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A oração do Salesiano Educador Pastor (ACG 338)

Egídio Viganò

“CARISMA E ORAÇÃO”

A ORAÇÃO DO SALESIANO EDUCADOR PASTOR

Atos do Conselho Superior

Ano LXXII – outubro-dezembro, 1991

338

Introdução – Fascínio dos carismas – O homem em diálogo orante – A originalidade da oração cristão – Por Cristo, com Cristo e em Cristo – A pedra angular da oração cristã é a oração mental – A “meta” da oração segundo S. Francisco de Sales – Renovemos a nossa oração – Três polos a privilegiar – Ajudem-nos o Espírito e Maria.

Roma, 15 de agosto de 1991
Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.

Caríssimos Irmãos,

em junho e julho passados, durante a sessão plenária do Conselho Geral, aprofundamos vários aspectos da vida das Inspetorias em nossos dias. Um deles, ligado de alguma ma­neira à nossa renovação, é o seguinte: “Es­piritualidade salesiana e Movimentos eclesiais”. Trata-se de um dado que nos pode fazer refletir a fim de intensificarmos a nossa identidade e também, em alguns casos, evitar desvios.

Foi feito um levantamento da situação. Em relação à participação de irmãos em determinados Movimentos, foi difícil chegar a números exatos. Alguns participam como assistentes eclesiásticos (especialmente em nossas paróquias); outros comparecem espo­radicamente a algumas reuniões para informar-se; outros tomam parte de maneira explícita, aduzindo como razão o desejo de reabastecer-se espiritualmente; outros, enfim – espero sejam poucos –, aderem a eles de tal forma que chegam praticamente a uma dupla pertença que traz consigo desafeição à espiritualidade do próprio carisma.

Procuramos o porquê da atração por tais Movimentos. Pareceu-nos que, em diversos casos, pode-se pensar numa reação contra certo estilo de superficialidade que talvez se viva em algumas casas: uma espécie de ca­rência de autenticidade religiosa na consagração apostólica, a percepção da necessidade de maior interioridade contra certas formas de ativismo. Alguns dos que participam, sentem-se gratificados, porque dizem encontrar aí uma forma de aplicação mais imediata do evangelho, um relacionamento profundo, um protagonismo espiritual. Mas pode estar também entre as causas uma insuficiente compreensão da própria natureza da nossa espiritualidade, que é realista, sem excessos emotivos, equilibrada e operativa, destinada a fermentar a práxis educativa no quotidiano. Uma espiritualidade nada inferior às demais porque, para além das diferentes tipologias, todo modelo de vida espiritual aprovado pela Igreja representa um caminho autêntico de santidade. Ela se reveste exteriormente do que é ordinário: extraordinária no ordinário – como tantas vezes nos foi dito –, composta de coisas aparentemente pequenas, que, en­tretanto, são elementos orgânicos de um conjunto vital, radicado numa persona­lidade espiritual forte.

Convido-vos, então, a reconsiderar com mais atenção a proposta da nossa espiri­tualidade salesiana, que há anos vimos aprofundando, concentrando a atenção sobre o elemento vitalizante de toda interioridade, que é o da oração, ou, como se dizia antes entre nós, do “espírito de piedade”.[1]

Seja-nos de estímulo, para tão vital ar­gumento, a comemoração dos 150 anos do início do carisma do Oratório de Dom Bosco, no próximo dia 8 de dezembro.

 

Fascínio dos carismas

 

É bonito sentir-se envolvidos na pre­sença renovadora do Espírito Santo. A atual estação do Povo de Deus é uma hora caris­mática.

A nossa renovação moveu-se há anos nesta linha; assim fizeram muitos outros Institutos religiosos. Mas surgiram na Igreja também novos carismas, à maneira de “Movimentos eclesiais”. O Sínodo sobre os fiéis leigos (1987) tratou deles explicitamente.[2]

O Papa e os Bispos consideram-nos, no conjunto, um fato positivo: removem a apatia, geram entusiasmo, despertam a criatividade, colocam em atitude de resposta evangélica aos desafios dos tempos.

Como em todas as coisas humanas, embo­ra espirituais, este fenômeno pode também prestar-se a expressões não equilibradas, de forte carga emocional, de acentuado intimismo, de insistência sobre a “guia” direta do Espírito Santo sem necessidade das media­ções da autoridade e da comunidade. Pode, às vezes, provocar riscos em nível pastoral: de substituição, de confusão, ou de monopólio por parte de grupos.

Neste mesmo número dos Atos, o Vigário Geral, padre Juan Edmundo Vecchi, apontará alguns critérios de discernimento diante da influência que a participação nos Movimentos pode ter sobre a nossa identi­dade.

O contato com outros carismas deveria servir sempre para intensificar a pertença ao próprio.

A vertente em que se verifica a partici­pação de irmãos nos Movimentos é sobretudo a da busca de maior interioridade e oração mais genuína. Por isso queremos refletir um pouco sobre a “oração salesiana”. Carisma e oração são entre si inseparáveis e formam juntos os traços de uma particular fisionomia. Todo carisma dá um tom peculiar à oração, ao mesmo tempo que requer um intenso exercí­cio dela.

Mas para refletir sobre a oração devemos colocar-nos antes e mais além dos carismas.

De qualquer maneira é bom fazer logo algumas afirmações relativas ao relançamento do nosso carisma; elas podem im­pressionar profundamente: sem oração não há, para ninguém, síntese entre fé e vida; não há, para nós, reciprocidade entre evan­gelização e educação; não há unidade entre consagração e capacidade profissional; não há correspondência entre interioridade e opero­sidade. Ou seja, sem chama interior orante, o trabalho não é santificante, a competência humana não é testemunho evangélico, os compromissos educativos não são pastorais, o viver quotidiano não é religioso. Estas afir­mações podem parecer excessivas e extre­mistas, mas põem o dedo na ferida.

A ausência de verdadeira oração seria, para nós, uma derrota em todas as frentes. No-lo deixou escrito o próprio Dom Bosco: “A história eclesiástica nos ensina que todas as ordens e congregações religiosas floresceram e promoveram o bem da religião enquanto a piedade se manteve em vigor entre elas; pelo contrário, vemos que muitas decaíram e ou­tras deixaram de existir, mas quando? Quando afrouxou o espírito de piedade e cada membro se deu a ‘pensar nas suas próprias coisas, e não nas que são de Jesus Cristo’ (Fl 2,21), como de alguns cristãos já se queixava São Paulo”.[3]

 

O homem em diálogo orante

 

Mas o ataque de fundo à oração vem de longe: procede da interpretação secularista da atual virada antropológica que caracteriza as mudanças culturais. O evolver-se dos sinais dos tempos incide diretamente sobre a oração: para o mal e para o bem. Vamos ver os dois aspectos antitéticos que o acompanham.

Um aspecto é o “laicista”, que interpreta os valores emergentes somente de forma antropocêntrica: leva ao agnosticismo ou a formas várias de descrença. Na cidade secular a oração é desvalorizada; o agir leva a esquecer o ser.

O outro aspecto é o “cristão”, que aceita a virada antropológica e considera o homem verdadeiro centro do mundo, interpreta-o e dá-lhe sentido: ele é protagonista da história; traz em si o mistério de ser imagem de Deus; “ao homem, feito à Vossa imagem – lê-se no prefácio V dos domingos do tempo ordinário – confiastes as maravilhas do universo, para que, intérprete fiel dos vossos desígnios, exercesse o domínio sobre toda criatura, e nas suas obras glorificasse a Vós, Criador e Pai, por Cristo nosso Senhor”.

Assim o Cristo é, conosco e por nós, o “Homem Orante”.

