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Uma mensagem eclesial de nova evangelização (ACG 343)

Egídio Viganò

UMA MENSAGEM ECLESIAL DE NOVA EVANGELIZAÇÃO

Atos do Conselho Geral

Ano LXXIV – janeiro-março, 1993

343

Introdução — Estivemos presentes em “Santo Domingo” — Como entender pastoralmente a Nova Evangelização — Os vários aspectos de “novidade” — O papel do método educativo — A escolha da prioridade por privilegiar — Uma pastoral juvenil orgânica — O envolvimento dos fiéis leigos — A insistência em renovada espiritualidade — Maria, Estrela da Nova Evangelização.

Roma, 12 de dezembro de 1992,
Festa de Nossa Senhora de Guadalupe.

Queridos Irmãos,

pude visitar, nos meses passados, vári­as Inspetorias na América Latina, na Eu­ropa e na índia. Na sessão plenária do Conselho Geral em curso, estamos a ana­lisar os numerosos Capítulos Inspetoriais chegados até agora. Pode-se dizer que se está trabalhando seriamente na Congrega­ção para a aplicação do CG23 com suas exigências    educativo-pastorais concretas.

“A aurora, de uma ‘nova evangelização’ — lê-se no texto capitular — convoca-nos a um empenho na construção de uma nova sociedade mais humana e pede-nos, sobre­tudo, que renovemos em contextos novos, como num salto de qualidade, a nossa fé na Boa Nova trazida ao homem pelo Senhor Jesus”.[1] Os desafios que aprofundamos no Capítulo “não são dificuldades passageiras, mas indicações de uma ‘mudança de época’ que devemos aprender a avaliar à luz da fé”.[2]          

“Pessoa e comunidade — lembra-nos ainda o texto capitular — são transformadas por uma ‘nova cultura’, atenta não só às exi­gências da moral individual, mas à totali­dade das necessidades do ser humano”.[3] Por isso, “a tarefa de educar os jovens na fé dentro do contexto da nova evangelização leva a comunidade a examinar-se e renovar-se à luz do Evangelho e da nossa Regra de vida”, como comunidade que seja não somente “sinal de fé”, mas também “escola de fé” e “centro de comunhão e participa­ção”.[4] O CG23 introduziu-nos claramente na órbita da “nova evangelização” à vista da cultura emergente.

Em outubro passado, de 12 a 28, em Santo Domingo, nas Antilhas, o Episcopado latino-americano tratou do ponto de vista pastoral justamente do tema da nova evangelização. Os Bispos se referiram, é claro, aos contextos desse continente, mas penso ter sido um evento eclesial que pode sugerir elementos válidos também às outras Igrejas e, de modo particular, à nossa Congregação nas várias partes do mundo.

Por esse motivo, parece-me oportuno convidá-los a refletir sobre algumas indi­cações pastorais daquele evento, que trazem luzes e confirmam nossos compromissos pós-capitulares. As reflexões que faremos não constituem um estudo do documento de Santo Domingo, tão rico em sugestões e propósitos pastorais, mas tão-somente uma visão geral que serve para iluminar nossos empenhos e mais ainda estimular-nos. São mais expressão de uma experiência vivida que fruto da análise de um texto.

 

Estivemos presentes em “Santo Domingo”

 

A Assembleia episcopal de Santo Domingo foi convocada pelo Santo Padre João Paulo II, que dela participou nos primeiros dias, sobretudo com o discurso inaugural, programático, e com orientações concretas a vários grupos. Os participantes eram mais de 350. Estava entre eles um cardeal sale­siano, o Em.mo Miguel Obando Bravo, onze irmãos bispos, o Reitor-Mor e três sacerdo­tes, duas FMA; encontrei também, fora da Assembleia, quatro ou cinco irmãos na qua­lidade de jornalistas.

Dia 29 de outubro, após o solene encer­ramento do dia anterior, na antiga e monumental catedral da cidade, o Reitor-Mor, com dois irmãos bispos participantes e com um irmão teólogo que havia sido também membro da assembleia, partiu para a Colôm­bia onde, numa casa de retiro das FMA (em Fusagasugá, cercanias de Bogotá) se reali­zou uma reunião de três dias de estudo do documento de Santo Domingo com todos os inspetores da América Latina (e dos Estados Unidos), convocados pelos dois Conselheiros regionais, P. Guillermo Garcia e P. Carlos Techera.

Pudemos, então, refletir sobre as projeções pastorais da Assembleia para as nossas Inspetorias diretamente interessa­das. Os objetivos e os conteúdos do nosso CG23 fizeram-nos sentir em substancial sintonia com as conclusões do episcopado.

Agradou-nos o apelo aos adolescentes e aos jovens dirigido pelo Papa e pelos Bispos para um corajoso protagonismo na nova evangelização. Também despertou em nós particular interesse a preocupação do Papa e dos Bispos pelos “meninos da rua”. É a primeira vez que se alude a esse grave fenômeno no vértice das responsabilidades pastorais, e foi consolador constatar que naquelas nossas Inspetorias, a começar pela própria cidade de Santo Domingo (os Sale­sianos e também as FMA), já se acham generosamente empenhados em várias ma­neiras de serviço à juventude necessitada.

A Família Salesiana não esteve presente — é óbvio — na grande epopeia da primeira evangelização. Hoje, porém, está decidida a assumir as tarefas da nova evangelização. E é muito numerosa. Considerando apenas os SDB e as FMA, contam-se no continente mais de 10.300 consagrados (4.709 SDB, com 547 presenças; e 5.624 FMA, com 511 presenças). É urgente garantir a toda a nossa Família, na América Latina e no mundo, um cresci­mento de qualidade pastoral.

Alguns aspectos mais característicos da 4ª Assembleia Episcopal latino-americana (a 1ª foi no Rio de Janeiro em 1955, a 2ª em Medellín em 1968, a 3ª em Puebla em 1979) podem iluminar também o compromisso da nova evangelização para a nossa Congregação no mundo. Para tanto, tentamos especi­ficar aqui os principais.

 

Como entender pastoralmente a nova evangelização

 

O título inicial do tema a tratar em Santo Domingo era: “Uma nova evangelização para uma nova cultura”. Parecia a formula­ção mais clara e sintética para orientar os trabalhos da Assembleia.

