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Orientações para um itinerário de espiritualidade salesiana (ACG 354)

ORIENTAÇÕES PARA UM ITINERÁRIO DE ESPIRITUALIDADE SALESIANA

Alguns pontos-chave no ensinamento do Padre Egídio Viganò

Atos do Conselho Geral

Ano LXXVI – outubro-dezembro, 1995, ACG 354

Introdução - 1. A iniciativa de Deus - 2. A consagração apostólica - 3. O Cristo que seguimos e contemplamos - 4. A caridade pastoral - 5. “Da mihi animas - 6. “Esforça-te por fazer-te amar”: A pedagogia da bondade - 7. O êxtase da ação - 8. A graça de unidade - 9. Educar evangelizando, evangelizar educando - 10. Imaculada Auxiliadora

Roma, 24 de setembro de 1995.

Caríssimos,

Foi-lhes expedida no mês de setembro a carta-lembrança do Padre Egídio Viganò. Além do perfil biográfico, apresentamos nela, de modo sintético, conforme a natureza do escrito, suas frentes de trabalho como Reitor-Mor, seu estilo de animação e os traços de sua personalidade.

Estamos preparando na Direção Geral uma edição de suas sessenta e quatro cartas circulares, com o correspondente índice temático. O volume passará a fazer parte da coleção que recolhe as cartas dos precedentes Reitores-Mores: Padre Rua, Padre Albera, Padre Rinaldi, Padre Ricaldone. Ao mesmo tempo serão publicadas, em outro volume, as cartas do Padre Luigi Ricceri, a quem coube orientar a preparação e o primeiro período de renovação que se seguiu ao Concílio Vaticano II. Esses volumes, com os atos dos CG 20, 21, 22 e 23 estarão ao alcance de todos como testemunho e documentação da reflexão, dos desafios, das orientações e esforços de renovação que caracterizaram os trinta anos que nos levam do final do Concílio ao próximo CG24.

Achei conveniente, como complemento da carta mortuária, oferecer a leitura de alguns pontos que perpassam o ensinamento do Padre Egídio Viganò. Não são todos, evidentemente, nem estão entre os que se poderiam considerar principais. O espaço não o permitia. Escolhi apenas os que mais de perto e diretamente dizem respeito à vertente da espiritualidade do salesiano, que ocorrem, mesmo se só acenados, ao tratar de temas diversos e que foram oferecidos por ele como fórmulas originais. Eles, entretanto, se relacionam solidamente a ponto de constituírem como que os traços de uma fisionomia.

Não tentamos uma síntese completa de cada um deles, coisa impossível, mas apenas uma evocação substancial.

O nosso momento atual é marcado pelo acontecimento do Sínodo sobre a Vida Consagrada, cujo documento conclusivo estamos aguardando. Suas preocupações principais, porém, já foram percebidas no instrumento de trabalho e nas discussões da assembleia, o que nos estimula a refletir sobre as expectativas do mundo e da Igreja em relação aos religiosos e nos recorda a originalidade de Dom Bosco no testemunho do Evangelho.

O tempo que vivemos é, também, marcado pela preparação próxima, organizativa e espiritual do CG24. Justamente nestes dias está trabalhando na Casa Geral a Comissão pré-capitular, nomeada pelo Reitor-Mor, que deverá redigir “os esquemas a serem enviados, com suficiente antecipação, aos participantes do Capítulo Geral” (Reg. 113).

É à luz desses acontecimentos que os convido a percorrerem alguns pontos nodais da nossa espiritualidade como nos foram propostos pelo Padre Viganò.

 

A iniciativa de Deus

 (ACG 303. 312. 334. 337. 342. 352)

 

“É necessário recordar que à base de tudo está o fascinante mistério da Trindade; como dizem as Constituições renovadas, a nossa vida de discípulos de Cristo é uma graça do Pai, que nos consagrada com o dom do seu Espírito e nos envia para sermos missionários dos jovens”.[1]

Característica de toda espiritualidade cristã é a consciência do dom, da graça, com que Deus entra por iniciativa pessoal em nossa existência no contexto da história. Isso constitui uma diferença substancial em relação a qualquer espiritualidade racionalista, que se entregue apenas ao esforço, apesar de nobre, da pessoa.

Se se deseja traçar com realismo o itinerário espiritual dos Salesianos, em seus elementos característicos e em sua vitalidade, não se pode ignorar essa origem, que é justamente a presença operante do Espírito do Senhor. E, de sua parte, o reconhecimento, a acolhida e a vontade de correspondência.

Essa presença é percebida em três âmbitos. Primeiramente na Igreja. “Ele a leva - diz a Lumen Gentium - à verdade total, unifica na comunhão e no ministério, instrui e dirige com diversos dons hierárquicos e carismáticos, embeleza com seus frutos. Com a força do Evangelho faz rejuvenescer a Igreja, a renova continuamente e a conduz à perfeita união com o Seu esposo”.[2] É o Espírito quem dá vida e quem se manifesta na história como energia imprevista e transformadora, sobretudo através dos profetas, dos santos, dos pastores e de guias corajosos e inspirados. Temos em nosso tempo sinais inequívocos dessa animação da Igreja por parte do Espírito. É o movimento todo de reflexão, adequação pastoral, espiritualidade provocado pelo Concílio, ainda hoje fecundo de manifestações novas e originais.

A presença e a ação do Espírito se estendem além dos confins da Igreja visível. Enchem a terra. A Igreja escuta nos sinais dos tempos a sua voz que ressoa na consciência dos homens e aflora sobretudo na busca religiosa, nas iniciativas nobres e desinteressadas pelo crescimento espiritual do homem em sentido moral.[3] O conjunto dos sinais nos diz que estamos vivendo uma hora privilegiada do Espírito.[4]

A vida consagrada é uma das obras realizadas pelo Espírito no decurso da história, através de mil inspirações que, na sequela de Cristo, se concentra no mistério de Deus e se dedica com amor à salvação do homem. “Na origem de cada Instituto religioso não existe uma teoria ou o sistema de um pensador, mas uma história ou uma experiência vivida segundo uma especial e concreta docilidade ao Espírito Santo”.[5]

Isso seja afirmado em particular do nosso carisma e da sua realização por Dom Bosco e por aqueles que o sucederam no tempo como discípulos atentos aos sinais do Espírito. Esse é o segundo âmbito de observação e de fé para os Salesianos. “Nosso Pai se sentiu investido pelo alto de uma vasta missão juvenil e teve consciência clara de ser, por isso, chamado a se tornar fundador, não simplesmente de um instituto religioso, mas de todo um imenso movimento espiritual e apostólico de vastas proporções”.[6] Espiritualidade e missão a serviço da Igreja e do mundo, se movem na direção do Espírito, isto é, da abertura do homem ao reconhecimento e comunhão com Deus.

O terceiro âmbito onde somos chamados a perceber a ação do Espírito é a nossa vida. Nela percebemos o dom de Deus que nos atrai para ele; somos atraídos por Cristo e estimulados a segui-lo com radicalidade. Experimentamos a sintonia quase espontânea com Dom Bosco e somos levados à missão juvenil. É a vocação pessoal afirmada pelo art. 22 das Constituições: “Cada um de nós é chamado por Deus a fazer parte da Sociedade Salesiana. Para tanto recebe d’Ele dons pessoais e, respondendo fielmente, encontra o caminho da sua plena realização em Cristo”.

A consciência do dom, a nossa vontade de resposta, a consonância com o carisma salesiano, o projeto específico de vida que assumidos em decorrência são publicamente expressos na profissão, particularmente na profissão perpétua, pelo seu caráter definitivo. Ela “é um sinal do encontro de amor entre o Senhor que chama e o discípulo que responde, doando-se inteiramente a Ele e aos irmãos” (Const. 23). Envolve a consciência e a vida e não só a pertença exterior. E é ainda oferta e iniciativa de Deus e não só ação do homem. Por isso “a ação do Espírito é para o professo fonte permanente de graça e apoio no esforço quotidiano para crescer no perfeito amor a Deus e aos homens” (Const. 25).

Dessa forma batismo, vocação, profissão marcam as fases da nossa colocação com sempre maior atenção e disponibilidade no espaço do Espírito, que comunica ao mundo o amor de Deus e o move para Ele.

Seguem daí três consequências. A primeira é que tomamos a “vida no Espírito”, a santidade, como o núcleo principal do nosso projeto existencial.[7] Santidade entendida não só como correção moral ou esforço ascético, mas como estilo e forma de vida em que transparece de forma peculiar o mistério de Deus, libertador, próximo. Sem o que não existe vida consagrada, mesmo se se dessem todos os elementos institucionais. “Reprojetar a santidade” é, por isso, ponto determinante da nossa renovação. Ela é “o dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens” (Const. 25) e o meio mais poderoso e adequado para realizar a nossa missão. Conservamo-la também como a contribuição específica dos religiosos para a cultura e a promoção humana. Com efeito, a espiritualidade ou santidade tem também um valor temporal e secular, não só pelas obras de caridade em benefício dos pobres, mas pelo sentido, mensagem e valores que oferece à existência humana.

Há, porém, uma segunda consequência. Nós buscamos a santidade segundo o modelo e o itinerário que o Senhor manifestou em Dom Bosco. A referência constante a Ele e à experiência que amadureceu em sua sequela é indispensável tanto para a reprodução adequada de seus traços já conhecidos, como para discernir formas novas de realizá-los em contexto moderno. “O Senhor nos deu Dom Bosco como Pai e Mestre” (Const. 21).

Essas duas consequências levam a uma terceira: como itinerário pedagógico para a santidade, escolhemos aquele proposto pelas Constituições com suas experiências fundamentais (missão, conselhos evangélicos, comunidade, oração) vividas no grupo humano que constitui seu código de vida: a Congregação salesiana com sua tradição espiritual e em sua realidade atual. Se é verdade que “a nossa regra viva é Jesus Cristo, o Salvador anunciado no Evangelho, que hoje vive na Igreja e que descobrimos presente em Dom Bosco, o qual deu a sua vida aos jovens” (Const. 196), é também verdade que acolhemos as Constituições como testamento de Dom Bosco, como livro de vida para nós, que meditamos na fé e nos empenhamos em praticar com sentido espiritual, porque para nós, discípulos do Senhor, elas são um caminho que leva ao Amor (cf. ib.).

