com o exemplo.

 

A resposta do Padre Rua

A esta altura, devemos perguntar-nos: como o Padre Rua respondeu ao exato pro- grama que Dom Bosco lhe ditava: a santidade?

Tomo a resposta de pessoas que conheceram bem o Padre Rua e eram ao mesmo tempo bons entendedores de santidade.

Antes, porém, de citar os autorizados juízos post mortem sobre a santidade de Pa- dre Rua, eu quisera recordar o juízo de Mamãe Margarida sobre o jovem Miguel Rua, nos tempos heroicos do Oratório. Falando com Dom Bosco, ela repetia: “João, todos os meninos daqui são bons, mas Miguel Rua supera a todos”. Um juízo que acompanha o Padre Rua constantemente por toda a vida.

O grande arcebispo de Milão, André Ferrari, cuja causa de beatificação foi introdu- zida, falando de Padre Rua repetiu mais de uma vez que, se estivesse ainda vivo o uso de proclamar os santos pela voz do povo, ele teria tomado a iniciativa.

O Cardeal Cagliero, que viveu muitos anos ao seu lado, e homem... não fácil de con- tentar-se, dirá sobre ele nos processos: No Padre Rua jamais existiu nem o eu nem o meu, mas somente Deus”.

O Padre Rinaldi, enfim, apresenta este testemunho nos processos: “Pio X falou-me do Padre Rua, que ele bem conhecia, com grande veneração e concluiu dizendo que o Padre Rua era um sábio, frisando bem esta palavra e acrescentando: era um santo!”.

Desta santidade já reconhecida pela Igreja, porém, quais são os aspectos que po- dem interessar-nos, nós que vivemos nesta época tão diversa daquela em que vivera e operara o Padre Rua?

Selecionarei alguns que me parecem particularmente válidos para o nosso intento.

 

“Bondade indescritível”

O diário de Milão L’Osservatore Cattolico de 6/7 de junho de 1902 fazia este retrato do Padre Rua: “Poderá ter sessenta e quatro anos. Alto, franzino, diáfano, com o rosto de asceta, transpirando suavidade, doçura inefável. A sua palavra tênue e modesta, lembra a do Fundador que na sua simplicidade sabia procurar as fibras mais delicadas do coração e fazê-las vibrar. É de uma bondade indescritível e de uma atividade extra- ordinária”.

Sobre o Padre Rua, ainda jovem Diretor de Mirabello — tinha apenas vinte e oito anos — o P. Cerruti declarava: “Lembro sempre a sua operosidade incansável, a sua prudência tão fina e delicada de governo, o seu zelo pelo bem não somente religioso e moral, mas também intelectual e físico quer dos irmãos, quer dos alunos. Ainda tenho viva na alma a caridade, não diria paterna, mas materna, com que me amparou em maio de 1865, quando caí doente”. Parece-me que há, especialmente no último perío- do do primeiro retrato, alguns aspectos da santidade do Padre Rua tão valorizados pela espiritualidade moderna, elementos que evidentemente supõem outros talvez também menos vistosos, mas ainda mais essenciais.

Aquela bondade “indescritível” permutada pelo Pai de quem fala o jornal, é sempre mantida, tornar-se-á sempre mais evidente e impressionante à medida que o Padre Rua tomará nas mãos o governo da Congregação.

Os testemunhos sobre isso não se contam, e são de pessoas digníssimas de fé que falam às mais das vezes sob o vínculo do juramento.

Eis as palavras do Prof. Piero Gribaudi, da Universidade de Turim, que mantivera convivência pessoal com o Padre Rua: “Demonstrava para com os humildes o seu má- ximo afeto e os tratava da mesma maneira como tratava as pessoas de condição ele- vada. Parecia até que quanto mais a pessoa era humilde, tanto mais ele a tratava com afabilidade” (Processo, pg. 654 - 703).

Dessa “indescritível bondade” desejo citar, entre tantos, dois fatos que me parecem significativos.

Em nosso arquivo são conservadas 115 cartas escritas pelo Padre Rua, todas em resposta a outras tantas cartas que lhe enviara no curso de vários anos um pobre Ir- mão doente e deprimido. O que mais impressiona é verificar que cada resposta é tra- çada sempre com uma caridade singular como se ignorasse todas as precedentes.

Não se requer muito esforço para compreender como tal correspondência denota no Superior uma paciência, compreensão e uma bondade que só podem provir da sua caridade vivida profundamente.

No outro episódio transparece evidente uma delicada compreensão e uma amável condescendência que só uma mãe excepcional poderia ter para um filho que pede alguma coisa além dos limites de toda a discrição.

Um clérigo não consegue compor a poesia que deverá fazer cantar na festa de seu diretor: P. Guidazio. Vem-lhe uma ideia incrível: escreve ao Superior Geral Padre Rua pedindo-lhe que componha urgentemente o hino com matéria adaptada à música já pronta. Alguns dias antes da festa chega para o clérigo o hino solicitado... ao Reitor Mor. Os comentários cada um pode fazê-los.

Compreendemos então como o Padre Rua escrevendo aos salesianos da Argentina logo depois da morte de Dom Bosco podia fazer esta declaração: “A grande caridade que informava o coração de nosso querido Dom Bosco, de santa memória, acendeu com o exemplo e com a palavra a centelha de amor que Deus bendito colocara no meu, e eu cresci eletrizado pelo seu amor, pelo que, se ao sucedê-lo não pude herdar as grandes virtudes do nosso santo Fundador, sinto que o Senhor me concedeu o seu amor pelos seus filhos espirituais. Todos os dias, todos os instantes do dia eu os consa- gro a vós... por isso rezo por vós, penso em vós, trabalho por vós como uma mãe pelo seu unigênito”.

 

Atividade extraordinária

O outro aspecto da santidade de Padre Rua que, entre tantos, desejo pôr em evi- dência, é o da extraordinária atividade, como notava o jornal de Milão já citado.

Parece incrível que um homem de corpo tão frágil, com a saúde nada florida tenha podido enfrentar uma atividade tão intensa e diuturna, vastíssima,  interessando-se dos setores mais diversos de apostolado salesiano, promovendo e realizando iniciati- vas que se pareciam naquele tempo extraordinárias e arrojadas, ainda hoje são para nós indicações validíssimas e estímulo para que não paremos em estáticas e estéreis formas de atividades que parecem evidentemente não corresponder às exigências das almas.

Devemos buscar o ponto de partida, ou melhor, o centro motor de toda atividade do Padre Rua, antes de tudo no ensinamento e exemplo de Dom Bosco. Do Pai ele as- similou um e outro nos longos anos em que ficou ao seu lado. Dom Bosco repetia ver- bo et opere: “Nem penitência e disciplina, mas trabalho, trabalho, trabalho”.

É supérfluo dizer como esse trabalho de que Dom Bosco é propagandista e exem- plar, quer ser um elemento de santidade ao lado da oração.

Os Atos do XIX Capítulo Geral trazem sobre o assunto um ponto muito significativo: “Oração e trabalho são como duas mãos unidas que jamais devem separar-se e menos ainda opor-se. Jesus mesmo nos deu o exemplo”.

Ainda jovem Salesiano correu o risco de morrer precisamente por excesso de traba- lho. Nessa ocasião o bom Pai lhe disse: “Não quero que morras: ainda tens muito que trabalhar”.

E Dom Bosco teve razão.

Daquela hora em diante quem pode registrar o acúmulo de trabalho incessante, as inumeráveis realizações e atividades do Padre Rua?

Além de tudo o que importa ao governo de uma Congregação, também pelo fato de ser incipiente (lembremo-nos que o Padre Rua esteve, pode-se dizer, ininterruptamen- te ao lado de Dom Bosco como o seu segundo mesmo antes de ser seu Vigário), Padre Rua achará um modo de encaminhar mil iniciativas.

Enquanto se preocupa principalmente com a orientação espiritual dos Irmãos atra- vés das suas edificantes circulares e numerosos encontros, leva sua atenção aos Orató- rios, pelos quais herdou o amor de Dom Bosco; às Missões; aos Cooperadores; aos Ex- alunos e a todos os setores do apostolado salesiano.

Não satisfeito de toda essa atividade, ei-lo a empreender numerosas viagens para encontrar-se com seus filhos onde quer que estivessem.

Com os meios do tempo, em vinte anos percorreu mais de cem mil quilômetros. Foi definido o caixeiro-viajante da caridade. E como lhe custavam essas viagens! Nunca se acostumou com as viagens por mar, de modo que cada travessia era para ele um longo tormento. Acrescentem-se ainda as cansativas noites passadas nos trens, de terceira classe de então! A contínua mudança de cama, os alimentos, os usos, os costumes di- ferentes a que precisava adaptar-se... eram pela sua constituição grácil uma fadiga e um sofrimento que não se pode imaginar.

 

Sensibilidade e abertura para os problemas dos tempos

Permiti que aluda a algumas iniciativas que nos dizem da abertura, sensibilidade e dinamismo do Padre Rua. Promoveu e organizou seis congressos de Cooperadores salesianos. A série abriu-se com o internacional de Bolonha.

A Civiltà Cattolica escrevia naquele tempo: “O Congresso internacional dos Coope- radores Salesianos em Bolonha foi um esplêndido ensaio de operosidade religiosa e os Salesianos conquistaram um belo louvor por terem conhecido os tempos e trabalha- rem neles, tendo escolhido para o seu apostolado os pobres e os operários”.

Pela primeira vez na história dos Congressos se assentaram na bancada da imprensa os correspondentes de 60 jornais: 39 italianos, 4 espanhóis, 7 austríacos, 4 franceses, 1 alemão, 3 suíços, 2 ingleses.

Talvez poucos Salesianos, especialmente das novas gerações, saibam qual interesse o Padre Rua tenha demonstrado, e com os fatos, pelos operários e seus problemas.

Ele teve relações de grande amizade com Leon Hamel, um grande líder, naquele tempo, do movimento operário na Europa. Em 1891 Padre Rua quis acolher em Valsa- lice quatro mil operários que, guiados precisamente por Hamel em direção a Roma, fizeram uma parada em Turim a fim de homenagearem a Dom Bosco aos pés de seu túmulo. No almoço, o Padre Rua quis falar; após ter colocado em evidência o lugar eminente que o trabalho e o operário cristão haviam ocupado na vida de Dom Bosco, manifestou a própria viva admiração pelo seu movimento social.

Que essas palavras não eram cumprimentos e fáceis lugares comuns, além de ou- tros, um fato o comprova.

Nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do nosso século houve na Itália momentos difíceis e às vezes também graves por causa das agitações populares e ope- rárias que surgiam na incipiente sociedade industrial.

Em 1906, em Turim, os operários das grandes fábricas têxteis Poma fizeram greve. A greve se prolongava há semanas com grave prejuízo dos mesmos operários; mas as partes não encontravam um ponto de encontro. Padre Rua, amigo pessoal do titular da empresa, tanto insistiu e se empenhou até que no domingo 10 de julho, depois de uma longa reunião, ele podia fazer anunciar a todos os trabalhadores que, chegados a um acordo razoável e vantajoso para ambas as partes, na segunda-feira se reiniciaria o trabalho.

A propósito de operários, devemos lembrar o quanto o Padre Rua se tenha esforça- do para ajudar e orientar uma ótima animadora social que operava em Turim: Cesarina Astesana. Sem substituir-se ao sindicalista, sem tornar-se um animador de massas, como foi o seu amigo Harmel, sempre como sacerdote fez-se conselheiro prudente, cristãmente animador... dos animadores diretos do movimento operário.

Cesarina Astesana na frente social debatia-se contra três inimigos: o trabalho em dia santo; o horário excessivo; o salário de fome. Por detrás da sindicalista, o Padre Rua trabalhava com o conselho prudente e com ajuda também econômica.

 

A fonte

Diante de toda essa atividade intensa e extraordinária, desenvolvida no meio de di- ficuldades por vezes muito graves, enquanto devia enfrentar problemas e situações complexas e também muito dolorosas, sangrentas mesmo, houve quem perguntasse como o Padre Rua encontrava tempo para toda essa mole enorme de trabalho e inicia- tivas, como tenha conseguido evitar o esgotamento, como tenha podido manter aque- la serenidade de que falam tão numerosas testemunhas.

A resposta a esse conjunto de perguntas acredito que se possa encontrar na afirma- ção do Padre Francesia: “O Padre Rua encontrava o seu descanso na oração”. Poder- se-ia acrescentar mais: o Padre Rua, na oração, no contato com Deus, junto com o des- canso conseguia reaver as forças renovadas para atuar dia após dia, o que constituía o programa do Pai, feito seu cem por cento como filho fidelíssimo que era: quero almas e somente almas.

Na realidade, o dinamismo dos santos tem sempre, embora com matizes e caracte- rísticas próprias, uma só fonte de energias: a fé que vê o Invisível, o sobrenatural, fa- zendo-se por isso comunhão contínua com Ele, comunhão que é colóquio, escuta, con- forto, que se torna ardor de caridade e que explode por sua vez naquela sede jamais saciada de doar-se ao próximo, não para atraí-lo a si, mas para levá-lo àquele que o Santo ama, para Aquele justamente a quem por amor votou a sua vida.

Assim era Padre Rua: só quem consegue ver sua vida impregnada de sobrenatural pode entender toda a dinâmica da sua incansável atividade e, acrescentamos, da fe- cundidade da mesma.

Não é possível, dadas as proporções desta carta, descer a exemplificações e docu- mentações, mas quem quer que leia uma vida de Padre Rua (e será de grande utilida- de), logo disso se aperceberá.

 

“Sacerdote do Papa”

Parece-me cometer uma grave omissão não dizer uma palavra sobre um aspecto da santidade de Padre Rua, que julgo intimamente unida à sua espiritualidade, àquela que é a fonte de toda a sua atividade de Salesiano, Sacerdote e Superior.

De fato, se é verdade que Padre Rua, seguindo o exemplo do Pai, encontrava na Eu- caristia e na Virgem Maria a força e a confiança para responder com serena e alegre generosidade à “chamada” que dia a dia vibrava na sua alma, não é menos verdade que no seu caminhar quotidiano viu e encontrou no Papa a luz e o guia seguro de toda a sua ação.

O Padre Rua olhou sempre para o Papa com os olhos da fé, mas como havia apren- dido de Dom Bosco, com o coração de filho devoto e fiel.

Mais do que a Dom Bosco, a Providência reservou-lhe provas ainda mais duras, diria mesmo heroicas, dessa fidelidade e docilidade. Durante o seu reitorado, foram ema- nados pela Santa Sé vários decretos, que pareciam fazer desmoronar tradições tidas como importantes na Congregação e como características do nosso espírito. O Padre Rua, embora sentindo profundamente o golpe das disposições imprevistas e por elas afligido no âmago do seu ser, tornou-se imediatamente paladino da obediência às dis- posições da Santa Sé, convidando a todos os Salesianos, que, como verdadeiros filhos da Igreja e de Dom Bosco, as aceitassem com serenidade e confiança.

O Papa João XXIII em 1959, diante da urna de Dom Bosco e de São Pio X na Praça de São Pedro, definiu nosso Pai como “o sacerdote do Papa”. O mesmo Sumo Pontífice João, num autógrafo mandado ao nosso caríssimo Padre Ziggiotti havia afirmado: “Não é possível compreender plenamente o espírito que sempre animou São João Bosco se se esquecer da sua especialíssima devoção à Cátedra de Pedro”.

Também nisso o Padre Rua reproduziu o espírito e a imagem do Pai: foi um outro Dom Bosco.

O mesmo São Pio X, que sem o querer, havia posto à prova a fé e a obediência do Padre Rua, dele podia dizer mais tarde (exatamente no dia 24 de julho de 1914) a Dom Salotti, defensor de várias causas de beatificação: “Não se esqueça do Padre Rua. Vejo nele todas as virtudes heroicas que fazem santo o homem. Que estão esperando os Salesianos para começar a causa? Estamos diante de um grande Servo de Deus!”.

Mas para terminar esta consideração, papal diria, o Padre Rua, perfeitamente na li- nha de Dom Bosco, queria chamar a vossa atenção para essa constante atitude de Dom Bosco, de Padre Rua e de todos os seus sucessores em relação ao Papa, à Santa Sé: obediência feita de fé, de amor, traduzidos num serviço humilde, mas cordial. Tal atitude é uma prerrogativa insubstituível que Dom Bosco transmitiu à Congregação, aos seus filhos.

Neste momento de fáceis e nem sempre lógicas contestações e críticas ao próprio Sumo Pontífice, nós que nos sentimos e nos gloriamos de ser herdeiros do espírito do Pai, devemos sentir-nos empenhados em ser filialmente dóceis e fiéis aos ensinamen- tos e às diretrizes do Papa. Uma atitude diferente, ou pior ainda, crítica, digamo-lo claramente, seria não só estranha, mas absolutamente oposta ao nosso espírito. Não seria salesiana. O Padre Rua dá-nos um magnífico sofrido exemplo, demonstrando-nos uma vez mais que a obediência, aceita com verdadeiro espírito de fé, acaba por ser sempre redentora.

 

Padre Rua nos convida

Mas já é tempo de caminharmos para a conclusão.

No início desta carta dizia que a beatificação de Padre Rua acontece neste momen- to de nossa história como um presente e como um aviso.

Bem à vista do nosso iminente Capítulo Geral Especial, é um dever e um verdadeiro interesse acolher o presente e a mensagem que nos vêm de Padre Rua aureolado pela coroa da santidade.

Mesmo o fato de o Padre Rua ter vivido num ambiente e num clima histórico e cul- tural diferente do nosso em nada nos justificaria se deixássemos cair no vazio esta mensagem.

Como diz um escritor moderno (Carlos Snider, L’Osservatore Romano, 1-2 de feve- reiro de 1971), a espiritualidade do nosso tempo, embora tão diferente da passada, não recusa o santo. O cristão de hoje sabe que “na vida dos santos Deus manifesta vividamente aos homens a sua presença e a sua face” (LG 50).

“No santo — continua o escritor — o homem de hoje busca não só o estímulo do exemplo, mas também o esteio e o confronto de um testemunho de vida e de ação análoga àquela que ele, justamente porque cristão, deve dar, a cada dia, da sua vida terrena a Deus, à Igreja e aos homens”.

A asserção do escritor, válida para todo cristão, é de um empenho absoluto para nós, consagrados e Salesianos.

Desejaria que justamente em vista do Capítulo Geral Especial tomássemos eficaz- mente consciência da realidade à qual fortemente nos chama a imagem da santidade salesiana do Padre Rua.

No início de seu reitorado, na carta-programa que ele mandava aos Salesianos, de- pois de expressar todo o seu empenho de amor que devotava a cada Salesiano, termi- nava: “Uma só coisa vos peço: fazei-vos santos”.

Irmãos e filhos caríssimos. Podemos estar certos de que Padre Rua, com Dom Bos- co, ainda hoje nos repetiria a mesma exortação.

Na Congregação, o nosso fim primeiro e último é e deve ser de fato a nossa santifi- cação, harmonizando com ela os outros fins e os meios e os modos de apostolado a que somos chamados.

A vitalidade, e diria, a vida mesma da Congregação, está subordinada e intimamen- te ligada à presença da santidade nela.

Ao Padre Rua e a Dom Bosco ecoa Paulo VI, que em nome da Igreja nos repete: “A Igreja precisa da vossa santidade”.

Todos esses apelos não podem ser ignorados e subestimados.

Rezemos e trabalhemos, cada qual no seu posto de responsabilidade, para que o Capítulo Geral Especial, recolhendo a mensagem do nosso Pai, do seu primeiro sucessor e da mesma Igreja, lhe dê uma resposta adequada e eficaz, para os nossos tempos e para os de amanhã.

Esta resposta será a alma da Congregação renovada. Sem ela, todo o grande traba- lho levado a cabo antes e durante o Capítulo Geral Especial correria o risco de ser inú- til.

Nosso Senhor nos assista e conforte para que essa força animadora seja felizmente expressa pela grande Assembleia da Congregação.

Mando-vos a minha afetuosa saudação no Senhor. Af.mo,

Luís Ricceri
Reitor-Mor

P.S. — De várias Inspetorias chegaram respostas ao convite de orações em prepara- ção ao Capítulo Geral Especial.

Vi com satisfação que estão em andamento belas e muitas iniciativas: graças a Deus e aos promotores.

Muitos bispos por mim interessados, a Madre Geral das Filhas de Maria Auxiliadora e a Presidente das Voluntárias de Dom Bosco responderam com fervorosa generosida- de ao meu pedido de orações. É toda a nossa grande família que está mobilizada espi- ritualmente.

 

DISCURSO DE ABERTURA DO CAPITULO GERAL ESPECIAL, PRONUNCIADO PELO REITOR-MOR

RELATÓRIO GERAL SOBRE O ESTADO DA CONGREGAÇÃO

Atos do Conselho Superior 264 (EDIÇÃO ESPECIAL) 1

O Senhor esteja convosco. – Nosso trabalho é um serviço extraordinário... – A sede que nos acolhe. – A nossa tarefa fundamental e especial. – Um guia seguro: os ensinamentos do magistério. – Tratemos dos negócios de Deus. – A renovação tem um nome: santidade. – Renovação em chave salesiana. – Da oração o “recta sapere”. – A humildade: pressuposto para construir juntos. – Os dois polos da nossa fidelidade. – Um só coração na caridade. – Da integração das nossas forças a conquista da unidade. – Ao trabalho, com coragem e confiança! – As razões da nossa confiança. “É Maria quem nos guia”.

10 de junho de 1971

Meus caros,

não escondo a comoção que me toma neste momento: são tantos os sentimentos que passam por minha alma e que a ela se impõem. Alegria, ao ver que irmãos provenientes das regiões mais diversas e distantes, nos encontramos aqui chamados pelo mesmo ideal, movidos pelo mesmo espírito, em nome do Pai comum. Satisfação, porque vossa presença nesta sala representa visivelmente o coroamento do longo e laborioso “iter” de preparação a este Capítulo. Confiança vivíssima e fundada que, com a graça de Deus, unidas as forças e os corações, saberemos realizar felizmente o mandato verdadeiramente excepcional que a Congregação, obtemperando à vontade da Igreja, nos confiou.

Cabe-nos, infelizmente, constatar com profunda tristeza que em nossa assembleia faltam irmãos que nos são a todos particularmente queridos. Não lhes é dado viver convosco estes dias de caridade fraterna, salesiana e construtiva.

Sofrem intensamente por esta ausência forçada, mas ao mesmo tempo encontram no amor da Congregação a força para transformar o sofrimento em holocausto de oração por todos nós e por nossos trabalhos.

Juntamente com esta oração preciosa, eles oferecem à Congregação um dom não menos precioso: a fidelidade.

De uma carta recebida recentemente de além-cortina de ferro, cito o seguinte trecho: “Acredite, nunca amamos tanto nossa vocação quanto a amamos nas provações... garantimos-lhe a nossa fidelidade, prometendo nossas humildes, mas fervorosas preces, para que o Capítulo Geral produza uma renovação salutar e uma melhoria de vida na grande família de Dom Bosco”.

A todos estes nossos irmãos, em qualquer parte e de qualquer modo impedidos de exercer este seu direito de homens livres, o nosso pensamento afetuosamente admirado e reconhecido, que se traduz na oração, enquanto recebemos deles o apelo e o exemplo de uma fidelidade à Congregação tanto mais sentida e generosa quanto mais imersa nas lágrimas e no sofrimento.

1 Obs.: O texto do Capítulo Geral Especial – CG XX e outros anexos não constam nesta série de “Cartas  do Reitor-Mor”.

 

“O Senhor esteja convosco”

Ao declarar oficialmente aberto o XX Capítulo Geral Especial, de acordo com o art. 138 das nossas Constituições, não haveria uma saudação mais bela para mim, e certamente mais agradável a vós que esta: “O Senhor esteja convosco!”. É o Senhor Jesus quem nos assegura: “Todas as vezes que dois ou três se reunirem em seu Nome, Ele está no meio deles”.

Já tinha escrito estas palavras, quando achei bom consultar as “Memórias Biográficas” para ver o que nosso Pai tinha dito aos irmãos reunidos em Lanzo, em 5 de setembro de 1877, para o Primeiro Capítulo da Congregação. Eis suas palavras:

“O Divino Salvador diz no Santo Evangelho que onde estão dois ou três reunidos em seu Nome, aí se encontra Ele em seu meio. Nestas reuniões não temos outro escopo que a maior glória de Deus e o bem das almas remidas pelo Sangue precioso de Jesus Cristo. Podemos, pois, estar certos de que o Senhor se encontrará entre nós e Ele mesmo conduzirá as coisas de modo a resultarem na Sua maior glória”.

Como vedes, há uma coincidência de pensamento e de sentimento que nos leva a acolher e viver intensamente esta saudação, que é também um desejo, que vem não tanto de mim, quanto principalmente do nosso mesmo Pai: “O Senhor esteja convosco!”.

 

Nosso trabalho é um serviço extraordinário

Reuniu-nos, assim, o Senhor neste lugar, através dos caminhos misteriosos de Sua Providência. Para quê? A resposta é simples.

Fomos chamados aqui para prestar um “serviço extraordinário” à nossa mui amada Congregação. É claro que participar de um Capítulo Geral é sempre um serviço fora do comum, mas sentimos que participar deste Capítulo Geral como nós, é um serviço verdadeiramente extraordinário, e até se pode dizer único.

Sabemos bem que o atual Capítulo é diferente de todos os demais. É “especial”, e isto por disposição da Igreja, que deu igualmente normas, diretrizes e critérios para  sua preparação e realização: e não só isso; indicou-lhe ainda claramente os fins e as metas.

E nós, seguindo a linha de agir de nosso Pai, nos empenhamos a fundo para cumprir fielmente a vontade da Igreja.

Por isso, a preparação foi extraordinária: quanto à sua duração, cerca de três anos; quanto à vasta capilaridade das consultas, para se conhecer o pensamento de todos os irmãos da Congregação sobre os numerosos problemas que ela apresenta; quanto à participação e à contribuição trazida pelo estudo dos irmãos, dos grupos e das comunidades; e quanto ao aumentado número dos participantes aos dois Capítulos Inspetoriais e ao Capítulo Geral. Mas não se resume tudo apenas nisso.

É de justiça lembrar o ótimo trabalho que se realizou nos dois Capítulos Inspetoriais e nas respectivas Comissões de estudo, em clima de liberdade, respeito e diálogo; e ainda o trabalho inteligente, paciente e generoso até o sacrifício, realizado pelas várias Comissões centrais. Desejo apontar de maneira especial à gratidão comum aos ótimos irmãos que na Villa Tuscolana, perto de Roma, por vários meses, infatigavelmente e em clima de salesiana fraternidade, de oração exemplar e comunitariamente vivida, se submeteram a uma fadiga verdadeiramente excepcional para conseguir aprontar os documentos-base ou pistas de trabalho, chamemo-los assim, pacientemente elaborados e reelaborados, e que já se encontram em vossas mãos.

A eles, a quantos de qualquer modo deram a própria contribuição nas várias fases da preparação, ao caríssimo Regulador, Padre Scrivo, que coordenou todo este imenso trabalho e foi seu animador, o nosso obrigado, bem como o de toda a Congregação pelo precioso serviço que a ela prestaram.

 

A sede que nos acolhe

Ainda sobre o tema da preparação especial, não podemos silenciar a preparação logística e técnica.

Depois que o XIX Capítulo Geral deliberou que a Casa Geral fosse transferida para Roma, nossa preocupação foi criar também a possibilidade de aí se hospedar o Capítulo Geral. Não era empresa de pouca monta. Providenciar o alojamento de 250 pessoas ou mais, com todos os serviços que isso implica, não é empresa simples.

Encontrou-se a fórmula criando duas obras: a Casa Geral e a Casa para Exercícios Espirituais e Encontros. Fez-se um ato de confiança na Providência e se deu início aos trabalhos!

Em várias ocasiões, confesso-vos, tivemos momentos de sérias preocupações, quando surgiam obstáculos e dificuldades imprevistos a o tempestivo acabamento dos ambientes e das instalações que deveriam acolher os Capitulares e permitir o funcionamento de toda a organização do mesmo Capítulo.

Devemos dizer que foi um verdadeiro recorde ter podido conseguir, não obstante os numerosos e grandes imprevistos, que ficassem prontos pelo menos os serviços essenciais nos dois conjuntos: a Casa Geral e a contígua Casa para Exercícios Espirituais e Encontros.

Creio que interpreto o vosso sentimento exprimindo aqui o bem merecido “muito obrigado” ao nosso caríssimo Ecônomo Geral, Padre Pilla, que não se deu descanso lutando contra obstáculos de toda espécie para superá-los a todo o custo, e igualmente aos seus imediatos e preciosos colaboradores.

É verdade, não achareis tudo perfeitamente acabado, quer na Casa Geral quer na outra, mas vossa compreensão, vosso espírito de adaptação e de sacrifício saberão suprir a todas as eventuais faltas.

 

Nossa tarefa fundamental e especial

Dito isto, é muito importante que todos tenhamos consciência plena do mandato que nos confiaram a Igreja e a Congregação.

A tarefa fundamental de cada Capitular é esta: somos aqui chamados como legisladores para toda a Congregação, estamos aqui com o mandato de pesquisar e buscar o bem-comum da Congregação no seu conjunto. A cada um de nós incumbe o dever de procurar o bem-comum, sabendo para tanto sacrificar interesses  particulares.

Tal, a meu ver, é o espírito que deve animar o Capitular Legislador, que sabe possuir um mandato de interesse e de âmbito universal.

Quanto ao escopo que torna verdadeiramente especial este nosso capítulo, vós bem o sabeis qual é: Promover na nossa Congregação uma renovação adequada da vida religiosa. Estas duas palavras implicam em um programa enorme e trazem consigo problemas graves e complexos que somos chamados a estudar e resolver. Basta ler o nº 3 do Perfectae Caritatis para tomar consciência da competência vastíssima, e até universal que se atribui ao Capítulo Geral em matéria de renovação. “O modo de viver, de orar e de agir deve convenientemente adequar-se às atuais condições físicas e psíquicas dos religiosos; como também, no que diz respeito às exigências da natureza de cada Instituto, às necessidades do apostolado, às exigências da cultura e às circunstâncias sociais e econômicas; e isso em qualquer lugar, mas especialmente nos lugares de missão. Mesmo o modo de governar deve ser submetido a exame segundo os mesmos critérios. Por isso, as Constituições, os diretórios, os livros de usos e costumes, de orações e de cerimônias e outros códigos semelhantes, sejam convenientemente revistos e, uma vez suprimidas as modificações que não são atuais, sejam modificadas em base aos documentos emanados por este Concílio” (Perfectae Caritatis, 3).

A simples apresentação desta sintética enumeração poderia, como de fato já aconteceu, provocar em alguém uma certa reação. Muda-se tudo? Mas então, não fica nada de nosso passado?

Convém que tomemos como base de referência o significado radical da palavra renovação, para podermos fazer dela uma avaliação que corresponda à realidade.

Renovação supõe a contínua identidade do mesmo sujeito através do processo de renovação: não se trata então de destruir ou substituir por outro o sujeito, no caso a Congregação, e nem mesmo se postula uma nova fundação. Não estamos aqui para fazer uma nova Congregação: não teríamos sequer os carismas e muito menos o mandato para fazê-lo. É a mesma e idêntica Congregação que é chamada a se renovar, permanecendo substancialmente aquela que Dom Bosco quis que fosse, por inspiração do Céu, e como se desenvolveu no álveo da sã tradição.

Trata-se de uma delicada operação de rejuvenescimento; e justamente por isso, deve realizar-se com extrema atenção e dentro do máximo respeito. Trata-se, com efeito, de afundar o bisturi em um corpo vivo, e, vejam lá, no corpo de quem nos gerou.

Quem se apresta a fazê-lo, deveria estar revestido e possuído pelo espírito carismático de nosso Pai.

Pelo menos, preparemo-nos para esta “operação” com uma delicadeza especial de humildade e profundo respeito, com a filial preocupação de interpretar a maneira de pensar de nosso Pai, sem cair na tentação de nos substituirmos a Ele.

Havemos de nos mover em terreno seguro apoiando-nos constantemente na Igreja, nossa guia: “Duce Ecclesia!”.

Ela nos oferece todos os subsídios que nos facilitam o cumprimento do mandato de legisladores da renovação da Congregação.

 

Um guia seguro: os ensinamentos do magistério

Encontramos o primeiro subsídio, que ao mesmo tempo é penhor de que trabalhamos com segurança, encontramos nos documentos conciliares, pós- conciliares, quer dizer, no magistério pontifício e da hierarquia.

Aliás a mesma Igreja ao ordenar a Renovação dos Institutos religiosos indica claramente que ela se deve inspirar no Concílio inteiro, com tudo o que ele compreende e representa de “espírito renovador e também inovador”, segundo as palavras de Paulo VI. Seria supérfluo dizer que entre todos os documentos conciliares e pós-conciliares daremos primariamente uma constante e especial atenção aos que se referem diretamente a nós.

Porém, é claro que não podemos restringir nossa contínua atenção unicamente a esses documentos.

Todo o Concílio, em seus documentos, nos deve estar presente, integrado especialmente pelo Magistério Pontifício que nestes anos, exatamente sobre a Renovação, foi largo de ricos ensinamentos e de contínuas e atualizadas tomadas de posição.

Seria um grave pecado de omissão e um gesto de infidelidade a nosso Pai, tão filialmente atento à palavra do Pontífice Supremo, se viéssemos a ignorar esta palavra autorizada e magisterial.

Com isso não se exclui absolutamente toda a interessante e renovadora literatura que se ocupa — na autêntica linha do Concílio — da renovação da vida religiosa.

Como Capitulares Salesianos, buscaremos um subsídio indispensável na literatura salesiana.

Compreendo que não se pode ter tempo para tudo, mas devemos procurar documentar-nos salesianamente sobre tantos pontos essenciais. Não podemos tomar determinadas posições sobre problemas que são até fundamentais, sem que nos tenhamos assegurado bem da justeza dessas posições.

 

Tratamos dos negócios de Deus

Chegados a este ponto, parece-me que adquirimos uma consciência ainda mais clara e profunda da natureza de nossa tarefa; de tal tomada concreta de consciência derivam consequências essenciais para o bom êxito da empresa em que nos empenhamos.

Não tenho presunção de ser vosso mestre, meus caros Capitulares, mas dada a responsabilidade que sinto pesar-me sobre os ombros, qual sucessor de Dom Bosco, creio que é meu dever lembrar antes de tudo a mim mesmo, e depois a vós, a palavra do Apóstolo: “Vede com que coisas estais tratando”.

A nossa não é uma assembleia de acionistas de uma indústria, nem uma assembleia política com facções de interesses contrastantes, quer no campo econômico, quer quanto às ambições. Aqui nós somos Igreja, ou melhor, assembleia de homens consagrados, reunidos no nome do Senhor, dedicados totalmente a um ideal sobrenatural: sentimo-nos como homens de fé, cujas preocupações têm suas raízes na fé e cuja atividade, inclusive a que estamos iniciando, é toda iluminada, vivificada e motivada pela fé.

Estamos aqui, de fato, não por interesses de qualquer maneira humanos, mas pelos interesses de Deus, do seu Reino, da sua Igreja. Estamos aqui pelos interesses das almas, primeiramente das dos nossos irmãos e daqueles que a Providência nos confia; por isso, mesmo quando tivéssemos de nos ocupar de assuntos de organização ou de economia, eles só nos interessam enquanto instrumentos necessários para nossa missão; e as mesmas ciências sociológicas, estatísticas, históricas, filosóficas de que nos servimos, estão todas em função da missão a que nos consagramos, que é missão espiritual, sobrenatural. Se sentimos verdadeiramente que estamos aqui para tratar dos “negócios” de Deus, das almas, não teremos dificuldade em nos convencer de que todos os subsídios humanos de que porventura nos servimos (e não são poucos!) teriam muito pouco valor se ao desempenhar nosso mandato não nos colocássemos do lado de Deus; mais claramente, em um plano e uma visão sobrenaturais.

 

A renovação tem um nome: santidade

Tornam-se agora óbvias e também úteis algumas observações. Em relação ao Capítulo Geral, a palavra “Renovação” ocorre a cada momento. Porém, qualquer projeto de renovação, até o mais perfeito, não chegaria a nada de efetivo se não viesse a transformar-se em vida vivida em cada um dos sócios.

Este viver os valores — todos os valores da renovação — tem um nome: santidade. Devemos afirmá-lo claramente: como consagrados, nossa vocação específica, profissional, é e será sempre tender à santidade, mais e melhor que os simples batizados; tudo e todos no-lo recordam: a Igreja, o Concílio, o Pós-Concílio. Mas já o nosso Dom Bosco não se cansava de repeti-lo aos nossos predecessores. Em uma Circular de 9 de junho de 1867, com afirmações decisivas escrevia: “Primeiro escopo da nossa Sociedade é a santificação dos membros. Cada um imprima bem isso na mente e no coração; começando do Superior Geral até o último dos sócios, ninguém é necessário na Sociedade. Deus somente deve ser sua Cabeça, o Patrão absolutamente necessário” (Céria, Epistolário, Carta 559).

Também a base da Congregação manifesta a necessidade e a vontade desta renovação profunda que tem um só nome: santidade. Ora, devemos perguntar-nos com extrema franqueza — pois é uma responsabilidade primária nossa: — “Como o Salesiano responde hoje a este seu peremptório empenho e necessidade? Como, na nova situação e no novo clima que se criaram no mundo em que o Salesiano deve hoje também viver e em favor de cuja salvação deve agir, como pode ser fiel a este empenho? Nosso organismo, como se encontra e funciona hoje, consegue dar ao Salesiano aquela carga sobrenatural de que tem absoluta necessidade? Como chega a produzir e a comunicar a vitalidade autenticamente apostólica que pelo passado galvanizava o Salesiano? Este organismo acusa algum enfraquecimento?

Será verdade que se constata nas comunidades uma maneira de sentir e de pensar, e consequentemente uma maneira de viver burguesa, secularizada, mundana, com um cristianismo “fácil, sem sacrifício, sem deveres, sem renúncias, sem superiores, sem dor”, que se afasta na palavra e na ação dos postulados da vida consagrada e salesiana! Quais são os porquês, todos os porquês dessa situação? E então, perguntemo-nos: os meios e os caminhos que a Congregação oferece hoje aos Salesianos para tender à santidade, são adequados às novas situações? E como são utilizados? Será talvez o caso de os substituir por outros meios e modos eficazes, inspirados sempre em um grande zelo pela santidade e a perfeição?

 

Renovação em chave salesiana

As mesmas perguntas devem ser feitas no tocante ao apostolado, primeiramente entre os jovens, especialmente pobres, necessitados e abandonados. O Santo Padre em sua mensagem ao nosso Capítulo no-lo recorda com sua autoridade.

“Se se pensar — diz ele — na enorme importância que assumiu no mundo o problema dos jovens, se se pensar nos fermentos que permeiam e agitam a juventude, na aparente ineficácia que se atribui aos métodos pedagógicos tradicionais, e na exigência, diversamente sentida e experimentada, de novas técnicas educativas, não se pode deixar de ver como são grandes os problemas que se põem à reflexão... dos Padres Capitulares”.

Os mesmos problemas primordiais e fundamentais são postos com certa variedade de matizes em toda a Congregação, como transparece dos Capítulos Inspetoriais.

Repito, a Congregação deve e quer renovar-se antes de tudo na sua vida religiosa, espiritual e ao mesmo tempo apostólica, e compreendeis que amplidão de valores está contida nestas palavras. Mas gostaria de acrescentar que tais valores devem ser renovados em chave salesiana, para o Salesiano, pensando em seu espírito, em sua missão, em sua natureza, que não é a dos Pequenos Irmãos de Jesus, ou dos Jesuítas, ou do Opus Dei.

Por isto não escondamos a realidade, não fechemos os olhos diante de nossas deficiências, de nossos pontos fracos, e não nos detenhamos neles a não ser para fazê- los desaparecer.

 

Da oração o “recta sapere”

Diante de problemas de tal vulto, aparece evidente toda a importância, antes, a necessidade de que, em clima de Cenáculo, como os Apóstolos, unamos nossos corações na oração.

Aproximando-se o Capítulo Geral Especial, toda a nossa multíplice família sentiu-se mais intensamente empenhada na oração, compenetrada da necessidade absoluta do auxílio divino. De todas as partes do mundo foi-me assegurado, e diria documentado, este imenso coro de oração; penso especialmente em tantas almas que ofereceram ao Senhor não apenas sofrimentos muitas vezes bem agudos, mas até a vida.

Por isso hoje, agradecidos por tanta caridade, nos sentimos confortados e cheios de confiança. Mas é evidente que não podemos delegar aos outros a parte de oração que nos toca justamente pelas peculiares responsabilidades que nos esperam.

O filósofo Peter Wust, como remate de toda sua vida, deixava a seus discípulos estas palavras: “Descobri com absoluta certeza a chave, a mágica chave da Sabedoria: ela é a oração”.

Verdadeiramente temos necessidade — neste nosso grande trabalho — da sabedoria que vem de Deus; ainda mais precisamos possuir sua chave: a oração.

O Senhor disse: “O Pai dará o espírito Santo àqueles que oram”. E que é o Espírito Santo senão a Sabedoria infinita de Deus?

Assim nos dirigimos a Ele dia a dia para que, enriquecidos por sua Sabedoria possamos julgar retamente, isto é, ver claramente para avaliar sapientemente e então deliberar com retidão.

Temos, além disso, a sorte de viver juntos estes dias extraordinários. Ainda antes que nos trabalhos, achar-nos-emos juntos no encontro comunitário com Deus.

Nossa prece será, pois, grandemente potenciada, exaltada: é o Senhor que nos garantiu-o.

Mas há ainda temos mais: encontrar-nos-emos cada dia ao redor da Mesa Eucarística. O nosso não será um espetáculo mais ou menos sugestivo, não: será reviver com a mesma fé dos discípulos o mistério da Quinta-Feira Santa. Reunidos com Ele, n’Ele e por Ele, nutridos com o mesmo alimento e com a mesma bebida, sentir- nos-emos abraçados pela solidariedade de Cristo; depois de ter levado nossos problemas, nossas dúvidas, nossa vida quotidiana à Eucaristia, obteremos dela a força e o auxílio de que tanto precisamos.

Todavia, a nossa oração pessoal e comunitária, a mesma Eucaristia, poderiam ser esvaziadas de seus efeitos divinos, se nos apresentássemos ao Senhor destituídos antes de mais nada da humildade que é a condição indispensável que Ele exige para dar sua graça: “Resiste aos soberbos, e dá a graça aos humildes”. É uma lei do Senhor.

