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Convidados a testemunhar melhor a nossa consagração (ACG 342)

Egídio Viganò

CONVIDADOS A TESTEMUNHAR MELHOR A NOSSA CONSAGRAÇÃO

Atos do Conselho Geral

Ano LXXIII – outubro-dezembro, 1992

342

Introdução: importância do próximo Sínodo de 1994 - Uma dificuldade - Um autorizado subsídio para a preparação - A renovação incompleta - Aspectos de eclesialidade na nossa experiência pós-conciliar - Grandes metas abertas - Exigências da Nova Evangelização - Esperamos do Sínodo uma presença renovada do mistério de Cristo no mundo - Conclusão: Maria, Modelo e Auxílio da vida consagrada.

Roma, Natividade da Virgem Maria
8 de setembro de 1992

Queridos Irmãos,

hoje, festa da Natividade da Virgem Maria — dom do Pai para a nossa salvação —, convido-os a refletir sobre a generosa iniciativa de Deus na nossa vocação, sobre sua constante presença e sobre a preciosa contribuição da sua graça: um dom gratuito que se torna história em nossa vida. Vejo-os mergulhados no trabalho, animados sempre
daquela “caridade pastoral” que o Santo Padre tão bem descreveu e aprofundou na Exortação Apostólica “Pastores Dabo Vobis” capítulo 3º “o Espírito do Senhor está sobre mim”.[1] É uma orientação magisterial que ilumina a “consagração apos­tólica” para ser centro vivo de toda a nossa interioridade.

Haverá dentro em pouco um novo evento eclesial que concentrará a atenção sobre a natureza e missão da “Vida consagrada” no Povo de Deus. O Papa convocou os Bispos, para fins de 1994, a um Sínodo ordinário — o nono — que tratará deste tema. Considera-o vital para a renovação de todos. Há no mundo necessidade urgente de mais acen­tuado espírito das bem-aventuranças testemunhado pelos “consagrados”.

O Sínodo enfrentará o tema em relação à Igreja universal, à diferença de outros Sínodos particulares (como a 4ª Assembleia dos Bispos Latino-americanos ou o próximo Sínodo africano), os quais visam a uma resposta pastoral às interpelações dos pró­prios contextos. São dois modos de guia pastoral, ambos indispensáveis e complementares: um aprofunda os valores de identidade para todo o Povo de Deus, o outro — à luz da comum identidade eclesial — refere-se concretamente aos diferentes desafios culturais e sociais dos povos: unidade e pluralidade numa pastoral simultanea­mente de transcendência e de encarnação.

A visão geral do Sínodo-94 está orientada, evidentemente, para traduzir-se nas particularida­des quer dos vários Institutos de Vida consagrada, quer das exigências culturais das várias regiões. A sua importância, porém, é prévia e orientadora.

Se considerarmos os últimos sínodos de nível universal (por exemplo, o extraordinário a vinte anos do Concílio, sobre os fiéis Leigos, sobre a formação dos presbíteros), compreenderemos logo em que consiste o aspecto de unidade eclesial e a sua importância para a aplicação aos diferentes contextos.

Os sucessores dos Apóstolos estarão empenhados em refletir pastoralmente sobre a “Vida Consagrada” hoje no mundo: sobre suas multíplices formas de tender à santidade e sobre seus vários papéis de testemunho e serviço. Dever-se-á entrar no coração do mistério da Igreja, donde jorra toda a energia da santificação. Se os “consagrados” — em qualquer País do mundo — não concentrarem seus esforços neste aspecto, expor-se-ão ao perigo de correr em vão. Não basta “suar” e encarnar-se entre os homens: é necessário anunciar-lhes — de maneira existencial e operativa — a profecia da ressurreição.

O próximo Sínodo relançará para nós e para todos o empenho eclesial de “dar brilhante e exímio testemunho de que não é possível transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças”.[2] Considero particularmente salutar que se vá cultivando desde agora na Congregação a consciência da importância deste Sínodo, da sua preparação e celebração.

Como pode e deve ser a nossa participação, pessoal e comunitária? Não é simples dar uma resposta fácil para todos. Há que repensar — de maneira sintética — na laboriosa busca e vivência de uns trinta anos: olhar para aspectos já afirmados e repetidos, mas que se devem considerar sob outra ótica. Trabalho um tanto árduo, porém, profícuo e estimulante.

Ao menos para dois aspectos parece-me não deveria faltar a nossa contribuição: um esforço renovado em viver, de maneira mais convicta e coerente, a nossa vocação salesiana, autorizadamente redefinida e reatualizada na Regra de vida; e um vivo e assíduo interesse por tudo o que na Igreja se fizer para uma adequada preparação para o próximo evento. Minha carta apresenta algumas indicações que visam justamente a envolver a todos e a cada um nessa dupla direção.

Dia 2 de fevereiro passado, festa da Apresen­tação do Senhor, tive a felicidade de concelebrar como o Santo Padre na basílica de São Pedro repleta de religiosos e religiosas. Foi significativa a tradicional oferta das velas. O Papa disse na homilia: “Ao acender hoje estas velas que significam a luz de Cristo, iniciamos também a preparação para a próxima Assembleia do Sínodo dos Bispos, que tratará, como sabeis, da Vida Consagrada e do seu compromisso na Igreja e no mundo. Às portas do ano dois mil, ela irá tratar da vossa vida, da vossa consagração, do vosso modo de participar na evangelização e, por consequência, na atividade missionária da Igreja. Acompanhai os trabalhos preparatórios com a vossa oração! Participai ativamente nas consultas que vos serão feitas. Os sucessores dos apóstolos querem ajudar-vos a serdes fermento evangélico e evangelizador das culturas do terceiro milénio e das orientações sociais dos povos”.[3]

Esta última expressão do Papa faz-me pensar na notável evolução da Vida Consagrada nestes de­cênios do pós-concílio, não obstante os defeitos que nunca faltam nos processos humanos. Vivemos os inícios de uma nova etapa de vitalidade na sua história secular. Saindo de uma estação um tanto invernal, ela vive uma hora de primavera e abre-se ao futuro para crescer com mais vigor e confiança.

O Vaticano II provocou deveras um novo começo eclesial. Há que meditar com alegria, ainda que imersos em preocupantes problemas, sobre quanto afirmou Paulo VI: “Estamos a viver na Igreja um momento privilegiado do Espírito. Somos felizes ao nos colocarmos sob sua moção. Recolhemo-nos em torno d’Ele, e por Ele queremos deixar-nos guiar”.[4]

Dediquemo-nos, pois, com diligência à prepa­ração do Sínodo.

 

Uma dificuldade

 

O Sínodo-94 não se dedicará à consideração da índole própria de cada Instituto e nem apenas da “Vida Religiosa”, mas ao significado global e à importância eclesial de toda a “Vida Consagrada”. Entram nesta ótica também os Institutos Seculares, as outras formas de especial consagração e as Sociedades de vida apostólica.

Perguntamo-nos então se esta extensão da ótica sinodal não corre o risco de certa dispersão e genericismo. A amplitude dos temas não prejudi­cará o aprofundamento e a concretude das orien­tações conclusivas?

Vendo a já iniciada programação do trabalho por fazer, pode-se supor que a ampliação da ótica não impede, de fato, que em momentos específicos possam os Padres sinodais concentrar a atenção em alguns grupos concretos, por exemplo, os da “Vida Religiosa” enquanto tal. Eles constituem, com efeito, a “pars magna” da Vida Consagrada.

Por outro lado, porém, deve-se reconhecer que hoje no Povo de Deus — a começar pelos responsáveis da pastoral — é verdadeiramente conveniente, antes urgente, precisar a dimensão eclesial e o papel peculiar de toda a Vida Consagrada. Neste sentido, a extensão do âmbito de conside­ração tornar-se-á particularmente útil quando menos por dois motivos.