No roteiro de preparação orientado pelo CELAM (Conselho episcopal latino-americano), após três documentos sucessivos de consulta, o próprio Papa quis que se mudasse o título. A formulação sugerida, que depois se tornou definitiva, é a seguinte: Nova Evangelização - Promoção humana - Cultura cristã: Jesus Cristo ontem, hoje e sempre (Hb 13,8).

Não se queria que a Assembleia fosse uma celebração de caráter histórico-cultural. Entre “descobrimento” da América, sua “ocupação” ou “conquista” e “primeira evangelização”, somente este último aspecto foi considerado. Nem se quis que a Assembleia se tornasse um confronto entre discutidas posições teológicas, mas fosse de ver­dade um relançamento apostólico global de tipo operativo e dinâmico. Que não viesse a dar exatamente numa “reevangelização” nem numa crítica à primeira evangelização, e muito menos num empobrecimento cultural do Evangelho, mas, sim, numa renovada atitude pentecostal do Povo de Deus para proclamar corajosamente a inefável presen­ça do Cristo vivo. Senhor da história, “o primeiro e maior evangelizador” (João Paulo II), que sabe responder aos atuais gigantes­cos desafios do continente.

Depois de Puebla, deu-se no mundo a queda do socialismo real no leste da Europa. Ela fez constatar a derrota de insidiosas atitudes ideológicas e também apresentou, de fato, um convite a não mais abraçar nenhuma outra ideologia de caráter materi­alista. Os Pastores consideram com atento discernimento a economia de mercado, mas não confiam no neoliberalismo. Querem a libertação total do homem, não só do pecado pessoal, mas também de toda sede de poder que gere egoísmos e estruturas de injustiça.[5] A 4ª Assembleia Episcopal latino-americana surge como a mais solene proposta magisterial, depois deste fato histórico, para uma nova época de pastoral centrada na nova evangelização. E quis apresentar com originalidade pastoral uma visão clara da ótica e das orientações que se devem seguir.

À primeira vista, poder-se-ia dizer que a mudança do título do tema torna-o mais complexo, porque apresentaria três níveis diferentes (Evangelho, Promoção, Cultura) a serem considerados quase de forma autôno­ma. Tal interpretação de suposta tríplice autonomia foi, ao invés, excluída das refle­xões da Assembleia. A expressão da carta aos Hebreus, colocada no mesmo título — Jesus Cristo ontem, hoje, sempre (Hb 13,8) — é o fio condutor que une o todo numa ótica pastoral orgânica. Destarte, apresentou-se a nova evangelização com uma visão unitária bem concreta e realista. Para tal fim, é indispensável, decerto, uma apresentação do Cristo pascal e uma adesão ao seu mis­tério de salvação histórica que conserve inseparáveis, na ação apostólica, os vários aspectos indicados no título: nova evange­lização que ao mesmo tempo “catequiza”, “promove” e “incultura”. O caminho de Cris­to (e da Igreja) é o homem, não o anônimo e abstrato, mas o situado, que vive no tempo com os problemas do seu hoje, na cultura que o caracteriza, no território da sua existên­cia. Se a nova evangelização não se projetasse, exatamente em nome de Cristo, sobre a promoção humana e a inculturação, não seria autêntica e não faria amadurecer a fé como energia da história. Há, nisto, uma perspectiva original que, como se sói dizer, faz a pastoral sair das sacristias, mas também das centrais da ideologia e da po­lítica.

Assim sendo, a nova evangelização é apresentada em Santo Domingo não tanto como um desenvolvimento de reflexões doutrinais (que, por certo, são importantes), quanto como um conjunto de condições e meios aptos para fazer descobrir e fazer agir o mistério de Cristo nas situações de vida. Isso trouxe algumas inovações seja no momento do “ver” a realidade, seja nas “linhas pastorais prioritárias” a serem assumidas como propósitos para a ação pastoral.

Essa visão, complexa, mas orgânica, da nova evangelização foi a ideia central, onipresente, que congloba todo o trabalho da Assembleia. Os muitos argumentos tratados devem-se considerar à luz do tema central. Por isso, seria desnaturar o documento final querer afirmar — como ouvi dizer a alguém — que a forma melhor de o ler seria a de começar pela promoção humana.

Os vários argumentos que tratam da or­dem temporal, assim como os que dizem respeito aos evangelizadores (ministérios ordenados, vida consagrada, comunidades eclesiais), ou como os que se referem às culturas indígenas e à comunicação social, etc., não tiveram na intenção dos Pastores um desenvolvimento por si, como se fossem argumentos separados, mas foram de propó­sito ordenados ao tema total da nova evangelização, à luz do mistério de Cristo na história. Lê-los de forma setorial significa­ria perder o sentido orgânico do texto. Sua peculiar significatividade pode-se perceber claramen­te pelos títulos colocados nas três partes do documento final:

1ª parte: Jesus Cristo Evangelho do Pai;

2ª parte: Jesus Cristo, evangelizador vivo em sua Igreja;

3ª parte: Jesus Cristo, vida e esperança da América Latina e do Caribe.

“Ver” as situações e os problemas é indispensável, não, porém, começando imediatamente e só de uma análise inde­pendente deles, o que poderia dar ensejo (como de fato já se observou) a opiniões preconcebidas com resíduos ideológicos que, depois, viriam a influir na própria ação apostólica. Ao contrário, garantir desde o início a ótica pascal ajuda a “ver, julgar e agir” com uma perspectiva genuinamente pastoral.

Por conseguinte, a nova evangelização proposta em Santo Domingo concentra certamente a atenção dos Pastores sobre a realidade concreta do homem na situação em que se encontra, mas o faz a partir da luz libertadora do riquíssimo mistério de Cristo, apresentado como a grande novidade e a mais bela notícia de hoje: tudo de Cristo, com Cristo e por Cristo, para “ver, julgar e agir” em consequência.

Essa opção de fundo tem o grande mérito de poder, depois, apresentar a nova evange­lização como absolutamente inseparável da promoção humana e da inculturação, sem por isso cair na tentação de perigosos reducionismos.

 

Os vários aspectos de novidade

 

A evangelização é “nova” porque surgiu objetivamente das prementes “novidades” que interpelam a Igreja. Será útil para todos, e particularmente para nós, poder ver como as individuou Santo Domingo.