 

A humildade: pressuposto para construir juntos

Já que estamos convencidos desta “lei” da humildade, estejamos bem atentos em defender-nos das emboscadas do nosso “eu”, do amor próprio, sempre pronto a despontar, camuflando-se também sob formas persuasivas e sugestivas.

O Padre Voillaume, falando a cardeais, bispos e ao mesmo Papa, reunidos em Retiro, a propósito da palavra de Jesus: “Se não receberdes o reino de Deus como uma criança, nele não entrareis”, explica que nesta palavra de Jesus está toda a humildade da inteligência e a pobreza do coração. Trata-se da atitude e do espírito que cada um de nós deve trazer ao Capítulo.

O diálogo, é aqui o caso de acenar a ele, tão importante e insubstituível para o estudo eficaz dos problemas, fundamenta-se primeiramente na humildade, e depois no respeito do outro e na confiança.

Ele será fecundo se ninguém se apresentar como onisciente e em plena posse da verdade, e não pode consistir em pretender conseguir a rendição incondicional da outra parte. Isso importa que o espírito esteja benevolamente disposto não somente a ouvir, mas também a escutar o outro.

Queria acrescentar ainda outra palavra sobre o tema da humildade: junto com a humildade pessoal, levemos ao Capítulo a humildade — como dizer? — coletiva ou co- legiada.

O Padre Rua, e me é tão agradável citá-lo enquanto nos aproximamos da sua beatificação, em uma circular do longínquo 29 de janeiro de 1894, assim escrevia aos Salesianos: “É certo que, examinando, por pouco que seja, o atual estado de nossa Pia Sociedade, descobriremos logo muitas imperfeições: assim o permite Deus, para manter-nos na santa humildade”. Não se pode realmente dizer que o Padre Rua seja um triunfalista!

E nós? Deveremos ter a lealdade, a franqueza e a “santa humildade” de reconhecer as deficiências, as infidelidades, as misérias que eventualmente se encontram na Congregação, evitando toda posição preconcebida, e no fundo orgulhosa, de quem  não quer reconhecer as realidades menos agradáveis. Isso não será, porém, um erigir- se em juízes que condenam homens e coisas da Congregação, mas ao contrário, será para todos um exame de consciência provocado pelo amor a Ela, que queremos justamente “sem mancha e sem ruga”.

 

Os dois polos da nossa fidelidade

Um aspecto, que eu diria consequencial da humildade que deve guiar o nosso agir no Capítulo, é a fidelidade. Ela com efeito, supõe um olhar, ou melhor, uma adesão confiante, sem hesitação, decidida, a alguém, a alguma coisa importante: Deus, a Igreja, a Congregação, renunciando também a si mesmos, às próprias coisas, à própria maneira de ver.

Nos trabalhos capitulares a palavra “fidelidade”, como já nos documentos do “iter” preparatório do Capítulo, ocorrerá muitas vezes. Fidelidade, escreveu-se, “é tender à rocha da qual brotamos e contemporaneamente ao porto “ao qual nos dirigimos”.

O sentido da fidelidade, portanto, é a contínua redescoberta do nexo profundo e inseparável que une os dois polos: é a penetração, além da cortina de fumaça da superficialidade, na mesma razão de ser de quanto se aceita e se professa: em poucas palavras, é uma lei da vida.

O sentido, portanto, da fidelidade não pode confundir ser confundido com o que é habitudinário e com o imobilismo, mas exige uma atitude constante, consciente de si e vivificada à luz da experiência.

O que importa é isto: que cada um de nós se persuada que a fidelidade, em momentos de renovação como a que vivemos e da qual devemos ser os realizadores, é uma atitude em si mesma positiva e dinâmica: não é nem deve ser a passiva aquiescência a algo que se herdou e que entrou em nosso patrimônio, mas antes o cuidado diligente de lidar com ele e de levá-lo à máxima expansão. A fidelidade não se relaciona com o imobilismo ciumento, nem sequer com o tímido tradicionalismo, mas se enriquece com a atividade, juntamente com a reflexão e a meditação.

No fundo, a fidelidade é expressão do amor (no nosso caso do amor a Dom Bosco e à Congregação), e o amor verdadeiro, inteligente, autêntico, quer que a pessoa e a coisa amada não se transformem em objeto arqueológico, mas, permanecendo sempre a mesma, viva de vida ativa, dinâmica, fecunda.

Devemos ainda convencer-nos de que a fidelidade não pode ter qualquer parentela com certo progressismo apressado que quer o novo pelo novo; que, na prática, mesmo sem ter consciência disso, tende à subversão; que acredita em qualquer hipótese e a aceita como demonstrável ou demonstrada; que, em nome da abertura, esvazia e laiciza o Salesiano, e com ele a sua missão.

Isso dito, reconheço que na prática o assunto é sempre muito delicado, assim como muito delicadas e complexas são as situações concretas a que se devem aplicar estes princípios. Motivo pelo qual devemos proceder com grande sentido de responsabilidade, para evitar os perigos que se apresentam de ambos os lados.

 

Um só coração na caridade

Caríssimos, iniciando meu discurso, convidei-vos a fazer desta grande e bela família um cenáculo vivo e atuante. Sinto, porém, que não podemos ser Cenáculo sem aquela que é sua alma: a fervente caridade fraterna.

A celebração eucarística, diligente e fecundamente vivida, será decerto a primeira fonte que alimentará nossa fraternidade. Mas tantos outros elementos, espirituais e humanos, contribuirão para manter vivo entre nós o clima de caridade que une os corações na compreensão, no perdão fraterno, na colaboração, na alegria.

Temos um motivo específico, e diria de particular interesse, para sermos construtores de nosso Cenáculo de caridade. Li em um livro que trata da renovação, estas palavras que não esqueci, também porque provêm de uma pessoa de larguíssima experiência de vida religiosa e de Capítulos Gerais: “Não se pode realizar renovação alguma sem a caridade”. “Renovação, com efeito, significa um amor maior e estruturas melhores para dar impulso a este amor maior”. Quanto estão longe da verdade os que pensam que por amor das reformas pode ser violada a caridade.

Nós acreditamos, e queremos acreditar no sentido mais amplo, na caridade. Viemos de todos os cantos da terra, pertencemos a tantas culturas diversas e civilizações e costumes. A escala de nossas idades é bastante diferenciada; também ideias e pontos de vista nem sempre poderão coincidir. Tudo isso será superado pela nossa fraternidade. Não por nada dizemos e sentimos que somos filhos do mesmo Pai.

 

Da integração de nossas forças nasce a conquista da unidade

O fruto mais precioso e desejado desta caridade de Cenáculo será a realização da oração testamento de Cristo ut unum sint, que nas origens da Congregação ecoou aos lábios de nosso Pai.

No longínquo 1869, apenas Dom Bosco pôde obter de Roma a suspirada aprovação da Congregação, reuniu os nossos primeiros irmãos e lhes fez uma longa conferência sobre este argumento: “Vivere in unum” desenvolvimento os muitos motivos e os aspectos deste vivere in unum (MB, IX, 571ss). Neste momento santo, sinto ser o eco da voz aflita do Pai: Vivamos, trabalhemos com a vontade orientada para a unidade. Vivamos verdadeiramente em comunhão.

Bem sei que trazemos no coração as inquietações, as tensões, os interesses, as impaciências, os mil e um aspectos da crise que a Igreja e a Sociedade atravessam e que está presente na Congregação. Como dizia antes, trazemos aqui, por um conjunto de causas, mentalidades, sensibilidades e preocupações frequentemente muito diversas. Serão as diversidades uma providencial riqueza, se agirem em um plano superior de uma verdadeira e autêntica comunhão.

Ninguém pode pensar em uma unidade pré-constituída, e muito menos desejá-la; uma unidade, diria, quase pré-fabricada, um “unanimismo” artificial e absolutamente infecundo. Aquilo em que pensamos e o que desejamos é uma unidade conquistada, porque sinceramente querida, procurada e mesmo sofrida: digo sofrida, e com razão.

O cardeal Doepfner, abrindo os trabalhos do grande Sínodo dos Católicos da Alemanha Federal, convidava-os à unidade citando as palavras de São Paulo aos Efésios: “Sede zelantes no conservar a unidade que dá o Espírito”. Mas fazia notar que pouco antes o Apóstolo convidava os mesmos cristãos a suportarem-se uns aos outros com amor fraterno, melhor, a “aceitar-se uns aos outros”. “Estas palavras — diz o Cardeal — supõem conflitos, divergências de ideias, controvérsias, pontos de atrito”. Acrescentamos: isso está na natureza mesma das coisas; não seria normal se assim não fosse.

Mas o trabalho e a tolerância mútua na busca da verdade, se é animado por verdadeiro e concreto amor fraterno, e especialmente pelo amor puro e sincero a Dom Bosco, à Congregação, nos farão aceitar-nos uns aos outros, e nos farão encontrar nos diversos problemas o ponto de chegada, a síntese para a melhor solução, que será fruto da integração das diversas e preciosas energias presentes ao Capítulo.

 

Ao trabalho, com coragem e confiança!

Meus caros Capitulares, confio em que me tenhais perdoado a longa metragem de meu discurso. Espero que não tenha sido em detrimento da eficácia das coisas ditas com coração de irmão, no único intento de prestar o meu serviço obrigatório para com a Mãe comum, a Congregação.

E agora, ao trabalho, com coragem e confiança!

Enfrentemos os problemas que nos esperam, com espírito livre de todo triunfalismo e de acreditar credulamente que tudo será fácil.

Não devemos nem queremos ter medo de encarar os problemas de cabeça erguida, já o disse, mas nem sequer queremos, diante da mole de problemas que a situação nos impõe, deixar-nos tomar pelo desalento dos tímidos, ou pelo derrotismo pessimista. Nosso Capítulo quer agir partindo de um realismo visto com coragem.

Mas qual tipo de coragem? Aquela que é virtude dos fortes, e, portanto, dos sábios, porquanto a verdadeira fortaleza não pode estar separada da sabedoria. Esta coragem, portanto, fruto da fortaleza e da sabedoria unidas em feliz simbiose, não se pode confundir com a temeridade inconsiderada de quem corre para... o desconhecido.

Nossa coragem será antes de tudo a coragem dos homens fortes que pensam antes de arriscar-se. Mas será ainda alguma coisa mais.

Sentimos como dirigidas a nós as palavras ditas por Jesus aos Apóstolos: “Não temais, sou eu!”. E Jesus, recordemo-lo, “é o senhor do impossível”, como escreve o Padre De Foucauld, com aquele domínio das coisas e dos corações que dá a quantos a Ele se abandonam o sentido da segurança e da paz em meio às ondas: “Nada te perturbe!”

 

As razões de nossa confiança

Convidei também à confiança, e bem fundada. Temos na Congregação forças sadias e numerosas em todas as categorias, níveis, idades, em cada canto da terra. É ne- cessário conhecer a Congregação, em todas as suas componentes, para ter consciência disso.

Desejaria evidenciar especialmente o fato de que temos na Congregação uma juventude, é certo, com ideias, exigências, sensibilidade muitas vezes diversas daquelas das gerações anteriores, algumas vezes até vítima da insegurança, de um problematismo exasperado, de um secularismo que obscurece e cancela o sobrenatural; mas entre esta juventude existem também elementos magníficos sob todo ponto de vista: vivem generosamente sua consagração, amam sinceramente Dom Bosco e a Congregação, embora vejam os defeitos e as ineficiências desta, estão prontos para doar-se até o sacrifício, têm uma piedade sólida, convicta: são as nossas esperanças, o amanhã de nossa Congregação.

Deixai que vos diga ainda mais. A Igreja tem confiança em nossa Congregação, uma confiança que vem de quem a conhece em um plano, podemos dizê-lo, universal, uma confiança que às vezes nos causa medo. Ainda na última audiência que me foi concedida, Paulo VI, com expressões que me confundiam ao pensar em tantas nossas deficiências, quis confirmar esta grande confiança, sua e da Igreja na nossa Congregação.

Falando com Superiores Gerais de outras Ordens e Congregações, tenho ocasião de reajustar o julgamento sobre nossa realidade, embora com todas as deficiências que não devemos ignorar nem subestimar. Entre outras coisas, vejo que todos nós nos debatemos com dificuldades muito semelhantes.

Mas temos ainda motivos de confiança, diria, familiares, de todo especiais. É talvez um fato único: nas origens da Congregação há uma presença do sobrenatural que é sem mais excepcional. Falando da Congregação, do seu nascer, do seu desenvolvimento, Dom Bosco dizia textualmente: “Pode-se dizer que não há nada que não tenha sido conhecido antes. A Congregação não deu um passo sem que algum fato sobrenatural o aconselhasse, nem uma mudança, nem um aperfeiçoamento ou um impedimento que não tenha sido precedido de uma ordem do Senhor. Por isso — é ainda Dom Bosco que fala — julgo bem que se deixe aqui o homem... Que me importa que deste falem bem ou mal? Que me importa que os homens julguem mais de uma maneira que de outra? Mas é necessário que se manifestem as obras de Deus!” (MB, XII, p. 69).

Não pode causar admiração, portanto, a impressionante afirmação de Dom Bosco: “Entre todas as Congregações e Ordens religiosas, talvez a nossa foi a que teve mais palavra de Deus” (MB, XVI, p. 305).

Estando assim as coisas, como podemos pensar que no momento em que a Congregação, por vontade da Igreja e, portanto, do mesmo Dom Bosco, é chamada como que a um renascimento, o Senhor a abandone, deixando-lhe faltar aquela pre- sença de inspiração e de guia de que foi tão generoso em suas origens?

Temos todo o direito de contar com a ajuda do Senhor: Adiutorium nostrum in nomine Domini!

 

“É Maria quem nos guia”

Procuraremos merecer esta ajuda, mas nos será mais fácil obtê-la mediante a Virgem Auxiliadora. Duas figuras são inseparáveis, embora por motivos diversos, na vida e na missão de Dom Bosco: o jovem e Nossa Senhora. Na longínqua manhã da Imaculada de 1887, Dom Bosco como que se voltando para olhar o longo e não fácil caminho de sua vida, disse aos Salesianos que comovidos o rodeavam: “Caminhamos pelo caminho certo: não podemos errar. É Maria quem nos guia!” (MB, XVII, p. 439). Era uma verdade que Dom Bosco repetia habitualmente, confirmada em mil ocasiões e de mil modos: “Maria foi sempre a minha guia!” (MB, V, p. 155).

Se o foi para nosso Pai, Maria não quererá ser guia para nós que na fidelidade incondicional a Dom Bosco queremos nestes meses trabalhar para que a Congregação saia deste Capítulo “como deve ser”?

Com a confiança ilimitada de nosso Pai em Maria, com o fervor dos Apóstolos no Cenáculo, reunamo-nos ao redor d’Ela, repetindo-Lhe com o coração filial e humilde: “Ó Maria, fostes a guia segura de nosso Pai ao nascer e ao se desenvolver a nossa Família. Sede também para nós, conscientes de nossa fraqueza e insegurança, a guia segura no caminho que a Providência nos indicou, para levar a nossa amada Congregação àquela verdadeira e fecunda renovação, que seja para ela um renascer  de primavera!”.

* * *

APRESENTAÇÃO DO REITOR-MOR

DO RELATÓRIO GERAL SOBRE O ESTADO DA CONGREGAÇÃO

A coração do Conselho Superior. – Características do relatório. – O Salesiano no centro do interesse da Congregação. – Os momentos da formação. – A crise das vocações. – Os Salesianos coadjutores. – A ação salesiana e a juventude pobre. – Os centros juvenis. – O redimensionamento e os seus reflexos. – Os Dirigentes. – As missões. – A solidariedade fraterna. – Apostolados sociais. – Governo e estruturas.

– A economia. – Vivemos com a caridade dos benfeitores. – O problema central é sempre o Salesiano.

 

Caríssimos Capitulares:

estou aqui para cumprir um mandato do XIX Capítulo Geral. No art. 31 do Regulamento aprovado pelo Capítulo, se lê: “Em uma das sessões iniciais do Capítulo,  o Reitor-Mor apresentará um relatório geral sobre o estado da Congregação”.

Dada a novidade da coisa, procurei ver qual o modo mais adequado para responder à vontade do XIX Capítulo Geral e interpretá-la. Digo interpretá-la, porque é claro que um relatório sobre “o estado da Congregação” — são estas as únicas palavras do regulamento — na falta de qualquer outra indicação concreta, pode ser apresentado de diversas formas.

Diante desta dificuldade, e com a preocupação de fazer algo útil a todos, julguei bem servir-me da colaboração do Conselho Superior.

 

A colaboração do Conselho Superior

É oportuno a esta altura ter presente que — como para este relatório, assim para todo outro problema que apresentasse sequer alguma importância — sempre trabalhamos colegialmente, com evidente fruto e vantagem. De fato, estou sempre mais convencido de que, hoje especialmente, é possível enfrentar utilmente os problemas e resolvê-los adequadamente somente se se colocarem juntos, em livre, serena e respeitosa confrontação, pontos de vista, avaliações e maneiras diversas de ver as coisas.

Tive sempre ocasião de constatar que tal confronto de ideias e de mentalidades, atuado neste clima de absoluta liberdade e ao mesmo tempo de mútuo respeito e estima, leva sempre àquela síntese conclusiva que representa o melhor a que pode chegar quem tem a última responsabilidade de decisão, depois de ter pesado todos os prós e os contras.

A este método, que aliás é substancialmente indicado e recomendado quer pelo Vaticano II, quer pelo mesmo XIX Capítulo Geral, procurei ater-me à cordial e construtiva colaboração de todos os membros do Conselho Superior.

E creio ser aqui meu preciso e grato dever, diante desta solene assembleia, dar ciência desta fecunda obra desenvolvida junto a mim pelos membros do Conselho Superior.

Parece-me poder dizer que sempre trabalhamos com unidade de intenção para servir à Congregação em seus verdadeiros interesses, e em particular para realizar as deliberações vivificadoras emanadas pelo XIX Capítulo Geral e inserir e fazer circular na Congregação o espírito renovador que dele proveio.

Este empenho, que tereis ocasião de constatar também através da leitura deste relatório, iniciado e levado adiante com tanto entusiasmo depois do Capítulo, logo deparou-se com dificuldades de vários gêneros uma das quais é a seguinte: enquanto se iniciava a realização das deliberações do XIX Capítulo Geral, avançava já aquele que foi chamado por alguém “o vento do pós-concílio”.

De fato, a Congregação veio a encontrar-se, por assim dizer, no olho do ciclone justamente no momento em que se punha em marcha a máquina destinada a tornar operante o XIX Capítulo Geral que tinha acolhido em suas deliberações não poucos valores conciliares.

Esta coincidência, convém tê-lo bem presente, teve repercussões e consequências bem relevantes, agravadas pelo fato de termos contemporaneamente que mobilizar e endereçar nossas forças por bem três anos para a preparação do Capítulo Geral Especial prescrito pelo Ecclesiae Sanctae.

Certamente foi um bem, um grande bem, além de ser um dever para com a Igreja e a Congregação, mas não se pode negar que não poucas deliberações e orientações do XIX Capítulo Geral, por força dos acontecimentos, não puderam ser levadas adiante.

 

Características do relatório

Voltando ao relatório que está sendo apresentado à vossa atenção, como acenava acima, ele é fruto do trabalho conjunto de todos os membros do Conselho, que antes trouxeram sugestões e ideias para seu enquadramento, e depois, cada um no âmbito de suas competências, todos os elementos de informação de primeira mão de que dispunham em relação aos vários argumentos a serem tratados.

Em um segundo tempo, o relatório foi ainda examinado e discutido colegialmente e depois reelaborado e — por assim dizer — harmonizado pelo Reitor-Mor levando em consideração as observações recebidas.

Não obstante este trabalho, o relatório não pode ter a pretensão de ser... perfeito e exaustivo. Sem falar da dificuldade e da incerteza que derivam do fato de que é a primeira vez que se faz tal documento, deve-se dizer que nos encontramos diante de dificuldades não leves, de índole diversa.

Eis uma delas. A Congregação é uma realidade viva e composta, com diferença de situações muitas vezes notável: donde a dificuldade de apresentar um relatório que, sem se perder em análises particularizadas, dê ao mesmo tempo uma imagem fiel da realidade do todo da Congregação.

Parece-me, porém, que malgrado as suas faltas e os seus limites, a atual relação não é apenas um ato de obediência ao XIX Capítulo Geral, mas oferece a nós e à Congre- gação uma certa radiografia dela mesma.

Os Capítulos Inspetoriais tiveram uma “radiografia” do que pensava a Congregação.

Dentro de seus limites, o presente relatório pode ser chamado de uma radiografia de quanto a Congregação de fato realiza e de como atua nos setores fundamentais de sua vida.

Falei de radiografia: talvez a palavra não seja exata; não se trata nem sequer de “fotografia panorâmica” da Congregação. A fotografia é essencialmente estática, apanha um momento de uma realidade. O relatório que se oferece à vossa atenta leitura é ao contrário — compreenda-se a palavra — dinâmico.

Não se preocupa tanto em “fixar” o estado da Congregação hoje, quanto em fazer ver realmente — em perspectiva dinâmica — como se chegou ao estado atual através da evolução destes seis anos.

Além de ser uma apresentação dinâmica, é também — pelo menos relativamente — sintética. Suas cem páginas, porém, como podeis constatar, justamente porque sintéticas, são densas e integradas por estatísticas reunidas em fascículos próprios. Lidas e interpretadas retamente, elas servem para dar uma visão panorâmica, atual e documentada da Congregação em todos os aspectos essenciais de sua vida.

Aspectos particulares e detalhados da vida da Congregação serão ilustrados e, quando ocorra, desenvolvidos na medida em que o Capítulo passar a tratar de cada um dos argumentos específicos.

Para concluir este prefácio que me pareceu necessário, penso e espero que o relatório que o Reitor-Mor vos apresenta em nome do Conselho, entre outras coisas vos facilitará o trabalho, enquanto vos oferecerá uma visão não apenas setorial da vida da Congregação, mas geral ou pelo menos muito ampla — mesmo se não de todo completa — e ao mesmo tempo, dentro dos limites do possível, atual.

Podereis assim ter consciência do húmus sobre o qual deveis semear, das situações vivas e reais das quais vos deveis interessar, do clima em que deverão ser recebidas as nossas deliberações.

 

O Salesiano no centro do interesse da Congregação

O relatório tem um enquadramento, e consequentemente segue um fio condutor que corresponde à riqueza de orientação provinda do XIX Capítulo Geral.

Que o Salesiano esteja no centro do interesse da Congregação, foi sem dúvida uma das diretrizes mais significativas e trabalhosas que aquele Capítulo nos deu.

Ao colocar o Salesiano como centro, evidentemente queria fazê-lo mais Salesiano, em uma maneira ainda melhor; tinha em mira promovê-lo em sua inteireza e totalidade, como homem e batizado, como consagrado e apóstolo, especificamente dedicado a continuar a missão de Dom Bosco, no seu espírito e com o seu estilo.

A Congregação, com efeito; não são as obras, mas os Salesianos, e a Congregação é ativa e fecunda enquanto cada Salesiano corresponde à imagem ideal que a Igreja e a Sociedade mesma têm dele.

Tal diretriz responde a instâncias profundas, sentidas e muito válidas na Congregação; se é verdade que encontrou correspondência e foi desenvolvida, não se pode dizer, porém, que o obteve na medida e nos modos em que se esperava.

Não é o momento para fazer um diagnóstico aprofundado e particularizado das causas disso, na verdade assaz complexas e conexas também com situações estranhas à Congregação, que podem ter limitado a atuação irradiadora e capilar desta orientação vital: o Salesiano como centro do interesse da Congregação. O que, no entanto, se pode dizer, com humildade e serena sinceridade, é que muito se fez nesse sentido.

Embora não transpareça do relatório com clara evidência, de fato ele acompanha e apresenta os aspectos e os momentos da vida do Salesiano, que é vida de consagração, oração, convivência fraterna e operante, apostolado.

 

Os momentos da formação

O Salesiano como tal não nasce adulto, formado. Eis então todas as fases deste desenvolvimento, do nascimento ao coroamento do período estritamente dito de formação, com todos os elementos que tal período implica.

Mas se é verdade que existe um período especificamente dedicado à formação, não é menos verdade que também depois de tal período permanece para todos a necessidade e, portanto, o empenho daquela que hoje se chama “formação permanente”. A experiência do chamado segundo noviciado, realizado em Caracas com uns trinta sacerdotes, demonstra toda a importância vital da “formação permanente”.

O relatório toca todos estes momentos e aspectos da formação que interessam à vida e ao amanhã da Congregação, à luz da realidade destes anos certamente não fáceis que, por um conjunto de motivos de natureza vária e de todos bem conhecidos, puseram a Congregação, e em particular os responsáveis pela formação em todos os estágios, diante de problemas novos e complexos, sem pausa e sempre com maior rapidez.

O fenômeno, presente embora com diversas e até notáveis graduações em todo o nosso mundo, tem matizes mais sombrios e às vezes até graves em certas zonas: a relação procura dar uma visão o mais possível realista da situação. É necessário, porém, ter presente, como já dissemos, a diversidade de situações, frequentemente notável, que se encontra na Congregação.

A meu ver, em tema de formação, à luz da experiência nossa e de outrem, especialmente nestes últimos anos, será necessário rever todo o conteúdo  do processo formativo que vai desde que a vocação do Salesiano se manifesta pela primeira vez, até que se alcance a meta essencial, em seu contínuo alimentar-se e renovar-se.

Os eventuais erros do passado, mesmo mais recentes, deverão servir para corrigi- los com a necessária coragem, não alheia a um são realismo, para experimentar até caminhos novos, que levem o Salesiano do nosso tempo a viver uma vocação autêntica, convicta, robusta, específica e fecunda.

Ainda a propósito de formação, encontrareis no relatório, tratados em separado, os problemas do PAS.

Da leitura daquelas páginas vos capacitareis de que sem mais se trata de um argumento de particular importância. O Capítulo que representa toda a Congregação, não apenas tomará responsavelmente conhecimento dele, mas deverá estudar, pelo menos nas grandes linhas, as soluções dos problemas que se põem; de modo particular, parece-me que a máxima assembleia da Congregação, à luz da experiência; também responsavelmente deverá indicar o que a Congregação espera e exige do PAS, que diretrizes entende dar, para que os sacrifícios, até graves que a Congregação suporta para a vida do PAS, correspondam frutos adequados não somente intelectuais e culturais, mas ao mesmo tempo apostólicos e salesianamente válidos.

 

A crise das vocações

Um argumento, que encontrareis tratado no relatório até com certa abundância de dados, é o doloroso tema da crise das vocações. Ele não diz respeito unicamente à diminuição do afluxo de novas vocações, de que também se fala, mas também ao  triste fenômeno daqueles que deixam a Congregação nos vários momentos do nosso currículo de vida.

É sempre penoso ver irmãos que nos deixam, mas o é muito mais quando se trata de irmãos já adiantados nos anos, ligados definitivamente à Congregação, e alguns até ungidos pelo crisma sacerdotal. Todos sabemos que se trata de um fenômeno que aflige toda a Igreja e as Ordens e Congregações religiosas masculinas e femininas.

O que talvez nem todos sabem é que a nossa Congregação, embora nos últimos três anos tenha sofrido o índice mais sensível de perdas, todavia na escala estatística das grandes Congregações masculinas, pelo menos como resulta dos dados que nos chegaram às mãos, tem uma das percentuais mais baixas de perdas.

Um elemento que influi notavelmente para determinar esta nossa situação é o fato de que o número total de neoprofessos, embora tendo diminuído com relação aos anos que poderíamos chamar do “boom” das vocações, todavia se mantém ainda em um nível que compensa em discreta proporção as perdas devidas às saídas da Congregação.

Mas é claro que esta constatação não nos pode absolutamente levar a fechar os olhos diante da grave realidade que ameaça algumas Inspetorias e toda a Congregação. De modo especial não podemos absolutamente ocultar e subestimar o fenômeno da hemorragia até grave, e algumas vezes quase crônica, de que sofrem algumas Inspetorias, concomitantemente com aquele, que lhe é subsequente, do envelhecimento do pessoal e da sua pouca adequação às responsabilidades anteriormente assumidas.

O problema, ou melhor, a série de problemas que impõe a crise das vocações, não é simples, nem fácil, e está estritamente relacionado com outros problemas, dos quais a um observador superficial alguns poderiam parecer alheios a ele.

Como consta do relatório, deram-se passos no sentido de enfrentar nos diversos níveis o problema como se apresenta hoje, porém, parece-me poder dizer que há ainda muito caminho a percorrer, e um caminho áspero e difícil.

Devemos armar-nos de muita humildade para nos examinar realisticamente e ver com clareza, enquanto de nós depende, as causas que determinaram e determinam ainda essa hemorragia, para enfrentar decididamente, nos justos termos e nos modos mais oportunos, todo o problema e em todas as suas componentes.

O Capítulo Geral Especial em cujas mãos está, podemos dizer, a vida e o futuro da Congregação, ocupar-se-á a fundo do problema das vocações, de sua crise e de todos os fenômenos com ela conexos.

A contribuição de homens tão qualificados, provenientes de lugares os mais diversos, ricos das mais variadas experiências e especialmente animados de amor sincero e concreto a Dom Bosco que vive e se perpetua na Igreja através da Congre- gação, será precioso para reanimar na Congregação aquela dúplice e fecunda vitalidade espiritual e apostólica que, enquanto de uma parte atenua as perdas dolorosas, da outra atrai a juventude de nosso tempo e se faz digna de crédito diante dela.

 

Os salesianos coadjutores

A propósito do “Salesiano” e das vocações, e das relativas crises, o relatório — com razão — demora-se em ilustrar a situação dos nossos mui caros irmãos, os Salesianos coadjutores, encarada em seus diversos aspectos e momentos. Digo logo que temos na Congregação, um pouco em todos os continentes, muitos Salesianos coadjutores magníficos, não apenas de idade madura, mas também jovens que, sob todos os aspectos, são exemplares: generosamente trabalhadores, muitas vezes verdadeiramente sacrificados; muitos até dotados de uma preparação cultural e técnica que os levou a desempenhar-se brilhantemente em tarefas nem sempre fáceis; e sua presença nas estruturas de governo e na ação educativa se demonstrou muito positiva.

Mas o que me parece obrigatório evidenciar aqui é sua vida religiosa e salesiana vivida consciente e frequentemente com coerência cheia de sofrimento, porque nem sempre tiveram sobre isso, os auxílios diretos e indiretos que teriam direito de esperar.

Feita esta constatação, que é obrigatória, cabe-me acrescentar que infelizmente às perdas se acrescenta o fato assaz grave da falta de vocações para coadjutores, a ponto de em numerosas Inspetorias virem a faltar coadjutores, e não de agora, quer no noviciado, quer nos anos seguintes. Este vazio não nos pode deixar indiferentes. Reconhecendo embora que as causas mais diversas têm concorrido e concorrem para sua existência, parece-me que há causas que dependem também de nós. O Capítulo — à luz da realidade da situação — não deixará certamente de identificá-las para encontrar os meios e os modos mais aptos para eliminá-las ou ao menos diminuí-las.

Na Congregação, a presença do Salesiano Coadjutor, com as inconfundíveis características que o distinguem perfeitamente do irmão leigo das outras Congregações (realidade que nem sempre e nem em todos os lugares se compreende), é alguma coisa de essencial. Como disse em outras ocasiões, a Congregação, a meu ver, não seria a que Dom Bosco concebeu e quis, se por hipótese absurda viesse a ser privada em seu amanhã da componente, que não é acidental, do Salesiano Coadjutor.

Por isso este tema será certamente aprofundado nesta sede, olhando para Dom Bosco e a toda a constante linha de ação que seus sucessores desenvolveram, e ao mesmo tempo, olhando para a renovada valorização dada pelo Concílio Vaticano II aos leigos na Igreja e na vida religiosa e as perspectivas vivificantes que de aí derivam.

 

A ação salesiana e a juventude pobre

O Salesiano — quer como pessoa, quer como elemento vivo da comunidade em nível local, inspetorial e de Congregação — para viver sua peculiar vocação deve ser um realizador da missão que a Providência confiou à Congregação. Salesiano e missão do Salesiano são dois elementos que se exigem mutuamente.

Eis pois a segunda parte da relação que o Conselho vos apresenta: a ação salesiana. Sem descer a particulares, encontrareis ilustrados com os critérios de que falei acima, os setores em que se desenvolve e se articula o nosso apostolado no mundo.

É supérfluo recordar que tal apostolado, enquanto tem uma área claramente preferencial na juventude especialmente pobre e necessitada, desenvolve-se também em verdade, desde as origens, dentro de um certo pluralismo.

A propósito de apostolado entre a juventude pobre, de obras de assistência e promoção social, para ter e oferecer um conhecimento o mais possível completo e atualizado, pedimos a todas as Inspetorias um último esforço nesta laboriosa preparação do Capítulo Geral.

Mais que um árido e insípido elenco, pedimos um relatório que apresente e descreva objetivamente os aspectos e as implicações de todas as atividades que comunidades, grupos ou até simples irmãos, desenvolvem nas formas mais variadas a serviço dos pobres, especialmente dos jovens.

Desejo agradecer aqui aos irmãos que nas respectivas Inspetorias se sujeitaram ao trabalho de recolher sistematicamente todo o material informativo pedido. E neste momento creio interpretar o sentimento unânime da assembleia exprimindo a gratidão da Congregação a milhares de irmãos que sob todos os céus, nas formas mais diversas e ousadas, com sentido de total dedicação, sempre revestida de humildade e simplicidade, esquiva de qualquer busca de reconhecimento ou publicidade, olham sempre para Cristo e para Dom Bosco; são os bons samaritanos de tantos pobres irmãos necessitados.

Pouco tempo faz, Paulo VI, falando-me dos nossos irmãos que trabalham — pobres entre os pobres — na imensa e mísera favela de Tondo (Manila), que Ele visitara, repetia-me com acentos de profunda e convicta comoção: “São heróis! São heróis!”.

Como os irmãos de Tondo, muitíssimos outros merecem este elogio. Com efeito, graças a Deus, os irmãos de Tondo não são os únicos na Congregação a trabalhar com espírito de sacrifício, revestidos daquela alegria que lhes vem da fé. Com o entusiasmado impulso que virá do Capítulo, esperamos que o seu número cresça, e com o número, aquele espírito de caridade sobrenatural que é o único eficaz propulsor capaz de induzir a estas atividades generosas e salesianas.

Voltando à documentação das atividades em benefício dos pobres, penso que nela os Capitulares encontrarão material suficiente para capacitar-se da real posição da Congregação em um campo tão próprio da Congregação e ao qual hoje, na Igreja e em nosso ambiente, e com razão, se é particularmente sensível, especialmente pelos jovens. Esta documentação estará à disposição dos Capitulares em sua forma original como nos chegou às mãos de cada uma das Inspetorias.

Na documentação, facilmente se encontrarão notáveis sombras, ao lado das muitas e louváveis luzes, bem como opacidades e formas que traduzem uma sensibilidade atenuada e talvez em certos casos até necrosadas. Obra do Capítulo será evidentemente encontrar formas novas para dar, onde ocorra, renovado e corajoso impulso ao trabalho a serviço da juventude pobre no sulco e no espírito de nosso Pai.

 

Os centros juvenis

A propósito mesmo deste nosso insubstituível apostolado que é antes de mais nada e prevalentemente dirigido aos jovens, creio oportuno, referindo-me à relação sobre o estado da Congregação, sublinhar dois fatos que me parecem bastante indicativos e que interferem um no outro.

Em 1967, o Reitor-Mor tinha lançado a iniciativa da criação de um centro juvenil em cada Inspetoria, transformando alguma obra preexistente, com o escopo de poder apresentar em cada Inspetoria uma obra que, na fidelidade substancial à ideia do Oratório de Dom Bosco, a renovasse, adaptando-a com coragem ao nosso tempo e colocando-a a serviço dos jovens de hoje, com atividades que correspondessem às verdadeiras e variadas exigências dos tempos.

Tal convite, é claro, importava antes de mais nada em um esforço e um empenho para buscar caminhos novos e que correspondessem às necessidades de hoje.

Em homenagem à verdade, e com toda a sinceridade, devo dizer não constar que o convite teve muita sorte: alguma coisa se fez, e me é bem grato expressar o merecido reconhecimento, mas também se deve reconhecer que foi bem pouca coisa, quando não se tratou apenas de aplicar uma etiqueta que de algum modo “canonizasse” iniciativas bem diversas de um verdadeiro Centro Juvenil.

O fato, a meu ver, deve ser acentuado não tanto por aquilo que pode ser em si mesmo, quanto pelos motivos e pelas situações que ele subentende e pela sua estreitíssima relação com outro fato de dimensões e gravidade mais vastas, de que se ocupa a relação ao Capítulo Geral e sobre o qual desejo chamar vossa particular atenção.

 

O “redimensionamento” e os seus reflexos

Em atenção a quanto fora deliberado pelo XIX Capítulo Geral, o Reitor-Mor com o seu Conselho, depois de um longo e aprofundado estudo de preparação, convidou a Congregação em todos os seus membros, através dos vários órgãos de governo, a colaborar para a realização daquela vasta, complexa e vital operação que tinha por título: Redimensionamento das obras. Embora imperfeita, era, no entanto, a primeira tentativa — dir-se-ia ante litteram — de interessar todos os membros da Congregação pelos problemas da mesma.

Quais foram os resultados dessa “operação”? Temos que reconhecê-lo sinceramente: não foram verdadeiramente brilhantes. Por outro lado, as muitas causas do êxito pouco feliz, à luz de um exame sereno e profundo, podem ser reduzidas a  uma só.

E devemos aqui dizê-lo com toda a humildade: não se estava preparado, nas várias componentes da Congregação, nem psicológica nem tecnicamente para enfrentar com a necessária clareza e com a não menos necessária coragem a soma dos problemas que o redimensionamento impunha, nem tampouco para conhecer concretamente tantos valores e interesses espirituais, apostólicos e formativos que ele queria não apenas defender, mas também potenciar, tendo em vista a realidade em que a Congregação vive e as perspectivas que inexoravelmente terá que enfrentar em futuro próximo. Não se tratava, com efeito, só de fechar algumas obras, mas de estudar todo um plano operativo realista, previdente e de longo prazo, do qual a redução das obras era somente uma parte, ou melhor, um ponto de partida.

Mas, como disse acima, não estávamos então suficientemente preparados e amadurecidos para uma operação de tais proporções.

Todavia, devo dizer que estes últimos anos registraram neste ponto uma positiva evolução em nosso mundo; uma prova evidente disso é encontrada no fato que em não poucas Inspetorias a operação do redimensionamento foi novamente retomada, e muitas vezes até em Capítulos Inspetoriais e, com critérios decisivamente diversos daqueles de um tempo, que eram um tanto negativos, sinal evidente de que as ideias certas, embora lentamente, caminham e acabam por penetrar e encontrar acolhida nas almas abertas à verdade e ao verdadeiro bem.

Seja como for, o redimensionamento trouxe algum fruto: o bloqueio quase total de novas obras..., mas quanta canseira para resistir às pressões!

A falta de um rápido sucesso do Redimensionamento, pelos motivos acenados, parece-me um apelo ao realismo: ao formular planos de trabalho, deve-se sempre ter em conta o terreno em que se deve pisar, e antes de mais nada os homens que devem saber e poder realizá-los.

 

Os dirigentes

Com o redimensionamento estava intimamente conexo o problema dos Dirigentes em todos os níveis da Congregação. Tal problema, convém dizê-lo logo, é sentido também fora da Congregação, na Igreja e na sociedade civil e em setores particularmente importantes: política, indústria, economia, sindicatos etc., e isso se dá por causas complexas que não é aqui o caso de elencar.

Examinando nosso ambiente, constatamos todos os dias as dificuldades para encontrar dirigentes que respondam às exigências de hoje nas comunidades e obras. As dificuldades são agravadas antes de mais nada pelo grande número de postos de chefia a cobrir: faço notar que não são apenas os Inspetores e os Diretores que têm tarefas de direção. Pensai, por exemplo, nos Vigários Inspetoriais para não falar dos Vigários locais —, nos Párocos (quase 700 paróquias!), nos Diretores Escolares, nos Ecônomos Inspetoriais, nos Mestres dos Noviciados, nos Diretores de Oratório etc.

Um cálculo bastante aproximado leva à conclusão de que em cada 2 ou 3 sacerdotes salesianos seria necessário poder dispor de um Dirigente. Isso pode explicar tantas situações, digamo-lo mesmo, tantas deficiências nos mais variados setores da nossa vida, do religioso ao pastoral, do organizativo ao administrativo. É verdade, começou-se a dar certa preparação específica aos novos Inspetores, aqui e acolá já desde alguns anos se organizam cursos para novos Diretores e para outros responsáveis de setores particulares. Muito bem! Mas tudo isso não resolve o problema, que é tão vasto e tem incidências não certamente positivas na vida da Congregação.

Ao problema da falta de pessoal dirigente, que já são graves, unem-se outras situações provenientes, ao menos em notável proporção, da mesma matriz: a desproporção entre pessoal e empenhos de atividades. De maneira mais clara, como repetidamente se observou, houve um desenvolvimento em sentido quantitativo: quero dizer, multiplicaram-se as obras, às vezes até concomitantemente à diminuição evidente de vocações, com consequências que não é difícil constatar.

Parece-me que, também pela hemorragia que aflige nestes momentos a Congregação, será necessário restringir as frentes, com extrema coragem, estudando bem nossas opções. Somente assim a Congregação poderá realizar o seu vital e inadiável crescimento qualitativo em profundidade, isto e, poderá cuidar da qualificação antes de mais nada espiritual-teológica-pastoral, hoje mais que necessária e, ao mesmo tempo, a qualificação cultural-profissional-técnica dos Irmãos.

Penso, por exemplo, na necessidade que temos de irmãos preparados em Teologia Espiritual, Catequese, Liturgia: penso em como é necessário preparar indivíduos nos vários setores da Comunicação Social, em primeiro lugar a Imprensa.

É verdade que cá e lá já se toma ciência desta grave necessidade e se movem, mas não basta: é necessário, a meu ver, uma ação da Congregação que corresponda a projetos concretos e feitos com critérios realísticos.

Faço votos para que os Capitulares, retomando as preocupações de já foram do XIX Capítulo Geral, deem à Congregação aquelas diretrizes claras e precisas que sejam aptas para atender a estas duas exigências vitais: a qualificação dos Salesianos, especialmente para as casas de formação, e ao mesmo tempo, a preparação do pessoal dirigente de acordo com as necessidades de hoje.

 

As Missões

Uma palavra sobre o tema das Missões.

