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O Sínodo sobre a Vida Consagrada (ACG 351)

CARTAS DO REITOR-MOR - EGIDIO VIGANÒ



O SÍNODO SOBRE A VIDA CONSAGRADA

Introdução - A mais numerosa Assembléia sinodal - A ótica eclesial na impostação  do tema - A natureza íntima da Vida consagrada - A importância  do  monaquismo - A mulher consagrada -  A plena dignidade dos Religiosos "Irmãos" -  A inserção na Igreja particular - Os desafios da Nova Evangelização - O  primado urgente da "vida no Espírito" - A força da vida fraterna em comunidade -  Conclusão.

Roma, Solenidade da Imaculada - 1994


Queridos irmãos,

            uma  saudação fraterna, também dos membros do Conselho geral,  especialmente  do P. Martin McPacke que, infelizmente, já há algum tempo não está  tão bem  de saúde; ele se recomenda de modo especial à intercessão de Dom Rua;  acompanhamo-lo com a nossa oração.

            Como já sabeis,  entre os serviços do Conselho geral, incluíram-se  nestes  meses várias visitas de conjunto; elas permitem constatar, de um lado,  o bem enorme promovido na Congregação desde o último Capítulo geral (CG23) e, de outro, algumas imperfeições ou lacunas que nos obrigam a não esquecer, olhando adiante,  da indispensável urgência da evangelização dos jovens. Felizmente  o tema  do CG24 não nos afasta de modo algum dos compromissos desta  missão,  ou melhor, estimula-nos a saber comprometer neste sentido outras numerosas forças complementares.

            Já estamos no início do novo ano de '95; um ano que, para nós, terá como característica o empenho na preparação do CG24, que haverá de levar a  Congregação  à grandiosa e profética comemoração bimilenar da encarnação do Verbo  e introduzirá o carisma de Dom Bosco no terceiro milênio da fé.

            A  leitura da recente carta apostólica Tertio millennio adveniente  faz-nos perceber a magnanimidade da visão de fé de João Paulo II e o  extraordinário  compromisso eclesial na preparação das celebrações do Grande  Jubileu  do 2000.

            A carta apostólica fala de duas fases de preparação. A primeira, que poderíamos  chamar de "ante-preparatória", vai até 1996. A celebração  do  nosso CG24 inclui-se justamente nessa fase. É bom ter presente a sua colocação  como projeção de futuro. A preparação do Capítulo ('95) e sua realização ('96) far-nos-ão sentir protagonistas no esforço de incorporar aos frutos do Grande  Jubileu  o carisma de Dom Bosco, genuinamente renovado e feito contemporâneo  na capacidade de responder aos desafios dos tempos.

            "O  futuro  do  mundo  e  da Igreja -  escreve  o  Papa  -  pertence  às jovens gerações que, nascidas neste século, estarão maduras no próximo, o primeiro  do  novo milênio. Cristo espera os jovens!". O projeto  apostólico  do nosso  Fundador  é todo voltado para os jovens e  penetrado  constitutivamente pela  virtude da esperança. Os Capítulos do pós-concílio impeliram-nos a  ser, sempre com maior concretitude, "missionários dos jovens".

            Peçamos  a Nossa Senhora, que está no centro do grande acontecimento  do 2000,  que nos acompanhe nos trabalhos dos próximos Capítulos  inspetoriais  e nas  demais iniciativas de preparação para aquele que será o  último  Capítulo geral do século.

            Um  acontecimento de Igreja e de família, particularmente  significativo para nossos propósitos de renovação, foi a beatificação da Irmã Maddalena  Caterina  Morano  por parte do Santo Padre João Paulo II, no dia 5  de  novembro passado em Catânia. Uma nossa irmã consagrada que faz brilhar na Igreja,  como contribuição  da nossa Família, o autêntico espírito salesiano de  Dom  Bosco. Olhando de novo para ela a fim de ler o seu testemunho espiritual, transmitido numa  laboriosa existência de caridade apostólica, haverá de ajudar-nos a  dar validade operativa aos nossos propósitos de melhor qualidade salesiana.