Refletindo sobre os debates e os passos dados pela Assembleia e sobre a estrutura e conteúdo do documento final, podemos encontrar as “novidades” em dois níveis complementares:

  • novidade de conteúdos, tanto no Evangelho como nos tempos;
  • novidade nos sujeitos, ou seja, nos prota­gonistas da nova evangelização.

 

  1. Antes do mais, novidade na apresentação do Evangelho

 

Não se trata evidentemente de apresentar “outro” Evangelho, mas de dedicar-se a apre­sentar Cristo, o “Homem novo”, como a primeira e maior novidade hoje. Ele está vivo e presente, é o Senhor da história: como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, é o Evangelho do Pai criador; sem Ele nada foi feito de quanto existe; a Ele se ordena toda a ordem temporal cuja justa laicidade ilumi­na.

Diante dos desastres do pecado, Cristo é o Redentor, o único verdadeiro libertador, pelo caminho do amor e não da violência. Tendo subido ao céu, Ele envia — com o Pai — o Espírito Santo, construindo dessa maneira na história a Igreja que é o seu “Corpo”, sacramento de salvação, com várias medi­ações características para a edificação do Reino.

O Reino identifica-se inicialmente com o homem Jesus e está presente em germe e como causa de dinamismo na missão da Igreja. A meta do Reino é o homem, o homem concreto: a fé evangeliza sua promoção e leveda sua cultura.

Cristo é o primeiro e o último; voltará, mas já dá agora uma dimensão escatológica aos tempos. Tudo isso deve ser aprofundado como a grande luz que nos faz ler a his­tória.

Pode-se justamente dizer que os Bispos, em Santo Domingo, “celebraram Jesus Cristo”, conforme a exortação que lhes fez o Santo Padre João Paulo II.

Esta novidade de apresentação convida a repensar, para a nova evangelização, a “cristologia”, a “eclesiologia” e a “antro­pologia”, que juntas concorrem para formar a ótica pastoral com a qual se consideram as situações reais e se procura individuar os desafios mais prementes que delas pro­cedem.

Neste sentido, seria útil para nós reler pessoalmente a carta circular sobre a nova evangelização, de 8 de setembro de 1989.[6]

Dizia-lhes nela precisamente que Jesus Cristo é a novidade suprema e sem ocaso. “Não é suficiente — escrevia eu — reconhecer-lhe abstratamente a excepcionalidade; importa apresentá-la como a mais impor­tante ‘notícia’ para o hoje, que impressiona, renova, sabe responder às mais angustiantes interrogações, abre à transcendência o caminho de cada um e a história da humanidade. Trata-se da misteriosa dimensão escatológica (ou seja, da meta final, já de alguma maneira presente) que incide sobre as culturas humanas, ilumina-as, julga, pu­rifica, discerne e pode promover seus valo­res emergentes. A nova evangelização apoia-se toda sobre este evento supremo: o ‘novíssimo’ por excelência. Não há nem ha­verá jamais novidade maior do que esta: é método de confronto para qualquer outra novidade; não envelhece; é a perene e máxima maravilha da inserção de Deus na história; é a criação nova que se antecipa no nosso mundo velho. É preciso saber como tornar visível e comunicar esta suprema novidade... Somente Cristo revela ao homem o que é o homem! ‘Evangelizar’ significa, antes de tudo, saber anunciar ao homem de hoje a alegre e agradável notícia da Páscoa, que abala e faz explodir a atração caduca das novidades que evolvem... É mister tornar-se comunicadores atualizados da grande ‘notí­cia’ com seus enormes valores históricos”.[7]

 

  1. Depois, a novidade dos tempos

 

Há aqui dois aspectos estreitamente li­gados:

  • a novidade própria dos “sinais dos tem­pos”. Eles fazem emergir novos valores antropológicos (a assim chamada cultura emergente ou “adveniente” — como disse o Papa) num movimento cultural planetá­rio que se acha presente sobretudo nas grandes cidades (como secularização, socialização, promoção da mulher, etc.);
  • e também as novidades socioculturais dos contextos. Distinguiu-se aqui entre a “situação” a descrever e os “desafios” a individuar pelo evangelizador. A novidade deve ser procurada sobretudo nos “desafios” que pertencem ao âmbito da promoção humana. O documento de Santo Domingo apresenta dez: os direitos humanos, a ecologia, a terra como dom de Deus, o empobrecimento e a solidarieda­de, o trabalho, a mobilidade humana, a ordem democrática, uma nova ordem eco­nômica, a integração latino-americana, a família e a vida (a este último desafio a Assembleia quis dar um desenvolvimento mais amplo).[8]

Não é um discernimento fácil passar da descrição das “situações” à especificação dos “desafios” mais urgentes. Mas foi exatamente isso que também fizemos no CG23.

 

  1. Há que considerar também a novidade nos sujeitos

 

Santo Domingo deu especial importância a este aspecto que se refere aos evangelizadores. O documento final apresenta sem ambiguidades, um forte apelo à “santidade” para viver um “novo ardor”.

Isto envolve necessariamente, além de cada pessoa individualmente, também as comunidades eclesiais nos vários ní­veis: devem tornar-se comunidades vivas e dinâmicas. Insistiu-se sobre a renovação do papel dos diversos ministérios e carismas, especialmente dos ministérios ordenados e da vida consagrada, a fim de que reativem o fogo evangélico da própria identidade. Especial apelo foi dirigido aos fiéis leigos e, entre eles, aos jovens e adolescentes. Foi posta em relevo a urgência de uma renovada pastoral vocacional “em estreita vinculação com a pastoral familiar e da juventude. É urgente preparar agentes e encontrar recursos para este campo de pastoral e apoiar o compromisso dos leigos na promoção de vocações consagradas”.[9]

Aponta-se, outrossim, a novidade das fron­teiras da missão, as mais distantes, para as quais é preciso ir sublinhando que soou para os crentes latino-americanos a hora das missões “ad gentes”. A “missio ad gentes” — como diz a Redemptoris Missio — faz descobrir o significado primeiro e o entu­siasmo fontal de toda evangelização; quem não participar do ardor dos apóstolos e dos missionários, dificilmente será generoso e autêntico no evangelizar.

