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Uma mensagem de esperança (ACG 353)

Egídio Viganò / Juan Edmundo Vecchi

UMA MENSAGEM DE ESPERANÇA

Em memória do P. Egídio Viganò

Atos do Conselho Geral

Ano LXXVI – julho-setembro, 1995, 353

A última carta circular do Reitor-Mor, P. Egídio Viganò ficou incompleta. Tinha-a pensado e preparado durante o tempo da enfermidade, como reflexão – convalidada pela experiência – sobre o valor do sofrimento na vida do salesiano, mas não conseguiu senão redigir a sua ampla introdução, que é publicada com a apresentação feita pelo Vigário, P. Juan Vecchi, nos ACG 353.

Roma, 1º de julho de 1995

 

O nosso Reitor-Mor P. Egídio Viganò, 7º sucessor de Dom Bosco, retornou à casa do Pai no dia 23 de junho passado. Faleceu na Casa Geral, assistido por seus irmãos P. Ângelo e P. Francisco, confortado pela oração e pelo afeto dos irmãos e irmãs e rodeado pelos sinais de estima de numerosos amigos. O Santo Padre fizera-lhe chegar pessoalmente, por telefone, a sua palavra de conforto e a sua bênção.

Os funerais evidenciaram o reconhecimento dos irmãos e membros da Família Salesiana ao P. Viganò pelo seu incansável serviço de orientação e animação. Ressaltaram a estima de que gozava nos ambientes eclesiais e civis pela sua preparação teológica e disponibilidade à colaboração.

Demonstraram sobretudo a comunhão que a Congregação soube criar no mundo através de suas comunidades e obras. Chegaram do mundo todo numerosos fax, telegramas e cartas de condolências e comentários sobre a personalidade e a obra do P. Viganò, assinados por altas personalidades e também por gente simples.

Quero agradecer, com os mais cordiais sentimentos, aos Inspetores, comunidades salesianas e irmãos que enviaram a própria participação.

Foram também realizadas comemorações em muitos e variados lugares onde estão presentes os Salesianos, com a participação de autoridades e povo. Particularmente significativa foi a que a cidade de Sondrio, sua cidade natal, quis dedicar-lhe na sexta-feira 30 de junho. Dela tomaram parte o Vigário do Reitor-Mor e diversos Conselheiros gerais.

A herança que nos deixa, em continuidade com os anteriores Reitores-Mores e Capítulos Gerais, constitui um inestimável tesouro de família. Os oradores que se sucederam sublinharam seus aspectos mais relevantes. Os amigos e a imprensa recordaram a sua contribuição à reflexão pastoral do pós-Concílio e as iniciativas educativas que inspirou. É prematuro tentar um balanço mais completo, mesmo que só com a finalidade de meditação. O que se fará proximamente na carta mortuária já em preparação. E nos servirá para a relação sobre o Estado da Congregação no próximo Capítulo Geral.

Parece, porém, mais de acordo com os acontecimentos dar ao vosso conhecimento as últimas páginas escritas pelo P. Egídio. Ele manifestava frequentemente durante a enfermidade o desejo de dar aos irmãos uma meditação sobre o sofrimento como momento privilegiado da caridade pastoral. Na Sexta-feira santa enviara uma mensagem em que dizia: “Queridos todos da Família Salesiana no mundo, sinto-me especialmente unido a vós neste sagrado dia de mistério e de sacrifício. Estou há semanas numa clínica, e jamais provara a experiência da Sexta-feira Santa como dia extraordinário do carisma de Dom Bosco. Submergir no mistério do amor de Cristo, subjugados pelos sofrimentos da carne: não se descobre um momento mais apropriado para estar com os jovens, para animar irmãos e irmãs, para intensificar a Família Salesiana. O que vos posso oferecer é muito pouco, mas ofereço-o neste clima de sexta-feira de missão e de paixão. Agradeço-vos pelas inúmeras orações e a cada um apresento com afeto fraterno, os mais cordiais votos pascais. Peçamos ao P. Rua que nos faça sentir a sua ‘metade’ com Dom Bosco. No Senhor Vencedor”.