Desejo e propósito de santidade, Dom Bosco como Pai e Mestre, Regra e comunhão salesiana são as coordenadas para o itinerário de crescimento espiritual de um consagrado salesiano, em resposta aos apelos do Espírito. Sem elas é difícil ir longe.

 

A consagração apostólica

 (ACG 312. 337. 342. 346. 352)

 

Apresentando, após o CG22, o “texto renovado da nossa Regra de vida”,[8] o Padre Viganò indicou a consagração apostólica (cf. Const. 3) como tema geral e primeiro entre os principais da renovação.

Os vários elementos caracterizadores da nossa espiritualidade de religiosos apóstolos encontram a própria razão de ser na consagração e especificamente em sua forma original, que chamamos consagração apostólica.

Essa é uma das aquisições importantes da caminhada de redefinição da nossa identidade na trilha dos aprofundamentos que se deram na Igreja após o Concílio Vaticano II e do que ecoaram declarações insistentes nos últimos tempos.[9] “À base da vida religiosa está a consagração”. “A Igreja pensa em vós, antes de tudo, como pessoas consagradas”.[10]

Para redescobrir e reatualizar o carisma, ter uma visão unitária do projeto de vida salesiano e, consequentemente, viver e exprimir de forma autêntica a nossa espiritualidade, o elemento substancial é uma compreensão mais profunda da consagração, seja em suas raízes bíblicas, como em suas dimensões teologais e eclesiais, mas também à luz da experiência concreta do Fundador.

Esse esforço de compreensão nos levou a sublinhar alguns aspectos. O primeiro é o senso global ou total da consagração. Ela, com efeito, não é um elemento particular da vida salesiana a ser enumerado antes ou entre os demais, mas compreende toda essa vida. Não inclui apenas os votos, mas todo o ser e agir da pessoa, colocada em singularíssima relação com Deus, que marca a nossa experiência pessoal mais profunda e o nosso trabalho educativo. Uma vida que se sente atraída para Deus e se concentra n’Ele, seja buscando-O na oração, no silêncio e na solidão, como propondo-se a servi-Lo nos irmãos com algum serviço de caridade também de forte empenho.

Está claro, então, que falando de consagração não pensamos só num momento particular como, por exemplo, o da profissão, mas nos referimos ao “continuum” da vida toda, de que a profissão é o momento significativo e quase sacramental. Pensamos numa experiência pessoal e interior que tem início ainda antes da profissão, quando o Senhor vai se tornando o centro dos nossos pensamentos e a preferência do nosso afeto. Acolhendo essa graça do Espírito, declaramo-la diante de Deus e da Igreja no ato da profissão. Ela é, então, particularmente reconhecida e incorporada à vida e missão do povo de Deus. Continuará em seguida até a morte tornando-se sempre mais total e profunda como ação de Deus e resposta nossa na medida em que a sua realidade vai penetrando o nosso ser. É evidente que a vida se torna de fato consagrada não só em força dos elementos institucionais, organizativos ou rituais com que é qualificada externamente, mas pela relação vital que se estabelece com Deus. De fato, em cada consagração, a força consagrante é a Sua presença. Esse sentido existencial e pessoal da consagração é, particularmente hoje, sentido e determinante.

Deriva daí outro elemento fundamental de compreensão, evidenciado pelo uso do verbo no passivo: consecratur. A consagração do religioso, em base à consagração batismal, evidencia a iniciativa absolutamente livre e gratuita de Deus. Na expressão do Padre Viganò, ela é a “centelha primeira do amor, que faísca na hora zero onde tudo tem início e onde explode a amizade, onde nasce a especial aliança entre Deus que chama e o homem que responde”.[11] A consagração não é em primeiro lugar um esforço do homem para chegar a Deus e ser todo seu. Mas uma visita, um dom, uma irrupção da sua graça em nossa existência. Indica antes de tudo a ação de Deus, que através da mediação da Igreja, nos toma totalmente para si comprometendo-se em nos proteger e guiar.

Mas é também verdade que a ação divina não é exterior aos nossos movimentos mais profundos. Ela se faz sentir nesses movimentos e ali recebe a nossa resposta, de forma a se tornar “encontro de dois amores”: o Pai atrai e nós nos oferecemos totalmente a Ele. “A iniciativa e a mesma possibilidade de aliança vem de Deus, mas é confirmada pelas nossas respostas livres: é Ele quem nos chama e nos ajuda a responder, mas somos nós que nos entregamos. É Ele que nos consagra e nos envolve com o seu Espírito, nos toma para si, nos faz totalmente seus, mas somos nós que queremos concentrar-nos n’Ele, escutando-O e contemplando-O”.[12]

Encontrar o sentido pleno da consagração como aliança de amor, feita de apelo e resposta, que continuamente nos questiona, dá à nossa vocação o seu aspecto dinâmico e a sua profunda unidade.

Nossa regra de vida sublinha, de fato, o caráter peculiar da consagração que nos distingue como salesianos. Ela se fundamenta no projeto inspirado por Deus a Dom Bosco fundador, que é um projeto apostólico, no qual a missão a serviço da juventude é o aspecto caracterizador do nosso ser totalmente para Deus, intrinsecamente relacionada com o testemunho dos valores evangélicos e da comunhão fraterna.

Não há separação nem dissonância entre consagração e missão, mas “compenetração mútua e indissolúvel, que nos faz salesiana e simultaneamente apóstolos-religiosos e religiosos-apóstolos. A ‘consagração’ envolve toda a nossa vida; e a ‘missão’ qualifica todo o nosso testemunho”.[13] A missão, entendida em seu significado bíblico que a vincula à de Cristo consagrado do Pai e enviado ao mundo, surge assim como um aspecto constitutivo da nossa própria consagração. De outra parte, a nossa vida consagrada se define e determina pela missão, e nela se deve projetar e realizar. É o que exprimem as Constituições afirmando que “a missão dá a toda a nossa existência o seu tom concreto, especifica a tarefa que temos na Igreja e determina o lugar que ocupamos entre as famílias religiosas” (Const. 3).

Isso tudo toca as raízes da nossa identidade de salesianos e se torna orientação concreta para nossa vida e espiritualidade, com consequências no modo de trabalhar, de viver em comum, de rezar.

Primeiramente a consciência do nosso ser consagrados apóstolos dá o justo significado à missão, que não é simplesmente atividade ou ação exterior, mas é dom de Deus. Insere-nos no mistério trinitário do envio do Filho e do Espírito Santo por parte do Pai e na própria missão da Igreja e da sua específica missão histórica.

De aqui deriva o acento especial colocado na interioridade como condição essencial para a eficácia da ação apostólica e missionária. De fato, o ardor na missão provém do mistério de Deus:[14] a Igreja e a Congregação só poderão enfrentar os desafios da nova evangelização se estiverem constantemente unidas a esse mistério.

Nesse aspecto entrevê-se um caráter típico da nossa espiritualidade de consagrados-apóstolos: consagrados e, portanto, firmemente enraizados em Cristo e no seu Espírito, em atitude de obediência filial ao Pai que nos chamou e, ao mesmo tempo, “missionários dos jovens”, enviados para lhes comunicar o Amor sem limites: é o nosso dinamismo espiritual de base que nos coloca na vertente da espiritualidade de vida ativa.[15]

Vivida em plenitude, ela é o caminho da nossa santificação. A ação apostólica, e para nós em concreto, a opção educativa, no interior do projeto de vida consagrada, torna-se lugar privilegiado de encontro com Deus e, portanto, itinerário de santidade, a ponto de se poder dizer que o salesiano é chamado a se santificar educando.[16] Trata-se de “fazer do compromisso educativo o espaço espiritual e o centro pastoral da própria vida, da própria oração, do próprio profissionalismo, da vida quotidiana”.[17]

É interessante lembrar, concluindo, como os próprios sofrimentos são valorizados para o salesiano pela sua consagração apostólica. “A nossa espiritualidade da ação não nos ensina a rodear a dor, a passar por cima dela, a eliminá-la; mas aceita-a transformando o seu significado, transformando-a em potencial de salvação. Até o sofrimento vivido como participação do mistério pascal de Cristo tem, assim, valor apostólico próprio, e não pequeno”.[18]

 

O Cristo que seguimos e contemplamos

 (ACG 290. 296. 334. 324. 337)

 

Partamos de um fato conhecido. “Nós somos discípulos de Cristo, que realizaram com a profissão religiosa, um gesto de liberdade particularmente original: escolhemos de forma radical e definitiva o Senhor ressuscitado. Cristo constitui a nossa opção fundamental que condiciona e orienta todas as demais opções. O coração do salesiano passa pelo mistério pascal antes de percorrer qualquer outro caminho da história. Só partindo de Cristo se explica o nosso tipo de vida, a nossa pertença à Igreja, a nossa missão juvenil e popular, o nosso projeto educativo, a nossa atividade e o estilo com que o fazemos. É importante, hoje, renovar com clareza a consciência dessa opção fundamental para que se torne operativa em nossas convicções, testemunho de vida e compromissos de trabalho”.[19]

Trata-se do mistério total de Cristo e de sua manifestação ainda em curso: Cristo filho de Deus e verdadeiro homem, nascido de Maria, morto e ressuscitado; consagrado e enviado; Fundador e cabeça da Igreja; Profeta, Sacerdote e Rei. Temos acesso a Ele através da escuta e meditação da Palavra, particularmente o Evangelho, através da celebração do mistério eucarístico, do empenho de conversão e do esforço de configuração, da participação na vida da Igreja, da escuta das invocações de salvação que se elevam do mundo, particularmente dos jovens.

Há, entretanto, algumas representações de Cristo que atraem de modo especial a nossa atenção de salesianos. Apresentamo-las com textos originais do Padre Egídio Viganò.