Ao apelo do Reitor-Mor em prol da América Latina, responderam todos os anos um bom número de sacerdotes: o equilíbrio de forças nas Inspetorias de origem nem sempre consentiu receber muitos pedidos, mas os que pudemos mandar, levaram um válido auxílio aos numerosos lugares de missão ou de quase missão que deles tinham grande e urgente necessidade. Permanecem abertos vários e graves problemas.

Enquanto a Ásia, de modo especial a Índia, em seu conjunto, se move no sentido de ser autossustentável com vocações autóctones, a África encontra-se em dificuldades sobre isso, e penso que o Capítulo, ao tratar das Missões, voltará sua atenção a esse enorme continente que oferece um campo não somente vasto, mas aberto à evange- lização. Problema grave — embora pelas responsabilidades que nos advêm quer de motivos históricos, quer de nossa notável presença naquele continente — é o da América Latina.

Paulo VI, na audiência a que já me referi, dizia-me textualmente: “Ajudai-nos a salvar a América Latina!”. Sentimos toda a aflição deste apelo paterno e o empenho que surge de aí em nossos corações. Dom Bosco, não teria certamente ficado insensível; mas não podemos esconder a nós mesmos a diminuição sensível e constante de nossas forças na América Latina, a despeito da contribuição da Europa. O Capítulo há de ocupar-se deste grande e difícil problema, mas penso que dada a mesma dificuldade do assunto, deveremos empenhar-nos para encontrar alhures soluções adequadas: uma delas, a meu ver, deve ser buscada na preparação de leigos, indicados para as nossas obras, para ter colaboradores nossos conscientes e válidos nos diversos setores de nosso apostolado.

Infelizmente até agora pouco se fez entre nós para valorizar a preciosa contribuição dos leigos.

Há pouco iniciamos aqui em Roma alguma coisa, justamente para preparar seriamente leigos que colaborem conosco nos países que disso têm necessidade, mas faço votos de que não somente na Europa, mas também nos mesmos países da América Latina e de outros continentes, depois do Capítulo Geral, nos empenhemos seriamente em promover essas iniciativas, utilizando a experiência que nos precedeu. Disto decorrerá uma dupla vantagem: para quem receber a ajuda destes leigos, mas não menos para os mesmos leigos, que disso tirarão não pequeno enriquecimento espiritual, apostólico e salesiano.

 

A solidariedade fraterna

Não posso esquecer-me de ao menos um aceno à “solidariedade fraterna”. A iniciativa como repetidas vezes se escreveu e se disse, tem por fim romper certas barreiras psicológicas e desenvolver uma sensibilidade comunitária e ao mesmo tempo missionária que se exprima com fatos concretos. Remotamente se refere ao Perfectae Caritatis, ou melhor, à ideia conciliar. A ajuda econômica que de aí adveio para muitas de nossas obras que estavam em grandes dificuldades, foi certamente um fruto tangível da iniciativa. E volto aqui a agradecer às Inspetorias, às comunidades e aos irmãos que, compenetrados do significado e do escopo da iniciativa, quiseram ir — mesmo com notáveis sacrifícios — ao encontro das necessidades dos irmãos e das obras que precisavam. Mas a solidariedade não pode e não quererá ater-se só ao aspecto econômico, ainda que apreciável. A solidariedade, como aliás se começa a constatar, deverá alargar-se a campos e setores muito difíceis que serão fecundos para quem dá e para quem recebe. Será o sinal e o fruto daquela caridade que está na base de toda a renovação na Igreja e na Congregação.

Seguindo a orientação do Perfectae Caritatis, com o fruto da solidariedade  pudemos levar nosso auxílio fraterno também para fora da Congregação, a dioceses do Vietnã, a Bispos do Paquistão e da índia, a diversas obras sociais no Brasil.

 

Apostolados sociais

Da leitura da relação sobre os apostolados sociais, se há de ver claramente o caminho feito e quanto ainda está por ser feito, e quanto espaço resta ainda aberto à nossa atividade com os Cooperadores, tanto pelas orientações que o Concílio dá no tocante ao apostolado dos leigos, como pelo potencial preciosíssimo de multíplice colaboração consciente e qualificada que podemos encontrar em nossos leigos e de que temos sempre mais evidente e grave necessidade.

É este, segundo o meu parecer, um ponto entre os mais vivos e interessantes, conexos com a grande ideia de Dom Bosco, que o Capítulo quererá aprofundar para tirar dela profundas e claras conclusões.

Quanto aos Ex-alunos, obtiveram-se progressos em diversas partes da Congregação quanto ao organizá-los e assisti-los, mas será necessário desenvolver ainda nossa sensibilidade para este assunto em todos os níveis de responsabilidade; o cuidado dos Ex-alunos não é uma atividade supérflua cujas sortes estejam ligadas ao modo de ver de um ou de outro, mas o natural e necessário complemento de nossa educação que custou anos e anos de trabalho sacrificado de tantos Salesianos. É ela assim uma responsabilidade que a Comunidade deve assumir embora seja preciso que determinadas pessoas fiquem encarregadas disso.

Seja como for, descuidar desta atividade cria um vazio e um dano, como se existisse uma mutilação na nossa inteira obra educativa.

Também no tocante aos Instrumentos de Comunicação Social podeis constatar que se procura dar passos concretos, tendo presentes as normas e orientações do Concílio e da Hierarquia. Deve-se notar que este setor do apostolado faz parte dos fins específicos de nossa Missão na Igreja. O problema mais grave e — digamo-lo também, que não encontrou ainda uma solução eficaz — é o das pessoas, preparadas para esta forma de apostolado hoje mais que atual sob qualquer ponto de vista. Também aqui devemos referir-nos ao redimensionamento das obras, à sua hierarquização e à consequente qualificação dos irmãos.

 

Governo e estruturas

Passemos agora ao governo e às estruturas da Congregação, como hoje se costuma dizer.

No relatório, se bem que sem abundância de detalhes, encontra-se suficientemente descrito o trabalho, e digamos que não foi de pouca monta, que se pôde realizar nestes anos em todos os níveis, e mais ainda, a evolução que foi amadurecendo e traduzindo-se em um novo estilo e em novos critérios de governo, evolução que parecerá tanto mais notável, quando se confronte com a praxe e a mentalidade existentes ainda poucos anos atrás, quando se começaram a praticar as deliberações do XIX Capítulo Geral que tinham encontrado autorizada confirmação no Vaticano II.

Um conjunto de ideias serviu de base a todo esse trabalho, que do centro se irradiou capilar e frutuosamente na Congregação. São elas: corresponsabilidade, interesse comum, participação, informação, diálogo.

A estas ideias correspondem muitíssimos encontros do Reitor-Mor com Inspetores, Conselhos Inspetoriais, Diretores, Irmãos, especialmente se responsáveis de setores particulares (p. ex., casas de formação) nos vários continentes, e numerosos encontros de outros Superiores quer ocupando cargos no Centro da Congregação, quer sendo Superiores Regionais, com as Conferências Inspetoriais e com outros grupos de Irmãos. Foi observado que nunca como nestes anos houve um contato tão frequente e tão intenso entre o Centro e a periferia.

A observação corresponde à verdade: acrescentarei que esses encontros em clima de fraterna compreensão, no intento de inteirar-se dos problemas em conjunto e no mesmo lugar dos problemas — se bem preparados e programados — são um instrumento muito eficaz para um governo que quer obter não tanto a execução de deliberações impostas de qualquer forma por quem está no alto e longe, mas a busca das soluções mais oportunas à luz da realidade dos lugares e dos tempos, e colocando em comum e em contato direto os frutos das várias experiências.

Como aspecto muito positivo desta colaboração e corresponsabilidade resultou a consulta dos irmãos para a nomeação de encargos de particular responsabilidade.

Na grande maioria dos casos constatou-se prudência e maturidade nos  julgamentos, e consequentemente indicações bem acertadas e felizes. A experiência, que se demonstrou bastante positiva em seu conjunto, como tantas outras experiências, será bem definida e aperfeiçoada pelo Capítulo Geral. Mas parece-me poder afirmar sem mais que estamos no caminho certo.

 

A economia

E chegamos ao último ponto da relação: a economia.

Indo logo ao concreto, neste delicado setor a ação do Ecônomo Geral, em contínuo contato com o Reitor-Mor e o Conselho, desenvolveu-se nas duas direções indicadas pelas Constituições: guiar e servir às Inspetorias, administrar bens que não pertencem a nenhuma Inspetoria e cuidar das atividades próprias da Direção Geral.

O relatório apresenta amplamente o quanto se fez para dar às administrações quer inspetoriais, quer locais, uma norma de serviço que correspondesse à importância, à delicadeza e em muitos casos também à complexidade do fato administrativo.

As reuniões, em todos os âmbitos e níveis, os cursos, a ininterrupta consulta e os contínuos contatos entre periferia e centro, foram ótimos instrumentos para melhorar muitas situações no setor administrativo-econômico-financeiro que precisa de pessoas devidamente preparadas.

Permanecem deficiências de várias formas e proporções, devidas a causas diversas; penso que o Capítulo quererá insistir nesta ação e até aperfeiçoá-la, visto que, se bem compreendida, é um serviço necessário e muito útil à comunidade e ao seu trabalho apostólico.

Em segundo lugar, como já acenei, a atividade do Economato Geral desenvolveu-se em todos os setores de competência própria da Direção Geral: devo dizer que também este é um trabalho que merece todo o nosso reconhecimento.

A leitura do relatório servirá certamente para tomarmos conhecimento, além de desfazer fantasias e lendas diversamente publicadas com dano evidente da Congregação, da realidade, da verdadeira realidade, que é bem diversa de todas as fantasias.

A primeira realidade que salta aos olhos de quem examina a relação é esta: a Direção Geral da Congregação, para fazer frente às urgentes despesas que lhe trazem todas as suas atividades, não tem renda alguma ou contribuição segura ou fixa, nem da Congregação, nem de fundos estáveis. Como podereis constatar da leitura da prestação de contas, a Direção Geral, com tudo quanto esta palavra importa e subentende de obrigações e de compromissos em âmbito mundial, vive de quanto a Providência manda através de benfeitores, frequentissimamente muito modestos e quase exclusivamente da Itália: a contribuição de alguma casa — digna sempre de apreço — representa uma gota no mar das necessidades.

 

Vivemos com a caridade dos benfeitores

A atividade da Direção Geral, portanto, na prática, está toda apoiada na beneficência. Espontaneamente havereis de perguntar-vos quais seriam as consequências de uma cessação ou de uma paralização desta benéfica fonte. Dom Bosco, que sempre foi adiante entre dívidas e benfeitores, não permita que os seus filhos percam a credibilidade que atraía para Ele a bênção do Senhor também através de auxílio material.

De qualquer modo penso que tal questionamento será necessário colocar também em vista da transferência da Direção Geral para Roma e da eventual hipótese de que o Capítulo quisesse buscar outra orientação em relação à vida de muitas das nossas obras que são alimentadas em todo o mundo pela Direção Geral.

É claro, portanto, que vivemos e devemos viver antes de mais nada do nosso trabalho, mas deve ser também claro que, pelos mais diversos motivos, nosso trabalho muitas vezes não é suficiente para manter as obras (penso nas enormes dificuldades que não poucas Inspetorias encontram para suprir às despesas do pessoal em formação), e tanto menos para criar novas, especialmente quando se trata de certos tipos de obras que todavia estão dentro de nossa missão, como pode ser uma escola profissional, uma obra de assistência ou uma casa de Retiros, ou o Ateneu ou a Casa Geral. Nestes e em outros casos semelhantes a Congregação sempre teve necessidade de benfeitores, pessoas ou entidades, que de um modo ou de outro, vieram a suprir à nossa absoluta falta de recursos financeiros.

Penso neste momento, e só a título de exemplo, no imenso volume de bem que fizeram as casas missionárias que por decênios forneceram, às centenas, irmãos, pode- se dizer, para todo o mundo salesiano. Uma documentação faz chegar o número desses Salesianos a quase dois mil e quinhentos.

Pois bem, aquelas grandes e beneméritas obras trazem nomes: Rebaudengo, Bernardi-Semeria etc. São os grandes benfeitores que deram os meios para construí- las ou aparelhá-las.

E o elenco poderia continuar; não apenas na Itália, mas um pouco em todos os países muitas obras existem e vivem pela generosidade de que falei acima.

Ainda recentemente puderem ser realizadas obras tão somente com o auxílio oferecido por novos benfeitores. Mas tal auxílio, onde quer que nos tenha sido oferecido, nunca condicionou de modo algum o nosso apostolado, os nossos métodos, a nossa liberdade de ação; jamais nos arrastou ou envolveu em operações ou situações de qualquer forma em contraste ou apenas menos convenientes com a nossa condição de religiosos, de Salesianos. Certamente não podem ser destinados a outros fins, que também seriam de sucesso em certas situações particulares, os bens recebidos somente para determinados fins consentâneos com a nossa missão.

Compreendo a sensibilidade hodierna e estou convencido de que, em lugar de ignorá-la, devemos tê-la presente e tirar dela as necessárias consequências também no campo da ação. O Capítulo ocupar-se-á certamente deste tema que tem reflexos e repercussões de grande importância em muitos setores da nossa missão. Mas me pareceria injusto e antes de mais nada irracional, querer julgar as situações passadas, ou de qualquer forma provenientes do passado, com os critérios e a sensibilidade de hoje.

E, depois, parece-me que também diante de situações, sensibilidades e instâncias hodiernas, devemos proceder com aquela serena e sábia visão de quem sabe distinguir o ouro da ganga, o que é contingente, fruto da moda, daquilo que tem valor perene; creio que também Dom Bosco nesta conjuntura saberia perceber corretamente os sinais dos tempos.

Mas é tempo de acabar! Evidentemente, a economia devidamente enquadrada e dentro da função que lhe toca, tem sua função instrumental na vida da Congregação, mas não é certamente este o seu problema central.

 

O problema central é sempre o Salesiano

Para mim, e creio que estais todos de acordo, o problema central da Congregação, sobre o qual o Capítulo concentrará seu interesse e do qual todos os demais  problemas deverão adquirir consistência é o Salesiano, a sua identidade, a sua missão, a sua formação, o seu estilo de vida e todos os valores que nele convergem. É o Salesiano a estrutura viva, a viga mestra da Congregação, ou melhor, o coração, a vida, a razão de ser da Congregação. Por isso, permiti que exprima ainda uma firme convicção pessoal de que, ancorada no Concílio, em todo o magistério pós-conciliar, nas experiências recolhidas em encontros com Superiores Gerais, foi-me sugerida pelos contatos, numerosos e diversificados, que pude ter nos vários continentes, com centenas e centenas de irmãos.

Para nada serviria todo o imenso trabalho feito até agora pela Congregação para preparar este Capítulo, e aquele não menos trabalhoso e pesado ao qual nos dedicamos, se, o que Deus não permita, não devesse sair deste Capítulo um Salesiano concreta e vitalmente renovado.

Podemos, todavia, com plena confiança dizer que tal hipótese carece absolutamente de base, e temos motivos para isso.

Eis porque, referindo-nos ao relatório que vos apresentei e comentei, com tudo o que de positivo e de negativo ele oferece à vossa consideração, enquanto vos apresenta um quadro o mais possível realista e existencial da Congregação, não quer em absoluto induzir-vos à tentação de vos fixardes num estéril criticismo, mas  tenciona unicamente oferecer-vos uma plataforma concreta da qual volta a partir com renovado impulso, depois de uma corajosa e fecunda revisão, para atuar o programa que, já como conclusão do XIX Capítulo Geral, Paulo VI dava como síntese feliz à Congregação, e que nada perdeu de sua atualidade: “Progredir”.

É-me caro, e serve como um feliz augúrio e repetir-vos hoje esta palavra, mesmo porque nela me parece ouvir o eco da palavra sempre viva e atual de nosso dulcíssimo Pai: “Não nos podemos deter”.

A Virgem Auxiliadora ajude-nos a recolher concretamente este dúplice e paterno apelo: da Igreja – na pessoa do Papa – e do nosso Pai Dom Bosco.

 

 

O TRABALHO DO CAPÍTULO GERAL ESPECIAL: CONSTITUIÇÕES E RENOVAÇÃO

Padre Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 265

Em comunhão de espírito convosco. – Uma pergunta justificada. – Trabalho lento, mas construtivo. – O fruto de uma laboriosa busca comum. – A premissa insubstituível da renovação. – Alguma antecipação sobre os documentos capitulares. – As Constituições renovadas. – O nosso empenho perante às Constituições. – Como os Salesianos das origens. – Intensifiquemos a oração. – O Centenário das Filhas de Maria Auxiliadora.

Roma, 1º de novembro de 1971
Festa de Todos os Santos

Irmãos e filhos caríssimos,

após o fascículo especial que vos foi enviado no início do nosso Capítulo Geral, não recebestes nenhuma comunicação direta do Reitor-Mor. É verdade que vos têm chegado, com periodicidade regular, os “Noticiários” que dão informação do andamento e desenvolvimento do Capítulo Geral. Compreendo, porém, que esperais algumas palavras minhas. Aproveito o respiro que me concederam nestes dias para ir ao encontro não só vosso, mas também do meu vivo desejo de entreter-me um pouco convosco sobre o assunto que, no momento, centraliza as expectativas dos Salesianos do mundo inteiro.

 

Em união de espírito convosco

Talvez, diante do meu silêncio, enquanto o Capítulo Geral ia se prolongando e todos achavam-se absorvidos por trabalhos urgentes, alguém poderia ter a sensação de certa separação entre o Centro e o resto da Congregação. Posso garantir-vos que  de nenhum modo isso se dá. A Congregação e os Irmãos, que são sua alma e vida, nos estão sempre presentes em profunda e concreta união de espírito.

Estais, caríssimos, presentes, em nossas orações cotidianas, de maneira especial nas devotas e solenes concelebrações em que, diria eu, sentimos visivelmente viver unidos a vós, mediante os representantes de toda a Congregação. Estais presentes todas as noites, quando no “boa-noite” (que necessariamente dura mais do que o normal) os Inspetores e os Delegados das Inspetorias de todo o mundo nos fazem conhecer suas obras e problemas. Estais presentes, contínua e eficazmente, em todas as fases dos nossos trabalhos. Quantas vezes, com efeito, preparando documentos, debatendo-os, redigindo artigos das Constituições e regulamentos, estudando inúmeras questões, consultamos, lembramos o pensamento e as instâncias dos CIE, e dos Irmãos. De resto, os próprios Capitulares que vos representam em nossa Assembleia são os primeiros a nos recordar, a cada instante, que estais na retaguarda, cada um de vós.

Por isso, estou certo que, como o Reitor-Mor e os Capitulares, todos se sentem solidariamente unidos com cada Salesiano, onde quer que viva e trabalhe, assim também vós, especialmente nesta fase tão importante e delicada do trabalho que estamos empreendendo, por mandado vosso, nos interesses de toda a Congregação, vos sentis ligados a ela mais do que nunca, e ligados a nós também, que nos esforça- mos por dar à Igreja, segundo suas orientações, uma Congregação renovada no espírito antes de tudo, e ao mesmo tempo na sua missão como Dom Bosco hoje poderia desejá-la.

 

Pergunta justificada

Mas a esta altura percebo que me pedis: “Diga-nos algo de concreto, algo de claro sobre o andamento dos trabalhos”. O pedido é mais do que justificado, primeiramente, porque vos sentis, não menos do que nós, parte interessada no Capítulo Especial. Depois, porque o andamento prolongado do Capítulo e talvez algumas notícias espalhadas aqui e acolá, totalmente sem fundamento, fruto de pura fantasia, tenham talvez suscitado certa impaciência, também certo desânimo ou perplexidade, e até preocupação.

Eis-me disposto a vos contentar.

 

Trabalho lento, mas construtivo

Quanto ao prolongamento do Capítulo, queria convidar-vos a fazer algumas reflexões comigo. A quantidade do trabalho é imensa. Basta pensarmos no número de “esquemas” e problemas fora desses esquemas, argumentos que devem ser estudados, debatidos, enfrentados, para serem resolvidos. Pensemos na profunda revisão das Constituições e Regulamentos em conformidade com as claras disposições conciliares e pós-conciliares. Acrescentemos o fato de a Assembleia contar com duzentos membros, naturalmente com sensibilidades, experiências, mentalidade diferentes.

Compreende-se então facilmente como trabalho tão vasto e complexo confiado a duzentas pessoas precisa de tempo, para que, pelo amadurecimento, necessariamente moroso, de ideias e pontos de vista diversos, se possa chegar à equilibrada convergência de escolhas a que o Capítulo deve tender. Era, pois, trabalho nada fácil, trabalho que por sua própria natureza não podia ser rápido.

Certamente, olhando “a posteriori”, podemos dizer que certos erros poderiam ter sido evitados. Mas infelizmente é mais fácil percebê-los post-factum, mesmo porque os erros se prendiam a muitos fatores que na ocasião não se podiam facilmente identificar. Contudo posso dizer-vos com satisfação que já agora se veem e se começam a recolher os frutos desse rápido amadurecimento no trabalho rico e complexo que se vai fazendo. O momento atual dos trabalhos que temos pode dizer-se que é de colheita. Andamos com ritmo intenso e verificamos com alegria, dia a dia, resultados e progressos concretos.

Pena que não possa apresentar-vos aqui o grande diagrama que graficamente indica o estado de adiantamento dos trabalhos que fazemos cada dia. Poderíeis perceber plasticamente quanto vos estou dizendo.

A meu ver, penso que, procedendo neste ritmo, na segunda metade de novembro, chegaríamos às eleições dos Superiores do Conselho. Claro que não vos posso fazer agora nenhuma previsão do término. Mas é evidente, repito, que caminhamos expeditamente para a meta final.

 

O fruto de uma trabalhosa busca comum

Depois desses esclarecimentos, certo de fazer-vos coisa agradável, desejo dizer-vos algo de concreto e explícito sobre alguns elementos bem positivos que se tornaram cada vez mais evidentes nestes meses. Também para vós, como para mim e para todos os Capitulares, serão motivo de conforto e confiança.

Mediante um amadurecimento que, como já disse, não podia ser rápido, nossa assembleia alcançou e vai demonstrando sensibilidade mais marcante com relação às exigências dos tempos, e uma clara decisão no enfoque dos problemas. Porém, elemento dominante e sempre mais evidente entre os Capitulares é o amor prático à Congregação e à sua verdadeira renovação, amor que se demonstrou mais forte do que as diferenças de posições tanto pessoais como de grupos. Esse amor, sincero e efetivo, deu-nos força para trabalhar nos longos meses (mesmo no calor quase tropical do verão, em Roma, neste ano), vencendo e superando situações, sob vários aspectos, desagradáveis e até penosas, e, com essas situações, o cansaço e, em algum momento, a tentação do desânimo.

A nossa Assembleia tomou ainda consciência de duas realidades que não se podem ignorar: a grande diferença de situações existentes na Congregação, a que se liga o pluralismo de mentalidades. Mas tanto uma como a outra realidade foram consideradas não como expressão de desagregação, mas, em harmonia com verdadeira e dinâmica fidelidade a Dom Bosco, como efeitos de uma autêntica encarnação no ambiente em que o Salesiano deve desenvolver a sua missão.

Com o reconhecimento das diversas situações Congregação e relacionada com a busca de uma descentralização que dê sentido renovado de responsabilidade e propulsão à comunidade inspetorial, mas com profunda, decidida e concreta de intensificação da unidade da Congregação nos Salesianos presentes e atuantes em todas as partes do mundo.

Com essa finalidade foi aprofundado o princípio da solidariedade, desenvolvido, e em certo sentido, institucionalizado, justamente como aplicação prática do princípio de unidade.

Também o princípio de subsidiariedade e de corresponsabilidade encontrou larga e constante aplicação nos vários níveis nos muitos aspectos de toda a nossa vida de Salesianos consagrados para a missão que nos foi confiada pela Providência.

Encontrareis todos esses elementos a seu tempo nos vários esquemas aos quais compete acolhê-los.

 

A premissa insubstituível da renovação

Há depois um elemento que, pode-se dizer, se manifesta sempre ao tratar de muitos “esquemas”, sobre o qual todos estão de acordo. Para esse elemento desejo chamar a vossa atenção.

A renovação de qualquer setor que seja da Congregação é condicionada pelo indivíduo, ou melhor, pela renovação pessoal de cada Salesiano, pela renovação de cada um de nós. Nada de mais verdadeiro.

Renovar-se para o Salesiano quer dizer, antes de tudo, realizar verdadeira, profunda e por vezes também radical conversão para uma vida verdadeiramente fiel ao Evangelho, aos Conselhos de que fez profissão, à vocação especial que se abraçou. Uma vida, pois, permeada primariamente de oração, no sentido mais rico da palavra, oração sem a qual nem sequer se pode viver séria e dignamente a própria con- sagração, nem desempenhar de modo fecundo a missão que a Providência, por meio de Dom Bosco, nos confiou.

A urgente e iniludível exigência da renovação pessoal, premissa insubstituível que é de toda renovação eficaz da Congregação, foi-nos inculcada repetidamente por eminentes personalidades que vieram visitar o nosso Capítulo, como o Cardeal Garrone, Prefeito da Sagrada Congregação da Educação, ou Dom Pirônio, Secretário Geral do CELAM. O fato mesmo dessa convergência de ideias e alertas convida-nos à reflexão. Convém desde hoje proclamar alto e bom som: o Capítulo Geral poderá exprimir as orientações mais ricas e sublimes, poderá preparar Constituições renovadas do modo mais feliz, conforme as normas da Igreja e fidelidade perfeita a Dom Bosco. Tudo, porém, de nada valerá, se o Salesiano não se renovar, realizando a sua “conversão” individual. De resto, convém dizer desde agora, se é verdade que o Capítulo Especial dará diretrizes e orientações corajosamente renovadoras para a vida da Congregação, ninguém, todavia, pense que dele possa sair uma espécie de encorajamento para uma vida aburguesada e relaxada. Tudo pelo contrário: uma Congregação corajosamente aberta, sim, mas precisamente por isso, nada indulgente, e também fora da linha, em certo sentido, da que se chama hoje, “sociedade permissiva”.

O Capítulo, mesmo porque está empenhado em retratar uma Congregação renovada de maneira juvenil para a sua missão de sempre quer, antes de mais nada, uma Congregação autêntica e profundamente renovada na vida dos seus membros. A Congregação do futuro jamais aceitará uma vida salesiana vivida com compromissos, uma consagração arrastada como se fosse um peso, consagração que aparecesse na prática como um contratestemunho dos valores que afirma professar.

Os tempos exigem escolhas lineares, coerentes e homens que tenham coragem de as fazer e viver de modo integral. Só assim a Congregação poderá dar resposta adequada aos apelos de hoje e de amanhã, muito mais árduos e exigentes do que os de ontem.

 

Algumas antecipações sobre documentos capitulares

Resta ainda dizer-vos alguma coisa sobre os “esquemas” ou documentos capitulares. Bom é que fiqueis sabendo que constam eles de uma parte doutrinal e pastoral que ilumina e dá, por assim dizer, fundamento e torna explícitas as Constituições e os Regulamentos que se seguem. Em alguns casos há também “orientações práticas”, que têm particular importância, por servirem para a “aplicação” concreta das normas renovadoras de cada documento. Limito-me a antecipar alguma coisa, não sobre conteúdos especificados, naturalmente.

Os documentos já redigidos são doutrinalmente robustos e, podemos acrescentar, também corajosos: refletem logicamente uma Assembleia variegada, com mentalidades diversificadas. Como quer que seja, é claro que a esta coragem deverá corresponder a da Congregação, em seus vários níveis, ao pô-los em ação. Neles aparece uma clara percepção e um interessante esclarecimento da vocação salesiana na Igreja. Menção especial merece o documento sobre o Espírito Salesiano e sobre a nossa Missão dinâmica em meio aos jovens pobres e o povo.

Elemento de particular importância é a parte que se refere à “família salesiana”, que abre horizontes prometedores à nossa capacidade de animar os leigos.

Outro aspecto muito positivo é a insistência sobre o impulso missionário que deve animar todas as nossas comunidades para melhor realizar o mandato de evangelização próprio da nossa Congregação e debelar o perigo do aburguesamento de cada Salesiano em particular e das mesmas comunidades.

 

As Constituições renovadas

A expressão e síntese mais importante e de maior empenho de todo o longo e complexo trabalho, não só do Capítulo Especial, mas de toda a Congregação que nele participou amplamente nas várias etapas da preparação, serão certamente as Constituições renovadas com os relativos Regulamentos Gerais. O material já está todo preparado e, em parte, organizado. Falta a fase final de esclarecimentos e aprovação definitiva.

Como verificareis, quando vos chegarem às mãos, as Constituições, de acordo com as normas da Ecclesiae Sanctae, serão ricas de conteúdo ascético, teológico e bíblico. Não serão, pois, normas desencarnadas de vida religiosa, mas oferecerão motivações profundas das normas para uma vida consagrada mais consciente e convicta.

É bom lembrar também que as novas Constituições serão impregnadas de salesianidade. Dom Bosco estará sempre e expressamente presente nelas. Assim poderemos ter a garantia de que, bem longe de nos afastarem de nosso Pai, prendem- nos mais intimamente a Ele e à Congregação, como o Espírito lhe inspirou e como a encaminhou com a visível ajuda de N. S. Auxiliadora.

Podemos afirmar ainda que as Constituições que brotarão do Capítulo Especial, enquanto atuam as diretrizes da Igreja em correspondência com as novas exigências, serão também imbuídas do espírito de santidade salesiana, à qual o nosso Pai e, na mesma linha, seus Sucessores, sempre animaram os membros da Congregação. As novas Constituições, de fato, visam, e podereis verificar, em forma e com modos adequados aos tempos, a levar e ajudar o Salesiano a viver no dia de hoje a sua vocação mais intensamente e com mais profunda consciência. Por isso, toda a matéria e conteúdo são os das Constituições que tínhamos, mas apresentadas na maneira correspondente às exigências que a Igreja nos indicou.

 

O nosso compromisso frente às Constituições

Alguém poderá ter desilusão, não encontrando ou nas Constituições ou nos Documentos tudo o que pessoalmente desejara. É óbvio, di-lo o mesmo bom senso, que uma legislação, fruto de trabalho e síntese colegiada, não pode acolher todas as instâncias de todas as pessoas. O Capítulo Especial, pelo mandato e com a autoridade que lhe advém da Igreja e da mesma Congregação, após longo e nem sempre fácil estudo, depois de muita oração, sempre com os olhos voltados para Dom Bosco, nos oferecerá as conclusões concretas, entregando sua atuação e prática à nossa boa vontade.

O que nos cabe, portanto, é aceitar essas conclusões não só com docilidade, mas também com fervorosa devoção, para levá-las à prática em nossa vida. Parece-me poder dizer que esse é o único modo de manifestar, neste momento delicado da nossa história, o apego pessoal e construtivo que temos a Dom Bosco e à nossa bem-amada Congregação. Qualquer outra atitude, como quer que se quisesse justificá-la, não seria senão negativa e, bem longe de contribuir para a verdadeira renovação da Congregação, só lhe criaria obstáculos prejudiciais.

 

Como os Salesianos das origens

Mas é tempo de concluir.

Em 1874 o nosso Pai viera a Roma para obter a aprovação das Constituições da Congregação. Em Valdocco os nossos irmãos esperavam, com vivíssima ansiedade e fervorosas orações, a volta de Dom Bosco com a desejadíssima notícia. Qual era então a atitude daqueles primeiros Salesianos? Podemos colhê-la nas Memórias Biográficas. Resumindo, o “animus” dos Irmãos de Valdocco era este: “Venham as Constituições aprovadas pela Santa Sé, seremos felizes em praticá-las, elas nos indicarão os caminhos seguros para seguir a nossa vocação salesiana”.

Algo semelhante repete-se hoje na Congregação, limitada não só a Valdocco, mas presente, por pouco que seja, em todo o mundo. A um século de distância, a Igreja, pelo órgão legislativo previsto por Dom Bosco, o Capítulo Geral, prepara-se para nos dar os instrumentos com que infundir nova vida à Congregação. Entre esses os mais essenciais são de certo modo as Constituições e os Regulamentos. Como os nossos irmãos dos primeiros tempos se sentiram felizes e prontos com entusiasmo para aceitarem as primeiras Constituições, assim também nós, Salesianos desta época cheia de dificuldades, mas rica de forças vivas e estupendas possibilidades para a missão que temos, disponhamo-nos para aceitar com alegria todas as conclusões do Capítulo Especial, em primeiro lugar as Constituições, com decidida vontade de as praticarmos. Procuremos compenetrar-nos do espírito renovador em fiel harmonia com os postulados da nossa vocação salesiana.

Será esse o sinal certo não somente da fidelidade, mas ao mesmo tempo do amor verdadeiro ao nosso Pai, cujas palavras deixadas para nós em testamento não podemos esquecer: “Se me amastes no passado, continuai a amar-me no futuro com a exata observância das nossas Constituições”.

 

Intensifiquemos a oração

Sei que rezais muito pelo Capítulo e muito vos agradeço em nome também  de todos os Capitulares. Posso acrescentar ainda que vários Irmãos ofereceram a própria vida pelo feliz êxito do nosso Capítulo. Também as Filhas de Maria Auxiliadora, como as Voluntárias de Dom Bosco e os Cooperadores nos confortam com suas orações, para não falar de muitas almas boas que espiritualmente se acham perto de nós.

Enquanto renovo a todos o mais sentido obrigado, convido-vos ainda a nos mantermos unidos, intensificando a oração cheia de confiança, nesta fase tão importante e delicada dos trabalhos capitulares. Invocai conosco a Virgem Auxiliadora especialmente com a reza do Rosário. O centenário de Lepanto pode ser válida lembrança. Sentimos grande necessidade da luz do alto, principalmente em certos momentos. Ajudai-nos.

Continuai, entretanto, vossos trabalhos nas respectivas Inspetorias, enriquecendo- as com a fidelidade generosa à vossa consagração, com a caridade fraterna que dá alma à comunidade de que fazeis parte. Destarte vossa ação será cada vez mais apostólica e fecunda de bem para as almas.

Lembrai-vos também dos nossos queridos irmãos falecidos: o mês de novembro é um apelo eficaz à essa lembrança.

A todos e a cada um de vós, com minha afetuosa saudação, apresento a dos Capitulares, e de modo particular dos vossos Inspetores e Delegados.

Sintamo-nos nestes momentos mais do que nunca solidários entre nós e concretizemos esta comunhão salesianamente fraterna no sacrifício eucarístico cotidiano.

 

O Centenário das Filhas de Maria Auxiliadora

Antes de terminar esta carta com que me entretive convosco sobre o nosso  Capítulo Geral Especial, desejo dizer-vos, embora brevemente, uma palavra que é de dever sobre a ocorrência centenária que o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora está para celebrar em 1972. Recebi da Rev.ma Madre-Geral uma comunicação a respeito, com um esquema de programa assaz interessante e prático.

A ocorrência, que podemos com razão chamar de família, interessa também a nós, que nos sentimos profundamente unidos na mesma filiação, no mesmo Espírito e na colaboração fraterna, que já foi tão válida até agora e se tornará certamente mais intensa em futuro próximo, respeitando sempre a mútua autonomia.

Por tudo isso, enquanto vos convido desde já a dardes, onde ocorrer, vossa eficiente colaboração nas várias celebrações, estou certo de que juntamente comigo estareis unidos ao Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora na oração e ação de graças a Nosso Senhor pelo bem realizado nestes cem anos passados, e nos votos ardentes para que o novo século de vida veja a segunda família de Dom Bosco renovada na fidelidade ao nosso Pai comum, desdobrar-se com generosidade e coragem salesiana para a atuação de sua missão específica, hoje mais urgente ainda do que no passado.

Renovo ainda saudações a todos e a cada um de vós. Af.mo

Padre Luís Ricceri
Reitor-Mor

 

O SUPERIOR A SERVIÇO DA CONGREGAÇÃO

Padre Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 266

Os irmãos escrevem. – A atitude do verdadeiro filho de Dom Bosco. – Os Superiores eleitos pelo Capítulo XX. – Estamos todos a serviço da Congregação. – Amar os Irmãos, primeira tarefa do Superior. – Servir ao bem da Comunidade. – Irmãos e Superiores em comunhão. – O Superior agente de unidade na Congregação. – A vontade divina ponto de encontro entre Superiores e Irmãos. – A autoridade é a proteção da liberdade. – Os Superiores responsáveis pela renovação.

Turim, 15 de março de 1972

Irmãos e Filhos caríssimos,

à distância de pouco mais de dois meses da conclusão do nosso Capítulo Geral Especial, tenho o prazer de retomar os nossos encontros, para entreter-nos através destas páginas sobre assuntos que interessam a todos os membros da nossa família, alimentando a unidade, que representa sua energia fundamental.

Acredito que já chegaram a todas as Inspetorias, ao menos na edição oficial italiana, tanto as Constituições renovadas com os relativos Regulamentos Gerais, quanto os “Atos do Capítulo Geral Especial”.

Sei que em muitas Inspetorias já estão distribuindo as traduções e cada irmão e cada comunidade vão tomando conhecimento com muito interesse de todo esse rico material; estou também informado de que um pouco em toda parte se trabalha com empenho para a preparação dos Capítulos Inspetoriais.

Estamos convencidos de que em virtude da nova tarefa que lhe foi dada, este Capítulo tem suma importância: à sua ação está de fato ligada a atuação concreta da renovação das comunidades tanto locais como inspetoriais. Não estou, pois, a repetir quanto já disse na introdução aos Atos do Capítulo Geral Especial. Convido-vos apenas a terdes bem presente o conteúdo daquelas páginas.

 

Escrevem os Irmãos

Quanto às Constituições e aos Atos, já recebo não poucas cartas em que irmãos jovens, de meia-idade e avançados em anos de vários continentes me exprimem suas impressões depois de terem tomado conhecimento deles. Cito trechos dessas cartas que me parecem resumir os sentimentos que me foram manifestados por muitos.

“A leitura completa e atenta das Constituições renovadas leva-me a escrever para dizer-lhe o quanto me parecem belas e de acordo com as expectativas mais profundas e mais vivas dos irmãos. O Capítulo Geral teve em nível de crônica os seus momentos difíceis e suas tensões; e era natural que assim fosse. Mas o fruto mais esperado que ele deu e para o qual, sem dúvida, contribuíram todas as dificuldades e essas discussões, está acima dos eventuais ‘desencontros’. Parece-me, na verdade, que Dom Bosco tenha colocado sua mão e guiado as coisas a bom termo. Termo que na realidade é apenas um ponto de partida para a esperada renovação, em vista da qual cumpre agora a todos arregaçar as mangas”.

E eis o que escreve um jovem sacerdote: “Encontrei-me diante de riqueza tão maravilhosa que exclamei: Hic digitus Dei e renovou-se espontânea em mim a alegria da minha profissão... reacendeu-se em mim o entusiasmo por Dom Bosco vivo, palpitante... renovaram-se também em mim os compromissos de fidelidade e de trabalho. É extraordinariamente belo pensar que na Congregação há lugar para todos os homens de boa vontade, que deveras querem amar a Deus no serviço dos irmãos... Bendigo a Providência que me fez saborear este renascimento da nossa Congregação e lhe afianço e prometo que, a partir de hoje, começa para mim o tempo de ‘trabalhar, atuar, executar’ no dever e na alegria de ser Salesiano...”.

Neste espírito, com vontade de adesão consciente e fidelidade à renovação da Congregação, irmãos e comunidades quiseram renovar sua consagração de acordo com a nova fórmula contida nas Constituições: é este o caminho para sentir-se filho de Dom Bosco hoje.

 

A atitude do verdadeiro filho de Dom Bosco

Não ignoro que aqui e ali haja quem, embora partindo de motivos opostos, tome um idêntico comportamento crítico, antes, negativo, diante das conclusões do  Capítulo Geral. Não estou a repetir quanto disse e escrevi a propósito, especialmente apresentando as Constituições e os “Atos”. Remeto-vos a uma leitura atenta daquelas páginas.

Creio ser oportuno realçar aqui dois aspectos em relação a tais comportamentos e especialmente às suas motivações opostas.

Antes de mais nada, para quem crê encontrar-se diante de “coisas totalmente diversas” das que professou, convém recordar que as Constituições têm sempre reconhecido no Capítulo Geral a faculdade de mudar os artigos, sempre, porém, no espírito das mesmas (art. 125 das Constituições de 1966). É o que fez o recente Capítulo, também em obediência às claras normas da Igreja.

É necessário convencer-nos de que para ser deveras bons Salesianos é preciso que nos coloquemos na linha do Capítulo, se não quisermos cometer o mesmo erro daqueles que se dizem católicos, mas contestam o Papa e o Concílio por certas normas e mudanças que não correspondem aos seus pontos de vista. Em última análise, colocam-se intimamente de acordo com os que, do outro lado, recusam reconhecer a legítima autoridade.

Estes últimos sentem-se desiludidos nas suas expectativas, visto que as  deliberações do Capítulo Geral não seriam, segundo o seu parecer, suficientemente avançadas. A eles, gostaria de relembrar como em qualquer sociedade, quando o supremo órgão representativo e legislativo, como é o caso do nosso Capítulo Geral, depois de longos estudos, debates, etc. tomou deliberações, todos os que pertencem a essa sociedade são obrigados a aceitá-las e observá-las: trata-se de um fato óbvio e de bom senso social.

Estas observações baseiam-se exclusivamente em argumentos essencialmente humanos. Coisa bem diversa poder-se-ia dizer no plano religioso salesiano. Parece-me que o comportamento do verdadeiro filho de Dom Bosco neste momento não pode  ser senão de aceitação sincera e concreta do Capítulo Geral Especial. Enquanto, porém, vos convido a tomardes clara consciência dos empenhos a que a Renovação querida por ele vos chama, parece-me ser minha obrigação recordar que o Capítulo antes de mais nada exige de modo inequívoco que cada um de nós reaja e — se for o caso — liberte-se resolutamente de toda forma de cedimento na sua vida de consagrado e de apóstolo. Se isso não acontecesse, como se poderia falar seriamente de renovação da Congregação? A renovação, se não se quiser reduzi-la a simples fatores técnicos, exteriores, exige de cada um e, portanto, das comunidades, uma vida e uma conduta de coerência linear tal que, excluindo decididamente toda concessão ao cedimento, seja diante de todos testemunho autêntico de fidelidade à própria vocação.