O primeiro é aprofundar, antes de tudo, dois aspectos substanciais comuns, sem os quais não se vive a consagração, ou seja, o componente fundamental que se encontra na raiz da índole própria e diferente de cada grupo. Assim, por exemplo para nós, o ser “verdadeiro cristão” (que é o aspecto fundamental comum) é a alma do ser “salesiano” (que é a diferença da nossa índole própria). Já o afirmava o Capítulo Geral Especial 20: a nossa sequela de Cristo — lê-se nos Atos — “não é algo estranho à consagração batismal, mas um modo de viver o compromisso do batismo numa das diferentes e complementares vocações cristãs, todas elas suscitadas pelo Espírito. Não há dois planos nessa vocação: o da vida religiosa um pouco mais alto, o da vida cristã um pouco mais baixo. Para quem é religioso, testemunhar o espírito das bem-aventuranças com a profissão dos votos é a sua única maneira de viver o batismo e ser discípulo do Senhor, cumprindo assim um serviço diferenciado na missão global da Igreja”.[5]

O segundo é apreciar “historicamente” a di­versidade tipológica de cada carisma para ver neles, contemplando a experiência concreta, a inexaurível criatividade do Espírito do Senhor ao longo dos séculos, em resposta original às multíplices e variáveis situações do contexto em que a Igreja realiza sua missão. Isto obriga a olhar a Vida Consagrada para muito além das interpretações conceituais elaboradas com esquemas abstratos.

Assim, melhor se entenderá tanto a vitalidade comum que se deve reforçar quanto a originalidade de cada índole própria que se deve interpretar como multiforme expressão histórica da única caridade infundida pelo Espírito.

Precisamente neste sentido é que se está pre­parando o Sínodo. Por outro lado, é melhor esperar a sua celebração antes de emitir juízos de valor.

 

Um autorizado subsídio para a preparação

 

Sairá logo, para nosso uso, um subsídio do Conselho do Sínodo dos Bispos, comumente cha­mado “lineamenta”. Será um estímulo para a reflexão ao longo da etapa de preparação. Consta de três partes complementares:

  • a visão doutrinal da Vida Consagrada no mistério da Igreja (sua “identidade”);
  • sua situação atual, depois do trabalhoso e fecundo caminho percorrido do Vaticano II até hoje;
  • sua missão: visando sobretudo a que respostas dar aos desafios da Nova Evangelização.

 

Tendo presente quanto afirma o Concílio, isto é, que a Vida Consagrada “embora não pertença à estrutura hierárquica da Igreja, está, contudo, firmemente relacionada com sua vida e santidade”,[6] pensamos que os Sucessores dos Apóstolos que­rerão destacar, antes de tudo, os valores vitais inerentes ao seguimento de Cristo, os únicos capazes de estimular “eficazmente todos os membros da Igreja para o cumprimento dedicado dos deveres impostos pela vocação cristã”.[7] Os “consagrados” são chamados a fazer descobrir aos outros quanto o Espírito do Senhor doou ao Povo de Deus mediante sua consagração.

Se nos deixarmos interpelar por este objetivo sinodal, compreenderemos melhor que o processo de renovação em que nos sentimos envolvidos não pode ser apenas um problema de método e de programações pastorais; ele é, em primeiro lugar uma atitude espiritual de opção fundamental, uma mentalidade, um discernimento, uma concepção de vida; antes, justamente essa conversão à interioridade torna-se fonte e estímulo à procura das metodologias adequadas e constitui a alma de toda programação operativa.

Penso que o Sínodo nos garante uma renovada clareza e luminosos aprofundamentos partindo, nas suas reflexões, do ponto de vista da “eclesialidade”. Esta, com efeito, alcança os “consagrados”, não somente enquanto referidos diretamente a Cristo, mas, também, a todos os membros do Povo de Deus, aos fiéis leigos e Pastores.

Um trabalho sinodal que certamente nos levará a refletir sobre a base doutrinal da Vida Consagrada, partindo prioritariamente não do âmbito da especificidade de cada Instituto — como estamos habituados a fazer entre nós —, mas, concentrando a atenção sobre a qualidade de fundo comum, que se deve ler eclesialmente através da nossa experi­ência peculiar, ligada a um dom do Espírito Santo também para os outros.

Somos convidados, de certa maneira, a percorrer um caminho inverso ao dos últimos Capítulos Gerais. Então, estávamos empenhados — a partir dos estímulos conciliares — em definir o nosso carisma herdado do Fundador (passávamos do patrimônio conciliar comum ao específico da índole própria). Aqui, ao invés, deveremos saber trazer — a partir da experiência da nossa identidade carismática — luzes e aprofundamentos sobre os valores comuns de eclesialidade (ou seja, passar do específico da índole própria ao patrimônio vital comum).

A partir do Vaticano II fizeram-se progressos de tipo eclesiológico que têm necessidade de ser examinados para mútua iluminação visando a criar um crescimento harmônico: por exemplo, entre Igreja local e Vida Consagrada, entre Ministério e Carisma, entre Comunhão e índole própria, entre Consagração e Missão, etc.

Isso tudo servirá para fortalecer em nós a consciência da hora germinal em que vivemos: um novo início da recorrente juventude da Igreja.

O Sínodo será, pois, uma ótima ocasião para aperfeiçoar o grande compromisso de renovação espiritual estendido a todo o Povo de Deus, iluminado e ricamente expresso pelos diversos Institutos de Vida Consagrada. Penso que o esforço que fizermos para individuar alguns aspectos da nossa vida a fim de oferecê-los como fruto do caminho percorrido nestes anos, haverá de favorecer em nós mesmos uma consciência mais lúcida dos funda­mentos bíblicos e teologais tanto da consagração como da missão e dos conselhos evangélicos, da corresponsabilidade de cada irmão, da descentralização na unidade e do indispensável e fraterno serviço da autoridade.

 

A renovação incompleta

 

Ao considerar o caminho percorrido depois do Vaticano II, far-se-á uma espécie de balanço realista da evolução da Vida Consagrada também em relação ao devir da sociedade. Os processos de secularização e de socialização, com efeito, tiveram um peso não indiferente; não se pode ignorar a influência que exerceram sobre a evolução da Vida Consagrada, não tanto para julgar um eventual enfraquecimento deles, como para visar a um equilibrado discernimento dos valores positivos e da possível contestação evangélica que se deve renovar.

No caminho pós-conciliar chegamos a alguns progressos essenciais: esforços de renovação, em­penhos de revisão, de repensamento, de realização de projetos, iniciativas e experiências, problemas e dificuldades. Refletimos mais de uma vez sobre alguns aspectos particularmente incisivos destes decênios.[8]

 

As etapas do nosso caminho foram percorridas por bem cinco Capítulos Gerais: o 19º (1965), no qual se precisou, entre outras coisas, a natureza e o funcionamento do próprio Capítulo Geral: um trabalho indispensável, antes das demais etapas: — o 20º (1971), que foi o Capítulo “Especial”, realizou o delicado, vasto e longo trabalho de redefinir a nossa identidade salesiana na Igreja: — o 21º (1978) dedicou-se sobretudo à atualização do nosso Projeto educativo-pastoral, à função do Diretor e à figura do Salesiano Coadjutor; — o 22º (1984) levou a cabo a reelaboração da nossa Regra de vida; — e o 23º (1990) aprofundou e descreveu como efetivar a nossa metodologia na educação dos jovens na fé.

Esses grandes Capítulos foram preparados com a cooperação dos irmãos de todas as Inspetorias, levando em consideração as orientações conciliares e as diversificadas exigências culturais. Vale a pena lembrar o enorme trabalho de preparação para o Capítulo Geral Especial (20º), sob a orientação do Reitor-Mor P. Luís Ricceri.

