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Martírio e Paixão no Espírito Apostólico de Dom Bosco (ACS 308)

Egídio Viganò

MARTÍRIO E PAIXÃO NO ESPÍRITO APOSTÓLICO DE DOM BOSCO

Atos do Conselho Superior

Ano LXIV – ABRIL-JUNHO, 1983

308

  1. Notícias: 1. Troca do Ecônomo Geral. – A beatificação de D. Luís Versiglia e do P. Calisto Caravario.
  2. Martírio e Paixão no espírito apostólico de Dom Bosco. – Importância da “paixão” numa espiritualidade de vida ativa. – O valor cristão da “paixão”. — Terríveis exigências do pecado. – A sublimação do martírio. — O “martírio incruento” na escola de Dom Bosco. — A valorização apostólica do sofrimento — Cuidado, gratidão e afeto para com os irmãos inválidos e sofredores.

Roma, 24 de fevereiro de 1983

Queridos irmãos,

estamo-nos preparando para a Páscoa. Di­rijo a todos meus votos fraternos de empenho quaresmal na conversão e reconciliação, enquanto meditamos o mistério da paixão e morte do nosso Senhor Jesus.

A Páscoa e o Pentecostes deste Ano Santo devem ver-nos mais do que nunca em atitude de adoração, enquanto pedimos ao Espírito do Senhor que acompanhe os futuros capitulares para que se desincumbam bem do trabalho de­licado e histórico da revisão final das Consti­tuições e dos Regulamentos.

Dirijo-vos a saudação e os votos dos mem­bros do Conselho Superior reunidos aqui na Casa Geral para os diversos aspectos preparató­rios do próximo Capítulo Geral. Temos presen­tes a todos, e por todos rezamos.

Antes de oferecer-vos algumas reflexões es­pirituais, dou duas notícias.

 

  1. Mudança do Ecônomo Geral

 

Em 8 de dezembro passado, festa da Imaculada, o nosso benemérito e caríssimo P. Ruggiero Pilla, Ecônomo Geral, entregava-me, comovido, uma carta longamente pensada na oração e em diálogo com o Reitor-Mor, com o Conselho Superior e com pessoas de qualificada prudência. Pedia para ser dispensado do seu encargo porque era-lhe “cada vez mais pesado pela saúde e pela idade”. O P. Pilla chegou a esse pedido após meses de sofrimento, e para apresentá-lo teve que exercer violência sobre o seu coração salesiano. Podeis compreender as suas motivações e os seus sentimentos, lendo sua carta, transcrita mais adiante neste mesmo número de Atos.

Em 4 de fevereiro deste ano, sexta-feira, de acordo com o artigo 147 das Constituições, o Reitor-Mor com o seu Conselho confiou o en­cargo de Ecônomo Geral ao irmão P. Homero Paron, “até o fim do sexênio já iniciado pelo sócio cessante”.

É a segunda vez que este Conselho deve substituir um dos seus membros. Fizemo-lo com pena e esperança, procurando diligente­mente o melhor serviço para a Congregação.

Sentimo-nos todos devedores de grande gra­tidão para com o P. Ruggiero Pilla. Pudemos admirar seu amor a Dom Bosco, sua dedica­ção, competência, seu sentido salesiano de pobreza, magnanimidade e espírito de iniciativa, seu trato amável, sua grande formação cultural e a ele­gância da caridade com que prestava seu ser­viço.

Depois de ter sido incomparável Educador, Diretor e Inspetor, desempenhou por vinte anos o ofício de Ecônomo Geral, quando a Congre­gação enfrentava os problemas de crescente vastidão mundial. Já antes, durante dez anos, havia sido valioso e íntimo colaborador do P. Giraudi, seu predecessor no cargo. Trata-se, pois, de bem trinta anos — ou seja, de uma vida! — de responsabilidade num setor com­plexo e em contínua evolução, sempre mais in­trincado e de difícil gestão. Admiramos a habi­lidade e constante precisão com que o P. Pilla soube desempenhar sua tarefa, o impulso e as orientações dadas, as obras realizadas, as graves dificuldades felizmente superadas.

Obrigado, caríssimo P. Pilla, em nome de toda a Congregação! O senhor mereceu deveras a gratidão e a estima de todos, e havemos de manifestá-las sempre com o nosso afeto e a nossa oração.

Enquanto manifestamos nosso vivo reco­nhecimento ao P. Pilla, apresentamos também nossos votos cordiais e a nossa plena confiança ao P. Homero Paron, que aceitou o encargo com generosa disponibilidade e iniciou logo, com alegre abnegação, seu trabalho.

