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O estímulo profético do Sínodo sobre a Europa (ACG 340)

Egídio Viganò

O ESTÍMULO PROFÉTICO DO SÍNODO SOBRE A EUROPA

Atos do Conselho Geral

Ano LXXIII – abril-junho, 1992

340

Introdução. - 0 Sínodo dos Bispos da Europa. - Desmoronamento das ideologias? - Exortação à magnanimidade apostólica. - Caminhos novos por percorrer. O imutável centro propulsor. - Papel dos Religiosos e protagonismo dos jovens. O envolvimento salesiano. - Conclusão.

Roma, Quarta-feira de Cinzas,
4 de março de 1992

Queridos irmãos,

na quaresma preparamo-nos com intensidade para a contemplação do mistério pascal. Nele se concen­tra toda a nossa fé e dele partem todas as perspectivas da nossa missão. Desejo a todas as comunidades um clima espiritual de interioridade pascal, cultivada pelo Diretor e cada um dos irmãos, como luz e energia para os itinerários programados de educação dos jovens na fé.

Espero que neste clima se dê especial destaque à última circular sobre nosso empenho pelas vocações. Nos dados estatísticos da Congregação que se referem a 1991 há um ponto alarmante em relação ao número dos noviços: uma queda de mais de 80 respeito ao ano anterior. Algumas razões poderiam também explicar o fenômeno: duas ou três Inspe­torias, por exemplo, visando a uma reorganização das etapas formativas, suspenderam o noviciado. O dado negativo, porém, permanece como um aviso que conclama a um trabalho mais intenso e partilhado de pastoral juvenil segundo o CG23.

Temos urgência de vocações mais numerosas e qualificadas porque há muita juventude que tem necessidade do carisma de Dom Bosco, e muitas Igrejas locais no-lo pedem com insistência.

De todos os continentes chegam-nos frequentes pedidos.

Ultimamente, depois das grandes mudanças no leste europeu, já nos empenhamos com presenças corajosas e de fronteira. Assim o Administrador Apostólico da Rússia europeia, Mons. Tadeusz Kondrusiewicz, engajou bom número de irmãos nos territórios a ele confiados; além disso — a convite das autoridades civis —, a Inspetoria de Veneza abrirá em Moscou uma escola profissional.

O Administrador Apostólico da Sibéria, Mons. Joseph Werth, que reside em Novosibirsk, convidou-nos também com insistência e confiou-nos a cidade de Aldan (muito mais a leste), que ficará sob a generosa responsabilidade da Inspetoria de Bratislava (Eslováquia).

Iremos também à Albânia, onde a Sé Apostólica solicitou-nos várias presenças: uma escola profis­sional em Tirana e um centro catequético em Scutari. Já se empenharam nesta tarefa algumas Inspetorias da Itália e a Inspetoria da Eslovênia.

Vou ficar por aqui, porque se formos aos outros continentes os pedidos se contam, não estou a exagerar, em centenas.

Mas, além das exigências destas presenças novas, urge outrossim a renovação das presenças antigas, que requerem, para a autêntica incisividade evangelizadora uma qualificada injeção de forças jovens. Nós seguimos a Dom Bosco que sempre nos fez ir adiante, não, porém, de maneira dispersiva. Ele acompanhava sua magna­nimidade com confiança na Providência, alimen­tada por forte espiritualidade, e com empenho solícito e quotidiano pelas vocações, convencido da presença fecundante do Espírito de Deus.

A urgência maior de vocações provém da imensidade atual da messe. Os Pastores rezam e exortam; não se concentram somente nas estruturas apostólicas de ontem, não se encerram no aprisco, mas olham com zelo para o mundo de hoje com seus incontáveis e prementes desafios; consideram-nos como pastores, não para desanimar, mas para enfrentá-los.

Do Vaticano II para cá, nos Sínodos, nas Conferências episcopais, nas viagens papais, nas orientações do magistério, o Sucessor de Pedro e os Bispos nos falam de arrojo profético. Sentem o forte sopro do Espírito que lança o Povo de Deus a um novo começo rumo ao terceiro milênio da fé.

É com esta inquietude de paixão apostólica que quereria apresentar-lhes algumas reflexões sobre o recente Sínodo dos Bispos da Europa. Elas podem iluminar-nos a todos, ainda que atuantes em outros continentes, quanto aos caminhos que se devem seguir para a Nova Evangelização.

Celebrar-se-á dentro de pouco tempo a 4a Assembleia episcopal latino-americana em São Domingos, e o Sínodo africano. Estes e outros eventos eclesiais estimulam-nos a trilhar, com coragem e sabedoria, novos caminhos.

 

O Sínodo dos Bispos da Europa

 

Anunciado inesperadamente pelo Papa em Velehrad (Morávia), em 22 de abril de 1990, realizou-se no Vaticano, de 28 de novembro a 14 de dezembro de 1991. Participaram os Bispos representantes de todos os países europeus, também da Turquia. Estavam presentes, como “delegados fraternos”, os representantes das outras Igrejas e denominações cristãs, e vários convidados. A par­ticipação do Reitor-Mor juntamente com outros Superiores religiosos é, decerto, um dom que se torna também um apelo para toda a Família Salesiana.

O evento fora desejado e preparado como “Sínodo especial” de breve duração. Previa-se uma semana de intercâmbio de testemunhos entre o leste e o oeste relativamente às experiências de fé dos últimos 50 anos, e uma segunda semana de orientações estimulantes e de critérios de ação que servissem para mover concretamente os crentes a se empenharem num novo tipo de evangelização, exigido pelos tempos e pelas situações socioculturais. Não foi um Sínodo do episcopado mundial, como o “especial” de 1985, vinte anos depois do encerramento do Vaticano II; não enten­deu enfrentar temas específicos. Quis intensificar a comunhão entre o leste e o oeste europeu e proclamar o propósito comum de renovar as modalidades do compromisso evangelizador para um futuro particularmente desafiador. Foi mais um evento profético do que um planejamento de caminhada.

A própria “Declaração” sinodal afirma que se trata de um “primeiro passo” feito em direção à aurora do terceiro milénio.[1]

Há na base das orientações do Sínodo uma consideração atenta do significado inerente aos extraordinários acontecimentos europeus de 1989. Os crentes consideram-nos como um “kairós”, ou seja, um momento histórico do devir humano particularmente rico da presença do Espírito do Senhor. Dele emergem reflexões pastorais para avaliar as situações da nova realidade e especificar urgências de evangelização: como se o próprio Deus sugerisse aos Pastores quais os caminhos que deve fazer o Povo de Deus percorrer.