Particular preocupação se manifestou com a chamada invasão das seitas. Este fenômeno crescente faz descobrir um vazio pastoral devido à falta de formação da fé e insuficiente atenção à religiosidade popular que devem ser consideradas com maior cuidado na nova evangelização: “Que a Igreja seja cada vez mais comunitária e participativa, e com comunidades eclesiais, grupos de famílias e círculos bíblicos, movimentos e associações eclesiais, fazendo da paróquia uma comunidade de comunidades”.[10]

 

  1. Enfim, a peculiar urgência da novidade da inculturação

 

Nesse campo do diálogo com as culturas é que urge encontrar um “novo método” e “novas expressões”. A cultura nasce com o homem; é obra sua; não é um absoluto. Ao fazer-se homem, Cristo entra nela com um duplo dom: levá-la à plenitude e ao mesmo tempo purificá-la. É o encontro da história de um povo com a história da encarnação de Deus. O Evangelho sempre esteve voltado para a inculturação, não tanto como exaltação das culturas quanto como sua fermentação, através da luz dos três grandes misté­rios: do “Natal” (encarnação cultural), da “Páscoa” (purificação integral), de “Pente­costes” (universalização pluralista).

A fé cristã nasce para impregnar as cul­turas mediante as pessoas e as comunidades “carentes”, num paciente processo de inculturação. Na América Latina, juntamente com a cultura emergente — cada vez mais atual nas cidades —, existem várias culturas indígenas, afro-americanas e mestiças. O Evangelho distingue-se do simples ensinamento da doutrina; traz consigo uma energia de nova criação a ser introduzida na história concreta dos homens.

Entre “inculturação do Evangelho” e “evan­gelização da cultura” há, sem dúvida, uma grande diferença de significado: um “natal” que leva à “cruz”. Todavia, o documento afirma que a nova “evangelização” deve realizar-se exatamente pela “inculturação” da fé. Isto supõe clareza do Evangelho, ca­pacidade crítica de discernimento para sa­ber batizar e incorporar os novos valores, para descobrir e promover os valores evan­gélicos já presentes, purificando suas modalidades defeituosas, superar a cultura moderna antropocêntrica, orientando-se para uma pós-modernidade que abra sempre novos espaços à transcendência.

Para tal fim, será necessário inventar uma metodologia adequada juntamente com a capacidade criativa de novas expressões.

Por isso, foi salientada a importância das Universidades Católicas, dos Centros educativos e a validade especial das voca­ções dedicadas à educação. Urgentíssimo o problema da formação das consciências.

 

O papel do método educativo

 

Se existe uma coisa clara nesta apresen­tação da nova evangelização é que não basta apresentar o Evangelho de per si. “A promo­ção humana — afirma o documento final — é uma dimensão privilegiada da nova evangelização”:[11] “a falta de coerência entre a fé que se professa e a vida quotidiana é uma das várias causas que geram pobreza em nossos países, porque os cristãos não sou­beram encontrar na fé a força necessária para penetrar os critérios e as decisões dos setores responsáveis pela liderança ideoló­gica e pela organização da convivência so­cial, econômica e política de nossos povos.[12]

Falando, depois, da cultura, o documento afirma que “para nossa adesão radical a Cristo no batismo, comprometemo-nos a fazer com que a fé, plenamente anunciada, pensada e vivida, chegue a fazer-se cultu­ra”.[13]

A leitura integral dos textos mostra de maneira indiscutível que a orientação dos Pastores é — como já sublinhamos — a de empenhar-se em “evangelizar promovendo e inculturando”. Ora, na comissão da educação, na qual me coube participar (juntamente com o Card. Obando e outros três irmãos), ressaltou-se que o caminho concreto para chegar a essa meta pastoral é o da educação cristã como “mediação metodológica para a evangelização da cultura”.[14]

E na comissão falou-se da educação tam­bém ao tratar da promoção humana, porque quando se fala de educação não se considera somente a formação dos meninos e dos jovens, mas também a atualização contínua dos adultos justamente diante das multíplices novidades a que aludimos.

Ora, tudo isso leva a reconhecer o papel extraordinário que a ação educativa assume na formação da fé seja entre os jovens como entre os adultos, ainda que em formas di­versas.

Lembrou-se várias vezes que o Magistério ofereceu dois preciosos subsídios para esta complexa obra educativa cristã: o desenvol­vimento da “Doutrina social da Igreja” e, ultimamente, o “Catecismo da Igreja Cató­lica”. A isso é preciso acrescentar o conhecimento e a capacidade de aplicação das disciplinas próprias da educação.

Não é suficiente ser pregadores e cate­quistas, é preciso sê-lo de forma pedagógi­ca. Para formar para a fé na práxis e con­correr à renovação da sociedade, é preciso ainda conhecer e aprofundar os valores e os desafios apresentados hoje pelas situações reais da vida e as diferenciadas exigências das culturas. Isso significa precisamente considerar a ação educativa como mediação privilegiada para a nova evangelização: so­mos chamados a promover o homem e a inculturar o Evangelho “educando”.

Neste sentido, Santo Domingo faz um particular apelo a todos, mas mais acentuadamente aos que receberam no Povo de Deus o carisma da missão educativa, a realizarem com a própria vocação a função materna da Igreja.

Eis porque considerando, no documento conclusivo, certos abandonos apressados dos anos recentes, se lê o seguinte apelo particularmente significativo: “Os carismas das ordens e congregações religiosas, postos a serviço da educação católica nas diversas Igrejas particulares do nosso continente, nos auxiliam sobremodo a cumprir o mandato recebido do Senhor de ir ensinar a todas as gentes (Mt 28,18-20), especialmente na evangelização da cultura. Conclamamos os religiosos e religiosas que abandonaram este campo tão importante da educação católica, a que se reincorporem à sua tarefa; recordando que a opção preferencial pelos pobres inclui a opção preferencial pelos meios para que as pessoas saiam da sua miséria, e um dos meios privilegiados para isto é a educação católica”.[15]

Sublinhou-se ainda a novidade na própria educação: “na nova educação — afirma o texto —, trata-se de fazer crescer e amadurecer a pessoa segundo as exigências dos novos valores”.[16]

Já fizemos, na Congregação, uma reflexão sobre esse tema.[17] Santo Domingo nos convida a colocá-la em sintonia com a nova evangelização.

