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2003

ESTRÉIA - ANO 2003

 

Caríssimos Irmãos e Irmãs da Família Salesiana,

            junto com os mais sentidos votos de Feliz Ano Novo, entrego-vos a proposta do empenho para o novo ano de 2003, na esperança de que ela possa, como foi até agora, ajudar-nos a caminhar juntos e a ser na Igreja profecia de comunhão. A riqueza do nosso carisma possa manifestar-se e esplender no `belo testemunho` da comunhão! E eis a Estréia para 2003:

FAÇAMOS DE CADA FAMÍLIA E DE CADA COMUNIDADE
`A CASA E A ESCOLA DA COMUNHÃO` NMI 43),
PROMOVENDO UMA `ESPIRITUALIDADE DA COMUNHÃO`
NA CONSTRUÇÃO DE UMA CULTURA DA SOLIDARIEDADE E DA PAZ.

Acrescento, como é tradição, um Comentário à Estréia, que pode ser útil para compreender as decorrências carismáticas, espirituais e educativo-pastorais que dela derivam.

 

1. INTRODUÇÃO

1.1 Origem e significado da `estréia` na tradição salesiana

Desde os primeiros anos da sua obra, por volta de 1849, Dom Bosco �começara a dar, pelo fim do ano, uma estréia a todos os seus jovens em geral e outra a cada um em particular. A primeira consistia em normas a seguir para o bom andamento do ano que estava para começar... A segunda era u`a máxima ou conselho adaptado à necessidade e à conduta de cada um� (MB III, 617).

Assim escrevia o P. Lemoyne nas Memórias Biográficas, indicando desde então qual era o significado que a Estréia possuía no pensamento de Dom Bosco: ela era o presente de uma proposta que servisse de estímulo no caminho formativo e no crescimento espiritual dos seus jovens e que se tornasse também uma orientação para toda a comunidade, a iluminasse na sua consolidação e pudesse traduzir-se em normas práticas de vida para o bom andamento da casa. Em geral depois a estréia se especificava segundo as categorias particulares a que era dirigida: aos clérigos, aos estudantes, aos aprendizes, a todos em geral (MB VI 115), à casa de Mirabello.

Em 1860 Dom Bosco pedia aos seus jovens que cada um lhe desse de presente �como estréia, uma sagrada comunhão feita segundo as suas intenções� (MB VI 803).

Por sua vez, em 1859, Dom Bosco deu-se a si mesmo `como estréia` aos seus meninos: `Aquele pouco de ciência, de experiência, que adquiri, tanto o que sou quanto o que possuo, orações, trabalhos, saúde, a minha própria vida � tudo quero empregar no vosso serviço. Por minha parte, como estréia, dou-vos a mim mesmo; será uma coisa humilde, mas quando vos dou tudo quero dizer que nada reservo para mim` (MB VI, 362). E tudo isto se dava num clima de alegria, de troca familiar, de doação, de oferta. De proposta.

�s vezes era um convite à devoção de Nossa Senhora (MB IX,457) ou um estímulo à comunhão freq�ente por toda a vida (MB, XVIII 503). Justamente em 1862, ele dizia: é �a mesma nossa Senhora a dar a cada um a estréia. Cada um de vós considere este aviso como se partisse da mesma boca de Nossa Senhora� (MB VII 2-3).

Para Dom Bosco, pois, a estréia assumia import�ncia particular e relevante. Todos os anos oferecia uma. Era um evento particular, que as mesmas casas esperavam e recebiam com afeto. As Memórias Biográficas são muito atentas e precisas no transcrever o maior número delas (de 1858 a 1872 e de 1875 a 1887), sobretudo as individuais; o número das que mandou aos jovens de Mirabello sobe a 180 (MB IX 457).