Tratava-se agora de desenvolvê-lo. Teria tido o tom e o valor da experiência pessoal.

Nós o encorajamos, conscientes do valor dessa reflexão amadurecida nas circunstâncias que nos são conhecidas. Nos dias em que esteve na enfermaria da UPS, quando parecia que se encaminhasse para um certo restabelecimento, ele pediu as anotações recolhidas anteriormente. Propunha-se a desenvolver e dar forma definitiva à sua carta-mensagem.

Mas as forças não o sustentaram. A volta dos distúrbios, com o consequente ulterior enfraquecimento geral, impediu-o de entrar em cheio no argumento.

Encontramos em sua mesa seis páginas escritas à mão. Não se trata sequer de um primeiro ponto, mas apenas de indicações de motivos a serem alinhavados. Aparecem aqueles que lhe eram mais caros: Jesus Bom Pastor que dá a vida pelos seus e por isso é ressuscitado por Deus, a caridade pastoral, a graça de unidade, o “da mihi animas”, a contemplação salesiana.

Pensei, com os demais membros do Conselho que, embora em estado germinal, essas páginas constituíam quase um testamento sui generis, compreensível e precioso para aqueles que conheceram P. Egídio diretamente ou através da leitura de seus escritos.

Continuai a recomendá-lo ao Senhor.

Juan E. Vecchi

Vigário do Reitor-Mor

* * *

Queridos irmãos,

vejo-os empenhados na preparação do próximo CG24: será um outro salto adiante para a vitalidade do carisma de Dom Bosco. Concentremos a oração, os sacrifícios e a reflexão para o crescimento na fidelidade às origens e aos tempos. Experimentei pessoalmente nos meses passados o que comporta de novo em nossa vida o estado de doença na incipiente ancianidade. É uma espécie de ‘inculturação’ no sofrimento, que abre uma ótica diversa, mas inseparável e penetrante, sobre a identidade da própria vocação e sobre os aspectos mais vitais do próprio carisma.

Para iluminar salesianamente essa peculiar experiência, quis reler o que sabemos dos últimos quatro anos de vida de Dom Bosco: a sua velhice marcada por tantos sofrimentos, de 1884 ao início de 1888, dos 69 aos 72 anos. Quando completou 70 anos sua fraqueza e sua decadência eram tais que um médico exclamou: é como se tivesse completado 100! Encontrei-me diante de um “Fundador” que não cedia diante de suas mais altas responsabilidades de portador de um carisma concreto a ele confiado. À proposta do papa Leão XIII de buscar um sucessor, preferiu a de um vigário com direito a sucessão, preocupando-se assim do vértice, embora no sofrimento, com vários aspectos vitais para toda a Congregação.

É impressionante a descrição do seu estado de saúde: da vista às pernas, dos pulmões às deficiências em vários órgãos vitais. Mas não se fechou numa enfermaria para cuidar de si mesmo, antes, demonstrou coragem espiritual e até mesmo temeridade ao enfrentar viagens extenuantes, apesar da proibição dos médicos e da resistência dos irmãos. Foi à França (março ‘84), depois a Roma (abril-maio), em seguida a longa viagem a Barcelona (abril-maio ‘86), ainda a Milão (setembro ‘86) e finalmente a Roma para a consagração do santuário do Sagrado Coração.

O que mais admira nessa maneira de enfrentar o sofrimento é sem dúvida o dom de si pelo cuidado da vasta obra empreendida. À primeira vista parecem preocupações financeiras urgentes (para o templo do Sagrado Coração, para a empresa missionária, para as necessidades dos jovens pobres de suas obras, para não deixar pesar dívidas sobre o seu sucessor); mas existe toda uma outra vertente que o preocupava: a questão dos ‘privilégios’ para a Congregação, a autenticidade do Sistema Preventivo (a famosa carta de Roma), o compromisso missionário, a fidelidade ao Papa e a defesa do seu magistério, o testamento a deixar aos irmãos, os sonhos sobre o futuro da Congregação. Permaneceu sempre o cérebro e o coração de sua obra: nele se distinguia a responsabilidade de “Fundador”, avalizada no calvário pelo qual passava: a luz da cruz sobre a autenticidade do carisma.