 

Cristo Bom Pastor

 

“É Ele o Centro vivo e existencial da nossa vida consagrada. Todos os consagrados se centram em Cristo, mas o nosso testemunho específico é caracterizado pelo aspecto pedagógico-pastoral pelo qual olhamos para Cristo como ‘Bom Pastor’, que criou o homem e ama suas qualidades, que o redimiu e perdoa os seus pecados e que, pelo seu Espírito, o torna criatura nova. Essa centralidade de Cristo Pastor deve brilhar como sol em nossos ambientes pelo renovado impulso eucarístico e com todas as iniciativas que exprimam um modo quotidiano de viver e educar ‘que impregna o nosso relacionamento com Deus, as relações pessoais e a vida de comunidade, no exercício de uma caridade que sabe fazer-se amar’ (Const. 20). A insistência sobre Cristo ‘Bom Pastor’ comporta certamente a generosidade da dedicação aos jovens até a cruz, mas evidencia também a atitude que conquista com a mansidão e o dom de si, com a bondade...”.[20]

 

Cristo amigo dos jovens

 

“O evangelho manifesta o amor de Jesus aos jovens de várias maneiras: Ele os ama (Mc 10,21: olhando-o nos olhos, ele o amou); os quis perto de si (Mt 19,14-15; Mc 10,13-16; Lc 18,15-17: Deixai as crianças...; Lc 19,46-48: Quem acolhe uma criança...); os convida a segui-lo (Mt 19,16-26; Mc 10,17-22: o jovem rico), os cura (Jo 4,46-54: Vai, teu filho vive); os ressuscita (Lc 7,11-15: Jovem, eu te digo, levanta-te!); Mc 5,21-23; Lc 8,40-45: a filha de Jairo); os liberta do demônio (Mc 17,14-18; Lc 9,37-43: expulsa o demônio de um jovem; Mt 15,21-28; Mc 7,24-30: e da filhinha da mulher cananeia ou siro-fenícia); os privilegia com o perdão (Lc 15,11-32: parábola do filho pródigo); apoia-se neles para fazer maravilhas (Jo 6,1-15: Há aqui um jovem com cinco pães e dois peixes...). A predileção radical de Dom Bosco não se explica sem Jesus Cristo; na sequela de Cristo encontra-se a fonte borbulhante da sua origem e da sua vitalidade”.[21]

“O coração do salesiano é todo ocupado por Cristo para amar os jovens como Ele os ama; olha para Ele, amigo dos pequenos e dos pobres, por isso sua dedicação à juventude e às camadas populares se torna mais intensa, mais perseverante, mais genuína, mais fecunda... Num momento de busca de identidade pessoal e coletiva, a primeira coisa a garantir é o próprio significado da nossa profissão religiosa, que nos incorpora numa comunidade que fez a grande opção de Cristo salvador e pastor, amigo dos jovens”.[22]

 

Cristo, o homem novo

 

“...Sem muita dificuldade, descobrimos que o homem é a verdadeira obra-prima de Deus, feito à sua imagem, síntese viva das maravilhas cósmicas, livre e audaz, que pensa, julga, cria, ama e que, por isso, é destinado a ser o liturgo de todo o criado, voz de louvor, mediador de glória, em diálogo de felicidade com o mesmo Criador. E é precisamente em nossa história que Deus, quando chegou a plenitude dos tempos, faz surgir o Homem novo que é a sua definitiva obra-prima. Ele é o vértice de toda a obra da criação. Nele - diz o Concílio – ‘o mistério do homem encontra sua verdadeira luz... Ele é a imagem de Deus invisível; é o homem perfeito... unido de certo modo a todo homem... primogênito entre muitos irmãos’. Em sua vida terrena Ele se sentiu solidário com cada homem, de todos os séculos, desde Adão (seu progenitor) até seu último irmão gerado no fim dos tempos. Solidário no bem e no mal, venceu o pecado com a potência do maior amor, testemunhado com o dom da própria vida no acontecimento supremo da Páscoa...”.[23]

“O fim e o horizonte para que tende a obra educativa é Cristo, o ‘Homem novo’; todo jovem é chamado a amadurecer n’Ele e à sua imagem... Não se trata de polemizar, mas de se convencer que o acontecimento Cristo não é expressão de uma formulação ‘religiosa’, mas um fato objetivo que se refere em concreto a cada indivíduo da espécie e que dá sentido definitivo à história humana. Cada pessoa precisa de Cristo e tende para Ele, mesmo que não o saiba. É direito existencial de cada um poder chegar a Ele: impedi-lo é, de fato, conculcar um direito humano. A tendência para Cristo, consciente ou inconsciente, adormecida ou não, é intrínseca à natureza do homem, criado objetivamente na ordem sobrenatural, e na qual o projeto ‘homem’ foi pensado em vista do mistério de Cristo e não o contrário”.[24]

 

Cristo, coração do mundo e mistério atuante na história

 

“O qualificativo novo, em referência à cultura, indica simplesmente uma emergência no vir a ser, embora exija uma atenta e renovada forma de pastoral; diversamente, em referência ao mistério de Cristo o qualificativo ‘novo’ indica a plenitude da verdadeira e definitiva novidade. É novo não porque nunca o tenhamos ouvido ou porque seja questionado por problemas que eram antes desconhecidos, mas porque é o ápice maravilhoso da aventura humana; proclama, com efeito, a meta suprema da história e a fonte de toda esperança de todos os séculos... Evangelizar significa, antes de tudo, saber anunciar ao homem de hoje a alegre e agradável notícia da Páscoa, que transforma e faz explodir a atração caduca das novidades que se desenvolvem, que se transformam logo na monotonia insatisfeita, que costuma caracterizar a existência aborrecida de uma civilização apenas horizontal”.[25]

“Com razão, portanto, o Concílio afirma que Jesus Cristo é ‘o fim da história humana, o ponto focal dos desejos da história e da civilização, o centro do gênero humano, a alegria de todo coração, a plenitude de suas aspirações...’ (GS 45). Considero importante, queridos irmãos, revisitar continuamente essa síntese de fé para... nos convencermos que não é possível prescindir de Cristo na promoção do homem e no desenvolvimento de uma verdadeira pedagogia salesiana”.[26]

 

A caridade pastoral

 (ACG 304. 312. 326. 332. 334. 335. 337. 338)

 

O artigo das Constituições que introduz o espírito salesiano afirma que “o seu centro e síntese é a caridade pastoral, caracterizada por aquele dinamismo juvenil que tão fortemente se revelava em nosso Fundador e nas origens da nossa Sociedade” (Const. 10).

São afirmações muito de muito empenho. Não se trata de um elemento a mais a ser colocado ao lado de outros, mas da fonte da nossa identidade espiritual e pastoral. Dela brota a energia unificadora que imprime em nós uma fisionomia própria, nos impele à doação de nós mesmos, nos une em comunhão.

É preciso, então, a ela retornar muitas vezes para esclarecer a sua natureza, aprofundar os seus conteúdos e especificar as suas consequências práticas, não se contentando com perspectivas genéricas e da ressonância espontânea que essas perspectivas produzem em nós.

O ponto privilegiado de observação, como todos os aspectos do carisma, é a experiência do Fundador e a vida do grupo dos primeiros discípulos, vistos no estado nascente.

“A Família Salesiana nasceu do amor de Dom Bosco pela juventude. Um amor de predileção que permeou e desenvolveu suas inclinações e seus dotes naturais, mas que era radicalmente dom especial de Deus em vista do plano de salvação nos tempos modernos. Essa predileção brotava nele da adesão entusiasta e total a Cristo”.[27]

A primeira centelha da vocação salesiana é o amor de Deus intenso, bem definido, orientado para a juventude pobre e abandonada. Em Dom Bosco se voltará à medida de um projeto de vida. Ele compreenderá que se trata de uma graça singular. “O Senhor enviou-me aos jovens, por isso é preciso que eu me poupe nas outras coisas e conserve a minha saúde para eles”. Realizará esse projeto na sequela radical de Cristo contemplado em sua ânsia de dar dignidade e salvar as pessoas sobretudo as mais humildes e indigentes.

A fonte, o aviamento e a energia do desenvolvimento do carisma salesiano se encontram, então, num amor com dois polos indissolúveis, Deus e os jovens; na doação total de si a Deus na missão juvenil e, em correspondência, na doação total de si aos jovens num movimento para Deus. A santidade de Dom Bosco amadurecerá nessa linha. Para perseguir esse ideal, ele convocará os jovens nos quais descobre disponibilidade. É o que dará a imagem original da Congregação nascente.

A caridade é o fundamento e a energia de toda vida espiritual, o primeiro de todos os mandamentos como raiz e o maior deles como meta a ser atingida, a substância e o melhor dos carismas, o distintivo de qualquer estado ou vocação cristã. Foi assim para Jesus, para São Paulo (cf. 1Cor, 13-14), para o nosso Patrono São Francisco de Sales, que narrou a sua beleza também humana. O mesmo para Dom Bosco, que exalta toda forma de caridade como característica excelsa do coração cristão. No sonho dos dez diamantes, a caridade, sem especificações, é colocada à frente e justamente sobre o coração do personagem. Três daqueles diamantes estavam no peito... o que se encontrava sobre o coração trazia a palavra: Caridade. É, em todo caso, aquele amor que quis a sua manifestação maior em Jesus Cristo, Filho do Pai e Redentor do homem, e que o Espírito Santo infunde no nosso coração no momento em que nos insere em Cristo, pela fé e pelo batismo.

Devido à riqueza de Cristo, à criatividade do Espírito e às possibilidades expressivas da pessoa humana existem inumeráveis “tipos” ou concretizações históricas da caridade.

No centro do espírito salesiano está aquela que se qualifica como “pastoral”. O que traz imediatamente à mente a imagem de Deus Pastor que tira o seu povo da escravidão, guia no deserto, conduz para lugares verdejantes, revela o seu plano, faz aliança com ele. Recorda também, e principalmente, a figura de Cristo Bom Pastor que percorre as estradas, encontra o povo, cura e revela o Reino, morre na cruz e ressuscita para que os homens tenham a vida em abundância. “Pastoral” fala de vida, alimento, dignidade, orientação, desde o nível mais elementar ao mais alto.

A caridade pastoral inflama-se na contemplação do mistério de Deus que intervém na história para salvar. Manifesta-se no desejo de participar de sua obra de salvação, de colocar-se à sua disposição para agir em união com Ele.

Seu conteúdo é o dom total de si como disposição e como fato. “Não é só o que fazemos, mas o dom de nós mesmos que demonstra o amor de Cristo pelo seu rebanho. A caridade pastoral determina o nosso modo de pensar e de agir, o nosso modo de relacionar com o povo”.[28]

O dom de si na caridade pastoral tem a Igreja como destinatária e, através dela, a humanidade. Exprime-se na vontade de serviço sem termos e limites “sendo marcado pelo mesmo arrebatamento apostólico e missionário de Cristo”.[29] O Concílio e os documentos sucessivos falam disso pormenorizadamente ao se referirem aos presbíteros e pastores que têm a seu encargo o povo de Deus.