Pouco a pouco este costume tornou-se uma valiosíssima e bem sucedida tradição, que se estendeu sistematicamente a toda a Família Salesiana; a estréia começou a ser publicada nas circulares de vários Reitores-Mores. Para as FMA, foi a Madre Daghero a continuar a tradição após a morte de Madre Mazzarello, até 1894. Dessa data em diante a Madre Daghero acolheu a estréia que lhe entregava o P. Rua, fim de que fosse transmitida a todo o Instituto: tratava-se de simples frase que se tornava proposta formativa durante todo o ano. Hoje a estréia assumiu o significado de um encontro anual, encontro que todos os Grupos da Família Salesiana esperam com interesse. Tanto mais que nos últimos anos ela veio se caracterizando por assumir, sobretudo com o P. Viganó e o P. Vecchi, um amplificado horizonte eclesial, inspirado nas indicações do Magistério Pontifício.

1.2. Objetivos da estréia de 2003

A estréia de 2003 se coloca na esteira e em continuidade com a última, presenteada pelo P. Vecchi, inspirando-se na Novo Millennio Ineunte, que é a `Magna Charta` do programa pastoral da Igreja para o terceiro milênio. Nessa perspectiva, quer traduzir as grandes linhas oferecidas pelo Papa em projetos mais concretos, mais operativos e de mais imediata eficácia. É a tentativa de superar o risco, hoje cada vez mais insidioso, de produzir documentos que se tornam simples slogans, metodologicamente assépticos, destituídos de qualquer incidência operativa e desligados da concreteza da vida cotidiana.

Quer ao mesmo tempo p�r-se em sintonia com o tema do CG25 dos Salesianos de Dom Bosco (`A comunidade salesiana hoje`) e com o do Capítulo Geral 21 das Filhas de Maria auxiliadora (`Na renovada Aliança o empenho por uma cidadania ativa`), para responder ao desafio, hoje muito agudo e sentido, da busca da integração da humanidade, chamada a tornar-se a grande família humana no espírito unitário da civilização do Amor.

Hoje, na verdade, o panorama político e econ�mico nos apresenta uma sociedade não só globalizada mas também dilacerada por tantos conflitos, mais ou menos vastos, sempre carregados entretanto de destrutividade e violência, de desigualdades e injustiças. O modelo social e econ�mico imperante, que podemos descrever com a categoria da globalização/marginalização, é intensamente assinalado pelo individualismo e pela competitividade, que tornam as pessoas ameaçadoras e reciprocamente ameaçadas.

Assistimos a estilos de vida caracterizados mais pela exclusão do que pela inclusão, mais pela insegurança desconfiada do que pela coesão harm�nica, e pelo agravar-se das situações de pobreza segundo uma lógica que conduz à marginalização. Amplas camadas da população se sentem inseguras nos seus direitos fundamentais, como os da vida, da subsistência, do trabalho, do respeito, da igualdade, da cidadania e da participação democrática. Ao mesmo tempo os modelos de vida promovidos pela publicidade estão criando uma forma de `imperialismo midiático`, dirigido mais a exasperar a ênfase do consumo do que a garantir as condições da equidade e da justiça; e isto se torna freq�entemente uma ofensa a quem ainda dispõe do estrito necessário.

São destruidores os efeitos que tudo isto produz nas famílias e nas comunidades. A sua coesão é posta em risco porque se acentuam mais os elementos de diferenciação e exclusão do que os lineamentos de comunhão e acolhida.

Está sendo difícil, nas famílias, manter-se unidos, por uma multiplicidade de razões, mas sobretudo por uma acentuada insatisfação que parece derivar da excessiva ênfase dada aos vários elementos de diversidade e contraste: diversidade de idades, de interesses, de valores, de estilos de vida, de mentalidades, de conceito da mesma família, de atitudes perante a vida, o trabalho, as pessoas, a Fé. Tal insatisfação por vezes explode em formas gratuitas de agressividade e violência.

Há nas comunidades cada vez maior invasão do influxo de uma cultura na qual o sucesso pessoal está se tornando o primeiro relativamente a todos os demais valores, de modo a comprometer qualquer projeto comunitário, quando não se chega mesmo, a descuidar da pessoa dos irmãos mais fracos e mais frágeis.

Há certamente famílias que continuam a apostar na vida e estão generosamente abertas ao nascimento de crianças, com a verdadeira dedicação dos pais à educação e amadurecimento dos seus filhos, num ambiente caracterizado não só pelo relacionamento interpessoal mas também pelo empenho social e pastoral. Baste lembrar aquelas famílias que optam por ir às missões em vários países do mundo e que estão presentes também nas nossas comunidades salesianas.