 

A escolha das prioridades por privilegiar

 

Os Pastores latino-americanos prosse­guiram em Santo Domingo na esteira das orientações pastorais das Assembleias ge­rais de Medellín e de Puebla.

Vários anos se passaram daqueles eventos até hoje; algumas terminologias então em uso acusaram, por vezes, interpre­tações redutivas não genuínas. Assim, por exemplo, para conservar a sua autenticidade o termo “opção” vinha acompanhado do qualificativo “preferencial” ou “não exclusiva nem excludente”. Desta vez deu-se preferência à terminologia “linhas pastorais prioritárias” em vez de “opções”, ancorando todo o desenvolvimento do tema — como vimos — num preâmbulo profundamente cristológico, que garante o verdadeiro tom pastoral também na leitura da realidade e na inculturação da fé. Todavia, dentro do texto, sobretudo quando se refere a Puebla, continua-se a usar também o termo “opção” para garantir a continuidade de empenho.

As prioridades escolhidas em Santo Do­mingo são fundamentalmente três:

  1. uma nova evangelização mediante a formação contínua, sobretudo por meio da catequese e da liturgia (evangelizar “catequizando”);
  2. uma evangelização interessada na promo­ção integral do povo, a partir dos pobres e para os pobres, a serviço da vida e da família (evangelizar “promovendo”);
  3. uma evangelização empenhada em pene­trar os ambientes da cultura urbana e das culturas indígenas, afro-americanas e mestiças (evangelizar “inculturando”).

Tudo através da mediação metodológica de uma nova educação.

Além dessas três linhas pastorais prioritárias, cada seção particular do docu­mento encerra o próprio argumento indican­do outras prioridades específicas que apli­cam as três anteriores e se devem assumir segundo as multíplices diferenças que se encontram na variedade dos territórios. Isso põe em destaque a necessidade de novo empenho local (precisamente como nos pediu o CG23) para aplicar adequadamente as orientações gerais.

O Santo Padre, na carta de 10 de novembro passado, na qual autoriza a publicação do Documento final, diz precisamente aos Bis­pos que façam, a respeito, um oportuno e necessário discernimento local a fim de estabelecer o que vem a ser mais útil e urgente na situação particular da própria diocese ou território.

Os enormes problemas acarretados pelos sinais dos tempos, pelo empobrecimento contínuo, pela invasão das seitas, pelo pluralismo das culturas, pela complexida­de dos grandes centros urbanos, pelas urgências pastorais do próprio País, assina­lam o campo real para a nova evangelização.

O Papa sublinhou com acerto também a urgência de uma “integração latino-americana” que faça do continente a “grande pátria” de todos esses povos.

É a primeira vez que todo um episcopado trata pastoralmente da “nova evangelização” numa forma realista de concretude operativa, oferecendo, destarte, uma men­sagem de atualidade profética à Igreja uni­versal, que pode contemplar nela um modelo por adotar de forma adequada às condições históricas de cada povo.

 

Uma pastoral juvenil orgânica

 

Uma das prioridades setoriais que deve ser privilegiada na formação e participação dos protagonistas da nova evangelização — e que nos interessa de maneira especial — é aquela que se refere aos adolescentes e aos jovens. É tratada na IIª parte do documento (Jesus Cristo, evangelizador vivo em sua Igreja) quando apresenta a diversidade dos ministérios, carismas e serviços com os quais se pode colaborar na realização da comum missão evangelizadora sob a anima­ção unificadora do Espírito Santo e mediante a liderança dos Pastores: uma única missão rica de agentes diferenciados.

Entre as várias opções de compromisso espalhadas pelo texto e que se devem referir à realização das três linhas funda­mentais de prioridade pastoral, há a de uma pastoral   juvenil orgânica.

Trata-se de uma opção em plena continui­dade com Puebla, precisamente com a segunda das suas “opções”,[18] talvez, de fato, um tanto esquecida por prevalecer a insistência na primeira sobre os pobres.

Santo Domingo volta a insistir na impor­tância vital do envolvimento pastoral dos adolescentes e jovens: “A missão dos ado­lescentes e jovens na América Latina, que caminham para o terceiro milênio cristão, é preparar-se para ser os homens e mulheres do futuro, responsáveis e ativos nas estru­turas sociais, culturais e eclesiais, para que, incorporados pelo Espírito de Cristo e por seu talento em divisar soluções origi­nais, contribuam para a conquista de um desenvolvimento cada vez mais humano e mais cristão”.[19]

Parece-me oportuno lermos juntos, aqui, a descrição dos compromissos pastorais dos Bispos a respeito disso.

“Nós nos propomos a executar as seguin­tes ações pastorais:

  • Reafirmar a ‘opção preferencial’ pelos jovens proclamada em Puebla, não só de modo afetivo, mas também efetivamente; isto deve significar uma opção concreta por uma pastoral juvenil orgânica, onde haja um acompanhamento e apoio real com diálogo mútuo entre jovens, pastores e comunidades. A efetiva opção pelos jovens exige maiores recursos pessoais e materiais por parte das paróquias e das dioceses. Esta pastoral juvenil deve ter sempre uma dimensão vocacional”.[20]

“Para cumpri-la, propomos uma ação pas­toral:

  • Que responda às necessidades de ama­durecimento afetivo e à necessidade de acompanhar os adolescentes e jovens em todo o processo de formação humana e crescimento da fé. Será preciso dar especial importância ao sacramento da Confirmação, para que sua celebração leve os jovens ao compromisso apostólico e a ser evangeliza­dores de outros jovens.
  • Que capacite para conhecer e responder criticamente aos impactos culturais e so­ciais que recebem e os ajude a comprometer-se na pastoral da Igreja e nas necessárias transformações da sociedade”.[21]
  • “Que dinamize uma espiritualidade do seguimento de Jesus que propicie o encontro entre a fé e a vida, que seja promotora da justiça, da solidariedade e que anime um projeto promissor e gerador de uma novacultura de vida”.[22]
  • “Que assuma as novas formas celebrativas da fé, próprias da cultura dos jovens; fomente a criatividade e a pedagogia dos sinais, respeitando sempre os elementosessenciais da liturgia”.[23]
  • “Que anuncie nos compromissos assumi­dos e na vida quotidiana que o Deus da vida ama os jovens e quer para eles um futuro diferente, sem frustrações nem marginalizações, onde a vida plena seja fruto acessível a todos”.[24]
  • “Que abra aos adolescentes e jovens espaços de participação na Igreja. Que o processo educativo se realize mediante uma pedagogia experiencial, participativa e transformadora. Que promova o protagonismo mediante a metodologia do ver, julgar, agir, revisar e celebrar. Tal pedagogia deve integrar o crescimento da fé no processo de crescimento humano, tendo em conta os diversos elementos, como o esporte, a festa, a música, o teatro.
  • Esta pastoral deve pretender fortalecer todos os processos orgânicos válidos e longamente analisados pela Igreja, desde Puebla até hoje. Cuidará especialmente de dar relevância à pastoral juvenil de meios específicos, onde vivem e atuam os adoles­centes e os jovens: camponeses, indígenas, afro-americanos, trabalhadores, estudantes, habitantes de periferias urbanas, margina­lizados, militares e jovens em situações críticas.
  • A Igreja, com sua palavra, e seu tes­temunho, deve antes de tudo apresentar Jesus Cristo aos adolescentes e aos jovens de modo atrativo e motivador, de modo que seja para eles o caminho, a verdade e a vida que responda a seus anseios de realização pessoal e a suas necessidades de encontrar o sentido da vida”.[25]
  • “Para responder à realidade cultural atual, a pastoral juvenil deverá apresentar, com força e de um modo atraente e acessível à vida dos jovens, os ideais evangélicos. Deverá favorecer a criação e animação de grupos, comunidades juvenis vigorosas e evangélicas, que assegurem a continuidade e perseverança dos processos educativos dos adolescentes e jovens, e os sensibili­zem e comprometam a responder aos desa­fios da promoção humana, da solidariedade e da construção da civilização do amor”.[26]

 

Esses propósitos concretos dos Pastores são estimulantes para nós, pois dão destaque à contribuição que o nosso carisma é chamado a dar na nova evangelização. Para nós, o compromisso educativo-pastoral em favor dos adolescentes e dos jovens não é simplesmente uma “escolha prioritária” ou uma “opção preferencial”, mas constitui a própria substância da nossa “missão” em qualquer tempo e lugar. O fato de os Pastores lhe reconhecerem hoje a urgência diante das inquietantes situações socioculturais, con­firma a atualidade especial do nosso carisma, que, como disse alguém, caso não existisse seria preciso inventá-lo.

O CG23 convidou-nos exatamente à reno­vação metodológica da nossa ação educativo-pastoral. Penso na vitalidade que veio assumindo nestes anos o interesse pela formação e envolvimento de “animadores juvenis” e pelo impulso dado ao “Movimento Juvenil”. Não se trata de “elitismo”, que ofuscaria a nossa característica “missioná­ria” entre os mais necessitados, mas, sim, de “fermento” adrede preparado para levedar a massa e tornar verdadeiramente educativa e evangelizadora a nossa ação nas várias presenças salesianas.

 

O envolvimento dos fiéis leigos

 

A apresentação pastoral da nova evange­lização, que deseja referir concretamente o anúncio do Evangélico à promoção humana e à cultura, faz emergir a indispensabilidade e o protagonismo — em primeira linha — da vocação e missão própria dos fiéis leigos.

Afirma-o explicitamente o texto: “A importância da presença dos leigos na tarefa da nova evangelização que conduz à promo­ção humana e chega a informar todo o âmbito da cultura com a força do Ressuscitado nos permite afirmar que uma linha prioritária da nossa pastoral, fruto desta 4ª Conferência, há de ser a de uma Igreja na qual os fiéis cristãos leigos sejam protagonistas. Um laicato bem estruturado com uma formação permanente, maduro e comprometido, é o sinal de Igrejas particulares que levam muito a sério o compromisso da nova evangeliza­ção”.[27]

 As fronteiras das quais procedem os novos desafios ao Evangelho foram enumeradas na exortação apostólica Christifideles Laici;[28] de fato, afirma-se aí que chegou a hora de empreender uma nova evangelização. A fé foi desarraigada dos momentos mais significa­tivos da existência; urge por toda a parte recompor o tecido cristão da sociedade humana. Acorre à mente o grito apaixonado com o qual João Paulo II deu início ao seu pontificado: “Não tenhais medo. Abri, antes escancarai as portas a Cristo! Abri ao seu poder salvador os confins dos estados, os sistemas econômicos e os políticos, os vas­tos campos de cultura, de civilização, de desenvolvimento. Não tenhais medo! Cristo sabe o que há no interior do homem. Somente Ele sabe! Hoje tão frequentemente o homem não sabe o que traz no seu interior, no profundo de sua alma, do seu coração. Muitas vezes está incerto quanto ao sentido da sua própria vida nesta terra. É invadido pela dúvida que se transforma em desespero. Permiti, pois — vos peço, vos imploro, com humildade e confiança — permiti a Cristo que fale ao homem. Somente Ele tem palavras de vida, sim! de vida eterna”.[29]

Pode-se dizer que assim como em Medellín os Pastores se inspiraram na constitui­ção conciliar Gaudium et Spes, e em Puebla na exortação apostólica de Paulo VI Evangelii Nuntiandi, em Santo Domingo seguiram, de fato, as linhas orientadoras da Christifideles Laici para fazer chegar o Evangelho ao campo dos direitos humanos, da família, do trabalho, da economia, da política, da ecologia e também da integração latino-americana.

Infelizmente a maior parte dos batizados se sentem cristãos em geral, mas não Igreja comprometida; “Poucos assumem os valores cristãos como elemento de sua identidade cultural, não sentindo a necessidade de um compromisso eclesial e evangelizador. Como consequência, o mundo do trabalho, da po­lítica, da economia, da ciência, da arte, da literatura e dos meios de comunicação social não são guiados por critérios evangélicos”.[30]

Há aqui um grande desafio para a forma­ção e o envolvimento dos fiéis leigos. Será preciso, pois, favorecer seu amadurecimen­to na fé, acompanhar e dar importância aos seus movimentos e associações.