Pastoral é, pois, aquele amor que se insere na missão da Igreja e nela constrói comunhão sempre mais larga e profunda. Pastoral é o amor que tem em vista a salvação total das pessoas em Cristo e tudo o mais em função dela. Pastoral é o amor que se entrega confiante às energias salvíficas instauradas por Cristo Pastor: palavra, fé, graça, comunhão eclesial.

A caridade pastoral salesiana teve, desde os inícios, uma ulterior determinação. Plasmou-se como caridade educativa. Movido pela paixão apostólica, Dom Bosco escolheu como campo próprio os jovens que não sabiam a que paróquia pertenciam. Encarregou-se de ser para eles não só sacerdote-pastor, mas pai e mestre de vida: orientador no crescimento humano, companheiro no trabalho, comunicador de cultura, animador de seu tempo livre. Traduziu nesse cenário em gestos quotidianos o seu amor que desejava ardentemente a salvação dos jovens. De aí nasceu uma fisionomia e uma praxe: o sistema preventivo.

Esse foi o ângulo escolhido por João Paulo II ao afirmar que Dom Bosco realiza a sua santidade pessoal através do empenho educativo vivido com zelo e coração apostólico. E que é justamente no intercâmbio entre educação e santidade que se encontra o aspecto característico de sua figura. Ele é um educador santo.[30]

“Esse é o ‘carisma primeiro’ de Dom Bosco - afirma o Padre Viganò -. Não estamos aqui no nível de inclinações ou preferências naturais: estamos decididamente acima... Encontramo-nos além das fronteiras daquilo que chamamos, com uma ponta de suficiência de ‘o normal’; encerra, de fato, a existência naquilo que ela tem de maior, ‘como uma brasa sob as cinzas encerra um germe de fogo... como a experiência da estrada de Damasco no espírito de Paulo’ (Tillard). É o lugar primeiro da vocação de Dom Bosco e, portanto, da sua intuição artística de educador e da sua originalidade espiritual de santo”.[31]

 

“Da mihi animas”

 (ACG 332. 336. 334. 353)

 

Escreve o Padre Viganò: “A minha convicção é que não existe outra expressão sintética que melhor qualifique o espírito salesiano que esta, escolhida pelo próprio Dom Bosco: Da mihi animas”.

Os grandes Institutos e as correntes de espiritualidade condensaram o cerne do próprio carisma numa fórmula brevíssima e resumida. Podemos recordar o “paz e bem” dos franciscanos, o “ora et labora” dos beneditinos, o “ad maiorem Dei gloriam” dos jesuítas.

As testemunhas da primeira hora e a reflexão posterior da Congregação levaram à convicção de que a expressão que melhor exprime a caridade pastoral dos Salesianos de Dom Bosco é justamente o “da mihi animas”. É frequente nos lábios de Dom Bosco e influiu de forma determinante em sua fisionomia espiritual. É a máxima que chamou a atenção de Domingos Sávio no escritório de Dom Bosco, ainda jovem sacerdote (34 anos) e o levou a um comentário que ficou famoso: “Entendi que aqui não se faz negócio de dinheiro, mas de almas”.[32] Ele percebeu rapidamente que Dom Bosco não lhe oferecia apenas pão, instrução e casa, mas sobretudo a oportunidade de conhecer Jesus e de crescer espiritualmente. A centralidade das “almas” é reafirmada pelos Reitores-Mores. Comentam-no o Padre Rua, o Padre Albera, o Padre Rinaldi. Foi também aceita pela liturgia: “Suscita em nós a mesma caridade apostólica, que nos leve a buscar as almas e servir-te como único e sumo bem”.

Deve-se, pois, aprofundar o significado dessa expressão.

A interpretação espiritual da Bíblia oferece uma base de onde tirar um núcleo válido de conteúdo: é a distinção entre as “pessoas” e o “objeto”, as “coisas”. A presença de Melquisedec e a bênção que pronuncia sobre Abraão dá um particular sentido religioso e messiânico ao texto, tradicionalmente aceito. Mas seria desviante querer manter ou cancelar o mote-programa apenas em base a uma interpretação correta da Bíblia. A palavra de Deus, de fato, carrega-se de significados na história, particularmente na história da santidade. E esse não é o único caso.

Importante é a interpretação pessoal de Dom Bosco, na visão religioso-cultural de seu tempo, e o fato que nela tenha modelado sua vida e sua experiência de Deus. Nesse visual “alma” indica a dimensão espiritual do homem, centro de sua liberdade e raiz de sua dignidade, espaço privilegiado de sua abertura a Deus, onde se faz sentir e onde oferece o Espírito.

O entrelaçamento dos dois significados, o bíblico e o desenvolvido por Dom Bosco, aproximados de nossa cultura, sugere opções muito concretas de vida e de ação.

Primeiramente, o amor, a caridade pastoral leva em consideração a pessoa e a ela se dirige antes e acima de tudo: intui o seu valor, sobretudo à luz do amor de Deus Pai, da obra redentora de Jesus, da presença do Espírito. As “coisas” vêm depois, são de menor valor, têm também uma importância menor no processo educativo.

Além disso, a caridade que vê sobretudo a pessoa é orientada pela “visão” dela, cifrada na palavra “alma”. A pessoa não vive só de pão; ela tem, sim, necessidades imediatas, mas também aspirações infinitas. Precisa de bens materiais, mas sobretudo de sentido e de valores espirituais. Segundo a expressão de Agostinho: “É feita para Deus, sedenta dele”. As “coisas” estão, então, em função dessa vocação única, pela qual o coração se abre a Deus e entende que Ele é o seu destino.

A salvação que a caridade pastoral busca e oferece é, então, plena e definitiva. Tudo o mais a tem em vista: a beneficência tem em vista a educação; esta, a iniciação religiosa e cristã; a iniciação religiosa, a vida de graça e a comunhão com Deus.

Em outras palavras, pode-se dizer que damos o primado à dimensão religiosa na existência da pessoa. E o mesmo na educação e promoção, não por proselitismo, mas porque estamos convencidos de que ela é a fonte mais profunda do seu crescimento e felicidade. Cuidamos de sua profundidade, de seu desenvolvimento correto e de sua expressão. Num tempo de secularismo e de religiosidade desbaratada, essa orientação não é destituída de significado nem de fácil realização.

A máxima contém também uma indicação de método para a ação: na formação ou regeneração da pessoa é preciso insistir sobre seus recursos espirituais: a consciência moral, a abertura para Deus, o pensamento do seu destino eterno. A pedagogia de Dom Bosco é uma pedagogia da alma, da graça, do sobrenatural. Quando se chega a ativar essa energia, começa o trabalho mais profícuo da educação. O outro, válido em si, é propedêutico e concomitante a ele, que o transcende.

De aí deriva uma prioridade na vida e na ação pastoral de quem assume o “da mihi animas”, de onde brota uma ascese: “Deixa o resto”. Deve-se renunciar a muito para se dedicar com plenas forças ao que se escolheu de preferência. Isso em relação a gostos pessoais e também a legítimos campos de ação que distrairiam tempo e recursos. Podem ser confiados a outros como também deixar de lado muitas atividades para se ter tempo e disponibilidade para abrir os jovens a Deus.

“Quem percorre a vida de Dom Bosco, seguindo seus esquemas mentais e explorando as linhas do seu pensamento, encontra uma matriz: a salvação na Igreja católica, única depositária dos meios salvíficos. Ele percebe como o desafio da juventude abandonada, pobre, perambulante desperte nele a urgência educativa de promover a inserção desses jovens no mundo e na Igreja através de métodos de doçura e caridade, mas com uma tensão que tem suas origens no desejo de salvação eterna do jovem.[33]

Podemos nos perguntar o que o “da mihi animas” provoca na vida quotidiana o. Em primeiro lugar, um “coração” pastoral: vontade, impulso, desejo de trabalhar, ter gosto nas empresas pastorais, estar disposto, doar-se com espírito alegre, sentir-se atraído por aqueles que mais precisam, considerar proporcional todas as fadigas, esperar facilmente as pequenas frustrações, não desertar, enfrentar riscos e dificuldades como se fossem ninharias. O contrário é indiferença, é enfrentar os empenhos pastorais como obrigação a desincumbir o mais rápido possível.

Mas além do “coração”, o “da mihi animas” postula o senso pastoral. Este, como o senso artístico ou dos negócios, é como uma intuição, um movimento espontâneo, um modo de se colocar rapidamente em situação de perspectiva e ao lado de quem nos preocupa.

Consiste em saber julgar as coisas do ponto de vista da salvação da pessoa, em ter uma ótica pastoral na leitura dos acontecimentos, em ter critérios, chaves ou pontos válidos de referência para pensar e organizar uma atividade, de tal modo que as pessoas cresçam humanamente e consigam tornar-se conscientes da presença de Deus Pai em sua existência.

Há ainda a capacidade pastoral: preparação profissional específica, exigida pelo “da mihi animas”, pelo qual aprendemos e nos aperfeiçoamos no motivar, instruir, animar, santificar. Tornamo-nos capazes de entender um contexto, elaborar um projeto que responda a suas urgências e realizá-lo, tendo em conta também o elemento invisível e imponderável que existe sempre no trabalho pelas almas.

Por último, é também necessária a criatividade pastoral, ou seja, a atitude mental que leva a encontrar soluções originais para problemas e situações novas. Dom Bosco concebeu um projeto para jovens de rua enquanto as paróquias continuavam com o catecismo “regular”. Logo depois, quando percebeu que os jovens não estavam preparados para o trabalho nem protegidos nele, pensou uma solução “pequena” e “caseira”, que depois cresceu: os contratos de trabalho, as oficinas, as escolas profissionais. E assim para outras necessidades, como casa, instrução.

O Padre Ceria indica o traço característico do espírito salesiano: “O primeiro traço, que mais salta aos olhos de todos é a prodigiosa atividade tanto individual como coletiva”.[34]

 

“Esforça-te por fazer-te amar”: A pedagogia da bondade

 (ACG 290. 326. 310. 332)

 

Quando se tratou de escolher uma expressão carismática para gravar na cruz do Bom Pastor, símbolo da profissão, ou seja, do projeto de vida salesiano, o Padre Viganò escolheu a frase de Dom Bosco: “Esforça-te por fazer-te amar”.