Como aludia acima, em todas as Inspetorias anima-se o trabalho de aprofundamento dos Documentos Capitulares. As Constituições renovadas são entregues com funções comunitárias apropriadas e preparam-se intensamente os Capítulos Inspetoriais. Eis a maneira eficaz para tornar fecundo o ingente trabalho do Capítulo. Cada um, seja qual for a sua posição de responsabilidade, esteja ativamente presente em toda essa animada ação, em primeiro lugar com o estudo atento dos Documentos Capitulares e em seguida promovendo em si e nos outros o processo de assimilação, principalmente do espírito de que estão imbuídos, que é premissa necessária para a sua atuação integral, que deve dar às nossas comunidades uma feição e, antes ainda, um estilo de vida religiosa e salesianamente renovada.

 

Os Superiores eleitos pelo XX Capítulo

A finalidade, também, desta minha carta é, entre outras coisas, o cumprimento de um dever até agora não realizado: comunicar oficialmente o nome dos Superiores eleitos no XX Capítulo. É verdade que pelos noticiários e outras comunicações, já  fostes informados dos resultados das eleições, mas não houve a comunicação requerida pelo artigo 121 dos Regulamentos Gerais.

Eis pois os nomes dos eleitos com os respetivos encargos:

  1. Gaetano Scrivo, Vigário.
  2. Egidio Viganò, Conselheiro para a Formação.
  3. Rosálio Castillo, Conselheiro para a Pastoral Juvenil.
  4. Giovanni Raineri, Conselheiro para a Pastoral dos Adultos.
  5. Bernard Tohill, Conselheiro para as Missões.
  6. Ruggero Pilla, Ecônomo Geral.
  7. Luigi Fiora, Conselheiro Regional para a Itália e Oriente Médio.
  8. José Gottardi, Conselheiro Regional para a Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai.1
  9. José Henriquez, Conselheiro Regional para as Antilhas, Bolívia, América Central, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru, Venezuela.
  10. Antonio Melida, Conselheiro Regional para Portugal e Espanha.
  11. Johannes Ter Schure, Conselheiro Regional para a África Central, Áustria, Bélgica, França, Alemanha, Iugoslávia, Holanda.
  12. George Williams, Conselheiro Regional para a Austrália, China, Filipinas, Japão, Índia, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, Tailândia.

Para a Polônia, como sabeis, o Reitor-Mor providenciará o quanto antes possível.

1 Cf. nota no fim desta carta.

 

Estamos todos a serviço da Congregação

Deveria agora falar de mim..., mas prefiro dispensar-me disso.

Sabeis como andaram as coisas. Permaneci carregando esta cruz porque me pareceu ver na vontade expressa pelas capitulares a vontade do Senhor que, não obstante todas as minhas deficiências me convidava a continuar servindo à minha querida Congregação e a todos vós e, portanto, à Igreja.

Não me parece supérfluo repetir-vos quanto eu dizia aos capitulares: “não me deixeis sozinho!”. Continuai, pois, a ajudar-me com a vossa oração, confortai-me com a vossa cordial colaboração, com a vossa afetuosa compreensão.

Os problemas que se nos apresentam dia a dia são inúmeros e não raro estão longe de serem simples.

Superiores e Irmãos temos todos os mesmos interesses e ideais: sintamos, pois, como dirigida a nós a palavra que nosso Pai repetia aos nossos primeiros irmãos: vivei, trabalhai in unum! A nossa comunhão nos fará superar tantas dificuldades. De minha parte confirmo-vos que todas as minhas forças são e serão dedicadas ao serviço da Congregação, de cada um de vós: sentir-me-ei feliz toda vez que puder dar a um Irmão uma ajuda, um conforto.

Também os outros Superiores estão perfeitamente solidários comigo, dentro dessa linha. Convencidos de que somos responsáveis pela realização da renovação querida pelo Capítulo para a Congregação, entendemos exercer o mandato a nós confiado, no espírito e no estilo que nos é claramente indicado pelas Constituições e por todos os Documentos do Capítulo Geral.

A respeito disso, há artigos das Constituições (por exemplo os artigos 93, 125, 126, 127, mas não só estes), que todos devemos aprofundar e meditar quer tenhamos sido chamados a prestar o serviço da autoridade, quer devamos colaborar com ela para o bom andamento da Comunidade.

 

Amar os Irmãos, primeiro dever do Superior

Agora permiti-me dizer uma palavra àqueles que têm a responsabilidade de servir no exercício da autoridade estendendo obviamente, pela natureza mesma das coisas, o discurso aos outros Irmãos.

Amar os Irmãos, parece-me ser o primeiro dever do Superior. O art. 125 das Constituições diz que o seu “serviço” tem por finalidade promover a caridade entre os irmãos. Tal dever, é claro, supõe que ele dê antes de tudo o exemplo: ame os Irmãos, e os ame tais como são, até com os seus defeitos. Para que tal amor como Dom Bosco nos ensina, seja eficaz deve ser manifestado concretamente; é preciso fazê-lo sentir ao Irmão, que permanece sempre homem, com sua insuprimível sensibilidade humana, com um coração que precisa sentir-se amado. Não é necessário que o superior busque ocasiões para exprimir seu amor ao Irmão; pode-se dizer que elas nos são oferecidas a cada instante da vida comunitária: basta captá-las. Neste clima, também a correção, que é outrossim um serviço sempre obrigatório movido e animado pelo amor, será de mais bom-grado aceita, tornando-se mais eficaz.

E com o amor o Superior demonstrará a estima e a confiança nos Irmãos. Dom Bosco, lembrado no Documento 12 dos Atos Capitulares, também nisso é mestre para nós. Confiando, obtinha de homens, nem sempre superdotados, um rendimento incrivelmente elevado e uma dedicação sem limites.

É preciso, porém, recordar que à confiança da parte do Superior deve corresponder a sinceridade e a fidelidade da parte dos irmãos. Como pode pretender continuar gozando da mesma confiança o homem que esbanja e desfruta, para seus interesses pessoais, o patrimônio que se lhe confiou para administrar e fazer frutificar?

Enfim, não se pode esquecer que a autoridade se recebe e exerce para servir ao bem dos irmãos, não às suas fraquezas ou infidelidades. Caridade, humildade, compreensão devem animar sempre quem exerce a autoridade em qualquer nível; mas tudo isso não deve ser de modo algum confundido com formas de abdicação da autoridade para seguir servilmente àqueles a quem, ao invés, a autoridade é chamada a guiar. O silêncio, o deixar correr de qualquer maneira, diante de abusos evidentes, arbítrios e erros, seria na verdade, uma conivência. Isso poderia talvez criar no mo- mento certo clima de popularidade e certo número de aprovações ao redor de quem exerce a autoridade, mas a que preço para os verdadeiros interesses da comunidade! A experiência ensina que os frutos amargos de tais abdicações não se fazem esperar.

 

Servir ao bem da Comunidade

O art. 54 das Constituições renovadas apresenta uma síntese verdadeiramente feliz dos deveres que competem ao Superior para “servir” à comunidade no espírito evangélico, conciliar e salesiano.

Remetendo-vos à leitura meditada desse artigo, agrada-me colocar aqui em relevo algumas linhas essenciais que nele sobressaem.

“O primeiro dever do Superior diz respeito à comunidade como tal”. É um conceito que foi repetidamente acentuado durante o Capítulo. O Superior de per si não é o grande organizador, não é o perito em técnicas, em escolas, não é o hábil administrador ou o genial construtor: o Superior é colocado pela Congregação como cabeça daquela comunidade para que seja em primeiro lugar o seu Pastor. A lista não breve de seus deveres, contida no art. 54, tanto em relação ao indivíduo, como à comunidade, é a prova dessa vontade da Congregação, vontade que corresponde a uma absoluta necessidade. De todos esses “deveres” gostaria de evidenciar aquele  que se costuma chamar de “magistério” do Superior.

A Constituições (art. 54) o definem “mestre e guia espiritual”, por isso “orienta e estimula as consciências na fidelidade à Regra”. Mas, como poderia sê-lo para cada um e para a comunidade, hoje especialmente, se não exercita esse magistério que é um dos aspectos mais importantes do exercício da autoridade? Como poderia “ajudar os irmãos a realizarem melhor sua vocação pessoal” (art. 54) se os privasse desse insubstituível e precioso serviço?

É óbvio que o superior para dar conta desse dever tem necessidade de uma assídua e sistemática atualização pessoal através de um contato sério e profundo com aquela literatura religiosa, espiritual, salesiana, ao menos essencial, que não pode faltar em nenhuma comunidade.

É supérfluo dizer que tal atualização não se dará haurindo de certas cisternas que dão somente águas amargas, mas indo às fontes puras que promanam direta ou indiretamente do magistério eclesiástico ou salesiano.

Não sei como pode sentir-se verdadeiramente a serviço da renovação da comunidade um Superior que não esteja seguindo este caminho.

É supérfluo dizer depois que a obra do magistério seria vã se não se apoiasse sobre a vida, sobre o ser, sobre o exemplo do Superior: o Pastor (e o Superior é sempre Pastor em relação aos seus Irmãos) não pode limitar-se a indicar o caminho, mas abre- o precedendo suas ovelhas.

No art. 54, ainda, sempre a respeito do serviço que o Superior é chamado a prestar à sua comunidade, encontramos um período que deve ser muito meditado: o Superior “é o centro da comunidade: irmão entre irmãos, que coordena os esforços de todos, tendo em vista os direitos, deveres e capacidades de cada um”.

Não se trata, portanto, de simples coordenação, de organização de trabalho, mas, de algo mais profundo e precioso. Foi escrito: “sem a unidade não se pode pensar em servir a Cristo de modo corajoso e total”. E o Superior tem o difícil, mas maravilhoso mandato de suscitar a unidade, a comunhão, que afundando as suas raízes na caridade, destrói os efeitos do individualismo que desagrega, tão fácil de renascer no homem, e que paralisa a marcha da comunidade.

 

Irmãos e Superiores em comunhão

Esta comunhão, se exige da parte do Superior um trabalho constantemente animado de espírito sobrenatural, tecido de paciência, de humildade, de discrição, exige também que cada Irmão, no seu relacionamento com o Superior, se ponha em um plano sobrenatural, com uma serena e objetiva visão e valorização das coisas. A atitude hostil, de oposição ou até mesmo de reinvindicação, o desejo de impor como o melhor o próprio ponto de vista, fazer pouco caso das correções e diretrizes do Superior, todas estas coisas são armas, infelizmente por demais eficazes para dividir aquilo que deve estar unido, para desagregar em lugar de construir.

Um dos meios mais eficazes para construir e alimentar a unidade é valorizar cada um dos Irmãos, considerando-os como irmãos adultos. Outro meio é interrogar com frequência o Conselho e levar em conta o seu aparecer, sem ficar preocupado se existe desacordo; ao Superior compete fazer síntese de tudo e pôr em prática as decisões oportunas; um terceiro meio é informar e interessar devidamente a comunidade sobre tantos problemas que em de contas pertencem a todos os irmãos e que não podem ser “campo reservado”. Deste modo é que se cria a corresponsabilidade e com ela a comunhão, fonte daquela paz que é harmonia, ordem e serenidade. De fato, é no exercício dessa corresponsabilidade que os Irmãos encontram campo de preparação para o exercício bem entendido da autoridade.

É claro que não diz respeito apenas ao Superior, mas a todos os membros da comunidade, contribuir para criar esse clima. Estes, como Irmãos adultos e consagrados, compreendem o difícil encargo que o Senhor confiou ao Superior, com as dificuldades e as angústias que quase sempre este cargo traz consigo; suportam as suas possíveis fraquezas; numa palavra, amam-no não tanto por seus dotes humanos, o que poderia facilmente trazer consequências negativas, mas, em primeiro lugar, pelo “sacramento” de que é portador na comunidade.

Não é segredo que hoje muitos encontram dificuldades frequentemente insuperáveis para aceitar o exercício da autoridade, enquanto outros procuraram livrar-se deste peso. Tal situação convida a todos nós meditarmos um pouco.

Por um lado, não se pode “desertar” do posto de responsabilidade a que o Senhor chama, embora através de meios humanos, pelo simples fato de que o serviço da auto- ridade vive hoje cheio de dificuldades. Por outro lado, sobretudo por isso, todo Salesiano deve sentir-se particularmente obrigado em espírito de fraternidade e amor a tornar fácil o dever às vezes verdadeiramente espinhoso e pesado que o Superior deve desempenhar na comunidade.

 

O Superior como fautor de unidade na Congregação

A respeito da unidade é preciso ainda dizer que ela não se refere só à comunidade local, ou mesmo inspetorial, mas a toda a Congregação.

No artigo 56 das Constituições lê-se que todos nós somos partes vivas da comunidade mundial que é a Congregação, participando da “comunhão de espírito, de testemunho e de serviço que a Congregação oferece à Igreja”. Tal comunhão é incrementada “pela solidariedade, pela comunicação e informação, pela unidade e união com o Reitor-Mor e o seu Conselho”.

É uma grande realidade que deve ser vivida por todos os membros da Congregação: não pode permanecer apenas como simples afirmação. Pois bem, aqueles que nas comunidades inspetoriais e locais exercem em qualquer posto a autoridade são com certeza os primeiros e os mais diretamente responsáveis desta comunhão que se torna operante através das quatro grandes forças: a solidariedade, a comunhão, a informação, o entrosamento, que nos permitem gozar das riquezas e da fecundidade apostólica dessa comunidade, que por ser tão vasta, não deixa de ser igualmente real.

Isto se fará tanto mais intensamente quanto se deverá atuar o princípio de subsidiariedade e de descentralização: princípio que confiando novas responsabilidades às comunidades inspetoriais e locais e aos respectivos Superiores, os engaja seriamente numa dupla frente. De um lado, diante dos novos deveres, se devem evitar vazios e desvios de poder que seriam sem mais gravemente prejudiciais, mesmo ao bem da respectiva comunidade. De outro lado, a subsidiariedade e a descentralização exigem, para o equilíbrio e a harmonia da comunidade inspetorial e mundial, real e viva, que todos os que exercem a autoridade em qualquer nível cooperem na construção daquela ponte ideal que torna concretamente operante e fecunda a solidariedade, a comunicação, a informação e o entrosamento. Tal ação é  de vital importância neste momento de evolução, no enquadramento e no estilo de toda a nossa vida comunitária.

É fácil compreender que papel insubstituível têm em toda esta ação todos os que exercem autoridade. Tenho toda a confiança que, bem conscientes de tal responsabilidade, eles não decepcionarão tal confiança, mas serão os promotores e os animadores de toda ação que sirva para dar alimento e fundamento à unidade na Congregação.

 

A vontade divina ponto de encontro entre os Superiores e os Irmãos'

As palavras ditas aos Superiores mostrando-lhes suas responsabilidades levam naturalmente à reflexão sobre a relação entre autoridade e obediência. O Documento 12 sobre a obediência, segundo a melhor doutrina eclesial e conciliar e seguindo a linha da tradição e do ensino do nosso Pai, ilumina o nosso argumento e consegue sintonizar dois valores que hoje, com uma visão muito unilateral das coisas, se procura pôr em contraste.

Bem sei que o falar hoje de autoridade é impopular e exige coragem, mas agrada- me pensar que nenhum de nós quererá alienar-se num conformismo que, segundo a expressão de Maritain, geralmente é fruto de uma “inteligência ordinária”, mas pelo contrário preferirá colher com objetividade serena e aberta, ideias, considerações e colocações que iluminam o problema.

Não pretendo, pois, apresentar-me aqui como advogado da autoridade, mas desejo somente apresentar-vos alguns elementos de útil reflexão sobre o assunto, seguindo a linha da renovação bem-entendida, empreendida pelo nosso Capítulo Geral Especial.

Começamos dizendo que, segundo algumas constatações profundas do Padre De Lubac, “a oposição entre autoridade e liberdade, autoridade e obediência, como a oposição entre carisma e instituição, unidade e pluralismo etc., mais que um pensamento crítico, revela um modo de pensar por reação, por ressentimento, poder- se-ia dizer, por preconceito, devido a certa paixão, ainda que não advertida. Principal- mente nas coisas da vida espiritual, quando se esvazia a realidade, caricatura-se um dos termos com o fim de livrar-se dele: neste caso, até o termo que se quer conservar e engrandecer fica inevitavelmente mal-entendido”. Mas devemos recordar que “toda a vida é síntese. A vida do mistério cristão é síntese por excelência. Ela é sempre um equilíbrio de plenitude”.

Na realidade, precisamente por causa dessa síntese e plenitude de equilíbrio, tanto o Superior como o simples irmão se descobrem na obediência à vontade de Deus à qual ambos são chamados. Não teria sentido nos lábios de um Superior, hoje especialmente, o “quem manda aqui sou eu”. Não, a autoridade é exercício de obediência e não de poder. Somente Deus é quem manda! Súbdito e Superior, ambos obedecem à vontade de Deus: o Superior obedece procurando conhecê-la para poder manifestá-la ao súbdito, de acordo com o encargo que lhe foi confiado. Por isso fará calar-se a própria vontade.

O súbdito a aceitará através dessa mediação, que precisamente por ser tal, deve ser purificada de qualquer forma de egoísmo: deve ser exercida com humildade sincera, e, por ser então expressão da vontade de Deus, que é amor, será sempre animada e revestida de caridade fraterna.

Mas, se esta pureza cristalina de espírito e de intenção é  requerida no Superior para desempenhar o tremendo encargo de interpretar e ser o mediador da vontade de Deus junto do Irmão, este tem o dever não menos grave de não impedir ou substituir, com expedientes sugeridos por um mesquinho egoísmo, embora camuflado por motivações sugestivas, a vontade de Deus pela sua. Este é um perigo que especialmente hoje, pode levar a enganos portadores de consequências totalmente negativas.

 

A autoridade é a proteção da liberdade

Aqui se insere todo o arrazoado sobre o diálogo em relação à obediência, diálogo que deve encontrar, em seus dois protagonistas, almas que intentam conhecer com sincera humildade e concretamente o que o Senhor quer, não já para o bem exclusivo do indivíduo, mas, em relação e a respeito da comunidade em que o indivíduo, conscientemente integrado, é célula viva.

“Obedeçamos ambos, encorajemo-nos mutuamente, e avante!” Eis a palavra sábia e construtiva que a autoridade, cada autoridade em sua atuação, deve dizer ao Irmão, seja ele quem for.

Mas, olhando bem, a oposição à autoridade tem dupla explicação. De um lado o respeito à pessoa, à participação e à corresponsabilidade, hoje particularmente sentido, mas sujeito também a fáceis deformações. De outro lado o conjunto de erros e infelizmente também de abusos que pessoas investidas de autoridade cometeram, e que talvez ainda cometam agora no exercício da mesma. Não podemos fechar os olhos diante dessas realidades: elas nos convidam a um sério exame de consciência. Devemos porém reconhecer que muitas vezes tal posição provém da confusão entre autoridade e autoritarismo, que é deformação da mesma. Em poucas palavras, o autoritarismo é identificado com a autoridade, daí as invectivas contra ela. Seria o mesmo que combater a justiça porque existem juízes corruptos, ou a medicina porque existem médicos ignorantes, negligentes, etc.

Mas quais são as consequências da oposição à autoridade (não ao autoritarismo), manifestada nas mais variadas formas, da crítica áspera e violenta à contestação, à desobediência e à rebelião?

Um sociólogo de Berkeley, Thomas Farber, a propósito da contestação juvenil americana, que parece denotar certo cansaço, pronunciou recentemente estas pesadas palavras: “A morte da autoridade criou a maldição da incerteza”. Em seguida acrescenta mais explicitamente: “Sem normas não há modos de dizer ‘não’ e, pior ainda, nenhum modo de dizer ‘sim’”. O que significa, em palavras pobres, algo como a paralisia de uma sociedade.

De resto, cada um no âmbito da sua pequena ou grande experiência terá podido constatar como em qualquer ambiente, incluído o religioso, a ausência de uma autoridade operante leva automaticamente ao arbítrio, ao abuso que prejudica normas fundamentais de convivência e colaboração, à violação da liberdade daqueles que querem ser coerentes com os empenhos de uma ordem ou de uma vocação. Leva também à mortificação, ao desequilíbrio e à desorganização das forças comunitárias, que, pelo contrário devidamente guiadas e harmonizadas pela autoridade, respeitando as competências individuais, seriam construtivas e produtivas para o bem comum. Quanta razão devemos dar a Chesterton quando afirma que “a autoridade é a proteção da liberdade”.

Se não quisermos ser indulgentes com certas atitudes conformistas do momento, deveremos reconhecer, conforme a expressão de Maritain, que autoridade e liberdade de per si “são irmãs gêmeas e que uma não pode dispensar a outra”.

A autoridade, portanto, não de algum modo deformada, mas, entendida, interpretada e praticada conforme os ensinamentos conciliares em cuja pista movimentou-se nosso Capítulo com as suas claras diretrizes — devemos reconhecê-lo

— é não só necessária, mas fonte de bem para todos.

A autoridade, para usar uma palavra tão frequente depois do Concílio — mesmo fora da Igreja, com o risco de se tornar um lugar comum — é um “serviço” insubstituível à comunidade, a todas as comunidades.

Disse “serviço”, e espero que o significado rico e profundo desta palavra não seja de modo algum distorcido e esvaziado. Trata-se de um serviço que tem como raiz e finalidade a fé e a caridade; por isso, quem exerce a autoridade consagra-se ao bem dos irmãos. É um conceito que nos foi ensinado pelo Evangelho, pessoalmente por Cristo e com que nobreza! Podemos acrescentar, que nosso Pai Dom Bosco  interpretou com extrema fidelidade esse ensinamento e exemplo evangélicos.

 

OS Superiores responsáveis pela renovação

Concluamos. Na linha de quanto até aqui vos disse, cada qual, ampliando o horizonte, pode ver a parte que cabe aos superiores na atuação capilar de todas as diretrizes e normas do Capítulo Geral XX.

Mais de uma vez, mesmo durante os debates capitulares, ouvimos dizer que o Capítulo Geral XIX com todas as suas deliberações corajosas e positivas havia ficado  em grande parte só no papel ou era interpretado muitas vezes de maneira distorcida. Se, como parece, há algo de verdadeiro nessa afirmação, aquilo que aconteceu deve ser uma advertência para todos os Salesianos, mas especialmente para os Superiores, tanto no centro como nas Inspetorias e em cada uma das comunidades. A renovação se tornará uma realidade se antes de tudo os que têm a responsabilidade de governo forem os seus propulsores convictos e metódicos. Certa frieza, uma atitude passiva ou quase de desconfiança será prejudicial. Por isso, repito, é necessário antes de tudo  que os Superiores, antes mesmo dos demais Salesianos, estejam impregnados através de um diligente estudo, do todo o espírito que anima os Documentos Capitulares.

Todos devemos fazê-lo, e o faremos com solicitude, decisão, confiança e especialmente com sincero amor à Congregação, que precisa desta transfusão de sangue jovem, deste ar que, na fidelidade ao nosso Pai, a renove, imprimindo nela o arrojo das origens para as necessidades dos novos tempos.

Caríssimos Irmãos, eu vos escrevi in sinceritate cordis, algumas reflexões que me vieram à mente no início das atividades do novo Conselho Superior, depois do grande acontecimento do Capítulo Especial.

A acolhida cordial que a elas derdes será uma contribuição eficaz à obra da Renovação para a qual todos somos chamados a ser, no Pós-Capítulo, artífices convictos e fervorosamente operosos.

Desde já um bom trabalho, ombro a ombro, com a bênção de nossa Mãe Auxiliadora, e em nome de Dom Bosco.

Padre Luís Ricceri
Reitor-Mor

 

Nota Importante: O PADRE JOSÉ GOTTARDI encontrava-se há poucos dias em Turim e iniciara a sua atividade no Conselho Superior quando foi publicada a notícia de sua nomeação para Bispo Auxiliar de Mercedes, (Uruguai).

De conformidade com o art. 147 das Constituições deveu-se providenciar o seu substituto. O novo Conselheiro Regional para a zona Atlântica é o Sr. Padre Juan Vecchi, delegado da Inspetoria da Bahia Bianca ao Capítulo Geral Especial.

Ao novo Bispo chamado a assumir a importante e delicada missão de Pastor e ao Pe. Vecchi, que será nosso colaborador no serviço à Congregação, nossas felicitações e a nossa oração.

 

AS MISSÕES, CAMINHO DA RENOVAÇÃO

Padre Luís Ricceri
Atos do Conselho Superior 267

O afastamento de Turim. – Motivos da transferência a Roma. – Em audiência com o Papa. – Com Dom Bosco e, por isso, com o Papa. – Duas notícias animadoras. – As missões, caminho para a renovação. – A vocação missionária de Dom Bosco. – A atividade missionária como mandato de Cristo. – As mis- sões, lugar privilegiado da ação missionária. – O espírito missionário é essencial para a renovação. – O apelo do Concílio. – Sugestões para o relançamento missionário. – Uma objeção: falta pessoal. – Ou- tras formas de trabalho missionário. – Os tempos exigem uma “nova história”.

Roma, 1º de julho de 1972

Irmãos e filhos caríssimos,

Devo confessar-vos que assinando esta minha carta, datando-a de Roma, invade-me viva e profunda comoção. Compreendereis sem mais o motivo. Com a transferência da Direção Geral, de Turim para Roma, encerrou-se um período — e que período! — da nossa história. Turim viu os primeiros e arrojados empreendimentos de Dom Bosco, em prol dos meninos pobres e necessitados. Em Turim, a Congregação nasceu e cres- ceu, vencendo obstáculos e dificuldades de toda espécie. Desde Turim Dom Bosco e a Congregação tomaram o caminho de admirável expansão através dos vários continen- tes, que só pode explicar a santidade e os carismas extraordinários do nosso Pai.

Valdocco, com a Basílica de Maria Auxiliadora, e com tudo o que recolhe e guarda das lembranças do Pai e de seus melhores filhos, há já mais de um século, Valdocco, digo, se tornara centro de atração e meta ideal de milhares e milhares de corações, que encontravam na “Terra dos sonhos e feitos paternos” motivo de grande conforto para a própria vocação. Quantos, depois, por várias gerações, desde a Basílica de Val- docco, iniciaram sua grande aventura missionária, irradiando mundo afora o entusias- mo dinâmico e o otimismo construtor de nosso Pai, conservando sempre viva e terna lembrança desses lugares abençoados, lembrança que se traduzia em amorosa fideli- dade que a distância, por grande que fosse, longe de amortecer, tornava ainda mais forte e generosa.

Valdocco é para cada um de nós a Casa Paterna e Materna ao mesmo tempo, a ter- ra em que nascemos, a terra dos nossos Pais, a casa que, depois de ter sido por decê- nios teatro e testemunho das admiráveis empresas que Dom Bosco levou a cabo, reco- lheu no dia longínquo de 31 de janeiro de 1888 a última palpitação do seu grande co- ração e se tornou em seguida testemunho de toda a série que foi sempre crescendo, das obras estupendas que se iniciaram no mesmo dia dos seus funerais.

 

O afastamento de Turim

Todos os imensos e preciosíssimos tesouros acumulados no decorrer de mais de um século, em Turim e em Valdocco, não os podíamos deixar sem que sentíssemos todo o peso da separação. Conosco sofreram os Irmãos de Turim, especialmente os da Casa Geral e devo acrescentar que também sofreram os turinenses que juntamente com as autoridades nos deram a entender, às vezes com vivacidade, que a transferência do Conselho Superior de Turim para Roma, era segundo diziam, uma perda dolorosa e um grande vácuo para a cidade, pois ela sempre teve a sensação de que Dom Bosco e a Congregação eram uma de suas riquezas espirituais, de que se ufanava diante do mundo todo.

Isso tudo, caríssimos, vos diz que a separação não foi (e como poderia ser?) indolor. Mas, como repetidamente disse e escrevi ultimamente, se o Conselho Superior veio para Roma, se as nossas cartas e comunicações são datadas de Roma, o nosso coração está sempre voltado para Turim, onde está Dom Bosco; o nosso espírito, como nunca, desde quando partimos de lá, quer ser o autêntico espírito que o Pai nos transmitiu. Antes de nos pormos em viagem, todos os membros do Conselho quisemos proclamar na Basílica diante da urna que conserva os despojos venerados de nosso Pai, na pre- sença dos irmãos das diversas Comunidades como testemunhas: “Queremos ser filhos fiéis; por isso, é nossa intenção prometer não só a nossa fidelidade pessoal, mas em- penhar-nos em manter e alimentar na Congregação renovado sentido da fidelidade ao espírito, ao verdadeiro espírito do Pai”. Sentimos que esse é o exato dever que temos e é ao mesmo tempo elemento imprescindível para a vitalidade e fecundidade da Mis- são que a Providência confiou à Congregação, principalmente neste momento em que todos os Salesianos estão empenhados na ação de renascimento espiritual que se chama Renovação.

E que será de Valdocco? Valdocco consagrado e valorizado como “Centro Histórico e Espiritual da Congregação” com todos os tesouros salesianos que encerra naquela pequena área de terra, será tratado com amor, para que seja mais do que antes o polo de atração a que virão de todas as partes do mundo os membros da família salesiana para ali encontrarem o clima e ambiente que fará reviver a idade de ouro da Congre- gação, restaurando beneficamente as energias do espírito que anos e fadigas possam ter desgastado.

 

Motivos da transferência para Roma

 

Como haveis de saber, desde o dia 1º de junho p. p., o Conselho Superior trabalha e exerce suas funções de governo em Roma, com todos os escritórios que dele depen- dem. Não me parece supérfluo recordar aqui o sentido e as motivações profundas da nossa presença na Capital do mundo Católico. Antes de tudo apraz-me lembrar que em 1965 o XIX Capítulo Geral formulara o voto de transferência. O Conselho evidentemen- te não podia eximir-se de realizar o voto da Assembleia Capitular. Mas ocorre também acrescentar que esse voto, aliás não de todo novo, à luz do desenvolvimento que a Congregação foi tomando e de situações anteriormente inexistentes, apoiava-se em motivações e exigências que não se podiam subestimar.

Interessante é notar que Dom Bosco mesmo, como consta das Memórias Biográfi- cas, antes ainda da aprovação das Regras, acariciava a ideia de uma presença viva e não só simbólica da Congregação no Centro da Igreja Católica e perto do Papa — “Cen- tro da Unidade, do Magistério, da Autoridade” (MB XIV, 570).

Roma, de fato, exerceu sobre Dom Bosco um encantamento tão forte que dela fez o segundo centro da sua vida e da mesma Congregação. Nada desejou tanto como ter, depois do sinal de aprovação por parte de Deus, a chancela da Santa Sé sobre a Obra que estava fundando. Ao P. Rua, de quem entrevia claramente a Missão que ia ter na Congregação, ao seu lado, durante a vida e depois, como lembrança da primeira Missa escreverá de próprio punho: “Esto Romanus”. Com razão João XXIII, sintetizando numa visão retrospectiva a vida e o coração de Dom Bosco podia defini-lo solenemente: “Sa- cerdote Romano”.

Mas se a nossa presença junto de Pedro, na cidade universal por excelência, está na linha espiritual do nosso Pai, claro é que hoje a exige de modo preciso a mesma uni- versalidade que a Congregação já alcançou. Foi o que oportunamente nos lembrou Paulo VI, na recente audiência geral em que tomou parte o Conselho Superior apenas chegou de Turim.

A Congregação, sobretudo no momento atual, sente a necessidade e o dever de se inserir profundamente na vida da Igreja e tomar contato com todos os movimentos apostólicos e espirituais que partem deste Centro para se irradiarem pelo mundo. Não se pode ficar à margem e receber só indiretamente alguns desses estímulos. Tem consciência de que deve empenhar-se diretamente em fecundo contato e confronto com tão numerosas forças que vão fermentando no Centro da Igreja e de aí se vão espalhando.

A importância da Missão que a Congregação tem na Igreja de hoje, leva-a a Roma não tanto por causa de um serviço mais adequado aos fins apostólicos e espirituais  que lhe são peculiares, como por causa da consciência de uma responsabilidade e ser- viço eclesiais, provenientes precisamente da dimensão que ela hoje tem no mundo.

Não é preciso, pois, que nos detenhamos a evidenciar todas as vantagens dos fre- quentes e fáceis contatos com os vários Dicastérios eclesiásticos, junto dos quais te- mos sempre numerosos e importantes problemas que tratar.

 

Em audiência com o Papa

Estas notas da nossa presença em Roma parecem-me tenham tido marca cheia de autoridade e significação no que sucedeu na audiência geral a que me referi acima. Falo-vos com simplicidade familiar.

Apenas chegados a Roma, apressei-me a enviar um telegrama de respeitosa sauda- ção ao Santo Padre e pedir para o Conselho Superior participar na audiência geral de quarta-feira, dia 7 de junho. Foi-nos concedida imediatamente. Estávamos na nova e imensa sala de audiências, na primeira fileira com milhares de fiéis de todas as línguas e nações. Foi surpresa quando o Santo Padre, ao tomar a palavra, quis apresentar à imensa assembleia o Conselho Superior dos Salesianos, dizendo que teria preferido o encontro numa audiência especial, mas que estava contente por “nos ver no meio do povo”, porque “os Salesianos, por vocação, preferem estar com o povo e para o povo, pelo qual trabalham”.

Porém há mais ainda. A certa altura, apresentando-o à assembleia convida o Reitor- Mor a pôr-se de pé para que todos pudessem ver quem era o sucessor de Dom Bosco. Podeis calcular a confusão e a comoção de quem vos escreve.

Refletindo não só nas palavras, mas também no gesto do Santo Padre, pareceu-me entrever nisso um sinal e advertência evidentes e de muita atualidade. A Congregação representada pelo Conselho Superior com o Reitor-Mor teve primeiramente a sanção diria oficial do mesmo Santo Padre ao gesto “romano” que fez, com a transferência de Turim para Roma. E não só isso, foi apresentada ao Povo de Deus como Congregação que se dedica ao Povo. O Reitor-Mor, e com ele a Congregação, estão assim compro- metidos pela palavra do Papa, perante a imensa multidão que representava de manei- ra visível toda a Igreja, comprometidos, repito, na dupla fidelidade ao Papa e à missão popular, antes de tudo entre os jovens.

Caríssimos, os momentos da audiência gravaram-se na minha memória, porém mais ainda no coração. Os sentimentos experimentados nesse memorando encontro devem transformar-se em patrimônio ideal de todos os salesianos.

Ao Sumo Pontífice, que não se cansa de demonstrar à nossa humilde Congregação estima, confiança e grande benevolência, toda a nossa afetuosa gratidão, mas especi- almente a nossa indefectível fidelidade, com o coração de Dom Bosco.

 

Com Dom Bosco e, por isso, com o Papa

Não é raro hoje ouvir críticas e contestações, mesmo graves e irreverentes, por par- te de sacerdotes e religiosos, não só com relação a pessoa de Paulo VI, mas do Papa, do Vigário de Cristo, ao seu magistério e nem sempre sobre questões marginais ou disciplinares. Eu digo aos membros da nossa Família uma palavra que, independente- mente de outros argumentos também válidos, quero se apoie em valores escolhidos com cuidado e que são próprios da nossa tradição espiritual.

Quem se dissesse e quisesse ser filho de Dom Bosco, mas por outro lado não amas- se sinceramente ao Pana e se pusesse habitualmente ao lado dos que o criticam e con- testam e lhe faltasse com o devido respeito, sem se preocupar com o magistério que lhe é próprio, esse se excluiria por si mesmo da nossa autêntica tradição. Dom Bosco não o pode reconhecer como a verdadeiro filho.

Basta para tanto conhecer superficialmente tão só a ação, o pensamento e os sen- timentos de Dom Bosco em todos os instantes da sua vida, até ao último suspiro para o perceber. São muito numerosas as páginas das Memórias Biográficas que referem a constante e claríssima prova da atitude de Dom Bosco com relação ao Papa, de Dom Bosco não só como sacerdote, mas também como Fundador. Algumas citações entre centenas espalhadas nos dezenove volumes:

“A fé para ser viva e frutuosa deve ser sempre iluminada pelo Vigário de Cristo” (MB IX, 228).

“Quem não edifica com o Papa, dispersa e destrói até ao abismo” (MB XII, 171). “Estou com o Papa e disso me ufano” (MB XII, 423).

Falando aos Salesianos, eis seus sentimentos e preocupações:

“Recordai-vos de que devemos unir-nos ao redor do Papa e que a nossa salvação está só com o Papa e no Papa” (MB V, 577).

“A palavra do Papa deve ser a nossa regra em tudo e para tudo (MB VI, 494). “Finalidade principal da Sociedade Salesiana é sustentar a autoridade do Papa” (MB

VII, 562; X 762, 496).

Para isso, no leito de morte, confiava ao Cardeal Alimonda o seu testamento papal: “Sempre amei, obedeci como filho ao Sumo Pontífice. A Congregação está toda às or- dens da Santa Sé” (MB XIX, 15).

Não foi por acaso, pois, que o Papa João, em 1959, escrevia em autógrafo ao nosso venerado P. Ziggiotti: “Não se pode compreender completamente o espírito que sem- pre animou a São João Bosco, se se esquece a especialíssima devoção que nutria para com a Cátedra Romana”.

Esse era Dom Bosco, isso nos deixou ele em herança, esse é o caminho que nos tra- çou com clareza que não admite dúvidas a quem quiser sentir-se verdadeiramente filho seu.

Mas, filhos caríssimos, estais e quereis estar, estou certo disso, com Dom Bosco e por isso com o Papa: nas aulas, no confessionário, na imprensa, no púlpito, na doutrina e na prática pastoral, sacramental e litúrgica, com os jovens e com os adultos, com os incultos e com os intelectuais. Todos nós queremos oferecer-lhe não só a nossa cons- ciente adesão como Mestre, mas ao mesmo tempo queremos dar-lhe o conforto de nosso afeto como filhos, precisamente como Dom Bosco nos ensinou com palavras e exemplos. Fidelidade e amor ao Papa, eis o convite que o nosso Pai nos faz no momen- to em que a Congregação vem para Roma, para junto do Vigário de Cristo: é o convite que ele fez aos Salesianos no leito de morte, como sigilo da sua vida e missão, que en- tregava naquele instante aos seus filhos de todos os tempos.

Confortados pelo encontro e paternal bênção do Santo Padre pusemo-nos como disse antes, ao trabalho em nossa nova sede romana.

Os irmãos chamados a colaborar com os Superiores nos vários escritórios, já chega- ram em bom número; outros virão logo. Entretanto há por parte de todos evidente e efetiva vontade de dar a própria contribuição para construir a nova Comunidade, de modo a corresponder o mais possível ao perfil ideal que dela nos delineou o Capítulo Geral Especial e nos é indicado pelas Constituições renovadas.

A Comunidade, cujos componentes vêm de várias Inspetorias às quais quero aqui agradecer, tem a consciência de estar a serviço e por isso à disposição de toda a Con- gregação. E acrescento de minha parte: Caríssimos, em Roma como em Turim, a Casa Geral é a Casa de todos os Salesianos. Sereis sempre bem-vindos!

 

Duas notícias animadoras

Os inícios da nossa atividade romana foram também confortados por duas notícias tanto mais animadoras quanto mais esperadas, notícias que se se seguiram uma à ou- tra com breve intervalo.

No dia 22 de junho o Santo Padre declarou, como podeis ler no Decreto citado nes- te número dos “Atos”, a heroicidade das virtudes do Servo de Deus Zeferino Namuncu- rá. É o reconhecimento oficial do grau heroico com que praticou as virtudes do cristão. A sua “santidade pessoal” fica assim ratificada pela Igreja. O próximo passo é a Beati- ficação. Queira Deus Nosso Senhor apressá-la.

Compreendeis facilmente os motivos da alegria que experimentamos diante desse fato. Podemos falar de uma graça particular para nossa humilde Congregação. Basta refletirmos um pouco sobre a hora em que nos chega essa declaração. Estamos em clima de pós-Capítulo, faz-se em toda a nossa família um esforço comum para reali- zarmos uma renovação corajosa e autêntica, enquanto ao nosso derredor se respiram ares de crise... Estamos há dois anos apenas do Centenário das nossas Missões da América. Parece-me queira Nosso Senhor marcar e confirmar com esta “flor de santi- dade” a eficácia do nosso método de educação, a fecundidade da nossa ação missioná- ria, numa palavra a bondade do caminho que por Dom Bosco nos foi sugerido e indica- do para realizarmos a Missão que — na Igreja — a Providência confiou à nossa Con- gregação.

Mas há circunstâncias no acontecimento que aumentam os motivos da nossa ale- gria e gratidão para com o bom Deus.

  • Trata-se da primeira flor de santidade, oficialmente reconhecida, que desabro- chou mediante a ação missionária salesiana e a prática do sistema preventivo (Zeferino entrou no Colégio de São Carlos, em Buenos Aires, com nove anos de idade).
  • É um modelo autêntico para os jovens, morreu com dezenove anos – e autêntico aspirante à vida sacerdotal: sonhava, com efeito, cheio de entusiasmo missionário, fazer-se sacerdote, para levar Cristo à gente da sua raça.
  • É também autêntico filho do Continente e do terceiro mundo, que hoje está no centro dos esforços e esperanças da Igreja. Mas sobretudo é filho da Patagônia, que foi chamada a segunda pátria de Dom Bosco, para onde ele com a antevidência que o caracterizava, enviou os seus melhores

Qual será a nossa resposta a essa graça tão marcante?

Colocar-nos na linha de maior coerência de vida, de renovado entusiasmo apostóli- co, de efetivo e concreto desejo de santidade, de compromisso de fidelidade na práti- ca do Sistema Preventivo à luz das Orientações que o Capítulo Geral Especial nos deu (n. 118).

No campo prático convido a todas as Inspetorias a darem grande e sistemático rele- vo a este acontecimento, difundindo a vida de Zeferino, rica de interesse, se se souber apresentá-la, também para a juventude de hoje; suscitando iniciativas capazes de promover nos jovens a imitação das virtudes de Zeferino.

Tenho viva confiança de que nos lugares onde a figura da “Flor do Pampa” é popu- laríssima e rodeada de grande e amorosa simpatia, os Salesianos encarregados, que com tanto zelo trabalham pela Causa, saberão promover todas as iniciativas capazes de alcançar os milagres requeridos para a Beatificação. E todos rezemos e façamos rezar a Nosso Senhor a fim de que para o bem da Igreja, e particularmente da juventu- de latino-americana, se digne glorificar logo o novo Venerável.