No decorrer das várias etapas foram certamente alcançados muitos frutos positivos: a referência viva ao Fundador, a significatividade da índole própria, a concepção e reelaboração da Regra de vida, a revalorização da Profissão religiosa, o realce dado ao espírito salesiano, a revisão das estruturas de serviço com a descentralização na unidade, o critério oratoriano de ação, a consciência renovada da dimensão comunitária, o cuidado da formação inicial e permanente, a generosidade missionária, o relançamento da Família Salesiana, o envolvimento dos leigos, etc. Mas isso tudo foi apenas proposto à prática e está por vir a ser; ainda não foi realizado. A realidade da renovação está sempre a caminho; traz consigo tendências novas, desafios inéditos, diferenças culturais segundo os contextos e contínuos problemas que deve enfrentar; além disso, os programas sexenais dos Capítulos não amadureceram igualmente em todas as Inspetorias; permanecem ainda entre os irmãos zonas de impermeabilidade.

Olhando também para os outros grupos de Vida Consagrada, há razões para falar de renovação “incompleta”. O qualificativo “incompleto”, muito embora reconhecendo os passos dados, denota que existem etapas de gradualidade e também dados infelizmente negativos. Basta pensar nos problemas e dificuldades que apareceram nestes decênios. Não é o caso de fazer aqui uma lista dos mais graves, também porque — tratando-se de toda a Vida Consagrada — envolvem as faltas e carências de outros setores da Igreja. Não é fácil renovar todo o Povo de Deus em pouco tempo e em todas as situações geográficas. A incompletude é, destarte, evidente. O que é positivo e dá muita esperança é a renovação já em marcha por toda a parte.

Se voltarmos o olhar mais particularmente para dentro de casa, estamos mais do que conscientes de vários problemas: a lentidão da retomada espiritual devida a um clima de superficialidade, o obscurecimento de alguns valores essenciais como o enfraquecimento da ascese, o amortecimento do entusiasmo apostólico em várias obras, manifesta­ções de desorientação em certos irmãos, o equilíbrio não alcançado — cá e lá — de algumas tensões, o perigo de um genericismo ou de um nivelamento que leva ao enfraquecimento da identidade, algumas con­cessões ao dissenso, não poucas expressões de individualismo e de aburguesamento, o nem sempre claro testemunho público na sociedade, etc. Entre a fidelidade ao Fundador e ao Concílio, bem definida no texto constitucional, e a que se percebe na prática da vida quotidiana, existe de fato — ainda que em via de superação — uma não desprezível diferença.

A felicidade para nós consiste na constante referência a Dom Bosco e no esforço por imitar o seu tipo de santidade. Fosse vivo hoje, ele nos estimularia a um estilo de Vida Consagrada mais significativo em nível público no âmbito espiritual e ascético, como no apostólico (dado que ambos mutuamente se compenetram de forma inseparável); mover-nos-ia outrossim a excogitar respostas novas, fruto de interioridade renovada, de magnanimidade em projetar, de indefesso espírito de sacrifício e de coragem apostólica.

Penso que a renovação pós-conciliar esteja a fazer-nos crescer na fidelidade dinâmica, ainda que constatando sua incompletude: pode-se dizer que estamos no bom caminho.

Em certas regiões, porém, se se acrescer aos perigos e aspectos negativos acima indicados a dramaticidade de crescentes vazios de pessoal e do envelhecimento, que acarreta uma condição pre­cária para não poucas obras, a renovação deverá procurar com coragem soluções inéditas, deixando-se guiar pelo critério da significatividade, sobre o qual há tempo vimos insistindo.

De qualquer maneira, uma sinfonia incompleta é sempre uma sinfonia!

A celebração do Sínodo é ocasião propícia para corrigir as desafinações.

 

Aspectos de eclesialidade na nossa experiência pós-conciliar

 

No itinerário pós-conciliar experimentamos, com verdadeiro proveito, alguns grandes valores eclesiais inerentes à nossa vocação específica. Refletir sobre eles nos abre a possibilidade de oferecer à preparação do Sínodo (nas várias reuniões locais e gerais) elementos concretos para a renovação da Vida Consagrada. Enumeramos alguns, destacando neles o aspecto da “eclesialidade” no seu sentido mais pro­fundo, ou seja, não somente de “sentir com a Igreja” e de “agir na Igreja”, mas de “identificar-se com Ela” na vivência da própria vocação como expressão da sua vitalidade de graça, de doutrina e de responsabilidade evangelizadora.

Parecem-me de particularmente sugestivos os seguintes aspectos: o fato que a nossa vocação se encarna num “carisma”; o sentir-nos impregnados por uma especial “consagração”; o conceber a “profissão religiosa” como aliança com Deus tendo em vista um peculiar projeto evangélico; o parti­cipar — com a índole própria — da “sacramentalidade” do Povo de Deus; o qualificar-se nele, por iniciativa do Espírito, com uma específica “escolha de campo”.

Experimentamos todos os dias o mistério da Igreja vivendo estes aspectos, que — embora com experiências tipológicas diferentes, especialmente acerca da opção operativa — são comuns aos outros consagrados. Vale, pois, a pena fazê-los emergir como fontes vivas de eclesialidade. Já falamos disso muitas vezes, mas aqui o fazemos olhando para o tema do próximo Sínodo.

 

  • “Carisma”. O fato de o carisma dos Fundadores ser considerado uma “experiência do Espírito Santo” transmitida, conservada e desen­volvida[9] como dom ao Povo de Deus, fez-nos sentir mais viva a participação no mistério da Igreja, experimentando a dimensão pentecostal da nossa vocação: vitalmente eclesial porque carismática.

A consideração da variedade dos carismas estimulou-nos não tanto a seguir teorias e interpre­tações mais ou menos genéricas, mas a referir-nos com maior atenção à permanente presença, histórica e criativa, do Espírito Santo. O carisma do Fun­dador não é um dom vago e abstrato — uma espécie de mito —, mas uma vivência evangélica, uma realidade que é história; a sua identidade está inscrita em vários tipos de existência cristã e está ordenada constitutivamente à vida da Igreja. Aprendemos, desta forma, a buscar a origem de todo tipo de Vida Consagrada antes de mais nada na iniciativa do Espírito do Senhor ao longo do curso dos séculos.

Assim sendo, em vez de olharmos, por exemplo, para os monges do deserto como protótipos iniciais da nossa Vida Consagrada, mais bem descobrimos o nosso dom peculiar no modelo de vida dos Apóstolos, ao qual nos leva substancialmente a experiência de Espírito Santo vivida pelo Fundador. A consciência de estarmos unidos por laços par­ticulares ao Espírito Santo, ao mesmo tempo que nos oferece horizontes mais vastos na busca dos modelos, intensifica o nosso conhecimento da vitalidade da Igreja.

O que há de novo em cada um dos carismas — a dimensão profética que ele demonstra na missão salvífica do Povo de Deus — costuma ser uma leitura particular do Evangelho, um modo corajoso de enfrentar os novos desafios da sociedade. Relançar um carisma significa redescobrir os nú­cleos inovadores nele inseridos pelo Espírito.

De fato, ensina-nos a história que um carisma pode também provocar resistências, sem por isso diminuir nem “a coragem nas iniciativas, nem a constância em doar-se, nem a humildade em suportar os contratempos. A relação justa entre carisma genuíno, perspectiva de novidade e sofri­mento interior importa uma constante histórica de conexão entre carisma e cruz”.[10] Podemos dizer — na perspectiva carismática — que uma impor­tante contribuição da Vida Consagrada à penetração e participação no mistério de Igreja é o protagonismo do Espírito Santo, sua presença vivificante e animadora no Corpo, sua multiforme fecundidade dirigida a criar comunhão, seu papel de construtor da unidade orgânica e católica mediante as precisas contribuições de tantas diferenças.

Contudo, ainda devemos acrescentar que o Espírito doa carismas apropriados e multíplices também aos Pastores, encarregados de fazê-los convergir na comunhão eclesial: ao Papa e aos Bispos doa o carisma da coordenação dos carismas; e é precisamente por isso que o destaque dado ao protagonismo do Espírito torna clara como o dia a organicidade da Igreja qual “Corpo de Cristo”. Com efeito, antes das diversidades próprias da estrutura hierárquica, antes das diferenças dos dons e funções, e também durante o exercício dos vários ministérios e encargos, está o mistério da Igreja no qual todos são chamados a dar o primado à “vida no Espírito”.[11]

Sim: a referência ao Espírito como fonte de vida é para todos fundamento e fonte de genuína eclesialidade.