Eis aí, já nesta primeira constatação, um relevo que se deve guardar como em tesouro em toda a parte: a “leitura sapiencial” dos acontecimentos históricos do próprio tempo e contexto. Não se trata de uma leitura meramente sociológica ou política, mas, sim, de uma reflexão de fé atenta e comunitária sobre a perspectiva “pastoral” que nos oferece o devir humano em que estamos inseridos. Para tal fim servimo-nos sem dúvida também das contribuições objetivas das ciências humanas, mas não nos detemos em seu nível; transcendemos esse nível com a fé, preocupados com descobrir nas vicissitudes e interpelações “destes” homens e jovens de hoje as sugestões que Deus nosso Senhor nos oferece a fim de buscar no Evangelho as respostas adequadas para dar aos seus numerosos problemas.

A desatenção ao devir histórico, aos eventos, às situações, à cultura emergente seria uma atitude deveras deletéria, que cortaria as asas à nossa capacidade de nova evangelização.

Seria muito abstrato e evasivo referir-se a um Deus historicamente mudo. O Concílio Vaticano II, ao contrário, ensinou-nos a nos deixarmos guiar pelo Espírito de Deus, não somente com moções interiores (acompanhadas, quem sabe, de erudição teológica), mas também e muito concretamente considerando a sua presença na história que nos interpela continuamente através das vicissitudes da existência para reler com atualidade as respostas do Evangelho.

Diante desta primeira observação acerca da experiência sinodal, pensei com satisfação no nosso CG23, que nos levou justamente a iniciar o caminho da fé fazendo uma séria leitura pastoral da realidade juvenil e seus contextos. Comparada à do Sínodo, a nossa é certamente uma pequena leitura setorial para o trabalho apostólico que devemos realizar entre os jovens; mas também ela deve inserir-se na grande virada histórica lida pastoralmente pelos Bispos.

 

Desmoronamento das ideologias?

 

O Sínodo falou da queda do comunismo como sistema de estruturação da sociedade. A derrubada do muro de Berlim, a nova situação política da União Soviética e dos Países sob sua influência, a desagregação da Iugoslávia, a queda do regime na Albânia foram acontecimentos enormes, inima­gináveis e inesperados, dramaticamente reais e irreversíveis. São, de fato, expressão da seriedade da mudança dos tempos em que vivemos e o colapso de uma ideologia falaz.

Isto, entretanto, não significa que tenham aca­bado as ideologias. Outras existem na Europa Ocidental e no mundo. Além disso, a queda do socialismo real deixa muitas consequências negati­vas de tipo cultural, econômico, político e religioso que permanecem como desafios para a fé e lançam apelos de intervenção para uma nova evangelização, sobretudo entre os jovens.

A reação dos Pastores não foi a de festejar a derrocada dos regimes — muito embora tenham agradecido a Deus esta espécie de “milagre” histórico (estamos lembrando a expressão de indi­zível espanto do presidente da Tchecoslováquia, Sr. Havel) —, mas a de considerar com mais clareza e concretude de empenho a missão específica da Igreja, colocada diante de tantos problemas inédi­tos. Os Bispos não se propuseram responder com sugestões de tipo político, econômico ou cultural — não próprios de seu ministério, bem que sejam frentes de verdadeiro empenho e indispen­sáveis para todos —, mas, com uma preocupação religioso-pastoral, iluminar as mentes e organizar a esperança e os compromissos dos discípulos de Cristo e dos homens de boa vontade.

Da leitura sapiencial dos Pastores sobre os efeitos do desmoronamento do comunismo vem à tona uma observação muito significativa para a evangelização. Falou-se de “catástrofe antropológi­ca” para sintetizar as graves consequências negati­vas do que aconteceu. Constatou-se efetivamente a ferida e o desvirtuamento da liberdade, ou seja, da pessoa, da sua consciência, da sua criatividade, dos ideais que deve colimar, do sentido da vida. Deve-se, contudo, acrescentar que o remédio para tão grave mal não deve ser procurado simplesmente no tipo de liberdade proclamada pelo consumismo.

Lamentavelmente também na Europa deste lado do muro de Berlim havia e há desvios ideológicos que ferem a liberdade do homem e, por isso, prejudicam a pessoa e a sociedade. O Sínodo deseja que a nova evangelização faça com que os cristãos sejam de fato e socialmente “testemunhas de Cristo que nos libertou”, ou seja, proclamadores do Evangelho que “liberta”. O desmoronamento da ideologia dominante no Leste põe em evidência também as deficiências ideológicas do Oeste.

Os estudiosos observam que nestes últimos decênios constatou-se na Europa Ocidental uma dissociação progressiva entre crença e prática cristã, com uma religiosidade “fraca” ou mesmo subjetivista, segundo critérios pessoais. Ao passo que na Europa centro-oriental, não obstante as admiráveis provas de fidelidade a Cristo e à Igreja por parte de não poucos crentes, um elevado número de cidadãos esqueceu a fé e muitos a combatem. Nos países libertados há urgência de atualização cultural e eclesial, há falta de recursos, fragilidade sociopolítica; assiste-se a uma verdadeira miragem do consumismo, e insurgem perigosamente os nacio­nalismos.

Assim, no fim do segundo milênio, já não se pode falar de Europa “cristã”, mas de Europa “pluralista”, com áreas de ateísmo, agnosticismo, indiferentismo, grande presença de outras religiões e grave ruptura interna do Cristianismo. Sem dúvida, permanecem também boas raízes cristãs, que devem ser revitalizadas.

O Sínodo proclama com clareza que a Igreja é convidada, neste contexto, a dedicar-se com urgên­cia à nova evangelização, na qual se coloca o empenho pela reta educação da liberdade humana. Os erros antropológicos não são apenas fruto de sistemas totalitários ateus; são também o resultado do mau uso ideológico de certos dados científicos. É importante que o Evangelho consiga ocupar o espaço usurpado pelas intromissões ideológicas.