Em nossa literatura sobejam expressões como ‘amor pedagógico’, ‘bondade erigida como sistema’, ‘doçura de São Francisco de Sales’, ‘pedagogia do coração’. Isso tudo deve ser relacionado com o sistema preventivo, particularmente com aquela constelação de atitudes e orientações práticas que se relacionam com a amabilidade. Na raiz está sempre a caridade que busca a salvação do jovem, manifestada por um afeto perceptível, temperado pela racionalidade.

A caridade pastoral salesiana plasmou-se “em contato com os jovens”, no esforço de ajudá-los a valorizar a vida, envolvendo-os na responsabilidade do crescimento pessoal. Precisou instaurar, então, uma relação educativa não só de respeito e disciplina racional, mas de amizade e confiança filial. Especialmente com os jovens provados, em situações difíceis, onde essa relação devia ser recriada e feita novamente confiável. A amabilidade ou bondade tornou-se, então, forma substancial da caridade de Dom Bosco. Ela consiste em suscitar uma correspondência que recai sobre a própria proposta educativa e nos dinamismos de crescimento do jovem. Por ela, a proposta educativa torna-se confiável, e os jovens sentem-se estimulados a dar o melhor de si.

A recomendação de Dom Bosco “esforça-te por fazer-te amar” tem, pois, um valor estratégico na pedagogia, mas é também uma explicitação caracterizadora do espírito salesiano. Dá um aspecto original a toda a Congregação que se enriquece com o dom de saber aproximar-se dos jovens, falar na altura de sua onda, estimulá-los no crescimento humano, atraí-los para Deus e a Igreja.

Quando nos colocamos a aprofundar essa bondade, percebemos que vai além do gesto de simpatia. Ela apresenta uma articulação extremamente robusta de convicções, atitudes e praxes que empenham toda a personalidade.

Comporta, na ordem das atitudes profundas, a identificação com a bondade do Pai “que guia com paterna providência” (Const. 20) toda criatura. Alimenta-se da contemplação de Cristo Bom Pastor, que conquista o coração com a doçura e se faz próximo dos humildes, indigentes, abaixando-se sobre suas necessidades imediatas e acolhendo suas exigências imperfeitas para abri-los a riquezas superiores. Contempla o comportamento materno de Maria, atenta ao apoio e ao crescimento da humanidade de Cristo para que a divindade encontre a adequada mediação histórica.

Isso torna “boa” a visão sobre o homem, sobre as suas possibilidades e realizações. Leva a descobrir na cultura e na história as sementes de bem e impele a cultivá-los com confiança. Essa visão se pousa especialmente nas possibilidades de cada jovem. Ninguém está definitivamente perdido. Qualquer que seja sua situação atual existem dentro dele energias que convenientemente despertadas e alimentadas podem fazer disparar a vontade de se construir como pessoa. Todo jovem traz em seu interior a marca do plano de salvação, em que cada um encontra uma promessa de vida plena e feliz. “Em cada jovem, mesmo no mais infeliz, - dizia Dom Bosco - há um ponto que reage com generosidade, quando oportunamente descoberto e estimulado pelo educador”.

A bondade sugere, todavia, além das atitudes diante da realidade e das pessoas, comportamentos na prática educativa que geram correspondência conforme uma experiência constatada. Dom Bosco desenvolveu-os longamente na carta de ‘84. Recordamos três deles.

Antes de tudo capacidade de encontro, prontidão na acolhida e familiaridade. O contrário é separação, distanciamento, falta de comunicação, ausência. Foi sublinhado que era esta a arte de Dom Bosco: dar o primeiro passo, eliminar barreiras e suscitar o desejo de outros encontros.

Este exercício da caridade educativa leva-nos a pensar em dois fenômenos atuais: o afastamento físico de tantos jovens, a distância psicológica de outros dos quais, embora próximos, estamos separados por temas, linguagem, gostos e pertenças. E nos dá a ideia da carga mística e ascética que comporta entrar em diálogo com eles.

A segunda manifestação da vontade é dedicar-se com paciência e cuidado à construção de um ambiente rico de humanidade, uma família onde se possam sentir inseridos e ajudados, e onde encontram espaço para se exprimirem, enquanto vão assimilando com alegria os valores propostos. Os Salesianos, como Dom Bosco, tornam-se capazes de se aproximarem dos jovens nos lugares mais disparatados; mas também gastam tempo e forças para animar uma comunidade juvenil, caracterizada por traços determinados, capaz de acolher os que desejam fazer parte dela oferecendo-lhes uma experiência positiva de convivência, responsabilidade e compromisso. É o ambiente onde a bondade se torna sistema preventivo porque inspira a organização, o clima, as regras e os papéis.

Da acolhida e da familiaridade nasce a amizade profunda entre educadores e jovens. Ela provoca a confiança e cria uma relação educativa pessoal prolongada, que, na realidade, é o que serve para o crescimento. Quanto a nós, é estímulo para refletir sobre a praxe atual e submetê-la à revisão percebendo em que medida alcançamos a pessoa.

A expressão concreta é a assistência, entendida como desejo de estar com os jovens e compartilhar a sua vida. Ao mesmo tempo é presença física aonde os jovens se encontram, trocam experiências e projetam, e força moral com capacidade de animação, estímulo e impulso. Assume o duplo aspecto da preventividade: proteger de experiências negativas precoces e desenvolver a potencialidade da pessoa por meio de propostas positivas. Estimula com motivações inspiradas na racionalidade (vida honesta, sentido atraente da existência) e na fé, enquanto reforça nos jovens a capacidade de resposta autônoma ao apelo dos valores.

A amizade-assistência desabrocha em outra singularíssima manifestação da relação educativa que nasce da bondade: a paternidade. Ela é mais que amizade. É uma responsabilidade afetuosa e confiável que oferece orientação e ensinamento vital e exige disciplina e empenho. É amor e autoridade.

Manifesta-se sobretudo em saber falar ao coração, de modo personalizado e que personalize, para fazer brotar as questões que ocupam atualmente a vida e a mente dos jovens; saber falar-lhes com linguagem adequada de maneira a tocar a consciência e formá-los numa sabedoria com que enfrentar problemas presentes e futuros. Numa palavra, a paternidade se manifesta no ensinamento da arte de viver segundo o senso cristão.

 

O êxtase da ação

 (ACG 332. 338).

 

É a vertente interior do da mihi animas. Leva a “entender em profundidade a sua intensidade orante”.[35] Define o lugar e o estilo da contemplação salesiana, o momento culminante de sua união com Deus.

A expressão remonta a São Francisco de Sales, que entende o êxtase da ação como o horizonte para o qual deve tender a oração mental: fazer sair de si, serenamente, mas de modo que Deus nos atraia e nos eleve a si. E se diz êxtase porque através dele somos como que elevados acima de nós mesmos. Ele enumera três tipos de êxtase: “um diz respeito ao intelecto; um segundo ao afeto; um terceiro à ação”, “êxtase da vida e da ação” que coroa os outros dois sem o que, ficariam incompletos. “Jamais existiu um santo que não tenha tido o êxtase e o arrebatamento da vida e da ação, superando a si mesmo e as próprias inclinações naturais”.[36]

Dom Bosco e seus sucessores, com outras expressões, referem-se a esse tipo de contemplação que funde oração e ação, orientando-as para a missão de salvação pela realização da vontade de Deus: união com Deus, senso constante de sua presença, vida interior, atividade santificada pela oração.

Foi o Padre Rinaldi, no entanto, quem recuperou e iluminou a expressão de São Francisco de Sales. Na estreia às Filhas de Maria Auxiliadora para 1931 sobre a vida interior de Dom Bosco, ele as exortava a realizar em si uma síntese vital entre a operosidade de Marta e a contemplação de Maria. Afirmava que se trata de “uma vida interior simples, evangélica, prática, laboriosa”. “Dom Bosco - explicava - identificou na máxima perfeição a sua atividade exterior, indefesa, absorvente, vastíssima, cheia de responsabilidade, com uma vida interior que teve início com o senso da presença de Deus... e que aos poucos se tornou atual, persistente e viva a ponto de ser perfeita união com Deus. Realizou assim em si mesmo o estado perfeito, que é a contemplação operante, o êxtase da ação, em que se consumou até o fim, com serenidade estática, pela salvação das almas”.[37]            

Seria essa a interpretação salesiana do “contemplativo na ação” de origem jesuíta, trazido no art. 12 das Constituições.

Explicados, porém, a origem e o sentido da expressão, podemos nos perguntar sobre sua importância prática. Ela compreende quatro aspectos: um itinerário de oração, uma forma de ação, uma força unificadora de ambas, o momento típico da contemplação.

A união com Deus é a verdadeira meta da oração. Além do diálogo ocasional, ela entende enraizar em nós o amor que nos faz sentir e desejar a Deus. A união com Deus tem muitos graus: inicia frágil e com carências, mas cresce aos poucos; é uma luz que aumenta como o alvorecer do dia.[38] Trata-se de uma meta, não certamente apenas do esforço humano, que exige resposta sempre mais lúcida e consciente a um dom.

Enquanto meta, supõe um itinerário. Só a generosidade no agir não a produz nem a substitui. De onde a convicção de que a oração salesiana, como todas as demais formas, “exige espaços próprios e distintos das atividades de trabalho, inteiramente dedicados ao diálogo direto com Deus”,[39] segundo modalidades apropriadas à nossa vida, que são indicadas nas Constituições. É uma oração simples, mas assídua e intensa: suas expressões são tomadas da liturgia, da piedade popular. Não possui traços espetaculares ou fortemente emotivos; e isso, quem sabe, poderá deixar alguém frustrado; ela se concentra na identificação com a vontade de Deus. Todas as suas expressões convergem para uma atitude fundamental: escutar a palavra de Deus que é Jesus Cristo, contemplado por nós como Bom Pastor. Sua luminosidade, seu coração, seu mistério, encontram em nós as invocações do mundo, as provações dos jovens, os pedidos de salvação. O ápice desse encontro é o “memorial” de Jesus, que recorda e atualiza o seu amor ao Pai e a sua entrega pelo mundo: a Eucaristia. Enquanto a sua consequência é o desejo de conversão para configurar-se a Cristo, que dá a vida pelos homens.