O P. Paron foi, antes, Ecônomo inspetorial e depois, por um sexênio, Inspetor da nossa província Vêneta-Este de “São Marcos”. Tem competência, fidelidade salesiana, simpatia fra­terna, boa saúde e vontade de cumprir sua ta­refa. Havemos de acompanhá-lo com solidarie­dade e colaboração. Entretanto pedimos a Dom Bosco que interceda por ele, para que seja um válido Ecônomo segundo o seu espírito.

 

  1. A beatificação de Dom Luís Versiglia e do Padre Calisto Caravario

 

Como já vos comuniquei numa carta espe­cial, no próximo dia 15 de maio, domingo da Ascensão, o Santo Padre beatificará os nossos primeiros dois mártires, missionários na China.

Toda a Família Salesiana se alegra e prepara para celebrar o evento com intensidade espiri­tual, com proveito apostólico e também com dignas manifestações. A celebração mais impor­tante é, por certo, a que se realizará em Roma, na basílica de São Pedro.

Exorto-vos a todos a prepará-la convenien­temente e a fazer com que dela participe o maior número possível de pessoas. O Ano Santo, que se iniciará algumas semanas antes, inclui esta beatificação no peculiar Advento de prepa­ração para o terceiro milênio do Cristianismo, que constitui um dos temas preferidos e profé­ticos de João Paulo II. Esperamos que o evento seja para nós portador de uma renovada pre­sença na China: o sangue dos mártires tornar-se-á por certo semente fecunda para aquela maravilhosa difusão do Evangelho, sobretudo entre a juventude do imenso povo chinês, que constituiu o grande ideal missionário dos dois novos Beatos.

Ponhamos, pois, mãos à obra para preparar dignamente as celebrações para a beatificação, sobretudo a do Vaticano.

 

MARTÍRIO E PAIXÃO

NO ESPÍRITO APOSTÓLICO DE DOM BOSCO

 

O martírio dos dois irmãos, Dom Luís Versiglia e Padre Calisto Caravario, oferece-nos a opor­tunidade para muitas reflexões espirituais.

Entre os vários argumentos de meditação, escolho um que poderá parecer, à primeira vista, inusitado, mas que é indispensável e assaz fecundo para o nosso espírito salesiano de vida ativa. Convido-vos a aprofundar o misterioso tema da “paixão”: pertence à própria essência da vida cristã.

Cristo nos redimiu através da “paixão”. Os mártires são venerados pela Igreja pela sua cruenta “paixão”. Os santos todos atenderam ao convite do Senhor que exorta a saber “sofrer”: “Se alguém quer seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, cada dia, e siga-me. Porque aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á, mas aquele que perder sua vida por minha causa, salvá-la-á”.[1]

Há Institutos religiosos na Igreja que têm como característica da sua vocação a de con­templar e viver os grandes valores da “paixão” de Jesus para testemunhá-los e proclamá-los entre as demais pessoas.

O Povo de Deus possui uma “mística de martírio”. Com efeito, o Batismo semeia no co­ração de todo o discípulo uma espécie de ins­tinto para com a paixão do Senhor.

 

Importância da “paixão” numa espiritualidade de vida ativa

 

Nós, Salesianos, amamos a santidade ope­rosa. Fomos chamados pelo Senhor para uma vida apostólica. Olhamos para Dom Bosco admi­rando nele, com especial simpatia, a sua espiri­tualidade do trabalho. Relemos os escritos do nosso patrono São Francisco de Sales, detendo-nos com preferência sobre suas reflexões acerca do “êxtase da ação”. Formados nesse clima espiritual, sentimos a necessidade, e a experiência no-lo ensina, de confrontar “ação” e “paixão”, para não nos iludirmos quanto às exi­gências concretas do dinamismo do nosso espí­rito.

Entretanto, a história do cristianismo nos ensina que apostolado e martírio estão intima­mente ligados entre si. Os doze apóstolos são também mártires. Os dois irmãos que serão beatificados continuaram a testemunhar no mar­tírio, de forma excelsa, os mesmos valores e o mesmo espírito da sua vocação salesiana.

Ficamos fortemente impressionados, e quase desconcertados, ante a presença, na “santidade salesiana”, de uma modalidade, sem dúvida excepcional, mas genuinamente nossa, de um P. André Beltrami que, gravemente doente, exclama: “Nem sarar, nem morrer, mas viver para sofrer”. Talvez nos assombre, mas é um fato, que essa modalidade tenha florescido, através do P. Luís Variara, para desenvolver-se com características próprias num dos grupos da nossa Família, o Instituto das Filhas dos Sagrados Corações, que surgiu na Colômbia; tem ele como peculiaridade justamente uma profun­da atitude vitimai e oblativa.