Uma tarefa da nova evangelização é a de saber unir com sabedoria três grandes fontes de verdade a serviço da liberdade: a antropologia de atualidade, a leitura em contexto do Evangelho e a Doutrina da Igreja sobre a sociedade. Sem a compenetração mútua destes três aspectos não haverá educação eficaz da fé. O Sínodo insistiu particularmente sobre este tema, fazendo ver que a liberdade não é por si mesma um valor absoluto e individualista, mas que ela própria é ordenada à “verdade” e à “comunhão”. A perfeição da pessoa humana, com efeito, é o amor: o amor de caridade que tem sua fonte na vida trinitária e seu modelo supremo no mistério de Cristo. Na cultura ocidental laicista, ao invés, assiste-se a um ruinoso “desastre do amor” (e, pois, da “liberdade”), por causa dos egoísmos, dos conflitos, do erotismo, das injustiças, da carên­cia de solidariedade. Não há liberdade que ama, se falta o dom de si no sacrifício e na solidariedade. A experiência ensina que os esforços humanos, por si sós, jamais saberão criar o paraíso na terra: nem na pessoa, nem na família, nem na sociedade, nem na convivência mundial.

Deve-se logo notar aqui que não haverá “nova evangelização”, para a Europa e para todos os continentes, se não se souber impregnar de Evan­gelho os progressos humanos da antropologia e da sociologia.

Vem então um apelo do Sínodo pela inculturação do Evangelho. Os evangelizadores de hoje são chamados a cultivar uma séria preparação cultural, dando um lugar não secundário às atuais ciências do homem. A “nova evangelização” é, de fato, “a evangelização do mundo novo”.

 

Exortação à magnanimidade apostólica

 

Qualquer evento eclesial é necessariamente lo­calizado, mas costuma trazer consigo uma resso­nância universal porque interessa à vida da fé, que é de todos ainda que parta necessariamente de uma experiência local.

Afirmamo-lo, de maneira especial, em vista do recente Sínodo. Os Pastores que nele se reuniram estavam plenamente conscientes disso. Preocuparam-se, com efeito, em evitar nas suas sugestões qualquer aspecto que pudesse insinuar até o menor perigo de “eurocentrismo”. Falaram explicitamente de uma futura unidade europeia aberta à solidari­edade universal: “A Europa — diz a Declaração — transmitiu a todo o mundo muitas conquistas culturais e técnicas que hoje constituem um patrimônio da civilização universal. Todavia, a história da Europa conhece também muitos lados sombrios, entre os quais se deve incluir o imperialismo e a opressão de muitos povos com a exploração sistemática de seus bens. Devemos, por isso, rejeitar certo espírito eurocêntrico, cujas consequências podemos hoje reconhecer”.[2]

Assim, é indispensável saber incluir na nova evangelização também um forte sentido de conver­são histórica com vistas a uma sociedade mais solidária, que saiba olhar para além das próprias fronteiras e do próprio interesse. Hoje, o grito de Cristo sofredor chega dramaticamente de muitas partes do mundo: “a este grito é mister responder com opções concretas concernentes, por exemplo, à abolição do comércio de armas, à abertura dos nossos mercados, um tratamento mais justo para a dívida internacional, o apoio a tudo o que pode favorecer o desenvolvimento da cultura e da eco­nomia juntamente com a promoção de governos democráticos. De resto, a própria Europa pode haurir muitas riquezas dos tesouros dos outros povos e das outras culturas... As muitas formas de indigência e os grandes sofrimentos do mundo nos lembram as promessas escatológicas de Deus, que não podem encontrar plena realização nesta terra. Mediante o empenho de solidariedade e de caridade podemos, porém, no coração de uma humanidade dividida e estraçalhada, lançar impulsos e cultivar sementes para a realização futura da perfeição eterna”.[3]

Neste sentido o Sínodo ressaltou oportunamente a generosidade missionária da Europa ao longo dos séculos, convidando a continuá-la e intensificá-la hoje, segundo as possibilidades. As várias interven­ções dos representantes da América do Norte, da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, presentes à assembleia, confirmaram com gratidão este elã missionário, brotado da apostolicidade autêntica de tantos crentes europeus.

Há mais. A lição deste Sínodo se refere também a dois aspectos vitais que interessam em qualquer parte à nova evangelização.

 

O primeiro é o do arrojo apostólico da fé que não se assusta nem se detém diante de uma tarefa imane e, à primeira vista, quase impossível: evangelizar a construção de uma Europa unida; uma centena de povos tão conflituosos, que deveriam conviver e amar-se numa só pátria comum. Quando se pensa nos incontáveis problemas religiosos, políticos, econômicos, culturais, raciais e históricos de tal projeto pode-se chegar a considerar a fascinante meta como uma utopia inatingível. As diretrizes dos Pastores, ao invés, impelem os cristãos a tornarem-se protagonistas do projeto. Será preciso tempo, surgirão dificuldades mil, a complexidade das coisas exigirá ciência, técnica, diálogo, reconciliação, constância. A Igreja sabe muito bem que tal projeto pertence antes do mais à ordem temporal, mas nem por isto se desinteressa por ele: antes, está convencida de que este é um caminho particularmente importante para a sua nova evangelização. Quer ser fiel ao Concílio que afirma: “a obra redentora de Cristo, que por sua natureza tem como fim a salvação dos homens, inclui também a instauração de toda a ordem temporal”.[4] E isto “não só não priva a ordem temporal de sua autonomia, de seus fins próprios, leis, subsídios, importância para o bem dos homens, mas antes a aperfeiçoa em sua expressão e eficácia própria e ao mesmo tempo a equaciona com a vocação integral do homem sobre a terra”.[5]

Destarte, o arrojo apostólico da evangelização não tem medo de enfrentar tarefas imensas relativas à vida concreta da ordem temporal, pois se sente iluminado e acompanhado na sua missão específica religioso-pastoral pelo poder do Espírito de Deus.

Parece-me importante salientar que o coração do evangelizador deve alimentar e cultivar em si, quotidianamente, o ardor de uma esperança teologal. O fato de sentir-se chamado a colaborar numa hora histórica caracterizada por mais intensa presença do Espírito Santo deve habituá-lo a transcender-se a si mesmo e aos próprios limites, certo de sentir-se movido por Ele numa Igreja que “salva” o homem de hoje, enviada a fermentar, como “sacramento”, a mudança epocal, mesmo sabendo que Ele sói apresentar-se com modalidades desconcertantes. A magnanimidade do evangelizador se nutre sempre na fonte da esperança. Poderíamos dizer que o “milagre” de que falou o presidente Havel poderá ser multiplicado na nova pastoral da esperança cristã dos evangelizadores.