A ação, por outro lado, não é uma qualquer, sustentada só pela generosidade ou mesmo pelas boas intenções. Da mesma forma que a contemplação, que nela se insere, não consiste num fluir de pensamentos subjetivos de tipo religioso, mas na acolhida da ação de Deus no mundo e na vida, ajudados pelas mediações históricas. Nessa linha ao menos orienta-se a oração evangélica, especialmente o Magnificat. Para o salesiano, então, trata-se de uma ação de natureza pastoral educativa e em todo caso na área da caridade, sob uma infinita multiplicidade de formas e destinatários.

Isso, porém, não basta. A ação envolve toda a nossa pessoa, não lhe é externa. Há, portanto, uma qualidade de ação que se enraíza no coração mesmo daquele que age: é o ser e sentir-se em Cristo como o ramo na videira. Ele está ciente de que a sua ação é participação e colaboração na misteriosa ação do Pai, sob a inspiração do Espírito Santo. Assume, por isso, os critérios práticos de Cristo quanto à modalidade, finalidade, prioridade.

Entre o estilo de oração e esse tipo de ação acontece uma compenetração recíproca, embora mantendo cada um os seus tempos e formas específicas. A oração invade a ação. A ação se introduz na oração como gratidão, intercessão, desejo de salvação, sofrimento. Assim se mostra na oração sacerdotal de Cristo. O artigo 95 das Constituições orienta-nos para essa compenetração recíproca: “Imerso no mundo e nas preocupações da vida pastoral, o salesiano aprende a encontrar Deus naqueles a quem é mandado. Descobrindo os frutos do Espírito na vida dos homens, especialmente dos jovens, dá graças em todas as coisas; partilhando seus problemas e sofrimentos, invoca para eles a luz e a força de sua presença”.

E o ponto unificador de ambas é justamente a intensidade do amor, que leva a gastar-se pela salvação das pessoas, seguindo os caminhos indicados pelo Pai no seguimento de Cristo.

Isso tudo faz com que o momento típico da contemplação, do êxtase em que Deus nos atrai para si com maior força, seja aquele em que atuamos colaborando com Ele.

Exprime-o o CG23: “Educar os jovens à fé para o salesiano é trabalho e oração. Ele está consciente de que, empenhando-se na salvação da juventude, experimenta a paternidade de Deus ‘que antecede toda criatura, acompanha-a com sua presença e a salva dando a vida’. Dom Bosco nos ensinou a reconhecer a presença atuante de Deus em nosso empenho educativo, a experimentá-la como vida e amor”... “Nós cremos que Deus nos está esperando nos jovens para oferecer-nos a graça do encontro com Ele e para nos dispor a servi-lo neles, reconhecendo a sua dignidade e educando-os à plenitude da vida. O momento educativo se torna assim lugar privilegiado do nosso encontro com Ele”.[40]

Alegramo-nos com o jovem que se supera, damos graças diante de propósitos generosos, ficamos admirados pelo caminho percorrido pela graça em alguns, sofremos com aqueles que são provados. Cada situação nos toca como tocava Jesus: Teve compaixão..., olhou-o e disse..., estendeu a mão.

Na mesma ação, portanto, irrompemos em invocações concentradas, nem sempre formais, como Jesus: “Naquele mesmo instante Jesus exultou no Espírito e disse: Eu te dou graças, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelastes aos pequenos” (Lc 10,21).

 

A graça de unidade

 (ACG 312. 330. 332. 334. 337. 342. 352)

 

O tema da ‘graça de unidade’ foi escolhido não poucas vezes pelo Padre Viganò como fio condutor e ponto-síntese na pregação de exercícios espirituais.[41]

Continua uma das chaves decisivas para interpretar e realizar de maneira harmoniosa e completa a fisionomia da espiritualidade e da vida salesiana. A expressão nasceu no CGS20 para resolver a polaridade entre as exigências da vida religiosa comunitária e as da missão traduzida em ação pastoral aberta e criativa. “O Espírito Santo - diz o CGE chama o salesiano a uma opção de existência cristã que é a um tempo apostólica e religiosa. Concede-lhe por isso a graça de unidade para viver o dinamismo da ação apostólica e a plenitude da vida religiosa num único movimento de caridade para com Deus e o próximo”.[42]

Podem-se encontrar outras tensões na vida do salesiano, conaturais ao seu projeto de existência evangélica: trabalho e contemplação, profissionalismo educativo e mentalidade pastoral, laicidade adequada aos âmbitos onde trabalha e esforço de evangelização, inserção no mundo e ascese, criatividade individual e programação comunitária, proximidade dos jovens e testemunho de valores, colaboração na Igreja e pertença a uma comunidade carismática.

Dom Bosco é o espelho onde refletir essas tensões e sua harmonização sem mortificações indevidas. As Constituições (cf. Const. 21) descrevem-no como profundamente homem e ao mesmo tempo homem de Deus, aberto às realidades terrestres e cheio dos dons do Espírito, capaz de caminhar entre as vicissitudes deste mundo e vivendo “como se visse o invisível”. E nos apresentam, num crescendo, o acordo entre natureza e graça, a harmonia que se foi criando entre suas saudáveis tensões e finalmente a fusão de todas “num projeto de vida fortemente unitário”.

A unidade é uma graça incluída no chamado à vida salesiana que comporta, como qualquer forma de vida, um desenvolvimento unitário. O Espírito Santo infunde desejo, gosto e energia para viver a vocação salesiana em sua totalidade como forma de expressão da filiação divina nossa e dos jovens. Mas a unidade também é fruto de uma resposta do salesiano, das comunidades e da própria Congregação. Exige atenção, discernimento, radicalidade, revisão, conversão. Trata-se de fazer com que tudo convirja para o projeto: inteligência, relações, planos de ação, tempo, qualificações, afetos, refreando a dispersão. A unidade não é algo comprovado ou pré-fabricado, mas realidade humana e espiritual em consciente e permanente construção para uma maior riqueza da pessoa, da comunidade, do projeto apostólico.

Percorramos de novo os diversos âmbitos onde já experimentamos essa graça e veremos brotar continuamente a sua necessidade porque nela sempre surgem novos desafios.

A graça de unidade orienta a renovação da nossa Congregação através do retorno às fontes carismáticas além da materialidade dos acontecimentos históricos das origens. Encoraja a acolher com plenitude a autêntica tradição salesiana e a relacioná-la com aquilo que o mesmo Espírito está atuando no coração dos jovens e sugerindo à sua Igreja. O Espírito que ontem se fez presente em Dom Bosco é o mesmo que hoje fala aos Salesianos dóceis e atentos. Quem quer que seja chamado a discernir deve assumir esse critério de interpretação para compreender o que o Espírito diz hoje a cada Instituto religioso.

A graça de unidade preside, na Igreja e nos Institutos religiosos, a síntese do elemento institucional com o elemento profético. Serve de ponte entre esses dois aspectos que não podem ser contrapostos, nem na vida da Igreja, nem na vida da Congregação, nem na existência de cada salesiano. É o mesmo Espírito que inspira as estruturas essenciais para a vida da Igreja e as expõe, por assim dizer, ao impacto da profecia para mantê-las capazes de se abrirem ao novo e se reestruturarem a partir de dentro como um corpo vivo.

Fissuras, dilacerações, contraposições destrutivas evidenciam falta de acolhida do dom de Deus que continuamente se deve fazer frutificar.

É no Espírito e com a graça de unidade que se compõem também as tensões que possam surgir entre carisma e autoridade, entre obediência e comunhão na Igreja e na comunidade religiosa. Essa graça alimenta, de fato, em nós a preocupação sincera pela unidade eclesial; leva-nos a sentir a nossa originalidade carismática e pastoral como dom para a Igreja, cultivar a comunhão com os bispos e com o sucessor de Pedro, escutar as orientações e a vida da Igreja, abrir-nos a partir dos valores humanos até o encontro com toda experiência religiosa bem inspirada, tentar todos os caminhos para realizar a verdade dentro da caridade, mesmo em nível de experiência humana.

Enfim, na vida de cada Salesiano e das comunidades, a graça de unidade leva à superação positiva, adiante e a partir do alto, das tensões a que se submete a própria existência. Como disse João Paulo II no CG23: “garante a inseparabilidade vital entre união com Deus e dedicação ao próximo, entre interioridade evangélica e ação apostólica, entre coração orante e mãos operantes”.[43]

Não há para ela, autêntico amor de Deus que não se traduza, por íntima amorosa necessidade, em generoso amor pelo homem. Nem acontece verdadeiro amor pelo homem que não leve a elevar os olhos a Deus para pedir à sua força a realização de toda caminhada e de todo desejo.

A ação inclui, dessa forma, a dimensão contemplativa que une harmoniosamente oração, ação pastoral e sofrimento apostólico. “Oração, ação, paixão - escreve o Padre Viganò - se referem juntas e vitalmente a dois polos: Deus jamais existe sem o homem; o homem jamais existe sem Deus”.[44]

Onde não atuar essa graça, o desejo da oração leva a intimismos, separações da comunidade ou do serviço pastoral; o impulso apostólico arrasta para ações individualistas e desordenadas; a evangelização limita-se a grupos seletivos e a conteúdos rigidamente religiosos; o profissionalismo educativo leva à inexpressividade da fé.

Dom Bosco - observa o Padre Viganò - “contempla sempre a Deus, enquanto é o maior enamorado do homem”.[45] E a graça de unidade quer sublinhar a unidade profunda que deriva - no coração e na ação do apóstolo - da contemplação de Deus enamorado do homem.

 

Educar evangelizando, evangelizar educando

 (ACG 290. 296. 337. 343)

 

A graça de unidade entende pôr remédio ao risco de fraturas dentro do coração e da vida do salesiano, cujos sinais são as dicotomias de natureza variada. Mas também entende responder a outro perigo hoje eminente: o divórcio entre evangelização e educação. O tema é importante. A educação da juventude, com efeito, não só não é de fato vinculada à evangelização, como também é propositalmente separada dela por alguns, por ser considerada como um setor cultural com desenvolvimento autônomo. Consequentemente, há também quem procure resultados na frente da evangelização, tentando, porém, reduzi-la ao âmbito catequético, dirigindo-a somente a grupos reduzidos. É preciso, porém, promover educando, educar evangelizando, santificar educando.

