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Espiritualidade Salesiana para a nova evangelização (ACG 334)

Viganò Egídio

ESPIRITUALIDADE SALESIANA

PARA A NOVA EVANGELIZAÇÃO

Atos do Conselho Geral

Ano LXXI – outubro-dezembro, 1990

334

Introdução – Nem moda nem o mesmo refrão, mas uma verdadeira exigência nova – Energia indispensável para o “itinerário” de fé – A realidade traz consigo sinais de te­mor – Nós somos enraizados no poder do Espírito Santo – No grande rio da espiritualida­de “salesiana”— No seguimento de Dom Bosco – Formemos comunidades evangelizado­ras – Sob a orientação da Auxiliadora, Estrela da nova Evangelização – Augúrio final.

Roma, 15 de agosto de 1990
Solenidade da Assunção de N. Senhora

Queridos Irmãos,

uma cordial saudação também em nome dos membros do novo Con­selho Geral. Reunimo-nos alguns dias para aprofundar juntos as orien­tações do CG23 e esboçar um programa de animação e gover­no para tornar mais incisivos e eficazes os nossos serviços às Inspetorias neste sexênio. Tendes em mãos os Documentos Capitulares e es­tais estudando os conteúdos.

Gostaria de acompanhar-vos nesta tarefa tão vital com algumas re­flexões que considero importantes.

Dois são os elementos fundamentais que iluminam o significado global do nosso CG23: o primeiro é que ele quer inserir-nos eficazmen­te no movimento eclesial da “Nova Evangelização”; o segundo é a con­vicção e a constatação de que a indispensável energia de marcha na cami­nhada e nos itinerários da fé é a “Espiritualidade”.

Sobre a nova Evangelização já vos falei;[1] nesta carta, convido-vos a refletir sobre a nossa “Espiritualidade”.

O texto capitular apresenta-a como o segredo de sucesso na educa­ção dos jovens à fé.

A nova evangelização exige muitas qualidades e competências. Mas, enquanto a espiritualidade pode suprir, ao menos em parte, ou­tras carências, nenhuma outra qualidade ou competência pode suprir a falta da mesma.

Será, portanto, conveniente que procuremos juntos algumas das mo­tivações, porque somos chamados a dar muita importância a este argu­mento e a assegurar-lhe uma verdadeira prioridade na programação da formação.

Convido-vos, ainda, a rezar com particular intensidade pelo feliz êxito do Capítulo Geral XIX das Filhas de Maria Auxiliadora. Elas esco­lheram como tema de seus trabalhos: “Educar as jovens: contribuição das FMA para uma nova evangelização nos diferentes contextos socioculturais”. Este tema, como evidenciou a Madre na carta de convocação do Capítulo, focaliza o aspecto qualificador da nossa missão: “viver na Igreja e na Sociedade a serviço da educação das jovens no espírito do Sistema Preventivo de Dom Bosco”. Urge também para elas, como tam­bém para nós, confrontar as comunidades com as instâncias educativas mais urgentes, tendo um coração ardente porque renovado por uma au­têntica espiritualidade salesiana.

 

Nem moda nem o mesmo refrão, mas uma verdade exigência nova

 

Alguém poderá perguntar porque o CG23 colocou a espiritualida­de em posição de destaque.

Não estaríamos voltando a um tema em certo sentido cômodo e sem interesse histórico, em que estaríamos nos refugiando, quase esquecen­do as dificuldades? Ou não seria um convite para imitar os grupos que estão na moda, talvez alimentando certa alienação diante dos de­safios da nova cultura? Ou seja, não seria um assunto pouco prático?

O texto capitular volta-se numa outra perspectiva. A espiritualida­de de que fala não é nem uma moda nem um refrão constante, mas cons­titui, para nós, autêntica fidelidade ao Sistema Preventivo, uma condi­ção prática para a nova evangelização e uma exigência dos tempos novos.

Dom Bosco, que não gostava de eludir a realidade, ensina-nos is­so com sua pessoa e com sua pedagogia.[2]

Com a palavra “espiritualidade” o CG23 quer falar de uma experi­ência de Deus, que traz consigo o exercício daquela vida teologal de “fé, esperança e caridade” que é fruto da presença do Espírito Santo em nós. Quando o texto fala de “fé” quer exatamente unir vitalmente as três virtudes teologais num único estilo concreto de vida cristã, convicta e dinâ­mica.

Santa Catarina de Sena dizia que, quando o exercício das virtudes teologais é fraco, o rosto da Igreja aparece pálido. Sem a vitalidade da fé não se consegue educar à fé.

Alma do documento capitular é uma experiência de vida e de ação alicerçada em Deus, uma energia sem a qual somos obrigados a nos perguntar se ainda somos capazes de continuar no itinerário até à me­ta final.

O interesse pela espiritualidade nasce exatamente disso: o cami­nho a ser percorrido é novo, é um caminho traçado recentemente, aliás ainda em elaboração, com itinerários não asfaltados e abertos a pers­pectivas inéditas que exigem repensar e reavaliar a identidade cristã. Mudou o contexto cultural da fé e é urgente saber esboçar e apresentar em nós e nos jovens o novo rosto do fiel com convicções profundas, com motivações de atualidade e com compromissos concretos no estilo de vida. O Espírito Santo sopra nesse sentido: para a atualidade da fé!

Por outro lado, o CG23 nos fez constatar de fato que se manifesta nos grupos juvenis um crescente desejo de espiritualidade.

Sabemos ainda que o Concílio Vaticano II fez uma verdadeira redes­coberta do Espírito Santo como pedagogo-protagonista da fé com espe­ciais intervenções neste final de segundo milênio. Os documentos conci­liares apresentam uma clara perspectiva do Espírito Santo na visão da Igreja e de sua missão; em particular, o decreto Perfectae caritatis lem­bra aos membros dos Institutos de vida consagrada que “como a vida religiosa antes de tudo se orienta no sentido de os membros seguirem a Cristo... a melhor atualização surtirá efeito se for animada por uma re­novação espiritual, à qual se deve dar sempre a primazia, mesmo que se trate de promover obras externas”.[3]

Paulo VI percebeu com admiração e esperança que “nós estamos vivendo na Igreja um momento privilegiado do Espírito... recolhemo-nos ao redor dele e queremos deixar-nos guiar por Ele... Ele age sobre­tudo através da missão evangelizadora: não por acaso o grande início da evangelização deu-se na manhã de Pentecostes, sob o impulso do Espírito”.[4]

Os movimentos eclesiais nascidos nestes decênios foram considera­dos oficialmente, em seu conjunto, como expressão de uma nova época de espiritualidade, fruto da “riqueza e versatilidade dos recursos que o Espírito faz brotar no contexto eclesial”.[5]

Também toda a nossa renovação, orientada pelo precioso trabalho dos Capítulos Gerais do pós-Concílio, é vista no documento capitular co­mo um envolvimento de todos nós Salesianos no atual compromisso ecle­sial da nova evangelização. Podeis ler com atenção a “Introdução” do texto: inspira-se na pedagogia histórica de Deus e relê com olhar teologal os nossos últimos capítulos gerais. Vereis como a Congregação situa-se no coração da Igreja a serviço, exatamente, da nova evangelização. O itinerário feito com esta finalidade está assinalado por algumas eta­pas de pesquisa e de investigação: parte de “missão” – CG20 –; esta é indicada como tarefa assumida pela “comunidade com um projeto” – CG21 – através do reforço da “consagração apostólica” – CG22 – para responder aos desafios, múltiplos e interpelantes, da juventude hoje – CG23 –.[6]

A palavra que sintetiza vitalmente e assume, de maneira pessoal e comunitária, as exigências desta histórica renovação chama-se “espi­ritualidade”.

 

—   O Santo Padre no-lo lembra com insistência; antes na carta do Centenário 88: “A originalidade e a audácia da proposta de uma ‘san­tidade juvenil’ é intrínseca à arte educativa de Dom Bosco, que pode ser justamente definido ‘mestre da espiritualidade juvenil’”.[7] Depois, na Mensagem por ocasião do CG23: “um aspecto a ser aprofundado com interesse é a ‘espiritualidade juvenil’... não é suficiente apoiar-se na sim­ples racionalidade de uma ética humana... É urgente suscitar convic­ções pessoais profundas que levem a um compromisso de vida inspira­do nos valores perenes do Evangelho”.[8] E ainda no discurso durante sua visita ao Capítulo: “Quanta necessidade existe hoje na Igreja de que os jovens sejam educados... a uma concreta ‘espiritualidade’”.[9]

 

—   O Reitor-Mor, por sua vez, já insistiu, na perspectiva do CG23 sobre este assunto com os irmãos e nas comunidades que visitava pa­ra suscitar uma verdadeira espiritualidade entre os jovens. Comentan­do a Estreia ‘90 fala explicitamente do testemunho da comunidade: “O Sistema Preventivo exige espiritualidade: o itinerário ‘da fé à fé’ come­ça a partir de educadores repletos de espiritualidade. Ela não é uma energia só para elites”.[10] No discurso de abertura do Capítulo apresen­ta o Sistema Preventivo como fruto e fonte de espiritualidade salesia­na: “o grande desafio que nos apresenta o tema do Capítulo é o da ‘espi­ritualidade evangelizadora e missionária’ nas nossas comunidades. So­mos ‘educadores’ porque pastores da Igreja de Cristo. A qualidade pas­toral é a alma da nossa competência pedagógica, assim como o ‘da mihi animas’ é o segredo vivificador de todo o nosso espírito”.[11] Na conclu­são de sua Relação sobre a Situação da Congregação (1984-1990) pro­põe a espiritualidade como o grande segredo de sucesso da nossa reno­vação apostólica: “a condição fundamental que mais necessitamos pa­ra a nossa atividade salesiana exprime-se com uma palavra que se tor­na para nós um apelo: ‘espiritualidade!’”.[12] E no discurso de encerra­mento do Capítulo, apresenta as tensões de alguns polos da nossa vida,[13] para depois afirmar que a força de unificação brota sempre de uma in­tensa espiritualidade: “a síntese vital entre estes dois polos é possível através da força que vem do alto... que vincula inseparavelmente entre si a união com Deus e o estar com os jovens... A força própria da nossa espiritualidade salesiana [é] expressão dinâmica e cotidiana da graça da unidade”.[14]