 

O segundo aspecto vital é a consciência de que as mudanças a que assistimos hoje no mundo trazem consigo, como diz o Concílio, uma “cultura emergente” que se vai cada vez mais universalizando. A leitura atenta da introdução da “Gaudium et Spes”[6] nos garante que o homem, em qualquer continente, “vive hoje um período novo da sua história”, com uma “verdadeira transformação social e cultural”.[7] Não se trata somente da Europa, mas de uma época histórica que nasce para todos. As culturas de cada povo deverão necessariamente levar em conta essas profundas transformações. “A pouco e pouco prepara-se um tipo mais universal de cultura humana, que tanto mais promove e expressa a unidade do gênero humano quanto melhor respeita as particularidades das diversas culturas”.[8]

A nova evangelização não poderá prescindir deste fato. Deverá ajudar a superar os supervenientes perigos de desvio que provêm dos vários nacionalismos, continentalismos, racismos, ideologismos que encarceram o dinamismo das culturas — naturalmente aberto ao devir de todos os homens — em recintos fechados à universalidade e ao futuro. Perigosos exemplos de semelhante miopia existem um pouco por toda a parte, movidos mais por paixões e projetos parciais do que pela inteligência de fé.

Acontece agora que se está movendo com maior aceleração na Europa o amadurecimento simultâ­neo de vários sinais dos tempos, a ponto de apresentar à fé e ao Evangelho um conjunto de desafios muito urgentes que, se puderem receber uma resposta adequada da Igreja, servirão de estímulo e, em parte, também de vanguarda ins­piradora para todos. Será uma nova evangelização caracterizada pela capacidade de inculturação e por uma autêntica missionariedade, preocupada tam­bém de tantos novos areópagos pagãos, e pela convivência de raças, culturas e religiões diferentes. Mas a construção desta sociedade pluralista é um objetivo que tem necessidade de Deus.

A evangelização de uma nova Europa não será “restauração” de alguma coisa de ontem, mas novo começo da fé numa convivência de povos até agora inédita. Será novidade de presença do Espírito Santo na cultura emergente para dar lugar a uma civilização do amor até agora desconhecida.

A magnanimidade apostólica requer uma men­talidade aberta, nutrida de mundialidade e de solidariedade universal: qualidades, estas, que cres­cem genuinamente no mistério vivo da Igreja de Cristo. Por conseguinte, educar os jovens na fé quererá dizer saber formar neles também os valores da mundialidade e da solidariedade com todos os povos.

 

Caminhos novos por percorrer

 

Numa carta circular enviada cerca de três anos atrás[9] eu lhes falava sobretudo da mudança de mentalidade que supõe em nós a nova evangeliza­ção. Agora o Sínodo dos Bispos da Europa nos propõe alguns grandes problemas que vão emergin­do e se devem enfrentar percorrendo novos cami­nhos. Referem-se propriamente à Europa, mas oferecem de fato luz a todos. São desafios prove­nientes da nova situação cultural e que evidenciam algumas das maiores dificuldades para os agentes de pastoral.

Hoje, no continente europeu, muitos destinatários não conhecem absolutamente a mensagem do Evan­gelho; outros, também numerosos, apesar de o conhecerem, continuam incrédulos ou indiferentes; em não poucos persiste ainda a busca positiva de uma experiência de transcendência, mas acham que a podem encontrar em outras religiões; não faltam os que rejeitam explicitamente o cristianismo: fortemente marcados por um antropocentrismo cientificista que lhes acresce a convicção de já haverem chegado a uma época “pós-cristã”, julgam antiquado, pré-científico e dispensável o patrimônio do Evangelho nos seus pontos mais constitutivos, de modo especial no seu ensinamento moral.[10] Esta situação gera grandes desafios ao Evangelho, se o quisermos ler em contexto. De fato — conquanto pronunciada integralmente vinte séculos faz —, a Palavra de Deus é dirigida aos problemas concretos de todas as gerações. Ora, as atitudes acima citadas são como um indício ou a ponta do imenso iceberg da atual mudança epocal.

Ao perscrutar o contexto, os Padres sinodais destacaram principalmente os seguintes como pro­blemas maiores:

  • a “ótica materialista” com a qual se pretende interpretar a antropologia;
  • o “laicismo político” que deveria ser colocado na base da nova cidade democrática e pluralista;
  • a “vasta faixa pagã”, especialmente de tantos não-batizados, interessados apenas em suas necessidades imediatas;
  • o “relativismo religioso” diante das variadas propostas de transcendência das religiões.

Agora a Europa é de fato um continente pluricultural, plurinacional e plurirreligioso; não poderá tornar-se a pátria comum de uma civilização solidária? O Sínodo responde com esperança. A Europa assemelha-se hoje a um imenso cadinho, ou a um alto-forno, para processar a fusão de um novo tipo de “cidadania”. A evangelização deverá pro­curar novas estratégias para iluminar e responder a desafios até agora desconhecidos, especialmente aos quatro maiores acima mencionados.

Vamos apontar alguns caminhos que, enquanto evangelizadores dos jovens, nos são sugeridos em relação aos temas já referidos.

 

— A ótica materialista, muito difundida, não é uma simples atitude grosseira de ignorantes; ela está antes intimamente ligada ao progresso científico-técnico. Procura-se modelar um tipo de cidadão crítico, seguro de si, formalmente respeitoso dos outros, mas sem convicções ligadas a princípios de transcendência. A pergunta: “que homem para a nova cultura?” responde num plano “racional”, filosófico-científico, que exclui da antropologia um verdadeiro recurso a Deus. É uma mentalidade de “douta ignorância”, que pretende formular, entre outras coisas, uma ética totalmente nova a ser traduzida, quando se pode, também em leis sociais.

O homem seria um ser puramente terreno, para o qual não teria sentido o anúncio evangélico; nem pecado, nem redenção, nem imortalidade. Apresen­tada assim, de maneira tão rápida, poderia parecer a alguém uma ótica fácil de corrigir, mas a realidade é muito outra. O educador da fé é chamado a dar uma resposta competente, e para tanto deverá cultivar pelo menos dois aspectos bastante exigentes e complementares: primeiramente, uma adequada preparação antropológica, para saber dialogar com o atual progresso científico; e, depois, a maleabilidade em fazer ver que a fé não está nunca em verdadeiro contraste com a razão, e que esta é de per si e historicamente aberta à transcendência.

Portanto uma competência, culturalmente nova, sobre o que é o homem neste seu amadurecimento crítico.