A fé cristã tem um conceito integral do homem; não o considera apenas como superior aos outros animais (“homo sapiens”), não lhe admira tão-somente a capacidade industriosa (“homo faber”), nem a só capacidade organi­zativa e administrativa (“homo oeconomicus”), nem se detém diante dos progressos da ciência e da técnica (“homo technicus”), mas percebe a dignidade suprema do seu ser na capacidade de dialogar com Deus, a cuja imagem foi criado. Revestido de tal dignida­de, o homem descobre no Criador e Salvador o “Tu transcendente” com o qual pode entrar em relação: considera o mundo como um dom recebido d’Ele, e por isso se sente amado e se enche de gratidão, tornando-se, com tal ati­tude, o “liturgo do universo”. Com acerto definiu-o um estudioso – B. Häring – “homo orans”. Um homem que aprecia certamente a inteligência e a cultura, que se dedica à ciência e à técnica, que desenvolve a organização social e a convivência política, mas está também convencido de que tudo não é apenas “objeto” para conhecer, promover e desfrutar, mas “dom” de Alguém que lhe quer bem.

 

A originalidade da oração cristã

 

Entre as muitas definições da oração praz-nos lembrar a de S. Agostinho: a oração é um diálogo com Deus.[4]

Mas que Deus? Que diálogo?

Na resposta a tais perguntas descobrimos a originalidade da oração cristã. Na base de tudo está a objetividade do mundo, a realidade, a história. Para rezar não devemos escapar à realidade, mas penetrá-la.

Uma religião simplesmente conceitual, com referência a uma transcendência possivelmente anônima, pode desaguar numa es­pécie de alienação e reduzir a oração a fór­mulas de palavras por repetir (ou por gritar, como sugeria Elias aos falsos profetas). Quem, depois, esteja a escutar, não se sabe; os ídolos – diz o salmo – têm olhos e não veem, e suas bocas não emitem sons.

O Cristianismo é propriamente uma “fé”, ou seja, um olhar que penetra a realidade e adere ao mistério que se aninha em pessoas e eventos históricos. Desse encontro brota no homem a oração qual diálogo de resposta ao Tu do Criador e Salvador que lhe quer bem e o interpela continuamente.

Esta fé está toda centrada no homem Cristo e, n’Ele, na história e na realidade do mundo. Em Cristo se compreende quem é verdadeiramente Deus e quais as relações do mundo e da história com Ele; o homem sente-se na condição de filho pródigo; descobre que há um pacto de amizade, uma Aliança por viver em sublime diálogo.

Desta maneira, para falar adequadamente da oração, é preciso, antes de tudo, reportar-se à atitude orante de Cristo, como amadu­recimento da experiência das antigas Alianças históricas: Adão, Noé, Abraão, Moisés.

É preciso reconhecer que Israel foi o povo da verdadeira oração; ensinou a rezar dialo­gando com o Deus Criador e Providente; era um povo muito realista, privilegiado pela experiência de Deus na vida. As bênçãos, os salmos, os vários ritos e as festas – expres­sões de oração desse povo – fazem sentir a presença de Deus no tempo e no mundo; saboreia-se a bênção e a alegria, a adoração e o agradecimento, o louvor e a súplica, a lamentação e o pedido de perdão, a audácia dos sentimentos e o peso das obscuridades, a angústia por tantas dificuldades e o vivo e convicto sentido de confiança, um universo de sentimentos humanos e religiosos abertos para Deus.

Um autor judeu, Robert Aron, descreve pormenorizadamente em que forma a oração do seu povo era intensa: constelava o dia, a semana e os meses, enchia o tempo de diálogo com Deus. O estudo deste autor ajuda a imaginar a assiduidade com que a pratica­vam os judeus piedosos como José, Maria e Jesus.[5]

Viver sem rezar de forma autêntica e verdadeira significa, dolorosamente, não se dar conta do mistério da história e do signi­ficado genuíno do mundo.

No fenômeno dos Movimentos deve-se descobrir – o que lhes dá particular atualidade – uma forte reação contra o antro­pocentrismo imperante, terrivelmente redu­tivo da dignidade e da vocação humana. Reagir contra um clima que quereria marginalizar o “homo orans” é certamente um ensinamento fundamental para a fé hoje.

 

Por Cristo, com Cristo, em Cristo

 

Dessa visão panorâmica da oração surge a pergunta: mas que tipo de diálogo é a oração cristã? Como ele se desenvolve na Nova Aliança, deve-se dizer que no centro está Jesus Cristo, o Mediador. A fé nos une a Ele. Ele, com o Pai, envia o seu Espírito que incorpora a Ele: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Eu sou a videira; vós sois os ramos. Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi tudo o que quiserdes e vos será dado”.[6]

A verdadeira oração é – como a fé – um dom. Ela é simultaneamente pessoal, comunitária e litúrgica. Tem uma identidade pe­culiar.

Para compreender seus elementos essen­ciais será útil concentrar a atenção sobre a celebração da Eucaristia.

Há nela etapas características que reve­lam a dinâmica da oração cristã.

– Antes de tudo, a escolha de um tempo adequado que se inicia com uma autocrítica penitencial, amparada pela confiança na mi­sericórdia do Pai: grande importância tem a atitude sincera de humildade diante das próprias faltas e dos próprios limites.

– Vem em seguida um espaço de escuta da Palavra de Deus, que “nos amou primeiro”,[7] com um comentário de meditação que insere quanto sugere nosso Senhor na atualidade da própria vida (papel iluminante da homilia!).

– Desenvolve-se em continuação o sim­bolismo convival do ofertório e da mesa, que introduz no diálogo a oferta de si mesmos e do próprio trabalho, mediante o simbolismo do pão e do vinho (pequenas coisas, mas muito significativas: vão tornar-se comida e bebida de vida eterna!): orienta a oração à atitude do dom de si.

– Inicia-se, então, o diálogo personaliza­do com o “Tu” do Pai (“Te igitur”): é o grande Amigo a quem se dirige toda a celebração e de quem se proclamam as maravilhas de um amor que cria, liberta, transforma (adoração, louvor, agradecimento, confiança).

– Atinge-se, assim, o ápice da celebração no memorial que, pelo poder do Espírito Santo, torna presentes – aqui e agora – os eventos pascais de Cristo, irmão solidário de todos: é o supremo ato humano de doação de si na resposta do homem a Deus; é o momento supremo da liturgia de todos no Cristo; é o vértice da Aliança; é a existência doada: “Concedei que alimentando-nos com o corpo e o sangue do vosso Filho, sejamos repletos do Espírito Santo e nos tornemos em Cristo um só corpo e um só espírito. Que ele faça de nós uma oferenda perfeita”.[8]

– Reza-se, depois, o Pai-nosso com os seus dois aspectos de adoração e de súplica. Na primeira parte, tendo conhecido mediante a escuta a infinita bondade do Pai, o coração prorrompe na mais bela proclamação da esperança: seja santificado o Vosso nome, ve­nha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade. Na segunda parte, tendo clara consciência das situações concretas da exis­tência, brota espontâneo o “nos dai hoje”, que inclui de maneira realista na oração a crônica e a história (ofensa, perdão, tentações, etc.); o Senhor sabe que somos frágeis.

— Por fim, realiza-se a comunhão com o sacramento do pão e do vinho para formar um único Corpo e viver e agir para a salvação dos outros. A celebração conclui acertadamente com o envio em “missão” para colabo­rar de fato, com as obras e com a vida, para a plena realização da Aliança.

 

Penso seja esclarecedor este olhar sinté­tico sobre a celebração eucarística, quando temos a preocupação de aprofundar a natu­reza peculiar da oração cristã. Impressiona-nos desde logo o fato de se partir da humil­dade da “escuta” e chegar à “missão”, passando através da incorporação viva no mistério de Cristo: tornamo-nos filhos no Filho e solidá­rios com todos os irmãos. Assim o “homo orans”, reconduzido à dignidade da primeira origem e muito além, faz resplandecer em si a imagem de Deus.