 

— Finalmente, a Radiografia dos Capítulos inspetoriais e o Docu­mento de trabalho pré-capitular detém-se sobre os aspectos positivos de uma experiência vivida em várias Inspetorias, apontando propostas de pesquisa e de desenvolvimento exatamente para favorecer uma con­creta espiritualidade juvenil. Relacionam, neste sentido, muitos aspec­tos positivos, elementos de conteúdo, modalidades e meios para o cres­cimento, aspectos críticos e dificuldades, ligações com o compromisso vocacional, e apontam também quais são os núcleos fundamentais de uma espiritualidade juvenil salesiana. “A proposta de estudo sobre a EJS – lê-se – vem ao encontro de uma exigência percebida: quer-se aprofundar na atualidade aquela proposta de vida cristã que Dom Bos­co apresentava e na qual comprometia os seus garotos. Não se trata de um estudo histórico, mas de recolher a herança do espírito de Dom Bos­co, de revitalizar a sua típica experiência espiritual e educativa, de re­descobrir a força educativa do ideal de santidade que apontava aos seus jovens”.[15]

 

Com razão, portanto, todo o Documento capitular concentra as orien­tações e as propostas num itinerário de fé que tem como energia de ca­minhada a espiritualidade; em dois níveis: o da espiritualidade dos irmãos e o da espiritualidade dos jovens, de maneira distinta e articula­da, mas vital, complementaria e organicamente unidas.

Não esqueçamos que é o Espírito Santo – como escreve Paulo VI – quem “suscita a nova criação, a humanidade nova a que deve visar a evangelização, com aquela unidade na variedade que a evangeliza­ção tenciona provocar na comunidade cristã. Por meio d’Ele o Evange­lho penetra no coração do mundo, porque Ele guia no discernimento dos sinais dos tempos – sinais de Deus – que a evangelização desco­bre e valoriza na história”.[16]

 

Energia indispensável para o “itinerário” de fé

 

A espiritualidade de que fala o texto capitular está ligada ao conceito de “caminhada” ou “itinerário”. A caminhada, na Bíblia, costuma iniciar com uma peculiar energia de impulso; pensemos em Abraão e em Moisés.

Para nós, no itinerário indicado pelo CG23, a particular energia de impulso é exatamente a espiritualidade. Ela não aponta respostas espe­cíficas aos muitos desafios que nos interpelam: não é um cofre de fórmu­las. A crise atual, de fato, interpela-nos a responder não só diante de dificuldades clássicas e rotineiras; os desafios, que dela surgem, apare­cem muito mais como “indicadores de uma mudança de época que devemos aprender a avaliar à luz da fé”.[17] A espiritualidade ajuda a desco­brir, a enfrentar os problemas e alimenta a vontade de caminhar em di­reção à meta: é fonte de entusiasmo. Consiste numa modalidade típica de viver o Evangelho “no contexto”; portanto é essencialmente criati­va, sempre em diálogo com a vida concreta; é também audaz.

Uma espiritualidade, sobretudo a salesiana – por causa da sua sintonia com a realidade –, que deve não só ser proposta e reproposta, mas deve também ser continuamente encarnada e revitalizada para que possa crescer e agir sempre com atualidade. Logicamente, ela permanece fiel aos valores vitais das origens e da tradição viva, mas é chamada por sua natureza a ser fecunda e a descer nos meandros da realidade para ser dom de vida, resposta clara e também contestação evan­gélica.

Traz consigo uma intrínseca força transformadora porque é expres­são de uma fé vivida como energia da história. Uma fé (que é também esperança e caridade) não simplesmente ligada a uma doutrina que ilu­mina a inteligência, mas atitude pessoal, como progressiva experiência de Deus que se torna força de síntese vital em cada pessoa, na sua liber­dade, nas suas convicções e, portanto, na sua conduta. Esta atitude caracteriza-se hoje numa forte dimensão social, como nos lembrou repetidamente o Santo Padre e como proclama explicitamente a Exortação apostólica Christifideles laici: sejam os jovens “protagonistas de evan­gelização e artífices da renovação social”.[18]

Dizia-vos no Comentário à Estréia-90 que a fé não existe sozinha; quem existe e age é o “fiel”: portanto a espiritualidade é a atitude pró­pria dos fiéis comprometidos! Saber cultivar nas comunidades uma ver­dadeira novidade espiritual e despertar nas nossas presenças uma gra­dual espiritualidade juvenil significa vivificar a fé para lançá-la como uma flecha na família, no bairro, na sociedade, para orientar o futuro, para que seja mais em consonância com o plano do Criador.

Estamos presenciando hoje ao declínio das várias ideologias; é um fato impressionante que convida a refletir. Certas ideologias preten­diam preencher entre os jovens o espaço e a tarefa da fé. E parecia mes­mo que a formação na fé muitas vezes não soubesse suscitar fiéis capa­zes de evangelizar os sinais dos tempos: confessa-o o próprio Concílio Vaticano II.[19] Eis a questão. A ascensão e o futuro das ideologias, ontem, fa­zem pensar numa época de fragilidade na formação na fé, numa insuficiên­cia pedagógica e pastoral na apresentação da Páscoa do Senhor como ponto central da história.

A fé que nos propomos fazer crescer entre os jovens – diz o texto capitular – “não é separada ou posta ao lado do que é humano, históri­co, temporal, secular, mas, germinando no interior de tudo isso, dá-lhe significado, ilumina-o e também o transcende, alargando nossos hori­zontes para além da história”.[20]

Não é um espiritualismo de fuga, mas uma espiritualidade de fron­teira, de busca, de iniciativa, de coragem, numa palavra, de realismo. O que não diminui as dificuldades; em lugar de disfarçar, toma consciên­cia delas, analisa-as e as enfrenta.

É suficiente pensar na importância dada pelo texto capitular à pri­meira área do itinerário (“rumo à maturidade humana”), considerada não como um setor separado, mas como uma dimensão presente a ca­da passo da caminhada, toda voltada (também com a contribuição das ciências da educação) na busca de sentido, na percepção da vida como dom e tarefa, no diagnóstico do vazio dos ídolos que surgem. A espiritualidade dos educadores proclama de fato que “a fé exige a vida, e a vida, reconhecida no seu valor, sente – de certa maneira – a necessi­dade da fé. Em virtude da graça, não há ruptura, mas continuidade en­tre criação e redenção”.[21]

 

A realidade traz consigo sinais de desânimo

 

A hora histórica em que vivemos é complexa e cheia de perspecti­vas para o futuro, no bem e no mal. O processo de secularização traz consigo valores e não valores. Infelizmente, a evolução da convivência humana volta-se muitas vezes para o negativo. A perda mais próxima e perigosa é a de não precisar da fé.

Isso foi concretamente constatado na preparação e na realização do CG23. É suficiente lembrar o trabalho feito nas Inspetorias e na Assembleia capitular para individualizar as dificuldades que encon­tramos hoje em nosso trabalho educativo. A Bíblia sugere-nos que a cons­ciência de vivermos em situação de crise é condição inicial para prepa­rar os elementos a partir dos quais tem início o itinerário de superação: lem­bremos o Êxodo ou a Parábola do filho pródigo.

Por isso, o Capítulo procurou antes de tudo considerar, com visão pastoral, os vários contextos: do consumismo à pobreza, dos povos de recente emancipação política ao atual êxodo dos regimes totalitários, das grandes nações às minorias étnicas, de um contexto católico às vá­rias denominações cristãs, do ateísmo às grandes religiões. Nestes con­textos, as instituições educativas (família, escola, associação, meios de comunicação, o ambiente de trabalho) encontram-se numa delicada si­tuação de busca da própria identidade. Os jovens estão insa­tisfeitos, em busca de valores, com o desejo de novas realidades. Se os observarmos em suas atitudes diante da fé, muitos consideram-se afas­tados e até estranhos, não poucos são indiferentes, outros também, se abertos ao discurso religioso, têm escolhas heterogêneas; existem por sorte também jovens cristãos praticantes, mas às vezes sem grandes ideais; finalmente temos os comprometidos que encontram na fé uma concreta orientação de vida e se tornam fermento no meio dos ou­tros (“jovens para os jovens”!).