Isso, porém, atinge não somente a forma­ção de um grupo de crentes que sirvam depois de fermento na massa, meta absolu­tamente indispensável por atingir, mas também uma levedação evangélica da própria massa. Por isso, sublinha-se o desafio especial da dimensão popular da evangelização, que se torna mais interpeladora se se considerar o fenómeno das seitas sobretudo entre o povo dos bairros das cidades, como se ressaltou. “O problema das seitas adquiriu proporções dramáticas e chega a ser verdadeiramente preocupante, sobretudo pelo crescente proselitismo”.[31]

Acertadamente reafirmaram os Bispos o propósito de acompanhar cada vez melhor a maneira de compreender e de expressar o mistério de Deus e de Cristo pelas classes populares: “A religiosidade popular — reza o texto — é uma expressão privilegiada da inculturação da fé. Não se trata só de ex­pressões religiosas, mas de valores, crité­rios, condutas e atitudes que nascem do dogma católico e constituem a sabedoria de nosso povo, formando a sua matriz cultural”.[32]

Também neste importantíssimo campo da nova evangelização o CG23 nos estimulou a elaborar um projeto-leigos que deverá tornar-se parte viva da nossa renovação na Igreja. Por outro lado, o aspecto “popular” da nossa missão deve ser considerado com mais empenho, particularmente no que se refere a associações religiosas para o povo em geral (como a da Auxiliadora - ADMA) e às nossas iniciativas de comunicação social.

 

A insistência sobre uma espiritualidade renovada

 

Na base de todo o empenho evangelizador, Santo Domingo colocou a indispensabilidade de novo ardor em todos os protagonistas: sua conversão espiritual, a iluminação de sua mentalidade, uma consciência clara da sua vocação à santidade. Devem sentir-se cha­mados a ser testemunhas de Cristo de maneira significativa, renovando metodologicamente seu compromisso de educar na fé: “A nova evangelização exige a conversão pastoral da Igreja”;[33] “o testemunho da vida cristã é a primeira e insubstituível forma de evangelização”.[34]

No documento, no início da IIª parte, fala-se da “Igreja convocada à santidade”.[35] A primeira prioridade pastoral sugerida a res­peito é a seguinte: “A nova evangelização exige uma renovada espiritualidade que, ilu­minada pela fé que se proclama, anime, com a sabedoria de Deus, a autêntica promoção humana e seja o fermento de uma cultura cristã. Pensamos que é preciso continuar e acentuar a formação doutrinal e espiri­tual dos fiéis cristãos, e, em primeiro lugar, do clero, religiosos e religiosas, catequistas e agentes pastorais, destacando claramente a primazia da graça de Deus que salva por Jesus Cristo na Igreja, por meio da caridade vivida e através da eficácia dos sacramentos”.[36]

Insiste-se, depois, na coragem (a “parrésia”!) com que se deve proclamar a Palavra de Deus em plena liberdade diante de qualquer poder mundano;[37] e na permanente formação de uma fé que conte com a presença viva de Cristo nas celebrações sacramentais, na participação ativa nos tempos litúrgicos, na valorização da oração. Já o Concílio Vaticano II tinha afirmado que “a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força”.[38]                                                             

Santo Domingo destaca, de maneira particular, a incisividade própria da liturgia: ela tem, por si mesma, um valor evangelizador; a Eucaristia e cada sacra­mento trazem consigo riquíssimo patrimô­nio educativo, porque libertam a força re­novadora do mistério pascal: “A linguagem dos signos é o melhor veículo para que ‘a mensagem de Cristo penetre nas consciên­cias das pessoas e daí se projete no ‘ethos’ de um povo, em suas atitudes vitais, em suas instituições e em todas as suas estruturas” (João Paulo II). Por isso, as formas da celebração litúrgica devem ser aptas para expressar o mistério que se celebra e, por sua vez, ser claras e inteligíveis para os homens e mulheres”.[39]

Ao dar a devida importância à liturgia, evitar-se-ão as banalizações, improvisa­ções e manipulações, se dará destaque ao sentido do mistério, se procurará uma justa criatividade em harmonia com as disposi­ções da Igreja e com as exigências concretas da vida dos participantes, na convicção que as celebrações, se bem cuidadas, servem para penetrar no coração das pessoas e das culturas.

Essas orientações levam-nos à experiên­cia do sistema preventivo praticado por Dom Bosco. Ele afirmava que Eucaristia e Peni­tência são as duas colunas para uma eficaz educação da fé. Devemos recuperar a capa­cidade de dar uma valência educativa às celebrações litúrgicas nas nossas atividades pastorais.

Lembramos que o nosso CG23 também frisou a necessidade de uma peculiar espiritualidade para projetá-la na vida dos jovens.[40] Nós refletimos sobre a atualidade pastoral da espiritualidade salesiana de Dom Bosco, que nasceu precisamente para a evan­gelização e hoje se renova em admirável sintonia com o salto para a frente do Concílio.[41] Depois, ao apresentar brevemente a necessidade de novo ardor precisamente nos membros da “vida consagrada”, os Pastores latino-americanos afirmam que, tratando-se de um “dom do Espírito Santo à sua Igreja que tem uma profunda dimensão pascal”, ele pertence — como já afirmara o Vaticano II — à interioridade vital e à santidade da Igreja, e deve, pois, manifestar-se com um quotidiano testemunho sublinhando o fim e o espírito de cada Instituto”.[42] Hoje, somos convidados a aprofundar mais este tema em preparação ao Sínodo ordinário de 1994. Numa eclesiologia de comunhão, a vida con­sagrada é chamada a proclamar existenci­almente a todos “de maneira exímia e bri­lhante, que não é possível transfigurar o mundo e oferecê-lo a Deus sem o espírito das bem-aventuranças”.[43]

Vê-se claramente que, se Santo Domingo colocou no centro de todo o caminho da nova evangelização o mistério de Cristo, ganha importância prioritária o cultivo da santidade com um compromisso concreto de re­novação da espiritualidade.

Também isso é um apelo que vem confir­mar toda a nossa preocupação de insistir numa formação permanente que faça levedar os irmãos e as comunidades na caridade pastoral que se encontra no centro do espí­rito do nosso carisma.

Em suma, vê-se que a Assembleia de Santo Domingo oferece a nós Salesianos um apelo eficaz à prioridade do nosso carisma com estímulos válidos em todos os continentes.