Como também existem comunidades onde reina o espírito de família, a ponto de criar ambientes lares, onde se fomenta o crescimento de cada irmão ou irmã, com projetos comunitários e pastorais que reforçam as razões para viver juntos, solidários com os mais pobres, inseridos no território social, com presenças que tornam visível a proximidade de Deus.

Nós Família Salesiana, sabedores do contexto social em que se desenvolve a nossa missão, sentimo-nos chamados a colaborar no projeto de Deus, promovendo e desenvolvendo essas redes de solidariedade, de fraternidade e de unidade com todos aqueles que, instituições e pessoas, estão empenhados na humanização mais profunda da sociedade. E nos casos extremos, apontados pelos `sinais dos tempos`, saberemos pedir a Deus a força de assumir posições e atitudes também proféticas perante os elementos `diabólicos` e desagregadores, para transformar as famílias e as comunidades em `lugares-símbolos` de comunhão e de fraternidade.

 

2. A comunhão: meta do projeto de Deus

O projeto original que Deus possui para a humanidade já está presente nas primeiras páginas do Gênesis. No seu começo (Gn 1,1-2.4a) a Bíblia apresenta-nos a criação como organização ordenada do caos informe; imediatamente o Autor sagrado se preocupa com evidenciar que Deus põe todos os elementos da criação a serviço da pessoa, que por sua vez já esta orientado para Deus. A criação é boa na medida em que está a serviço da pessoa e de toda a pessoa. A pessoa por sua vez, feita homem e mulher, está encarregada de completar ao longo da história a criação, por meio do seu trabalho de construção da união no amor. Criada à imagem de Deus � que é Amor, Família, Comunidade, Trindade � é chamada a ser semelhante a Ele, amando, criando família, construindo comunidade.

2.1. Comunhão e divisão: graça e pecado

A desordem, que significa retorno ao caos, começou quando a pessoa decidiu, com um ato preciso de rebelião e autonomia, não mais respeitar a sua dependência �criatural� de Deus, e quis agir segundo os próprios subjetivos critérios de bem e de mal.

Desde esse momento entraram no mundo o mal e a morte, tornados palpáveis e concretos no assassinato de Abel. Com eles também invadiram o mundo todas as formas de divisão entre as pessoas, chegando ao ápice no manifestamente falido projeto da construção da Torre de Babel.

Por um lado, assistimos ao pecado de orgulho e auto-suficiência do homem, que com presunção deseja elevar-se até ao céu, até a suplantar Deus; por outro lado, nos encontramos infelizmente perante o agravamento da confusão entre as mesmas pessoas, culminando com a imediata conseq�ência da sua radical desagregação e dispersão.

A esta obstinação do homem, Deus responde prometendo um salvador, confiando o homem à mulher, fazendo uma aliança com Noé e sobretudo chamando com vocação especial Abraão, em cuja descendência serão abençoadas de novo todas as nações da terra. Esta a reflexão sapiencial do autor sagrado (Gn 2-3.11.12).

Os frutos da reconstrução da comunhão e da reconciliação já se podem ver como `sinais` precursores no relato de José que acolhe e perdoa os irmãos, ou na história de Moisés que intercede pelo povo, ou no episódio de Rute, acolhida e desposada por Booz apesar de estrangeira, ou nas narrativas dos profetas que com a sua vida e a sua palavra manifestam o amor de Deus que conduz a história.

A vocação à comunhão é portanto a resposta amorável que Deus repete perante a obstinada desobediência do homem. Ele é fiel ao seu projeto de salvação, apesar da radical rejeição do homem, que ao contrário parece empenhado em buscar a própria realização, seguindo um seu itinerário pessoal. Mas a trágica conseq�ência de tudo isso parece perfilar-se nos tristes efeitos de um mundo dilacerado pelo ódio étnico, pelas loucuras homicidas, pelas desintegrações familiares. Por outro lado, os efeitos se podem polarizar e radicalizar no coletivismo e conformismo social que anulam a pessoa; ou num individualismo de tipo privatista e egocêntrico, que reduz a zero a sociedade e se desinteressa pelo bem comum.