Parece-me importante, para nós salesianos, su­blinhar este aspecto. Ele implica uma séria revalorização, por exemplo, da “escola”, em con­cordância com a profunda renovação que para ela pediu o Vaticano II. O caminho da escola pertence certamente à nova evangelização: é a terceira “palavra-símbolo” do nosso critério oratoriano de renovação.[11]

Não vamos deixá-la para poder fazer pastoral moderna! Há nela uma tarefa das mais urgentes para a evangelização. O S. Padre afirmou recente­mente, no primeiro encontro nacional da Igreja italiana sobre a escola católica,[12] que ela é lugar de cultura com finalidade educativa e traz consigo grandes recursos para a nova evangelização. O diálogo entre fé e cultura é fundamental: “a Igreja muito espera da escola católica pela sua própria missão num mundo em que o desafio cultural é o primeiro, o mais provocante e prenhe de efeitos”.[13]

Ressaltou-se com acerto no Sínodo a importân­cia que deverão ter na nova evangelização as Escolas e as Universidades católicas, nas quais a promoção cultural e científica cresce em harmonia com a fé. A declaração sinodal afirma explicitamente que “nos países recentemente libertados do comunismo é premente a necessidade de criar Universidades e Escolas católicas”.[14]

Um caminho novo é, pois, o de repensar a escola conforme as exigências do Evangelho em contexto.

 

— O laicismo político tem forte incidência sobre a dimensão democrática da sociedade pluralista: e isto tem muitas repercussões sobre a vida de fé, sobretudo dos fiéis leigos e dos jovens. Como observa a encíclica Centesimus Annus”, tende-se hoje a considerar o agnosticismo como filosofia e atitude fundamental para uma mentalidade democrá­tica; o crente, convicto de bem definida visão de fé sobre o homem, não seria democraticamente confiável, por não admitir que a verdade seja deter­minada pela maioria e politicamente variável.[15]

Defronte a tal juízo a nova evangelização deverá dar particular importância ao ensino da Doutrina social da Igreja, que ilumina exatamente a convivên­cia democrática com a verdade integral sobre a pessoa e sobre a sociedade.

À sua luz abre-se o vasto horizonte da verdadeira “laicidade”, proclamada com perspicácia pelo Vaticano II, e que envolve na atividade evangelizadora um grande relançamento da vocação e missão dos fiéis leigos no mundo. O “laicismo” é sempre dominado por alguma ideologia que desnatura a capacidade de interpretar corretamente a ordem temporal. Urge apresentar com atualizada lucidez uma fé que saiba perceber em toda a realidade criada as autonomias que o Criador quis e inseriu na própria natureza das coisas.

Eis então também para nós um novo caminho, que devemos percorrer com constância e dedicação na evangelização: o do Projeto Leigos e da dimen­são social da caridade ao qual justamente nos convida o CG23.[16]

 

— A vasta faixa pagã, sobretudo de jovens que nada sabem de Cristo e da sua Igreja, interpela a comunidade cristã. Eles prescindem das habituais mediações pastorais da vida paroquial, têm neces­sidade de intervenções específicas que é preciso inventar com imaginação missionária e pedagogia apropriada. Nesta nova frente, nós salesianos, devemos saber repensar com originalidade a apro­ximação aos jovens e também a hierarquia das verdades reveladas que se devem apresentar; isto exige gradualidade pedagógica e muita criatividade pastoral.

O que nos disse o Papa sobre a “preventividade” deverá, aqui, ser considerado com particular aten­ção: “a arte de educar de modo positivo, propondo o bem em experiências adequadas e envolventes, capazes de atrair pela sua nobreza e beleza; a arte de fazer os jovens crescerem ‘a partir de dentro’, insistindo sobre a liberdade interior, opondo-se aos condicionamentos e aos formalismos exteriores; a arte de conquistar o coração dos jovens para fazê-los querer o bem com alegria e satisfação, corrigin­do os desvios e preparando-os para o amanhã mediante sólida formação do caráter”.[17]

Evidentemente, tratando-se de “missionariedade” juvenil, isto nos aponta, como novo caminho por relançar, o do “critério oratoriano” de Dom Bosco. A nova evangelização exige de nós generosa “refun­dação do Oratório”, que vem a ser afinal quanto nos pede o CG23.[18]

 

— O relativismo religioso parte do fato positivo de alguma abertura à transcendência e da busca de uma experiência religiosa; muitas vezes, porém, leva a expressões religiosas não cristãs. Não se pode esquecer que estão presentes na Europa beneméritas igrejas cristãs não católicas e aumenta cada vez mais o número de emigrados pertencentes a grandes religiões que nasceram em outros continentes: além disso, assiste-se hoje à difusão de várias seitas.

É um dado de fato, muito complexo, que obriga a incorporar intensamente na nova evangelização as exigências próprias de uma mentalidade ecumênica e de uma capacidade de diálogo religioso. É uma situação assaz delicada que deve ser enfrentada com iniciativas várias, à medida dos grupos religiosos, e que devem prosseguir com convicções claras a respeito da própria identidade católica.

Ao caracterizar novos caminhos para a evange­lização, interessam-nos a nós dois aspectos que o evangelizador deve adquirir e aprofundar: ser sinais e portadores de fé com clara “mentalidade ecu­mênica”; e habilitar-se a uma “capacidade de diálogo” para, com gradualidade pedagógica, irra­diar luz sobre o mistério de Cristo, sua objetividade e centralidade.

Este caminho novo toca mais diretamente a formação ou a mudança de mentalidade dos evangelizadores.

Dos dois aspectos indicados, o primeiro (men­talidade ecumênica) exige de nós atenta revisão dos programas de estudo, na formação dos irmãos, no que se refere às outras Igrejas cristãs, às grandes religiões e também ao conhecimento das seitas mais presentes no território. Isto ajudará a cultivar de maneira mais realista a identidade da própria fé católica baseando-se muito sobre dados históricos, não tanto para demonstrar uma tese, quanto para conhecer o pensamento religioso dos homens com os quais convivemos.

O segundo aspecto (diálogo) leva-nos ao Siste­ma Preventivo na sua capacidade de aproximação e intercâmbio, de respeito e simpatia pelas pessoas, mesmo que nem sempre se possam partilhar suas opiniões. É importante fazer reviver em nós, aqui, todo o patrimônio espiritual e metodológico contido no nosso nome-símbolo de “salesianos”; ele exige de nós amabilidade, serviço, diálogo, intercâmbio paciente. Faz-nos repensar, como queria Dom Bosco, em nosso patrono S. Francisco de Sales, em sua extraordinária caridade pastoral, mormente na difícil missão do Chablais.