Imersos no dinamismo apostólico, habitua­dos ao trabalho, à fadiga, estimulados a contínua inventiva pastoral, poderíamos correr o perigo de esquecer os valores da “paixão”. Entretanto o espírito salesiano de Dom Bosco abre-se, na lógica do “da mihi animas”, ao mistério secreto do sofrer até o martírio.

“Todos devemos carregar a cruz como Jesus — diz-nos Dom Bosco — e a nossa cruz são os sofrimentos que todos encontramos na vida”.[2] “Quem não quer sofrer com Jesus Cristo na terra, não poderá gozar com Jesus Cristo no Céu”.[3]

As Constituições no-lo recordam com exi­gência: “O trabalho apostólico... é a ascética (do Salesiano)... Está pronto a suportar o calor e o frio, a sede e a fome, as fadigas e o desprezo sempre que se tratar da glória de Deus e da salvação das almas”.[4]

O espírito que o Fundador nos deixou em he­rança apresenta-se constantemente impregnado de contínuo “martírio de caridade e sacrifício”, iluminado e animado pelo grande ideal que lhe enchia o coração: “salvar as almas”. É um “martírio” geralmente incruento, aberto, porém, se a Deus aprouver, ao dom da vida também no derramamento do sangue. Numa conversação sobre seu tema predileto das missões, Dom Bosco disse explicitamente: “Se o Senhor na sua Providência dispuser que algum de nós sofra o martírio, haveríamos de nos espantar com isso?”.[5]

Dom Versiglia e o Padre Caravario, fiéis ao es­pírito salesiano, não se espantaram.

 

O valor cristão da “paixão”

 

Jesus chamou ao tempo da paixão a sua “hora”, ainda que lhe tenha avaliado dolorosa­mente o peso: “Passe de mim este cálice!”.

Foi precisamente através da paixão e da morte que remiu o mundo. Quanto nos deve fazer pensar essa afirmação paradoxal! Ele é apóstolo do Pai sobretudo no Calvário. A cele­bração sacramental da Eucaristia no-lo recorda quotidianamente.

Procuremos aprofundar-lhe o porquê.

Jesus viveu com plenitude a sua filiação divina com consciente disponibilidade aos planos do Pai, em sincera obediência.

Traduziu o seu ardor apostólico numa total oblação de si, seja quando chegou para ele o tempo de agir (ministério público), seja quando soou para ele a hora de sofrer (Getsêmani e Calvário).

Na sua “ação” e na sua “paixão” descobri­mos uma única atitude fundamental — a plena disponibilidade do seu amor filial, tanto para agir como para sofrer!

Também para nós a adoção a filhos de Deus, vivida na consagração apostólica, deve manter-nos abertos a ambas as formas de dis­ponibilidade: a da ação e a da paixão. O que conta é a oblação de si na realização dos planos de Deus. Como em Cristo, também em nós o ápice da atitude filial é: tanto o dom de si, na ação, para nos empenharmos com zelo incansá­vel na edificação do Reino do Pai, como o dom da própria vida na paixão, para deixar o pri­meiro lugar absoluto à “ação do Pai” na hora por ele estabelecida.

“O fato de a disponibilidade cristã poder ser perfeita e significativa em ambas as direções, como ação e como sofrimento — escreve Urs von Balthasar —, constitui a sua superiori­dade sobre a outra grande disponibilidade ao empenho, a comunista”.

O que guia a nossa disponibilidade ao em­penho é a fé: nós estamos seguros de que o homem mais “empenhado” da história é Cristo.

A consciência de tal disponibilidade oferece-nos a oportunidade para retomar em profun­didade dois aspectos, muitas vezes discutidos, da nossa vocação: o verdadeiro valor da “missão” e o da “contemplação”.

A “missão” apostólica não é somente ação. Vemo-lo claramente em Cristo. Ele viveu a sua missão de salvador dos homens quer na ação e na paixão, em mútua vinculação e compenetração, de forma absolutamente inseparável.

Ouvimos discutir tanto sobre a “missão”, mas nem sempre, talvez, partindo do mistério de Cristo. A missão apostólica é possível so­mente com o dom de si ao Pai para a realização do “Seu” plano de salvação. Não é simplesmente atividade, inventiva, projeto do nosso dinamis­mo; é também sofrimento, paixão e morte em conformidade com a vontade divina.