 

O fundamento da oração cristã

 

É indispensável que, no diálogo da Aliança, o crente comece com uma atitude de escuta, preparado pela humildade penitente. A au­tenticidade da oração firma-se, como início de resposta, numa experiência pessoal de Deus. Pensemos, por exemplo, em Moisés diante da sarça ardente. Trata-se de uma atitude de descoberta e quase de surpresa. É o Senhor que diz: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo”.[9]

Essa atitude de atenta escuta revela-se particularmente fecunda na forma de oração que chamamos “oração mental”, à qual os santos do século XVI espanhol deram a for­ma mais completa. A oração mental não é absolutamente um exercício reservado aos monges e aos eremitas, mas é o fundamento de toda oração; pois a fé é, antes do mais, escuta.

Não há oração – como não há vida de fé – sem a intervenção da consciência e da liberdade de cada um. A nossa própria expe­riência confirma que os momentos, muitas vezes mais intensos da oração são os da interioridade pessoal: os da meditação mais que dos sentimentos, do silêncio mais do que da loquacidade, da contemplação mais do que dos raciocínios. Porque “a Palavra de Deus é viva e eficaz; mais cortante do que qualquer espada de dois gumes”.[10]

“Quando rezares – diz o Evangelho –, entra em teu quarto, fecha a porta, e reza a teu Pai que está presente até em lugar oculto. E teu Pai, que vê o que fazes ocultamente, te dará a recompensa”.[11]

Isso não vai contra a oração comunitária, tão importante, que tem na celebração euca­rística a expressão eclesial mais perfeita, mas sublinha qual a condição prévia e também a autenticidade da participação nela.

A oração mental evolui com gradualidade da meditação à contemplação; é uma atitude interior pela qual se entra em relação com o amor de Deus.

Santa Teresa descreveu-a como um trato amigável com Deus.

Paulo VI também faz dela uma bela descrição: “O esforço de fixar em Deus o olhar e o coração, que nós chamamos contemplação, toma-se o ato mais alto e mais pleno do espírito, o ato que ainda hoje pode e deve hierarquizar a imensa pirâmide da atividade humana”.[12]

Não devemos pensar que a “contemplação”, na qual desemboca a meditação, seja uma atitude de poucos privilegiados. Não é o caso de apresentá-la aqui com difíceis definições abstratas, nem de enumerar seus diversos modos e graus com seus delicados problemas, mas, sim, de olhar para o exemplo dos Santos que viveram a nossa mesma espiritualidade. Para formarmos uma imagem concreta, basta-nos olhar para Dom Bosco: “Nós o estu­damos e imitamos, admirando nele esplêndida harmonia de natureza e graça. Profundamente homem, rico das virtudes do seu povo, era aberto às realidades terrenas; profundamente homem de Deus, cheio dos dons do Espírito Santo, vivia ‘como se visse o invisível’”.[13]

A meditação torna-se contemplação quando o amor, nascido da escuta, assume o predomínio e faz entrar diretamente no co­ração do Pai.[14]

 

A “meta” da oração segundo S. Francisco de Sales

 

Chegados a este ponto, podemos dar ain­da um passo à frente para compreender a fundo a intensidade orante do “da mihi ani­mas”, que é o respiro da oração de Dom Bosco. Referimo-nos ao profundo testemunho e ilu­minação de S. Francisco de Sales. Sua oração levava-o a uma “união com Deus” traduzida numa vida incansavelmente apostólica, ao mesmo tempo que lhe aprofundava a natureza com perspicazes reflexões doutrinais.

Fê-lo com impressionante originalidade sobretudo em dois livros do seu Tratado do amor de Deus, o sexto e o sétimo, obra tão apreciada pelas primeiras gerações da nossa Congregação. Emprega, em suas reflexões, o termo “êxtase”; não lhe dá, porém, o sentido de perda da consciência ou de desligamento da realidade, como acontece em certos fenô­menos para-místicos; o santo bispo não con­descende com as evasões emotivas, que podem ser alucinatórias e reduzir-se a vãs ilusões.

“Quando se encontra uma pessoa – es­creve – que na oração tem arrebatamentos pelos quais sai e sobe acima de si mesma até Deus, e, entretanto, não tem êxtase na vida, ou seja não vive uma vida elevada e unida a Deus, com a mortificação dos desejos mun­danos, da vontade e das inclinações naturais, por meio de uma doçura interior, de simpli­cidade e humildade, e sobretudo por meio de uma contínua caridade, acredita-me, Teótimo, todos os seus arrebatamentos são muito du­vidosos e perigosos; são arrebatamentos ca­pazes de despertar a admiração nos homens, mas não de santificar quem os experimenta”.[15]

Com o termo “êxtase” S. Francisco de Sales aprofunda o objetivo a que deve chegar a oração mental. A meta é o arrebatamento, o “sair fora de si” pelo qual Deus nos atrai e eleva a si; chama de êxtase esse arroubo porque por meio dele permanecemos acima de nós mesmos.

  1. Francisco atinge, nestas reflexões, o aspecto mais alto da sua análise sobre a espiritualidade que, de seu nome, é chamada “salesiana”.

A oração leva a uma atitude interior que ultrapassa o diálogo e se torna amor unitivo. A resposta do eu ao Tu já não é palavra nem sentimento, mas intercâmbio de vida: a saída de si para o Amado; não é um esvaziamento, mas gozosa plenitude que faz experimen­tar quanto afirma o Apóstolo: “Vivo, mas não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.[16] Uma vida que ultrapassa as motivações e as forças humanas porque se nutre de Deus. A oração desagua, assim, na caridade; é seu caminho indispensável, como sua mãe fe­cunda; mas uma mãe que esquece a si mesma pela plenitude de vida do que gerou, ou seja, da “união com Deus”.

Este “amor unitivo”, afirma S. Francisco de Sales, já não se mede apenas na oração, que poderia também tornar-se quietismo; nem se identifica simplesmente com uma operosidade qualquer, que poderia ser puro ativismo, mas se traduz numa vida e numa ação de caridade; preocupa-se mais com a intenção do que com as palavras. Não é viver em nós, mas além de nós; “e como ninguém pode sair desta maneira para além de si mesmo se o Pai eterno não o atrair (Jo 6,44), segue-se que essa maneira de viver deve ser um arrebatamento contínuo e um êxtase perpétuo de ação e de operação”.[17] De aí a necessidade de renovar frequentemente a oração para garantir o amor unitivo, que não é difícil e que começa dos graus mais baixos para crescer sem limites.

  1. Francisco de Sales enumera três tipos de arroubo na oração, três êxtases: “um diz respeito ao intelecto; um segundo, ao afeto; e um terceiro, à ação”. O terceiro – ou seja “o êxtase da vida e da ação” – coroa os outros dois, que, sem ele, ficariam incompletos: “ja­mais houve um santo que não tenha tido o êxtase ou o arrebatamento da vida e da ação, superando-se a si mesmo e as próprias incli­nações naturais”.[18]

O “êxtase do intelecto” pode certamente alimentar uma especial contemplação, pelo encontro com uma verdade iluminante. E também o “êxtase do afeto” pode despertar um entusiasmo de fervor além de nós mesmos. Ambos, porém, ordenam-se a fazer desa­brochar o testemunho da vida e a colaboração da ação; estão ligados ao terceiro; pena que não necessariamente.