 

  • “Consagração”. O Vaticano II provocou verdadeira viravolta na maneira de interpretar a “Vida Consagrada”. A própria terminologia, que agora se emprega, procede do “consecratur” da “Lumen Gentium”.[12] Por quem é “consagrada” essa vida? A resposta encontra-se justamente na­quele verbo, usado no passivo; ele proclama Deus protagonista — mediante o ministério da Igreja — de especial consagração: não é unção sacramental, mas “solene bênção”, como diz o Ritual da Profissão, que assegura um dom especial e a assistência do Espírito Santo.

Desse ponto de vista, o qualificativo “consagrada” vem a ser o elemento que fundamenta a eclesialidade de tal vida.

O ato divino de “consagrar” insere — na linha do Batismo e da Crisma — uma especial “presença” do Espírito Santo. Ele se compromete a envolver, guiar, amparar e alimentar os que professam os conselhos evangélicos. A “consagração”, vista como “particular presença do Espírito”, torna-se fonte viva de esperança e demonstra assim um aspecto do papel vivificante do Espírito enquanto “alma” da Igreja.

Deve-se acrescentar ainda uma observação também importante: o ato consagrador de Deus com o dom do seu Espírito envolve simultaneamente tanto a “vocação” como a “missão”. É Deus que, dando o seu Espírito, “chama”, “consagra” e “envia” num único ato de providência e predileção. Desse ponto de vista “vocação”, “consagração” e “missão” são inseparáveis. Assim “consagração” e “missão” vêm a ser como dois aspectos constitutivos de uma mesma realidade, na qual eles coexistem em intercâmbio recíproco: indicam um projeto de vida evangélico peculiarmente animado pela presença amorosa do Espírito Santo.

Esta observação tem não pequena incidência sobre a própria interpretação da Vida Consagrada. A “missão” não é algo exterior simplesmente identificável com a “ação apostólica”, mas iniciativa divina que a precede e guia: está diretamente incluída na consagração e se manifesta e define na “escolha de campo” inscrita no carisma do Fundador. Dessa forma, nascem da missão traços fisionômicos que informam o próprio compromisso dos conselhos evangélicos e determinam-lhe a tipologia eclesial e as modalidades de realização. Fazer os votos não leva a uma promessa vaga e genérica; significa, ao invés, fazer própria a radicalidade batismal de maneira bem definida por uma fisionomia peculiar derivada justamente da missão confiada por Deus.

Já não existe, então, tensão entre “consagração” e “missão” (sobretudo nos grupos de Vida apos­tólica), mas mútua compenetração e circularidade no intercâmbio dos valores eclesiais. Dizer “Vida Consagrada” significa indicar no Povo de Deus uma porção escolhida e designada pelo Senhor para o bem (santificação e apostolado) da Igreja, a qual, desta sorte, se enriquece de grande variedade de carismas, “como uma esposa adornada para o seu esposo; por ela se manifesta a multiforme sabedoria de Deus”.[13]

Esta visão conciliar da “consagração”, à pro­porção que se torna capaz de renovar profunda­mente a interioridade espiritual dos consagrados, realça um aspecto vital da sua eclesialidade: a sagrada hierarquia intervém no ato de consagração para assegurar com o seu ministério a realização da vocação e missão expressas nos diferentes carismas considerados um bem peculiar e próprio, que deve ser cuidado e defendido.

 

  • “Profissão”. Chama-se profissão o ato com o qual o escolhido e chamado se doa totalmente a Deus (seu significado pleno se revela na “profissão perpétua”); compromete-se, além disso, a seguir radicalmente a Cristo, pondo em evidência algum aspecto do seu insondável mistério. O aprofundamento do sentido teologal da consagração ajuda a precisar o que faz o indivíduo na sua profissão. Ele propriamente não “se consagra” (na realidade “é consagrado”). Ele “oferece-se a si próprio” com oblação total. O aspecto radical desta oblação encerra-se e manifesta-se nos “conselhos evangélicos”; neles é que se mede a generosidade da resposta ao chamado divino. A consagração da parte de Deus e a doação total de si com os conselhos evangélicos da parte do sujeito se unem inseparavelmente na “profissão”. Assim, no “pro­fesso” habitam os efeitos da particular presença do Espírito juntamente com a sua vontade de oblação radical; ele se chamará “consagrado” e sua exis­tência “Vida Consagrada”.

Vemos, então, que o adjetivo “consagrado” tem um duplo significado: o da ação divina (“consa­grado por Deus”) e o da doação radical, na qual penetra vitalmente a especial assistência do Espírito (“consagrado a Deus”). Uma e outra se devem à presença amorosa do Espírito Santo.

O compromisso radical de praticar os conselhos evangélicos está incluído numa verdadeira “aliança” (pessoal e de grupo) com Deus através do Fundador, considerado à maneira de pai ou patriarca; aliança que faz conceber a emissão dos votos como uma resposta concreta ao projeto peculiar sugerido pelo Espírito ao Fundador. O fato da íntima unidade entre “consagração” e “missão” implica que os conselhos evangélicos sejam integrados vitalmente na missão peculiar recebida na consa­gração e no projeto concreto expresso no carisma. A Profissão, por conseguinte, não consiste sim­plesmente em fazer os votos, mas no propósito de vivê-los segundo o carisma do Fundador. A rea­lização da missão dá o tom concreto e a fisionomia eclesial a tudo o que se ofereceu na profissão. A doação de si na prática dos conselhos evangélicos é determinada e medida pela realização da própria missão na Igreja, segundo a Regra de vida por ela aprovada.

Com razão afirma a “Lumen Gentium”: “Se, pois, os conselhos evangélicos, pela caridade a que levam, associam os seus seguidores de modo especial à Igreja e ao seu mistério, faz-se mister que a vida espiritual destes, por sua vez, seja devotada ao bem de toda a Igreja. Surge, por isso, a obrigação de se empenhar, conforme as forças e segundo o gênero da própria vocação, seja pela oração, seja também pelo trabalho dedicado, na implantação e fortalecimento do Reino de Cristo nas almas, bem como na sua dilatação por todas as partes”.[14]

Desta forma, também deste ponto de vista, aparece com evidência a eclesialidade da Vida Consagrada: com razão “a Igreja protege e fomenta a índole própria” dos diversos carismas.[15] “Índole própria”, que é inerente às diversas profissões dos conselhos evangélicos e que “importa outrossim um estilo peculiar de santificação e de apostolado, com uma determinada tradição própria”.[16]

Estas diferenças carismáticas inscritas na profis­são foram suscitadas pelo Espírito precisamente para enriquecer e dinamizar a Igreja na realização da sua missão de salvação.

 

  • “Sacramentalidade”. A apresentação conciliar da Igreja como “Sacramento universal de salvação” fez com que este termo recuperasse o significado de testemunho e de sinal crível inerente à existência cristã: os batizados devem ser “sinais e portadores” do mistério de Cristo entre os homens.