Em conclusão, enquanto Deus é Amor e Comunhão trinitária, o pecado é ruptura de comunhão, é divisão, é laceração. Tanto interna quanto externa.

2.2. Na fidelidade à Palavra de Deus

Todos estes `sinais` apontam para o `Sinal` por excelência, Jesus Cristo, `nossa paz`: Ele fez dos pagãos e hebreus um único povo; demoliu o muro que os separava e os tornava inimigos (cf. Ef 2,14). Ele é a expressão suprema do Amor de Deus e o Criador de uma nova comunidade de amor, germe da nova humanidade que nasce do perdão e da reconciliação.

A din�mica da comunhão é realmente o sinal visível de um fen�meno que hoje de modo especial se está difundindo no mundo e na Igreja, os quais prestam cada vez mais atenção e sensibilidade aos dinamismos da socialização e da solidariedade, e a todos os movimentos que tendem a criar coesão e unidade. Baste pensar no renovado vigor que estão assumindo categorias teológicas como as da `eclesiologia de comunhão` e da `espiritualidade de comunhão`, que estão a perpassar toda a instrução `Partir de Cristo`.[1] 

A expressão `casa e escola de comunhão`, colocada dentro da Carta Apostólica `Novo Millennio Ineunte` (n.43), é aplicada por João Paulo II à Igreja, ao definir a sua função no mundo e a eficaz contribuição que ela é chamada a prestar em força da sua vocação. A Igreja é imagem da Trindade e se modela a partir do acolhimento dado ao dom da comunhão trinitária. Deste modo ela se torna a casa que acolhe as diversidades dos povos e das culturas, e a escola onde se aprende a difícil arte da superação dos conflitos e dos antagonismos.

Hoje a Família Salesiana quer assumir e fazer própria a mesma tarefa da Igreja, a fim de que se torne o motivo do seus empenho formativo neste ano: �ser casa e escola de comunhão�. Ela já definiu os caminhos da comunhão entre os diversos Grupos que a constituem na `Carta de comunhão` e na `Carta da missão`; trata-se de retomar este patrim�nio espiritual compartilhado a fim de aprofundar a nossa `experiência carismática do conjuntamente`. Desejamos fazê-lo em sintonia com a mesma Palavra de Deus, que se torna visível através de alguns passos do NT que maiormente iluminam o espírito da comunhão na caridade.

São Lucas nos Atos dos Apóstolos sublinhava como os cristãos da primeira comunidade �mostravam-se assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações� (At 2,42), onde se evidenciam quatro elementos específicos que constituem o elemento colante dessa comunhão: a escuta da Palavra de Deus, a caridade fraterna, a Eucaristia e a oração em comum.

São Paulo por sua vez ao exortar os Romanos (Rm 12,3-10) a crescer continuamente na sua vida cristã, indicava algumas dimensões fundamentais a serem potenciadas, isto é, a unidade em um só corpo embora na diversidade dos membros, juntamente com a humildade que vence todo o tipo de presunção e de prevaricação. A variedade dos carismas de cada um deve ser vivida na unidade do espírito, na simplicidade da colaboração, na estima recíproca, no amor sem fingimentos. Tais atitudes, depois, em Mt 18,20, são reforçadas com a exortação à oração comum e ao perdão recíproco.

Para nós é familiar, ou devia sê-lo, a orientação à comunhão em razão da nossa fé no Deus Trindade � Pai, Filho e Espírito Santo -; em força da nossa experiência existencial de Igreja, que é comunidade com os irmãos e com o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; por causa do mandamento do amor, que é o traço mais caraterístico de identificação dos discípulos do Senhor: �Nisto reconhecerão todos que sois os meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros� (Jo 13,35). Por isso os fiéis, e entre eles as pessoas consagradas, deveriam ser os principais artífices e agentes de comunhão, antes de tudo no interior da comunidade eclesial, mas depois igualmente na mesma sociedade civil.