Desta panorâmica capitular e dos interessantes debates em assem­bleia foram apontados alguns desafios mais urgentes, de âmbito univer­sal. “São desafios que se apresentam de um lado como provocações à nossa vocação de educadores da fé; e de outro, como oportunidades re­ais carregadas de potencialidade. São ocasiões novas que solicitam a criatividade e a coragem”.[22] Foram indicados cinco:

 

  • O desafio do distanciamento-estraneidade do mundo da fé.
  • O desafio da pobreza que tira o vigor e deprime o ambiente tirando a sua humanidade.
  • O desafio da irrelevância da fé na vida e na cultura: é uma mentali­dade imperceptivelmente deletéria que pede uma profunda ressignificação dos valores e um suficiente nível cultural na apresentação dos elementos salvíficos.
  • O desafio do encontro com as outras religiões; é um desafio muito comum na Ásia e na África, mas que se torna atual em todos os luga­res através das migrações intercontinentais. Cada uma das religiões, também com os valores positivos que comporta, apresenta especiais difi­culdades de evangelização por causa da sua forte inserção cultural.
  • Finalmente, o desafio da vida: ela é “síntese e matriz de todos os ou­tros, atravessa todos”.[23] A intensidade e a ressonância dos seus an­seios, desejos, buscas, sensibilidades, ideais, ilusões, amarguras en­volvem, de um modo ou de outro, toda a vida e abrem facilmente a alma juvenil à insegurança, ao relativismo, à inconstância, à dúvida es­téril.

 

O conjunto destes questionamentos e de tantos problemas pode alimentar, um sentimento de impotência que faz duvidar do alcance da meta proposta.

A estes desafios devemos acrescentar as dificuldades internas que encontramos na avaliação objetiva das nossas atuais forças na Congre­gação (como vários capitulares observaram); também pode apare­cer no horizonte, então, uma espécie de tentação de desânimo. Quando se ouve falar de envelhecimento em várias Inspetorias, de diminuição das voca­ções, de lentidão na renovação, de pouca qualidade pastoral, de falta de inteligência em discernir os sinais dos tempos, de superficialidade espiritual ou de genericismo etc., surge uma terrível dúvida: não seria tudo isso (com desafios e problemas) um peso tão insustentável a pon­to de impedir a decolagem do voo?

E se pensarmos, ainda, na provocação global que abala a Igreja em seus alicer­ces por causa das graves ambivalências inerentes à cultura atual: ciência e fé, natureza e graça, cultura e Evangelho, técnica e ética, teo­logia e magistério etc., aumenta então a neblina no percurso.

Deus, porém, nos chama e convida à nova evangelização. E nós nos encaminhamos com a humildade de reconhecer que a nossa tare­fa não é ilimitada e que hoje, mais do que ontem, ela deve contar, não tanto sobre a quantidade, mas sobre a qualidade das pessoas e das comu­nidades.

Devemos saber ver os desafios, os problemas e as difi­culdades não para desanimar, mas para calcular objetivamente onde empenhar a nossa coragem.

Ao mesmo tempo, procuremos não esquecer os frutos já alcançados; lembremos o Projeto-África, os Capítulos Gerais de renovação, os projetos educa­tivos e pastorais, os esforços de formação permanente, o florescimento de iniciativas de estilo oratoriano, o voluntariado, os grupos de anima­dores, o despertar dos Cooperadores e dos Ex-alunos, a colaboração na Família Salesiana etc.; pensemos na torrente de graças que foi o ano de 1988, olhemos para Dom Bosco e as nossas origens; pensemos naque­les jovens que conosco alcançaram a santidade, naqueles que trabalham nos grupos e que estão já formando um movimento de espiritualidade juvenil.

A história ensina-nos que não há um início de Evangelização sem inúmeros problemas e dificuldades. Os Apóstolos lançaram-se na evangelização do mundo como perdedores, muito mais do que nós; os Santos, os Fundadores, os grandes missionários não recuaram diante das dificuldades, mas olharam de frente as necessidades, convencidos da indispensabilidade dos mistérios de Cristo e confiantes na intervenção do poder do seu Espírito.

A nova evangelização envolve-nos numa hora em que se realiza uma passagem de época que lembra aquelas mais determinantes na história do homem; somos chamados a saber viver nesta hora impregna­da de esperança. Seria ingênuo refugiar-se na nostalgia de situações já irreversíveis. O Senhor consagrou-nos para o futuro dos jovens; enviou-nos para uma tarefa fascinante e Ele mesmo nos acompanha constante­mente no seu desenvolvimento; quer que sejamos protagonistas de uma re­novada hora cristã que seja fermento histórico para o início do terceiro milênio.

Portanto, não indiferença, mas esperança!

 

Nós estamos enraizados no poder do Espírito Santo

 

Sem uma corajosa interioridade não é possível caminhar; só tere­mos sucesso nesse empreendimento se tivermos “espiritualidade”.

A análise dos desafios faz-nos perceber que é urgente comunicar progressivamente a cada jovem um atualizado e original projeto de vi­da cristã de acordo com o qual ele “aprende a expressar um modo no­vo de ser crente no mundo, e organiza a vida em torno de algumas per­cepções de fé, opções de valores e atitudes evangélicas: vive uma espi­ritualidade”.[24]

Nas primeiras duas partes do texto capitular acentua-se diretamente a espiritualidade que é preciso inculcar entre os jovens; mas o discur­so todo é animado pela espiritualidade educativa dos irmãos. Na tercei­ra parte, finalmente, focaliza-se especificamente a indispensabilidade dessa espiritualidade na comunidade salesiana.

De fato, na caminhada da evangelização a comunidade salesiana ‘sente-se novamente chamada por Deus; repensa a missão recebida, está convencida de que Deus age na história, sabe que a ex­periência de Dom Bosco é profética e sempre válida,[25] e redescobre que a nossa tradição fala exatamente do Sistema Preventivo como de um projeto de espiritualidade.[26] Percebe que deve caminhar “da fé à fé”, da sua espiritualidade comunitária à dos jovens.

A resposta aos desafios começa nos irmãos profundamente anima­dos por uma mística apostólica, voltada a suscitar uma gradual espiritualidade juvenil. Diante da gravidade dos desafios devemos assu­mir a urgência de ser “homens espirituais” no sentido proclamado pelo apóstolo Paulo. Não desconfiança, mas esperança, dizíamos.

Inicialmente pode parecer que sejamos incapazes de alcançar a meta, mas, na realidade, “nós o podemos porque não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Com efeito, os que vivem segundo a carne desejam as coisas da carne, e os que vivem segundo o Espírito, as coisas que são do Espírito”.[27] Seria interessante reler pessoalmente todo o capítulo 8 da carta de S. Paulo aos Romanos.

A espiritualidade de que nos fala o CG23 é uma experiência viva da presença do Espírito Santo, que se tornou mais intensa após o pente­costes do Concílio Vaticano II. Trata-se da descoberta pessoal e comuni­tária de um Deus presente na história e na vida. Com razão um famoso convertido intitulou um seu livro: Deus existe, eu o encontrei.[28] Cada um de nós deveria poder dizer o mesmo. Num ambiente secularizado onde se fala muito do “eclipse de Deus”, está crescendo a cons­ciência da necessidade de experimentar a sua presença e de proclamá-la na convivência social. Um dos grandes teólogos do nosso tempo, Karl Rahner, acredita que a pessoa “piedosa” do futuro será um “homem es­piritual”, isto é, alguém que fez experiência pessoal de Deus, ou deixa­rá de ser “piedoso”.

Hoje, o Povo de Deus percebe cada vez mais a urgência das espiritualidades que – como afirmou um estudioso – ajudam o homem a to­mar consciência das suas responsabilidades, dão sentido à vida cotidiana, à dimensão social, aos problemas do trabalho, ao mundo técni­co e, de maneira geral, à história.

Nós estamos convencidos de que a nossa espiritualidade nos coloca nesta perspectiva; aliás, consideramos esta perspectiva como uma das maiores características que denotam a sua originalidade e a sua atualidade.

O elemento que fundamenta de toda verdadeira espiritualidade de fu­turo é, primeiramente a redescoberta do Espírito Santo e o enraizamento da própria vida em sua força de amor unificante. Também o Papa, no seu discurso aos capitulares, afirmou que “espiritualidade significa participação viva no poder do Espírito Santo... Dele procede a força de síntese pessoal entre fé e vida”.[29]

A revelação oferece-nos uma ideia dinâmica do Espírito Santo que penetra pessoalmente na história e que age constantemente durante todo o tempo da Igreja. Para compreender sua missão e sua eficácia, diz S. Gregório Nazianzeno, é preciso saber pensar “à maneira dos pes­cadores (os Apóstolos), não à maneira de Aristóteles” (sem por isso des­prezar os grandes valores científicos). Justamente um estudioso do cristianismo observou: “Quando falamos de ‘espírito’, quando afirmamos que Deus é ‘espírito’, o que queremos dizer? Falamos grego ou hebrai­co? Se falamos grego, dizemos que Deus é imaterial etc.; se falamos he­braico, dizemos que Deus é um furacão, uma tempestade, um poder irresistível. Por isso, tantas ambiguidades quando se fala de espiritualida­de. A espiritualidade consiste em tornar-se imateriais ou em ser anima­dos pelo Espírito Santo”.[30]

A verdadeira espiritualidade traz consigo entusiasmo e coragem, porque está consciente desta constante animação do Espírito.

Sabemos que Ele costuma manifestar o seu poder não “no vento fortíssimo” ou no “terremoto” ou “no fogo”, mas paradoxalmente “numa brisa suave”, como experimentou o profeta Elias;[31]o seu poder, porém, permane­ce sempre um poder irresistível. O Espírito Santo apresenta-se em lugar do “poder absoluto” como “Amor infinito”; toca eficazmente o coração; reforça “o homem interior”; está presente mesmo quando oculto. O “homem espiritual” é sua obra-prima, fruto da energia do seu dom de caridade.