A Igreja tem, pois, a sua natureza sacramental manifestada pela policromia de vocações que a tornam significativa para o povo, de muitas e diferentes formas. A Vida Consagrada é parte relevante dessa “natureza sacramental” da Igreja.[17] A “Lumen Gentium” afirma, com efeito, que por meio dos “consagrados” a Igreja pode apresentar melhor Cristo, “ora contemplando-o no monte, ora anunciando o Reino de Deus às multidões, ora curando os enfermos e feridos e convertendo os pecadores ao bom caminho, ora abençoando as crianças e fazendo o bem a todos, mas sempre obediente à vontade do Pai que o enviou”.[18]

Esta multíplice significatividade eclesial, além de fazer observar a pluralidade dos valores teologais e cristológicos inerentes à Vida Consagrada, indica concretamente a razão dos muitos modos pelos quais os seus membros são associados à missão própria do Povo de Deus “por um novo e peculiar título”:[19] o estado religioso “ora melhor manifesta já aqui neste mundo a todos os fiéis a presença dos bens celestes, ora dá testemunho da nova e eterna vida conquistada pela redenção de Cristo, ora prenuncia a ressurreição futura e a glória do Reino celeste....; (além disso) patenteia de modo peculiar a transcendência do Reino de Deus e seus altos destinos sobre tudo o que é terreno. Demonstra, ao mesmo tempo, a todos os homens a supereminente grandeza da força de Cristo-Rei e o infinito poder do Espírito Santo que opera admiravelmente na Igreja”.[20]

A ótica da peculiar significatividade da Vida Consagrada ajuda também a interpretar aqueles “mais” (“mais de perto”, “mais intimamente”, “de maneira mais sólida e segura”, etc.) com que os textos conciliares se referem a ela. Mais que na ordem da dignidade e da santidade, esses “mais” destacam-lhe o ser sinal especial na Igreja, ou seja, a “dimensão sacramental” pela qual a Vida Con­sagrada manifesta ao mundo a multiforme riqueza e utilidade dos valores cristãos.

De modo particular proclama abertamente a índole escatológica do Povo de Deus. Os consa­grados, com sua doação total pela prática dos conselhos evangélicos, tornam-se sinal visível da força da ressurreição, esforçam-se por ser capazes de discernir a ação de Cristo ressuscitado na história e testemunham os empenhos e a alegria da espe­rança na preparação da volta do Senhor aguardando “novos céus e nova terra”.[21]

Portanto, também do ponto de vista da significatividade afirma-se, de modo particularmente concreto e atraente, a eclesialidade viva e benéfica da Vida Consagrada.

 

  • “Escolha de campo”. A consagração apostólica implica, da parte do Espírito do Senhor, a indicação de destinatários preferenciais na missão evangelizadora. Assim, por exemplo, para os que são enviados à juventude, significa interpretar a própria missão como intrinsecamente vinculada à idade evolutiva do homem; ou seja, sentir-se chamados a encarnar com competência as próprias atividades no campo da educação. A escolha de campo — que neste caso é “escolha educativa” — torna-se, de fato, o primeiro passo para a inculturação do Evangelho; um passo onde é preciso saber tornar inseparáveis entre si fé e vida, Evangelho e cultura.

Para nós, este aspecto foi exposto extensamente no CG23. Comentamo-lo também numa circular especial sobre a “nova educação”. Afirmávamos, então, que “o evangelizador-educador” deve cul­tivar os dotes próprios de um “artista” de Deus para ser capaz de unificar os diferentes aspectos que se devem integrar no crescimento orgânico do edu­cando. Nesta hora de grandes transformações, às exigências da nova evangelização acrescentam-se também as de uma “nova educação”.[22] Deste ponto de vista, não são poucas as novidades humanas por conhecer e aprofundar. Vê-se, assim, que con­siderar o homem como caminho para a missão da Igreja acarreta muitas consequências concretas no que concerne ao processo de inculturação. Hoje podemos afirmar que o mote “evangelizar educando e educar evangelizando” exprime a exigência de uma metodologia que deve ser devidamente valo­rizada em toda a obra exigida por uma nova evangelização: impregnar de Evangelho a cultura como veículo de salvação. A mensagem evangélica não deve, porém, diluir-se na cultura, mas conti­nuar a ser sempre seu horizonte e estímulo im­prescindível de progresso.

E há mais. Vemos que a opção educativa se inscreve no campo mais amplo da “promoção humana” que, por sua vez, sempre esteve ligado ao exercício concreto da caridade cristã. Deste ponto de vista, a escolha de campo faz perceber hoje, com particular preocupação, algumas priori­dades que caracterizam a sua atualidade: a opção preferencial pelos pobres, a solidariedade segundo a doutrina social da Igreja, o discernimento ético na formação da consciência, a realidade do pecado, a necessidade e urgência de proclamar os eventos da Páscoa de Cristo.

A nossa experiência ensina que a escolha de campo se torna uma espécie de cadinho no qual se fundem e se tornam factíveis os anteriores aspectos de eclesialidade. E aparece como uma expressão concreta e indispensável para o exercício da ma­ternidade da Igreja em favor do amadurecimento cristão do homem.

 

As reflexões que fizemos — sem pretensão de serem exaustivas — sobre os aspectos até aqui considerados e de per si já conhecidos (“carisma”, “consagração”, “profissão”, “sacramentalidade” e “escolha de campo”) consideramo-las como fruto benéfico da nossa experiência pós-conciliar. Com elas entramos na órbita pentecostal do Concílio. Podem oferecer luzes válidas também para todo o processo de renovação da Vida Consagrada. Pois o que se busca é identificar, com a presença e o poder do Espírito, o insondável mistério de Cristo no tempo; tornar vivo e contemporâneo o carisma dos Fundadores e Fundadoras; chegar ao limiar do terceiro milênio com as energias vivas da ressurreição.

 

Grandes metas abertas

 

O Sínodo certamente voltará sua atenção também para os muitos e graves problemas que permane­ceram abertos no processo de renovação.

É preciso dizer que em toda a vida cristã, e, pois, também na consagrada, a incompletude é inerente à nossa mesma condição de “viatores”. A consciência desta nossa condição não deveria gerar desânimo, mas, antes, ajudar-nos a ver com clareza as metas por atingir com gradualidade, com sacrifício apoiado pela esperança. Por isso, ao olhar para a diferença existente ainda hoje entre o ideal descrito nos documentos de renovação e a vivência de cada dia, mister é que saibamos individuar os pontos mais significativos e estratégicos para visá-los com fi­delidade lúcida e constante. São metas a atingir, para as quais, porém, já nos vemos encaminhados; precisam de contínuo aprofundamento, de revisão e de refazer o projeto.

Na preparação dos “Lineamenta” foram enu­merados vários “problemas” que permaneceram abertos; preferimos aqui falar para nós de “metas” não atingidas. Apontamos algumas das mais im­portantes, não para recriminar desvios ou faltas (que infelizmente existem), mas para motivar nosso empenho na preparação para o Sínodo, como vos dizia anteriormente.

Referimo-nos mais diretamente à nossa situação salesiana, para traduzir nossa eventual contribuição nos trabalhos sinodais não somente na apresentação de reflexões, mas também e sobretudo em teste­munhos vividos. Prosseguindo com confiança e constância no caminho encetado, entendemos empenhar-nos desde agora numa renovação mais autêntica, à vista de algumas diretrizes que nos parecem mais urgentes. A reflexão sobre elas serve-nos de exame de consciência.

 

  • “Vida no Espirito”. A renovação da Vida Consagrada está radicalmente ligada à “vida no Espírito” vivida intensamente, porque é o Espírito que anima e faz crescer a vocação. Em nossa experiência pós-conciliar, os supraditos ele­mentos eclesiais têm alimentado uma adequada pedagogia formativa (para as etapas iniciais e para a formação permanente) e decerto contribuído para melhorar nossa vida pessoal e comunitária. Trata-se, porém, de um caminho nunca acabado, muito exigente, lamentavelmente dificultado pelo clima secularizado do ambiente em que vivemos.

A nossa “vida no Espírito” é de tipo ativo, fruto daquela consagração apostólica que constitui a fonte de toda a nossa santificação. Tem como dinamismo central a “caridade pastoral”, portadora da “graça de unidade” que torna possível a síntese vital entre contemplação e ação.

O espírito salesiano foi vivido de maneira eminente por não poucos irmãos na breve história da Congregação. Nossa Família já pode admirar entre seus membros 3 santos, 5 beatos, 7 veneráveis, mais de 12 servos de Deus (sem contar os numerosos mártires espanhóis). Eles nos garantem que o nosso propósito de santificação é animado por aquele “novo e permanente ardor” que constitui a condição primeira de toda evangelização.

Lembra-nos, além disso, com a clareza do testemunho, que, entre os jovens, não somos simplesmente “educadores”, mas “consagrados”, ou seja, homens de Deus, enviados para educar. Um trabalho, pois, destinado a ser expressão típica de forte pertença àquele que nos envia: aí está a alma do Sistema Preventivo. As consequências deste fato são muitas e bem decisivas, assim para a vida pessoal como para a comunitária.