Urge adquirir entre nós uma mentalidade ecumênica capaz de diálogo.

 

Penso que a consideração destes quatro maiores problemas, expostos embora de forma muito sucin­ta, levará a descobrir caminhos novos, no intensi­ficar a qualidade pastoral da escola, como no empenhar-se em programar e realizar o Projeto leigos e a dimensão social da liberdade; no relançar o Oratório com iniciativas de associacionismo, como no formar uma mentalidade de diálogo com respeito às várias experiências religiosas.

Por esta forma, a nova evangelização crescerá como força dinâmica na complicada mudança epocal que nos desafia. A fé é energia do devir e fidelidade à missão recebida de Deus. Não é passividade nem repetição. E um novo começo. Custa. Mas é indispensável.

 

O imutável centro propulsor

 

Há na Declaração do Sínodo uma precisa tomada de posição para garantir a autenticidade da evangelização num contexto tão novo e diversificado. “Não é suficiente — lê-se no texto — tomar todas as diligências para difundir os ‘valores evangélicos’ como a justiça e a paz. Somente anunciando a pessoa de Jesus Cristo é que a evangelização poderá dizer-se autenticamente cristã. Os valores evangélicos, com efeito, não podem ser separados de Cristo, que lhes é fonte e fundamento e constitui o centro de todo o anúncio evangélico”.[19] Trata-se de perceber e fazer descobrir em Cristo o grande desafio atual de uma nova opção de Deus: não o Deus que nós poderíamos imaginar, mas aquele que é objetivamente verdadeiro em si e na história; não uma elaboração religiosa vinda de baixo, mas uma revelação divina do alto, de tipo histórico: não a profecia imperfeita de um homem, mas a encarnação humana de Deus; não uma repetição de viciados, mas a descoberta entusiasmante de cada dia.

Um Deus que nos ama, um Deus que nos cria, um Deus que nos fala, um Deus solidário que sofre e vence conosco. Não um Deus desconhecido e distante, mas um Deus que está perto de nós como Pai, um Deus que se faz um de nós, um Deus que vem para nós e nos perdoa o pecado, um Deus que nos reconstrói a partir do interior até fazer-nos superar a própria morte, um Deus que não nos tira a dor, mas a faz frutificar para a felicidade definitiva. O Evan­gelho de Cristo consiste em proclamar a cada um de nós: Deus te ama, Deus está contigo, Deus te salva!

Apraz-me lembrar aqui uma reflexão que fize­mos ao tratar pela primeira vez o tema da nova evangelização. Devem-se considerar seriamente, dizíamos, tantas “novidades” próprias do devir cultural; deixar de fazê-lo haveria de paralisar-nos. Mas “hoje, como ontem e como amanhã, perma­nece viva, fascinante e decisiva a suprema novidade do Cristianismo na história: a da Páscoa de Cristo.

É uma novidade de tipo histórico-teologal. Não basta reconhecer-lhe em abstrato a excepcionalidade; urge apresentá-la como a mais importante ‘notícia’ para o hoje, que maravilha, renova, sabe responder às interrogações mais angustiantes, que abre à transcendência a vida de cada um e a história da humanidade: trata-se da misteriosa dimensão escatológica (ou seja, da meta final, já realmente presente e influente) que incide também sobre as culturas humanas, ilumina-as, julga-as, purifica-as, discerne-lhes os valores emergentes e pode promovê-los. A nova evangelização apoia-se toda neste evento supremo: o ‘novíssimo’ por excelência! Não há nem haverá jamais novidade maior do que esta: é medida de comparação para qualquer outra novidade; não envelhece; é a perene e máxima maravilha da inserção de Deus na história; é a criação nova que se antecipa no nosso mundo velho. É preciso saber tornar visível e comunicar esta suprema novidade”.[20]

Este é o Evangelho. Não há outro! Não pode mudar porque nem mesmo Deus saberia inventar evento maior do que este; ele é para sempre a expressão suprema do seu amor para com o homem. Se se fala de “nova” evangelização é “porque — diz o Sínodo — o Espírito Santo torna sempre nova a Palavra de Deus e estimula conti­nuamente os homens em seu íntimo. É nova, esta evangelização, também por não estar ligada imutavelmente a uma determinada civilização, podendo o Evangelho de Jesus Cristo resplandecer em todas as culturas”.[21]

Papel dos Religiosos e protagonismo dos jovens

 

A missão evangelizadora é tarefa de todo o Povo de Deus. No novo modo de a Igreja relacionar-se com o mundo emerge uma exigência muito impor­tante para o compromisso dos fiéis leigos. Eles se colocam em primeira linha nas novidades da ordem temporal e da cultura emergente. Junto com eles, porém, e como alma dinamizadora, acha-se a Vida Consagrada, que lembra a todos, com especial intensidade, que não se pode transformar o mundo e oferecê-lo ao Pai sem o espírito das bem-aventuranças.[22] Por isso, os Religiosos e as Religi­osas ocupam um lugar estratégico na nova evangelização. A história faz-nos observar que se deve a eles em grande parte a primeira evangelização dos cinco continentes. Paulo VI, na exortação Evangelii Nuntiandi, fala com reconhecimento da sua “contribuição huma­na” de ontem e de hoje: “Graças à sua consagração religiosa, eles são por excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir anunciar o Evangelho até as extremidades da terra. São empreendedores, e o seu apostolado é muitas vezes marcado por uma origina­lidade e por uma feição própria, que lhes granjeiam forçosamente admiração. São generosos; encontram-se com frequência nos postos de vanguarda da missão e a arrostar com os maiores perigos para a sua saúde e para a sua própria vida. Sim, verdadeiramente a Igreja deve-lhes muito”.[23] e [24]

Os graves problemas do contexto precisam com urgência da renovação dos Religiosos/as, com o testemunho de uma maior qualidade da sua iden­tidade e do seu apostolado: “as suas comunidades poderão oferecer a toda a Europa o testemunho vital do radicalismo evangélico, se neles se tornar ainda mais intenso o apelo ao que é essencial na vida consagrada”.[25] Este “se” nos faz refletir muito. As tarefas principais por realizar são: o primado da espiritualidade; a consciência da eclesialidade dos carismas da Vida religiosa e a necessidade de uma pastoral de conjunto inspirada no ainda atual documento pastoral Mutuae Relationes.