Esta presença suave é, pois, eficaz com o poder do Amor. E o poder do Amor é força de unidade: uma unidade que não suprime a distinção, mas exclui a separação; é como um reflexo do mistério de Deus. A unidade que existe na Trindade não precede as Pessoas, mas é depen­dente da sua distinção: procede do supremo êxtase de amor do recíproco dom total de cada uma das Pessoas; é uma unidade dinâmica, fruto da doação mútua dos Três; ela tem, no Espírito Santo, a explosão unitiva de toda a força do amor divino. Certamente, a Trindade é “mistério”, mas se Deus não fosse trino não seria “o Amor”; e nós não saberíamos nada do seu Espírito e não poderíamos compreender jamais a “graça da unidade” que infunde no nosso coração com a caridade pastoral!

De fato, o Espírito Santo é também a máxima abertura de Deus fo­ra de si, na história do homem, com o “mistério da união” em Cristo, com a “força da comunhão” na Igreja, com a “graça de unidade” na pessoa, com a “energia de unificação” no devir humano e na criação, pois o seu poder de amor faz progredir o universo em direção à recapitulação de todas as coisas em Cristo.

A espiritualidade tem sua base de lançamento em estar em sinto­nia com o Espírito para deixar-se guiar pela sua força. Com Ele, torna-se possível uma síntese real entre fé e vida: a unidade na distinção e a distinção na unidade, ou seja, a organicidade, a coordenação, a comple­mentação, a sublimação. Ela assegura a identidade cristã como expres­são de uma personalidade unificada, dotada de criatividade social e apostólica também como compromisso no mundo.

Muito se pode falar sobre a espiritualidade, mas o primeiro passo a ser cuidado é exatamente a radicalização no Espírito. Ela ultrapas­sa as modas e as utopias; sejam os conservadores, sejam os progressistas não costumam discernir a autêntica presença do Espírito Santo: os pri­meiros, porque mais de uma vez Ele não se expressa nas modalidades a eles mais familiares; os outros, porque perdem o ritmo quando os acontecimentos não andam de acordo com suas previsões.

Felizmente, esta radicalização espiritual já há algum tempo é objeto das nossas preocupações na Congregação. Todo o processo da nova renovação pós-conciliar foi nessa direção; seria suficiente reler aquilo que refletimos muitas vezes sobre a nossa “interioridade apostó­lica” (comentando o art. 3 das Constituições).

O que se percebe como urgente é a tarefa de intensificar o cli­ma espiritual em cada comunidade, em cada irmão: testemunhar juntos a presença do Espírito Santo através de uma caridade pastoral que se­ja vivida cotidianamente no “da mihi animas” e através dela possamos repetir com o salmista: “com Deus faremos proezas e Ele aniquilará quem nos oprime”[32] e assim afastar todo desânimo e toda atitude de derrota.

 

Ne grande rio da espiritualidade “salesiana”

 

Nós qualificamos o nosso tipo de espiritualidade como espiritualida­de “salesiana”.

A palavra relaciona-se com S. Francisco de Sales, uma das maiores figuras da espiritualidade cristã. Na origem do uso deste adjetivo encon­tramos Dom Bosco. Quando ele envolveu o primeiro grupo de jovens pa­ra que ficassem com ele para se exercitarem na caridade pastoral pró­pria da sua missão educativa, escolheu para eles o nome de “salesia­nos”.[33] Quis também que a instituição por ele fundada se chamasse ofi­cialmente “Sociedade de S. Francisco de Sales”. Queria que os seus olhas­sem para S. Francisco de Sales como “pastor zeloso e doutor da carida­de” – como afirmam as Constituições –,[34] que também especificam que dessa forma ele entendia inspirar-se “na bondade e no zelo” dele,[35] privilegian­do as atitudes de amabilidade, alegria, diálogo, convivência, amizade e paciente constância, seguindo aquele rico “humanismo”[36] que caracterizou a vida e a ação do incansável bispo de Genebra.

Pode ser interessante para nós saber que esta atração de Dom Bos­co por S. Francisco de Sales vem desde os anos de sua formação e de seu aperfeiçoamento pastoral: “a caridade e a doçura de S. Francisco de Sales – lê-se no quarto propósito da sua primeira missa – guiem-me em tudo”.[37] Esta atração nunca esmoreceu durante a sua vida, como demonstra o que fez e mandou fazer em honra do querido Padroeiro.[38] Assumindo e também aplicando à espiritualidade dos jovens o qualificativo de “salesiana”, o texto capitular não pretende propô-lo como “o distintivo particular de um grupo, mas indica a fonte carismática”[39] que, através de Dom Bosco, liga-se à vasta corrente espiritual de S. Francisco de Sales, toda voltada para o seguimento de Cristo na atração do seu amável coração de Salvador.

Não se trata, portanto, de uma qualificação concorrencial, com certo sabor de amor próprio, quase se tratasse do nome de um time de futebol em competição com outros, mas sim de um título de identificação evangélica, no contexto de uma opção espiritual experimentada e vasta na Igreja, e particularmente atual pela sua sintonia com as orientações conciliares; é suficiente pensar que a recente Exortação apostóli­ca Christifideles laici termina o seu capítulo 4º sobre os múltiplos ope­rários leigos da vinha do Senhor exatamente com a citação de uma boni­ta página de um livro particularmente significativo de espiritualidade de S. Francisco de Sales.[40]

Considero importante, também para nós, sublinhar este aspecto amplo e eclesial do nome “salesiano”, para devolver um lugar mais pró­prio e influente a S. Francisco de Sales em nossa espiritualidade; ele, de fato, é o doutor daquela caridade pastoral “centro e sínte­se” do nosso espírito apostólico.[41]

Em uma circular de 1921 o P. Paulo Albera, segundo sucessor de Dom Bosco, exortava os irmãos a celebrarem dignamente o terceiro centenário da morte de S. Francisco de Sales (28 de dezembro do ano seguinte, 1922): “nós, que dele devemos não só ter o nome, mas também o espírito – escrevia – temos o dever de nos antecipar a todos os outros em celebrá-lo dignamente”. Afirmava que tinha sido uma deliberação providencial (“bem e sabiamente coordenada na realização dos planos de Deus”) a escolha para nós do nome “Salesianos”; e acrescentava que “faz apare­cer a missão de Dom Bosco em nossos dias como um reflexo, ou melhor, uma continuação daquela iniciada mais de três séculos atrás pelo Salésio. Por isso... o terceiro centenário da morte do nosso Padroeiro deve primeiramente levar-nos a um estudo mais íntimo e profundo da sua vi­da e dos seus escritos em relação com a nossa Obra, que agora se tornou a ‘Obra salesiana’ por antonomásia; por isso mesmo destinada a di­fundir e divulgar, com todos os meios de que dispõe, o seu espírito e a sua doutrina, já perfeitamente assimilados por Dom Bosco e por ele ge­nialmente introduzidos no seu sistema educativo”.[42]

  1. Francisco de Sales, juntamente com outros grandes (Sta. Teresa, S. João da Cruz, Sto. Inácio de Loyola etc.), é um dos iniciadores de um movimento espiritual de forte renovação.

Tornou amável a prática do Evangelho no mundo, valorizando to­das as condições e os estados de vida; harmonizou a interioridade com a atividade exterior; valorizou o cotidiano; lutou contra o rigorismo que depois caracterizará o jansenismo; insistiu sobre a necessidade de uma espiritualidade concreta para todos. Ele chamou esta renovação espiritual de “devoção”, uma palavra que a muitos hoje não agrada porque pode significar uma simples adesão a práticas religiosas sem profundi­dade de vida; para ele, porém, era a nova espiritualidade, ou seja, um nível de caridade que “nos impulsiona a trabalhar com amor, muitas ve­zes, e com prontidão”; “é uma espécie de agilidade e vivacidade espiritual”; “para ser ‘devoto’ – escreve –, além da caridade, é pre­ciso ter grande vivacidade e prontidão para realizar as ações”; ela “tor­na a caridade pronta, ativa e diligente”.[43] E também afirma que “a vida ‘de­vota’ é doce, fácil e agradável”, “é a perfeição da caridade”.[44] A “devo­ção” adapta-se a todas as vocações e profissões, “não arruína propria­mente nada, aliás, aperfeiçoa tudo”; “pretender eliminar a ‘vida devo­ta’ dos quartéis, das oficinas, dos palácios, dos lares, é um erro, aliás, uma heresia”.[45]

O seu livro Introdução à vida devota (“Filotéia”) lançou uma ver­dadeira mensagem de espiritualidade para todos, recuperando a impor­tância do laicato e do trabalho humano. Trata-se, com efeito, de um livro que te­ve sorte: mais de 1.300 edições! Um tesouro que mesmo a mentalidade atual não considera estranho. “Se existe no mundo – escreve um re­cente biógrafo do Santo – um livro revolucionário, ei-lo: a introdução de toda a vida humana à ‘devoção’, à presença de Deus em tudo o que queremos, pensamos, fazemos, amamos, esperamos e produzimos”.[46]

Dom Bosco, que escolheu S. Francisco de Sales como Padroeiro e quis seu lema “da mihi animas” como síntese da própria espiritualida­de, demonstra – como há pouco lembrei – profunda afinidade e uma verdadeira congenialidade com esta visão, a ponto de aplicar criativamente as suas perspectivas à juventude no seu Sistema Preventivo e no en­volvimento de tantas forças naquela que hoje chamamos Família “salesiana”.[47]Mas S. Francisco de Sales, coração missionário, além de perceber a extrema necessidade de lançar uma renovação espiritual para todos, compreendeu que isso exigia uma iluminação doutrinal do amor de cari­dade, ao menos para os mais comprometidos. Por isso, dedicou-se a escrever o seu Tratado do amor de Deus, pensado e escrito em meio aos seus múltiplos trabalhos pastorais; um livro nascido da reflexão so­bre a práxis apostólica e voltado para a ação evangelizadora. Um livro de vida, quase a sua autobiografia: o esforço de progredir constantemente num projeto de crescimento espiritual, não com um esquema monástico, mas com uma caminhada apostólica. Diríamos hoje, um li­vro comprometido, como fosse um “vade-mécum” do discípulo que quer viver no mundo como cristão. A espiritualidade deve permear e identificar-se com a própria vida, a vida cotidiana, a vida com os seus aconteci­mentos imprevisíveis, com os sofrimentos e as alegrias, com as amiza­des e as separações, com as dificuldades e as consolações. Nesta ótica aprofunda, em particular, o valor espiritual do “êxtase da ação”, des­pertando em todo cristão a vontade de ser verdadeiro discípulo de Cris­to entre as responsabilidades e preocupações da vida: simbiose viva en­tre práxis e fé.