De minha parte, meditando esse testemunho excepcional do nosso querido Fundador e Pai, pensei em concentrar a reflexão e a capacidade de orientação num tema central do nosso espírito, que precisa sempre de maior aprofundamento, sobretudo após a celebração do recente Sínodo sobre a Vida consagrada.

Enquanto Dom Bosco retornava da longa viagem a Barcelona, numa parada no seminário de Grenoble, o Superior do seminário, no discurso de boas-vindas disse-lhe entre outras coisas: “ninguém melhor do senhor sabe o quanto o sofrimento seja santificador”. E Dom Bosco comentou com perspicácia: “Não, monsenhor Reitor, não é o sofrimento que santifica, mas a paciência!”.

Nessa expressão há uma profundidade espiritual que faz emergir a identidade do verdadeiro espírito salesiano, centrado na caridade pastoral. É certamente bela a conhecida expressão contemplativus in actione, que não exprime, porém, a totalidade do segredo do espírito de Dom Bosco. Nele, doente, aparece radioso o mote escolhido para identificar o seu segredo: da mihi animas. É um dom de si para a salvação dos jovens que vivifica toda a existência: a atividade e a paciência. É o verdadeiro respiro da alma salesiana, como o P. Rinaldi deixou escrito. Na impotência física do nosso Pai brota poderosa e clara a atitude permanente e totalizante do da mihi animas: “por vós estudo, por vós trabalho, por vós eu vivo, por vós estou disposto até a dar a vida”.[1] O padre Rua, com efeito, constatava: “Não deu passo, não pronunciou palavra, não pôs mão a empreendimento que não visasse à salvação da juventude... Realmente tinha a peito tão somente as almas”.[2]

A observação de Dom Bosco sobre a importância da paciência leva-nos, pois, a individuar o verdadeiro significado da caridade pastoral.

E é indispensável referir aqui a nossa reflexão ao mistério mesmo de Cristo, ao seu coração, aos acontecimentos de sua vida.

Mais que falar de caridade pastoral, como sujeito de reflexão abstrata, queremos referir-nos ao testemunho existencial de Jesus Cristo como Bom Pastor, ou seja com a ótica viva de um dado histórico que está na origem de toda a vocação cristã e que devemos perceber e aprofundar para a mais radical identidade do nosso espírito.

Trata-se de uma reflexão de marca explicitamente cristã, que não parte de conceitos embora sublimes, mas do realismo da história: pessoas, acontecimentos, dados de fato.

Jamais nos esqueçamos que a fé cristã nos concentra sempre na história; liga-nos a uma realidade vivida que preexiste às elaborações conceituais e também às próprias estruturas sacramentais.

Para entender a caridade pastoral é preciso sentir em primeiro lugar as palpitações do coração do Bom Pastor em sua existência terrena, assim como para entender a Eucaristia é preciso referir-se antes aos acontecimentos históricos do Calvário.

Há, pois, um verdadeiro salto de qualidade de alto realismo para nossas reflexões. A explicação das considerações conceituais e do significado objetivo de toda a ordem sacramental deve ser encontrada clara e objetiva numa realidade histórica preexistente.

O Sínodo sobre a Vida consagrada ofereceu-nos a base para esse salto benéfico. De fato, se a Vida consagrada é constitutiva da natureza da Igreja, devemos referir-nos ao mistério de Cristo em si mesmo para explicar a sua origem e identidade.

Podemos sintetizar essa consideração afirmando com segurança que Jesus Cristo é o fundador da Vida consagrada e o iniciador da Pastoral da Nova Aliança.

Dois aspectos n’Ele inseparáveis, expressos na mais intensa graça de unidade que se possa imaginar.