Eis o ponto! Os Religiosos, primeiros evan­gelizadores dos continentes, estavam possuídos de uma fé ardente, eram apóstolos da Igreja e colabo­radores dos Pastores. Para nós salesianos, na nossa pequenez, podemos lembrar nomes como Cagliero, Fagnano, Milanesio, Lasagna, Costamagna, Balzola, Evasio Rabagliati, Cimatti, Versiglia e Caravario, etc. O exemplo que nos deixaram pede-nos que renovemos a qualidade do testemunho e da ação. Já é clássica a afirmação de João Paulo II: “novidade de ardor, novidade de método, novidade de expres­sões”. Numa entrevista com o teólogo Max Thurian sobre “que nova evangelização?”, perguntaram-lhe se existe algum modelo de evangelizador que hoje o fascine de modo particular. Respondeu sem maiores delongas que considera um modelo sublime o santo Cura d’Ars, que se tornou, entre os seus, mediador convincente de quem é Deus e da sua infinita misericórdia. Ou seja, que há mister no evangelizador de uma capacidade de contato e de transmissão do mistério de Cristo que realmente lhe impregne a existência pessoal: mais testemunho que arrazoados.

Pois bem, se nós salesianos nos perguntássemos a quem volver os olhos a fim de encontrar um modelo inspirador, penso não haver a menor dúvida em dizer que devemos olhar para Dom Bosco. Certamente não para aprofundar as novidades culturais de hoje, mas para refletir com ele sobre os três elementos assina­lados pelo Papa com vistas à eficácia da nova evangelização. Dom Bosco evangelizador dos jovens é para nós estímulo e modelo de cada um dos três elementos: o ardor, o método e as expressões.

  • No ardor: Dom Bosco nos ensina a intensidade pastoral do “Da mihi animas”; é o primado do espírito salesiano que deve caracterizar a novidade do nosso ardor. Foi o empenho que assumimos nos anos pós-conciliares; descurá-lo seria tornar-nos incapazes de educar na fé.
  • No método, ou seja, na arte educativa com a qual Dom Bosco viveu sua praxis pastoral, levando em conta as atuais exigências da “nova educa­ção”.[26] O Santo Padre escreveu-nos a carta “Iuvenum Patris” precisamente para revalorizar este tesouro de criteriologia educativa.
  • Nas expressões: refletindo sobre a incansável criatividade apostólica de Dom Bosco, lembramos, por exemplo, suas iniciativas (bastante originais para os contemporâneos) quanto ao tempo livre, o tipo de escola popular, o encaminhamento para o mundo do trabalho, a comunicação social, a con­fiança no associacionismo juvenil. Existem hoje tantas situações inéditas que requerem evangelizadores inventivos, movidos pelo mesmo ardor espiritual e pelos mesmos critérios meto­dológicos de Dom Bosco.

O CG23 convidou-nos a “refundar o Oratório” com a renovação em fidelidade dinâmica a estes princípios que brilham no nosso Fundador. Inspirando-nos nele, queremos ser de fato protagonistas da nova evangelização.

O recente Sínodo faz, depois, um especial apelo aos “jovens para que sejam, antes do mais, eles próprios os evangelizadores das novas gerações”.[27] Devemos empenhar-nos em ser portadores e ani­madores desse apelo, convencidos de que “os jovens — assim lemos na Christifideles Laici — não devem ser considerados simplesmente como o objeto da solicitude pastoral da Igreja: eles são de fato, e devem ser encorajados a sê-lo, sujeitos ativos, protagonistas da evangelização e artífices da renovação social”.[28]

As deliberações do CG23 devem ser atentamente estudadas em cada uma das comunidades a fim de programar concretamente a sua execução.

 

O envolvimento salesiano

 

Acredito ser um dever do Reitor-Mor convidar os irmãos a vibrarem concretamente com a Igreja, nas suas experiências de Espírito Santo e nos seus corajosos propósitos apostólicos. O Sínodo dos Bispos da Europa é um evento eclesial que nos deve sacudir; em primeiro lugar os irmãos da Europa, mas depois – de diferentes maneiras — todos nos cinco continentes. Assim o saberão fazer, mais adiante, os irmãos da América Latina e em seguida os da África após os respectivos Sínodos episcopais, cuja ressonância atingirá toda a Congregação. Cada um desses eventos é um momento de graça para a Igreja Universal e, pois, para toda a Congregação.

Entrementes as Inspetorias europeias (40!) estão empenhadas, em junho próximo, numa reunião de todos os Inspetores na Casa Geral a fim de estudar, juntamente com o Reitor-Mor e o Conselho Geral, as iniciativas que se devem tomar para trilhar — em concordância com os demais grupos da Família Salesiana — as pistas indicadas pelo Sínodo. Haverá em agosto, no Colle Don Bosco, o “Confronto-92” com os jovens das nossas presenças europeias a fim de encaminhá-los para o futuro nesta direção. Já tivemos, em Roma, reuniões com alguns Inspetores do Leste acompanhados de seus Conselhos para discernir o que fazer diante dos complexos proble­mas que recentemente surgiram; assim também com os Delegados de pastoral juvenil dessas regiões porque eles têm de criar com urgência toda uma nova maneira de aproximar-se dos jovens.

Em suma, há, em sintonia com o Sínodo, uma grande vontade de comunhão e participação, que estimula sobretudo a renovação da nossa pastoral juvenil. O fato de tender para um fim faz crescer vitalmente nessas Inspetorias o sentido de Igreja e oferecerá contínuas e promissoras sugestões de criatividade apostólica.

Todas as Inspetorias devem inspirar-se em quanto a celebração deste Sínodo significa para a Igreja universal.

Entre os aspectos estimulantes podemos subli­nhar os seguintes:

  • a consciência da importância histórica da hora que vivemos e a sua leitura “sapiencial” para a renovação da ação pastoral;
  • a educação numa fé que seja energia de vida para a pessoa, para a família, para a renovação da sociedade;
  • a magnanimidade apostólica e a esperança radicada no poder do Espírito Santo para projetar grandes empenhos apostólicos para o futuro;
  • a urgência e a verdadeira natureza da nova evangelização com a centralidade do mistério de Cristo na perspectiva de muitos caminhos por percorrer;
  • a interpretação evangélica de uma virada antro­pológica freada por desvios ideológicos vários, que exige a luz da verdade revelada em favor da liberdade humana;
  • a inculturação do Evangelho como dimensão missionária da educação da fé: um novo humanismo que deve ser purificado e promovi­do, no qual apareça claramente também uma justa promoção da mulher;
  • a superação de todo nacionalismo e continentalismo mediante uma formação concreta para a solidariedade universal;
  • a dedicação à formação do laicato, que ocupa um lugar de fronteira na missão da Igreja pelo mundo;
  • o intercâmbio de dons entre experiências eclesiais diversas com o surgimento de um vivo testemu­nho do mistério da cruz e da indispensabilidade vital do ministério de Pedro;
  • o desejo de inseparabilidade, no coração dos evangelizadores, entre “espiritualidade”, “liturgia” e “teologia”, como testemunho de síntese vital da fé;
  • a formação da consciência no delicado campo da conduta moral, etc.