É famosa a sua intuição sintética: “o homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor é a perfeição do espírito e a caridade é a perfeição do amor”.[48]

E uma espiritualidade apostólica pela qual Dom Bosco se sentiu atraído. Por isso, compreende-se porque o nosso Fundador, já no final de sua vida, tenha encarregado o P. Júlio Barberis, mestre dos noviços, a tornar mais conhecido S. Francisco de Sales escrevendo a vida “adapta­da aos seus jovens, em que fosse quase encarnada a vida cristã”.[49]

Por sua vez, o P. Filipe Rinaldi, quando Reitor-Mor, pediu ao P. Ceria para que se dedicasse em aprofundar e divulgar melhor na Congrega­ção as obras de S. Francisco de Sales e a sua doutrina.

João Paulo II afirmou que Dom Bosco é um “gênio do coração”; pois bem, em S. Francisco de Sales o coração encontra não só um dos mais simpáticos intérpretes das riquezas humanas aperfeiçoadas pela carida­de, mas também o profundo pensador contemplativo de suas batidas até as máximas alturas do êxtase do dom de si na atividade apostólica.

Muitos, na Igreja, sentem-se atraídos por este tipo de espiritualida­de do bispo de Genebra. O Papa João XXIII, por exemplo, chamava-o “o meu S. Francisco de Sales”; e no longínquo 1903, em 29 de janeiro, escrevia sobre ele em seu “Diário da Alma”: “Que linda figura de homem, de sacerdo­te, de bispo! Se eu tivesse que ser como ele, não me importaria também se me elegessem papa’’.[50]

Portanto, quando falamos de espiritualidade “salesiana” percebe­mos que estamos caminhando com Dom Bosco, numa corrente es­piritual bem ampla, na qual S. Francisco de Sales imprimiu, de manei­ra dinâmica e encarnada, o sigilo supremo do amor peculiar da carida­de apostólica.

Um nome, portanto, que visa relançar entre os jovens o gosto de Deus, a festa da vida, o compromisso pela história, a responsabilidade ecológica e uma generosa corresponsabilidade eclesial.

 

No seguimento de Dom Bosco

 

Nós somos chamados “Salesianos de Dom Bosco”.

A nossa espiritualidade “salesiana” foi-nos deixada em herança pelo Fundador; está em relação, afirma o texto capitular, com a ‘experi­ência espiritual vivida no seguimento de Dom Bosco”;[51] está em sintonia com o humanismo devoto de S. Francisco de Sales “retraduzido por Dom Bosco na experiência do Oratório”.[52]

Devemo-nos perguntar em que consiste essa “nova tradução”. A res­posta levar-nos-ia longe; mas o caminho substancial a ser seguido parece-me felizmente traçado nas palavras do P. Filipe Rinaldi: “S. Francis­co de Sales é mestre de uma doutrina espiritual que vive e palpita nas suas obras (escritos) imortais; Dom Bosco, no entanto, imprimiu a espi­ritualidade desse Santo não no papel, mas na sociedade por ele criada... A doutrina já existia; Deus chamava Dom Bosco a realizá-la e a vitalizá-la na Família por ele fundada para a salvação da juventude”.[53]

A nossa espiritualidade salesiana, portanto, é profundamente enri­quecida e orientada pela doutrina de S. Francisco de Sales, mas possui características próprias com uma forte dimensão pedagógica, juvenil e popular, indicada pelo próprio Dom Bosco; elas especificam de ma­neira original os traços de seu rosto.

A herança de um Fundador não é estática, mas é “transmitida aos seus discípulos para ser por eles vivida, conservada, aprofundada e constantemente desenvolvida em sintonia com o Corpo de Cristo em perene crescimento”.[54]

Lembrou-nos isso explicitamente o Papa, falando da práxis educati­va do nosso Pai: “a sua mensagem pedagógica requer ser ainda aprofun­dada, adaptada, renovada com inteligência e coragem, exatamente por causa dos renovados contextos socioculturais, eclesiais e pasto­rais”.[55]

A nossa espiritualidade e a espiritualidade dos jovens são, em cer­to sentido, distintas, mas estrita e mutuamente unidas ao ponto que não podem ser separadas. Lembremos, por exemplo, que os Salesianos rezavam junto com os jovens e que o “Jovem Instruído” era praticamen­te o livro comum de oração.[56] Com razão falou-se que o comentário de Alberto Caviglia à “Vida de Domingos Savio” – escrita por Dom Bos­co – enquanto aprofunda a espiritualidade juvenil, é um válido estu­do da mesma espiritualidade do nosso Fundador.

As Constituições, por outro lado, asseguram-nos que a espirituali­dade com que vivemos e testemunhamos o nosso projeto de vida salesia­na “é o dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens”.[57]

Qual é, pois, o tipo de espiritualidade que nos distingue?

Sabemos que o enraizamento no Espírito Santo é único, mas multifor­me. Ele dá vida a uma admirável multiplicidade de atitudes espirituais com fecundidade inesgotável e criatividade contínua.

Sem entrar nos delicados e complexos problemas, interessa-nos ver algumas características da espiritualidade própria de Dom Bosco, para termos como que uma fotografia da nossa fisionomia espiritual, porque nela devemos concentrar os nossos esforços de renovação. O próprio Espírito ajudou-nos a tirar esta fotografia nos Capítulos Gerais do pós-Concílio, assim que pudemos apresentar à Igreja a nossa “carteira de identidade” com o texto renovado das Constituições.

O documento do CG23 oferece-nos a oportunidade de sublinhar, nesta pesquisa, uma interessante novidade de perspectiva: a de repen­sar os elementos específicos da nossa espiritualidade[58] a partir da óti­ca da espiritualidade juvenil experimentada nestes anos.[59]

A espiritualidade dos jovens é inicial; obedece à lei da gradualidade sujeita à progressão do tempo e aos altos e baixos da instabilida­de juvenil. Deve adaptar-se e ajudar os jovens a partir da situação e da realidade em que se encontram.

Dom Bosco, desde os primeiros anos de seu sacerdócio, intuiu a possibilidade de acompanhar os jovens rumo à plenitude da vida cristã, proporcionada à idade deles, com um tipo de espiritualidade juve­nil organizada ao redor de algumas ideias-força abertas à fé, próprias do seu tempo, mas também proféticas e aplicadas com ardor e geniali­dade pedagógica. O CG23 relê estas ideias e convida-nos a organizar a vida dos jovens ao redor delas e a insistir com eles na escolha de valores e ati­tudes evangélicas.[60]

O texto capitular chama-as “núcleos fundamentais” e, sem ser ex­clusivo, propõe os seguintes:

– uma base realista e prática centrada no “cotidiano” (Dom Bosco falava do “sentido religioso do dever” nos vários momentos do dia);

– uma atitude de esperança, permeada de “alegria”, relacionada com os valores do desenvolvimento juvenil (Dom Bosco escrevia no “Jo­vem Instruído”: “Eu quero ensinar-vos um método cristão que seja ao mesmo tempo alegre e jovial: sirvamos o Senhor em santa alegria”);

– uma amizade forte e pessoal com Cristo, conhecido e encontrado na oração, na Eucaristia e no Evangelho (Dom Bosco considerava a peda­gogia eucarística como ponto culminante da sua práxis educativa):

– um compromisso mais responsável e corajoso de pertença à Igreja, se­ja particular seja universal[61] (Dom Bosco infundia nos jovens um grande amor à Igreja, ao Papa e aos Bispos);

– um “empenho” concreto e operante de bem de acordo com as próprias responsabilidades sociais e as necessidades materiais e espirituais dos outros[62] (Dom Bosco cuidava concretamente do envolvimento dos jovens melhores na atividade apostólica);

– e, como clima familiar de crescimento, uma dimensão mariana que se entrega com simplicidade e confiança ao maternal Auxílio de Nossa Se­nhora[63] (Dom Bosco entendia a devoção a Maria como o apoio do crescimento da fé nos jovens).

Estas ideias ou núcleos fundamentais, unidos à consideração das quatro áreas do itinerário de fé apresentadas no texto (Homem, Cristo, Igreja, Reino[64]), convidam-nos a repensar o Sistema Preventivo como expressão viva e práxis pedagógica da nossa específica espiritualida­de, ou seja, “como um modo de viver e trabalhar para comunicar o Evan­gelho”.[65] Nesta perspectiva do itinerário de fé dos jovens podemos revi­sar os principais elementos característicos do nosso rosto espiritual de Salesianos de Dom Bosco.

Basta apenas indicá-los porque cada um deles já foi considerado e desenvolvido nestes anos de pós-Concílio; mesmo sendo desejável um estudo global a esse respeito, mais profundo e orgânico.