            Impele-nos de modo particular a este empenho de identificação carismática o recente Sínodo dos Bispos (outubro '94). Convido-vos, pois, nesta  circular, a juntos considerarmos alguns de seus aspectos estimulantes.

            É um Sínodo que entra certamente - se pensarmos na Exortação  apostólica que aguardamos para proximamente do Santo Padre - na fase ante-preparatória do Grande Jubileu. Façamos tesouro de seus conteúdos e orientações para  intensificar e melhorar o nosso processo de renovação.

A mais numerosa Assembléia sinodal

            Neste recente Sínodo ordinário, o nono, foi batido o recorde de participantes:  mais  de 240 "padres sinodais" (todos Bispos, com  alguns  Superiores religiosos sacerdotes), 75 "ouvintes" (dos quais 53 mulheres) convidados  pelo Santo Padre, 20 "especialistas" (colaboradores do Secretário geral), uma dezena de "ouvintes" de outras Igrejas não católicas; ao todo quase 350 membros.

            Como è sabido, o tema era  "Vida consagrada", mais amplo que "Vida religiosa";  as contribuições oferecidas na fase de preparação por parte de  todas as Igrejas estavam contidas num precioso "Documento de trabalho", que foi  explicitamente muitas vezes valorizado e que orientou as intervenções em aula  e o  frutuoso diálogo de busca nos 14 grupos lingüísticos e na comissão  para  a elaboração da Mensagem. Estavam presentes 55 Institutos masculinos e 53  femininos.

            Entre os "padres sinodais" havia dois cardeais salesianos (suas  Emcias. Castilho  e Javiere), oito dos nossos bispos (suas Excias. Charles Bo,  Héctor López,  Juan Mata, Basilio Mwe, Zacarías Ortiz, Oscar Rodríguez, Tito  Solari, Ignazio  Velazco) e também o Reitor Mor; entre os "ouvintes" havia o  Inspetor da Venezuela, P. José Divassón; e entre os "especialistas", P. Vittorio Gambino e Ir. Enrica Rosanna FMA. Pudemos todos reunir-nos, além dos trabalhos quotidianos, numa ceia familiar em nossa comunidade do Vaticano - tão hospitaleira - com alegria, cantos, vivas conversações e convivência cheia de alegria  e de  esperança, que ainda hoje trazemos no coração: uma pausa  carismática  por ocasião do Sínodo!

            Além das contribuições de cada um nos círculos lingüísticos, todos estes nossos  irmãos apresentaram em aula intervenções qualificadas de acordo com  o País  de onde vinham, no clima comum a todos do espírito de Dom Bosco (só  não pode intervir Dom Charles Bo, que chegou atrasado por dificuldades de  autorizações).

            O  Santo Padre participou de todas as assembléias gerais com  fidelidade quotidiana, com interesse e bom humor.

            Uma presença particularmente admirada e ao mesmo tempo humildemente  modesta  foi a de Madre Teresa de Calcutá, sempre atenta e em oração;  ela  teve uma comovente intervenção na assembléia, que fez pensar na genialidade feminina  no testemunho do valor da consagração religiosa tanto para a  Igreja  como para o mundo.

            João  Paulo  II, armado de bengala, foi centro de comunhão e  também  de alegria,  com seu humorismo; sua afabilidade e senso de diálogo  levaram-no  a tomar contato com cada um, convidando para o almoço e a ceia - todos os dias - pequenos  grupos de oito ou dez e, no último dia, reunindo a todos num  grande almoço.

            Reconheça-se que a mesma celebração do Sínodo, com a convivência, o  ambiente  de cordialidade, os encontros, os diálogos, as discussões, o clima  de convergência na fé, apesar das numerosas diferenças de proveniência, constituiu  uma preciosa experiência de comunhão na Igreja e uma positiva  constatação das sábias preocupações pastorais do Papa e dos Bispos. É certamente uma graça do Senhor o fato de ter podido participar ativamente num acontecimento de  comunhão que se pode considerar único no mundo.