A “contemplação” (ou melhor, a dimensão contemplativa) é certamente o centro vital de toda a vida religiosa. Muito se discutiu sobre “ação” e “contemplação”, talvez desnaturando o verdadeiro significado cristão de ambas. A paixão, meditada no Cristo, ajuda-nos a melhor repensar as coisas.

A disponibilidade filial, vivida na paixão, faz-nos perceber que a caridade, coração pro­pulsor tanto da forma de vida apostólica como da forma de vida contemplativa, tende sempre como ao seu vértice supremo ao dom total de si na participação do mistério de Cristo. Assim podemos dizer que a plenitude do amor se en­contra mais além das formas de vida ativa ou contemplativa, porque em ambas se tende ao dom total de si para o Reino de Cristo e de Deus.

Por isso, se o fundamento do empenho apos­tólico é propriamente a filial disponibilidade ao Pai, quererá dizer que toda espiritualidade da ação inclui em si uma constante abertura à paixão, como para afirmar como “ação absoluta” somente a do Pai.

“Para um cristão — observa ainda Urs von Balthasar — ação e contemplação não se podem adequadamente separar uma da outra. Com efeito, a disponibilidade (ao Pai) atenta, recep­tiva, aberta, é o fundamento de toda ação; esta, de sua vez, deve tender a ultrapassar a si mesma num tipo de atividade mais profunda, a qual — sob forma de “paixão” — é a ação mesma de Deus dentro do homem lançado para além dos próprios limites. A vida cristã, pois, encontra-se sempre além desses dois aspectos (de contemplação e de ação); e eles, precisamente, não se completam a partir de fora, mas compenetram-se interiormente. Quem considerasse a Igreja tão-somente a nível sociológico, não po­deria perceber essa compenetração”.[6]

Como é útil para todos nós — no sofri­mento, na doença, na velhice, na invalidez, na agonia e na morte — saber que ali, na paixão, não estamos marginalizados do apostolado, mas que ele está-se fecundando e levando a cabo. A graça mais importante a ser alcançada não é a de não sofrer, mas a de estar plenamente dispo­níveis ao Pai, de modo a poder repetir com São Paulo: “Agora eu me alegro nos sofrimentos que padeço por vós; e o que falta às tribulações de Cristo eu o completo em minha carne, em favor do seu corpo, que é a Igreja”.[7]

Também São Pedro exorta-nos dizendo: “Pelo contrário, na medida em que participais dos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos, para que, na manifestação de sua glória, vos alegreis também e exulteis”.[8]

 

Terríveis exigências do pecado

 

O discurso cristão sobre a paixão pode pa­recer hoje muito estranho porque a civilização em que vivemos foi invadida por um crescente secularismo. Com o enfraquecimento da visão de um Deus presente na história e com certa manipulação do mistério de Cristo, vai-se per­dendo pouco a pouco o “sentido do pecado”. É uma perda fatal. A dimensão ética da vida vai-se sujeitando cada dia mais ao relativismo; os princípios morais sofrem forte crise. Não é por nada que os Bispos vão-se reunir, no próximo Sínodo, para tratar da reconciliação e da peni­tência. Acontece que, sem sentido do pecado, já não se compreende a cruz: nem o sacrifício do Calvário, nem o martírio na Igreja, nem a paixão dos crentes.

Cristo não veio para os justos, mas para os pecadores. Ele é o Senhor da história, mas através do mistério da redenção. “Este é o cálice do meu sangue, da nova e eterna Aliança, der­ramado por vós e por todos para remissão dos pecados”.[9]

A paixão e a morte de Cristo lembram-nos o abismo enorme que é o pecado: o do homem, o nosso, o dos nossos destinatários.

Ele, o Justo, sofreu e morreu por nós peca­dores e deixou à sua Igreja, por todos os séculos, a misteriosa missão salvadora de participar todos os dias na sua cruz.

O simples desejo de sofrer e de morrer poderia denotar um desvio patológico. Mas sentir-se chamados a participar na paixão e morte do Redentor é sublime dom de Deus e tarefa indispensável à salvação do homem.

Para destruir o pecado, o próprio Filho do Pai teve que sofrer e morrer; o seu Espírito habita o corpo de Cristo, que é a Igreja, aperfeiçoando-a num amor que leva ao martírio.