“As tendências hoje, no mundo, sublinham a função central da pessoa em todos os problemas que marcam a aventura humana ‘Somos testemunhas — como afirma a Gaudium et Spes no n. 55 — do nascimento de um novo humanismo, no qual o homem se define, em primeiro lugar, por sua responsabilidade perante os seus irmãos e a história’“.[44] Nesse contexto, o ponto central e o parâmetro de tudo é o Homem novo: Jesus Cristo ontem, hoje   e sempre.

 

Maria, Estrela da nova evangelização

 

O Santo Padre terminou seu discurso inaugural invocando Maria, pondo em suas mãos as esperanças de todos, as preocupações pastorais e as tarefas que devem ser aprofundadas.[45]

Naquele mesmo dia, no santuário de Nossa Senhora de Altagracia — primeiro lugar de culto mariano em terras americanas —, fez solenemente, diante da imagem de Maria, este ato de entrega confiante: “Lembro di­ante de tua imagem (Maria), neste 12 de outubro de 1992, o aniversário dos 500 anos da chegada do Evangelho de Cristo aos povos da América, num navio que trazia o teu nome e a tua imagem: o ‘Santa Maria’... Invoco-te com todas as línguas dos habitantes... estas terras abençoadas são tuas, porque dizer América é dizer Maria... Virgem da Esperança e Estrela da Evangelização, desperta em todos o ardor pelo anúncio da Boa Nova, a fim de que seja sempre conhecido, amado e servido Jesus Cristo, fruto bendito do teu ventre, revelador do Pai e dador do Espírito, ‘o mesmo ontem, hoje e sempre’. Amém!”.

O singular ícone de Nossa Senhora de Guadalupe, que dominava a grande sala da Assembleia, e a lembrança da sua aparição ao índio beato Juan Diego concorreram para apresentar a Mãe de Deus como a imagem viva — com seu rosto mestiço — de quem guiou maternalmente ao longo de cinco sé­culos a inculturação do Evangelho. Maria ofereceu um modelo original e incomparável de “evangelização perfeitamente inculturada e continua a acompanhar em toda a parte os povos latino-americanos, que lhe dedicaram famosos santuários em todos os países. “Com alegria e gratidão — diz o texto — acolhemos o dom imenso de sua maternidade, ternura e proteção, e aspiramos a amá-la do mesmo modo como Jesus a amou. Por isso, a invocamos como estrela da primeira e da nova evangelização”.[46]         

Pode-se dizer que os Bispos se reuniram, qual num novo cenáculo, ao redor de Maria para celebrar Jesus Cristo, para ouvir dela a famosa expressão de Caná: “Fazei tudo o que vos disser”.[47] Ele dará a luz, a energia e a sabedoria para despertar um novo ardor e encontrar novos métodos e novas expres­sões com vistas à tarefa imensa da nova evangelização.

Dele procede o poder do Espírito Santo que faz novas todas as coisas e enche de mag­nanimidade os corações.

Em Caná, Maria colocou-se maternalmente no início da transformação da água em bom vinho. Ela levou e levará o Povo de Deus a crescer na fé e a defendê-la; a fazer da nova evangelização uma “realidade atuante e dinâmica, um chamado à conversão e à esperança, um novo âmbito vital, um novo Pentecostes em que o acolhimento do Espírito Santo fará surgir um povo renovado, constituído de homens livres, conscientes de sua dignidade e capazes de forjar uma história verdadeiramente humana. É o conjunto de meios, ações e atitudes aptos para pôr o Evangelho em diálogo ativo com a modernidade e o pós-moderno, seja para interpelá-los, seja para deixar-se interpelar por eles. Também é o esforço por inculturar o Evangelho na situação atual das culturas de nosso continente”.[48]

Com afeto filial, Maria foi invocada para ser de fato Aquela que leva os crentes ao Cristo vivo e Senhor da história, ao Homem novo de ontem, de hoje e de sempre, para que se torne pastoralmente o caminho, a verdade e a vida do grande relançamento da fé rumo ao terceiro milénio. É Ela, que, qual nova Eva, acompanha os evangelizadores na qua­lidade de Mãe da Igreja e Auxiliadora solí­cita do Povo de Deus nesta etapa histórica de nova evangelização.

Pedimos a Ela que faça ouvir em toda a Congregação a forte mensagem pastoral que de Santo Domingo ressoa na Igreja.

De nossa parte, procuremos guardar como em tesouro esses preciosos estímulos e orientações.

Votos cordiais para o ano novo: Dom Bosco nos guie e interceda em nosso favor.

Com renovado ardor salesiano,

 

[1] CG23, 90.

[2] Cf. Ib., 91.

[3] Ib., 4.

[4] Ib., 215-218.

[5] Cf. Conclusões, 200-202.

[6] ACG 331.

[7] ACG 331, p. 11-12.

[8] Cf. Conclusões, 210-227.

[9] Conclusões, 80.

[10] Ib., 142.

[11] Conclusões, cap. II, parte I, título.

[12] Ib., 161.

[13] Ib., 229.

[14] Cf. Ib., 271.

[15] Ib., 275.

[16] Ib., 266.

[17] Cf. ACG 337, julho-setembro de 1991.

[18] Cf. Puebla, 1166-1205.

[19] Conclusões, 111; cf. João Paulo II na homilia em Higüey, 12.10.92, n. 5.

[20] Conclusões, 114.

[21] Ib., 115.

[22] Ib., 116.

[23] Ib., 117.

[24] Ib., 118.

[25] Ib., 119.

[26] Ib., 120.

[27] Conclusões, 103.

[28] Cf. Christifideles Laici, cap. 3º, sobretudo n. 37-44.

[29] Homilia de 22 de outubro de 1978.

[30] Conclusões, 96.

[31] Ib., 139.

[32] Ib., 36.

[33] Conclusões, 30.

[34] Ib., 33.

[35] Ib., 31-53.

[36] Ib., 45.

[37] Cf. Ib., 50.

[38] Sacrossanctum Concilium, 10.

[39] Conclusões, 35.

[40] Cf. CG23, IIª parte, cap. 3º.

[41] Cf. ACG 334: Espiritualidade salesiana para a nova evangelização.

[42] Conclusões n. 85

[43] Lumen Gentium, 31.

[44] CG23, 2.

[45] Cf. discurso no n. 31.

[46] Conclusões, 15.

[47] Jo 2,5.

[48] Cf. Conclusões, 24.