O Papa nos convidou a evitar os perigos do “intimismo” e do “ativismo”. Empenhamo-nos em cuidar do nosso ripo de oração[23] e a impregnar a ação apostólica juvenil de espírito salesiano.[24] Nesse esforço há que crescer sempre, bem conscientes do fato que alguns caminham assaz lentamente.

Devemos considerar a vida no Espírito como a primeira meta sempre aberta. Em tal sentido aguardamos do Sínodo-94 luzes e estímulo que deem suficiente espaço também à peculiar origi­nalidade da Vida Consagrada ativa, talvez um tanto esquecida ou insuficientemente aprofundada até agora nas orientações oficiais. Por isso, propusemo-nos saber imitar ainda mais o Fundador e conhecer melhor a doutrina espiritual de S. Francisco de Sales, para oferecer um testemunho apostólico característico mediante nossa participação especí­fica na vida e santidade da Igreja.

João Paulo II, no discurso que nos fez na sua inesquecível visita ao Capítulo 23º, no-lo recordou com incisividade: “Apraz-me salientar em primeiro lugar, como elemento fundamental, a força de síntese unitiva que brota da caridade pastoral. Ela é fruto da força do Espírito Santo, que assegura a inseparabilidade vital entre união com Deus e dedicação ao próximo, entre interioridade evangélica e ação apostólica, entre coração orante e mãos operantes. Os dois grande Santos, Francisco de Sales e João Bosco, testemunharam e fizeram frutificar na Igreja essa esplêndida ‘graça de uni­dade’. As riquezas secretas que ela traz consigo são a confirmação explícita, comprovada por toda a vida dos dois Santos, de que a união com Deus é a verdadeira fonte do amor operoso ao próximo”.[25]

Somos gratos ao Santo Padre também pela exortação apostólica “Pastores Dabo Vobis”, na qual — já vos dizia no início — nos é apresentada a caridade pastoral precisamente com estas características de potencialidade unitiva. A graça de unidade fruto da caridade pastoral na vida salesiana está contida naquele “ardor pelas almas” com o qual o P. Rinaldi comentava o espírito de Dom Bosco.[26]

Há, todavia, um aspecto espiritual que apresenta entre nós deficiências: é o do empenho ascético. Não há verdadeira vida no Espírito sem concreta ascese. Certamente a ascese deve estar em harmonia com a índole própria do nosso carisma,[27] mas é ne­cessária sempre, quotidianamente, e em abundân­cia. É este, talvez, o ponto mais fraco da nossa retomada espiritual. Entretanto toda forma de Vida Consagrada foi, em todos os tempos, um exercício de ascese. Lembramos ainda uma vez a afirmação de S. Inácio de Loiola: “mais mortificação do amor próprio que da carne; e mais mortificação das paixões que oração: a um homem que mantém mortificadas as paixões, deve bastar um quarto de hora para encontrar a Deus”.[28]

O “da mihi animas” está sempre acompanhado do mistério da cruz (“cetera tolle”), que torna fecunda a sua ação.

 

  • “Sentido vivo da comunhão eclesial”. Outra meta aberta, que encontra — mais de uma vez — particulares dificuldades é a da nossa presença concreta nas Igrejas locais.

O Sínodo-85, a vinte anos do evento conciliar, recordou-nos que “a eclesiologia de comunhão é a ideia central e fundamental nos documentos do Concílio”. Será preciso que a nossa Vida Consa­grada manifeste melhor a incorporação das presenças salesianas dentro da comunhão orgânica da Igreja, caracterizada simultaneamente pela diversidade e pela complementaridade das vocações.

O mistério da comunhão deverá iluminar, para nós, tanto a doutrina sobre a Igreja universal como sobre a Igreja particular. Refletimos sobre quanto alguns anos faz (1978) o Santo Padre recomendou aos Superiores Gerais: “Vós sois com a vossa vocação para a Igreja universal, mediante a vossa missão em determinada Igreja local. Portanto, a vossa vocação para a Igreja universal se realiza dentro das estruturas da Igreja local. É preciso fazer de tudo para que a Vida Consagrada se desenvolva em cada uma das Igrejas locais, para que contribua para a edificação espiritual de todas elas, para que constitua sua particular força. A unidade com a Igreja universal, mediante a Igreja local: eis aí o vosso caminho!”.[29]

 Um problema concreto, a respeito, são as relações com os responsáveis locais da pastoral. O documento “Mutuae Relationes” havia auspiciado com esperança uma comunhão mais ágil e fraterna; o que em várias situações nem sempre se verificou. Fazemos votos para que seja este um ponto tratado com especial atenção no Sínodo-94.

E importante que todos os Pastores tenham um conhecimento do dom da Vida Consagrada mais em sintonia com a eclesiologia do Concílio e saibam apreciar, cultivar e coordenar suas riquezas. Já havia dito claramente o “Mutuae Relationes”: “Alma do corpo eclesial é o Espírito Santo: nenhum membro do Povo de Deus, qualquer que seja o ministério em que esteja empenhado, concentra em si pes­soalmente, na sua totalidade, dons, encargos e funções, mas deve entrar em comunhão com os outros. As diferenças no Povo de Deus, tanto de dons como de funções, convergem entre si e completam-se mutuamente para a “única comunhão e missão”.[30]

De nossa parte, somos chamados a colaborar com mais maleabilidade e compreensão, travando um diálogo fraterno que não se interrompa diante das dificuldades e que procure constantemente superar os entraves. Neste âmbito, além de uma formação doutrinal mais completa e específica, é preciso prestar atenção às pessoas concretas com suas mentalidades e temperamentos; por isso, o diálogo terá necessidade de inteligente pedagogia, de fraterna convivência, de bondade salesiana e santa paciência.

As nossas presenças (oratórios, centros juvenis, escolas, paróquias, etc.) são de tipo pastoral (a nossa é uma “missão juvenil e popular”) a serviço de um território; devem ter uma característica peculiar (pelo menos estamo-nos esforçando por tê-la) que se deve incorporar e harmonizar com os projetos das Igrejas locais a fim de enriquecer as suas possibilidades de serviço. Ensina a experiência que, se concorrermos para estabelecer as condições requeridas, será possível realizá-lo de maneira bastante harmônica.

Dever-se-á, evidentemente, melhorar, de nossa parte, a fidelidade ao magistério e às orientações pastorais do Sucessor de Pedro,[31] o conhecimento e a adesão ao ministério próprio do Episcopado, ao papel dos vários organismos pastorais (de modo particular ao dos conselhos presbiteral e pastoral), à colaboração com o laicato. Não há duvidar que toda iniciativa pastoral tem hoje urgente necessi­dade de maior comunhão eclesial, e, para nós, de comunhão construída com a bondade.

 

  • “Significatividade”. E este um aspecto ligado ao conceito de “sinal” próprio da Vida Consagrada, considerada em geral como participação na natureza sacramental da Igreja. Todo carisma, porém, nela participa com uma modalidade própria. Essa modalidade deverá tornar-se projeto concreto nas presenças e nas obras. Elas deveriam manifestar claramente o próprio carisma no território.

Ora, num momento de grande transformação cultural, de renovação pastoral na Igreja, de envolvimento dos fiéis leigos, de desafios inéditos e de novas pobrezas, e ao mesmo tempo de diminuição de pessoal em muitas regiões, torna-se indispensável e vital reconsiderar a significatividade das presenças, tomando na devida consideração os aspectos fundamentais da própria renovação pós-conciliar. Disso falou nos ACG o Vigário Geral, P. Juan E. Vecchi, referindo-se à “pessoa do salesiano”, à “comunidade”, à “qualidade pastoral”, à “capacidade de agregar outras forças”, ao “impacto sobre o território”.[32]           É uma meta aberta e urgente. Procurou-se atingi-la por vezes com soluções parciais, mas sem êxito verdadeiramente positivo. Não basta apenas o redimensionamento das obras, ou certas formas de inserção entre os pobres, ou a invenção de outros tipos de vida comunitária, ou, menos ainda, a renúncia às obras próprias. Não é simplesmente um problema de estruturas, de fantasia individualista, de critérios tirados de posições algumas vezes um tanto ideológicas, mas de tradução operativa do projeto evangélico do Fundador.