Se o arrebatamento da inteligência – diz o santo – é mais belo que bom, mais especulativo que afetivo, mais de ciência que de experiência, mais de vista que de gosto e sabor, continua muito duvidoso. E se o arre­batamento do afeto é mais de sentimento que de esforço, mais de fervor na admi­ração que de sacrifício de si, mais de sensi­bilidade que de operosidade, mais doce que prático, revela-se perigosamente superficial.

“São dois os principais exercícios do nosso amor para com Deus – escreve –, um afetivo e outro efetivo. Em força do primeiro amamos a “Deus e o que Ele ama, em força do segundo servimos a Deus e fazemos o que ele nos manda... Por meio de um concebemos, por meio do outro geramos; com o primeiro pomos Deus em nosso coração..., com o segundo colocamo-lo em nossos braços, como uma espada de predileção com a qual realizamos todos os atos de virtude”.[19] E acrescenta: “Há inspirações celestes, para cuja realização não só é necessário que Deus nos erga acima das nossas forças, mas também que nos eleve acima dos instintos e das inclinações da nossa natureza. De fato, tais inspirações, conquanto não contrárias à razão humana, superam-na, estão acima delas e lhe são superiores: de sorte que em tal caso não vivemos apenas uma vida civil, honesta e cristã, mas uma vida sobre-humana, espiritual, devota e extática, ou seja, uma vida que, em cada caso, está fora e além da nossa condição natural... Abandonar todos os nossos bens, amar a pobreza, chamá-la e considerá-la uma delici­osa patroa, considerar os opróbrios, o desprezo, as abjeções, as perseguições, os martírios como felicidades e bem-aventuranças, conservar-se nos limites de uma absoluta castidade, e enfim viver no mundo e nesta vida mortal contra todas as opiniões e máximas do mundo e contra a corrente do rio desta vida, com habitual resignação, renúncia e abnegação de nós mesmos, não é viver segundo a natureza humana, mas acima dela”.[20]

A união com Deus é, pois, a verdadeira meta da oração; tem muitos graus e cresce sempre; começa pequena e com carências, cresce a pouco e pouco; é “uma luz que aumenta como o alvorecer do dia”.

Estas reflexões de S. Francisco de Sales mergulham-nos no realismo da oração salesiana.

Um estudioso de S. Francisco de Sales, André Ravier, afirma que essa profunda visão, fruto da experiência pessoal do Santo, trouxe como consequência em seu tempo uma espé­cie de soçobro mental: “De um golpe, a ‘devoção’ (= espiritualidade) libertava-se das conheci­das controvérsias que viam oposição entre contemplação e ação, culto interno e culto externo, piedade e juridicismo canônico, ascese e mística, serviço de Deus e serviço dos homens e, mais profundamente, entre monge e leigo”.[21]

Podemos lembrar aqui algumas afirmações de Dom Bosco e dos seus sucessores sobre a importância que tem para nós o testemunho e a doutrina de S. Francisco de Sales.

“Oh, se os Salesianos – disse Dom Bosco numa conferência aos irmãos – pusessem realmente em prática a religião assim como a entendia S. Francisco de Sales, com o zelo que ele tinha, moderado pela mansidão que ele tinha, então eu poderia de fato me orgulhar, e haveria motivo para esperar um bem enorme no mundo! Diria, até, que o mundo nos haveria de seguir”.[22] O P. Albera, segundo sucessor, falou repetidas vezes do nosso Patrono; na circular sobre o “espírito de piedade” falou da prática da “oração contínua” insistindo, de modo particular, em que se praticasse na Congregação a “piedade ativa de que trata muitas vezes S. Francisco de Sales, e que foi o segredo da santidade de Dom Bosco”.[23]

E o P. Rinaldi, terceiro sucessor, referindo-se à indulgência do trabalho santificado, escrevia: “Notai que este favor nos foi outor­gado no terceiro centenário da morte do nosso celeste Patrono S. Francisco de Sales, cuja suave doutrina está toda impregnada deste confortador pensamento. Ele também poderia ser chamado de o apóstolo da santificação do momento presente”.[24]

Para S. Francisco de Sales, pois, a oração é indispensável para chegar, no Cristo, ao amor unitivo com o Pai; de aí é que se desprende a energia que é a caridade pasto­ral: “a caridade – diz o Concílio – que é como que a alma de todo o apostolado”.[25] Sim, a alma do apostolado salesiano é a caridade pastoral![26] Eis aí o objetivo que de­vemos privilegiar na renovação da nossa oração!

Ela não se caracteriza por expressões exteriores especiais; nada tem de afetado nas suas atitudes; não acentua elevadas reflexões intelectuais, embora se alimente delas; não privilegia manifestações singulares ou insó­litas de sentimentos, mesmo que mova pro­fundamente os afetos do coração; ela se con­centra na efetiva identificação com a vontade salvadora de Deus para traduzi-la em atitu­des práticas. Orienta suas contemplações intelectuais e os seus sentimentos de fervor para a missão de salvação. Como diz S. Francisco de Sales, com eles “concebe” em ordem a “gerar”, isto é, a fazer passar o sangue do coração para os dinamismos dos braços e das mãos.

Parece-me útil lembrar aqui que esta doutrina do nosso patrono coincide substancialmente com a dos dois maiores mestres da união com Deus: S. Teresa e S. João da Cruz – cujo 4º centenário da morte se celebra em dezembro –. Eles testemunharam e comunicaram a experiência de Deus que os acompanhou na árdua empresa de reforma dos religiosos.

Não obstante a profunda diferença entre o carisma carmelita e o salesiano, encontramo-nos na mesma meta do amor unitivo. Uma coincidência que proclama a verdade: a de uma união com Deus que se tornou o “Tudo” e de um esvaziamento do eu que se tornou “Nada”; podendo afirmar: “eu vivo sem viver em mim”.

É outra maneira de falar de um mesmo “êxtase”.

 

Renovemos a nossa oração

 

À luz das reflexões de S. Francisco de Sales, vemos com clareza que carisma de Dom Bosco e oração salesiana são inseparáveis entre si. Constituem uma unidade vital, a ponto de nenhum dos dois aspectos ter sentido sem o outro, porque se unem num único aspecto espiritual.

Nossos últimos Capítulos Gerais tive­ram como objetivo relançar o carisma do Fundador na nova órbita conciliar; e o Va­ticano II abriu sua providencial virada exatamente com a renovação da oração da Igreja. Devia-se concluir que o relançamento de qualquer carisma chamava a privilegiar a renovação da oração, restituindo-lhe o seu papel vitalizante na comunhão eclesial dos crentes.

Empenhamo-nos, por isso, a dar um salto de qualidade na renovação da nossa oração. A bela “Introdução” à “Guia” da oração da comunidade[27] apresenta-nos uma cuidadosa síntese do caminho feito na Congregação quanto às “práticas de piedade”: está aí cla­ramente sublinhado tanto o pensamento ge­nuíno de Dom Bosco quanto a renovação profunda que substancialmente quis o Capí­tulo Geral Especial, e ainda a continuidade de uma tradição viva que provém do Funda­dor e tem a capacidade de adequar-se aos novos tempos eclesiais.

Foi um trabalho delicado e bem-sucedido; depois de experimentado na prática por dois sexênios, foi codificado pelo CG22 nas Cons­tituições renovadas

A oração cristã – como a vocação global da Igreja e a natureza específica da fé – é, por certo, substancialmente comum a todos os crentes; mas, assim como na liturgia in­fluem as diferenças culturais e as sadias heranças históricas, de maneira semelhante incidem nos vários tipos de oração as peculiaridades do carisma do Fundador bem como a verifi­cação e aprovação das tradições genuínas que o radicaram no mundo.