Lembrá-los, a partir da ótica da educação dos jovens na fé, pode­rá contribuir para tomar mais concreta a programação da formação per­manente, tão desejada pelo Capítulo.

Eis os principais:

 

– Antes de tudo, a interioridade apostólica:[66] é o nosso dinamismo espiritual fundamental; ela, com a graça de unidade própria da carida­de pastoral, insere-nos na espiritualidade da vida ativa, unindo em seu interior “consagração” e “missão” numa síntese de vida tipicamente apostólica: “um amor que se doa gratuitamente – afirmam as Consti­tuições –, nutrindo-se da caridade de Deus que se antecipa a toda cria­tura com a sua Providência, segue-a com a sua presença e salva-a com a doação da própria vida”.[67] Esta peculiar e fundamental “interiorida­de apostólica” comporta para nós que “a renovação espiritual e pasto­ral são dois aspectos que se compenetram e são interdependentes”.[68]

Há, para nós, entre estes dois aspectos, imanência recíproca e uma verdadeira reciprocidade: possuem, porém, sua fonte original na vida pessoal de união com Deus.

Depois, o testemunho da centralidade de Cristo Bom Pastor:[69] Ele é o centro vivo e existencial da nossa vida consagrada (prática dos con­selhos evangélicos). Todos os consagrados estão alicerçados sobre Cristo, mas o nosso específico testemunho caracteriza-se pelo aspecto pedagógico-pastoral com o qual olhamos para Cristo como “Bom Pastor”, que criou o homem e ama suas qualidades, que o resgatou e perdoa os seus pecados, e que o transforma em nova criatura através do seu Espírito. Esta centralidade de Cristo-Pastor deve brilhar como sol nos nossos am­bientes através de um renovado impulso eucarístico e com tantas inicia­tivas, que expressem um modo cotidiano de viver e de educar que “im­pregna o nosso relacionamento com Deus, as relações pessoais e a vi­da de comunidade no exercício de uma caridade que sabe fazer-se amar”.[70] O aspecto de Cristo “Bom-Pastor” comporta certamente a gene­rosidade da dedicação aos jovens até à cruz, mas evidencia também “a atitude que conquista com a mansidão e o dom de si”,[71] com a bondade, a amabilidade e a amizade, desenvolvendo toda aquela ascese espiritual do “fazer-se amar”, própria do coração oratoriano.[72]

O texto capitular insiste sobre a eliminação das distâncias entre nós e os jovens: “tornar-nos próximos, aproximar-nos deles é, pois, pa­ra nós, o primeiro passo”,[73] saber valorizar “o patrimônio que cada jo­vem tem em si”,[74] oferecer-lhe “um ambiente cheio de vida e rico de pro­postas”.[75]

Este é o primeiro passo para caminharmos juntos pela estrada que se chama “presença”: um valor a ser recuperado! Não qualquer presen­ça, mas uma presença “pastoral” ou, se quiserdes, “ministerial” ou ainda “sacramental”, porque deve levar a Cristo; atenta, sim, aos sentimen­tos e às aspirações dos jovens, mas carregada, em si mesma, de claras mensagens evangélicas e de um claro amor de caridade.

 

— Além disso, o trabalho educativo como “missão”:[76] o nosso seguimento de Cristo está marcado “por um dom especial de Deus, a predileção pelos jovens... Pelo bem deles oferecemos generosamente tempo, dotes pessoais e saúde”.[77] A nossa missão na Igreja especifica-se na práxis educativa: “Dom Bosco nos ensinou a reconhecer a presença de Deus no nosso trabalho educativo, a experimentá-la como vida e amor”.[78]

Sabemos que a missão “dá a toda a nossa existência o seu tom con­creto, especifica a tarefa que temos na Igreja e determina o lugar que ocupamos entre as famílias religiosas”.[79]

Assim, para nossa espiritualidade o momento educativo torna-se “o lugar privilegiado do nosso encontro com Deus”.[80]

Sendo “educativa”, esta espiritualidade estará sempre atenta ao contexto do mundo e aos desafios da juventude: exigirá flexibilidade, criatividade e equilíbrio,[81] e buscará com seriedade as competências pedagógicas apropriadas: É a mesma consagração salesiana que, em seu “respiro pelas almas”, assume os valores pedagógicos e vive-os co­mo expressão concreta de espiritualidade.

No âmbito da missão, considero estimulador sublinhar também a influência exercida sobre a nossa espiritualidade, com instâncias con­cretas, pela presença entre os destinatários preferenciais deixados por Dom Bosco: os jovens pobres e necessitados das classes populares! A original ascese do “fazer-se amar” é uma resposta evangélica a tantas carências destes jovens; ela lembra-nos, ainda, que o contato com as pobrezas juvenis não suscitou em Dom Bosco nenhum elemento de reação ideológica, mas sim uma intensificação pedagógica da caridade pas­toral para despertar nele e nos seus o amor paterno e materno da mis­são educativa.

 

— Interesse pela realidade eclesial:[82] a presença de um autêntico sentido de Igreja seja na vida da comunidade, seja nas atividades educativo-pastorais. A vida e obra salesiana é uma concreta experiência de Igreja: consideramo-nos situados “no coração da Igreja”,[83] “sentimo-nos parte viva da Igreja e cultivamos em nós e nas nossas comunida­des uma renovada consciência eclesial. Expressamo-la na fidelidade ao sucessor de Pedro e ao seu magistério, e na vontade de viver em co­munhão e colaboração com os bispos, o clero, os religiosos e os leigos”.[84]

A terceira “área do itinerário de fé” proposta pelo texto capitular trata exatamente da práxis e das atitudes a serem privilegiadas “em direção de uma intensa pertença eclesial”; e o quarto “núcleo funda­mental” da espiritualidade juvenil insiste sobre a formação da comu­nhão eclesial, nas suas expressões concretas de estruturas locais e de instituição universal com um “amor explícito ao Papa e a adesão convic­ta ao seu magistério”.[85] Esse interesse pela comunhão eclesial vitaliza também todo o campo da atividade vocacional.

Uma espiritualidade, portanto, que nos faz sentir e nos torna objetivamente, também na opinião dos outros fiéis, um verdadeiro “dom” do Espírito à Igreja para intensificar a comunhão e a colaboração na sua mis­são: “as necessidades dos jovens e dos ambientes populares, a vontade de agir com a Igreja e em seu nome movem e orientam nossa ação pastoral para o advento de um mundo mais justo e mais fraterno em Cristo”.[86]

— Outro elemento específico é a alegria na operosidade:[87] trata-se de um aspecto inerente ao estilo oratoriano e à psicologia voltada pa­ra o futuro, própria do coração adolescente. Nascemos na “Colina das Bem-aventuranças juvenis” e espelhamos suas riquezas evangélicas pe­lo mundo. Vivemos uma espiritualidade de alegria, de família, partilha­da em clima de confiança mútua e perdão quotidiano,[88] toda permeada de esperança que “difunde alegria e sabe educar à felicidade da vida cristã e ao sentido da festa”,[89] porque praticamos uma pedagogia que “acredita nos recursos naturais e sobrenaturais do homem, embora não lhe ignore a fraqueza”.[90] Este clima de alegria e de otimismo não é ingenuidade ou superficialidade, mas fruto de verdadeira esperança teologal e de meditada sintonia pedagógica com tantos valores positivos colo­cados pelo Criador no coração dos jovens.

E porque fruto da esperança, é uma alegria vivida em intensa operosidade feita de “trabalho e temperança”, ou seja, de compro­misso também ascético que acompanha constantemente o desenrolar-se da missão.[91]

 

— Enfim, a dimensão mariana:[92] a nossa missão educativa é participação na maternidade eclesial de Maria. É uma dimensão que merece um comentário especial; será feito um pouco mais adiante.

Aqui só acrescentamos que a espiritualidade salesiana de Dom Bos­co, vista na dimensão do itinerário da fé para os jovens de hoje, torna-se para nós a alma da nova evangelização: “nova – como disse o Papa – no seu ardor, no seu método, nas suas expressões”, ou seja, anima­da de entusiasmo e apropriada aos tempos que comportam uma vasta e delicada mudança de mentalidade.[93] Disso teve clara consciência o CG23; afirma, de fato, que “é novo o contexto, novos também os objetivos gerais visados pela evangelização: trata-se de renovar o tecido hu­mano da sociedade, aceitando renovar, em primeiro lugar, o espírito evangélico nas comunidades eclesiais”.[94]

Temos, portanto, uma espiritualidade salesiana bem específica, com aspectos bem concretos sobre os quais concentrar a programação da formação permanente nas Inspetorias e nas Casas, propondo-nos também a perscrutar mais profundamente o coração de Dom Bosco.

 

Formamos comunidades evangelizadoras

 

Dizia-vos na “Apresentação” dos Atos do CG23 que o sujeito pri­meiro de todo o discurso capitular, a linha principal que une as várias partes do texto, é a nossa comunidade de consagrados: ela é o princi­pal destinatário do documento; a ela compete a responsabilidade e o compromisso da realização do itinerário de fé para os jovens: Cada co­munidade deverá, portanto, preocupar-se com a espiritualidade salesiana em seus dois níveis: o de fazer crescer gradualmente entre os jovens, e o de testemunhar na própria vida cotidiana.