 

Esses aspectos todos (e ainda outros) entraram de alguma maneira no clima das intervenções, diálogos e documentos do Sínodo dos Bispos da Europa.

É conveniente, por isso, guardar como tesouro esta visita do Espírito Santo numa hora histórica que congrega cada vez mais os povos, com suas culturas, para uma convergência universal, onde a fé cristã é luz de verdade e força de coesão.

 

Conclusão

 

No Sínodo falou-se com frequência de Nossa Senhora. Reconheceu-se repetidas vezes e com comoção sua materna proteção durante os escuros anos da terrível ditadura. Insistiu-se em afirmar que os grandes acontecimentos de 1989 estão ligados a uma sua especial intervenção. Sua maternidade em relação à Igreja na história é permanente e miste­riosamente eficaz. Ela é de fato a Auxiliadora dos cristãos.

Ao tratar da nova evangelização, o Sínodo pensou nela, sempre unida a nós em atitude de oração, no coração da Igreja como em Pentecostes, para invocar com firme esperança o Espírito Santo; foi lembrada, a propósito, a afirmação de Paulo VI: “seja Ela a Estrela da evangelização sempre reno­vada”.[29]

E como todos os verdadeiros apóstolos da fé têm necessidade de contínua auto evangelização, “me­diante a oração e a meditação assídua da Palavra de Deus, além do esforço quotidiano de a pôr em prática,[30] olhou-se para Ela como modelo altíssimo que “nos ensina a acolher em nós a Palavra de Deus e a colocá-la em prática com todo o coração: ‘e sua Mãe conservava todas estas palavras no seu cora­ção’ (Lc 2,51). Assim Ela acompanhou, ao lado de seu Filho, o início da evangelização”.[31]

Os padres sinodais invocaram Maria com o título de “Odiguitria”, porque aponta a todos o caminho para chegar a Cristo e para avançar continuamente rumo à verdadeira fé.

Com esta confiança, fruto de viva esperança, é que recorremos a Ela, convencidos de que todo o nosso empenho de educação dos jovens na fé tem n’Ela a Mestra e a Guia.

Dom Bosco nos ensinou a amá-la e a invocá-la como Auxiliadora justamente pela sua permanen­te maternidade sempre ativa ao longo da peregri­nação da Igreja através dos séculos.

Podemos pensar que o recente Sínodo foi um dom significativo da Mãe da Igreja para melhor nos encaminharmos para as metas do terceiro milênio.

Sejamos-lhe agradecidos e sintamo-nos convida­dos por Ela a assumir com coragem o árduo e complexo mister de sermos evangelizadores dos jovens hoje.

Uma saudação cordial a todos na alegria do mistério pascal.

Com afeto, em Dom Bosco,

 

[1] Alguns dados deste Sínodo:

Participantes.

138 membros: 29 Bispos do Leste e 38 do Oeste; 11 Delegados fraternos (estavam ausentes os representantes de 5 igrejas ortodoxas: Rússia, Romênia, Sérvia, Bulgária e Grécia); 8 Superiores religiosos; vários “auditores” e “adjutores” e outros convidados, entre os quais o Presidente, Vice-presidente e Secretário da Conferência Europeia dos Religiosos/as e de algumas outras.

Reguladores.

3 Presidentes delegados (cardeais: Lustiger, Klemp, Martínez Somalo);

1 Relator: Card. Ruini, com 2 secretários especiais: Mons. Vilk, Mons. Lehemann;

1 Secretário geral: Mons. Schotte.

Documentos principais.

Indicações da Secretaria do Sínodo, 12 de abril de 1991

Carta do Papa enviada de Fátima, 13 de maio de 1991

Carta sobre as relações com os Ortodoxos, 31 de maio de 1991

Discurso do Papa à Comissão preparatória, 5 de junho de 1991

O “Sumário”, 10 de novembro de 1991;

As duas relações do Card. Ruini “antes e depois das intervenções no plenário”;

Os discursos do Papa;

A Declaração.

Desenvolvimento.

15 Congregações gerais;

125 intervenções orais;

6 sessões de círculos linguísticos (de 12 grupos);

5 audições de convidados especiais.

 

[2] Declaração 11.

[3] Ib.

[4] Apostolicam Actuositatem 5.

[5] Ib., 7.

[6] Gaudium et Spes 4 a 10.

[7] Ib., 4.

[8] Ib., 54.

[9] ACG 331.

[10] Numa pesquisa de 1981, por exemplo, feita em nove Paí­ses ocidentais (Grã-Bretanha, Alema­nha, França, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, Irlanda, Dinamarca), apresentam-se os se­guintes dados: Os que creem de alguma maneira

  • em Deus, são 75%
  • na alma, 58%
  • no pecado, 57%
  • na vida após a morte, 43%
  • no diabo, 25%
  • na reencarnação, 21%

Cf. J. SOETZEL: / valori dei tempo pre­sente. Un’inchiesta europea, SEI. Tu­rim 1984, c. 4

 

[11] Cf. Const. 40.

[12] 20-23 de novembro de 1991.

[13] L’Osservatore Romano, 24 de novembro de 1991.

[14] Declaração, 246 e 203ss.

[15] Cf. Centesimus Annus, 46.

[16] Cf. CG23 246 e 203ss.

[17] Iuvenum Patris, 8.

[18] Cf. CG23, 345-350.

[19] Declaração, 3.

[20] ACG 331, p. 11-12.

[21] Declaração, 3.

[22] Cf. Lumen Gentium, 31.

[23] Evangelii Nuntiandi, 69.

[24] Os Religiosos e as Religiosas hoje, na Europa, são 460.000: metade do número mundial.

[25] Declaração, 5.

[26] Cf. ACG 337.

[27] Declaração, 5.

[28] Christifideles Laici, 46.

[29] Evangelii Nuntiandi, 82.

[30] Declaração, 5.

[31] Declaração: conclusão.