A segunda notícia, realmente esperada com certa impaciência um pouco em todo o nosso mundo, chegou-nos de maneira oficial, nos primeiros dias de julho, da Secretaria de Estado: por disposição do Santo Padre a Beatificação do Padre Rua se dará no do- mingo, dia 29 do próximo mês de outubro. Já falei precedentemente desse aconteci- mento, tão rico para nós de especial significado. Terei ocasião de voltar de vários mo- dos sobre esse argumento durante este ano. Entretanto, enquanto os responsáveis hão de ver como participar na Beatificação e como celebrar digna e proveitosamente do feliz evento, preocupemo-nos todos concretamente em “tomar contato” com o novo Bem-Aventurado, procurando conhecer de perto a sua vida, as suas ideias, o seu espírito, que é precisamente o que ele assimilou do Pai, na diuturna convivência e na colaboração cada vez mais íntima. E demos a conhecer, em nosso meio, especialmente às nossas novas gerações, essa figura salesiana de primeira grandeza não só pela san- tidade, mas também pelo trabalho inestimável que realizou para a consolidação e de- senvolvimento da Congregação em momentos particularmente delicados da vida da mesma.

Esse conjunto de fatos que acabo de descrever levam-me, diria, a um natural coro- lário, a entreter-me agora convosco sobre um tema que no momento atual assume para nós particular interesse e excepcional importância.

 

AS MISSÕES, CAMINHO PARA A RENOVAÇÃO

Estão sendo realizados em quase todas as partes, ou estão em fase de adiantada preparação os Capítulos Inspetoriais, envolvidos todos eles na reflexão comunitária para adequar as próprias Inspetorias às grandes linhas programáticas do Capítulo Geral Especial. Espero não que não esteja fora da agenda de nenhum Capítulo Inspetorial o argumento sobre o qual pretendo falar-vos, precisamente por causa da importância que tem. Refiro-me às MISSÕES.

Apresentando-vos os Atos do Capítulo Geral Especial falei-vos do “CAMINHO” das “MISSÕES” como um dos três grandes caminhos que devemos percorrer para renovar a nossa Missão pelos jovens e o povo e, renovar assim a nossa Congregação.

Não se trata de afirmação retórica, de palavra de conforto para os nossos Missioná- rios ou de interpretação superficial e unilateral. Mas trata-se do que resulta de modo objetivo das deliberações do Capítulo Geral Especial e de toda nossa longa e ininter- rupta tradição.

Nesta minha carta, detendo-me nesse argumento, desejo convidar-vos a refletir comigo sobre o alcance e as ilações da afirmação que acabei de fazer:

  • O que significa dizer que as Missões são a estrada real e obrigatória para renovar a nossa Missão?
  • Por que, e em que medida, o renovado impulso da ação missionária impregna e envolve toda a Congregação, a sua própria vida?

Comecemos refletindo sobre esta última pergunta.

A natureza “Missionária” é característica da Congregação Salesiana...

No art. 15 das Constituições renovadas encontramos esta solene afirmação: “Nossa Sociedade reconhece no trabalho missionário um traço essencial de sua fisionomia”.

O sentido evidente de tal afirmação é que o fato e a ação missionária não são para a Congregação um aspecto, uma atividade à margem, algo acrescentado, epidérmico, que poderia ou não existir, sem que se alterasse a sua natureza, mas é elemento indis- pensável, caraterizante, que toca a essência e a própria vida da nossa Congregação, a qual, como disse em outra ocasião, “nasceu, cresceu, progrediu sempre como Congre- gação missionária” (Discurso aos Voluntários para a América Latina — Ponte Mammolo

  • 24 de setembro de 1969).

 

A vocação missionária de Dom Bosco

Procuremos aprofundar as bases históricas e carismáticas da relação de essenciali- dade entre a Congregação e as Missões.

O fundamento deve ser procurado — é obvio — na intencionalidade e naquilo que Dom Bosco realizou como Fundador. É isso que nos garante que não se trata somente de um carisma pessoal, mas de um “charisma fundationis”: o desenvolvimento desse fato histórico nos dará a medida de sua essencialidade para a Congregação.

Recordemos alguns dados fundamentais: “O pensamento de ser missionário não o abandonava jamais” escreve de Dom Bosco o P. Lemoyne (MB II, 203).

Com a vocação fundamental de trabalhar pelos jovens pobres, coexistia nele, desde menino, uma segunda vocação não menos forte, a de se fazer missionário. Tinham a mesma raiz e tomavam impulso e alimento na mesma fonte: o amor de Deus e o zelo para difundir o seu Reino, zelo alimentado pelas necessidades dos jovens abandonados que encontrava nas prisões de Turim e nas praças da cidade, ou alimentado também pela triste situação dos povos ainda não iluminados pela luz do Evangelho, como cons- tava nos Anais da Propagação da Fé, de que era apaixonado leitor.

Num momento de sua vida, convém lembrar, a vocação missionária pareceu preva- lecer sobre a outra. Porém, depois do Conselho decisivo do P. Cafasso e guiado sempre pela Divina Providência, conseguiu achar a síntese feliz. A síntese não era a justaposi- ção das duas vocações, uma ao lado da outra, mas uma espécie de simbiose. Ele, como veremos mais adiante, fez das Missões o campo privilegiado onde poder exercer a sua vocação peculiar de apóstolo dos jovens e, ao mesmo tempo, a tonalidade de especial ardor apostólico, com que chegar a essas almas. E vice-versa, em força dessa sua pecu- liar missão, fez dos jovens os destinatários preferidos, onde quer que fosse, mesmo em terras de Missão, e se serviu do seu sistema de educação como “método” também de evangelização.

No sonho dos nove anos, em que recebeu do alto a indicação da sua “Missão”, as pegadas do seu destino, a sua Vocação, acha-se já delineada bem claramente a dupla perspectiva que se vai explicitando com os anos e ao depois com ulteriores indicações que teve de Nosso Senhor.

É esse o pensamento do P. Albera e do P. Rinaldi, que veem contida como que em embrião, no primeiro sonho, a vocação missionária de Dom Bosco:

“As missões entre os povos selvagens foram sempre a aspiração mais ardente do coração de Dom Bosco. Não tenho medo de errar afirmando que Nossa Senhora Auxi- liadora desde suas primeiras manifestações maternais lhe havia concedido, a ele ainda menino, clara intuição dessa vocação”. (P. Albera, Circulares, pág. 132).

E o P. Rinaldi: “Comemorando o primeiro sonho do Venerável Pai, celebramos impli- citamente o centenário de toda a Obra Salesiana. Foi naquela primeira ocasião, que, pode-se dizer, ele, foi consagrado apóstolo da juventude, pai de nova Família religiosa, missionário dos povos selvagens; pois ela despertou no seu coração também um vivís- simo desejo de vida religiosa e de evangelização dos infiéis” (ACS, 6 [1925], 364). E mais explicitamente: “Na medida em que avançava nos anos e estudos, chegou a com- preender cada vez melhor que a ordem que recebera do alto, de trabalhar pela juven- tude, devia referir-se também aos jovens selvagens” (ib., p. 366).

Por isso Dom Bosco pôde afirmar decididamente numa relação a Leão XIII, em 1880: “As Missões estrangeiras sempre foram o sonho da Congregação Salesiana” (MB XIV, 624).

E quando chega o momento marcado pela Providência, com audácia extraordinária, quase desconcertante, sem poupar sacrifícios, com uma coragem que vai muito além de qualquer prudência humana, lança-se ao que ele mesmo definiu como o “maior empreendimento da Congregação: as Missões da América.

A nascente profunda de onde brotava a sua atividade missionária era, além das in- dicações do Alto, o seu ardente zelo apostólico, o desejo inflamado de salvar almas, que o fazia sofrer realmente diante da situação de povos que ainda não conheciam a Jesus Cristo: “Eu escuto o grito que vem de longe e clama: Vinde salvar-nos! São os gritos de tantas almas que esperam mão benfazeja que vá tirá-las da beira da perdição e as coloque no caminho da salvação”, escrevia aos alunos do Colégio de Lanzo (Ep., II, 438). E numa circular aos Salesianos: “Meus caros, sinto-me profundamente aflito pensando na messe abundantíssima que a todo instante e em tantas partes se nos depara e que somos obrigados a deixar inculta por falta de obreiros” (Ep., II, 7). Por isso o seu biógrafo anota: “Se desse ouvido ao zelo que o inflamava, teria com a sua caridade abraçado o mundo inteiro” (MB XI, 409).

O que representassem as iniciadas Missões da América, no coração e no interesse, nos anseios e nas preocupações de Dom Bosco, e quão intenso fosse o seu ardor apos- tólico, no-lo dizem os seus primeiros sucessores:

“Desde então — depois da partida dos primeiros missionários — as Missões foram o coração do seu coração — escreve o P. Albera — e parece que vivia somente para elas. Não que descuidasse das suas outras numerosas obras, mas a preferência era para os pobres Patagônios e Fueguinos. Falava deles com tamanho entusiasmo que ficávamos maravilhados e grandemente edificados com o seu inflamado ardor pelas almas. Pare- cia-nos que cada batida do seu coração repetia: “Da mihi animas!”. Ao encantamento da sua voz, quando falava das missões, despertavam-se no coração dos filhos súbitas e prodigiosas vocações para o apostolado, e os benfeitores não podiam deixar de coope- rar eficazmente com generosas ofertas para essa obra que é a salvação das almas” (Circolari, p. 134).

E o P. Rinaldi evocando suas distantes, mas vivíssimas recordações: “No seu grande coração acumularam-se desde muitos e muitos anos os ardores apostólicos de um Francisco Xavier, alimentados por uma chama do alto que ia iluminando o futuro atra- vés dos sonhos... para mim, penso que talvez nenhum missionário tenha sido propa- gador mais zeloso do que ele. Revejo-o, o Pai amantíssimo, nas distantes recordações da minha vocação salesiana, justamente nos anos do seu maior ardor missionário, e a impressão que ficou gravada indelével em mim: era um verdadeiro missionário, um apóstolo consumido pela paixão das almas” (ACS n. 6, p. 367).

O P. Ricaldone, ativo propagador também ele de novo impulso missionário na déca- da de 1930, depois de lembrar o ardor missionário que consumia Dom Bosco e que o levou a fazer imensos sacrifícios nos primórdios da Congregação para lançar seus filhos à conversão dos infiéis, afirma que “as missões eram como bem sabeis, o ponto alto dos seus ideais” (ACS, n. 67, p. 193).

 

A atividade Missionária como mandato de Cristo

Além desse incontido “zelo apostólico” gostaria de relevar outro elemento teológi- co e eclesial que, a meu ver, influiu não pouco no ânimo de Dom Bosco para a orienta- ção missionária da Congregação.

Refiro-me à profunda convicção que Dom Bosco tinha de que o “mandato” de Nos- so Senhor aos apóstolos de pregarem o Evangelho no mundo todo (o “euntes in mun- dum universum”) era um compromisso concreto para todos os cristãos e muito mais para os grupos organizados que se votavam à milícia de Cristo, sob a guia do Papa e dos Bispos.

Esta consciência da “missão” e do apostolado como imperativo de evangelização que de Cristo Nosso Senhor, através dos sucessores dos apóstolos, chegava aos solda- dos de Cristo era muito viva em Dom Bosco.

No sermão de despedida dos primeiros missionários aparecem bem claros esta perspectiva e este motivo. Dom Bosco une a ação missionária que seus filhos iam em- preender com a missão dos apóstolos e com o mandato de Cristo. Depois de ter lem- brado a palavra de Cristo: “Ite in mundum universum”... indica com precisão: “Com estas palavras o Salvador dava não um conselho, mas um mandato aos seus Apóstolos, para que levassem a luz do Evangelho a todas as partes da terra...” e faz ver como os apóstolos “executaram com fidelidade o preceito do Mestre”.

E prevenindo a objeção de quem quisesse considerar as missões como trabalho su- pererrogativo na Igreja, isto é, que se devesse fazer quando as cristandades estivessem já consolidadas, pergunta: “Não seria melhor que os Apóstolos tivessem ficado a con- verter os habitantes de Jerusalém e de toda a Palestina, especialmente para terem a comodidade de se reunirem e tratarem juntos os pontos mais fundamentais da Reli- gião Católica e o modo de a propagarem, de maneira que ninguém ficasse naquelas terras que não cresse em Jesus Cristo?”. Responde fazendo ver como os Apóstolos se conformaram fielmente ao mandato de Cristo e como não podendo fazer sozinhos, associaram outros e depois outros obreiros evangélicos, como fizeram também depois os sucessores de São Pedro.

E acrescenta: “Ora, empenhamo-nos nós, em nossa pequenez em realizar, com as nossas forças, o preceito de Jesus Cristo, apenas se começou a falar desta Missão, pe- dimos logo o pensamento do Chefe da Igreja...” (MB XI, 383).

Com esse Espírito enviou a Roma os Missionários para receberem o “mandato” da parte do Santo Padre (MB XI, 376).

Eis porque Dom Bosco, no Sermão que estamos citando, afirma: “Goza o meu cora- ção de grande consolação ao ver consolidada a nossa congregação...” (MB XI, 386). Para ele, a ação missionária era como que o coroamento, o remate da sua Congrega- ção que se tornava adulta e católica com este empreendimento.

Não pode, pois, causar admiração se o P. Albera às missões chama “a segunda fina- lidade da Congregação (Circolari, 31 de maio de 1913, p. 133) e o P. Rinaldi, na mesma linha põe em estreita relação a instituição dos Filhos de Maria e dos Cooperadores  com as Missões, pois foram instituídos “para garantirem (às missões) vida florescente também para o futuro” (ACS, n. 6, p. 368).

Em consonância com esta clara e constante vontade de Dom Bosco, a Congregação não cessou de considerar as Missões com um dos seus interesses principais, como o demonstram as numerosas inspetorias missionárias, que já ultrapassam uma centena.

Na mesma linha o XIX Capítulo Geral, à luz do Decreto Ad Gentes do Concílio Vati- cano II pôde afirmar: “A Congregação Salesiana... participa das aspirações da Igreja de hoje e revive o ideal de Dom Bosco, que desejou fosse a obra das Missões a ânsia permanente da Congregação, de tal modo que fizesse parte da sua natureza e do seu fim” (ACG XIX, p. 178).

 

As missões, lugar privilegiado da ação missionária

O que dissemos acima sobre o pensamento de Dom Bosco e dos seus sucessores  em relação à importância essencial das Missões para a nossa Congregação ajuda-nos a refletir sobre a primeira pergunta que fizemos no início, isto é, em que sentido as Mis- sões podem ser um caminho para a renovação da Congregação.

Encontramos a propósito a afirmação muito explícita e solene do Concílio Vaticano II: “Não pode a graça da renovação, de modo algum, desenvolver-se nas comunidades, se cada uma delas não estender a vasta rede de sua caridade até os confins da terra, demonstrando por aqueles que estão longe a mesma solicitude que tem pelos que são os seus próprios membros (AG, 37).

Isso é o que se diz das comunidades cristãs, mas com muito maior razão se deve afirmar das comunidades religiosas que estão sujeitas à mesma dinâmica espiritual e nas quais se assume por vocação o compromisso de viverem mais intensamente a vida cristã. O CGE não hesita então em aplicá-lo à nossa Congregação (n. 463) e proclama com incisiva afirmação: “O renovado impulso missionário será, pois, um termômetro da vitalidade pastoral da Congregação e um antibiótico contra o vírus de aburguesa- mento (ib.). Para compreender melhor, em toda a extensão e incidência, a afirmação conciliar e capitular, convém apelar para um aprofundamento do conceito a que já me referi: as Missões estão no centro da vocação salesiana.

É um pensamento carregado de ilações, sobre o qual convém nos detenhamos um pouco. As Missões não são uma “obra”, importante também, que se possa pôr ao lado de outras na mesma linha, como colégios, escolas, oratórios, pensionatos etc. Não são sequer um “setor de atividade” que abranja certo número de obras. Penso que na tra- dição salesiana as Missões se devam considerar duma perspectiva diferente: mais do que obras ou atividades, são um lugar privilegiado onde exercer a Missão salesiana e um espírito com que realizá-la. É primeiro que tudo uma espécie de “atividade de sín- tese” que engloba toda a nossa Missão.

À primeira vista poderia parecer uma espécie de contradição que uma Congregação claramente educadora como a nossa, deva empenhar-se tão a fundo, por vocação e carisma, na ação missionária. Não seria uma perda da sua “especificação” e por isso de sua “caracterização”? Seria talvez assim, se nós a consideramos como uma das Obras de que se ocupa a Congregação. Não o é, porém, se a considerarmos como o “lugar privilegiado” da Missão Salesiana.

Além da óbvia consideração de que nas Missões se encontram — em medida e mo- do mais do que abundante, os destinatários da nossa Missão: jovens... pobres... aban- donados, há o fato histórico da explícita vontade de Dom Bosco em orientar a ativida- de dos seus primeiros missionários, para que se dedicassem a atividades de preferên- cia educativas, também como meios de evangelização e promoção humana.

Sobre isso poderíamos apresentar abundantíssima documentação da atividade sale- siana nas Missões, que alcançou sempre, mediante a ação educativa, os seus maiores êxitos. Baste esta citação: O projeto que pareceu se devia preferir — escreve Dom Bosco numa declaração ao Cardeal Franchi, Prefeito da Propaganda Fide, 10 de maio de 1876 — consistia em fundar asilos, colégios, internatos e casas de educação nas proximidades dos selvagens. Iniciados os contatos com os filhos, fácil seria comunicar com os pais e assim ir aos poucos abrindo caminho” (Epistolari, III, 59).

Pensemos no desenvolvimento histórico das nossas missões. Por exemplo, a missão entre os Jívaros, no Equador, onde, como afirmou Dom Comin, o único meio eficaz, para obter resultados positivos e duradouros na conversão e civilização, foi a obra dos internatos para os filhos dos índios.

Apraz-me citar por fim quanto escreve o P. Rinaldi ao referir um colóquio com Pio XI: “Impressionou-me sobremaneira a insistência com que ele me recomendou se apli- casse em toda a sua extensão o nosso sistema educativo nas Missões... Repetiu-me por bem duas vezes com palavras diferentes que se levasse às missões a nossa educação, a de Dom Bosco, isto é, os seus sistemas, os seus meios, o seu espírito, que haveriam de dar em toda a parte resultados consoladores” (ACS n. 3, p. 77).

Parece-me enfim que as novas Constituições insinuem claramente o conceito das Missões como lugar privilegiado para a nossa Missão, no art. 24: “ A ação missionária é obra de paciente evangelização e fundação da Igreja num grupo humano, e inclui todas as atividades educativas e pastorais dos Salesianos”.

 

O espírito Missionário é essencial à renovação

Além disso, as missões estão no centro da vocação salesiana, porque a ação missio- nária autêntica deveria distinguir-se por um espírito especial, o “espírito missionário” que coincide — parece-me — com o núcleo central do espírito salesiano.

No art. 40 das Constituições é afirmado que “o centro do espírito salesiano é a cari- dade pastoral, caraterizada pelo dinamismo juvenil que se revelava tão forte em nosso fundador e nas origens da nossa sociedade. É um ardor apostólico que nos faz buscar as almas e servir tão somente a Deus”.

Pois bem, de tudo o que dissemos sobre o zelo apostólico de Dom Bosco, que foi para ele e deve ser para todo salesiano o movente principal de qualquer iniciativa mis- sionária, podemos concluir que o espírito missionário deve estar presente como atitu- de fundamental em todas as nossas atividades pastorais e que se pode traçar uma li- nha de identidade entre “caridade apostólica” e “espírito missionário”.

Serem as Missões o ponto central da vocação salesiana leva-nos por consequência lógica, a um conceito amplo de ação missionária, que foi e é característico da nossa tradição e da nossa história. Não quero com isso desconhecer ou de qualquer modo deslustrar o conceito de Missão no sentido estrito, que consiste “no múnus de pregar  o Evangelho e estabelecer a Igreja em meio aos povos e grupos que ainda não creem no Cristo” (AG, 6).

Em nossa Congregação, porém, usou-se sempre, desde a expedição de 1875, con- ceito mais largo e familiar, que tem sua justificativa, porque acentua, devido à sua ca- raterização, em dois elementos fundamentais e indispensáveis em toda atividade mis- sionária, entendida embora em sentido estrito: a disponibilidade e o zelo.

Sob esse ponto de vista foram sempre considerados como missionários os que ge- nerosamente deixaram a própria pátria (Ite in mundum...) movidos por zelo apostólico, para ajudarem cristandades novas ou por necessidades particulares, como é o caso, p. ex., dos numerosos salesianos enviados à América Latina.

O nosso modo tradicional de conceber as Missões com certa amplitude é um dos elementos que concorrem para evidenciar o que acima dissemos das Missões como “lugar privilegiado”, para desenvolver a nossa Missão entre os jovens e a classe popu- lar. Outro relevo se deve fazer e é que as Missões interessam naturalmente a toda a Congregação, são — se assim se pode falar — de toda a Congregação e não de uma determinada inspetoria, nem mesmo da Direção geral.

Essa constatação se manifesta claríssima no Decreto Ad Gentes com relação à Igreja Universal e às Igrejas particulares e é também claramente afirmada para a Congrega- ção pelo CGE: “As missões interessam a toda a Congregação; estão, pois, todos os Ir- mãos empenhados nelas de um modo ou de outro” (CGE, n. 480).

Estas considerações servem para esclarecer a estreita relação entre Missões e Con- gregação e servem ainda para explicar como não se pode falar de renovação verdadei- ra, autêntica e profunda da Congregação sem que ao mesmo tempo seja acompanha- da, ou melhor, precedida de uma floração efetiva da atividade e do trabalho missioná- rio, em toda a sua extensão.

Com efeito, o aumento de trabalho missionário, em quantidade, mas principalmen- te em qualidade, supõe e exige na Congregação o espírito missionário, que significa visão de fé, desejo ardente da vinda do Reino, consciência da urgência da evangeliza- ção, coerência de vida, disponibilidade e generosidade pessoal, espírito de sacrifício, desapego, solidariedade, amor real ao trabalho e toda uma sequência de virtudes ou ao menos disposições de espírito que equivalem a uma primavera renovadora na Con- gregação.

 

O apelo do Concílio

Às considerações que acabamos de expor devemos acrescentar o apelo feito a seu tempo pelo Concílio Vaticano II que convém relembrar. Quase como conclusão, no Decreto Ad Gentes, o Concílio volta-se a todas as categorias na Igreja: ao povo de  Deus, às comunidades cristãs, aos Bispos, aos Sacerdotes, aos Institutos Religiosos para lhes recordar o seu “dever missionário”.

Aos Institutos Religiosos de vida ativa fez uma série de perguntas que convidam a um sério exame de consciência e nós estamos neste número). São convidados a se perguntarem a si mesmos com toda a sinceridade diante de Deus: “se estão em condi- ções de estender sua atividade para a expansão do Reino de Deus entre as Nações; se podem deixar alguns encargos do seu ministério a outros, para assim empenharem as forças pelas missões; se os seus membros conforme as próprias forças participam da atividade missionária; se o seu teor de vida testemunho do Evangelho, acomodado à índole e à situação do povo” (AG, 40).

Precedentemente o Concílio havia recordado a “todos os fiéis como membros do Cristo vivo” o estrito dever que têm de “cooperar na expansão e dilatação do Seu Cor- po, de modo a levá-lo o mais cedo possível à sua plenitude”. Tendo, pois, “a viva cons- ciência da própria responsabilidade, perante o mundo, devem cultivar em si mesmos uma espiritualidade verdadeiramente católica, devem empregar as próprias forças na obra da evangelização”. E como “primeiro e principal dever, em ordem à difusão da fé” indicava-lhes o de “viverem uma vida profundamente cristã”. Pois será precisamente o seu fervor no serviço de Deus, será o seu amor para com o próximo a trazer um como novo sopro de espiritualidade a toda a Igreja... ”

E, enfim, “será a renovação espiritual que oferecerá espontaneamente orações e obras de penitência a Deus, para que fecunde com sua graça o trabalho dos missioná- rios; dela surgirão as vocações missionárias; dela aparecerão os recursos de que as missões têm necessidade” (AG, 36).

Dirigindo-se depois aos Sacerdotes, o Concílio recomenda-lhes que estejam “pro- fundamente persuadidos de que sua vida foi consagrada também para o serviço das Missões e por isso organizem “a cura pastoral de modo que sirva à expansão do Evan- gelho entre os não-cristãos”.

Portanto, “excitarão e conservarão entre os fiéis o mais vivo interesse pela evange- lização do mundo...” instruindo-os “sobre o dever que a Igreja tem de anunciar Cristo aos povos”; “inculcando nas famílias cristãs a necessidade e a honra de cultivarem as vocações missionárias entre os filhos e filhas”; “fomentando entre os jovens... o fervor missionário, de tal maneira que deles venham a surgir os futuros arautos do Evange- lho” (AG, 39).

 

Apelo a toda a Congregação

(ou seja, a Congregação em pé de mobilização missionária).

Tendo presentes todas as motivações acima expostas, isto é, “a índole missionária da Congregação, a estreita relação entre a renovação e ação missionária e o apelo do Concílio Vaticano II, acolhendo sobretudo as deliberações do nosso CGE, entendo com esta carta, num momento decisivo da história e da vida da Congregação, fazer um so- lene, encarecido e formal convite a toda a Congregação, a fim de que despertando as melhores energias e unindo com corresponsabilidade as forças de todos os salesianos que amam a Congregação, se dê novamente concreto, corajoso e entusiasmado impul- so ao nosso espírito e à nossa ação missionária.

Para isso peço a colaboração e ajuda eficaz de todos os salesianos, em qualquer posto se achem e qualquer responsabilidade tenham. Ninguém se considere dispensado de responder conforme possa, com um álibi de cômodo absentismo. Dirijo-me a todos igualmente: trata-se de nossa mãe.

Peço-vos encarecidamente que deis vossa generosa contribuição para realizar o que vou indicar ou para outras iniciativas que surgirem nas Inspetorias, espero que nume- rosas. Bem sei quanto o momento atual seja difícil e cheio de problemas e preocupa- ções angustiosas.

Sabemo-lo bem nós, que por vezes nos sentimos quase esmagados sob o peso de tantos problemas, que frequentemente nos parecem sem solução. Bem sei ainda quantas urgências imediatas já tem a vida normal de cada Inspetoria e como já temos muitas frentes de combate. Mas não quereria que por isso se considerasse este apelo como ousadia poética fácil ou gesto momentâneo de entusiasmo, como um dos mui- tos belos escritos, que servem para despertar um bom pensamento, mas acabam no vazio de tantas outras veleidades fantasiosas... Pensei e rezei muito antes de escrever estas linhas. Estou plenamente convencido de que Nosso Senhor quer mesmo isso de nós.

Poderá alguém salientar também que toda a Congregação já está empenhada na renovação proposta pelo CGE e que esse novo impulso missionário poderia talvez vir a se contrastar com as orientações pastorais ou linhas programáticas de renovação que cada Inspetoria vai traçando.

A esta objeção responderia em primeiro lugar que precisamente o que estou pedin- do deve ser um caminho, como já disse, um meio para favorecer a renovação das Ins- petorias na linha precisamente requerida pelo CGE, e, depois, trata-se de uma orienta- ção geral para toda a Congregação, já manifestada ou contida nas deliberações do CGE.

Concretamente, peço-vos, em nome de Dom Bosco e para o bem de toda a Congre- gação, um esforço decidido e generoso para fazer reviver o ESPÍRITO MISSIONÁRIO em nós e nas Comunidades da Congregação.

Isso requer e supõe uma série de atitudes espirituais para as quais quereria chamar brevemente a vossa atenção.

 

  1. Visão de fé

O genuíno espírito missionário tem na sua raiz, como fundamento, fonte e moven- te, uma clara visão de fé que faz apreender as urgências do Reino, do seu advento, da evangelização, e faz vibrar apostolicamente diante das necessidades das almas, da es- cassez de obreiros evangélicos, da necessidade de que Cristo seja anunciado etc.

A visão de fé é imprescindível para todo cristão, mais ainda para o religioso ou sa- cerdote que quer seguir a Cristo, para partilhar da sua sorte e anunciar aos homens o seu amor. E é exatamente a falta ou o esmorecimento dessa “perspectiva de fé” que tantas vezes encontramos no fundo de muitas defecções, que explica a mediocridade de tantas vidas consagradas a Deus, que se arrastam tristemente, sem entusiasmo nem ardor, enredadas e como que prisioneiras em tantas fugas e infidelidades, incapa- zes de um voo para horizonte apostolicamente arejados, puros e fecundos.

Com a sinceridade que o assunto exige, devo confessar-vos com dor e viva preocu- pação, que, por um conjunto de elementos, vou verificando que o nível da fé parece que abaixou perigosamente em algumas camadas da nossa Congregação... É verdade que é muito difícil pronunciar juízo sobre realidade tão pessoal e íntima como esta. Mas, infelizmente, vejo-me por vezes diante de manifestações que não podem deixar de me causar receios... As defecções, a que me referi acima, mas também certo enfra- quecimento de zelo apostólico, ardor espiritual e abandono de todas as formas e mei- os que alimentem a piedade e a fé: tudo isso é sinal de alarme e algo mais.

É verdade que a fé está hoje exposta mais do que nunca a tantos perigos, entre ata- ques que não dão trégua. É uma mudança de cultura com tamanhas consequências para as nossas categorias mentais; é um esforço que vai aprofundando, repensando os dados da revelação que exige uma nova visão teológica e não é fácil alcançá-la; são inúmeras as publicações pseudocientíficas ou unilaterais que desvirtuam o sentido de Deus na história; em alguns ambientes achamo-nos como que imersos num mar de opiniões audaciosas e pessoais, em contraste com os ensinamentos do magistério.

Não é difícil ver, então, que se diminui e perde a segurança das próprias convicções religiosas até a explosão da crise de fé. Trata-se, porém, em muitos desses casos de uma fé que não foi defendida suficientemente, ou então não alimentada de modo es- pecial com a verdadeira oração, quer pessoal, quer comunitária, e muitas vezes uma fé comprometida por comportamentos de todo incoerentes com a profissão que se fez ou que se diz crer. Por isso é que a fé definha perigosamente e acaba por se reduzir a uma não fé.

Cartas muito tristes não raramente chegam à minha escrivaninha: denunciam incrí- veis falências de vocações verdadeiramente esplêndidas. Ora, cerca de 90%, estas car- tas documentam que tudo começou e foi-se agravando aos poucos com a progressiva negligência e depois com o abandono total dos meios negativos e positivos que defen- dem e alimentam a fé.

Filhos e irmãos caríssimos, a fé, é preciso fazê-la reviver. A todo custo. Quem, refle- tindo sobre a própria vida e sobre a própria atividade na Congregação, começasse a não ver claros os horizontes da própria vocação, a sentir que se ofuscam as razões pro- fundas de seu relacionamento com o Pai do Céu, da sua consagração; quem começasse a sentir desamor pelos empreendimentos verdadeiramente apostólicos, deve correr logo ao remédio, procurar recuperar a própria fé.

Meios não faltam; é preciso pô-los em prática. A fé antes de tudo, é preciso educá- la, alimentá-la teologicamente, com o estudo, com a reflexão. Mas torno a dizer que é preciso defendê-la, sustentá-la e isso se alcança principalmente pedindo-a com humil- dade numa oração autêntica. O orgulho e a presunção são os inimigos mais funestos da fé.

Nessa linha parece-me que vai ainda o esforço do CGE, que intenta levar o salesiano a “redescobrir” também como fato pessoal o sentido profundo e as dimensões da nos- sa Missão, precisamente a fim de recuperar ou manter viva a consciência de “envia- dos” pelo Pai, intimamente unidos a Ele, no amor e na dependência filial.

  1. Caridade Pastoral ou Apostólica

A visão de fé em nossa vida de consagrados, em nossa Missão de apóstolos e envi- ados à juventude, deve levar-nos à caridade pastoral, definida com razão pelo CGE como “centro” do espírito salesiano. A caridade pastoral é o amor de Deus que se lan- ça à ação. É fervor, ímpeto, paixão pelas almas. É escolher de novo hoje, com renovada consciência e entusiasmo sermos os “sinais” e os portadores do amor de Deus aos jo- vens” (C. 2). É descobrir com a exuberância do nosso primeiro “sim” ao chamamento de Deus, que somos nas mãos de Deus “instrumentos” eficazes para a salvação dos necessitados” e sentirmo-nos levados, pela “urgência” do Reino que chega a cada dia, a nos dedicarmos com ardor à sua salvação integral, aceitando sermos “consumidos” por este trabalho”. É descobrir, por meio do coração de Dom Bosco, imenso como as areias das praias do mar, o zelo ardente de Cristo (CGE, n. 91ss.). É enfim escolher de- finitivamente a Cristo e deixar que domine absoluta e exclusivamente em nossa vida, dar-lhe realmente e não só com palavras, todas as nossas forças, inteligência, afetos, saúde, tudo em suma, e sermos felizes por nos sacrificarmos e consumirmos para Ele.

  1. Testemunho de Vida

Mas há ainda outro elemento que é ao mesmo tempo consequência e sinal de uma fé autêntica, especialmente hoje. Pois a fé, que floresce em caridade apostólica, deve ser confirmada pelo “testemunho” da própria vida, para gritar com o exemplo a ver- dade e autenticidade do que nós cremos.

Como vimos, o mesmo Concílio nos convida a fazermos essa revisão, “se o sistema de vida (dos religiosos) constitui testemunho do Evangelho” (AG, 40), e dirigindo-se indistintamente a todo o Povo de Deus afirma: Saibam todos que seu primeiro e prin- cipal dever pela difusão da fé, consiste em viver uma vida profundamente cristã” (AG, 36).

Sem descer a muitos particulares, que serão objeto de determinações que poderão ser estudadas e estabelecidas com pertinência e precisão em nível inspetorial ou local, chamo vossa atenção para três grandes setores nos quais há grande espaço para dar- mos testemunho, e infelizmente também onde há real perigo de contratestemunhos. Por isso é urgente uma corajosa chamada à vigilância, ao exame e à conversão.

Refiro-me à pobreza, ao trabalho e à temperança. Três comportamentos estreita- mente unidos entre si e que eram objeto de constantes preocupações e temores de Dom Bosco. Sobre isso, convido-vos a meditardes as belas e ricas páginas do CGE, no Documento 11, sobre a Pobreza salesiana hoje. Na minha carta sobre a Pobreza, de 1968, encontrareis também abundante matéria para estudo e reflexão. Esse setor da nossa vida é dos mais ameaçados pelo real perigo do aburguesamento. Penetra insen- sivelmente, sem que percebamos, como que introduzido pelo nível de vida e bem- estar dos que nos rodeiam, às vezes justificado por especiosas razões de progresso, comodidade de trabalho, vantagem para o apostolado etc. E quando paramos para refletir sobre a nossa vida, libertando-nos com sinceridade de um padrão burguês de vida, libertando-nos com sinceridade de certos mecanismos de defesa, acontece que nos vemos mergulhados num padrão burguês de vida, tiranizados por mil exigências e comodidades, indolentes e frouxos, sem ardor espiritual, escravos de muitas ten- tações, sob a reprovação torturante que fazemos a nós mesmos da nossa incoerência, mas sem forças para nos libertarmos, numa insensível esterilidade apostólica.

No sonho de 1881, Dom Bosco resumiu em três palavras (mas como são palavras cheias de significado!) os elementos do aburguesamento: “lectus, habitus, potus”. Vi-ce-versa, nas predições que faz sobre o futuro da Congregação, nada põe tanto em relevo quanto o trabalho e a temperança. Faz praticamente depender deles o desen- volvimento, a vida e a sobrevivência da nossa Sociedade. Recordemo-nos das palavras do seu testamento espiritual: “Quando começarem entre nós comodidades ou fartura, nossa Pia Sociedade terá terminado sua carreira” (MB XVII, 272). São palavras que de- vem fazer tremer todos os que na Congregação percebem que são portadores desses elementos necrosantes. Para Dom Bosco o perigo do aburguesamento não era só ima- ginário. Já em 1876 se lamentava: “Vejo uma tendência para o bem-estar tão acentua- da que me assusta...” (MB XII, 383).

E conversando com o P. Barberis: “São três as causas que arruínam as Congrega- ções: a primeira é a ociosidade, o trabalhar pouco. É deveras preciso que nos propo- nhamos trabalhos superiores às nossas forças, e oxalá assim não se chegue a fazer tu- do o que se pode”. “A segunda causa é a busca ou o excesso das comidas e bebidas. Ai de nós quando se introduzissem os costumes de termos nos quartos garrafas, licores, biscoitos e doces!... Ai de nós quando à mesa se começasse a querer isto e mais aquilo. Já corremos muito por este caminho e isso me enche de medo” (MB XII, 384).

Bem sabem todos quão frugal era o teor de vida no Oratório em 1876. Tenhamos coragem de perguntar o que é que diria Dom Bosco do nível atual de trabalho e tem- perança de muitas comunidades nossas e tiremos as devidas e salutares conclusões.

O “Scrutinium paupertatis” é sobre isso uma operação de “salvação pública” que se deve fazer, também periodicamente, com coragem cheia de vigor. A visão de fé, a ca- ridade apostólica e o testemunho de vida pobre e laboriosa devem florescer, salesia- namente, na “alegria”: manifestação da harmonia interior, da realização e transparên- cia do amor de Deus.

O missionólogo P. Masson falando da Igreja missionária diz que ela deve ser de mo- do especial “esperança”. E acrescenta: “o nosso mundo atual, apesar de suas fábricas, arsenais, universidades, laboratórios, planejamentos aparece por vezes como um mundo triste, que vive, mas não se sabe quais sejam as razões da vida... Cabe às mis- sões levar-lhe a alegria e a esperança de uma vida eterna, a promessa de uma ressur- reição” (Conf. Stampa per la giornata missionaria, 1968).

O nosso CGE, na mesma linha, mas com acentuação salesiana, assim se exprime no documento 3 “Evangelização e Catequese”: “A fé é fonte de alegria, e esta, prova da fé. Deve ser caraterística da catequese a alegria testemunhada no trabalho, na liturgia, na dor, na Comunidade, na vida. Ela deve fazer sentir que o Evangelho é o sopro vital de esperança... É preciso redescobrir o genuíno espírito de Dom Bosco que fazia os Salesianos e os jovens sentir a fé como “felicidade” (CGE, n. 327s.).

 

Sugestões para o relançamento Missionário

Peço-vos também um esforço generoso, enérgico para um novo e real impulso da nossa ação missionária. “O Capítulo Geral Especial lança um apelo a todas as Inspetori- ais, mesmo às mais pobres de pessoal, para que, em obediência ao convite do Concílio e consoante o ousado exemplo do nosso Fundador, contribuam com pessoal próprio, definitiva ou temporariamente, para o anúncio do Reino de Deus” (CGE, 477).

Repito hoje este apelo a toda a Congregação. Não deve ficar letra morta, ou ser um momento de entusiasmo capitular, que se esquece depois rapidamente perante o que se julga mais urgente, talvez só porque mais imediato ou porque nos interessa mais de perto. Não é necessário que vos recorde quão grande seja a necessidade de apóstolos em nossos postos avançados de missões. Todos vós bem o sabeis. Mas o que vos estou pedindo não deve só provir de um motivo técnico ou de organização, de uma pura estratégia: distribuição de forças. Deve ser mais profunda a razão que vos leve a vos mover, e que estimulou Dom Bosco, em 1875, quando a Congregação não contava senão com 171 salesianos, a enviar os primeiros dez missionários: o zelo autêntico pela salvação das almas. Diria que uma Comunidade Inspetorial e mesmo local não deve ficar tranquila se não colabora efetivamente, com real contribuição de pessoal e de vocações para a difusão do Reino de Deus em terras de Missão. É como se lhe faltasse alguma coisa... Ao mesmo tempo devo dizer-vos que é índice alarmante o número, cada ano menor, dos que podemos enviar às missões. Este ano serão apenas vinte.

Dom Bosco enviava os melhores

Conheço a objeção — aceitável em plano puramente humano — que me podem fa- zer: Não temos pessoal suficiente para sustentar as obras da Inspetoria, como pensar- mos em enviá-lo às Missões? Ou então: Se são os melhores que pedem para ir, como podemos empobrecer assim qualitativamente as nossas Comunidades? Ou ainda: Cada Inspetoria deve arranjar-se com os meios de que dispõe, fazer fogo com a própria le- nha; limitem-se então as atividades conforme as disponibilidades de pessoal nativo...

Em todas essas objeções e em outras semelhantes há elementos objetivamente verdadeiros e plausíveis sob certos aspectos, mas que nascem de uma perspectiva que evidentemente não é inspirada pela fé e pela caridade apostólica. Permiti-me, pois, que procure fazer-vos ver como esse problema era visto e julgado por Dom Bosco e pelos seus sucessores imediatos, com as palavras e com os fatos, a fim de que vós mesmos possais claramente conhecer a visão com que se deve olhar salesianamente para esse ponto, que, aliás, é a mesma visão do Concílio Vaticano II e do nosso CGE.

Dom Bosco, como sabemos, escolheu os seus primeiros dez missionários entre os melhores. Particularmente significativos, a esse respeito, são os pormenores da esco- lha do P. Cagliero. Lemos nos Anais: “Muitos salesianos pediam para serem escolhi- dos... O P. Cagliero, laureado em teologia pela Real Universidade de Turim, era profes- sor de moral dos clérigos do Oratório, Diretor Espiritual de vários institutos religiosos da Cidade, maestro insuperável e compositor fácil, tinha em mãos negócios delicados da Casa. Assim, ninguém e ele menos que qualquer outro pensaria poder afastar-se por pouco que fosse. Entretanto Dom Bosco pôs os olhos precisamente nele... ” (Anna- li, I, 252-53). E nas expedições que se seguiram continuou enviando salesianos de gran- de envergadura: Fagnano, Costamagna, Lasagna, Vespingnani etc. Escutemos o P. Ri- naldi: “Eram os melhores sustentáculos dos seus florescentes oratórios e Colégios de então, de modo que privar-se deles para enviá-los às Missões, era-lhe grande sacrifício, pois dispunha de pouquíssimo pessoal. Mas fê-lo serenamente e sem nenhuma hesita- ção” (ACS 6, p. 368).

Podia parecer temeridade despovoar assim casas incipientes. Alguém lhe fez reparo neste sentido. Dom Bosco, na noite de 10 de dezembro de 1875, assim manifestou o seu pensamento ao Capítulo Superior: “Quanto à Congregação, embora se vá repetin- do que é necessário nos consolidemos, vejo que se se trabalha muito, as coisas andam melhor. A consolidação se pode fazer mais lentamente, mas será talvez mais duradou- ra. E nós estamos vendo de olhos fechados: enquanto há este grande movimento, na- vegamos a velas enfunadas e vê-se mesmo nos membros da Congregação grande de- sejo de trabalhar” (MB XI, 409).