Recordemos o quanto afirma João Paulo II na exortação apostólica Pastores dabo vobis: “‘O Espírito do Senhor está sobre mim’ (Lc 4,18). O Espírito não está simplesmente ‘sobre’ o Messias, mas o ‘preenche’, penetra, atinge em seu ser e agir. O Espírito, com efeito, é o princípio da ‘consagração’ e da ‘missão’ do Messias: ‘por isso consagrou-me com a unção, e enviou-me para anunciar aos pobres uma alegre notícia...’ (Lc 4,18). Pela força do Espírito, Jesus pertence total e exclusivamente a Deus, participa da infinita santidade de Deus que o chama, elege e envia. Dessa forma o Espírito do Senhor revela-se fonte de santidade e apelo à santificação”.[3]

É aqui que encontramos a revelação-chave daquilo que é a caridade pastoral em sua fonte primeira, a vocação fundamental de Jesus de ser o Bom Pastor: Ele ressuscitou como o Pastor bom que deu a vida pelas suas ovelhas.[4]

“O conteúdo essencial da caridade pastoral é o dom de si, o total dom de si à Igreja”.[5]

No coração de Jesus encontramos que a consagração está ligada orgânica e vitalmente à pastoral.

Em seu ministério público, Jesus preocupou-se em formar uma fileira de empenhados pelo Reino, escolhendo os Doze para um serviço de caridade pastoral, dando-lhes poder de animação e capacidade de influxo para que crescesse em vigor a graça de unidade entre consagração e missão.

É importante sublinhar que entre consagração e ministério apostólico existe, na realidade histórica preexistente à estrutura sacramental, um senso vital pelo qual não existe um consagrado que não esteja em união orgânica com o ministério apostólico, e vice-versa: o ministério apostólico está plenamente a serviço dos consagrados.

Se os Bispos no Sínodo, ao falar dos consagrados, repetiram tantas vezes de re nostra agitur, também os consagrados falando do ministério apostólico deverão repetir com alegre convicção de re nostra agitur.

Egídio Viganò
Reitor-Mor

 

MENSAGEM DO SANTO PADRE

E HOMILIA DO VIGÁRIO DURANTE A MISSA EXEQUIAL

A solene Missa exequial em sufrágio do P. Egídio Viganò, presidida pelo P. Juan Edmundo Vecchi, Vigário do Reitor-Mor, tendo ao lado os dois irmãos salesianos, P. Ângelo e P. Francisco, os membros do Conselho Geral e alguns Bispos salesianos, foi concelebrada por cerca de quinhentos sacerdotes, segunda-feira 26 de junho no templo de Dom Bosco em Roma. Assistiam à celebração 8 cardeais (os três cardeais salesianos em Roma, Rosalio Castillo Lara, Antonio Javierre Ortas e Alfons Stickler e os cardeais Eduardo Martínez Somalo, Pio Laghi, Eduardo F. Pironio, Achille Silvestrini, Adrianus Simonis), uns trinta Bispos, a Madre Geral das FMA com o seu Conselho, representantes de todos os grupos da Família Salesiana com numerosos jovens e muita gente, que vieram rezar pelo 7º Sucessor de Dom Bosco. Entre as autoridades civis, o Secretário Geral da Presidência da República Italiana representando o Presidente, Oscar Luigi Scalfaro, impedido de participar.

Apresentamos a mensagem enviada pelo Santo Padre por telegrama, lida no início da celebração por S. Eminência o Cardeal Rosalio Castillo Lara:

“Recebida com emoção a triste notícia do desaparecimento do Rev.mo P. Egídio Viganò, Reitor-Mor da Sociedade Salesiana de São João Bosco, apresento minhas sentidas condolências pelo luto que atingiu essa Congregação. Ao recordar com viva e afetuosa saudade a sua profunda preparação cultural, como estimado docente de Teologia da vida consagrada e iluminado educador dos jovens segundo o método do venerado Fundador, rendo graças a nosso Senhor por ter dado à Igreja uma figura tão exemplar de zeloso sacerdote, generosamente empenhado na nova evangelização do mundo contemporâneo e precioso colaborador da Sé Apostólica, e ao mesmo tempo elevo férvidas orações para que acolha este seu servo bom e fiel na alegria eterna, que bem merece quem, como ele, gastou toda a vida na contínua doação à glória de Deus e ao bem das almas, enquanto envio ao senhor, à Família Salesiana e a quantos partilham a dor de sua partida a confortadora bênção apostólica em sinal da minha intensa participação ao luto.