 

A sublimidade do martírio

 

“Desde o início — ensina-nos o Concílio Vaticano II — alguns cristãos foram chamados — e alguns sempre são chamados — para dar o supremo testemunho de seu amor diante de todos os homens, mas de modo especial perante os perseguidores. O martírio, por conseguinte — pelo qual o discípulo se assemelha ao Mestre que aceita livremente a morte pela salvação do mundo, e se conforma a Ele na efusão do sangue é estimado pela Igreja como exímio dom e suprema prova da caridade”.[10]

O mártir cristão não pode ser reduzido simplesmente à estatura de um herói. Ele não demonstra somente personalidade, grandeza de espírito, altruísmo.

O mártir é humilde e cheio de amor; não odeia, mas enquanto morre perdoa; não pro­cura nem glória, nem fama; não pretende dar lições de valor, talvez não é sequer corajoso: não proclama ideologias; não se põe como mo­numento; não é um Sócrates, nem um soldado conhecido ou desconhecido. Com razão se es­creveu que o mártir cristão “não morre por uma ideia, por elevada que seja, pela dignidade do homem, pela liberdade, pela solidariedade com os oprimidos (isso tudo pode estar pre­sente e desempenhar um papel); ele morre com Alguém que já morreu anteriormente por ele”.

A sua fé, a sua esperança e a sua caridade levam-no a testemunhar, até ao derramamento do sangue, que para ele “viver é Cristo” e que o Batismo leva a sentir-se “crucificado com Ele”.

Um dos grandes mártires antigos, S. Inácio de Antioquia, exprimiu-o com comovente e apai­xonada clareza. Em viagem para Roma porque sentenciado ao martírio, escreveu aos cristãos da cidade, suplicando-lhes que não impedissem esta sua suprema prova de amor: “Sede bons! Eu sei o que me convém! Começo agora a ser um verdadeiro discípulo... Sede bons irmãos! Não impeçais minha vida, não queirais a minha morte. Não abandoneis ao mundo e às seduções da matéria quem quer ser de Deus; deixai que eu chegue à pura luz... Deixai que eu imite a paixão do meu Deus”.[11]

O martírio não é fruto de uma programa­ção pessoal, mas dom de Deus, aceito, porém, com liberdade e alegria. Como Jesus que, em­bora sentindo-lhe a amargura, ofereceu-se “livre­mente à paixão”.[12]

Todo o segredo do martírio é a disponibili­dade ao Pai até a oblação total de si, manifes­tada na paixão e na morte! A disponibilidade à paixão até a morte é a manifestação suprema da caridade: “Tendo amado os seus, que esta­vam no mundo, amou-os até os extremos”;[13] “ninguém pode dar maior prova de amor do que entregar sua vida por seus amigos”.[14] A paixão cruenta de Cristo tornou-se evento litúrgico, sacrifício da Nova Aliança, para construir a Páscoa do mundo.

No Povo de Deus, porém, a efusão do sangue no martírio é, como vimos, um “dom excepcional”.

É, todavia, um ideal para todos a disponibi­lidade de participação na paixão do Senhor. Por isso o Concílio nos lembra que “se a poucos é dado o martírio, todos, porém, devem estar prontos a confessar Cristo perante os homens, segui-lo no caminho da cruz entre perseguições, que nunca faltam à Igreja”.[15]

 

O “martírio incruento” na escola de Dom Bosco

 

Está na linha da participação incruenta na paixão do Senhor que toda espiritualidade tem um estilo próprio para o dom de si na oblação.

Na escola de Dom Bosco, esse estilo é mar­cado pela luz do “da mihi animas”, levada às extremas consequências. Trata-se de uma vida apostólica vivida numa mística de martírio incruento, para uma verdadeira conformação a Cristo no dom total de si para o Reino.

Falando do púlpito da basílica de Maria Auxiliadora, por ocasião da terceira expedição missionária (novembro de 1877), Dom Bosco alude à morte do P. Baccino, afirmando justa­mente: “Mas os Missionários devem estar pre­parados para qualquer acontecimento, mesmo para sacrificar a vida a fim de pregar o evange­lho de Deus. Até agora, porém, os Salesianos não tiveram que enfrentar graves sacrifícios pro­priamente ditos ou vexações, com exceção do P. Baccino, que morreu; e dizem os que o acompanharam, que morreu vitimado pelo peso das fadigas no campo evangélico, ou como se pode­ria dizer, mártir da caridade e do sacrifício pelo bem dos outros. Mas esse missionário trabalha­dor não nos causou uma perda, mas um ganho, porque neste momento ele é nosso protetor no céu”.[16]

Mais tarde, o Papa Pio XI, falando de Dom Bosco, ressalta a importância do seu sofrimento, afirmando a respeito dele: “Não há somente o martírio cruento do sangue, mas também o martírio incruento; há até uma infinidade de martírios incruentos através das condições diver­sas e dos diversos graus da escala social...”.[17]

Entre os numerosos martírios incruentos, o característico da escola salesiana é de marca claramente apostólica: “Martírio de caridade e sacrifício pelo bem dos outros”, como diria Dom Bosco.