Diante do desafio do secularismo atual e dos corajosos exemplos de reação cristã pro­postos por vários Movimentos eclesiais, de­vemos indagar em que consiste, para nós, e como vivemos a oração renovada; quais os núcleos vitais que devemos resguardar para que ela constitua de fato o respiro atual da nossa vocação.

“A oração – lemos na Introdução a que aludimos[28] – é o lugar do Absoluto, o lugar de Deus; ou, para sermos mais exatos, o lugar em que a ‘Palavra de Deus’ adquire o seu sentido, e, com ela, toda a nossa existência. Lugar da identidade e dos verdadeiros diálogos, em que o nosso mistério toca o de Deus... E se a oração deve ser realidade humana não pode deixar de emergir na história, em momento e espaço preciso; deve tornar-se ‘prática’, ‘exercício’”.

Se olharmos agora o texto da Regra de­dicado ao nosso “diálogo com o Senhor”, poderemos destacar melhor os aspectos mais característicos e vitais.

Vemos logo que o capítulo 7º das Consti­tuições não está colocado “depois”, como se fora um argumento de menor importância, mas encontra-se aí, no fim da 2ª parte, como “no vértice”, à maneira de síntese vital de tudo o que o precede: como para dizer que a “missão”, a “comunidade” e a “prática dos conselhos evangélicos” (ou seja, o nosso êxtase de vida e de ação), pela sua própria natureza de participação no mistério da Igreja, não podem ser vividos sem a energia da união com Deus e da caridade pastoral que proce­dem da oração.

A primeira coisa a sublinhar é que o modelo ao qual devemos voltar os nossos olhos é certamente Dom Bosco: “dele apren­demos”.[29]

Releiamos juntos uma página do Comen­tário às Constituições: “Dom Bosco nos é apresentado de modo habitual como modelo de ação, menos frequentemente como modelo de oração... São numerosos (entretanto) os testemunhos sobre o espírito de oração de Dom Bosco. Pode-se dizer – declarou o P. Barberis – ‘que rezava sempre; eu o vi, poderia dizer, centenas de vezes subindo e descendo as escadas sempre em oração. Re­zava também pela rua. Nas viagens, quando não corrigia provas tipográficas, via-o sempre a rezar!’. E o P. Rua acrescenta: ‘Muitas vezes surpreendi-o recolhido em oração nos breves instantes em que, precisando descansar, ficava sozi­nho’.... Dava à oração absoluta precedência: ‘não se começa bem – dizia – se não do céu’. A oração era para ele ‘a obra das obras’, porque a oração tudo alcança e de tudo triunfa’”.[30] [31]

O Cardeal Cagliero declarou: “Dom Bosco rezava sempre, pois tudo o que fazia se dirigia à glória de Deus e o fazia na Sua presença. Portanto, era oração para ele tam­bém o trabalho contínuo, santo, inacreditá­vel: unia com admirável perfeição a vida contemplativa à ativa”.

O aspecto de fundo que se destaca no nosso Fundador é o “que une espontaneamente a oração com a vida”.[32] É uma característica sobre a qual insistem vários artigos constitu­cionais,[33] até afirmar que devemos habilitar-nos “a celebrar a liturgia da vida, até chegar à operosidade incansável, santificada pela oração e pela união com Deus, que deve ser a característica dos filhos de S. João Bosco’”.[34]

Tal característica supõe um estilo de ora­ção impregnado de simplicidade, de alegria, de esperança; sem ceder a manifestações emotivas um tanto estranhas, mas criando um clima atraente (esplendor da liturgia) que leva insensivelmente ao gosto do sacrifício da doação de si.

O art. 12 das Constituições descreve ex­plicitamente a meta da nossa oração: “Trabalhando pela salvação da juventude”, o sa­lesiano faz experiência viva da Aliança; “reza sem cessar”; “faz tudo por amor de Deus”!

Vale a pena reproduzir algumas linhas do já citado “Comentário”: “Para compreender a profundidade desta união com Deus, é preciso reportar-se à ‘graça de unidade’, da qual falamos a propósito da nossa vocação. Ela não está primeiramente na atividade, nem sequer nas ‘práticas de piedade’, mas no íntimo da pessoa, impregnando todo o seu ser: antes ainda de traduzir-se em ‘fazer’ e ‘rezar’, é um ‘modo espiritual de ser dinâmico’, enquanto participação consciente do amor de Deus mediante a entrega de si, na disponibilidade prática para a obra de salvação. É uma atitude interior de caridade, que se volta para a ação apostólica, na qual se concretiza, se manifesta, cresce e aperfeiçoa”.[35]

Coloca-nos, destarte, acima da famosa distinção entre ‘contemplação’ e ‘ação’. Dois termos que a própria tradição nos transmitiu sempre juntos, como se o sentido de cada um deles brotasse da sua conjunção e não da sua separação. Afirma-o também o Concílio ao tratar do ministério sacerdotal.[36]

A significativa expressão do jesuíta Girolamo Nadal: “simul in actione contemplativus” a propósito do seu Fundador S. Iná­cio (MHSI, Epistolae et Monumenta P. J. Nadal, V, 162) nós a interpretamos à luz da experiência de Dom Bosco, nosso modelo, que traduziu o “da mihi animas” no testemunho de toda a vida, tanto na contemplação como na ação, e fortemente também na “paixão”, ou seja, na atitude constante que ele chamava “martírio de caridade e de sacrifício pelo bem dos outros”.[37]

Esta modalidade salesiana brilha com especial clareza na vida da madre Mazzarello, co-fundadora do Instituto das FMA.[38] Ela soube apropriar-se conaturalmente do segredo da interioridade apostólica de Dom Bosco, já manifestada pelos primeiros conselhos do Pai: “Rezai, sim, mas fazei o maior bem que puderdes, especialmente à juventude”; “crescei no exercício da presença de Deus; amai o trabalho; levai a todos amabilidade e alegria; sede na Igreja auxiliares para a salvação”.

Ele delineou o traço mais característico de uma FMA afirmando: “nela devem andar pari passo a vida ativa e contemplativa, reproduzindo Marta e Maria, a vida dos Apóstolos e a dos Anjos”.

É um fato estimulante para nós Salesia­nos ver em madre Mazzarello as características da nossa interioridade, levadas a elevações de intensidade na simplicidade de um coração enriquecido dos preciosos valores femininos.

“Na verdade – escreve o P. Ricaldone – em madre Mazzarello “sobressaía tão grande espírito de piedade que bem se via estar ela sempre na presença de Deus, não só na oração vocal e na meditação, mas também nos trabalhos materiais”. Suas filhas depuseram: ‘Vendo a Madre, via-se uma alma que reve­lava Deus.... com tão límpida simplicidade que o amor de Deus parecia conatural nela’”.[39]

Portanto, para renovar hoje a oração de­vemos antes do mais convencer-nos de que o carisma apostólico de Dom Bosco nos pede que visemos intensamente a união com Deus, ou seja, que estimemos todas aquelas expressões de oração, “em diálogo simples e cordial”, que nos levam ao amor de caridade. O Papa João Paulo II, ao falar aos capitulares no famoso 1º de maio de 1990, afirmou com razão: “Quanto mais um Salesiano contempla o mistério do Pai infinitamente misericordi­oso, do Filho que se fez generosamente irmão, e do Espírito Santo poderosamente presente no mundo como renovador, tanto mais ele se sente impelido por este insondável mistério a doar-se aos jovens para o seu crescimento humano para a sua salvação”.[40]

 

Três polos que devem ser privilegiados

 

Hoje, porém, devemos perguntar-nos se a re­novação da oração foi efetivamente assumida por todos os irmãos e em todas as comunidades. Não é ousadia reconhecer que subsistem na Congregação zonas de atraso que provocam dificuldades e interrogações. E assim, em vez de saber aproveitar as experiências de outros assimilando-lhes e harmonizando-lhes os valores com as exigências do nosso carisma, elas são confrontadas negativamente com os exemplos de uma comunidade tíbia. O formalismo nas práticas de piedade, a mentali­dade habitudinária, o peso negativo de alguma casa desunida na observância das práticas de piedade, a ausência do tema vital da oração na formação permanente, a pouca importân­cia dada aos tempos fortes, o descuido da genuína renovação litúrgica, a crise da peni­tência e a queda da ascese – e isso justamente quando na Igreja se está experimentando uma hora especial do Espírito – podem sem dúvida alguma fazer-nos compreender por que, em certos casos, se procure alhures algo de mais vital.