São propostos a todos nós, para serem cuidados, três aspectos com­plementares: a comunidade como sinal de fé,[95] escola de fé,[96] centro de comunhão e participação.[97]

Os primeiros animadores da comunidade, o Inspetor e o Diretor, deverão saber dirigir a programação pós-conciliar para este objetivo: “a formação permanente, que habilita o salesiano em sua missão de educador e pastor, deve ser uma constante inderrogável da sua vida”.[98] Devemos ter consciência da urgência em suscitar no ambiente uma espiritualidade juvenil salesiana e, por conseguinte, colocar a comunidade em estado de fecundidade espiritual, levando-a “a examinar-se e renovar-se – como afirma o texto – à luz do Evangelho e da nossa Regra de vida”;[99] ou seja, progredir seriamente no processo de reno­vação já iniciado há vários anos. Será depois necessário que a comunida­de inspetorial e a local assumam seriamente sua tarefa, progra­mem, reestudem com constância o que foi estabelecido nas delibera­ções capitulares.

Vejamos os três aspectos indicados pelo texto.

 

— A comunidade como “sinal de fé” exige um sério repensamento da autenticidade do próprio testemunho evangélico. A condição funda­mental está nisso: trabalhar e viver juntos como um grupo de “fiéis” com estilo salesiano, que proclamam existencialmente o mistério de Cristo Bom Pastor vivendo a Regra de Dom Bosco. A própria comunidade torna-se “sinal de fé” quando seus membros manifestam com alegria e cons­tância na vida cotidiana os valores da espiritualidade salesiana, toda voltada para os jovens.

O texto insiste especialmente sobre o cuidado da “interioridade apostólica”.[100] Já consideramos, mais de uma vez, os elementos válidos que a compõem. Ultimamente, o P. Rinaldi foi-nos apresentado como o “intérprete autorizado da nossa interioridade apostólica”;[101] será conve­niente reler sua mensagem. Veremos que a espiritualidade salesiana tem como fonte e valor supremo a união com Deus; “o compromisso apostólico, dinâmico e criativo nasce constantemente do ardor da ca­ridade para com Deus: dele procede a famosa ‘graça da unidade’ da nos­sa caridade pastoral!”.

Recordemos os três elementos ali indicados: “o anseio pelas almas (o belo comentário al “da mihi animas”), o trabalho apostólico indefeso e a fidelidade cotidiana à oração”.[102] São elementos que deverão entrar nos conteúdos dos programas de formação permanente como resposta aos desafios, se quisermos ser “sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente aos mais pobres”.[103] Seremos assim homens e comunidades “espirituais”, capazes de suscitar e animar com atualidade uma concreta espiritualidade juvenil salesiana.

 

— A comunidade como “escola de fé” é aquela que “faz da missão sua razão de ser e de agir”.[104] Aqui entra em jogo a dimensão pedagógica da atividade comunitária. Para sermos válidos educadores é preciso incluir na interioridade evangélica um maior conhecimento e presença do mundo dos jovens; este é um aspecto que caracteriza cada uma das nossas atividades, que deve ser simultaneamente espiritual, pastoral e pedagógica.

“Trata-se de realizar uma verdadeira mudança de qualidade, um retorno aos jovens com renovada sensibilidade pastoral e uma maior e mais evidente competência educativa”.[105] Para individualizar e guiar com eficácia seus esforços neste sentido, a comunidade deverá elaborar, apli­car e atua lizar atentamente o seu “Projeto educativo-pastoral”, conside­rando o itinerário de fé proposto pelo CG23 e traduzindo-o em modalida­des concretas, adequadas ao tipo de juventude e ao contexto da obra.

Hoje, para ser “escola de fé”, é indispensável unir o “ser sinais” com o “ser amigos”, ter fogo no coração e sacrificar-se com uma entrega to­tal, exercitar-se simultaneamente na união com Deus e no cultivo da ex­periência direta com o mundo dos jovens, com a “escuta de suas exigên­cias e aspirações, aquisição de sua cultura e linguagem, e disponibilida­de para partilhar experiências e projetos concebidos não só para eles, mas também e sobretudo por eles”.[106] Não se trata de enfraquecer o “si­nal”, mas de torná-lo pedagogicamente significativo. Se não existir um significado pastoral e pedagógico no ambiente e na Igreja, a nossa pre­sença não poderá ser considerada “escola de fé”.

Mas é também indispensável, para ser verdadeiramente tal, que a comunidade seja experiência viva de Igreja, e, concretamente, da Igre­ja local (paróquia, diocese, conferência episcopal); portanto “deve inserir-se com clareza nos projetos e propostas de pastoral juvenil na Igre­ja local. Dela deve aprender a receber estímulos, mas também a comu­nicar experiências”.[107]

Por isso as deliberações capitulares lembram várias responsabilida­des, seja para a Comunidade inspetorial, seja para a local. Somen­te em uma comunidade de “escola de fé” poderá florescer uma educa­ção que seja “pedagogia de santidade”.

 

— A comunidade como “centro de comunhão e participação” refere-se tanto à mais ampla comunidade educativa, quanto aos vários Grupos da Família salesiana.

“A comunidade – afirma o texto – força de sua vida consagrada torna-se centro de comunhão e participação, capaz de reunir e esti­mular os que o Espírito chama para trabalhar pelos jovens”.[108]

Eis uma perspectiva lançada pelos Capítulos Gerais anteriores que tem urgente necessidade de ser realizada com uma vontade mais solidá­ria, com maior eficácia e dedicação. As deliberações capitulares são cla­ras e normativas. Não as praticar seria sinal de incapacidade, ou de desinteresse, ou de comodismo, ou seja, definitivamente, de falta de espi­ritualidade salesiana. Seria triste ver o fim de algumas de nossas presenças por falta de ardor no coração dos irmãos. O “homem espiritual” é possível em todas as idades e em todas as condições de vida; o “coração oratoriano” é condição salesiana desde a primeira profissão até o último respiro.

O ponto forte deste terceiro compromisso comunitário é, de acor­do com o texto capitular, envolver os leigos. A palavra “leigos” é ampla e não se aplica da mesma maneira a todos. Em nossa experiência, distinguimos diferentes grupos: o grupo dos “Cooperadores” (para viver em plenitude a vocação cristã), o dos “Ex-alunos” (mais ligado ao aspecto cultural-educativo), o dos “Colaboradores” (que inclui tam­bém pessoas dos grupos anteriores, mas que pode ser mais amplo), o dos “Membros da comunidade educativa” (entre os quais sobretudo os pais dos jovens nossos destinatários, além de todos aqueles que se dedicam conosco no nosso trabalho).

O envolvimento e a valorização dos leigos exigem dos irmãos a capacidade de estabelecer com eles relações de corresponsabilidade amadurecida, de acordo com a natureza dos grupos. Não é algo fácil; exige uma profunda mudança de mentalidade e uma adequada modalidade de trato e de relacionamento. Mas, sobretudo, exige saber tomar com eles “um caminho de formação. As experiências feitas até agora garan­tem, mesmo com algumas dificuldades, resultados satisfatórios”.[109]

Eis então um campo bem concreto de novidade, de compromisso para a espiritualidade salesiana, tão aberta e em consonância com to­das as condições laicais. Portanto entre as prioridades a serem programadas deve haver a da formação dos leigos!

O Capítulo lembra mais adiante também a importância da organiza­ção do trabalho, a urgência do compromisso vocacional, os apelos da comunicação social, e apresenta ainda algumas orientações de trabalho em situações particulares. São todas indicações bem concretas para que a comunidade se torne protagonista de uma nova evangelização entre os jovens. O grande segredo para movimentar tudo isso é sempre a es­piritualidade salesiana, testemunhada pela comunidade como “sinal de fé”, como “escola de fé” e como “centro de comunhão e participação”.

Queridos Inspetores, queridos diretores e irmãos todos, animemo-nos de boa vontade para realizar logo, algo a mais.

 

Sob a orientação da Auxiliadora, Estrela da nova Evangelização

 

Antes de concluir parece-me útil, e para nós é particularmente agradável, acrescentar ainda uma reflexão: sobre a dimensão mariana da nossa espiritualidade. Dela, como dizia, fala em várias partes o texto capitular.

A espiritualidade salesiana é fortemente mariana; como por outro lado o é toda a espiritualidade.

O Papa auspiciou que a Auxiliadora seja para a nossa Família “a Estrela da nova evangelização”.[110] Olharemos, pois, para essa Estrela e nos deixaremos conduzir por Ela como nossa “Mestra e Guia”.

Vimos que o elemento fundamental e vitalizador de toda espiritua­lidade é o enraizamento no Espírito Santo.

Portanto, Maria, depois de Jesus, é a expressão mais elevada daquilo que o Espírito Santo realiza na história da salvação: Ela é a obra-prima do Espírito Santo. Quanto mais olharmos para Maria, tanto mais podere­mos compreender e tanto melhor poderemos participar da presença vi­vificante do Espírito Santo.