Nosso Pai sentiu-se chamado pelo Senhor na Igreja a uma vocação de empenho pastoral; media, por isso, a oblação da sua vida por essa intuição primeira: disponibilidade a Deus no “da mihi animas”. Dom Bosco não podia saber como havia de morrer; sabia, porém, que devia doar-se plenamente ao apostolado até à morte.

Podemos pensar que se inspirava em São Paulo, que, embora considerando um ganho morrer em Cristo, proclamava a sua disponibi­lidade ao Pai assumindo primeiro, tendo em vista o bem dos outros, o mandato apostólico recebido: “Para mim, a vida é Cristo e morrer é lucro. Entretanto, se continuar a viver na carne, posso trabalhar com fruto. Não sei o que escolher... (porque) é muito mais útil para vós que eu continue a viver. Nesta convicção, sei que vou ficar e permanecer com todos vós, para vosso progresso e para alegria de vossa fé”.[18]

 Neste sentido são significativas as seguintes palavras de Dom Bosco, colhidas pelo P. Barbe­ris: “Esperemos no Senhor. Neste empreendi­mento (as missões), nós fazemos como em todos os outros. Toda a nossa confiança deve ser posta em Deus e tudo d’Ele esperamos; mas ao mesmo tempo empregamos toda a nossa atividade... Procurem-se todos os meios possíveis de segurança para não arriscar a vida nas mãos dos selvagens. É verdade que para quem morre mártir, a morte é uma fortuna...; entretanto não se avança na conversão de talvez milhares de almas, as quais se poderiam salvar usando maior precaução”.[19]

O estilo, pois, de oblação de si no apostolado é, para Dom Bosco, antes de mais nada, o de um “colossal trabalho” (Pio XI) de apóstolo. Na mesma atividade pastoral há não pouco sofri­mento (sofrimentos físicos, morais, espirituais) por milhares de razões diversas. São sofrimen­tos que atingem também fisicamente a saúde. Nós o constatamos ao longo de toda a sua vida: “Esta manhã Dom Bosco me disse — escrevia o P. Lemoyne ao P. Rua em 1884 — que sua ca­beça está muito cansada... Em quarenta e oito anos quanto não sofreu! Este deveria ser um argumento a ser pregado a todos, grandes e pequenos, pois lamentavelmente não pensamos nele”.[20]

Tais sofrimentos são aceitos e iluminados pelo ardor apostólico; encontram sua verdadeira explicação de “oferta livre à paixão” no “da mihi animas”; fazem-nos compreender bem con­cretamente em que sentido Dom Bosco dizia: “Quando acontecer que um Salesiano venha a sucumbir e deixe de viver trabalhando pelas almas, então direis que a nossa Congregação conquistou uma grande vitória e sobre ela des­cerão copiosas as bênçãos do Céu”.[21]

É este o sentido com que o nosso Fundador qualificou, como vimos, a paixão incruenta como “martírio de caridade e sacrifício pelo bem dos outros”.

Essa ótica apostólica de caridade para o bem dos outros caracteriza também a própria paixão cruenta dos nossos dois mártires espan­cados e trucidados porque ativos apóstolos cristãos e, em particular, pela defesa da digni­dade humana e da virtude de três jovens chine­sas. Dom Versiglia e o Padre Caravario atingiram sua suprema capacidade de paixão cruenta no nosso espírito característico. Sabemos até que Dom Versiglia previu o termo da sua vocação salesiana e missionária, segundo o sonho profético de Dom Bosco, quando disse ao P. Sante Garelli: “Tu me trazes o cálice visto pelo Pai: cabe a mim enchê-lo de sangue”!

 

A valorização apostólica de todo o sofrimento

 

No estilo de paixão incruenta aceita e vivida na mística do “da mihi animas”, peculiar de Dom Bosco, entram também os sofrimentos próprios dos males e enfermidades, da invalidez, da velhice, da agonia e da morte natural: supor­tar tudo por amor de Cristo em vista da salva­ção das almas, pela expiação dos pecados nossos e delas, pela eficácia do trabalho apostólico dos irmãos, das irmãs, dos colaboradores no empe­nho pastoral que nos foi confiado.