A ótica eclesial na impostação do tema

            Em Congregação já fizemos juntos algumas reflexões úteis sobre a importância  deste Sínodo e sobre o caráter de suas conclusões. Relendo a  circular de '92 fiquei impressionado pela sua aderência ao que de fato foi o Sínodo.

            Como dizíamos, não se pode considerar esta Assembléia episcopal à medida de um Capítulo geral para cada Instituto; os Bispos não partiram do âmbito  da especificidade dos carismas, mas do significado global e vital que todos  juntos têm na Igreja. Escrevíamos: "De certo modo somos convidados (nós  Religiosos) a fazer um caminho inverso ao dos últimos Capítulos gerais: lá  estávamos empenhados  - partindo dos estímulos conciliares - em definir o nosso  carisma herdado do Fundador (passávamos do patrimônio conciliar comum ao específico da índole própria); aqui, diversamente, deveremos saber levar - partindo da experiência  da  nossa identidade carismática - luzes e aprofundamentos  sobre  os valores comuns de eclesialidade (ou seja, passar do específico da índole  própria ao patrimônio vital comum)".

            Por isso não se devia esperar do Sínodo - que, além do mais, é um  acontecimento  de  colegialidade episcopal  de  caráter propriamente pastoral para toda a Igreja - nem a formulação de uma definição técnica da Vida  consagrada, bastando  a afirmação clara de seus elementos constitutivos, nem a solução  de determinados  problemas próprios dos vários Institutos, nem uma censura  pelos eventuais  erros e desvios de grupos de consagrados no período  pós-conciliar. Mas esperar, sobretudo em profundidade, a afirmação de sua dimensão  eclesial, sua  vinculação à santidade, seu papel de protagonismo na Nova  Evangelização, sua  preciosidade de dom do Espírito Santo à Igreja e ao mundo em  perspectiva de futuro: perscrutar os grandes valores comuns, evitando contudo o perigo  de um genericismo rasteiro.

            "Poderíamos  dizer - escrevíamos - que esperamos, como fruto  global,  o decidido relançamento da Vida consagrada em seus aspectos essenciais e vitais. Ela, de fato, é chamada através da ação fecunda do Espírito Santo nos Fundadores e nas Fundadoras ao longo dos séculos, a manifestar a riqueza do  mistério de Cristo fazendo resplender na Igreja - seu 'Corpo' na história - a multiforme graça de Cristo-Cabeça".

            É  interessante reler hoje aquela circular que poderia parecer ter  sido escrita  após a celebração do Sínodo; posso dizer-lhes em confidência que  nós Salesianos, durante os trabalhos sinodais, nos sentimos em feliz sintonia  com a orientação da assembléia e positivamente estimulados a prosseguir o  caminho com  forças renovadas e com um profundo reconhecimento ao Espírito  Santo  que nos tem guiado nos empenhos de renovação pós-conciliar.

            O Sínodo alegrou-nos e nos fez sentir no caminho certo, embora nos  convide  a  intensificar os esforços de renovação para atingir também  as  várias metas ainda em aberto.

            Somos  convidados a escutar no Sínodo a voz do Episcopado preocupado  em bem  orientar  o Povo de Deus. Depois da reflexão sinodal sobre o  laicato  na Igreja, e daquela sobre o ministério sacerdotal, os Bispos com o Papa  aprofundaram  agora  a natureza e o papel da Vida consagrada.  Suas  considerações colocam em relevo a eclesialidade dos carismas e as responsabilidades de  serviço  que eles mesmos deverão ter para com a Vida consagrada,  considerada  um dom preciosíssimo do Espírito Santo para todo o Povo de Deus.

            A ótica com que os Bispos consideram a Vida consagrada é, de certo modo, anterior  àquela que cada Instituto segue por si mesmo, dá-lhe legitimidade  e riqueza, garantindo uma melhor visão global, unitária e integral.