É necessário cuidar mais da renovação da oração. Para chegarmos a ela será preciso apoiar-nos em três polos dinâmicos, comple­mentares entre si, embora em três níveis distintos: o da pessoa, na oração mental e na ascese; o da comunidade, na incorpo­ração a Cristo por intermédio da liturgia; e o da presença ministerial entre os desti­natários, na ação apostólica e caritativa. Forma-se entre esses polos uma espécie de círculo dinâmico com mútua reciprocidade para a intensificação da caridade pas­toral.

Antes, porém, vamos fazer uma observa­ção preliminar, que nos ajudará a valorizar mais o cuidado desses três polos.

A união com Deus, que se acha no centro de tudo, tem uma gradualidade de expressões muito ampla. Elas vão da contemplação chamada adquirida (com diversa intensidade) à chamada infusa (até altos graus místicos). Todos podem atingi-la em algum grau.

As reflexões de S. Francisco de Sales ajudam-nos a avaliar a intensidade da nossa união com Deus para nos empenharmos em elevar-lhe o nível. Já vimos o significado do uso que faz do termo “êxtase”; ele exige um sair para fora de si a fim de viver em Cristo. Pois bem: se aplicarmos o conceito de “êxtase da vida” à nossa convivência em comunidade, à nossa prática dos conselhos, à nossa comunhão de um só coração e de uma só alma, será fácil medir até onde chega a verdade do “êxtase” quando descobrimos presentes em nós ele­mentos de individualismo, arbitrariedade, frieza, compensações perigosas etc. Da mes­ma sorte, se aplicarmos o conceito de êxtase da ação ao nosso trabalho, uma avaliação objetiva far-nos-á encontrar com facilidade bom número de defeitos que não nos levam para “fora de nós”: egoísmo, susceptibilidades, intenções não sobrenaturais, concessões à soberba e à concupiscência, ativismo sem testemunho etc.

Este exame de consciência convida-nos a concentrar-nos continuamente nos três polos indicados para que expressem realmente a nossa caridade pastoral de união com Deus: mais oração, mais vida consagrada, mais qualidade pastoral caminham juntas. Descobre-se, assim, que o tema da oração deve ser, de fato, um empenho constante e sempre reno­vado e cultivado por cada irmão e cada comunidade. É o aspecto formativo mais vital que exige atenção, revisão e permanente pedagogia de crescimento. Obrigar-nos-á a encontrar critérios práticos para coordenar a “vida de comunidade” e a “ação apostólica” em íntima harmonia com a prática da oração. Não fazer assim prejudicaria não só o teste­munho da comunidade orante, mas também a sua realidade de vida consagrada e a sua eficácia pastoral.

Três polos, portanto, que se incluem mutuamente, que medem a própria vitalidade numa constante relação recíproca, que tem como fonte primeira a oração e como meta a caridade.

Dom Bosco dizia – como vimos – que “não se começa bem se não do céu”. Como lemos na Imitação de Cristo: “Deixados a nós mesmos, afundamos e perecemos. Mas por Ti visitados, vivemos e nos levantamos. Sim, somos de fato instáveis, mas somos por Ti estabilizados. Tornamo-nos tíbios, mas por Ti somos aquecidos”.[41]

Vejamos, então, alguns aspectos dos três polos.

 

  1. O polo da pessoa refere-se evidentemente a cada um dos irmãos e se coloca na base de tudo. Sem “pessoa” não há oração.[42] Não po­demos safar-nos lançando a culpa sobre os outros.

É um empenho que exige espaços próprios e distintos das atividades de serviço, inteiramente dedicados ao diálogo direto com Deus. Deve-se renovar a escuta quotidiana da Sua Palavra (meditação, leitura da Palavra de Deus, participação na comunidade orante, iniciativas individuais); os tempos fortes de recuperação interior (retiro mensal, retiro trimestral de um dia, exercícios espirituais); a participação viva no ano litúrgico com suas celebrações da história da salvação: a medi­tação assídua dos mistérios de Cristo na reza do terço etc.

A atitude fundamental é sempre a escuta mediante a oração mental. A Palavra de Deus é, em última análise, Jesus Cristo, contem­plado por nós como Bom Pastor.[43] Fala-nos de muitas maneiras e sempre apropriadas às várias situações. Mas a sua proposta central e suprema – que constitui o seu Memorial – é o seu testemunho pascal: “isto é o meu corpo que é dado por vós; este é o meu sangue derramado por vós”. É o “êxtase da vida” mais sublime!

Não se pode escutar passivamente esta Palavra de Deus, refletida em todos os desafios que se nos apresentam. O devir da vida é complexo, mas o Memorial de Cristo é claríssimo. Uma escuta que leva à caridade pastoral não pode ser fuga do sacrifício, e menos ainda um deixar-se levar à deriva por ideologias e modas. Na pluralidade das vi­cissitudes repitamos sempre com o salmista: “Busco, Senhor a tua face: não me escondas a tua face”.

Um aspecto pessoal, intimamente unido à oração mental, é o empenho responsável que cada irmão deve pôr na prática da ascese da penitência. Não esqueçamos nunca que o pe­cado, a falta de autodisciplina, a conduta tíbia e não mortificada, o espírito de mundanidade são a morte da oração. A autocrítica do exame de consciência feita numa sincera atitude de conversão pessoal e motivada por um agudo “sentido do pecado” – tão estranho à atual mentalidade antropocêntrica – alimenta a indispensável consciência do mistério da mi­sericórdia do Pai e traz a alegria e a esperança do perdão.[44] Isso despertará também muitas iniciativas pessoais para intensificar a pe­culiar ascese do “fazer-se amar”, que nos caracteriza como apóstolos educadores.[45]

Moisés, os Profetas, o próprio Jesus, os Santos e de modo particular os grandes fundadores (Bento, Francisco de Assis, Inácio de Loiola, Domingos de Gusmão, Teresa de Ávila etc.) uniram sempre com grande intensidade a oração ao jejum, à ascese, à penitência. Se olharmos com atenção para Dom Bosco, fica­remos vivamente impressionados: sua práti­ca da humildade, o espírito de sacrifício, o sentido concreto da mortificação, a aceitação dos sofrimentos físicos e morais, as incalcu­láveis exigências do seu lema “trabalho e temperança”.[46]

Apraz-me lembrar aqui a importância que S. Inácio de Loiola dava – na direção espiritual – aos esforços pessoais de ascese e penitência. Demonstrava estimar mais a mortificação das paixões do que o próprio tempo da oração. Aconselhava: “mais mortificação do amor próprio do que da carne, e mais mortificação das paixões do que oração; e acrescentava: “a um homem que mantém mortificadas as paixões, deve bastar um quarto de hora para encontrar a Deus”.[47]

Quando se fala, pois, da indispensabilidade do aspecto “pessoal” na oração, abre-se um vasto horizonte de empenhos para cada um dos irmãos.