Dom Bosco, já entrado em anos e atormen­tado por achaques, assim se manifestou, em agosto de 1885, falando às jovens Filhas de Maria Auxiliadora em Nizza Monferrato: “Eu vos vejo em boa idade, e desejo que possais ficar velhas, sem, porém, os incômodos da velhi­ce. Sempre acreditei podíamos ficar velhos, sem ter muitos incômodos; mas compreende-se bem que a idade é inseparável deles; os anos passam e os achaques da velhice vão vindo; tomemo-los como a nossa cruz... a cruz que o Senhor envia e que, geralmente, con­traria a nossa vontade e não falta nunca nesta vida, especialmente para vós, Mestras e Diretoras, que estais particularmente ocupadas também com a salvação dos outros. Esta tribu­lação, ... esta doença... quero suportá-la ale­gremente e de boa vontade, porque é justamente a cruz que Nosso Senhor me manda”.[22]

Além disso, como nos garante o P. Pedro Ricaldone, “Dom Bosco fazia próprio o pensa­mento de Santa Teresa e repetia que ‘os doentes atraem as bênçãos de Deus sobre a Casa’. Ele, de sua parte, tinha solicitudes e ternuras deli­cadas para com seus filhos doentes”.[23]

Os irmãos doentes são, para ele, uma espé­cie de mediação pascal, para alcançar muitas bênçãos do Senhor para o empenho apostólico da comunidade.

Os sofrimentos aceitos no espírito do “da mihi animas”, não marginalizam o irmão da frente pastoral dos demais; antes, colocam-no numa trincheira mais avançada e encarregam-no de um papel próprio. A nossa espiritualidade da ação não nos ensina a rodear a dor, a sobre­voá-la, a eliminá-la; mas aceita-a e inverte-lhe o significado, transformando-a em potencial de salvação.

Tem assim um valor apostólico próprio, e não pequeno, também o sofrimento vivido como participação no mistério pascal de Cristo. Para além de certa tristeza explicável (também Jesus sentiu-se triste até a morte) vibra a alegria pro­funda de sentir-se participante da missão reden­tora do salvador.

“Falar de alegria a vós, queridos doentes — dizia há algumas semanas o Papa — pode pare­cer estranho e contraditório; entretanto está justamente nisso o impressionante valor da mensagem cristã... É uma alegria interior, misteriosa, por vezes sulcada de lágrimas, mas sempre viva, porque nasce da certeza do amor de Deus, que é sempre Pai, também nas circuns­tâncias dolorosas e adversas da vida, e do valor meritório e eterno de toda a existência humana, especialmente da atribulada e sem satisfações humanas”.[24]

O segredo de uma atitude tão paradoxal não pode ser outro senão o mistério da paixão de Cristo. Justamente, na conclusão do Vaticano II, os Padres conciliares afirmaram numa de suas mensagens: “Cristo não suprimiu o sofrimento; não quis sequer revelar-lhe inteiramente o mis­tério: tomou-o sobre Si e isso basta para que lhe compreendamos todo o valor”.[25]

Podemos também acrescentar que a fé cristã nos ajuda a fazer do sofrimento uma pedagogia de amadurecimento humano; com ele aperfeiçoa-se o coração, tornamo-nos mais humildes, mais sábios, mais conscientes da transcendência do verdadeiro amor; o homem sem sofrimento corre o risco de ser menos humano. O homem perfeito, de fato, é Cristo, crucificado e ressusci­tado!

 

Cuidado, gratidão e afeto para com os irmãos inválidos e sofredores

 

Caríssimos todos e vós especialmente, que­ridos irmãos inválidos e sofredores, que a beatificação dos nossos primeiros dois mártires sirva para que repensemos e valorizemos as misteriosas riquezas da paixão cristã.

A fé nos ensina que nunca “se aposenta” quem recebeu do Senhor um mandato apostó­lico. Não existe o “salesiano em repouso”. Nenhum irmão pode sentir-se jamais “margina­lizado da nossa missão”.

Vós, doentes e atribulados, inválidos e ago­nizantes, “sois — como diziam os Padres conci­liares — os irmãos de Cristo sofredor; e com Ele, se quiserdes, vós salvais o mundo! Sabei que não estais sós, nem separados, nem aban­donados, nem sois inúteis: vós sois chamados por Cristo, sua imagem viva e transparente. Em Seu nome, (a Congregação) vos saúda com amor, vos agradece, vos garante a amizade e a assistência da Igreja e vos abençoa”.[26]

Vós recordais a todos que ninguém se torna santo sem sua parte própria de cruz, e que entre paixão e missão há um nexo íntimo e indissolúvel.