A partir do Vaticano II procurou-se aprofundar cada vez mais a rela­ção “Espírito Santo-Maria”. O Papa Paulo VI na Marialis cultus subli­nhou a fecundidade desta ótica: “dessa investigação – afirma – aparecerá, em particular, a arcana relação entre o Espírito de Deus e a Virgem de Nazaré e a sua ação na Igreja”.[111]

E fácil observar que toda a vida de Maria é “marcada” pelo po­der do Espírito Santo a ponto de ser considerada seu “ícone”, ou como afirma a Lumen gentium (no texto latino) “Sacrário” do Espírito San­to,[112] ou seja, a parte central, secreta e reservada, do templo; a partir daí é portadora para todos do Espírito Santo. Indicam propriamente isso também os títulos que o Concílio lhe reconhece de “Advogada, Auxi­liadora, Protetora e Medianeira”[113] que proclamam n’Ela uma interessan­te e especial sintonia com a obra vivificante do “outro Paráclito”. Maria é obra-prima, imagem e portadora do Espírito Santo porque por Ele plenamente “plasmada e formada nova criatura”:[114]

  • na Conceição é “Imaculada”: o início da nova criação cheia de graça;
  • na Anunciação é “Virgem-Mãe”: a Arca da nova Aliança;
  • no Natal é a “Realização da Promessa”: a Mãe do Cristo-Messias;
  • na Visita a Isabel é “Sabedoria profética”: a Fiel que lê o livro da história;
  • no Calvário é “Mãe dos homens”: a nova Eva da humanidade redimida;
  • em Pentecostes é “Rainha dos Apóstolos”: a grande Orante em favor da Igreja;
  • na Assunção é “a Auxiliadora de todos”: a Intercessora escatológica de salvação.

 

Tanta grandeza e beleza é n’Ela obra do Espírito Santo; situada no cruzamento dos dois Testamentos, Ela é a “Filha de Sião”, o “Ícone do Mistério” e o Modelo da Igreja, totalmente vinculada ao Espírito a ponto de permanecer associada às Suas iniciativas de salvação, implorando para todos a Sua presença e acompanhando maternalmente os dons (pen­semos na História do nosso carisma); por isso brilha constantemente nos séculos como Estrela da evangelização.[115]

Nela encontramos o protótipo de toda espiritualidade; de fato – afirma o Concílio – Maria, “abraçando a vontade salvífica de Deus com coração pleno, não retida por nenhum pecado, consagrou-se totalmen­te como serva do Senhor à pessoa e à obra de seu Filho, servindo sob Ele e com Ele, por graça de Deus onipotente, ao mistério da redenção”.[116]

Podemos colher esta sua peculiar espiritualidade no canto profé­tico do “Magnificat”,[117] em que Maria se proclama cheia de alegria, aci­ma das suas fragilidades, consciente da misericordiosa força de Deus, que nos quer bem e olha para nós para realizar grandes coisas, dando assim continuamente prova de seu poder, porque derruba as dificuldades e responde aos desafios; Ele é sempre fiel ao seu Povo e, segundo a pro­messa, leva-o afinal até à vitória.

O Magnificat é na verdade o hino da espiritualidade cristã para to­da nova evangelização, expressão de entusiasmo porque olhar penetran­te de fé, propósito seguro de esperança, hino imortal de amor salvífico.

 

Augúrio final

 

Permiti-me, queridos irmãos, transcrever aqui, como conclusão, o que sugeri aos capitulares no encerramento do CG23: “A nossa Congre­gação entregou-se solenemente a Maria em 14 de janeiro de 1984, no iní­cio do CG22. Dizem-nos as Constituições que essa entrega nos ajuda a ‘nos tornarmos entre os jovens testemunhas do amor exaurível do seu Filho’.[118]

Confiemos a Ela o propósito de prosseguir no caminho da fé, inten­sificando o cultivo e o aprofundamento da espiritualidade salesiana. Pe­dimos a Ela que nos ajude a partilhar com os jovens aquele magnífico ‘patrimônio espiritual’ próprio da órbita do humanismo cristão de S. Fran­cisco de Sales e empregado magistralmente por Dom Bosco em favor da juventude pobre. Maria mesmo guiou o nosso Fundador nesta experiência educativa e ensinou-lhe a levar os jovens à santidade. Como res­posta materna à nossa entrega, esperamos da intercessão de Maria o dom da plenitude do Espírito Santo que nos garanta um coração verda­deiramente oratoriano para sermos no mundo eficientes educadores dos jovens na fé”.[119]

Alicerçados no poder do Espírito, superando toda diferença que possa nascer das dificuldades presentes ou das nossas limitações, viva­mos com alegria a espiritualidade salesiana visando a nova evangelização, proclamando com os fatos ao mundo as razões da nossa esperança.[120] A todos desejo um sincero empenho, pessoal e comunitário, na apli­cação do CG23: será a nossa melhor preparação para a chegada do ter­ceiro milênio.

Com afeto em Dom Bosco,

Egídio Viganò
Reitor-Mor

 

[1] ACG 331, outubro-dezembro de 1989.

[2] A vida interior de Dom Bosco, Estreia de 1981, comentário do Reitor-Mor.

[3] PC 2e.

[4] EN 75.

[5] ChL 29.

[6] Cf. CG23, Educar os jovens à fé: Documentos Capitulares, EDB São Paulo, 1990, 1-14.

[7] IP, 16.

[8] CG23 313.

[9] Ib. 334.

[10] Estreia 1990, comentário do Reitor-Mor

[11] CG23 326.

[12] A Sociedade de S. Francisco de Sales no sexênio 1984-1990: Relação do Reitor-Mor ao CG23, Roma, fevereiro de 1990, p. 272.

[13] CG23 348.

[14] CG23 349.

[15] Esquemas pré-capitulares 536; para a radiografia dos CI cf. 213-244.

[16] EN 75.

[17] CG23 91.

[18] ChL 46.

[19] Cf. GS 19.

[20] CG23 117.

[21] CG23 120.

[22] CG23 75.

[23] Ib. 87.

[24] CG23 158.

[25] Ib. 89-93.

[26] Ib. 158.

[27] Rm 8,4-5.

[28] ANDRÉ FROSSARD, Dieu existe, je l’ai rencontré - Fayard, Paris 1969.

[29] CG23 334.

[30] J. DANIÉLOU, citado in CONGAR, Credo nello Spirito Santo, I, p. 18, Queriniana 1981.

[31] 1Rs 19,11-14.

[32] Sl 107,14.

[33] Cf. MB V, 9.

[34] Const, 9.

[35] ib.4

[36] Const. 17.

[37] SAN GIOVANNI BOSCO, Scritti pedagogici e spiritual, AA.VV p. 315 – LAS Roma 1987.

[38] Cf. Índice analítico das MB.

[39] CG23 158.

[40] Cf. ChL 56.

[41] Cf. Const. 10.

[42] Lettere circolari di don Paolo Albera, p. 552-553 – Turim, Direção Geral, 1965.

[43] Oeuvres de Saint François de Sales. Edition complète, Monastère de la Visitation, Annecy, tome III (1893), Introduction à la Vie Dévote, Première Partie, ch. I, p. 13-16 passim.

[44] Ib. ch. II, p. 16-19 passim.

[45] Ib. ch. III, 19-20.

[46] GIORGIO PAPÀSOGLI, Come piace a Dio, p. 366 – Città nuova Ed., 1981.

[47] Cf. J. PICA e J. STRUS, San Francesco di Sales e i Salesiani di Don Bosco – LAS Roma 1986.

[48] Oeuvres…, o.c., tome V, Traité de L’Amour de Dieu, vo. II, Livre X, ch. I, p. 165.

[49] G. BARBERIS, Vita di S. Francesco di Sales: libre quattro proposti alla gioventù, I, 5 – Turim, Libreria salesiana, 1902.

[50] GIOVANNI XXIII, II Giornale dell’Anima, p. 201 — Ed. Paoline, 1989

[51] CG23 92.

[52] Ib. 158.

[53] Bollettino Salesiano, Don Bosco à escola de S. Francisco de Sales, agosto 1967, 1-4.

[54] MR 11.

[55] IP 13.

[56] O manual intitulado Praticas de piedade em uso nas casas salesianas foi publicado pelo P. Albera somente em 1916.

[57] Const. 25

[58] Cf. Const. 1-3 e 10-21.

[59] Cf. CG23 158-180.

[60] Cf. Ib. 158.

[61] CG23 171-172.

[62] Cf. Ib. 161.

[63] Ib. 157, 177.

[64] Cf. Ib. 120-156.

[65] Const. 20; cf. CG23 326 e 350.

[66] CG23 221.

[67] Const. 20.

[68] CG23 217.

[69] ib. 103, 112, 113, 118, 130, 131, 132, e passim

[70] Const. 20.

[71] Const. 11.

[72] Cf. ACG 326, “Procura fazer-te amar”.

[73] CG23 97.

[74] Ib. 99.

[75] Ib. 100.

[76] Ib. 94, 95, 102, 104, 106, 108 etc.

[77] Const. 14.

[78] CG23 94.

[79] Const. 3.

[80] CG23 95.

[81] Cf. Const. 19.

[82] CG23 140ss, 169ss, 222, 226.

[83] Const. 6.

[84] Const. 13.

[85] CG23 172.

[86] Const. 7.

[87] CG23 152, 165, 166.

[88] Const. 16.

[89] Const. 17.

[90] Ib.

[91] Cf. Const. 18.

[92] CG 23 157 e 177.

[93] Cf. ACG 331, outubro-dezembro de 1989.

[94] CG23 4.

[95] Ib. 216.

[96] Ib. 216.

[97] Ib. 218.

[98] CG23 220.

[99] Ib. 215.

[100] Ib. 221.

[101] ACG 332, p. 37ss.

[102] Ib. p. 38ss.

[103] Const. 2.

[104] CG23 217.

[105] Ib. 225.

[106] Ib. 225.

[107] CG23 226.

[108] Ib. 218.

[109] CG23 233.

[110] Ib. 335.

[111] MC 27.

[112] LG 53.

[113] Ib. 62.

[114] Ib. 56

[115] Cf. EN 82.

[116] LG 56.

[117] Cf. LC 1,46-55.

[118] Const. 8.

[119] CG23 357.

[120] Cf. 1Pd 3,15.