Primeiro resultado: aumentavam as vocações

O primeiro grande resultado das Missões da América reverteu precisamente em vantagem de toda a Congregação: começou a ser conhecida também no estrangeiro, aumentavam as vocações em proporção extraordinária e com ritmo quase vertiginoso se iniciaram novas fundações. É interessante seguir essa maravilhosa explosão, pelas cartas de Dom Bosco ao P. Cagliero e aos seus filhos da América. São notícias breves e nervosas em que quase se sente o espanto de Dom Bosco diante de tão maciças inter- venções da Providência.

Dou-vos alguns exemplos. É sempre bonito ouvir a nossa história dos mesmos lábios do Pai. Carta ao P. Cagliero de 18 de setembro de 1876: “... Grande fervor para irem às Missões: advogados, escrivães, párocos, professores pedindo para se fazerem salesia- nos ad hoc” (Ep. III, 95).

Em 30 de novembro de 1876, ainda ao P. Cagliero: “Escuta a bela história. Seis sa- cerdotes partem para a América, outros seis sacerdotes entraram na Congregação. Sete clérigos os acompanhavam e sete clérigos pedem para entrar e entram real- mente. Doze coadjutores devem ir para a América, Albano, Trindade. Doze novos co- adjutores mui zelosos fizeram o pedido e foram aceitos. Vês como Nosso Senhor guia as nossas empresas?” (Ep. III, 121).

Noutra carta acrescenta: “Se visses com teus olhos o que faz a nossa Congregação, dirias que são fábulas. Que Deus nos ajude a corresponder” (Ep. III, 102; 13 de outubro de 1876).

Verdade é que Dom Bosco se servia de qualquer circunstância para “inflamar o zelo e entusiasmo dos seus filhos, para reforçar a união dos jovens salesianos, mas nessa expansão extraordinária e nessa virada quase repentina da Congregação havia sem dúvida algo de maravilhoso. No sermão de despedida que Dom Bosco fez aos missio- nários encontramos palavras que têm o tom de profecia: “ ... Damos assim início a grande empreendimento, não porque tenhamos pretensões ou creiamos converter o mundo inteiro em poucos dias, não; mas quem sabe não seja esta expedição e este pouco uma como semente de que venham a nascer grandes árvores? Quem sabe não seja como o grão de milho ou de mostarda, que se vai estendendo pouco a pouco, pa- ra fazermos grande bem? Quem sabe essa expedição não tenha despertado no cora- ção de muitos o desejo de se consagrarem a Deus nas Missões, unindo-se a nós e re- forçando as nossas fileiras? (MB XI, 383).

O efeito a que já nos referimos ficou indelevelmente gravado no ânimo de seus fi- lhos e sucessores, que em se tratando de Missões, seguiram a mesma linha de audácia, generosidade, confiança total em Nosso Senhor, que saberá suscitar — Ele que é dono da Messe — substitutos em abundância em lugar dos missionários que partem. Para confirmá-lo bastaria recordar as mais de cem expedições de Missionários, algumas das quais superaram os duzentos.

 

Uma objeção: falta de pessoal

Mas ouçamos a palavra do P. Albera que, em 1920, nas dificuldades e falta de pes- soal do penoso pós-guerra, exortava as Inspetorias a serem generosas — sem medida

  • com as Missões. “Preparai muitos e bons missionários” era a sua palavra de ordem. Mas algum de vós dirá: Como atender a este apelo, se não temos nem sequer pessoal suficiente para as nossas Inspetorias?”.

“Respondo: precisamente para que possais ter pessoal abundante para as Inspe- torias que vos foram confiadas, é que vos digo: preparai muitos e bons missionários! Quanto maior o número dos Missionários que uma Inspetoria puder enviar às longín- quas Américas, entre os infiéis da Terra do Fogo, Patagônia, Paraguai, Brasil, Equador, África, Índia, China e aonde quer que tenhamos missões, tanto mais numerosas e pre- claras serão as vocações que Nosso Senhor há de dar a essa Inspetoria.

“Não é uma simples afirmação retórica: é o pensamento genuíno do nosso Venerá- vel Pai. Pois ele, a quem, ao vê-lo tirar dos seus colégios os elementos melhores para preparar as primeiras expedições de Missionários, lhe observava que agindo desse modo seria obrigado a reduzir as casas por falta de pessoal adequado, respondia com a mais profunda convicção: “Coragem! Nosso Senhor, para cada um dos missionários, nos mandará certamente duas boas vocações e mais ainda”.

E que assim fosse realmente no-lo atestou o venerando P. Rua, que durante todo o seu longo reitorado nunca deixou de excitar nos seus filhos, a exemplo do Pai, o amor pelas Missões preparando anualmente alguma expedição de Missionários” (Lettere Circolari, p. 327s.).

 

Outras formas de trabalho Missionário

Caríssimos, o exemplo e a palavra do nosso Pai e o unânime e constante sentir da nossa tradição devem levar-nos a acolher com ânimo confiante e disponível o meu convite e olhar com olhos iluminados de fé e cheios de esperança para o futuro. De maneira mais concreta dirijo-me a cada um dos irmãos aos quais Nosso Senhor fizesse ouvir o seu chamamento para anunciar em postos avançados o Reino de Deus, para que se tornem no seu coração disponíveis e dóceis à voz de Deus. Espero que para o próximo ano possamos contar com belo número de generosas ofertas missionárias provindas de diversas Inspetorias. É claro que esta vocação especial não pode ter outro movente senão o da fé, do amor de Deus e do zelo apostólico. Não pode ser um mo- tivo de evasão, uma curiosidade, uma viagem turística ou científica.

Qualquer motivação puramente humana tornaria falso pela raiz o que é e deve ser sempre uma altíssima opção de Deus, feita só por Ele. Cada um deve, com o auxílio do confessor e dos próprios superiores, fazer este trabalho de discernimento. Mas uma vez certo de que é Deus que chama, não se deve “fechar o coração” por causa de mo- tivações ou interesses que estão fora do campo da fé.

Dirijo-me também a vós, caros Inspetores, para pedir-vos, no espírito de correspon- sabilidade e comunhão que inspira as nossas estruturas de governo, que nos ajudeis a carregar a “solicitude”, o peso e a responsabilidade desse mandato, qual é anunciar o Reino nas posições de fronteira.

Peço-vos antes de tudo generosidade leal em favorecer, mesmo a custo de grandes sacrifícios, quem deseja seriamente ir para as Missões.

Mas é evidente que o nosso trabalho não se pode reduzir somente nisso.

Por isso, quereria convidar, através dos Inspetores, todas as Comunidades a que demonstrem concreta e sistematicamente o sentido da solidariedade fraterna para com as Missões, para-missões e obras carentes de ajuda econômica. É verdade: Inspe- torias há que demonstram sensibilidade e generosidade edificantes e admiráveis. So- mos-lhes todos reconhecidos também pelo exemplo que dão. Parece-me, porém, que outras há que participam pouco dessa ação duplamente fecunda. A solidariedade con- creta para com os irmãos que vivem, trabalham e sofrem além dos limites do nosso pequeno mundo, é, de fato, um modo muito eficaz para interessar utilmente e alargar a visão dos irmãos aos problemas da Comunidade mundial que é a Congregação no seu conjunto. Os tempos fortes do ano litúrgico, a Quaresma de modo particular, convém valorizá-los para esse fim mediante tempestiva e programada sensibilização. E os ir- mãos, como ensina a experiência, saberão responder mesmo com sacrifício, com a generosidade que é fonte de alegria para quem dá e não menos para quem recebe.

Mas o que acima de tudo importa é suscitar na própria Inspetoria clima de elevado fervor missionário, verdadeiro, entusiasmo pela ação missionária. Esse é o fim de toda a minha carta, e esse também o escopo que nosso CGE se prefixou, lançando este en- carecido apelo à Congregação. Não se trata de resolver problemas de pessoal, mas de colocar toda a Congregação no clima espiritual de quem verdadeiramente vive para o Reino de Deus, sente profundamente as suas urgências e é capaz de empenhar a pró- pria vida para que Cristo seja anunciado.

Que me seja ainda permitido citar o P. Albera, que insistia com os Diretores e Inspe- tores a fim de que o ajudassem a dividir tamanho peso, empenhando-se grandemente pelas nossas missões. Dizia-lhes: “O vosso trabalho se estenda aos outros, quer falando sempre com entusiasmo, das nossas Missões, evitando repetir “pode-se ser missioná- rio em toda a parte” (porque isso é de todo errado para quem for chamado ao Aposto- lado); quer com economias reservadas em favor das Missões ou recolhendo a pequena esmola dos nossos jovens ou a oferta generosa dos Cooperadores.

“Muitas casas se lamentam de que não recebem mais ofertas. A verdadeira causa talvez não esteja na falta de benfeitores, mas em ter querido encaminhar todas as ofertas e esmolas para as necessidades locais, sem se preocupar com as Missões...” (Lettere Circolari, p. 136).

O CGE apresenta pistas preciosas, que deveriam ser objeto de estudo aprofundado e reflexão e programação por parte das comunidades locais e Inspetoriais. Releiamos junto algumas delas.

“A fim de favorecer a graça da renovação em toda a Congregação, vivam os salesia- nos o espírito missionário em seu trabalho cotidiano e estejam em generosa disponibi- lidade ao eventual chamamento de Deus para trabalhar nas Missões”.

Cumpre alimentar em nossas obras o FERVOR MISSIONÁRIO. Desde a primeira forma- ção, dê-se aos salesianos jovens (acrescento, não só aos salesianos, mas ainda aos nossos melhores alunos, aos jovens dirigentes das nossas associações, etc.), dê-se de for- ma objetiva, mas atraente a perspectiva do ideal missionário, esclarecendo o seu con- teúdo. Difunda-se o conhecimento das obras missionárias da Congregação, promoven- do a admiração por elas. (O Boletim Salesiano, infelizmente posto de lado em muitos lugares, é meio eficacíssimo para essa finalidade. Procure-se tornar fácil a sua leitura não só entre os irmãos, mas também entre os jovens, os benfeitores, etc.). Estude-se a história e a figura dos grandes missionários. Mas acima de tudo se cultive o zelo missi- onário e o espírito sobrenatural de generosidade, base de qualquer vocação missioná- ria” (CGE, 476).

E entre as DIRETRIZES PARA A AÇÃO se diz:

  • “Os Inspetores sejam generosos em conceder permissão aos que a pedem e têm os requisitos necessários para o trabalho nas Missões;
  • As Inspetorias cultivem as vocações missionárias, apresentando a Congregação como Congregação missionária e garantindo aos jovens de boa vontade a oportunida- de de realizarem o seu ideal missionário;
  • As comunidades se empenhem em conhecer os problemas missionários da Igreja e da Congregação; cultivem em casa um verdadeiro espírito missionário; preocupem- se em criar um clima favorável às vocações e em programar iniciativas em favor das Missões” (CGE, 480).

 

Os tempos exigem uma “nova história”

Deveria agora dirigir-me diretamente aos nossos caríssimos e destemidos missioná- rios que trabalham com humildade que iguala a sua dedicação em tantos territórios, em meio a dificuldades, privações e sacrifícios às vezes verdadeiramente heroicos, en- frentados com a serenidade que deriva de confiança em Deus e da fidelidade à própria vocação. Mas estou vendo que esta minha já longa carta se prolongaria demais. Por outra parte com a criação de um órgão inteiramente dedicado às missões, esperamos ocupar-nos com método e constância dos problemas missionários, que não são só problemas de pessoal e recursos materiais, mas que se referem também e antes de tudo à vida dos missionários, especialmente espiritual, à preparação cultural e eclesial e ao específico ajornamento pastoral deles.

São todos empenhos que vemos serem urgentes e que, com a graça de Deus, serão enfrentados na medida em que o órgão das Missões se fôr organizando. O Superior responsável, P. Tohill, que por muitos anos foi missionário na China, que bem conhece muitos lugares de missão com os respectivos problemas, já está trabalhando e espe- ramos que logo nossos missionários comecem a perceber os frutos da sua ação dirigida mais que tudo, como é óbvio, aos interesses da pastoral missionária. Entretanto os responsáveis pelos lugares de Missões, especialmente através de Capítulos Inspetori- ais, têm como realizar in loco tantas valiosas diretrizes para a ação, indicadas no Do- cumento do CGE sobre as Missões.

O P. Ceria, referindo-se ao efeito produzido pelo anúncio da primeira expedição missionária, no Oratório, anota: “...Viram-se multiplicar as vocações ao estado ecle- siástico, aumentaram também sensivelmente os pedidos para entrar na Congregação e novo ardor de apostolado empolgou a muitos que já estavam nela” (MB XI, 148). E escreve nos Anais: “Começava de verdade para o Oratório e para a Sociedade Salesiana uma nova história” (Anais I, 249).

Caríssimos, vivemos em tempos que exigem de cada um de nós e da Congregação inteira uma nova história: de renovação espiritual, pessoal, de entusiasmo, de genero- sidade, de ação apostólica. É questão de fidelidade à nossa vocação!

À redescoberta de tão grandes valores admiráveis que o CGE fez, deve seguir-se mediante nossa vida e ação o raiar dessa “nova história”. Um caminho garantido para essa “nova história” como vimos, é o das Missões.

Unamo-nos todos, sob o nome de Dom Bosco e sob o impulso renovador e conquis- tador do Espírito Santo, para percorrê-lo juntos com o ardor e a coragem de nosso Pai.

E que Nossa Senhora Auxiliadora nos acompanhe sempre! Afeiçoadíssimo em Dom Bosco,

Luís Ricceri
Reitor-Mor.

 

 

A MENSAGEM DO PADRE RUA

Luís Ricceri

Atos do Conselho Superior 268

Foi o servo fiel. – Acreditou na santidade de Dom Bosco. – Se estivesse hoje no timão. – A fidelidade é atual. – Foi o salesiano todo de Dom Bosco. – Caridade de pastor. – Trabalho e temperança. – A man- sidão. – A amabilidade. – Duas predileções. – Quis a Congregação “missionária”. – Solicitude pelos Cooperadores. – Amor aos Ex-alunos. – A sua mensagem para os anos ’70. – Se tive dez como o Padre Rua. – Com os operários. – Um convite em nome do Padre Rua. – Ser fiéis hoje.

Roma, 1º de outubro de 1972

Irmãos e filhos caríssimos,

Já tendes conhecimento da notícia jubilosa: no último domingo deste mês, exata- mente no dia 29, o primeiro sucessor do nosso pai, o Padre Miguel Rua, na basílica de São Pedro, em Roma, receberá do Sumo Pontífice a auréola dos Bem-aventurados.

O acontecimento é certamente motivo de grande alegria em nossa família por tudo o que ele representa para nós. Mas, precisamente por isso, não podemos fazer dele ocasião de um triunfalismo superficial.

A Beatificação do Padre Rua com celebrações que em toda a parte serão feitas nos próximos meses não se devem esgotar e desfazer como fogos-fátuos de satisfação passageira. Além do mais, a mesma figura de santidade do novel Bem-aventurado nos convida e impele a que nos empenhemos a fim de que a beatificação de quem teve a sorte e o mandato de partilhar “pela metade” com o nosso Pai, seja para nós portado- ra de frutos. Esses frutos devem tornar concretamente fecunda a renovação corajosa com que solenemente nos comprometeu o Capítulo Geral Especial.

É claro que o modo mais garantido e eficaz para atingir essa meta é parar e olhar para Ele, Padre Rua, para a sua personalidade de salesiano santo, de sucessor e conti- nuador da missão de Dom Bosco no mundo. Coloca-o a Igreja no candelabro e propõe- no aos fiéis, primeiramente a nós, como imagem concreta de santidade.

As nossas Constituições renovadas afirmam que a Igreja se preocupou com “garan- tir a autenticidade da vida evangélica que escolhemos” (art. 200). A Beatificação do Padre Rua é uma nova prova da vontade da Igreja: reconhecer a face evangélica da nossa vocação salesiana e manifestar a força santificadora do dom que o Espírito Santo deu a Dom Bosco para que a seu derredor crescesse uma família espiritual.

Olhar para o Padre Rua quer dizer adquirir o conhecimento pessoal dele e fazer nossa a sua mensagem de atualidade, mensagem que brotou de uma vida toda inteira de verdadeiro “Salesiano de Dom Bosco”.

 

FOI O SERVO FIEL

Infelizmente a figura do Padre Rua, em muitos pontos, chegou-nos alterada de ma- neira estranha, fruto mais de impressões pessoais do que de documentos e estudos objetivos.

Todo membro da nossa família deve por isso sentir o dever de pesquisar nas fontes genuínas que lhe deem um conhecimento autêntico deste grande salesiano que em certo sentido foi o segundo Pai da Congregação.

É verdade que a bibliografia do Padre Rua não é muito rica e quase toda em língua Italiana. Faço votos que, fora da Itália, se traduzam, como já se fez em algumas nações, ao menos as publicações mais expressivas e, se possível, publiquem-se obras novas, explorando também os quatro volumes in fólios dos processos Canônicos.

Do conhecimento direto e completo do Padre Rua verificaremos o caráter excepci- onal e a grandeza de quem fora destinado pela Providência a receber e entesourar a herança, preciosa, mas difícil que Dom Bosco lhe deixou. Compreendemos que o Padre Rua é o homem da fidelidade até ao heroísmo. Preocupou-se sempre em transmitir inteira a mensagem de Dom Bosco e soube empenhar a sua forte personalidade no ideal do salesiano, tal como foi ideado e encarnado pelo santo Fundador.

Depois da morte de Dom Bosco, com a ascendência que todos lhe reconheciam, foi o continuador convicto do estilo do Pai e principalmente do seu espírito. Não foi por nada que, ajoelhado diante dos despojos de Dom Bosco, sentiu o impulso de se empe- nhar – com todo o seu ser – na fidelidade mais absoluta.

Assim é que faz aos salesianos esta confidência: “Prostrado ante os frios despojos, chorei, rezei, por muito tempo... Para falar a verdade devo acrescentar que fiz ao nos- so bom Pai uma promessa solene. Já que me via obrigado a recolher a herança que deixou e pôr-me à frente da Congregação que é a maior das suas obras e que lhe cus- tou tamanhas canseiras e sacrifícios, prometi-lhe que a nada me pouparia para con- servar intacto, por quanto de mim dependesse, o seu espírito, os ensinamentos e até as mais pequeninas tradições da sua família. Passaram-se já 19 anos (escrevia em 1907) desde aquele dia inesquecível e em os indo lembrando ( . . . ) experimento um conforto grande ao ver que, graças a Deus, parece-me nunca ter faltado às promessas que fiz. E se tivesse corrido perigo de me esquecer, bem me teria recordado o sapien- tíssimo Papa Leão XIII, que várias vezes e com energia fora do comum inculcou deves- sem os salesianos conservar ciosamente o espírito do Fundador. Nem de outro modo falou Pio X...” (Dom Rua, lettere circolari, ed. 1965, p. 431).

 

Acreditou na santidade de Dom Bosco

A fidelidade, como a coragem, não se pode impor: deriva de circunstâncias particu- lares de natureza ou de ambiente. A fidelidade do Padre Rua nasce da estima e da na- tural confiança sem limites para com Dom Bosco, pois sabia que era dotado de caris- mas extraordinários, sabia que era homem de Deus.

Meros dotes naturais, mesmo se eminentes, podem agrupar em torno de um chefe uma companhia heroica de soldados ou poderosa equipe de técnicos, nunca, porém, uma família religiosa que desafie os séculos.

Dom Bosco, soube ser homem soberanamente dotado, tinha todos os predicados do “mensageiro de Deus” – legatus Dei – com as patentes relativas de autenticidade. Para compreender a magia que despertava nos jovens e no povo, mas de modo parti- cular nos primeiros salesianos, que se devotavam a “ficar com ele” por toda a vida, é preciso que meçamos a sua personalidade à luz do sobrenatural. Ao lado de seguido- res por demais jovens como Cagliero, Fagnano, Lasagna, Costamagna, que poderiam passar por “garibaldinos” entusiasmados com um cabeça audaz e brilhante, encontra- mos de fato homens maduros igualmente prontos às suas ordens, como o Conde Cays, o P. Alasonatti, o P. Lemoyne, também eles entusiasmados e prontos como os mais jovens. A explicação profunda de semelhante afeição que toca as raias do culto, encon- tramo-la exatamente na santidade do chefe. E é por isso que nunca se poderá dissecar um Fundador com meros critérios científicos.

O Padre Rua, de modo particular estava tão persuadido da santidade de Dom Bosco e da sua missão de educador, enviado e guiado por Deus, que, desde 1860, quis orga- nizar uma comissão de irmãos os quais, chefiados por João Bonetti, recolhessem pala- vras e fatos do Pai e Fundador. Será ainda o Padre Rua que em 1874 estabelecerá uma segunda comissão dirigida pelo P. Lemoyne, com a mesma finalidade. Desta vez com o consentimento do próprio Dom Bosco que sabia “não ter dado um passo sem inspira- ção de Nosso Senhor”.

Concluindo podemos dizer que o nosso Beato, com os primeiros salesianos, consa- grou a sua fidelidade a um “espírito” evangélico que todos reconheciam fora dado pelo Altíssimo ao seu pai e amigo – Dom Bosco.

Hoje a crise da fidelidade à vocação muitas vezes é crise de estima do Fundador: esquecemo-nos de que é também uma alma privilegiada a quem o Espírito Santo con- cedeu dons destinados a constituir um patrimônio de valores permanentes que varam os tempos.

 

Se ele estivesse no leme hoje

A Igreja, na qual e para a qual é dado todo carisma, é o árbitro supremo da autenti- cidade de qualquer projeto evangélico.

Ela aprovou oficialmente as nossas Constituições; canonizou Dom Bosco, Madre Mazzarello, Domingos Savio; agora declara Beato o Padre Rua e de mil modos confir- mou a genuinidade do patrimônio espiritual de Dom Bosco. A Igreja é a tesoureira e reguladora dos carismas e, ao mesmo tempo, a tutora autêntica do espírito de todas as famílias religiosas.

O Padre Rua conheceu e amou essa verdade, em meio mesmo a agudos sofrimen- tos. Se tivesse hoje ele o leme da Congregação, podemos ter certeza de que seria exemplo de docilidade à Igreja que aos Institutos Religiosos pediu o ajornamento das Constituições e da forma de vida segundo as orientações do Concílio Vaticano II.

E o Padre Rua teria apreciado o esforço do nosso Capítulo Geral Especial que apro- fundou com inteligência e fidelidade a missão e o espírito de Dom Bosco; rejubilar-se- ia com as novas Constituições enriquecidas do autêntico “espírito primitivo” e anima- das quase a cada página pelo nome e pela palavra do nosso santo Fundador e Pai.

A Igreja precisa de fidelidade: a fidelidade das pessoas e a fidelidade dos Institutos. Uma e outra resplandece no Padre Rua: quis com todas as suas energias que a sua pes- soa e a Congregação vivessem com fidelidade absoluta ao espírito de Dom Bosco, bem sabendo que a Igreja necessita do testemunho específico próprio de cada família reli- giosa.

Um dos slogans mais habituais de Paulo VI aos religiosos: “Sede o que sois”, deve- mos fazê-lo nosso como “Salesianos”. É sempre o tema da fidelidade que nos deve estimular. A Beatificação do Padre Rua não só no-lo repete, mas no-lo chama. Se al- guém houve que foi sempre igual a si mesmo”, desde a idade dos oito anos aos seten- ta e três, sempre com Dom Bosco e de Dom Bosco, sempre em atitude de dócil escuta, foi o novo Beato, apelidado, certamente não por retórica, “a regra viva”.

 

A fidelidade é atual

Em tema de fidelidade permiti-me outra reflexão de aprofundamento numa hora que se nos apresenta assinalada, como hoje se usa dizer, por uma crise de identidade. Esse aprofundamento servirá para olhar a figura do Padre Rua sob um ponto de vista de atualidade e de necessidade urgente.

Diz-se que a fidelidade é o “atributo maior de Deus” (Leon Dufour); toda a história da salvação está sempre condicionada pela “fidelidade à Aliança”.

A vida do povo de Deus e, por isso, a nossa também, será julgada segundo a fideli- dade ao batismo que para nós implica na fidelidade à profissão religiosa. O Paraíso é com efeito, a pátria do “servo fiel” por quanto “fiel no pouco” tenha sido.

A fidelidade, considerada nos santos, é constância de amizade; é a adesão definitiva a uma Aliança de salvação. Olhando para o Padre Rua, podemos dizer que a fidelidade implica o conhecimento de Jesus como amigo, a união com Ele num pacto vocacional, a garantia interior da permanência e atualidade contínua dos valores dessa aliança, o compromisso de lhes defender a integridade e de manifestá-los aos outros num tes- temunho de vida.

Tal fidelidade só pode ser expressão de marcante personalidade, porque exige o exercício contínuo das atividades humanas mais características: inteligência, liberdade, amor, disciplina da vida.

Para ser “fiel” é necessária uma inteligência que descubra os valores; uma liberdade que saiba empenhar-se numa opção fundamental; um coração capaz de fundir a per- manência dos valores de ontem com a novidade dos valores de hoje; uma disciplina de vida que encarne o todo de forma realística de acordo com as exigências de uma pe- dagogia da existência.

É verdade que a liberdade humana tem a característica de dizer hoje o que decidiu ontem, pois que, em todo horizonte psicológico, acontecimentos e sinais do tempo podem trazer novidades que arrastam. Mas o homem é também capaz de se defender das inundações repentinas das torrentes.

Por outro lado, a medida de uma personalidade e o sentido último da grandeza da liberdade não podem jamais consistir na indiferença da escolha, isto é, em poder tro- car sempre de decisão. A grandeza de uma pessoa está no fato da escolha de um valor verdadeiro e no empenho de realizá-lo em sua vida. De fato, manter abertas continu- amente as possibilidades de escolha significa não se empenhar nunca realmente em nenhuma delas, querer de coração valor algum, acomodar-se num relativismo indefi- nido, não mais acreditar em nenhuma escolha definitiva. Tal atitude de indiferença pode-se explicar no momento que precede a decisão, mas não pode jamais constituir a grandeza de uma pessoa, nem a ocupação da sua vida.

No Padre Rua a sua vocação salesiana se manifesta como a opção fundamental que define historicamente a sua liberdade. A fidelidade ao propósito que escolheu e a consciência de pertencer à Congregação dão a medida da grandeza da sua personali- dade.

Devemos acrescentar, ao olharmos para este nosso modelo concreto, que a fideli- dade é conquista cotidiana, nunca estática ou definitiva; parece antes como uma espé- cie de desafio sempre vivo e novo nos horizontes do espírito, principalmente quando se vive numa época de mudanças.

Pois a fidelidade não se reduz a mera repetição: não se trata de repetir o que se  tem de fazer de qualquer maneira. Quem é fiel deve sempre evitar o perigo da involu- ção materialmente conservadora, que confunde imobilismo com fidelidade. Mas tam- bém deve evitar o deslumbramento de um progressismo superficial que adultera a fidelidade enquanto nutre o espírito de relativismo e naturalismo.

Em nossas Constituições renovadas temos um capítulo que nos ajuda a refletir so- bre o sentido da nossa fidelidade, que é “esforço constante de renovação” e “dinâmica de ajornamento permanente”; “participação na paixão de Cristo” e empenho em “usar com humildade dos meios de defesa contra a nossa fraqueza” (art. 118 e 119).

Inteligência, liberdade, amor, disciplina são os componentes essenciais de uma fide- lidade que olha para a morte pessoal de cada um como para o ato mais expressivo do testemunho que sanciona de modo definitivo a aliança vivida. A morte do Padre Rua não se nos manifesta simplesmente como a coincidência cronológica de permanência da vocação salesiana com o fim da sua vida, mas como a expressão suprema (o teste- munho ou o “martírio”) da opção fundamental da sua liberdade e do seu amor a Jesus Cristo no espírito de Dom Bosco.

Com razão dizem-nos as Constituições renovadas: “A doença e a enfermidade da velhice, aceitas com fé, são para o Salesiano tempos especiais de fidelidade (art. 121) e a hora da morte é considerada como “o momento de dar à sua consagração o remate supremo” (art. 122).

Penso, e muitas vezes com angústia, que temos hoje necessidade especial da lição de fidelidade que o Padre Rua nos deu com tamanha eloquência, a fim de descobrir- mos pessoal e comunitariamente que para sermos fiéis temos que fazer exercícios de inteligência espiritual, de opção leal de pertença, de amor apostólico e de disciplina varonil.

Oxalá identifiquem todos os irmãos a própria profissão perpétua com a verdadeira opção fundamental da sua existência e floresça em todas as comunidades a consciên- cia da atualidade dos nossos valores vocacionais e uma industriosa e válida ascese de acordo com as exigências do espírito de sacrifício salesiano.

 

FOI O SALESIANO TODO DE DOM BOSCO

Permiti-me fazer agora convosco a chamada prova dos nove, confrontando alguns dos mais característicos elementos do patrimônio salesiano com a realização deles na vida do Padre Rua, “o salesiano fiel”.

 

Caridade de pastor

“O centro do espírito salesiano, dizem-nos as Constituições renovadas, é a caridade pastoral” (art. 40). Toda a vida de Dom Bosco é permeada pelo sentido de Deus tradu- zido em afã pela salvação principalmente dos jovens: “almas e nada mais”.

O Padre Rua entendeu isso à maravilha. Na carta circular de 24 de agosto de 1894 escreve: Dom Bosco não deu passo, não disse palavras, não pôs mão em empresa al- guma que não tivesse por mira a educação da juventude... Dom Bosco de fato não teve a peito senão e só as almas. Disse-o com os fatos e não só com palavras: “Da mihi ani- mas, caetera tolle”.

Nos aposentos de Dom Bosco ainda hoje há dois quadros com os dois slogans da espiritualidade salesiana. São talvez os mais antigos entre todos os cimélios de Val- docco. O primeiro é o mesmo que chamou a atenção de Domingos Savio e serviu de assunto ao primeiro diálogo entre mestre e discípulo: “Da mihi animas...”. O outro, que está ainda no batente da porta de entrada diz: “Só uma coisa é necessária, salvar a alma”. E Dom Bosco conseguira viver e fazer viver a seus filhos esses dois slogans, de maneira que fossem a mola de sua atividade apostólica durante a vida e o último e mais espontâneo argumento de reflexão também no leito de morte. A atividade prodi- giosa do Padre Rua que parece contrastar tanto com a sua figura delicada e com a sua saúde sempre precária, só tem aqui a sua explicação, nos dois slogans da doutrina es- piritual de Dom Bosco.

A paixão pelas almas, tanto em Dom Bosco como no Padre Rua, não foi jamais um álibi para descuidar os valores terrestres de promoção humana. Pelo contrário, estimu- lou-o a multiplicar e fazer multiplicar iniciativas, meios e modos para acudir as neces- sidades materiais, intelectuais e sociais da juventude pobre.

Mas o Padre Rua não se esquece de que, como filho de Dom Bosco, trairia a sua vo- cação se não a encarnasse em iniciativas concretas de educação humana, não para reduzir a caridade pastoral a simples horizontalismo, mas para afirmar com Dom Bosco que a nossa caridade é muito prática e se dedica a “aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do evangelho. Trabalhamos, dizem as Constituições renovadas, pela promo- ção integral de todos, dos jovens especialmente e dos adultos ajudando-os a se torna- rem honestos cidadãos e bons cristãos” (art. 17).

 

Trabalho e temperança

Outro aspecto característico do patrimônio salesiano, que Dom Bosco chamou de “a nossa bandeira” expressa-se em duas palavras muito claras e que encerram sérios compromissos: “trabalho e temperança”.

É um programa pedagógico de fidelidade, dando a devida importância à disciplina de vida, que é expressão de eficácia na missão e de santidade na consagração.

Os Atos do XIX capítulo Geral já tinham posto em bastante relevo essa visão do tra- balho salesiano com uma afirmação muito significativa: “Oração e trabalho são como duas mãos juntas que nunca se devem separar e muito menos opor-se. O mesmo Jesus deu disso exemplo”.

Asceta operativo

Dom Bosco resumiu a sua disciplina de vida com esta recomendação de uma simpli- cidade evangélica: “Não vos aconselho penitências nem disciplinas, mas trabalho, tra- balho, trabalho” (MB, IV, 216). Ele mesmo nos deu o exemplo mais brilhante.

Bem sabemos que o seu médico afirmou que morreu alquebrado de fadigas, gasto pelo trabalho incessante. E os primeiros salesianos por certo que não lhe ficam atrás. Mas quem mais do que qualquer outro copiou fielmente o Pai foi o Padre Rua.

Foi o que o próprio Dom Bosco declarou, em 1876, numa conversa, “quem se pode- ria chamar vítima do trabalho seria o Padre Rua...”.

E o Padre Rua naquele ano de 1876 era prefeito Geral, Diretor do Oratório, Cate- quista Geral, Diretor das Filhas de Maria Auxiliadora, Diretor Espiritual do Refúgio “Ba- rolo”, pregador, confessor habitual na igreja de Maria Auxiliadora, sem contar outros encargos eventuais...

Correra já o risco de morrer exatamente por excesso de trabalho, em 1868, logo depois da festa da consagração do Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora. “Querido Padre Rua, disse-lhe Dom Bosco naquela circunstância, não quero que morras, tens ainda muito que trabalhar”. E deu-lhe a benção com tão grande fé, acrescentando-lhe com segurança: “Escuta Padre Rua, mesmo que te atirassem pela janela hoje como te achas, asseguro-te que não morrerias” (Amadei, Un Altro Don Bosco, p. 138).

O mais belo elogio do Padre Rua trabalhador e santo, foi o que fez um ex-aluno, ao depois professor de Universidade e membro da Municipalidade de Turim, professor Rinaudo. Voltando-se para os colegas ao prestar homenagem sem distinção de partido aos restos mortais do Beato, exclamou: “O Padre Rua foi o santo ideal, que a humani- dade sofredora procura e anela. Fé límpida como um cristal, resistente como o dia- mante, não, porém, absorto em contemplações místicas, foi o verdadeiro santo labori- oso dos nossos dias. Desde 1845, quando aos oito anos experimentou o carinho pater- no de Dom Bosco, até o dia em que sua fibra cansada o prendeu no leito de morte, não teve sequer um dia de descanso. Sessenta e cinco anos de trabalho assíduo, fecun- díssimo! Verdadeira figura de asceta laborioso” (Auffray, Beato Michele Rua, 1972, p. 174)

A temperança

E com o trabalho a temperança: um condiciona a outra. O nosso trabalho é sempre um trabalho de pobres para pobres, sem mira para o descanso. O Salesiano jamais se aposenta. Bem o sabem muitos irmãos que malgrado à idade avançada, estão ainda na linha de frente.

Trabalho e temperança podem, pois, para nós, traduzir-se por “pobreza laboriosa”.

O clima da pobreza, garantia de temperança absoluta, é o único em que pode viver e prosperar a nossa Congregação. Principalmente hoje. Das sessenta e três cartas cir- culares do Padre Rua aos salesianos, a que mais impressiona é ainda a carta sobre a pobreza. Uma testemunha depõe assim no processo apostólico: “A sua circular sobre a pobreza é um monumento de ascética religiosa que o Padre Rua erigiu à sua própria pessoa... Sem querer, nos deixa o seu retrato” (Auffray, o. c . , p. 158).

Aliás, o Padre Rua conhece muito bem as palavras severas de admoestação que Dom Bosco proferiu. A nossa Congregação terá terminado a sua carreira quando entre nós aparecerem riquezas e comodidades.

Também no Regulamento dos Cooperadores, que ele define com prazer “Salesianos sem votos”, traça um teor de vida que tem toda a austeridade da pobreza religiosa: “Modéstia no traje, frugalidade à mesa, simplicidade na mobília, conversação irrepre- ensível, exatidão nos deveres do próprio estado”. Estes cinco pontos são o conforto e bem-estar da vida salesiana dentro e fora de nossas casas.

 

A mansidão

Neste ponto, parece-me que o Padre Rua possuía virtude que por certo não dava na vista, mas nem por isso era menos rica de valores. Disse um escritor que “a paciência é a mais heroica das virtudes, porque não tem nenhum aspecto heroico”. Há muita ver- dade nessa afirmação: é muito mais fácil trabalhar à doida do que ser paciente. Entre- tanto sem a paciência a mesma nossa virtude característica que é o carinho, a amabili- dade nos modos e palavras, não seria mais virtude. Só quando a amabilidade se torna estável e inalterável é que se pode chamar mansidão e brandura. No Padre Rua, mes- mo se não encontramos o brilho encantador do carinho de Dom Bosco, há toda a sua brandura, a igualdade de caráter, fruto de paciência heroica.

A experiência nos ensina este fato: quanto mais uma pessoa é severa consigo mes- ma, tanto mais generosa, compreensiva e indulgente procura ser com os outros. Os santos muito severos consigo mesmos desconhecem intransigência e dureza para com o próximo. O Padre Rua ainda vai mais além. O bilhete manuscrito que contém os pro- pósitos que tomou nos exercícios espirituais de Lanzo, em 1876, termina com esta li- nha: “jamais julgarei a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo”. Mesmo quando por dever advertia a alguém para que observasse regras e votos, fazia-o sempre de modo a lembrar o compromisso assumido, nunca para condenar a transgressão. Assim ajudava o irmão a fazer a vontade de Deus.

 

A amabilidade

A brandura do Padre Rua não era feita só de autodomínio. Era também carinho e verdadeira ternura. Não nos deve enganar o seu rosto todo ossos, os seus olhos aver- melhados, o seu gesto comedido. Para descobrir o amor é preciso fazer a autópsia do coração e não a do rosto.

E ele próprio nos oferece a mais nítida radiografia do seu coração, na carta dirigida aos irmãos da Argentina poucos dias depois da morte de Dom Bosco. “A grande bon- dade de que estava animado o coração do nosso caríssimo Dom Bosco de santa me- mória, ateou com exemplos e palavras a centelha de amor que Deus bendito pusera no meu coração e eu cresci eletrizado por seu amor. Por isso se ao suceder-lhe não con- segui herdar as grandes virtudes do nosso Fundador, o seu amor aos filhos Espirituais – oh este sim! – percebo que Nosso Senhor me deu!”

De resto temos um parâmetro garantido para medir a potência do amor do Padre Rua: o sofrimento revestido de resignação calma, diria, de serenidade pelas dores dos que o circundavam e pelas provações da nossa família. Provações teve-as o Padre Rua durante a vida, muitas e algumas bem amargas.

O professor Rinaudo, que já mencionei e que conheceu o Padre Rua intimamente pôde dizer dele: “Olhar sempre afável, bom, benévolo; fala a um tempo decidida e suave; indulgência materna. Nunca ninguém o viu zangado: nas amarguras das perse- guições comovia-nos o seu rosto tranquilo e sereno a irradiar amor, paz e perdão” (Auffray, o. c, p. 174).

 

Duas predileções

O elemento que caracteriza a nossa vocação salesiana é a nossa missão na Igreja, entre os jovens e as classes populares. A caridade pastoral leva-nos a viver um amor educativo fonte de iniciativas concretas, principalmente em prol dos jovens mais ne- cessitados e nas missões. Vivemos e trabalhamos com “os pequeninos e os pobres”, para fazê-los bons cidadãos e honestos cristãos.

A expressão suprema, porém, da nossa ação apostólica é a evangelização. “Dom Bosco começou a sua obra com uma simples aula de catecismo. A atividade evangeli- zadora e catequética é a dimensão fundamental da nossa obra. Como Salesianos so- mos todos e em qualquer ocasião educadores da fé” (Const., art. 20).

Os salesianos em toda a parte e sempre devem sentir que sãos os “missionários da juventude, os enviados de Jesus Cristo para a evangelização das classes populares”.

Antes de tudo os jovens

Se é verdade que o momento das origens de um carisma é o mais intenso da sua autenticidade, devemos dizer que a inspiração “genial” e a metodologia mais “original” da missão salesiana entre os jovens é a ação apostólica de Dom Bosco nos anos das origens do Oratório. Lá é que vemos a grande preocupação pela “evangelização” e “ca- tequese”; lá é que tudo se baseia no “método preventivo” da amizade e da confidên- cia; lá é que se percebe com clareza especial o que hoje se chama “pastoral da juven- tude”.

Se nos referimos ao momento das origens e falamos do “Oratório”, fazemo-lo, re- cordando não simplesmente o início de uma “instituição” com estruturas certas, mas como a concretização mais expressiva e a fonte primordial da ação pastoral de Dom Bosco.

Mencionar, pois, uma predileção pelo Oratório não quer dizer pôr em relevo uma determinada “obra” com data histórica, mas uma escolha de estilo apostólico e uma atitude pastoral que deveria qualificar sempre a presença e o coração do salesiano em qualquer atividade ou instituição.

Com certeza nos tempos do Padre Rua o Oratório era também a continuação con- creta de um tipo de obra. Seja como for o que evidencia a sua fidelidade à missão sale- siana é precisamente o empenho constante em promover o Oratório.

Seu sonho: cada casa, um oratório

Fidelíssimo intérprete de Dom Bosco, em mais de vinte cartas Circulares insiste na necessidade urgente de abrir Oratórios em todos os centros urbanos. O seu sonho era que toda casa salesiana tivesse anexo um Oratório, que fosse atendido com todo o pessoal necessário e também com todos os meios. Isso lhe parecia ser a mais bela ga- rantia de que se trabalhava de verdade pela salvação dos jovens.

O Padre Rua não podia de certo esquecer-se de que Dom Bosco o conquistara exa- tamente como aluno do Oratório e de que a mais bela satisfação apostólica experi- mentara quando clérigo, era ir todos os domingos ao Oratório de São Luís.

O cônego Ballesio que, quando jovem, colaborou com o Padre Rua, o diretor de de- zessete anos de idade, no Bairro de Vanchiglia, deixou-nos esta declaração: “Nos dias compridos de verão saíamos cedinho de Valdocco para chegar a tempo ao Oratório de São Luís. Passávamos a manhã ou na Igreja ou no pátio com os meninos... Já era bem de noite quando voltávamos ao nosso Oratório. Os jovens nos acompanhavam; api- nhavam-se em volta do Padre Rua, puxando-o pelo braço e pela batina. Ao irem che- gando à altura da própria casa gritavam: “Até outra vez, Padre Rua” e nos deixavam. Chegávamos bem tarde a Valdocco e comíamos como se podia (Amadei, Don Michele Rua, I, p. 165).

Não foi por acaso que o berço da Congregação se chamou e se chamará sempre “Oratório”, como que para reconhecer perpetuamente a fonte do nosso carisma edu- cativo e o nosso empenho mais solene. O exemplo do Padre Rua em Vanchiglia, nos arredores de Turim, nos ensina que as almas é preciso procurá-las onde se acham, ain- da que seja longe do nosso Instituto: Oratórios volantes, chamemo-los assim, catecis- mos nas favelas, nas periferias das cidades, quantas possibilidades e quantas necessi- dades, às quais se pode acudir, principalmente nas grandes metrópoles!