            Conforta-nos  e  estimula-nos saber que os Pastores consideram  como  um dever  próprio a privilegiar aquele do serviço ministerial à Vida  consagrada: "de re nostra agitur" (= "trata-se de um tesouro nosso"), afirmou o Card.  Hume, relator geral, em sua primeira relação de encaminhamento dos trabalhos;  e dedicou  toda  a primeira parte de sua relação para explicar  esta  afirmação. Propõe uma série de seis verbos que desenvolveu em seguida: "É missão do Episcopado  em comunhão com o Romano Pontífice e de cada Bispo em  sua  respectiva diocese:  reconhecer, discernir, tutelar, promover, harmonizar" a Vida  consagrada.

            "O papel do Bispo diante da Vida consagrada vai, portanto, além da  programação pastoral. Ele é pastor e guardião também das pessoas consagradas e do dom da Vida consagrada, de modo diverso segundo se trate de Institutos de  direito pontifício ou diocesano ou isento: mas sempre 'de re nostra agitur!'". E insiste: "o dom da Vida consagrada feito à Igreja é confiado ao nosso  cuidado e à nossa caridade pastoral".

            Por isso, afirma o Card. Hume, a finalidade e os objetivos deste  Sínodo deverão ser:

- fazer  entender, valorizar e acolher a Vida consagrada por parte de  toda  a Igreja;

- promovê-la em sua autenticidade teologal, apostólica e missionária;

- facilitar a sua expansão qualitativa e quantitativa.

            Certamente  escutaram-se  em aula também algumas  intervenções  críticas sobre alguns aspectos negativos experimentados aqui e ali em grupos de  consagrados inquietos. Pensemos, por exemplo, em certas formas de "paralelismo pastoral",  em atitudes de independência em relação ao Magistério do Papa  e  dos Bispos,  em influxos de ideologias de moda, em imprudências na programação  da formação, em modalidades secularistas no estilo de vida, em abusos de liberdade na liturgia, em pusilanimidades no exercício da autoridade, em  superficialidade espiritual com queda da contemplação, da ascese e da disciplina religiosa.  É preciso reconhecer, porém, que estas intervenções não deram o  tom  ao conjunto das reflexões, que permaneceram claramente ancoradas nos três objetivos indicados acima para ajudar a Vida consagrada num tempo de renovação.

A natureza íntima da Vida consagrada

            A  "Mensagem"  sinodal sublinhou com clareza que na Assembléia  "se  fez ressaltar uma distinção importante: aquela entre a 'Vida consagrada'  enquanto tal em sua dimensão teológica, e as 'formas institucionais' assumidas por  ela ao longo dos séculos. A Vida consagrada enquanto tal é permanente, jamais  poderá faltar na Igreja. As formas institucionais, diversamente, podem ser transitórias e não possuem garantias de perenidade".

            Isto  significa que é preciso considerar a Vida consagrada não  simplesmente como uma realidade presente "na" Igreja, mas como um elemento  constitutivo  da natureza "da" Igreja. Esta ótica vincula constitucionalmente  a  Vida consagrada ao mistério mesmo de Cristo, ao estilo de vida de Maria e dos Apóstolos.  não é, portanto, uma realidade eclesial que começa simplesmente com  o monaquismo; este de fato é uma "forma institucional" da Vida consagrada, mesmo se muito benemérita desde os primeiros séculos.

            Dessa  forma entende-se melhor como a consagração através dos  conselhos evangélicos  (votos ou outros vínculos eclesiais) esteja vitalmente  enraizada no Batismo: sacramento que incorpora diretamente a Cristo; nEle tem a sua fonte.

            De aqui surge a visão nova do modo com que devemos orientar em profundidade  a nossa renovação na fidelidade às primeiríssimas origens: ocorre  referir-se diretamente à fonte, que é o mistério de Cristo. Os próprios Fundadores não inventaram a Vida consagrada, mas receberam-na da tradição viva da Igreja; revestiram-na,  depois, com um projeto original de participação na  missão  do Senhor.