IOANNES PAULUS PP. II

E aqui, o texto da homilia do P. Juan E. Vecchi durante a celebração:

Impressiona a proclamação das bem-aventuranças junto a um cadáver e dirigida a uma comunidade que se ressente de uma grave perda. De fato, as bem-aventuranças são constatações de uma felicidade já atuada; congratulações por um bem presente e definitivo, mais que um código de conduta acrescida de um prêmio ou uma página didática.

Elas anunciam que Deus torna felizes hoje aqueles que se põem em sua busca, se abrem à sua presença e lhe confiam a própria existência. Porque a vida se manifesta então como dom superior àquele que podíamos esperar ou desejar, e nós colhemos as suas dimensões mais verdadeiras: a graça, a justiça, a alegria do dom de si.

A raiz dessa felicidade – diz-nos ainda a Palavra de Deus – é o espírito que habita, age e fala em nós. Ele faz nascer e amadurecer a consciência de que somos filhos de Deus. Leva a nos voltarmos a Ele com o apelativo de Pai e a ver a vida à luz dessa relação.

Começamos, então, a participar da história de outra maneira, porque percebemos que ela está cheia dessa mesma presença. Para o acontecimento de Cristo toda a realidade é como uma gestante que está para viver a experiência da maternidade, como sentinela que de cabeça erguida e olhar fixo perscruta o horizonte na expectativa do sinal de libertação.

É o testemunho de Deus a favor da vida. Contra ela não se sustentam nem as dificuldades passageiras nem a extinção de nossas forças.

A morte em Cristo não anula a felicidade, mas faz amadurecer a sua semente. Não é destruição de quanto procuramos fazer, mas sua realização.

Hoje, pois, chega à plenitude, para o P. Egídio e para nós, aquilo que ele procurou realizar e oferecer-nos em sua existência terrena.

Agradecemos ao Senhor, em primeiro lugar, pelo chamado à vida salesiana, que o Espírito fez ressoar em seu coração de menino e pela resposta que ele deu.

Egídio foi um filho espiritual de São João Bosco: filho, discípulo convicto, interprete convincente e prolongamento de sua paternidade. Sobre muitas de suas qualidades e realizações se está falando nestes dias. Contudo a graça que as compõem todas numa fisionomia determinada é a vocação salesiana. É a sua índole própria, o seu código genético, o centro a partir do qual se plasma a sua identidade.

Preparada numa família de fé simples e substanciosa, brotou no ambiente vivaz do oratório. Essa experiência, pátria do carisma salesiano, permaneceu indelével em sua memória, em seu pensamento e até mesmo em sua linguagem. “Oratoriano” é uma referência-chave em sua reflexão carismática. Do “tipo oratoriano” conservou alguns gestos e gostos até os últimos anos. Mas, sobretudo, iluminou as valências pastorais e espirituais do oratório, como paradigma de vida e ação.

A experiência missionária, segundo sua expressão, deu a esse germe vocacional maior abertura a culturas, geografias e problemas. Percebeu que sob suas formas simples ocultavam-se riquezas válidas para contextos diversos, onde quer que o homem se encontre.

Sua resposta amadureceu no empenho de formação, na experiência comunitária e na prática pastoral. Mas, sobretudo, foi levada à reflexão orgânica e fundada num incansável confronto com as orientações da Igreja, os desafios dos jovens e as correntes culturais.

Esse patrimônio de vivência e meditação do carisma fica para nós como herança do seu Reitorado. Cartas circulares, comentários anuais às estreias, pregações de retiros, diálogos pessoais, orientações de governo transmitem clareza e entusiasmo juvenil para a singular experiência de Deus, que teve início com Dom Bosco.

As vicissitudes do Fundador, a original inspiração evangélica que está à sua base, a sintonia com a reflexão eclesial sobre a vida consagrada, a leitura dos sinais dos tempos foram como refletores que iluminavam uma realidade que considerou sempre dom do espírito à Igreja, aberto a inesperadas expressões.

Era convicto de estar diante de uma mina capaz de apresentar sempre novas riquezas. A ela aplicava então a seriedade do pensamento, as vibrações do coração, a capacidade da comunicação e o esforço da tradução prática.