Isso tudo exige, é verdade, deixar certa rotina e talvez um ritmo de vida estandardi- zado, cômodo, aburguesado talvez. Aqui é que precisamos sacudir-nos com força.

 

Quis a congregação “missionária”

Além disso, o Padre Rua, como Dom Bosco, tinha uma sensibilidade particular pelas Missões. Preocupou-se em fundar residências missionárias em todos os continentes. Nos vinte e dois anos em que foi Reitor-Mor organizou mais de vinte expedições. A mais numerosa contou com 299 irmãos: é um número que nos faz refletir.

Com intuição eclesial insistia que se respeitassem os usos e costumes dos povos que não contrastassem com o Evangelho. Queria até que os missionários levassem “vida e seguissem usos e costumes dos Novos Países, deixando de lado o que era peculiar aos seus” (Francesia, Don Michele Rua, pág. 159).

O Padre Rua, com suas palavras e mais ainda com o exemplo, confirma o que escre- vi pouco faz em outra carta: a Congregação para ser o que é, para que seja “qualis esse debet”, deve ser “missionária” no mais profundo e no mais amplo sentido da palavra. É precisamente dessa “índole missionária”, insisto ainda uma vez com profunda convic- ção, que a Congregação recebe um fluxo oxigenado, vital e contínuo.

 

Solicitude pelos Cooperadores

O Padre Rua teve muito a peito o aumento e a organização dos Salesianos Coopera- dores, multiplicadores verdadeiros da missão salesiana no mundo, Cooperadores a quem Dom Bosco chamou “os nossos irmãos externos”.

A associação dos Cooperadores, conforme a primeira ideia do Fundador era uma avant-première de algo entre a Ação Católica e os Institutos seculares. Não admira, pois, se a “grande ideia” de então não foi aprovada no seu plano original e se alguns, mesmo entre os salesianos, não a vissem com clareza.

O Padre Rua, pelo contrário, se entusiasmou, com mente e coração, por tudo quan- to se referia a esta estupenda “fundação” do Pai. E como Dom Bosco, também ele teve que sofrer a amargura da incompreensão da “grande ideia”, embora tivesse sido apre- sentada de maneira muito acessível.

Na sua carta circular de 19 de fevereiro de 1905 expressava-se deste modo: “Dom Bosco, ao apresentar o Regulamento dos cooperadores aos seus filhos que, como ho- mens de pouca fé, duvidavam do êxito do novo empreendimento, dizia com o tom decidido que lhe era próprio e que não admitia objeções: – Garanto-vos, a Associação dos Cooperadores Salesianos será o apoio principal da nossa obra –. A Associação que custou grandes sacrifícios a Dom Bosco, que tem sido abençoada e encorajada pelos Sumos Pontífices, que é acolhida com entusiasmo por Bispos e Cardeais e que será sempre o apoio principal das obras Salesianas, a Associação, repito, está em nossas mãos, caríssimos filhos; nós é que devemos torná-la conhecida, propô-la e torná-la fecunda de frutos abundantes. Quereria ter um pouco da eficácia de palavra de Dom Bosco, para vos persuadir da necessidade de empregar todos os meios, empenhar to- do o ardor do vosso zelo para o desenvolvimento desta que é das principais entre as obras salesianas. Se, por negligência nossa, viesse a decair, mostraríamos que não ti- vemos na devida conta as recomendações mais insistentes do nosso Fundador”.

Caros irmãos, se essa incompreensão, mesmo em nossa casa, da “grande ideia” que se antecipava aos tempos, podia ter sua explicação há setenta anos, hoje, à luz do CGE seria, deixai-me que o diga, uma imperdoável renitência a Dom Bosco e ao Padre Rua. A visão pastoral renovada da Igreja não nos permite mais descuidar do empenho apos- tólico dos leigos, da sua colaboração direta, da participação corresponsável na missão salesiana no mundo.

As objeções que soem apresentar para que não nos ocupemos da organização e da animação dos cooperadores, não tem de fato fundamento. São fruto, digamo-lo tam- bém, de insensibilidade apostólica e salesiana, de superficialidade em reconhecer a grandeza das muitas vantagens que dá à Igreja e à Congregação a renovação da verdadeira vocação dos salesianos Cooperadores.

Há já setenta anos, o Padre Rua, na carta que citei, deixava escapar esta queixa pa- terna: “confesso-vos com toda sinceridade, não posso ficar contente quando venho a saber que alguns irmãos trabalham sem descanso para fundar e dirigir outras Associa- ções e não se preocupam com a dos Cooperadores, que é toda nossa, inteiramente salesiana”.

O Padre Rua iria hoje mais longe ainda, ao manifestar a sua mágoa e nos diria: “Vós vos queixais de que faltam operários na vinha do Senhor, que as nossas obras passam por graves dificuldades por falta de braços e no entanto descuidais de tantos elemen- tos dispostos a viver o espírito e a missão de Dom Bosco no Mundo”.

Em várias de nossas casas trabalham ao nosso lado leigos aos quais infelizmente não propusemos nunca o ideal do “cooperador”. Tornar-se-iam então, ao menos em grande parte, nossos conscientes, apostólicos, fraternos colaboradores, verdadeiros irmãos externos, enquanto, por desleixo nosso, continuam muitas vezes como meros elementos “externos”, nem mais nem menos como empregados.

O Capítulo Geral Especial ocupou-se a fundo dos Cooperadores. Basta ler e concre- tizar as vinte páginas do Documento 18. Então nos convenceremos de que a nossa Congregação, como nos disse Dom Bosco e no-lo repetiu o Padre Rua, pode olhar com confiança para o futuro, pois é querida por Deus, guiada por Maria Auxiliadora e “sus- tentada pelos Cooperadores Salesianos”. E “sustentar” não quer dizer “beneficiar”, mas “cooperar”, ou seja, “trabalhar conosco”.

O parágrafo 730 dos Atos do Capítulo Geral Especial diz expressamente: “O coope- rador, no pensamento primordial de Dom Bosco, é um verdadeiro salesiano no mundo, é um cristão, leigo ou sacerdote, que, mesmo sem os vínculos dos votos religiosos, realiza a vocação à santidade consagrando-se ao apostolado em meio aos jovens e às classes populares, segundo o espírito de Dom Bosco, a serviço da Igreja local e em co- munhão com a Congregação Salesiana”.

Espero que os Capítulos Inspetoriais Especiais enfoquem bem este ponto que, a meu ver, é um dos mais qualificadores da nossa renovação.

E faço votos que, fruto das decisões concretas tomadas a esse respeito, se possa ve- rificar nas Inspetorias que Dom Bosco e o Padre Rua tinham razões de sobra para insis- tir que depois de em Deus e em Maria Auxiliadora, confiássemos na contribuição apos- tólica dos Cooperadores Salesianos.

 

Amor aos ex-alunos

Num dos últimos anos de vida, Dom Bosco disse aos antigos alunos que se tinham reunido ao seu derredor por motivo do seu dia onomástico: “Vós não podeis imaginar a alegria que experimento vendo-vos aqui comigo. É sempre um prazer para mim estar entre os meninos, mas é consolação grande e indizível para mim estar rodeado dos meus filhos adultos, porque não são já a esperança, mas o fruto das minhas canseiras e solicitudes”.

É precisamente na fidelidade ao espírito do Pai que o Padre Rua se preocupou com cuidado especial dos Ex-alunos. “Persuadamo-nos, dizia, que, reunindo-os em sociedade, não só os salvaremos, mas salvaremos também os familiares, amigos e conheci- dos”.

Devemo-la propriamente ao Padre Rua a primeira organização verdadeira desta grande força de bem no mundo. Ele os quis organizados, pois sabia que não é tanto o número que faz a força, quanto o vínculo de associação.

O recente Congresso Mundial dos Ex-Alunos (1970), entre outras coisas, formulou um voto ardente do Padre Rua: reconhecer certo empenho apostólico aos Ex-alunos. O Padre Rua sonhara-os apóstolos do bem não só em suas famílias, mas também no am- biente social em que vivessem. O recente Capítulo Geral Especial quis afirmar essa moção junto com outra de maior empenho ainda e que brotou, também ela, no mes- mo pensamento de Dom Bosco, do coração do Padre Rua em várias ocasiões: a inscri- ção dos ex-alunos cristãos com empenhos apostólicos entre os salesianos Cooperado- res. Ninguém é mais bem preparado do que um Ex-aluno para se tornar um “Salesiano no Mundo”.

 

A MENSAGEM DO PADRE RUA PARA A DÉCADA DE ‘70

Voltando à iminente Beatificação do Padre Rua, gostaria de acrescentar algumas considerações também sobre a sua atualidade e a sua mensagem.

Lembrava numa carta anterior as palavras do “Osservatore Cattolico”, de Milão, so- bre o Padre Rua aos seus sessenta e quatro anos. O artigo tinha como fecho uma sínte- se bem feliz: “É (o Padre Rua) de uma bondade indizível e de uma atividade extraordi- nária”.

A “bondade indizível” não lhe sobreveio com os anos da maturidade; tinha-a já an- tes e conservou-a até o fim.

Sobre o Padre Rua, quando tinha vinte e oito anos, declarou o clérigo Cerruti: “Lembro ainda os dois anos em que o Padre Rua foi diretor em Mirabello; lembro sempre a sua operosidade incansável, a sua prudência de governo tão inteligente e delicada, o seu zelo não só pelo aspecto religioso e moral, como pelo intelectual e físi- co, dos irmãos e jovens que lhe foram confiados. Conservo viva ainda na alma a im- pressão do amor, não direi de pai, mas de mãe, com que me amparou em maio de 1865, quando fiquei gravemente doente” (Amadei, o. c, I, 175).

 

Se tivesse dez como o Padre Rua

Aliás, Dom Bosco, que o conhecia intimamente mais que qualquer outro, não hesi- tava em afirmar, dando dele um juízo global: “Se eu tivesse dez como o Padre Rua, iria à conquista do mundo!” (Amadei, o. c, II, 251).

Na mesma linha está o testemunho do então Padre Cagliero. Em 1879, ao voltar pe- la primeira vez da América, Dom Bosco o interpelou sobre o nome de três irmãos que, a seu ver poderiam governar a Congregação caso viesse a morrer. Respondeu imedia- tamente: “Três? Mais tarde sim, mas por agora só há um: o Padre Rua”. Dom Bosco sorriu e acrescentou: “temos tão  somente um Padre Rua. Foi sempre o braço direito de Dom Bosco”. E o padre Cagliero com seu modo impetuoso e sincero: “Não só braço, mas cabeça, mente e coração!”

Que fosse de uma atividade extraordinária, embora se conservasse a exemplo de Dom Bosco sempre calmo, prova-o o ritmo das suas realizações na expansão da nossa Sociedade.

A sua capacidade e a sua coragem inteligente e sensível aos tempos aparecem na organização e na direção dos seis Congressos de Cooperadores Salesianos que ele as- sumiu pessoalmente. Abre a série o Congresso de Bolonha em 1895. A “Civiltà Cattoli- ca” escreveu: “O Congresso Internacional dos Cooperadores Salesianos em Bolonha foi uma demonstração esplêndida de operosidade religiosa, ordem e perfeição. Os salesi- anos bem merecem o belo louvor de ter conhecido os tempos e de neles trabalhar, escolhendo para o seu apostolado os pobres e os trabalhadores” (Civiltà Cattolica, maio de 1895, p. 485). Fato extraordinário naqueles tempos, na tribuna reservada à imprensa havia correspondentes de sessenta jornais.

Há distância de oitenta anos vêm espontâneas não poucas reflexões diante das ini- ciativas e atividades do Padre Rua. Devemos fazê-las principalmente se pesam sobre nós responsabilidades de guias e animadores na Congregação. Uma pergunta a fazer é sem dúvida esta: “Que é que se fez em nível de comunidades locais, inspetoriais para continuar no caminho que o Padre Rua abriu? Que é que se deve fazer para ganhar tempo (e terreno) talvez perdido?

 

Com os trabalhadores

Fidelíssimo ao carisma salesiano também no setor popular, o padre Rua viu-se à vontade mesmo entre operários em greve, conseguindo compor a desagradável pen- dência dos tecelões de Turim, em 1906. O seu interesse pelos operários não foi episó- dio esporádico. Nós o encontramos já em 1889, na estação de Porta Nova acolhendo dois mil operários franceses, de passagem para Roma. Em três quartos de hora que tiveram de esperar, soube granjear o ânimo de todos, falando muito bem em francês, simples e correto.

Em 1891, sete trens de operários organizados por Leon Harmel, pararam em Turim para prestar homenagem a Dom Bosco, na sua tumba, antes de prosseguirem a viagem para Roma. O Padre Rua recebeu os 4.000 no colégio de Valsalice e participou da refei- ção que tomaram à sombra das árvores do pátio. “À sobremesa, tomou a palavra e manifestou a sua viva admiração pelo movimento social deles e pediu-lhes que depu- sessem aos pés de Leão XIII a homenagem de sua devoção. Um aplauso interminável prorrompeu da assembleia ao apóstolo simples, paterno, que desde o primeiro instan- te soubera encontrar o caminho do coração daquela gente” (Auffray, o. c, p. 122).

 

Um convite em nome do Padre Rua

Gostaria de concluir a minha carta dirigindo-me, em nome do Padre Rua, a cada um de vós em particular, como que num colóquio pessoal, coração a coração. É um convi- te a olhar para Maria Auxiliadora, a Verdadeira fundadora da Família Salesiana. O con- vite é feito em nome do Padre Rua que cuidou da construção do Santuário da nossa

Mãe e, cinquenta anos mais tarde, da coroação solene da sua imagem.

É Ela que, por vontade de Deus, preside os eventos da nossa Congregação. É Ela que, na Beatificação do “fidelíssimo de Dom Bosco”, quer repetir-nos a mensagem da fidelidade. Precisamos de luz para bem entende-la, de graça abundante para praticá-la com o mesmo entusiasmo que tínhamos quando fizemos a primeira profissão.

Mas a fidelidade para ser tal, deve, como a de Padre Rua, estender-se a todos e a cada um dos componentes do espírito salesiano. Foram eles os que orientaram o nos- so Capítulo Geral Especial e aparecem com clareza cheia de vida nos duzentos artigos das Constituições renovadas.

De modo particular leiamos meditando o artigo 119 que se intitula precisamente:  “A nossa fidelidade”. Abre-se com uma afirmação de simplicidade e profundidade evangélica: “A fidelidade ao compromisso assumido com a profissão religiosa é um ato de fé em Nosso Senhor que nos chamou”.

O índice de fidelidade depende do grau da nossa fé, regra do nosso agir. São Fran- cisco de Sales dá uma imagem luminosa da fé quando escreve que é o raio celeste que nos faz ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”.

O Card. Cagliero deporá sobre o Padre Rua no processo Diocesano: “No Padre Rua jamais existiu nem o eu nem o meu, mas somente Deus”. Era o homem da fé perfeita; eis porque a sua fidelidade foi completa, integral e fecunda.

 

Fidelidade hoje

Caríssimos, iniciando esta carta eu vos convidava a “olhar” para o Padre Rua. Não poderia concluí-la com apelo diferente: olhemos para o fidelíssimo de Dom Bosco para seguir suas pegadas e imitar seus exemplos.

A sua fidelidade é hoje para nós um convite forte à conversão pessoal e estímulo para maior compreensão dos valores da nossa vocação salesiana, para um empenho pastoral mais de acordo com as exigências dos tempos e dos destinatários, e para uma disciplina de vida mais enérgica e constante.

Ser fiel hoje, para nós significa reviver com autenticidade o mesmo espírito e a mesma missão em situações novas. É neste sentido que devemos “seguir as pegadas” do Padre Rua; é nesta “imitação” que acharemos o modo mais eficaz e concreto para honrar e dar valor ao presente que a Igreja nos faz com a Beatificação do Padre Rua.

Que a Virgem Auxiliadora nos guie e ajude a sermos salesianos como ele!

Padre Luís Ricceri,
Reitor-Mor

 

DOM BOSCO FALA-NOS NAS CONSTITUIÇÕES

Luís Ricceri

Atos do Conselho Superior n. 274

Roma, abril de 1974

Irmãos e filhos caríssimos,

No dia 3 de abril deste ano, como já recordei recentemente, ocorre o CENTENÁRIO DA APROVAÇÃO DAS NOSSAS CONSTITUIÇÕES pela Igreja.

Vós todos compreendeis a importância e o significado desse evento. Não por acaso, também na sociedade civil, as Nações recordam todos os anos – dando-lhe relevo especial – o dia do nascimento da própria Constituição.

Para nós, Salesianos (e não só para nós), a ocorrência centenária das Constituições representa um acontecimento histórico, cuja incidência na vida, no ser e na realização da vocação salesiana na Igreja, aparece evidente mesmo com um simples olhar retrospectivo e panorâmico sobre o que se foi desenvolvendo progressivamente em nossa família no arco destes cem anos.

Tudo leva a pensar que, graças a Deus, o já distante evento de 1874 continuará a projetar-se dinamicamente fecundo também no futuro, superando as inevitáveis dificuldades que acompanham na história a vida tanto dos homens como das sociedades humanas e eclesiais.

Entretanto, devemos reconhecer que isso não acontecerá automaticamente, como por efeito de alguma lei física; tudo diverso! O desenvolvimento fecundo da vocação salesiana, que obteve naquele dia o sigilo de autenticidade, está subordinado à ação do homem; mais claramente, dos Salesianos, chamados nas várias gerações a recolher a preciosa herança paterna. A história eclesiástica confirma largamente esta afirmação.

 

Seja uma celebração frutuosa

Nesta perspectiva, a evocação do Centenário das Constituições não pode esgotar-se, no meu entender, numa simples e talvez sentimental recordação, ou na exultação de um passado certamente rico e glorioso; deve ser estímulo para nós a continuar e desenvolver, hoje e amanhã, todos os valores espirituais e apostólicos contidos no nosso

«código de vida». Mais concretamente, esta evocação deve levar todos os Salesianos dos «anos setenta» a viver hoje com convicção motivada e com entusiasmo generoso os valores que Dom Bosco nos ofereceu nas Constituições, e que abraçamos – com alegre liberdade e plena consciência – como guia segura e discreta no caminho marcado pela nossa vocação.

Justamente nesta linha e com estas preocupações – enquanto convido Inspetores e Diretores a promover oportunas iniciativas culturais, espirituais e litúrgicas que valorizem e tornem frutuosa durante o ano a celebração dessa ocorrência – venho propor algumas reflexões, nesta sede, a mim e a vós. Elas respondem a uma exigência do coração, para quem recorda as nossas origens ricas de dons realmente extraordinários e de ensinamentos dignos de meditação; e ao mesmo tempo querem apresentar argumentos e motivos para tornar a nossa adesão às Constituições não só convicta, mas também amorosa e entusiasta.

Parece-me que será justamente este despertar de estima fiel, sincera e eficaz por Dom Bosco, que nos fala nas Constituições, o que dará a cada Salesiano e a cada comunidade atuantes nestes tempos não fáceis, o entusiasmo, a generosidade e a

«alegria da vocação» que caracterizavam os primeiros Salesianos da Congregação nascente.

 

1.  PARA DOM BOSCO A APROVAÇÃO FOI O SIGILO DE DEUS

Dom Bosco, ao apresentar aos irmãos, na circular de 15 de agosto de 1875, o texto das Constituições definitivamente aprovadas pela Santa Sé em 3 de abril de 1874, assim se exprimia: «Devemos saudar esse acontecimento como um dos mais gloriosos para a nossa Sociedade, pois nos garante que, observando as nossas Regras, nos apoiamos em bases estáveis, seguras».1

Para Dom Bosco, a dupla definitiva aprovação da Congregação fundada por ele (19 de fevereiro de 1869) e do texto das Constituições (3 de abril de 1874), não era apenas um ato formal com que a Igreja reconhecia a sua obra; era um sigilo com que Deus, através da hierarquia entendida como «instrumento indispensável, instituído e querido por Cristo como veículo encarregado de traduzir em linguagem experimental a mensagem do Verbo»,2 autenticava a voz misteriosa que lhe ressoara ainda menino no sonho dos nove anos, e que depois o conduzira por caminhos admiráveis, de modo sempre mais preciso, para ser Fundador de uma obra que se consagrasse ao bem dos jovens.

Para ele, a voz divina, que se expressara «de dois modos, admiráveis e convergentes», 3 era a mais sólida garantia de que a obra por ele iniciada entre dificuldades indizíveis, era realmente querida por Deus; e que, seguindo o caminho traçado tão prodigiosamente pela Providência, ele e os seus filhos poderiam ver realizado progressivamente aquele futuro maravilhoso do qual a misteriosa voz indicava pouco a pouco sempre mais vastos horizontes. De aí a insistência de Dom Bosco e dos seus sucessores à fidelidade.

1 Constituições (= Const.), Apêndice p. 233. [Nota do Tradutor: as citações das Constituições referem-se à edição em português aprovada pelo P. Luís Ricceri em 10 de março de 1972]
2 PAULO VI, Discurso, 5.5.1965.
3 Ibid.

 

Fidelidade à Regra e fidelidade à missão

Que não fossem ilusões piedosas, o desenvolvimento futuro da obra salesiana está a demonstrá-lo. Cinquenta anos depois da aprovação, o P. Rinaldi numa carta dirigida aos irmãos para celebrar o jubileu de ouro das nossas Constituições, podia exclamar: «Estas Constituições em cinquenta anos já salvaram centenas de milhares de jovens...; já santificaram muitos e muitos irmãos: basta recordar o P. Rua, o P. Beltrami, o P. Czartoryski, Domingos Sávio...; e, com estes, muitos outros nos deixaram exemplos de luminosa santidade que recordamos com suma veneração, como P. Bonetti, P. Belmonte, P. Sala, P. Durando, P. Lazzero, P. Rocca, P. Bertello, P. Lemoyne, P. Cerrutti,

  1. Bretto, Mons. Fagnano, Dom Costamagna, Dom Marenco, e, primeiro entre todos, o meu inesquecível predecessor P. Albera».4

Cem anos depois, alguns destes nomes já entraram, ou estão para entrar, nas glórias da Igreja com a auréola dos santos; dos demais, talvez, a lembrança diminuiu nas nossas gerações, mas a sua lista poderia ser facilmente atualizada com uma série longuíssima de outros nomes cuja lembrança é muito viva e recente. De todos, porém, conhecidos ou não, fica o «imenso florescimento de obras e atividades devidas ao seu zelo e aos seus sacrifícios»,5 que fazem da Congregação Salesiana «um dos fatos mais notáveis, mais benéficos, mais prometedores do catolicismo no século passado e no nosso».6

Estas expressões, em vez de nos encherem de orgulho estéril, deveriam suscitar em nós um sentimento de temor pela responsabilidade que temos diante de Deus e diante de todos os irmãos que nos precederam; entre eles não faltam homens extraordinários, mas muitos – a maioria – foram homens comuns, com seus inevitáveis defeitos; contudo, foram fiéis: transmitiram intacta a herança que receberam, caminharam nos passos que Dom Bosco lhes tinha indicado, e o Senhor não deixou de operar prodígios através do seu humilde trabalho.

Dom Bosco dissera: «A nossa Congregação tem pela frente um feliz porvir preparado pela divina Providência, e a sua glória será duradoura até quando se observarem fielmente as nossas Regras».7 O nosso futuro, portanto, é uma questão de fidelidade: fidelidade não tanto a um código de normas, mas ao espírito, à vida que esse código exprime, contém, transmite.

4 PADRE RINALDI, ACS n. 23, 24.1.1924, p. 193.
5 PAULO VI, Discurso aos Membros do XIX Capítulo Geral.
6 Ibid.
7 Memórias Biográficas, 17, 279.

 

As Constituições nasceram de uma vivência

As nossas Constituições, antes de serem uma regra escrita, foram, de fato, uma vida.

Na citada carta circular do P. Rinaldi, ele afirma: «As Constituições, meus caros, são a alma da nossa Sociedade, e esta foi a alma de toda a vida de Dom Bosco. Ou melhor, podemos dizer que nas Constituições temos Dom Bosco por inteiro; nelas, o seu ideal da salvação das almas; nelas, a sua perfeição com os santos votos; nelas, o seu espírito de suavidade, amabilidade, tolerância, piedade, caridade, sacrifício».8

Esse espírito está contido em germe no primeiro sonho que Dom Bosco teve aos nove anos (no qual ele intuiu de modo obscuro a sua futura missão) e vive na casa dos Becchi, no ambiente educativo criado pela incomparável mestra de educação cristã que foi Mamãe Margarida. Germes que a Providência irá amadurecendo e determinando aos poucos através de sucessivos esboços.

Na medida em que a vontade de Deus se manifestava com maior clareza, Dom Bosco

«tranquilamente, sem pressa, mas com tenacidade e constância admiráveis, estuda, consulta, reza, faz tentativas de fundar uma sociedade; e insensivelmente prepara longamente os primeiros indivíduos, sem nunca falar de obrigações, nem de votos, nem de Congregação».9

Com razão «mais do que Fundador, Dom Bosco pode ser chamado de ‘criador’ da sua Sociedade, porque soube tirar as suas criaturas do nada, educando-as ao seu redor e transfundindo nelas, pouco a pouco, todo o seu espírito». «Dom Bosco – afirma ainda o

  1. Rinaldi – escreveu os artigos das suas Constituições primeiramente no espírito e na vida dos que escolhera para serem seus filhos, e só quando lhe pareceu que correspondessem ao fim que se propusera, os fixou e dispôs no papel».10

8 PADRE RINALDI, o. c. p. 177.
9 Ibid., p. 178
10 Ibid.

 

1874: a aprovação definitiva

Podemos descobrir a primeira formulação da inicial «codificação escrita» das Constituições Salesianas ainda no “Regulamento do Oratório” do distante 1847.11 No minúsculo núcleo do Oratório assim como o vemos descrito, aparecem os tímidos esboços da estrutura do futuro organismo. Contudo, o primeiro verdadeiro esboço do seu projeto de Congregação deve ser considerado aquele apresentado por ele a Pio IX em 1858; oferecendo-lhe o esboço inicial das nossas futuras Constituições, podia com toda sinceridade afirmar: «Eis Beatíssimo Padre... o regulamento que encerra a disciplina e o espírito que há vinte anos guia aqueles que empregam suas forças no Oratório».12

O P. Rinaldi, resumindo feliz e autorizadamente o núcleo fundamental do esboço de Constituições que delineava a fisionomia da futura Congregação, assim o apresentava:

«Nem coerções, mas o vínculo da caridade fraterna, a fim de formar um só coração para adquirir a perfeição no exercício de toda obra de caridade espiritual e corporal pelos jovens, especialmente os mais pobres, e no cuidado das vocações eclesiásticas; nem preocupações pelas coisas materiais, mas cada um – embora conservando os próprios direitos – viva realmente como se nada mais possuísse; nem apego à própria vontade, mas obediência tão filial ao Superior que este não tenha sequer a necessidade de dar ordens; nem muitas práticas de piedade em comum, mas o exercício da união com Deus na plenitude da vida ativa que é o distintivo e a glória dos seus filhos.

«Dom Bosco entendia formar, mais do que uma sociedade, uma família fundada quase unicamente na paternidade suave, amável, vigilante do Superior, e no afeto filial, fraterno dos súditos; ou melhor, mesmo mantendo o princípio da autoridade e da correspondente sujeição, não deseja distinções, mas igualdade entre todos e em tudo».13

Tal projeto de vida condensado nas Constituições, em suas diversas fases de aprovação (23 de julho de 1864: «decretum laudis»; 19 de fevereiro de 1869: aprovação definitiva da Sociedade; 3 de abril de 1874: aprovação definitiva das Constituições) deverá passar pelas intransigências da mentalidade e do direito vigente. Em todo esse itinerário Dom Bosco se deixará guiar pelo seu temperamento prático, maleável, mas sobretudo pela sua fé viva na Providência que orienta os acontecimentos.

Se, do ponto de vista puramente humano, talvez se possa pensar que no processo de elaboração das Constituições os pontos mais originais do projeto de Dom Bosco fossem suavizados, na visão de fé podemos pensar que o seu redimensionamento temporário fosse providencial: os tempos ainda não estavam maduros. Se Dom Bosco tivesse insistido na atuação integral do seu projeto, talvez a Congregação Salesiana não haveria de ter o impulso, ao mesmo tempo unitário e flexível, e o desenvolvimento prodigioso que teve.

11 Publicado em 1852. Cf. Memórias Biográficas 3, 93ss.
12 Memórias Biográficas 5, 881.
13 PADRE RINALDI, o. c., p. 179.

 

2.  CEM ANOS DE FIDELIDADE DINÂMICA

O dia 3 de abril de 1874 marcou, portanto, uma etapa determinante na história do texto das nossas Constituições: ele se tornara, de fato, com a aprovação definitiva da Santa Sé, um ponto de referência constante para as gerações futuras para conhecer a fisionomia, as características fundamentais da Congregação, como foram desejadas pelo Fundador. Entretanto, o dia 3 de abril não determinou o fim da sua evolução.

Nascido da vida, o texto das Constituições continuou a aperfeiçoar-se e adaptar-se às novas situações que, aos poucos, iam sendo criadas, seguindo passo a passo o desenvolvimento vital da Congregação; exatamente como o germe que sem alterar a sua natureza se torna uma delicada haste, um arbusto, uma planta e, no tempo oportuno, segundo as estações do ano, sabe produzir brotos, flores, frutos.

 

O texto continuou a aperfeiçoar-se

A integração do projeto fundamental, aprovado pela Santa Sé começou ainda na vida de Dom Bosco e continuou nos primeiros anos do Reitorado do P. Rua, nos Capítulos Gerais que se sucederam com ritmo constante a cada três anos de 1874 a 1904; neles foram aprovados os Regulamentos especiais relativos aos Superiores (do Reitor-Mor aos Inspetores e Diretores), as casas de formação, o regulamento para a celebração do Capítulo Geral.

«Salesianamente», essas normas, antes de serem apresentadas à Santa Sé para a relativa aprovação, eram avaliadas pela experiência. E, só depois de terem sido longamente experimentadas (28 anos!), foram revistas e dispostas num texto único no X Capítulo Geral; algumas delas, apresentadas à Santa Sé, acabaram por integrar o texto das Constituições; as demais formaram o corpo dos Regulamentos.

Parece-me importante evidenciar o espírito com que trabalharam os membros do X Capítulo Geral. O P. Ceria, afirma nos «Anais» que «nas longas e, às vezes, acaloradas discussões, não por produzir qualquer tendência inovadora, foi comum, constante e pacífico o esforço para não perder de vista a Regra dada por Dom Bosco».14

É evidente que em tantos anos se tenha operado um crescimento: a pequena semente tornara-se árvore frondosa que alargava a sua sombra dos dois lados do oceano; a uniforme célula inicial fora se estruturando aos poucos, organizando-se em casas, em Inspetorias; mas continuava única a linfa que do tronco refluía nos ramos, única a raiz de onde toda a árvore tirava nutrimento: Dom Bosco. Um Dom Bosco, porém, não imaginário, mas o Dom Bosco real, concreto, assim como se expressara nas Regras dadas à sua Congregação, e como revivia na pessoa do seu sucessor. Realmente, desmentindo os temores ventilados à sua morte, Dom Bosco conseguira formar uma Congregação sólida e compacta, soubera criar nos seus filhos «uma consanguinidade espiritual», uma «família» em que é reconhecido um mesmo tipo, um mesmo timbre na atividade educativa e nas demais obras.15

Foram exigidas dolorosas adaptações

Se foi notável a contribuição dos primeiros Capítulos Gerais para a integração do texto das Constituições a fim de adequar-se mais ao ritmo de desenvolvimento da Congregação, não menor se demonstrou a capacidade de adaptação da mesma Congregação às disposições da Santa Sé em matéria de disciplina religiosa; também nisso se verificava a plena fidelidade a uma atitude de fundo do espírito do Fundador.

A mais vistosa dessas atitudes foi a revisão das Constituições para que se conformassem às normas do Código de Direito Canônico (revisão aprovada pela Santa Sé em 19 de junho de 1923); mas não foi certamente a mais dolorosa.

Na mente e na praxe de Dom Bosco, o Superior salesiano não era nem um burocrata, nem um funcionário, nem o simples tutor da disciplina religiosa; era o pai espiritual da comunidade educativa, e, por isso, era também o seu confessor ordinário. Não podia ser diversamente numa Congregação que queria estruturar-se como uma «família espiritual».

A estrutura desejada por Dom Bosco para a sua Congregação intensamente centrada no coração pastoral do Superior com o seu papel específico de pai espiritual da comunidade, não queria outra coisa a não ser evidenciar o primado dado por Dom Bosco às pessoas mais do que à organização, à caridade mais do que à lei, ao bem espiritual e físico de cada um mais do que às exigências da economia e da eficiência. Todo esse delicado equilíbrio de relações passou por uma crise com a determinação da Santa Sé,16 embora sábia, de proibir que o Superior fosse o confessor ordinário dos seus súditos.

Compreendemos a profunda angústia do Padre Rua e dos primeiros Salesianos, no temor de afastar-se do caminho traçado por Dom Bosco; mas além de qualquer outra preocupação, prevaleceu a plena docilidade às disposições da Santa Sé, deixada em preciosa herança pelo Pai aos seus filhos com as palavras, e ainda mais com os fatos.

Naquela conjuntura (1901), o P. Rua dizia aos membros do IX Capítulo Geral:

«Tenhamos coragem, e fiquemos certos de que obedecer pronta e perfeitamente ao que vem da suprema Autoridade é o melhor meio para obter as bênçãos do Senhor e a Congregação proceder de acordo com o que o Senhor queria ao inspirá-la, e àquilo que tinha em mente o nosso bom pai Dom Bosco ao fundá-la».17

A pronta e dócil adesão de toda a Congregação às diretrizes dadas pela Santa Sé, em matéria tão importante a ponto de «marcar uma verdadeira mudança repentina na sua história»,18 não fazia outra coisa que constatar novamente a solidez e a unidade de espírito que Dom Bosco soubera infundir.

Não menos dolorosa para o coração do P. Rua e para os primeiros Salesianos, e ainda mais para o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, foi a decisão da Santa Sé – ao buscar o reordenamento geral das Congregações religiosas femininas19 – de separar os dois institutos fundados por Dom Bosco. Também nesse caso, além da tristeza de uns e do temor das outras, prevaleceu o espírito de fé – herdado de Dom Bosco – na Providência que não abandona as obras que suscitou, e que se serve dos instrumentos humanos para conduzi-las à sua melhor realização.

14 E. CERIA, Annali, 3, 557.
15 P. STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, 2, p. 406.
16 Decretos do Santo Ofício de 5.7.1899 e de 24.4.1901. Cf. Annali 3, 170ss.
17 E. CERIA, Annali, 3, 289.
18    Ibidem, 3, 193.
19    Ibid., 3, 645ss.

 

O Concílio pediu: revisão radical

A atualização do texto das Constituições não terminou com a revisão de 1923. Quase todos os Capítulos Gerais fizeram-lhe algum retoque, alguma integração, para que fosse sempre mais idôneo para regular o desenvolvimento unitário da Congregação; também foram emanadas novas normas de Regulamento para que servissem de orientação, de opção operativa, nas novas situações que, aos poucos, a Congregação devia enfrentar. Contudo, acredito, nenhum Capítulo Geral precisou assumir, sobre o texto das Constituições, uma tarefa tão onerosa como a que foi pedida pela Igreja depois do Concílio mediante o motu proprio «Ecclesiae Sanctae» aos Capítulos Gerais Especiais das Ordens e Congregações Religiosas.

Quanto mais nos afastamos no tempo, tanto mais tomamos conhecimento do enorme peso que teve, tem e terá na orientação fundamental da nossa vida religiosa. Para tomar ciência disso, bastaria pensar que é a primeira vez na história da Igreja que Ordens e Congregações religiosas são convidadas a uma revisão tão profunda da própria vida. Certamente, não se trata, na intenção da Igreja, nem de uma revolução, nem de uma reviravolta dos valores fundamentais, nos quais até então foram se estruturando; entretanto, tal revisão não deixava de ser menos «radical», no sentido etimológico do termo, tocando as raízes mesmas das quais toda vida religiosa tinha origem, e das quais continuamente se alimentava: o Evangelho, o carisma, as intenções evangélicas, o espírito, a missão dos fundadores.

Dada a novidade da tarefa, nada de estranho que houvesse certa preocupação em enfrentá-la, apesar de toda a boa-vontade de agir com prudência e senso de responsabilidade. Embora a Igreja no «Perfectae Caritatis» e no «Ecclesiae Sanctae» tenha traçado as linhas fundamentais em cujo âmbito deviam ser renovados e adaptados os textos das Regras e das Constituições, ainda restava um espaço enorme no qual fazer opções bastante penosas e arriscadas. Se de um lado, tudo isso representava um ato de grande confiança da Igreja em relação aos religiosos, por outro, continuava um rigoroso campo de prova em que cada Instituto poderia medir a própria consistência e solidez, o nível de maturidade alcançado e o próprio senso de responsabilidade.

As diretrizes renovadoras da Igreja

A tarefa que nos cabia era vastíssima. Antes de tudo, a partir do princípio que o Evangelho devia ser considerado por todos os Religiosos como «Regra suprema»,20 o texto das Constituições devia ser repensado deixando clara a inspiração evangélica da vida religiosa como fora expressada pelo Concílio, segundo o projeto original e a missão peculiar herdados pelos Institutos do próprio Fundador.

As Constituições, segundo as diretrizes da Igreja, deviam conter, sobretudo, «os princípios evangélicos e teológicos relativos à vida religiosa e à sua união com a Igreja, e expressões adequadas e precisas com que se reconheçam e conservem o espírito e as finalidades próprias dos Fundadores».21

As «normas jurídicas necessárias para definir claramente o caráter, as finalidades e os meios do Instituto» devinha ser conservados, mas não deviam ser numerosos;22 delas devia ser cancelado o que era «superado... ou mutável segundo os usos de um determinado tempo», ou estava «relacionado com usos unicamente locais». 23 As normas relacionadas apenas ao tempo presente ou a circunstâncias particulares e que não pertenciam à estrutura fundamental do Instituto, também não deviam ter lugar no texto constitucional, mas deviam «ser recolhidas em códigos suplementares, chamados “diretórios”, livros dos costumes, ou com outros nomes». 24 Enfim, no texto constitucional era necessária a fusão dos elementos «espiritual e jurídico», para que os códigos fundamentais dos Institutos tivessem base estável e fossem permeados de verdadeiro espírito e de normas vitais.25

E, para que a norma expressa tivesse caráter de respeitabilidade e estabilidade, devia ser expressa de modo que brotasse de uma exigência de vida. Por isso, recomendava-se «evitar redigir um texto ou apenas jurídico ou unicamente exortativo».26 Era preciso, enfim – para usar a feliz expressão do Padre Beyer S.J. na conferência de introdução ao nosso CGE – redigir um texto que «pudesse servir como livro de oração», porque a verdadeira força das Constituições está, antes ainda de na sua embora indispensável dimensão jurídica, na capacidade de garantir um verdadeiro diálogo vocacional com Deus, segundo o projeto concreto nele autenticado.

Também sobre a forma de governo, recomendava-se que fosse estruturada de modo que «os Capítulos e os Conselhos... cada um a seu modo, fossem expressão da participação e da solicitude de toda a comunidade».27 Isso seria realizado sobretudo se os religiosos tivessem participado «eficazmente da escolha dos membros de tais órgãos».28

Mais ainda, para que o exercício da autoridade se tornasse eficaz, mais aderente à realidade, mais sensível às exigências locais, mais rápido em relação às exigências dos tempos modernos, era preciso que «os superiores de qualquer grau estivessem munidos das oportunas faculdades, para que não multiplicassem os recursos inúteis ou muito frequentes às autoridades superiores».29 Era a aplicação ao governo da vida religiosa dos critérios de participação, descentralização e subsidiariedade, já introduzidos no governo da Igreja desde o Concílio.

Desejava-se, enfim, que os Institutos, de acordo com a sua missão particular, participassem da vida da Igreja universal e local fazendo próprias, e apoiando na medida das próprias necessidades, as suas iniciativas.30

Desejava-se, também, que os membros desses Institutos, graças ao profundo conhecimento das condições dos tempos, dos homens e dos bens da Igreja, soubessem «julgar retamente as circunstâncias atuais deste mundo segundo os critérios da fé e, ardorosos de zelo, fossem capazes de servir mais eficazmente aos outros».31 Para nós consagrados à salvação dos jovens, este último critério de renovação impunha o dever de uma diagnose atenta dos sinais dos tempos e de uma revisão profunda dos nossos métodos pastorais para que respondessem de modo melhor às alteradas exigências dos jovens, que são as antenas mais sensíveis, e também as primeiras vítimas, de um mundo a caminho de transformações radicais.

20 Cf. Perfectae Caritatis, n. 2a.
21 Ecclesiae Sanctae, II, 12a.
22 Ibid. II, 12 b
23 Ibid. II, 14.
24 Ibid.
25 Cf. Ibid. II, 13.
26 Ibid.
27 PC 14.
28 Ib.
29 Ibid.
30 Perfectae Caritatis, n. 2c.

 

A preparação foi ampla e séria

Mesmo a partir apenas deste quadro muito sumário, creio que somos capazes de perceber a amplitude da revisão que a Igreja pedia a todos os Institutos religiosos. Para Dom Bosco, como para cada um de seus filhos, a voz da Igreja é a voz de Deus; não podíamos deixar de atendê-la sem trair o Espírito que nos suscitara no seu seio e a nossa própria missão. Não se tratava de «prurido de reforma», justamente estigmatizado por Dom Bosco: era uma questão de fidelidade.

Empreendemos esta enorme tarefa não sem muita trepidação, cientes da nossa fragilidade, cientes dos riscos que se podiam correr, dos obstáculos que podiam interpor ao êxito feliz, mas confiantes na assistência divina, na proteção materna de Maria, na proteção de Dom Bosco e dos nossos santos que, do Céu, não deixariam de interceder por nós.

Podemos encontrar o início desta obra de revisão já no Capítulo Geral XIX. Nesse Capítulo, o retoque ao texto das Constituições foi modesto; o aspecto mais notável foi a ampliação dos membros do Conselho Superior com a introdução da nova figura dos Regionais que deveria ser, na perspectiva da descentralização, uma estrutura de unidade, um elo de ligação entre o centro e a periferia da Congregação. A contribuição mais notável, porém, oferecida pelo CG XIX à renovação consistiu sobretudo no desenvolvimento de temas que serviram como base de reflexão para toda a Congregação na preparação do CGE.