O CG21 já afirmara repetidamente que a ação salesiana compreende os dois aspectos, educação e evangelização, tem em vista o horizonte humanístico e o sobrenatural, é uma síntese dos processos de promoção humana e ao mesmo tempo de aprofundamentos da vida cristã.[46] O mesmo Capítulo insistira na recíproca fermentação interna a ponto de constituir um único projeto com percursos e horizontes adequados a cada uma das duas dimensões. Para descrever tal unidade, o Capítulo cunhou expressões como “promoção integral cristã”, “humanismo salesiano integral”, “educação libertadora cristã”.[47] Ou, retomando as fórmulas simples de Dom Bosco, propôs a formação do bom cristão e honesto cidadã através do crescimento na saúde, sabedoria e santidade. O CG23 moveu-se na mesma linha, integrando num único itinerário as experiências humanas do jovem e o senso evangélico, e fazendo dele um estilo típico de santidade juvenil.

Para essa intenção ser realmente operativa em qualquer contexto e iniciativa exige-se não só profissionalismo e técnica, mas espiritualidade. “De fato, na mente de Dom Bosco e na tradição salesiana o Sistema preventivo tende sempre mais a se identificar com o espírito salesiano: é ao mesmo tempo pedagogia, pastoral e espiritualidade que associa, numa única experiência dinâmica, educadores (como indivíduos e como comunidade) e destinatários, com atitudes e comportamentos nitidamente caracterizados”.[48]

A distinção, a inter-relação, a fusão existencial das duas dimensões apresenta exigências em diversos níveis.

Um primeiro nível é o da mentalidade dos educadores. Na raiz de sua visão educativa devem atuar algumas convicções: a exemplaridade de Cristo, que assume e transforma o humano na pessoa divina, a vocação de todo homem a se tornar harmoniosa e unitariamente filho de Deus e filho do homem, a necessidade da graça para realizar em plenitude a própria humanidade; a revelação como manifestação do sentido da existência humana porque ilumina a origem e o destino do homem e sustenta a sua caminhada. E, de outro lado, o valor da experiência humana, o apelo que se esconde nas questões juvenis e nos acontecimentos históricos, o valor teologal dos itinerários educativos através dos quais passa normalmente a graça da redenção que gera o homem novo.

Se se reconhece explicitamente a contribuição substancial dada pela graça e a revelação para o crescimento do homem, mantém-se igualmente alerta a atenção à situação do destinatário, para embocar os itinerários da paciência quotidiana, da gradualidade que aceita mover-se na medida do jovem.

Há depois um segundo nível, da experiência pessoal do educador. Em sua mente se dá por primeiro a síntese entre cultura e Evangelho, quando ele sabe colocar-se diante dos fatos da existência e das correntes culturais avaliando-os de acordo com critérios evangélicos para assumir o positivo, contestar o ambíguo e corrigir o negativo. É em sua existência que irá acontecendo a integração entre fé e vida com a valorização de tudo o que seja humano, nobre e bom e ao mesmo tempo com abertura às perspectivas insólitas de Cristo.

Em seguida, há o nível da praxe educativo-pastoral, no qual os processos de educação e evangelização não se justapõem nem se organizam como itinerários sucessivos reciprocamente exclusivos. Não se delegam a responsabilidades distintas e incomunicantes. Simplesmente se educa, como crentes, porém. Evangeliza-se, mas como educadores segundo a situação dos jovens. As duas coisas fazem-nas todos singularmente e em comunidade, porque se trata de comunicação de vida mais do que de papéis ou tarefas didáticas. As duas dimensões unem-se de forma livre e variável, porque compreendem o testemunho dos educadores, as sugestões do ambiente, a escuta dos questionamentos dos jovens, a disponibilidade ao diálogo. Assim como são oferecidos na outra vertente, da evangelização, sem ordem rígida, o anúncio evangélico, a proposta de fé, o itinerário catequético, a vida na graça, o empenho, a espiritualidade.

Por último, há o nível da organização que deve inspirar-se também nessa unidade, garantindo a identidade cristã e o caráter educativo da estrutura e dos projetos. Não importa se essa identidade não possa existir ainda de forma explícita e total (como nos países onde a maioria dos jovens professa religiões diversas) ou se ela é expressa somente em seus elementos mais simples (como em muitas formas de recuperação). Importante é que não seja somente formal ou institucional, mas se torne operante e atinja o coração das pessoas e ilumine as questões de vida e cultura. Só assim o Evangelho se torna profecia, fonte de alegria e energia.

O Padre Egídio Viganò recomendava, na carta sobre o Projeto Pastoral, que se mantivesse claro o fim último da educação segundo o espírito de Dom Bosco para se conservar a identidade evangelizadora das iniciativas educativas. Qualquer fim intermédio na mente do salesiano é ordenado em vista da realização da vocação do jovem que é o conhecimento e a comunhão com Deus. Por isso, é preciso orientar positivamente todo o processo educativo para Cristo, escavando no significado das experiências humanas e levando a elas a luz do Evangelho. É vantajoso, por isso, ativar a consciência crítica sobre valores e correntes de pensamento, num momento de pluralismo como o atual.

Ao mesmo tempo, a fim de garantir o estilo educativo em nossa obra de evangelização, ele indica a prontidão positiva pelas áreas, iniciativas e instituições culturais. Elas, embora ofereçam hoje uma possibilidade de evangelização diversa do passado, nos colocam no terreno fecundo do humano, que é naturalmente aberto à palavra de Deus. Será preciso, portanto, ligar profundamente o Evangelho à cultura e, podemos acrescentar, a fé aos problemas da vida e vice-versa. E é justamente isso que exige um senso realista da gradualidade e a concretitude das mediações educativas, como comunidade, plano de atividades, testemunho e palavra dos educadores.

 

Imaculada Auxiliadora

 (ACG 289. 309. 322)

 

Como em todas as iniciativas do Espírito Santo, a maternidade de Maria é sempre interessada quando nasce um carisma. Em nossa experiência histórica, porém, isso aparece de forma singular a ponto de não se poder conceber a formação da nossa praxe pastoral sem a presença de Maria, nem o amadurecimento de nossa espiritualidade sem a contemplação de sua figura. A devoção à Auxiliadora torna-se fator integrante do fenômeno salesiano, passa a fazer parte de sua totalidade de tal modo que seria absurdo isolar um do outro. Existe um estritíssimo intercâmbio vital, um vínculo íntimo, uma relação profunda tanto com a missão salesiana como com o espírito do nosso carisma.[49] Se ela está nas origens do itinerário de Dom Bosco como graça, ela é também o ponto terminal de sua caminhada de crescimento, a maturidade do seu vasto projeto apostólico, a síntese concreta dos vários componentes da sua espiritualidade e a fonte vital do seu dinamismo e fecundidade.[50]

Isso tem suas origens últimas no acontecimento de Cristo e em nossa pertença à sua comunidade, a Igreja, através da fé. É, com efeito, do vértice pascal e da perspectiva da ressurreição de Cristo e nossa, que olhamos para a nossa relação com a Virgem Maria, Mãe de Deus. Desde a anunciação criou-se uma relação de maternidade entre Maria e Jesus, que não desaparece, mas se transfigura no momento em que Ele assume sua missão e realiza sua morte. A maternidade de Maria adquire, assim, significados novos no momento redentor por excelência, na vida da Igreja e em sua assunção ao céu. “Crer na ressurreição, e afirmar que Maria é com o seu Filho assunta ao céu não significa que Eles vivem em qualquer astro distante, de onde poderiam chegar à terra com alguma viagem extraordinária de astronauta; significa, diversamente, que estão verdadeiramente vivos, presentes e atuantes em nosso mundo através da nova realidade pascal da Ressurreição”.[51]

A revelação desse mistério é mediada para nós pela experiência espiritual de Dom Bosco e pelos acontecimentos que estão na origem do carisma salesiano. Neles Maria aparece como uma presença emergente percebida e acolhida como mediação materna constante, sendo indicada como a “Mestra” da nossa praxe educativa e da nossa vida espiritual.

A vocação é revelada a Dom Bosco através da intervenção e da palavra de Maria. Ela indica o campo, a finalidade, o método de sua missão. Torna-se a sua Inspiradora. Sua obra juvenil nascerá no dia da Imaculada e crescerá marcada por coincidências e acontecimentos de significado mariano que se dão dentro dos muros do Oratório e no espaço maior da Igreja. A experiência oratoriana desemboca na Congregação salesiana, Valdocco culmina no santuário; a referência à Imaculada se enriquece com a de Auxiliadora. Dom Bosco, conhecedor direto de toda a evolução, vê o fio que liga as diversas fases. “Foi Ela quem tudo fez”. E está também seguro quanto ao futuro: “A Santa Virgem continuará a proteger a nossa Congregação e as obras salesianas se nós confirmarmos a nossa confiança n’Ela e continuarmos a promover o seu culto”.[52]

A experiência de Dom Bosco leva a fixar o olhar na pessoa viva de Maria mediante duas representações ou títulos em que vemos significados particulares. A Imaculada fala da presença fecundante do Espírito, da disponibilidade ao projeto de Deus, da ruptura com o pecado e com todas as forças que o sustentam, da totalidade da consagração. No Oratório, inspirou a abertura ao sobrenatural, a pedagogia da graça, a delicadeza de consciência, os aspectos maternos do acompanhamento educativo. Deixou marcas na festa da Imaculada, na Companhia da Imaculada, uma espécie de prova da Congregação salesiana, no tipo de santidade de Domingos Sávio, que aparece hoje como o precursor da espiritualidade juvenil salesiana.

Ao redor da Auxiliadora concentra-se ainda outra constelação complementar de significados. Ela recorda a maternidade de Maria em relação a Cristo e à Igreja, o apoio de Maria ao povo de Deus nas vicissitudes históricas, sua colaboração na obra de salvação e, de consequência, sua função na encarnação do Evangelho entre os povos (“Estrela da Evangelização”),[53] a mediação da graça para cada cristão e comunidade.

Ela infunde-nos o senso de Igreja, o entusiasmo pela missão, a audácia apostólica que teve sua manifestação na construção do Santuário e nas partidas missionárias, a capacidade de congregar forças pelo Reino, evidenciada pelo surgimento da Família Salesiana.

As duas óticas, da Imaculada e da Auxiliadora, apresentam-se como o ícone da nossa espiritualidade, que estimula à caridade pastoral, à interioridade apostólica. A missão de Maria começa com uma abertura ao Espírito, move-se a partir da fé e, como se demonstra no Magnificat, nutre-se da contemplação dos acontecimentos da salvação. Exprime-se e se desenvolve depois no serviço incondicionado ao crescimento de Cristo, da comunidade cristã, do mundo.