            Uma  visão assim teologal da Vida consagrada imerge-nos  diretamente  no Evangelho; faz-nos pensar em nosso Fundador, não tanto como num monge modernizado, mas como um incansável colaborador dos sucessores dos Apóstolos, e  orienta a nossa busca de modelos a contemplar e seguir nos umbrais mesmos da Páscoa e de Pentecostes.

            Com a nossa profissão religiosa empenhamo-nos em reproduzir o estilo  de vida testemunhado por Cristo, obediente, pobre e casto, participado  esplendidamente por Maria, transmitido aos Apóstolos, florescido na primeira comunidade  cristã  ("um só coração e uma só alma"). Na profissão somos  inseridos  no mistério de Cristo e na íntima natureza da Igreja e nos sentimos levados a não defraudar a quem nos olha como "sinais e portadores" do amor de Deus.

            Daí  deriva  a urgência de concentrar a renovação naquilo  que  aproxima mais  de Cristo, sobretudo em fazer da Eucaristia o centro quotidiano da  vida interior das pessoas e das comunidades, recordando quanto afirma o  Evangelho: "Os discípulos reconheceram Jesus, o Senhor, no partir o pão".

            Ao lado da Eucaristia merece um cuidado especial, como empenho de contato com Cristo - sublinhou-o o Card. Baum -, a freqüência ao sacramento da  reconciliação  através do qual vemos nEle o nosso pobre rosto nem  sempre  limpo por causa de tanta poeira da quotidianidade; ele dá atualidade à dimensão  penitencial e à indispensabilidade da ascese e da práxis vivida de uma disciplina religiosa segundo uma Regra professada.

            Discutiu-se entre os padres sinodais sobre o significado preciso de  alguns  termos muito usados, como "carisma", "consagração",  "sacramentalidade", "profissão", sem se chegar porém a uma convergência total. Pediu-se para confiar a uma comissão de especialistas o esclarecimento desta terminologia antes da publicação da Exortação Apostólica.

            Entre nós, na Congregação, o uso de termos tão significativos possui  há tempo uma valência pacífica, como se pode ver na circular de '92.

A importância do monaquismo

            A  consideração teologal da Vida consagrada em si mesma determina a  autenticidade  de sua natureza, e orienta nossa busca em referência ao  primeiro modelo histórico. Deve-se certamente reconsiderar com cuidado a relação que se costuma  fazer de todas as formas de Vida religiosa com o monaquismo.  não  se trata de tirar dessa forma clássica de "Vida religiosa" a sua importância histórica  e o seu influxo objetivo. O monaquismo oferece, sem dúvida, uma  praxe aprovada  em linhas substanciais, naquilo que deve ser uma concreta  Regra  de vida.

            No  Sínodo havia uma qualificada presença monástica que ofereceu  intervenções de grande valor; havia monges do Oriente e do Ocidente, também  monges ortodoxos. Pãde-se apreciar o seu extraordinário testemunho de consagração e a sua  eficácia  na evangelização ao longo dos séculos, admirando  os  profundos aspectos de seu estilo de vida.

            Alguém, entre os padres sinodais pertencentes a formas de vida apostólica, teve até mesmo receio de que o peso destes valores monásticos pudesse  desequilibrar  o significado global do Sínodo. Na realidade, a contribuição  dos monges foi enriquecedora, fazendo ver que as Regras de vida dos vários  Institutos  de  Vida Religiosa têm, de fato, uma particular ligação com  os  fortes valores e as grandes tradições da vida monástica. Por isso, também na  "Mensagem"  sinodal,  desejou-se reservar um parágrafo ao monaquismo  oriental:  "os Padres do deserto e os monges do Oriente expressaram a 'espiritualidade monástica,  que depois se estendeu ao Ocidente'. Ela è nutrida pela lectio  divina, pela liturgia, pela oração incessante e è vivida na caridade fraterna da  vida comum, na conversão do coração, na separação da mundanidade, no silêncio,  nos jejuns  e nas longas vigílias. A vida eremítica floresce ainda hoje  ao  redor dos  mosteiros.  Esse patrimônio espiritual forjou as culturas  dos  relativos povos e, ao mesmo tempo, foi por elas inspirado".