 

  1. O polo da comunidade exige um segundo nível vital muito vinculado com a renovação litúrgica. No vértice está a incorporação a Cristo mediante a Eucaristia: aí é que a comunidade se reconstrói como tal e recebe quotidianamente as energias do Espírito Santo para ser deveras “sinal de fé” e “centro de comunhão e participação”.[48] A comunidade torna-se no Cristo “núcleo animador”, à guisa de uma pequena Igreja de base chamada a fermentar evangelicamente o território e os destinatários.

É verdade que sem oração pessoal não há comunidade orante: isto, porém, não basta. Não se trata da soma de orações individuais, mas da oração em comum. O Concílio convidou-nos a um salto de qualidade de tipo comunitário. Será, então, conveniente interessar-se por uma animação litúrgica oportunamente atualizada.

O desejado “dia da comunidade”, promovi­do pelo CG23[49] para uma formação permanente viva e concreta, deveria ter no centro, em cada casa, a mais significativa concelebração semanal. Seria preciso dedicar algum tempo a bem prepará-la e fazer com que todos participem sinceramente.

A oração litúrgica faz com que nos sintamos “Igreja-juntos” e nos mostra a originalidade carismática da nossa consagração pela qual “missão apostólica, comunidade fraterna e prática dos conselhos evangélicos são (para nós) os elementos inseparáveis, vividos num único movimento de caridade para com Deus e para com os irmãos”.[50]

E desta consciência de “comunhão apostó­lica” nasce depois o empenho do “projeto pastoral” comum.

Uma observação prática, que não quero esquecer, é a de providenciar em cada casa uma capela digna, vivificada pela presença do Santíssimo. “Reunidas em nome do Senhor – escreveu o Papa numa mensagem à Ple­nária da Congregação para a vida consagrada – as comunidades religiosas têm como centro natural a Eucaristia. É normal, por isso, que elas se recolham visivelmente em torno de um oratório (= lugar de oração), no qual a presença do Santíssimo Sacramento expressa e realiza o que deve ser a missão principal de toda Família religiosa”.[51]

 

  1. O polo da presença ministerial entre os destinatários é o outro nível indispensável para a renovação da nossa oração.

Não é tão simples viver a “graça de unidade” e compreender o nexo que liga entre si interioridade e opero­sidade na nossa presença entre os destinatários. É preciso saber responder pelo menos a duas perguntas substanciais. A primeira: que significam para nós os destinatários? E a segunda: que tipo de presença, que atividade é a nossa?

Na busca de uma resposta a estas pergun­tas perceberemos que a Palavra de Deus se apresenta sempre com novidades exigentes. Nestes decênios, as novidades se chamam: relançamento do carisma de Dom Bosco,[52] nova Evangelização,[53] nova Educação.[54] O que vale dizer, um vasto campo inseparável da escuta do que o Senhor vai sugerindo medi­ante os sinais dos tempos, o magistério dos Pastores e as orientações da Congregação.

Os destinatários são para o salesiano uma espécie de “sarça ardente” que faz lampejar nele a sua especial Aliança; ele vê neles a imagem de Deus; suas necessidades materiais se tor­nam suas preocupações espirituais.

Afirma acertadamente o CG23: “Nós cre­mos que Deus ama os jovens. Esta é a fé que se encontra na origem da nossa vocação... Cremos que Jesus quer partilhar ‘sua vida’ com os jovens: eles são a esperança de um futuro novo e trazem em si, ocultas em suas expectativas, as sementes do Reino. Cremos que o Espírito se faz presente nos jovens e que por meio deles quer edificar uma comu­nidade humana e cristã mais autêntica... Cremos que Deus está a nos esperar nos jovens para oferecer-nos a graça do encontro com Ele e para dispor-nos a servi-lo neles, reconhecendo-lhes a dignidade e educando-os para a plenitude da vida. O momento educativo torna-se, assim, o lugar privile­giado do nosso encontro com Ele”.[55]

Esta é a primeira resposta: nos destinatários, procuramos a face de Cristo!

A presença, portanto, e a ação fazem do sale­siano o sinal e o portador do amor de Deus aos jovens. Não se trata, por isso, de qualquer “presença”. Presenças há que poderiam até levar-nos para longe da oração; aqui se trata de uma “presença ministerial”, que nos faz ouvir da própria boca de Jesus Cristo: tinha sede e tinha fome e me deste de beber e de comer.

Além do mais, a presença é acompanhada não de uma “ação qualquer”, que poderia ser até de ordem simplesmente humanitária, cultural, social ou política, mas – como diz o Concílio – uma “ação apostólica e beneficen­te”,[56] provinda do Espírito do Senhor e por ele animada. Somente uma ação desta ordem “pertence à própria natureza da vida religi­osa, pois se trata de um ministério santo e de uma obra própria da caridade que (nos) foi confiada pela Igreja, para ser executada em nome dela”.[57]

A ação “apostólica e beneficente” é, por si mesma, rica de união com Deus e portadora de mais intensa oração. Não é ocasião de distração, mas espaço para um encontro es­pecial. Todavia, para que a ação seja verda­deiramente apostólica, deve ser animada pelo fogo da caridade pastoral. Ela é, de fato, a alma do apostolado, mas também a ação apostólica se torna animadora da caridade pastoral!

No coração do salesiano deve aninhar-se o grande segredo que alimenta este fogo.

Assim sendo, não deveria haver dualismo entre trabalho e oração, porque a oração se traduz em apostolado, e o trabalho apostólico intensifica a oração.

Foi o que o Papa também destacou no já citado discurso aos capitulares ao falar da nossa missão educativa: “Apraz-me salientar em primeiro lugar, como elemento fundamental, a força de síntese unitiva que brota da caridade pastoral. Ela é fruto da força do Espírito Santo que assegura a insepara­bilidade vital entre união com Deus e dedi­cação ao próximo, entre interioridade evan­gélica e ação apostólica, entre coração orante e mãos operantes. Os dois grandes Santos, Francisco de Sales e João Bosco, testemu­nharam e fizeram frutificar na Igreja esta esplêndida ‘graça de unidade’. Rompê-la significa abrir um perigoso espaço àqueles ativismos ou intimismos que constituem uma tentação insidiosa para os Institutos de Vida Apostólica. Pelo contrário, as riquezas secre­tas, que esta ‘graça de unidade’ traz consigo, são a confirmação explícita, provada com toda a vida dos dois Santos, de que a união com Deus é a verdadeira fonte do amor operoso ao próximo”.[58]

 

Ajudem-nos o Espírito e Maria

 

Queridos irmãos, estas reflexões con­vidam-nos a intensificar na Congregação a preocupação por uma oração renovada em sintonia com o carisma de Dom Bosco. Deu-se, por certo, nestes anos pós-conciliares um bom passo à frente. O Vaticano II trouxe-nos um clima novo: o sentido do mistério, a multiforme presença de Deus, do Cristo e do seu Espírito, a vitalidade da comunhão eclesial, a preciosa renovação da liturgia, o maravilhoso signifi­cado da criação e também do “mundo” com a sua complexidade e com a dimensão escatológica da história. Os Capítulos Gerais apresentaram-nos o carisma de Dom Bosco nesta imensa órbita de renovada espiri­tualidade.

Há já algum tempo que mais ou menos todos nós nos estamos convertendo. Mas falta sempre muito para que nos convertamos plenamente, sobretudo no delicado campo da oração. O segredo da oração está, em primeiro lugar, na “pessoa”, cuja atitude fundamental é a oração mental. Nela deve cada um de nós encontrar a sua “trapa” para a contemplação; a Providência, de sua parte, em certos perí­odos especiais da vida nos colocará também em algum “mosteiro” de vida onde haverá mais paixão que ação, como na doença e na velhice.