Olhemos todos para Jesus. Juntos aprenda­mos dele que a sinceridade da filiação ao Pai chega à oblação de si até à morte: “Isto é o meu corpo que é dado por vós; este é o meu sangue derramado por vós para o perdão dos pecados”.

O sofrimento faz parte da nossa missão; é até um elemento precioso e eficaz dela.

Há tanto mal por expiar: o nosso pecado e o dos nossos destinatários. Há tantas sementes de bem por regar: com o cálice da Nova Aliança. Há um potencial de graça por impetrar: com a mediação do mistério pascal. A caridade que sofre é um tesouro a ser conservado com cui­dado: não deve nunca faltar entre nós.

Pascal soube formular uma profunda “Ora­ção para o bom uso das doenças”; o Papa nos convida a meditar sua súplica: “Fazei, ó meu Deus, que eu adore em silêncio a ordem da vossa providência adorável sobre o governo da vida... Fazei-me a graça de unir aos meus sofrimentos as vossas consolações, a fim de que eu sofra como cristão... Peço, Senhor, experimentar juntamente as dores da natureza por causa dos meus pecados e as consolações do vosso Espí­rito, como efeito da vossa graça...”.[27]

A todos os irmãos, queria lembrar que a meditação sobre estes valores apostólicos da paixão deve mover-nos, como nos ensina uma tradição já secular de família, a cuidar dos irmãos doentes e sofredores com a mais deli­cada caridade e bondade.

À escola de Dom Bosco “aprendamos a usar para com o irmão doente — é ainda o P. Ricaldone que escreve — as atenções, delicadezas que quereríamos fossem usadas para conosco. A boa palavra, um sinal de interesse e afeto, os votos, a promessa de orações oh! como são agradáveis e confortadoras essas manifestações de fraterno afeto para o coração de quem sofre!

Sobretudo não se dê sequer o mais remoto pretexto para supor, não digo com palavras, mas até com esquecimentos, friezas ou indelica­dezas, que o doente possa ser de peso; e menos ainda se discuta para confiá-los a outros...

Quando o P. Alasonatti ficou doente, Dom Bosco não tinha mais paz; e fazia de tudo para restituir-lhe a saúde de antes; e onde quer que estivesse, com o pensamento estava perto dele... Eis aí o coração de Dom Bosco!”.[28]

Que estas reflexões, sugeridas pelo martírio de Dom Versiglia e Padre Caravario, nos ajudem a aprofundar a densidade da nossa espiritualidade apostólica para descobrir nela a importância e a fecundidade da paixão.

Somos chamados ao compromisso apostó­lico no caminho de Cristo. Maria acompanha-nos no caminho, ela que fez consistir toda a plenitude do seu amor na disponibilidade: “Eis, eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua vontade”!

Peçamos aos dois irmãos mártires que na Congregação e em toda a Família Salesiana se conheça e aprecie sempre melhor a mística do “da mihi animas” até as suas últimas conse­quências: “com o suor, com as lágrimas e com o sangue!”.

Para todos votos de Boa Páscoa!

Na alegria da beatificação dos nossos pri­meiros dois mártires,

 

[1] Lc 9,23-24.

[2] MB X, 648.

[3] MB II, 362.

[4] Const. 42.

[5] MB XII, 13.

[6] URS VON BALTHASAR, Au delà de l’action et de la contemplation?, in Vie Consacrée, março-abril de 1973, 4.

[7] Cl 1,24.

[8] 1Pd 4,13.

[9] Oração eucarística.

[10] LG 42.

[11] S. Inácio aos Romanos 5,3; 6,3.

[12] Oração eucarística II.

[13] Jo 13,1.

[14] Jo 15,13.

[15] LG 42.

[16] MB XIII, 315-316.

[17] MB XIX, 19, 113.

[18] Fl 1,21-25.

[19] MB XII, 280.

[20] MB XVII, 89.

[21] MB XVII, 273; VII, 487.

[22] MB XVII, 555.

[23] RICALDONE Pietro, Fedeltà a Don Bosco santo, ACS 74, p. 98.

[24] Alocução de João Paulo II à UNITALSI, L’Osservatore Romano, 13-2-1983.

[25] Mensagem “Aos pobres, aos doentes, a todos os que sofrem”, 8 de dezembro de 1965.

[26] Ib.

[27] L’Osservatore Romano, 13-2-1983.

[28] RICALDONE Pietro, Fedeltà a Don Bosco santo, ACS 74, p. 99.