As presenças apostólicas serão verdadeiramente significativas caso respondam, entre outras coisas, a duas exigências: a primeira é a de manifestar o todo da própria renovação carismática, e não somente algum aspecto parcial; a segunda, a capacidade de responder às exigências mais urgentes dos destinatários nos territórios e nas culturas onde estivermos colocados.

Isso, decerto, exigirá que se verifique também a quantidade das forças. Tentação perigosa para a significatividade é querer prover todas as necessi­dades. O que importa é dar “sinais” de resposta aos desafios com a autenticidade do próprio carisma; vivê-lo aqui e agora com novidade de formas (e, se necessário, também com redução de presenças), mas com genuína fidelidade ao projeto comum.

A significatividade para nós deverá estar sempre unida à “opção educativa”, porque a esse campo é que fomos enviados a trabalhar. Ali é que nos empenhamos com a nossa profissão, e é ali que se desenvolve nossa dimensão profética.

 

  • Missionariedade“. A situação sociocultural atual abriu muitos areópagos novos para a missão da Igreja.[33] Há que assumir agora, um pouco por toda a parte, um critério missionário. Mais: se a renovação nos pede uma adequada “refundação do Oratório”[34] da forma com que o realizou o Fun­dador e o propuseram as Constituições,[35] torna-se uma urgente meta converter-nos — como nos disse o Papa — em verdadeiros “missionários dos jovens”, não só — como é evidente — para os enviados “ad gentes”, mas em todas as presenças. Tal atitude implica iniciativas especiais de convi­vência e de diálogo para a evangelização, bem como capacidade de adaptação e criatividade apostólica, fundadas sobre os critérios permanentes do Sistema Preventivo e aplicadas oportunamente aos diversos tipos de presenças.

Será preciso cultivar o espírito de iniciativa, que não se contenta com caminhar, como se diz, “na defensiva”, mas que estuda “o ataque”, ou seja o momento oportuno para orientar a vida e propor o Evangelho. Devemos pensar nos primeiros grandes missionários — os Apóstolos — que jamais desistiram da missão que por toda a parte traziam dentro de si. Quero dizer que ser chamados de “missionários dos jovens” não é simplesmente um nome bonito e, digamos também, atual, mas um compromisso de conversão tendo em vista um novo modo de presença evangelizadora.

O CG23 descreveu-nos amplamente suas mo­dalidades; a dificuldade está justamente em saber levá-las a efeito. Deparamo-nos com uma meta aberta, para cuja conquista, porém, vimos con­centrando há anos os melhores esforços.

 

— “Inculturação”. Há, por fim, a meta da inculturação, não somente nas missões propriamente ditas, mas em toda a parte. Vivemos, com efeito, — como já se disse — uma hora de transformação cultural que, pela explosão dos sinais dos tempos, provoca o crescimento de uma cultura planetária que dinamiza necessariamente as várias culturas locais. Muito embora não seja a cultura em si mesma um absoluto, ela condiciona a vida de cada um: a linguagem, a maneira de viver, os tipos de apreciação dos valores, um sistema de pensa­mento e de juízo, realidades todas que constituem o ar que toda pessoa respira. Ora, a Palavra de Deus foi proferida para ser “contemporânea” a cada geração humana em qualquer região da terra. Por isso, necessário se faz sabê-la revestir de contemporaneidade local.

Para tanto, é imprescindível uma inculturação adequada, que exige, por um lado e em primeiro lugar, clareza e integridade do que se deve inculturar; e, por outro, competência na linguagem, discernimento das modalidades de vida, consciência das mudanças quanto à apreciação dos valores, conhecimento e capacidade de avaliar os sistemas de pensamento e de juízo.

Não é tarefa fácil, nem de prazo marcado, porque nos encontramos apenas nos albores de nova época histórica. É tarefa para realizar eclesialmente.

A aceleração de tantos dinamismos pode levar mais de uma pessoa ao relativismo e também ao desânimo. O fato, porém, de poder contar com uma verdade salvífica relativa ao homem e sua história, revelada pelo próprio Deus, abre-nos o caminho da inculturação como opção indispensável para tornar realidade a nossa vocação.

De modo especial no que concerne à nossa consagração, a inculturação permite uma santa multiformidade de modalidades de vida, se radicada com clareza e totalidade de conteúdo na única vocação comum, segundo o projeto evangélico descrito na Regra de vida. A obra gradual de inculturação exige uma Vida Consagrada autêntica e fiel à índole própria do carisma do Fundador, e uma atenta capacidade crítica ao discernir os valores culturais que se devem assumir e integrar.

Eis aí uma grande meta, sempre aberta. Ela interessa hoje toda a Igreja e exige uma contínua capacidade de análise das relações entre unidade e multiformidade, respeitando sempre o primado da Palavra de Deus e do carisma do Fundador sobre o futuro dos valores culturais.

Para que o Evangelho ou um carisma sejam inculturados é absolutamente necessário que con­servem a sua identidade específica. Destarte vê-se logo que o trabalho por realizar é complexo: precisa atenção, sensibilidade e estudo tanto no que se refere às novidades quanto no que tange à tradição. Os “progressistas”, com efeito, correm o risco de subverter as origens, ao passo que os “tradiciona­listas” correm o risco de desconhecer a contemporaneidade e de não compreender as propostas que nos faz o Senhor mediante os sinais dos tempos. Os dois não sabem discernir a natureza própria dos dons de Deus com sua transcendência original — ordenada por si mesma a encarnar-se —, e a modalidade histórica, de fato transitória, dos esquemas culturais, não obstante tenham sido — ontem — o invólucro precioso dos dons de Deus.

O discernimento acertado dos passos que se devem dar em campo tão delicado não é uma questão que se deva deixar à arbitrariedade de cada um, mas deve ser assumido como sua pela comunidade nos vários níveis, sob a guia dos responsáveis designados.

 

Exigências da Nova Evangelização

 

Hoje, a Igreja dedica especial atenção à nova evangelização e espera que a Vida Consagrada concorra com generoso entusiasmo.

Indagamos, por isso, quais as principais exigências que advêm dessa tarefa. A resposta seria longa. Aqui basta indicar duas linhas complementares: uma diz respeito ao sujeito chamado a evangelizar; a outra ao peculiar conteúdo cultural que será tomado em consideração.

 

  • Em relação ao sujeito, pode-se lembrar a expressão programática de João Paulo II acerca da evangelização: “nova no ardor, nova nos métodos, nova nas expressões”.

A renovação da Vida Consagrada deve defrontar-se corajosamente com as exigências da nova evangelização, que requerem de cada um e das comunidades uma espécie de conversão. Deve existir um “novo ardor” no testemunho do próprio carisma, com uma vida no Espírito que renove a profunda comunhão com o mistério de Cristo; uma “novidade de método” na iniciativa apostólica, que expresse o fervor carismático da índole própria; e uma “novidade de expressões” (com espírito de iniciativa) ao traduzir o novo método nas atividades e nas obras, em sincera comunhão eclesial. A nova evangelização exige, pois, a plenitude de testemunho da caridade pastoral do próprio carisma para irradiar com a vida a luz e o calor do Evangelho. O nosso CG23 nos estimulou justamente a isto:[36] insistindo de maneira especial numa co­munidade que seja deveras “sinal de fé”, isto é, formada por membros que sejam “homens espi­rituais”; que seja também “escola de fé”, ou seja, verdadeiramente “missionária” entre os jovens, fazendo da evangelização sua razão de ser e agir; e, enfim, que se torne “centro de comunhão e participação”, capaz de reunir e animar outros colaboradores, em sintonia com os projetos das Igrejas locais.