Amou o carisma. Ou melhor, foi orgulhoso dele. Não teve dúvidas quanto ao futuro. De suas realizações foi jovialmente entusiasta. Procurou compreendê-lo, seguindo a vida concreta da Congregação e da Família Salesiana real, que também considerava um espaço onde o Espírito sugere e produz novidade: questionamentos, desafios, empreendimentos, desenvolvimentos próprios do nosso tempo.

Havia nele um sentimento quase espontâneo, comentado por alguns que lhe eram mais próximos, que agora recordamos com circunspeção: para o P. Viganò, sem pretensão de comparações, as coisas salesianas e os salesianos eram sempre “o melhor”, como o são os filhos para os pais. Era uma classificação de pertença, de afeto e de desejo. Pensava bravos os seus irmãos, e bravos os queria, cultural e pastoralmente, em particular em meio aos jovens. E agradecia ao Senhor por tê-lo feito Pai desta Família.

Desse amor, guiado pelo intelecto e sempre voltado às realizações, nasceram algumas expressões-sínteses que são comentários da espiritualidade salesiana: graça de unidade, coração oratoriano, êxtase da ação, interioridade apostólica, caridade pedagógica, método da bondade, criatividade pastoral, “evangelizar educando”.

Agradecemos ao Senhor porque a sua palavra e direção enraizou-nos mais solidamente em Cristo.

A índole salesiana, que nele era uma segunda natureza, tinha uma fonte de alimentação: Jesus Cristo Bom Pastor, que empenha a vida pelos jovens. Ensinou-nos a contemplá-lo e amá-lo.

Provocado por um jornalista a revelar a sua oração preferida, confessou que era a invocação eucarística: Anunciamos a vossa morte, Senhor, e proclamamos a vossa ressurreição, enquanto esperamos a vossa vinda. Era a sua meditação quotidiana modulada de mil formas diante de experiências, situações pessoais e acontecimentos. A morte de Jesus como expressão suprema do amor de Deus pelo homem e como crítica a quanto se faz no mundo para fechar-lhe os horizontes da vida.

A ressurreição como enxerto de energia divina na história, transfiguração definitiva da existência humana, garantia da vitória do indivíduo e da humanidade, plenitude efetiva da vida nova.

A ressurreição foi o seu tema preferido. Cultivar a alegria do amor de Deus e da segurança do triunfo do bem parecia-lhe o que mais convém a um educador de jovens: por isso apoiou, junto à “Via crucis”, a representação e a prática da “Via lucis”. Itinerário de meditação juvenil sobre a ressurreição. Por isso quis uma “Colina das bem-aventuranças juvenis” na terra natal de Dom Bosco.

A partir do centro do mistério da morte e ressurreição, a sua reflexão trilha múltiplos percursos: Cristo modelo da nossa caridade pastoral, Cristo revelação do homem em quem inspirar o projeto educativo; Cristo fonte de onde brota a vitalidade da nossa consagração; Cristo energia de transformação dos jovens através da palavra educativa, dos mistérios celebrados e da amizade testemunhadora do adulto.

Seus discursos sobre Jesus são vigorosos e vibrantes, profissões pessoais de fé, mais que lições. Merece ser ouvida uma de suas passagens: “Em Jesus se fez presente para sempre toda a Palavra. Ele é o homem novo, o Senhor da história, o centro e a fonte de qualquer ulterior dimensão profética, Cristo é o novíssimo absoluto da intervenção de Deus na transformação humana... À sua luz se poderá perceber, do interior das mentalidades culturais, o aspecto cristão de tantos temas de interesse atual: amor, solidariedade, libertação e justiça, verdade e consciência, senso de pecado, conflitos e perdão”.

Agradecemos ainda porque situou-nos no movimento vivo da Igreja.