A preparação foi ampla, séria; não se pode dizer que tenhamos agido precipitadamente. Três longos anos e dois Capítulos Inspetoriais que estimularam a participação ativa de todos os irmãos numa consulta que não tinha precedentes na história da nossa Congregação. Tratava-se de uma questão vital das nossas vidas, que oferecemos ao Senhor na Congregação Salesiana, e da sorte dos jovens cuja salvação seria parte também dependente da nossa capacidade de renovação.

No início, perplexidade e temores

Não se pode dizer que o CGE tenha iniciado sem perplexidade, sem incertezas; a tarefa que nos fora confiada era de tal modo inédita que justificava a nossa inexperiência sobre ela, embora tenhamos nos preocupado em fazer tesouro da experiência alheia. Certamente, os trabalhos adquiriram a própria orientação mais precisa e um ritmo mais rápido quando, em 9 de julho, cerca de um mês depois do início, o CGE decidiu quase unanimemente dar à Congregação um texto renovado, aprovado, artigo por artigo, por maioria qualificada dos 2/3 dos capitulares, para que correspondesse mais à «mens» do próprio Capítulo e tivesse maior autoridade aos olhos de toda a Congregação.

Ao ver as coisas retrospectivamente não podemos negar que aquele foi um gesto muito corajoso, vista a incerteza das perspectivas que estavam diante de nós; esperavam-nos longos meses de trabalho febril, com inevitáveis tensões, tantas eram as demandas a serem composta em unidade: fidelidade a Dom Bosco, à Igreja, à nossa missão juvenil, resposta às expectativas e exigências dos irmãos.

Entretanto, além dos nossos pontos de vista, prevaleceu em todos o amor a Dom Bosco e o apego ao seu espírito, feito de fidelidade a Deus, que suscitou a Congregação, de docilidade à Igreja, de flexibilidade às circunstâncias de tempo e lugar em que devemos atuar. O resultado de tudo isso está em nossas mãos.

31 Ibid., n. 2d.

 

Um texto menos jurídico e mais espiritual

Procurou-se elaborar um texto que, segundo as diretrizes da Igreja, fosse mais espiritual e menos jurídico. Os «princípios evangélicos e teológicos» nele contidos, tirados dos Documentos conciliares relativos à vida religiosa, foram filtrados pela sensibilidade do texto constitucional; mais do que normas cuja existência e conteúdo dependem unicamente da vontade de um legislador humano, são valores de vida provenientes de um chamado e de uma missão divina.

Tudo isso foi possível graças à construtiva vontade de comunhão, de convergência na unidade, fruto da compreensão dos recíprocos pontos de vista: cada artigo em sua grande maioria foi aprovado superando em muito o horizonte dos 2/3 de sufrágios. Embora sendo prevista, para casos especiais, a possibilidade de abaixar o quórum dos 2/3, não houve nenhuma necessidade de recorrer a essa solução de emergência, para que todos os artigos alcançassem os sufrágios suficiente à aprovação no processo previsto. Creio que humanamente não se podia pretender mais para que a Congregação, através do seu órgão mais autorizado, expressasse claramente a sua vontade.

A renovação da Congregação operada mediante o texto das Constituições é a

«fidelidade dinâmica» a Dom Bosco;32 é a redescoberta dos valores fundamentais para além das incrustações e da usura do tempo; é, além disso, a recuperação de valores salesianos como, por exemplo, a unidade da Família Salesiana, e um estilo de formação que estivesse mais de acordo com o ideal da vida religiosa ativa (valores que não puderam ser acolhidos no texto primitivo); é, enfim, a assimilação de novos valores encontrados continuamente e como prolongamento dos precedentes. A Congregação é um organismo vivo e, como tal, podia assimilar apenas o que pudesse contribuir para o seu crescimento homogêneo, o seu crescimento real, sem comprometer de modo algum a sua identidade.

Certamente, como todas as coisas humanas, também as Constituições nascidas do Capítulo Geral Especial são passíveis de aperfeiçoamento. Estudos mais profundos sobre as fontes salesianas, e, mais ainda, uma fidelidade maior ao espírito que suscitou Dom Bosco e que nos chamou a participar da sua missão, poderão em seguida melhorá-las, para que sejam mais correspondentes ao dom que Deus fez em Dom Bosco à Igreja e ao mundo.

O texto das nossas Constituições, nascido da vida, e gerador de vida, como qualquer vida será, portanto, susceptível de novo aperfeiçoamento e desenvolvimento. Contudo, nele está contido e nos é transmitido o mesmo ideal de vida, a mesma missão para a salvação dos jovens, o mesmo espírito que animou Dom Bosco e todos os seus melhores filhos: cabe a nós, como fizeram aqueles que nos precederam nestes cem anos, traduzi- lo em realidade viva, palpitante.

32 Cf. Atos do CGE. Doc. N. 2: «Dom Bosco no Oratório, critério permanente de renovação da ação salesiana».

 

3.  A REGRA NO PENSAMENTO DE DOM BOSCO

Não podemos, certamente, reduzir a vida de uma Congregação a um código escrito, mesmo se, como no caso das nossas Constituições renovadas, ele contém «as riquezas espirituais da tradição salesiana e as normas fundamentais para a vida da nossa Sociedade».33

Evidentemente não é a vida que está a serviço de um código, mas o contrário. A vida, porém, não pode prescindir de orientações concretas: a inobservância das normas que regem as relações entre os membros de uma sociedade – mesmo que se tratasse apenas de uma pequena sociedade doméstica – leva à desagregação e dissolução da vida e da existência de qualquer comunidade que seja, de qualquer tipo que seja.

São estas verdades elementares colocadas como plano de fundo da insistência de Dom Bosco sobre a observância da Regra.

33 Const. 200.

 

Para que a Congregação possa durar

Espírito eminentemente prático, atento às lições da história, ele está convencido profundamente de que «a observância da Regra é o único meio para que uma Congregação possa durar».34

Em uma importante conferência aos diretores em fins de janeiro de 1876, poucos meses após a apresentação do primeiro texto das Constituições (15 de agosto de 1875), Dom Bosco assim se exprimia aos irmãos sobre a observância da Regra: «Agora não vivemos mais como no tempo passado, quando as Regras ainda não existiam, mas só a Congregação estava aprovada, e, por isso, caminhava-se com um governo tradicional, e quase patriarcal. Não são mais aqueles tempos. É preciso manter-nos fixos no nosso código, estudá-lo em todas as suas particularidades, entendê-lo, esclarecê-lo, praticá- lo... Em todas as circunstâncias, em vez de se apelar a outras autoridades, mantenha-se aquela das Regras... Dessa forma, o governo do Diretor pode manter-se paterno, como de nós se deseja. Fazendo sempre ver que não é este Diretor que quer esta ou outra coisa, que proíbe ou aconselha, mas é a Regra, o subalterno não pode ter qualquer pretexto para murmurar ou desobedecer-lhe. Numa palavra: o único meio para propagar o nosso espírito é a observância das nossas Regras».

«Não se façam nem mesmo coisas boas contra elas ou sem elas; porque se se quiser trabalhar mesmo com bom espírito, mas não dentro do limite traçado pelas nossas Regras, o que acontecerá? Mesmo que cada um trabalhe, e digamos que também muito, o trabalho continuará individual e não coletivo. Ora, o bem que se deve esperar das Ordens religiosas provém justamente disto, que trabalhem coletivamente; se assim não fosse, seria impossível lançar-se em algum empreendimento».

«Se nos afastarmos do que as Regras requerem estritamente e continuarmos a trabalhar, alguém começará a sair para cá, outro para lá, em vista de um bom fim, mas individual; aí começará o relaxamento; e essas obras não serão mais abençoadas pelo Senhor como as primeiras. Segue-se necessariamente, portanto, o imperativo de uma reforma, e isso enfraquece muito uma Congregação (como vimos acontecer em muitas Ordens Religiosas) e sempre com grandíssimo dano à salvação das almas. E depois? A decadência e a ruína total».35

O discurso é linear, simples, muito distante das nossas complicações; mas, quanta sabedoria, quanta verdade e experiência de vida estão nessas expressões!

A Regra «encarnada» no Superior

A concepção que Dom Bosco, na mesma ocasião, revela da sua Congregação, é a de uma Congregação, fortemente centrada na Regra, encarnada no Superior e vista como vínculo principal de coesão e comunhão visível de todo o organismo. De fato, depois de ter afirmado: «Entre nós o Superior seja tudo. Todos deem a mão ao Reitor-Mor, apoiem-no, ajudem-no de todos os modos, todos façam dele um centro único», acrescenta em seguida: «O Reitor-Mor, portanto, tem as Regras; delas jamais se separe, caso contrário, o centro não será único, mas duplo, isto é o centro das Regras, e aquele da sua vontade. É preciso, porém, que no Reitor-Mor como que se encarnem as Regras: que as Regras e o Reitor-Mor sejam uma só coisa».

«O que se dá para o Reitor-Mor em relação a toda a sociedade deve valer também para o Diretor em cada casa. Ele deve ser uma só coisa com o Reitor-Mor e os membros da sua casa devem ser uma só coisa com ele. Nele, ainda, devem ser encarnadas as Regras. Não seja ele a aparecer, mas a Regra. Todos sabem que a Regra é a vontade de Deus, e que quem se opõe às Regras opõe-se ao Superior a ao próprio Deus».36

Notemos à margem desta citação, que o princípio continua válido ainda hoje, embora as dimensões assumidas pela Congregação, e pela diversidade das situações, algumas determinações específicas são demandadas à competência das comunidades inspetoriais e locais.37 Descentralização não significa anarquia, e pluralismo não pode confundir-se com individualismo (um e outro são totalmente estranhos ao pensamento de Dom Bosco).

34 Memórias Biográficas, 12, 81.
35 Memórias Biográficas, 12, 80-83.
36 Ibid. 12,81.
37 Cf. Carta circular «Unidade e descentralização», in Atos do Conselho Superior, 272.

 

A regra expressão do desígnio de Deus

Para Dom Bosco (nos é revelado na sua última afirmação na passagem citada) a Regra não é um princípio abstrato nem a expressão impessoal de uma vontade coletiva, mas a manifestação da vontade de Deus; é a linha visível de convergência do chamado de cada irmão ao cumprimento em Cristo da vontade do Pai; uma vontade que a todos transcende e a todos une numa única comunhão fraterna.

Talvez seja nessa perspectiva que devamos considerar o incrível número de Regulamentos redigidos por Dom Bosco, também para as ocupações mais humildes. Não se tratava de um modo de institucionalização, mas da valorização de cada um, que via definida a própria tarefa no seio da comunidade não pelo arbítrio, mas por uma norma superior. Norma que faz de cada comunidade salesiana um organismo cuja vida e cujo ritmo de ação sejam marcados pelo próprio Deus. 38 Enquanto eram expressão da vontade de Deus, essas Regras, segundo Dom Bosco, obrigavam à observância. Numa conversação de 30 de maio de 1865, Dom Bosco se perguntava: «É pecado, então, transgredir as Regras da Casa? Já pensei seriamente nessa questão, e respondo-vos absolutamente que sim. Não vos digo se é grave ou leve: é preciso orientar-se pelas circunstâncias. Mas é sim pecado ».39 Notemos que aqui não se trata das Constituições aprovadas pela Santa Sé, mas simplesmente do regulamento interno dos seus institutos.

Poder-se-ia fazer algumas distinções a respeito, mas a afirmação resoluta de Dom Bosco continua para nós um testemunho significativo do seu pensamento sobre o tema, também como pedagogia de santidade juvenil. Segundo Dom Bosco, as Regras obrigavam a fidelidade enquanto eram expressão do desígnio de Deus e da sua amorosa vontade. Ele se colocava assim na linha claramente indicada agora pelo CGE. Ao falar de sinais que ajudam a descobrir a vontade de Deus, o CGE, depois de indicar antes de tudo o Evangelho como regra suprema e primeiro instrumento específico para essa descoberta, acrescenta: «As Constituições são outro instrumento específico para nós: elas representam o nosso ponto de vista evangélico (o sublinhado é do CGE) para aprofundamento da realidade; a aprovação por parte da hierarquia garante-nos que nelas encontramos traçado um caminho prático e seguro. E ao mesmo tempo realizamos, através delas e em espírito de obediência, a nossa união com a Igreja».40

Nessa perspectiva de obediência ao Evangelho e à Igreja é fácil entender as enérgicas afirmações de Dom Bosco, que considera a inobservância consciente da Regra como verdadeira infidelidade ao Senhor, não separada do pecado.

E nós religiosos devemos saber reler hoje o pensamento de Dom Bosco na perspectiva conciliar tão bem expressa em nosso CGE: «Não há dois planos nessa vocação: o da vida religiosa, um pouco mais alto, e o da vida cristã um pouco mais baixo. Para quem é religioso, testemunhar o espírito das bem-aventuranças com a profissão dos votos é a sua única maneira de viver o batismo, e de ser discípulo do Senhor».41

A Regra não dispensa da iniciativa

A vontade de Deus, portanto, que se exprimia através da Regra, segundo Dom Bosco, não dispensava da iniciativa ou da responsabilidade pessoal. Não era tanto um elenco de coisas a fazer de maneira formal, mas um ideal a concretizar, uma tarefa a cumprir, uma missão a realizar na linha-guia da Regra, pondo em ação todos os recursos pessoais e o próprio senso de responsabilidade.

Mais do que muitas expressões, o que interpreta o pensamento de Dom Bosco é o que ele fez, «confiando aos jovens, pode-se dizer, obras que teriam assustado a homens maduros... A obediência que Dom Bosco exigia era realmente tal que punha à prova, nas situações mais arriscadas, o espírito de iniciativa e a solidez interior».42

Cem anos de prodigioso desenvolvimento da Congregação são a melhor contraprova de que a observância da Regra no passado não inibiu, em muitos irmãos, nem a originalidade nem a iniciativa.

38 Cf. Memórias Biográficas, 9, 571-576.
39 Memórias Biográficas, 8, 132.
40    CGE, n. 630.
41    CGE, n. 106.
42 P. STELLA, Don Bosco, 2, 407.

 

A observância guiada pela caridade

Enfim, justamente porque a Regra não é expressão de uma vontade coletiva, de uma exigência impessoal ou de um abstrato bem-comum, mas é manifestação da vontade do Deus-caridade, esta sua característica inspira o modo com que Dom Bosco quis que ela fosse interpretada e praticada.

O P. Rinaldi disse-nos que «Dom Bosco, mais do que uma sociedade, entendia formar uma família, fundada quase unicamente na paternidade suave, amável, vigilante do Superior, e no afeto filial, fraterno dos súditos».43 Mas uma família bem-organizada, sobretudo quando numerosa, se de um lado não pode abandonar as normas, de outro é guiada pela caridade tanto na sua observância como na sua interpretação.

Caridade que não é sinônimo de fraqueza, mas vontade do verdadeiro bem de cada um; por isso, não é renúncia à norma, nem a deixar transgredir impunemente, nem fechar os olhos sobre eventuais imperfeições ou faltas. Ela é atenção a situações especiais que a norma não podia de modo algum prever; é respeito aos ritmos de amadurecimento de cada um na caridade; é fazer com que a norma criada para todos se adapte à medida de cada um, ao seu passo, às suas forças, ao seu ritmo de crescimento espiritual pelo que cada um possa sentir-se à vontade na casa salesiana, «em família».

Dom Bosco, no crepúsculo da sua vida, na carta de Roma de 1884, provocada pelo famoso sonho, depois de ter descrito a situação que se fora criando aos poucos no Oratório, tem como que um sobressalto como de quem vê deturpada a sua obra: «Por que se quer substituir à caridade a frieza de um regulamento? Por que ao sistema de prevenir com a vigilância e amorosamente as desordens, se vai substituindo pouco a pouco o sistema, menos pesado e mais cômodo para quem manda, de impor leis que se mantêm com castigos, acendem ódios e geram desgostos? Reponha-se em vigor o antigo sistema: o superior seja tudo para todos, sempre disposto a ouvir qualquer dúvida ou queixa dos jovens, todo olhos para vigiar-lhes paternalmente a conduta, todo coração para procurar o bem espiritual e temporal dos que a Providência lhe confiou».44

O sonho trata diretamente das relações entre Salesianos e jovens, mas não é difícil discernir no fundo o clima que se introduzia na mesma comunidade religiosa, que, por sua vez, se refletia na comunidade educativa.

Dom Bosco queria que se observasse a Regra, mas queria que fosse observada espontaneamente, de boa-vontade, «porque – costumava dizer – o que se faz por obrigação não agrada a Deus. Ele, sendo Deus de amor, quer que tudo se faça por amor».45 Queria que a Regra fosse observada desse modo, justamente para que se pudesse manter o clima de família, para que «o governo do diretor possa manter-se paterno como de nós se deseja».46

Cabe, pois, ao Superior, fazer com que não substitua «à caridade a frieza de um regulamento», expressão com que, no pensamento de Dom Bosco, a acentuação é posta não no «regulamento», mas na «frieza», na aplicação gélida e impessoal de uma norma, sem levar em conta que esta deve ser posta a serviço das pessoas.

43 PADRE RINALDI, o. c., p. 179.
44 Memórias Biográficas, 17, 111-112
45 Ibid., 6, 15.
46 Ibid., 12, 81.

 

4.  A PRÁTICA ATUAL DA REGRA

Caríssimos irmãos, ao expor-vos estas considerações sobre o valor da Regra, não ignoro as contestações motivadas de maneiras variadas e que surgem hoje cá e acolá na Igreja, no seio das famílias religiosas, e – por que não? – também em nossos ambientes: contra a lei em geral, contra a eclesiástica de modo particular, e, portanto, contra Constituições, Regulamentos, etc.

 

Uma reação emotiva

Segundo essas objeções, a presença de uma lei indicaria o domínio da estrutura sobre a pessoas, o fim da espontaneidade, da criatividade, da comunhão; marcaria o crepúsculo da liberdade, o sufocamento da pessoa, a instauração da ordem constituída que leva consigo o séquito do juridicismo, do imobilismo, do formalismo, do autoritarismo que sufocam a vitalidade espiritual que provém apenas da caridade e da graça do Espírito.

Não se podem subestimar esses temores; infelizmente, por trás do resguardo da lei muitas vezes encontraram refúgio o egoísmo, a acídia, o orgulho; às vezes, serviu-se da lei como instrumento de poder e sacrificaram-se as pessoas no “leito de Procusto”; outras vezes, encontrou-se nela um álibi cômodo para justificar a falta de fantasia, a falta de disponibilidade e de generosidade na necessária renovação. Entretanto, perguntemo-nos com sinceridade se, com a reação emotiva contra certo «juridicismo» (do qual a Igreja sofreu muitas vezes), nós não corremos o risco de envolver a lei e o direito com o juridicismo numa única indiscriminada condenação e repulsa. Assim fazendo, correríamos o risco de prejudicar a causa pela qual se combate contra o juridicismo, isto é a defesa da pessoa.

Jamais se repetirá suficientemente que «a comunidade sem leis, longe de ser ou de poder jamais ser neste mundo a comunidade da caridade, nunca foi e jamais será nada mais do que a comunidade do arbítrio».47 Não só, mas também do individualismo (contrabandeado, quem sabe, como pluralismo); nessa situação não há nem respeito da pessoa alheia, nem caridade; não há nem sequer a premissa elementar da caridade que é a justiça. E a comunidade acaba por se decompor.

São consequências tão lógicas, evidentes e infelizmente constatadas, que não creio serem necessárias longas demonstrações. São consequências que, porém, nos fazem refletir a quais extremos se pode chegar (e, às vezes, se chega de fato) caso não soubéssemos superar com lucidez a reação emotiva que, hoje mais do que ontem, faz- se sentir como um atentado à liberdade qualquer proposta de observância à lei, à Regra.

Dar uma alma às leis

Certamente, a tentação de juridicismo, de formalismo, com todas as dolorosas sequelas que acenamos acima, é inata no espírito humano, como o são o orgulho, o egoísmo, a acídia, de onde estas «plantas ruins» têm origem; são perigos muito reais, dos quais é preciso guardar-se continuamente – mediante a ascese ininterrupta – seja quem exerce autoridade, seja quem pratica a obediência. Entretanto, pelo fato de se poder abusar da lei, não podemos não digo aboli-la (seria ir contra a natureza social do homem), mas nem sequer diminuir o seu valor com o desprezo, ou atenuar a sua força com uma indiferença sistemática, ou mesmo só com violações arbitrárias. Esse seria, certamente, um remédio pior do que o mal que se entende curar, e não tardaria muito a fazer sentir as suas funestas consequências no seio das comunidades.

A renovação da Congregação não poderá acontecer a não ser através de uma sincera e prática aceitação das nossas Constituições; a observância fiel existirá se excluir tanto o formalismo como o juridicismo, como a arbitrariedade e o individualismo, garantindo a cada um de nós o crescimento na caridade, às comunidades, o crescimento na comunhão, ao nosso apostolado, uma eficácia maior.

Agrada-me iluminar estas reflexões com uma citação do Padre Rahner, que num longo e original diálogo com o Senhor exprime-se assim: «Sei e desejo ardentemente acreditar nesta certeza: jamais devemos procurar a vossa liberdade protestando contra as autoridades que receberam de vós o poder. Quando a autoridade me pesa, não é o vosso Espírito de liberdade que se revolta, mas antes o mau gênio das minhas próprias comodidades, da minha teimosia, do meu egoísmo: recuso, nas minhas atitudes, dar importância ao meu irmão; não me esforço ou esforço-me pouco por lhe evitar o escândalo, apesar de o sangue do vosso Filho ter sido derramado por ele; considero como sendo-me permitido tudo o que me parece puro;48 tenho a ciência que incha, mas falta-me a caridade que edifica».49

«Já me aconteceu, mais de uma vez, considerar como obstáculos à vossa liberdade, preceitos e imposições que eram apenas salvaguarda para a liberdade do vosso amor e proteção contra a lei inscrita nos meus membros. Muitas vezes, tenho sentido que as leis humanas da vossa Igreja foram para mim uma escola de vontade, de paciência, de domínio sobre mim mesmo, de intensa tranquilidade do espírito, de respeito e de amor pelo próximo. Acabei por compreender que não é o que me agrada, mas o dever, que me amadurece. Na verdade, nem todo dever é uma constrição, e a fidelidade na ação nem sempre é sinal de elevada moralidade nem de verdadeira liberdade...».

«Sei também que ordens e prescrições, cerimônias e usos, métodos e procedimentos que me são impostos e recomendados, podem ser forma sensível do meu amor, se o tenho em mim; e que me tornam um peso morto se sou fraco, muito ou pouco vivo para dar-lhes uma alma».50

Desejo acrescentar ainda algumas considerações justamente na tentativa de exortar a mim e a vós a uma observância tão intensa e viva naquilo que hoje não menos do que ontem está o futuro da Congregação.

47 L. BOUYER, L’Eglise de Dieu (Editions du Cerf).
48 Cf. Rm 14,13ss.
49 Cf. 1Cor 8,1ss.
50 K. RAHNER, Apelos ao Deus do Silêncio. Edições Paulinas, Lisboa 1968, p. 57ss.

 

A Regra defende a pessoa e a comunidade

A bem considerar a Regra, na perspectiva que exprimimos há pouco, descobrimos que ela está realmente a serviço da pessoa, da sua liberdade no sentido mais verdadeiro do termo. «A lei, a verdadeira lei, a lei justa, o direito, neste mundo, é como a película em cujo abrigo a pessoa pode nascer e desenvolver-se, e não se saberia romper essa película sem ofuscar a vida pessoal».51

A Regra é a defesa da pessoa em relação ao arbítrio. O arbítrio do próprio superior, e – ainda mais – da comunidade, que não pode decidir, comandar ou orientar-se de modo diverso do que está estabelecido na Regra e livremente admitido pelo indivíduo no dia da profissão.

A Regra também é uma defesa da comunidade em relação ao arbítrio do indivíduo que grave ou sistematicamente abandonasse os compromissos assumidos de maneira livre, condicionando assim, de modo negativo, a vida dos irmãos.

É, enfim, defesa do próprio indivíduo em relação à sua fragilidade e ao seu capricho, porque está sempre ali a recordar-lhe os compromissos que contraiu com Deus e com os irmãos, e representa assim a liberdade da sua resposta ao chamado de Deus.

A Regra tutela muitos valores

Evidentemente, a Regra não tem na comunidade religiosa apenas essa função negativa, de defesa; tem, sobretudo, uma função positiva de promoção dos valores nela contidos: valores do Evangelho, vividos através do carisma do Fundador; valores de comunhão fraterna e de missão divina para a salvação dos jovens. Mas, justamente porque os contém, é fácil que a sua expressão comunitária seja gravemente comprometida caso não seja garantida uma observância suficiente.

Estamos de acordo: nem toda inobservância compromete de modo igual esses valores. É realmente inegável que há uma hierarquia entre os valores que a Regra tutela e promove.

Alguns são tão fundamentais que se identificam com a mesma vida cristã. Outros brotam como exigências irrenunciáveis da vida religiosa em geral (assim como foi expressada pelo Concílio Vaticano II) ou, em particular, pelo estilo de vida religiosa à qual fomos chamados e que abraçamos livremente. Outros valores estão nas opções que a Congregação fez através do mais elevado órgão responsável, depois de uma longa consulta, para poder responder do melhor modo, na situação atual, à missão que Deus lhe confiou, e às expectativas da Igreja e do mundo. Outros, enfim, especialmente aqueles relativos às estruturas organizativas, são opções operativas de instrumentos julgados idôneos para promover harmoniosamente a nossa vida e a nossa missão.

Também estamos de acordo que nem todos os artigos da Regra são expressos de forma idêntica: em alguns, trata-se da definição de um projeto de vida do qual são indicadas apenas as linhas fundamentais, e cujas ulteriores decisões são confiadas à iniciativa responsável das comunidades inspetoriais ou locais; em outros, porém, trata- se de determinações precisas que devem, por isso, ser atuadas por todos.

Se cada um observasse apenas o que lhe agrada

Toda inobservância ou interpretação arbitrária da Regra é um afrouxamento do vínculo de coesão que nos liga uns aos outros, é uma ruptura da comunhão, que não pode ser absolutamente desejada por Deus. Deus quer que vivamos e trabalhemos juntos52 em comunhão fraterna; a linha visível de convergência dessa comunhão é expressada pela Regra.

O que se disse até aqui sobre a Regra, deve ser igualmente afirmado sobre as deliberações tomadas nos diversos níveis de vida comunitária, segundo o respectivo grau de competência e responsabilidade (Capítulos e Conselho Inspetoriais, Conselhos da Comunidade e Assembleia dos Irmãos).

O absurdo do contrário não seria certamente difícil de demonstrar; bastaria pensar, por um instante, o que aconteceria na Congregação se prevalecesse, na teoria ou na prática, o princípio de que cada um se sentisse empenhado em observar, do que foi legitimamente estabelecido, somente o que lhe fosse agradável, ou que entrasse nos seus pontos de vista, transcurando tudo o mais. Seria o início do reino do individualismo egoísta erigido como sistema de vida, nos antípodas do Reino de Cristo, que é reino de justiça, de amor e de paz. Seria também a dissolução da Congregação como grupo social, faltando o elemento primordial de toda convivência humana que é a confiança recíproca.

Pensemos, enfim, que empobrecimento da nossa vida religiosa, que obstáculo à nossa comunhão fraterna, que esvaziamento da eficácia do nosso apostolado, poderia produzir a inobservância sistemática de um grupo notável de irmãos no interior da Congregação com a fatal consequente esterilidade em questão vocacional. A história das Ordens e Congregações religiosas demonstra a dolorosa realidade dessas perspectivas.

Pode acontecer que, a esta altura, alguém pense ou tema que com todos esses argumentos se deseje absolutizar a Regra. Nada disso. Ao recomendar calorosamente a observância não podemos esquecer, realmente, que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado;53 igualmente, a Regra está a serviço da vida e da missão da Congregação, e não pode e não deve servir de obstáculo, de verdadeiro obstáculo, à sua verdadeira missão. De fato, o que destrói a comunhão não é tanto a inobservância da letra, mas o individualismo e a arbitrariedade dessa inobservância, diretamente contrária ao espírito, que é espírito de solidariedade, de caridade e de comunhão.

A caridade não busca o próprio interesse (não é egoísta), mas o verdadeiro bem dos outros, e também esse bem quer ser realizado «em comunhão» com os próprios irmãos (não é individualista). E para realizá-lo, e realizá-lo dessa forma, para evitar qualquer arbitrariedade e individualismo em realizar o bem, para que realmente a exceção à letra possa ser Regra segundo o espírito, é preciso agir, segundo a expressão de Dom Bosco, tendo «o olhar sempre voltado para o centro de unidade».54 E nas coisas de maior importância se deve agir – nos diversos níveis de competência – de acordo com a comunidade da qual fazemos parte: só o consenso dela como «intérprete cotidiano da vontade de Deus»55 é possível garantir que estamos percorrendo o caminho para o qual Deus nos chama.

51 L. BOUYER, o. c. p. 596.
52 Const., art. 50.
53 Mc 2,27.
54 Memórias Biográficas, 12,82.

 

A Regra favorece a comunhão salesiana

Aprofundemos, porém, a nossa reflexão e alarguemos os horizontes. Ao dizer que a Regra está a serviço da pessoa e da comunidade, queremos sublinhar uma realidade muito positiva, ou seja, que a fidelidade à Regra é o instrumento mais importante para realizar a comunhão salesiana em todos os níveis, aquela «vida de comunhão» que é para nós Salesianos uma exigência fundamental e um caminho seguro para realizar a nossa vocação».56

Realmente, se acreditamos que «a Sociedade Salesiana não nasceu de simples projeto humano, mas por iniciativa de Deus»,57 também devemos crer que foi Deus que nos chamou a ela entregando-nos irmãos para amar,58 para realizar em comunhão com eles na consagração religiosa o projeto apostólico de Dom Bosco, isto é, «ser, com estilo salesiano, sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente, aos mais pobres».59

O vínculo que une uns aos outros é a caridade, que foi derramada nos nossos corações pelo Espírito na consagração batismal que nos fez membros do Corpo de Cristo e membros da Igreja, e filhos de Deus em Cristo, e, por isso, irmãos entre nós. Esta caridade fraterna e apostólica foi reforçada e tornou-se para cada um de nós um compromisso solene, diante de Deus e dos irmãos, com a profissão dos conselhos evangélicos. Ora, essa caridade, pelas relações e os compromissos que supõe, tende por sua natureza íntima a ser visível, social.

A Regra é a expressão social dos compromissos assumidos por nós com a profissão religiosa; nela estão definidos o projeto de vida religioso-apostólica que pretendemos realizar em comum com os nossos irmãos, as relações que nos ligam uns aos outros, os compromissos recíprocos. Se de um lado a comunidade salesiana com a aceitação da profissão de um irmão empenha-se em oferecer-lhe a possibilidade de realizar no próprio âmbito o chamado divino, por sua vez «o irmão sente-se empenhado em construir a comunidade em que vive»;60 e o mínimo desse seu empenho é observar fielmente a Regra.

Embora a prática da Regra não esgote as exigências do compromisso assumido, sendo apenas «uma via que conduz ao Amor»,61 é contudo sempre «a via segura» para interpretar o que Deus quer de cada um de nós,62 para nos tornar capazes de cumprir os compromissos solenes expressados na nova fórmula da profissão: «a viver na Sociedade Salesiana em comunhão de espírito e de ação com os meus irmãos, a dar todas as minhas forças por aqueles a que me enviardes, especialmente os jovens mais pobres, e a colaborar dessa forma na missão da vossa Igreja»; e tudo isso «segundo a via evangélica traçada nas Constituições salesianas».63

«Fazer de tudo para vincular-nos num só espírito»

Entretanto, a via evangélica traçada pelas Constituições Salesianas não realiza apenas em nível de comunidade local e inspetorial a «comunhão de espírito e de ação», mas alarga os horizontes e permite-nos tornar real e concreto o que diz o artigo 56 das mesmas Constituições: «A nossa vocação introduz-nos na comunidade mundial salesiana, levando-nos a participar na comunhão de espírito, de testemunho e de serviço que a Congregação oferece à Igreja universal».

Dom Bosco – bem o sabemos – sentia profundamente essa exigência de comunhão em nível de Congregação. «É preciso fazer de tudo para nos unirmos num só espírito», dizia aos diretores salesianos;64 e são inúmeras as suas insistências para que toda a Congregação se mantivesse unida para tornar eficaz a sua missão. E falava de unidade de espírito, unidade de corpo, unidade de direção, unidade de comando e até mesmo unidade de sentimentos.65

«Ao infiltrar-se entre nós um pouco de divisão, a Congregação não mais caminhará bem. Unidos em um só coração será possível trabalhar dez vezes mais e se trabalhará melhor».66

E conhecemos a afirmação do Capítulo Geral: «A unidade em nível mundial encontra a sua primeira expressão nas Constituições. De fato, elas traçam para todo o mundo salesiano as linhas fundamentais do nosso credo, da nossa vida e da nossa missão»;67 e nelas se apoia o ministério de unidade confiado de modo particular ao Reitor-Mor, ao seu Conselho, aos Superiores.

O Capítulo Geral respondia assim a uma necessidade muito forte sentida na Congregação, ou seja, o «aclaramento e reforço das linhas essenciais da unidade, para se salvaguardar o projeto originário do Fundador e manter a vida e a eficácia da Congregação».68

Caríssimos, hoje mais do que nunca a Congregação precisa dessa comunhão total de espírito para a eficácia da sua missão.

A Regra e os «dons pessoais»

Hoje, insiste-se muito na «realização pessoal» e na valorização dos «dons pessoais». Contudo, ouçamos o que diz a respeito um autor moderno: «Às vezes, as famílias religiosas interpretaram este aspecto como incentivo à iniciativa espontânea e como justificativa para todo religioso “fazer aquilo para o que se sente atraído”. Entretanto, certa perspectiva de liberdade exagerada na atuação de qualquer sonho apostólico individual não é um fundamento sólido para a formação dos chamados e a coesão da comunidade. Quem, contudo, quiser fazer o trabalho que lhe parece, deve pensar que o faria melhor fora da vida religiosa».

«A verdadeira força de atração para um Instituto consiste no fato de que ele seja, e se manifeste, como um “grupo eclesial” que orienta os dotes dos seus membros para um apostolado específico e eficaz. A credibilidade de um Instituto neste setor depende da clareza do seu empenho em continuar com eficácia um autêntico apostolado».69

A fidelidade às Constituições é a única garantia desta consistência universal, que torna a missão salesiana visível e eficaz em nível de Igreja, fazendo com que as atividades de todos entrem realmente na totalidade do projeto salesiano para a salvação dos jovens. Este é o único caminho para reconquistar aquele «espírito de corpo», tão necessário nas atuais situações sociológicas do nosso tempo, e para desfrutar constantemente da certeza de que «continua» a iniciativa de Deus em suscitar a Congregação para os jovens, porque todos vivem aquilo que preserva este dom de Deus, promovendo o seu crescimento vigoroso e o seu florescimento.70 Não certamente por acaso, o sonho dos personagens do manto, imagem da Congregação, termina com a conhecida recomendação: «A meditação da manhã e da noite seja sobre a observância das Constituições».71

Caríssimos, as reflexões que fizemos têm uma importância extraordinária. Hoje, mais do que nunca não é suficiente, para ser Salesiano, trazer esse nome. Salesianos individualmente, comunidades, e diria até mesmo Inspetorias, podem encontrar-se dolorosamente num determinado momento fora da comunhão salesiana, porque só se é Salesiano enquanto a fidelidade às Constituições é um dado de fato constatado pela evidência.

Hoje, não nos podemos iludir, só a fidelidade à Regra pode garantir-nos que não caminhamos para uma situação de cisma prático em relação à comunhão salesiana. Será, todavia, com a observância fiel das Constituições que a Congregação haverá de aproximar-se sempre mais da realização do projeto de vida intensamente unitário, que se encarnou em seu Pai Dom Bosco.72

55 Const., art. 91.
56 Ibid., art. 50.
57 Ibid., art. 1.
58 Ibid., art. 51.
59 Ibid., art. 2.
60 Ibid., art. 62.
61 Ibid., Proêmio.
62 Ibid., art. 91 e 200; cf. Atos do CGE, n. 638.
63 Const., art. 74.
64 Memórias Biográficas,13, 286.
65 Cf. Memórias Biográficas,13, 286; 7, 626; 7, 847; 9, 572. 12, 499.
66 Memórias Biográficas,12, 384; Cf. também 13, 304.
67 Atos do CGE, n. 720
68 Ibid.
69 AHERN BARNABAS, Vita Consacrata, janeiro de 1974, pg. 7.
70 Cf. Const., art. 200.
71 Memórias Biográficas,15,186.
72 Cf. Const., art. 49

 

A fidelidade à Regra é uma questão de fé

Durante a sua vida, Dom Bosco afirmou muitas vezes que «a Regra é a voz de Deus».73 Talvez, agora, depois destas reflexões tenhamos maior capacidade de perceber o sentido dessa afirmação.

É aquela «voz» que ressoou no íntimo do coração de Dom Bosco, que o chamou das pastagens – ele pobre pastorzinho dos Becchi – para constituí-lo pastor, pai e mestre da juventude; aquela voz que teve uma luminosa confirmação e uma divina autenticação na aprovação, feita pela Igreja, da Congregação por ele fundada para prolongar no tempo a missão que lhe foi confiada por Deus; a mesma voz que chamou cada um de nós para realizar comunitariamente, segundo as linhas traçadas pela Regra, o projeto apostólico de Dom Bosco no seio da Congregação Salesiana.

Evidentemente, aquela voz do Senhor que chama «não deve ser de maneira nenhuma esperada como se tivesse de chegar aos ouvidos... dum modo extraordinário. Com efeito, deve ser antes entendida e discernida a partir dos sinais que diariamente dão a conhecer aos cristãos prudentes a vontade de Deus».74 E um destes sinais é justamente a Regra, «via segura» que Deus nos indica para realizar o seu chamado à perfeição do Amor.75 Sinal que, justamente porque tal, não é perceptível a não ser à luz da fé; por isso, no Proêmio das novas Constituições, afirma-se que o livro das Constituições «só poderá ser meditado com fruto na fé viva».

Existindo essa fé, não será difícil discernir, para além de um código impessoal, o rosto e a voz do Pai que nos convida a amá-lo, a edificar em comunhão íntima com os nossos irmãos o Corpo de Cristo entre os jovens e no mundo. Se, contudo, não houver essa fé, ou se ela for atenuada, fraca, esse livro será insignificante para nós; pior ainda, não só se verá nele um obstáculo à nossa liberdade, talvez um empecilho para a realização do nosso projeto de vida totalmente pessoal, uma prisão da qual procuraremos fugir com todo esforço e expediente.

Entretanto, olhemos para os muitíssimos Salesianos que nos precederam: eles, graças à fé de que estavam cheios, foram fiéis, seguiram na Regra a via que Dom Bosco lhes indicara para responderem ao chamado divino. E os frutos da sua observância fiel foram conhecidos a nós todos: Deus, com instrumentos muitas vezes humildes, modestos, mas fielmente dóceis em suas mãos, soube fazer grandes coisas.

Para conforto comum, e com conhecimento de causa, posso dizer que ainda hoje – depois da promulgação das Constituições renovadas – muitos irmãos nas comunidades mais diversas da Congregação aceitaram com espírito de fé as atuais Constituições, e vão redescobrindo alegremente os ricos valores espirituais e de salesianidade que elas contêm. Consequentemente, vivem com sentido de profunda convicção, criando na comunidade um clima de trabalho generoso, de caridade fraterna, de oração fervorosa e de otimismo alegre. Justamente aquele espírito que animava as primeiras fervorosas comunidades da Congregação.

Dessa forma, todos estes irmãos são hoje construtores eficazes da comunidade e da mesma Congregação, não menos do que o foram os primeiros, aqueles dos tempos de ouro das origens.

Estejamos convencidos disto: nas Constituições renovadas Deus nos indica a Estrada a percorrer juntos, para responder ao seu chamado e realizar a sua missão hoje; e só na docilidade à sua voz podemos ter a garantia de construir algo duradouro. Não resta dúvida de que Deus, para realizar o seu plano de salvação, não precisa tanto dos nossos talentos pessoais: ele precisa da nossa fidelidade, que os põe a seu serviço.

73 Cf. Memórias Biográficas,11,365; 12,81; 17,296;
74 Presbyterorum Ordinis, n. 11a.
75 Atos do CGE, n. 630.

 

Uma mensagem a transmitir às jovens gerações

Caríssimos, por ocasião de centenários e jubileus de algum acontecimento importante, costuma-se erigir um monumento que transmita aos pósteros a lembrança desse acontecimento, como para defendê-lo contra a obra destruidora do tempo. Nós, que temos a sorte de viver esta ocorrência de evidente extraordinária importância para a nossa Congregação, não precisamos erigir nenhum monumento. Nós, porém, nos sentimos, sem mais, empenhados em transmitir às gerações dos Salesianos que com a graça de Deus nos substituirão na missão, uma mensagem não verbal, mas vital: o amor autêntico a Dom Bosco. E essa mensagem só será vital se se identificar antes de tudo no amor dinâmico, prático e operativo às Constituições.

Nelas fala Dom Bosco; elas são até mesmo Dom Bosco vivo: ele mesmo o disse. Aos primeiros missionários que partiam para a América, o bom pai no convés do navio pôde dizer entre a comovida ansiedade dos presentes: «Vou com vocês». E sabemos como explicou aquelas palavras: entregando aos seus caríssimos filhos o livreto das Constituições, aprovadas há pouco pela Santa Sé.

Irmãos e filhos caríssimos, o modo seguro para nos sentirmos realmente com Dom Bosco é vivendo as Constituições. Eis, pois, a mensagem de vida que nós Salesianos dos «anos setenta» nos empenhamos em deixar para as futuras gerações, para a missão fecunda da Congregação no tempo: as Constituições, mais ainda do que praticá-las, sejam vividas, e com amor, como expressão do nosso verdadeiro amor a Dom Bosco.

O querido Pai abençoe e torne cotidianamente concreto esse nosso empenho filial. Cumprimento a todos vós com o afeto e com a lembrança particular «in oratione»

pelos mais idosos, pelos doentes e pelos juveníssimos.

Peço uma fraterna correspondência pelas muitas necessidades da Congregação e pelas minhas intenções. Obrigado!

LUIGI RICCERI
REITOR-MOR