 

  • Quanto ao conteúdo cultural, é importante prestar atenção aos valores que amadureceram na cultura emergente, anunciando verdadeiras novi­dades. Verdade é que precisa sabê-los discernir na sua inata ambivalência, enquanto trazem consigo muitas novidades a batizar e nas quais saber encarnar o Evangelho de Cristo e o próprio carisma. Basta pensar na emergência da ordem temporal e na justa avaliação dos valores da laicidade; nos progressos feitos quanto ao conceito da convivência de cidadãos e nas novas fronteiras abertas à dimensão social da fé; na promoção das relações de reciprocidade entre homens e mulheres e em quanto de aí deriva para a renovação da sociedade e da Igreja, nos delicados desafios da vida, da justiça, da paz, da solidariedade, da ecologia, com muitos quesitos por resolver do ponto de vista ético.

A nós interessa de modo especial o campo dos jovens (aberto à iniciativa de bom número de grupos de Vida Consagrada): aqui é que somos chamados a gastar as melhores energias para reatar o diálogo com os jovens e educá-los na fé. A opção educativa traça um caminho não muito simples, que cumpre trilhar com olhos voltados para a nova evangelização.

 

Esperamos do Sínodo uma presença renovada do mistério de Cristo no mundo

 

Que podemos esperar do Sínodo-94? Muitos frutos por certo. Não é o caso de imaginar uma lista.

A assembleia sinodal tratará do tema da Vida Consagrada encarando globalmente sua natureza e missão na Igreja. Os sucessores dos Apóstolos, chamados a cuidar da renovação de todo o Povo de Deus, estarão preocupados em traduzir em formas pastorais renovadas os grandes princípios e orientações conciliares.

Virão do Sínodo, sem dúvida, orientações re­novadoras: do primado da “vida no Espírito” à consideração das relações de comunhão seja com os Pastores (um relançamento do “Mutuae Relationes”), seja com os fiéis leigos, a uma visão comum da doutrina da Igreja local, à apreciação da multiformidade carismática no processo de renovação, a alguns problemas concretos relativos de modo especial à “vida religiosa”, etc.

Poderíamos dizer, entretanto, que aguardamos, como fruto global, não tanto a solução de problemas específicos deste ou daquele grupo, quanto um forte relançamento da “Vida Consagrada” nos seus aspectos essenciais e vitais. Ela, com efeito, pela fecunda ação do Espírito Santo nos Fundadores e nas Fundadoras ao longo dos séculos, é chamada a manifestar a riqueza do mistério de Cristo, fazendo resplandecer na Igreja — seu “Corpo” na história — a multiforme graça de Cristo-Cabeça.

A Vida Consagrada evoca e conserva também uma comunhão especial com a Igreja celeste mediante muitos eminentes homens e mulheres, santos, que testemunharam e embelezaram a Igreja com suas experiências: “como numa árvore frondosa e admiravelmente variegada na seara do Senhor, floresceram as diversas modalidades de vida soli­tária ou comum, como também as várias famílias, as quais vão aumentando, tanto para o proveito dos próprios membros, quanto para o bem de todo o corpo de Cristo”.[37] Essa fecundidade carismática amadurecida na história permanece viva e influente, com vínculos de comunhão de graça, na Jerusalém do céu.

Os discípulos são chamados a manifestar hoje o mistério de Cristo tornando presentes vitalmente os Fundadores e as Fundadoras, cuja vida renovada aparecerá como uma exegese espiritual ou um grande comentário existencial do inexaurível patrimônio do Evangelho. Os consagrados de hoje, em vez de entregar-se a demitizações das próprias origens, saibam mostrar viva essa inefável comu­nhão dos santos. Este é o modo mais autêntico de Fundadores e Fundadoras se sentirem também convocados pelo céu a colaborar na nova evan­gelização.

 

Conclusão

Maria, Modelo e Auxílio da Vida Consagrada

 

Da cidade dos Santos, a Virgem Maria, Modelo e Ajuda da Vida Consagrada será a primeira a intervir, a guiar o Sínodo e a torná-lo fecundo. Ela sempre acompanhou maternalmente a obra do Espírito Santo distribuidor dos carismas. Testemunham-no os Fundadores e as Fundadoras bem como a dimensão mariana dos seus Institutos. Maria é Auxílio da Igreja nos tempos difíceis, é Estrela da nova evangelização, é Guia dos Pastores.

Cheia de graça desde o primeiro instante da sua concepção, Ela viveu toda a sua vida como uma experiência de Espírito Santo. Depois de Jesus, Ela é certamente o modelo mais elevado de Vida Consagrada: de doação total a Deus, de missão maternal em relação a Cristo, de intenso itinerário de fé, de exemplo incomparável de primeira discípula no seguimento do Senhor, de ser sinal e portadora das riquezas do seu mistério a todos os homens, de amor inefável à Igreja da qual, com sua própria existência, é profecia e mãe.

Maria nos convida a rezar pelo Sínodo e a prepará-lo, no que nos diz respeito, com viva atenção e esperança. É um evento que levará a Vida Consagrada a assumir — com sua intervenção materna — um papel singularmente incisivo nos tempos novos.

Um aspecto da nossa preparação será aprofundar a vocação salesiana na ótica sinodal de um carisma vivo para a Igreja de hoje, como procuramos sugerir nestas reflexões. Maria nos fará perceber mais eclesialmente o significado e a importância de Dom Bosco, e viver com renovado empenho o seu projeto evangélico segundo as exigências da nova evangelização. Ajudou-nos a caminhar nos grandes Capítulos pós-conciliares, está a guiar-nos na atuação do CG23, e — com o novo Sínodo — nos estimulará de maneira cada vez mais insistente rumo àquelas metas sempre abertas que nos ajudarão a ser autênticos e mais críveis “missionários dos jovens”, isto é, protagonistas — com eles — de uma nova era de presença da fé na sociedade.

Ajude-nos Dom Bosco!

Cordiais saudações, com o compromisso de todos nós em tender às metas apontadas, a fim de tornar sempre mais eficaz na Igreja o patrimônio de Vida Consagrada herdado do Fundador.

Com afeto no Senhor,

 

[1] Pastores dabo vobis 19-33.

[2] Lumen Gentium, 31.

[3] L’Osservatore Romano, 3-4 de fevereiro de 1992.

[4] Evangelii Nuntiandi, 75.

[5] CGE 106.

[6] Lumen Gentium, 44.

[7] Ib, 44.

[8] Cf. p.ex., os Capítulos Gerais 19, 20, 21, 22, 23, e, depois, CGE 312: O texto renovado da nossa Regra de vida; ACG 316: Atualidade e força do Vaticano II; ACG 319: O ano de 1988 convida-nos a uma especial renovação da Profissão; ACG 320: O Guia de leitura das Constituições; ACG 330: O centenário de Dom Bosco e a nossa renovação, etc.

[9] Cf. Mutuae Relationes, 11.

[10] Ib., 12.

[11] Cf. Ib., 4.

[12] Lumen Gentium, 44.

[13] Perfectae Caritatis, 1.

[14] Lumen Gentium, 44.

[15] Cf. ib., 44.

[16] Mutuae Relationes, 11.

[17] Cf. ib., 10

[18] Lumen Gentium, 46.

[19] Ib., 44.

[20] Ib., 44.

[21] Ap 21,1.

[22] Cf. ACG 337.

[23] Cf. ACG 338.

[24] Cf. CG20 e ACG 334.

[25] CG23 332.

[26] Cf. ACG 332.

[27] Cf. ACG 326.

[28] Cf. ACG 338.

[29] L’Osservatore Romano, 27 de novembro de 1978.

[30] Mutuae Relationes, 9b.

[31] Cf. ACG 315.

[32] Cf. ACG 340.

[33] Cf. Redemptoris Missio, sobretudo n. 37b,c; 69 e 70; e ACG 336.

[34] CG23 345.

[35] Const. 40.

[36] Cf. CG23 4, 90-91 e 215-220.

[37] Lumen Gentium, 43.