Sua adesão e conformação a Cristo levava-o a viver sempre mais profundamente inserido na Igreja, húmus dos carismas, espaço privilegiado do Espírito, sinal e instrumento da salvação. Considerou-a como sua Família, sua casa materna. Seguia sua vida e acontecimentos, com alegria e fé, sem ingenuidade, mas também sem críticas inúteis às finalidades pastorais, consciente de seus limites humanos, mas também de sua dimensão divina; ponto de conjunção entre mistério de Deus e história do homem. Encontrara-a em suas viagens como fator indispensável de humanização além de portadora do senso de Deus.

Teve uma experiência singular de Igreja nas quatro sessões do Concílio. Viveu-as com intensidade como o acontecimento do Espírito em nosso século e as narrou mil vezes, sem que o seu entusiasmo diminuísse. Sua colocação era sempre segundo uma expressão que lhe era habitual: “Na órbita do Concílio”.

Foi uma conversão teológica, cultural e pastoral, que marcou definitivamente sua mentalidade e seu ensino religioso. Nele inspirou as orientações doutrinais e as iniciativas práticas da Família Salesiana, buscando discernir na oração, na meditação e no intercâmbio de experiências a renovação duradoura das modas passageiras.

Tocou com as mãos a vida da Igreja em seu empenho de comunhão, em suas missões dramáticas, na participação das três sucessivas conferências latino-americanas de Medellín, Puebla e Santo Domingo e dos Sínodos dos Bispos. Não considerava essa participação um privilégio pessoal, mas um dom de Deus para seus irmãos e irmãs.

O seu esforço e o seu sonho era que não vivêssemos separados ou desinteressados daquilo que o Espírito atua na comunidade cristã: os carismas, a santidade, os movimentos de evangelização, o diálogo da mentalidade cristã com os problemas da modernidade.

O senso de Igreja compreendia um afetuoso reconhecimento ao Papa pelo serviço de animação da comunidade cristã e uma adesão de fé ao seu magistério. Não era apenas critério de disciplina. Tinha-o como aspecto indispensável da caridade pastoral, que não pode ser concebida fora da comunhão e de seus pontos de referência. Considerava-o ponto irrenunciável da tradição salesiana. Justamente, porém, porque não ignorava suas dificuldades, iluminou-o com exemplos e motivações adequadas ao contexto atual.

E agradecemos porque nos indicou eficazmente em Maria Auxiliadora o ícone da nossa vocação à consagração apostólica, orientada para fazer com que Cristo nasça no coração dos jovens através de uma educação que se inspira na bondade e na ternura.

Abriu o seu período de governo com uma carta: “Maria renova a Família Salesiana”. Foi uma inspiração que lhe veio numa sexta-feira santa, na contemplação de Nossa Senhora aos pés da Cruz. Inicia com o singular convite: “Levemos Maria para casa”, em nossas comunidades, mas também em nossos projetos pastorais, em nossa experiência espiritual, em nossos programas educativos. Nela via o modelo da plena disponibilidade a Deus e do serviço aos jovens, a imagem da Igreja em sua virgindade e maternidade.

A Auxiliadora é a Senhora dos grandes inícios como na encarnação ou na revelação de Jesus em Caná; é a Senhora das horas pentecostais ou de renovação; é a Senhora dos tempos difíceis. É o estímulo à audácia apostólica; a “começar” como Dom Bosco, mesmo sem a segurança de meios materiais, porque o Verbo nasce sempre virginalmente.

Em 1984 quis a entrega confiante da Família Salesiana a Nossa Senhora. Nela incorporou a Associação dos devotos de Maria Auxiliadora.

Uma página mariana conclui cada uma de suas cartas. Não é de estilo simples. Quem o relê hoje encontra aí o ponto de encontro dos três motivos que estão no centro da nossa vocação: Cristo, o homem, a Igreja.

As bem-aventuranças anunciam a plena realização de tudo isso pelo P. Egídio. Mas também a fecundidade histórica de quanto ele semeou entre nós, na pobreza, que é confiança em Deus, na pureza de coração, que é disponibilidade à voz do Espírito; na paz, que é serviço, comunhão e amor.

 

[1] Cf. Const. 14.

[2] Cf. Const.. 21.

[3] Pastores dabo vobis 19.

[4] Missal Romano, antífona do IV domingo da Páscoa.

[5] Pastores dabo vobis 23.