            Afirma-se em uma das Propositiones (6ª) que se tem em grande estima  "os elementos originários do monaquismo das Igrejas orientais, ou seja: a imitação da kénosi do Verbo, que constitui a raiz do monaquismo oriental; a transformação em imagem de Deus, ou deificação; a renúncia; a vigilância; a compunção; a tranqüilidade; a oblação total de si e de tudo que se lhe refere em holocausto perfeito".

            É interessante notar que no Oriente e entre os Ortodoxos jamais  existiu outra forma de Vida religiosa que não a monástica. Existe ali uma praxe  secular  de radicalidade na seqüela de Cristo; ali existe uma especial  capacidade de diálogo ecumênico entre os vários mosteiros; ali existe uma grande possibilidade  de influxo sobre toda a Igreja local, mesmo porque entre  os  melhores monges costumam ser escolhidos os membros da Hierarquia.

            Nós, em nossa vida consagrada apostólica, olhamos antes de tudo para  as origens apostólicas, mas não podemos prescindir de aprender da vida  monástica o senso de escuta contemplativa, as exigências concretas da kénosis, o exercício da vigilância, o empenho da vida comum com o papel vital da autoridade e o estilo da oblação total de si; precisamos revalorizar nas pessoas e nas  comunidades a dimensão ascética: urge - como já recordamos em outra ocasião -  saber vigiar, cingidos os rins e as lâmpadas acesas!

A mulher consagrada

            As mulheres consagradas são, na Igreja, muito mais numerosas que os  homens consagrados: constituem 72,5 por cento. Contam-se mais de 3.000  Institutos femininos de direito pontifício ou diocesano. E se deve observar que hoje, entre  os  sinais dos tempos, surgiu muito viva a promoção da  mulher,  embora marcada em alguns ambientes por formas de feminismo desviante. É  significativo,  por isso, que no Sínodo se tenha refletido bastante sobre a dignidade  da mulher  consagrada, sublinhando antes de tudo a sua multiforme  capacidade  de manifestar ao povo o rosto materno da Igreja, mas também de reconhecer-lhe  um papel mais adequado nas responsabilidades eclesiais.

            A "Mensagem" sinodal afirma que: "As mulheres consagradas devem participar mais, nas situações exigidas, das consultas e da elaboração de decisões na Igreja.  A  sua participação ativa no Sínodo enriqueceu sobretudo  a  reflexão sobre a Vida consagrada e sobre a dignidade da mulher consagrada e de sua  colaboração na missão eclesial".

            Pela  primeira vez em um Sínodo puderam intervir, durante seis  minutos, os  ouvintes  e as ouvintes, entre os quais estavam também  representantes  de Igrejas  protestantes. Foram escutados em aula belíssimos testemunhos das  ouvintes, algumas desejando um próprio mais adequado empenho de  responsabilidade, mas na maior parte manifestando a própria especial disposição interior  do coração e a heróica sensibilidade no serviço aos necessitados. Particularmente comovente a intervenção de Madre Teresa de Calcutá em uma "audição" (exposição especializada de  um tema pelo espaço de 15 a 20 minutos).

            Irmã Stéphanie-Marie Boullanger iluminou, em sua intervenção, "a  sensibilidade (das consagradas) diante das realidades da criação, o seu senso inato de  vida,  de senso de escuta, de respeito pela pessoa, de diálogo,  que  lhes permitem  instaurar relações humanas autênticas e serem instrumento  de  comunhão".  O Bispo de Bordeux recordou que as mulheres consagradas possuem o  carisma  comum da feminilidade orientada para Cristo em vista da fecundidade  da Igreja;  a consagração delas, disse, "sustenta a consagração de todos os  membros do Povo de Deus".