Constitui, então, para nós, apelo e estímulo ao desenvolvimento das duas dimensões em estreita unidade e recíproca comunicação. Ela, com efeito, une a virgindade à maternidade; o divino em seu seio une-se ao humano; gerando Jesus homem, torna-se mãe de Deus. Educar Jesus quererá dizer criar condições humanas para que o Verbo tenha plena expressão temporal e se enraíze na humanidade. Contemplação e ação caminham nela, não só pari passo, mas conscientemente fundidas. O sim do Pai é sempre um sim para a salvação do mundo. “A graça de unidade tem em nós um indispensável aspecto mariano, que ilumina a interioridade apostólica e a acompanha em seu crescimento. Seria falta de objetividade refletir sobre a nossa consagração religiosa, sem fixar a atenção na plenitude interior e na maternidade de Maria”.[54]

Fatos salvíficos e acontecimentos carismáticos introduzem, então, cada salesiano num âmbito onde Maria já está presente como Mãe. Como exprimimos a nossa consciência e acolhida dessa realidade?

Primeiramente, cultivando para com Ela una relação pessoal que se fundamenta na meditação dos acontecimentos salvíficos, da sua luminosidade e dos seus significados: a anunciação, Caná, o Calvário, a Ressurreição, o cenáculo; alimenta-se com a atenção à vida eclesial, onde se sente a sua presença; exprime-se na atitude filial que inspira as diversas práticas marianas. Dizem sobre isso as nossas Constituições: “Nutrimos para com ela devoção filial e forte” (Const. 92).

A relação pessoal canaliza-se no trabalho educativo dando-lhe um colorido salesiano. Na vertente da proposta educativa leva para a atenção à vida de fé e de graça, para a qual Maria gera cada jovem; sugere a iniciação dos jovens nas relações filiais com Deus, que se manifestam na resposta pronta às suas inspirações e no sentido do pecado; infunde confiança na misericórdia do Pai e na força redentora de Cristo.

Na vertente do método, Maria sugere a assistência cheia de compreensão, o apoio à vida que cresce, a capacidade de cultivar os germes, a esperança. O encontro das duas vertentes constitui o sistema preventivo, que nasceu e cresceu na escola espiritual de Maria: “Guiado por Maria que lhe foi Mestra, Dom Bosco viveu, no encontro com os jovens do primeiro Oratório, uma experiência espiritual e educativa a que chamou sistema preventivo” (Const. 20).

Por último, há o campo da pastoral popular, que comporta atenção à experiência religiosa, cuidado pela piedade mariana, escuta das invocações do povo de Deus, entendido em sentido amplo. É preciso, em primeiro lugar, ser capazes de perceber suas ânsias e esperanças; suscitar e depois sustentar a fé através de expressões encarnadas em sua cultura. Os Salesianos nos contextos populares educam a juventude, empenham-se na evangelização, apoiam a promoção, colaboram com a cultura. Promovem então a devoção a Maria, atentos a quatro perspectivas: valorização do patrimônio da religiosidade popular e dos valores humanos e cristãos que ela apresenta; aceitação da curva cultural de hoje, que sugere a iluminação de novos questionamentos sobre a pessoa, o papel da mulher, os fundamentos e a função da fé e outros semelhantes; inspiração nas orientações do Concílio Vaticano II, que proclama, em contexto atual, a mensagem evangélica sobre Maria; atuação das mediações catequéticas, culturais e celebrativas para enraizar no povo o sentido da presença de Maria.

Existem três figuras da síntese que expusemos. A primeira é um fato histórico: a construção da Basílica; a segunda é uma representação pictórica: o quadro da Auxiliadora do altar-mor, cujos motivos foram sugeridos pelo mesmo Dom Bosco; a terceira é a oração de entrega confiante que recitamos todos os dias: Imaculada Virgem Auxiliadora, Mãe da Igreja.

 

* * *

 

A espiritualidade que resulta dessas energias interagentes, é concentrada pelo Padre Viganò na expressão “coração oratoriano”. Ele é atribuído a Dom Bosco, que se dedicou à educação dos jovens “com firmeza e constância, por entre obstáculos e canseiras; não deu passo, não pronunciou palavra, não pôs mão a empreendimento que não visasse à salvação da juventude”.[55] Evoca sua experiência pastoral original, normativa do carisma, não tanto em sua materialidade como em seu espírito. Recorda a praxe que dela teve origem e aquilo que comporta na pessoa dos educadores.

A mesma expressão é referida também a cada salesiano de todos os tempos, enquanto tem predileção pelos jovens como o campo pessoal de trabalho, se sente enviado a eles por Deus, é capaz de fazer-se amar pela bondade, coloca as pessoas no centro de seus projetos, é criativo na resposta às necessidades e questionamentos dos jovens.[56]

O coração oratoriano manifesta-se no desejo ardente de revelar Jesus como itinerário, verdade e vida, fazer experimentar a sua graça, abrir às vocações de compromisso, acompanhar para a santidade. Compreende o entusiasmo interior por Cristo Pastor, a vibração interna pela sua obra de salvação, a capacidade de se unir a Deus e vê-lo nos jovens.

Numa palavra, o coração oratoriano assume os traços da resposta generosa à vocação, da consagração apostólica, da interioridade pastoral do da mihi animas, do esforça-te por fazer-te amar, da ‘graça de unidade’, do amor a Maria Auxiliadora dos cristãos, Mãe dos jovens. Representa a identidade ou fisionomia do salesiano visto ao vivo e em ação, em seu ambiente típico, em suas tensões e orientação fundamental, no conteúdo, mas também na vivacidade emotiva. “É a condição salesiana da primeira profissão até o último respiro”.[57]

Coração, mais que indicar só a parte dos sentimentos como costumeiramente acontece em nossas línguas, assume o sentido total e existencial que tem na Bíblia. O coração do homem é a fonte mesma da sua personalidade consciente, inteligente e livre, onde têm origem, de forma muitas vezes misteriosa e amadurecem suas opções decisivas, onde se aninha sua bondade ou malícia (cf. Lc 6,45), onde ressoa a lei não escrita e se faz sentir a ação de Deus; onde Maria conservava a Palavra e a meditava (Lc 1,19; 2,51). Por isso, afirma-se que o homem vê as aparências, mas Deus conhece o que se esconde no coração; que o homem precisa de um coração novo para escutar e seguir a Deus, e Deus promete mudar-lhes o coração de pedra em coração de carne.

Oratoriano, compreende o carisma, a vocação pessoal e a experiência histórica salesiana vivida com fidelidade dinâmica.

Os empenhos operativos que assumimos e os que nos dispusemos a desenvolver em futuro próximo levam-nos a esse núcleo da nossa espiritualidade. O Instrumentum laboris do Sínodo no-lo recorda: “Augura-se - dizia - uma retomada da espiritualidade, sobretudo na vida apostólica ativa, não só com a finalidade de tornar mais incisiva a sua missão, como também para tornar possível a mesma vida consagrada num mundo que parece ter-se tornado impermeável à obra de evangelização e que exige personalidades espirituais sólidas, que evangelizem com o fervor dos santos”.[58]

Essa é também a mensagem do Padre Viganò.

Vô-la entrego de novo com confiança e vos cumprimento no Senhor, pedindo-vos uma oração pelo próximo CG24.

Juan E. Vecchi

[1] ACG 347, p. 14.

[2] LG 4

[3] Cf. RM 28.

[4] Cf. EN 75.

[5] ACS 301, p. 6.

[6] ACS 304, p. 7.

[7] Cf. ACS 303.

[8] Cf. ACG 312.

[9] Cf. LG 44; PC 5; ET 4.7; MR 8.10.11; RD cap. III.

[10] Elementos essenciais do ensinamento da Igreja sobre a vida religiosa, 5; RD 7.

[11] ACG 312, p. 23.

[12] Ib.

[13] ACG 312, p. 13.

[14] Cf. ACG 336, p. 16.

[15] Cf. ACG 334, p. 33; 336, p. 35-36.

[16] ACG 337, p. 38.

[17] ACG 337, p. 39.

[18] ACS 308, p. 18.

[19] ACS 296, p. 5.

[20] ACG 334, p. 33-34.

[21] ACG 290, p. 15-16.

[22] ACS 296, p. 6-7.

[23] ACG 324, p. 17-18.

[24] ACG 337, p. 31-32.

[25] ACG 331, p. 12.

[26] ACG 324, p. 18-19.

[27] ACS 290, p. 15.

[28] PDV 23.

[29] Ib.

[30] IP 5.

[31] ACS 290, p. 16.

[32] G. BOSCO, Vita di San Domenico Savio cap. VIII.

[33] P. STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica. Vol. II, PAS-VERLAG, Zurique, 1969, p. 13.

[34] E. CERIA, Annali, c. CXVII, p. 722.

[35] Cf. ACG 338, p. 14.

[36] San Francesco di Sales, Trattato dell’Amore di Dio, I, VII, cap. 7, Ed. Paoline 1989, p. 527; cf. ACG 338, p. 15-16.

[37] ACS 48, p. 733-734.

[38] Cf. San Francesco di Sales, Trattato dell’Amore di Dio, I, VII, cap. 6, p. 523-524; ACG 338, p. 18.

[39] ACG 338, p. 28.

[40] CG23 127.

[41] Cf. Interioridad apostólica – Reflexiones sobre la gracia de unidad, Argentina 1988.

[42] CGE 127.

[43] CG23 332.

[44] Discurso conclusivo do Simpósio da Família Salesiana sobre Dom Bosco Fundador, ACG 329, p. 44.

[45] Don Bosco, attualità di un magistero pedagogico, LAS. Roma 1987, Apresentação, p. 12.

[46] Cf. CG21 80.

[47] Ib. 81.

[48] CG21 96.

[49] Cf. ACS 289, p. 29.

[50] Cf ACS 289, p. 30.

[51] ACS 289, p. 6.

[52] Do “Testamento espiritual” de Dom Bosco; cf. ACG 337. 339.

[53] Cf. EN 82.

[54] Cf. Interioridad apostólica, p. 82.

[55] Const. 21; cf. ACG 321 p. 15; 326, p. 6.

[56] Cf. ACG

[57] ACG 334, p. 41.

[58] N. 86.