Para facilitar concretamente entre nós a oração mental salesiana, será preciso que em cada Inspetoria se proveja a presença de animadores competentes, sobretudo no que respeita aos aspectos da liturgia e das várias práticas comunitárias. O Inspetor e o Diretor, de modo particular, sintam-se responsáveis por garantir com todos os meios uma autên­tica renovação.

O carisma de Dom Bosco brilhará, por esta forma, com seu peculiar fascínio. E tudo o que servir para melhor apreciar a sua identidade e rejuvenescer as suas as raízes profundas poderá ser acolhido com gratidão e proveito. Tudo, porém, que ofuscasse o seu primado em nossos corações ou diminuísse a sua atração deveria ser por nós cuidadosamente evitado.

A oração salesiana não é difícil nem complicada; é feita para todos: para os jovens e para o povo; faz ver que a vocação à santidade não é só para uma pequena elite, nem apenas para “espaços monásticos”; ela vive inscrita no quotidiano, no ordinário e no extraordinário, na atividade e na enfermidade, em qualquer estado e em qualquer profissão, em qualquer idade e em qualquer situação.

Há também, nos Grupos da Família Sale­siana, modalidades um pouco diferentes de dedicação à oração. Nós, por exemplo, ficamos muito felizes quando as Visitandinas de S. Francisco de Sales quiseram ser arroladas entre os nossos Cooperadores; assim como admiramos os desígnios de Deus que faz surgir aqui e ali grupos dedicados com mais espaço de tempo a uma oração que quer respaldar a intensidade da caridade pastoral em toda a Família. Surgiu, por exemplo, no Colle Don Bosco, nos Becchi, uma presença de oração permanente a favor da santidade dos jovens. Fica situada ao lado da pequena casa de Mamãe Margarida, onde teve início o nosso carisma, exatamente no lugar que João Paulo II chamou “Colina das bem-aventuranças juvenis” e “escola de espiritualidade”. Os peregrinos, nomeadamente jovens, que aí chegam à procura de mensagens de esperança, associam-se de bom grado à adoração e à escuta, e compreendem que é necessário na vida saber rezar.

De modo particular, porém, deveríamos preocupar-nos mais, nas Inspetorias, em fazer nascer grupos jovens de oração com as características próprias do carisma salesiano. Mais ainda: a nossa pastoral juvenil deveria promover verdadeiras escolas de oração ativa para contrastar a perda do sentido de Deus em tanta juventude. Não alcançará bom êxito a promoção de uma espiritualidade juvenil que não cultive o espírito de oração.

Sabemos, queridos irmãos, que o carisma de Dom Bosco é um precioso dom do Espírito e de Maria à Igreja. De fato, juntamente com a ação vivificante do Espírito Santo, ao longo dos séculos, Maria também intervém. No que se refere ao nosso carisma, no-lo garante expli­citamente o Fundador.

Que, então, o Espírito e Maria nos ensi­nem a rezar no mesmo estilo salesiano com que o fizeram Dom Bosco e Maria Mazzarello.

Estou-lhes escrevendo estas reflexões no clima da solenidade da Assunção de Nossa Senhora; é a grande Páscoa pessoal de Maria, o mistério que n’Ela universalmente inicia o papel materno de Auxiliadora na história.

Quando o Espírito atualizou em Maria a sua capacidade de ser mãe, nasceu n’Ela Jesus, nosso Irmão e Senhor, ao qual o Pai podia dizer com absoluta verdade: “Tu és o meu Filho predileto”;[59] e o coração orante de Jesus podia responder: “Eis que venho, ó Pai, para fazer a vossa vontade”.[60]

A essa atitude de Cristo assemelha-se a de Maria na Anunciação: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua vontade”.[61] Atitude orante, “filial” e “missionária”, que vai da união de amor com o Pai ao realismo da vida ativa no dia-a-dia.

Peçamos com insistência ao Espírito do Senhor, primeiro Autor do nosso carisma, que, por intercessão de Maria sua Esposa, nos faça crescer constantemente numa interioridade que também nos leve “a unir espontaneamente a oração com a vida”.[62]

Amemos com entusiasmo a identidade da nossa vocação e alimentemo-la quotidiana­mente com o autêntico “espírito de piedade” herdado de Dom Bosco. Este é o caminho que nos conduz ao Amor!

Uma saudação cordial a todos.

Com estima e afeto no Senhor,

Egídio Viganò
Reitor-Mor

 

[1] Cf. P. RICALDONE, La Pietà: Vita di Pietà; l’Eucaristia, vol. III, serie “Formazione salesiana” – colle Don Bosco, 1955.

[2] ChL 24.

[3] Regole e Costituzioni della Società di S. Francesco di Sales, “Introduzione” – Turim, 1885.

[4] Cf. PL 22, 411.

[5] Cf. ROBERT ARON, Così pregava l’ebreo Gesù – Mondadori, 1988.

[6] Jo 15,1-10.

[7] 1Jo 4,10.

[8] Oração eucarística III.

[9] Ap 3,20.

[10] Hb 4,12.

[11] Mt 6,6.

[12] PAULO VI, 7.12.1965.

[13] Const. 21.

[14] Cf. Const. 12.

[15] S. FRANCISCO DE SALES, Trattato dell’amor di Dio – Ed. Paoline, 1989, p. 527.

[16] Gl 2,20.

[17] O.c. p. 525.

[18] O.c. p. 528.

[19] O.c. p. 427.

[20] O.c. p. 525, 524.

[21] S. FRANÇOIS DE SALES, Oeuvres – Bibliothèque de la Pléiade – Ed. Gallimart, 1986 : “Introduction à la Vie devote”, p. 8.

[22] MB XII 630; cf. 30.

[23] Lettere di don Paolo Albera, ed. 1965, p. 40.

[24] ACS 17, 1923, p. 36.

[25] AA 3.

[26] Cf. Const. 10.

[27] In dialogo con il Signore­, LDC 1990, para as Inspetorias da Itália, p. 7-15.

[28] Ib., p. 20-21.

[29] Const. 86.

[30] O projeto de vida dos salesianos de Dom Bosco: Guia à leitura das Constituições salesianas - Roma, 1986, p. 619-620 [edição italiana].

[31] Nota: conviria reler de vez em quando o preciso estudo do P. E. Ceria: Don Bosco com Dio.

[32] Const. 86.

[33] Cf. art. 86, 87, 89, 92.

[34] Const. 95.

[35] O projeto de vida dos salesianos de Dom Bosco: Guia à leitura das Constituições salesianas - Roma, 1986, p. 159 [edição italiana].

[36] Cf. PO 14.

[37] Cf. ACS 308: Martírio e paixão no espírito apostólico de Dom Bosco.

[38] Cf. ACS 301: Redescobrir o espírito de Mornese.

[39] P. RICALDONE, o.c., p. 316.

[40] CG23 332.

[41] Imitazione di Cristo, L III, n. 2. Tiburzio Lupo, Prima versione dell’edizione critica – LEV Cidade do Vaticano, 1983.

[42] Cf. Const. 93.

[43] Cf. Const. 11.

[44] Cf. Const. 90.

[45] Cf. ACG 326: Procura fazer-te amar.

[46] Cf. Const. 18.

[47] MI, Fontes narrativi, cit. II, 419, n. 24; e I, 644, n. 196.

[48] CG23 216-217.

[49] CG23 222.

[50] Const. 3; cf. também 24 e 50.

[51] SCRIS, 1980, n. 1, p. 7-12.

[52] Cf. ACG 312: O texto renovado da nossa Regra de vida.

[53] Cf. ACG 331: A nova evangelização.

[54] Cf. ACG 337: Nova educação.

[55] CG23 95.

[56] PC 8.

[57] Ib.

[58] CG23 332.

[59] Hb 1,5.

[60] Hb 10,5.

[61] Lc 1,38.

[62] Const. 86.