            O testemunho evangélico feminino, a capacidade contemplativa, a intuição e a delicadeza, a facilidade de diálogo e a coragem de responder aos  desafios mais exigentes, constituem um dos aspectos mais significativos e relevantes no Povo  de Deus. É verdade que, em tempos passados, recordou a Ir. Boulanger,  o modo  de vida e de ação delas em geral dependeu muito dos homens; a partir  do Vaticano II, porém, várias portas foram abertas.

            Os  sinais dos tempos exigem hoje, também na Igreja, uma  revisão  desta situação, reconhecendo a dignidade e as riquezas femininas próprias das mulheres  consagradas e dando-lhes maior confiança e espaços  de  responsabilidade. Certamente um dos frutos do Sínodo será o de abrir a Igreja para esta novidade dos tempos com mais convicção e concretitude.

            Isso tudo fez-me pensar em nossas responsabilidades e modalidade de animação  na Família Salesiana. Existem nela vários grupos de mulheres  consagradas;  pensamos de modo particular nas FMA. Depois do Vaticano  II  entendeu-se melhor a importância de sua mais justa autonomia. Isto solicita nelas  crescimento de responsabilidade e em nós compreensão e conversão à eclesiologia conciliar.

            Trata-se de profundas mudanças de mentalidade, para elas e para nós; nem sempre é fácil caminhar com rapidez e verdade.

            O  problema  é um pouco o seguinte: uma autonomia não  adequada  poderia anuviar a comunhão, que é o aspecto mais importante; a autonomia, com  efeito, não é a meta final; ela é um horizonte desejável para apontar validamente para a  meta final, que é justamente a  "Comunhão": justa autonomia em vista de uma mais autêntica comunhão! Comunhão que não é só aquela eclesial ampla, mas  que se  concentra para nós no carisma comum, legado a nós por Dom Bosco  como  dom precioso  à Igreja para a evangelização da juventude, sobretudo pobre e  popular.

            O Sínodo deve-nos empenhar com mais inteligência e eficácia na  consecução desta comunhão de Família.

            Apraz-me recordar aqui o que Madre Ersília Canta escreveu por ocasião do centenário da morte de Madre Mazzarello: "Se pensarmos no profundo significado que tem na revelação o binãmio 'homem-mulher', parecer-nos-á mais perfeita uma Família  espiritual  composta dessa forma... (De fato), nas  grandes  Famílias espirituais, a começar da de S. Agostinho e de sua irmã (não nomeada, mas  que deu início, com algumas companheiras, à experiência feminina da Regra  agostiniana),  e depois em seguida com S. Bento e Sta. Escolástica, S. Francisco  de Assis  e Sta. Clara, e outras santas duplas de fundadores, a presença da  complementaridade  feminina  è sinal de uma peculiar plenitude e  importância  do carisma, de sua longevidade fecunda e de sua riqueza de contribuições à missão da Igreja.

            Sendo verdade, isso tudo quererá dizer que a contribuição feminina de S. Maria Domingas Mazzarello e do espírito de Mornese ao carisma salesiano apenas começou no passado e deve crescer no futuro".

A plena dignidade dos Religiosos "Irmãos"

            Tratando  da vida religiosa masculina, várias intervenções colocaram  em relevo a figura do assim chamado religioso "irmão"; melhor, em uma das audições  o  Irmão Pablo Basterrechea, ex-Superior geral dos  Irmãos  das  Escolas Cristãs, apresentou particularmente "a vocação do Irmão nas Congregações  laicais, clericais ou mistas".

            O assunto em si mesmo serviu para iluminar a maneira correta de conceber a natureza própria da Vida consagrada. Circula, com efeito, em muitos  ambientes  (mesmo  entre os Pastores) uma concepção superficial da  Vida  consagrada masculina; ela é identificada com a do monge ou do religioso-padre e facilmente  se coloca a do "irm