2.3 Comunhão entre as pessoas: graça e empenho

A comunhão é graça e empenho. É dom e tarefa.

Enquanto graça, é claro que a comunhão não é fruto imediato da natureza humana, que antes parece estar sujeita ao egocentrismo e ao egoísmo. Enquanto dom, ela deve ser acolhida pela pessoa com reconhecimento e aberta disponibilidade à conversão daquelas próprias atitudes que ofendem, minam e destroem a comunhão.

Enquanto empenho, a comunhão é fruto da ação construtiva e educativa de cada pessoa, homem ou mulher. Todos na verdade são chamados a colaborar com todo o tipo de ação que favoreça o respeito e a formação da pessoa na plenitude da sua dignidade, e favoreça a unidade da família humana, num esforço de construção e de mais perfeita humanização do mundo.

Tudo isto será possível quando se assumir uma filosofia e uma antropologia que tenham como postulado de base o princípio maritainiano do humanismo integral e que saibam respeitar e acolher no seu quadro de valores todas as dimensões do homem e da mulher, incluída a dimensão religiosa. Elas então conseguirão traduzir-se na proposta de uma verdadeira ecologia humana.

O projeto é fascinante. É uma `missão que requer pessoas espirituais, forjadas interiormente pelo Deus da comunhão amorosa e misericordiosa, bem como comunidades maduras, onde a espiritualidade de comunhão é uma norma de vida`.[2]

Sentem-se os grupos laicais da nossa Família envolvidos  na din�mica destes processos? E nós, pessoas consagradas, tomamos consciência de que a nossa vocação, vivida e experienciada na fé, nos põe na melhor das condições para tornar-nos os agentes principais de comunhão?

Também a sociedade civil, em cada continente, é especialmente sensível a este movimento que se orienta à unidade. Basta observar os diversos grupos de Países que buscam `criar uma casa comum`, como os Países da Europa que em sucessão progressiva se estão orientando para a formação de uma confederação de Estados. A isso aspiram também outros países, que já manifestaram o desejo de entrar a fazer parte da União Européia, e que trabalham por criar as condições de ingresso, a fim de agilizar o processo do seu acolhimento. Estamos pois assistindo a um processo de busca da unidade, da comunhão e da convergência de povos, rumo a uma integração que se manifesta também em muitas outras partes do mundo. É um sinal dos tempos que nos interpela, quer como a grupos quer como a pessoas, por uma participação responsável.

E isto se verifica não só em nível macro-social e institucional mas também segundo uma perspectiva menos oficial, embora igualmente visível hoje, em fen�menos que se nos deparam a todos, como nas contínuas e maciças transmigrações de povos esfaimados e de refugiados, à procura de um bem-estar que nos seus próprios países lhes vem progressivamente a faltar.

Junto com esta dimensão social, que em alguns momentos da história se impõe também de modo trágico, a comunhão que somos chamados a construir entre os homens deve compreender não só a totalidade da pessoa humana, na profundidade do seu ser e na radicalidade das sus atitudes, mas também a concreteza de expressões externas claramente visíveis na vida pública em seus vários aspectos econ�micos, sociais, culturais e políticos.

 

3. A CONSTUÇÃO DE UMA CULTURA DA SOLIDARIEDADE E DA PAZ

Hoje termina o ano de 2002. É nossa obrigação agradecer a Deus por todos os benefícios que nos concedeu com tanta munificência nestes 365 dias passados, e pela superabund�ncia de graças que Ele prodigalizou à humanidade, desde o momento da criação.

As primeiras palavras do Prólogo do Evangelho de São João, `No princípio`, evocam claramente o início do livro do Gênesis e fazem referência quer ao fato da criação quer ao desígnio eterno de Deus, de chamar o homem e conduzi-lo à plenitude da vida.

Amanhã com sua graça iniciaremos um Ano novo sob o signo da comunhão: comunhão entre o homem e Deus, entre o homem e o homem, entre o homem e a natureza, e pacificação do homem consigo mesmo. Temos o dever e a responsabilidade de encarnar em nós o amor de Deus, que assim busca reunir toda a humanidade e fazer dela uma única família.

3.1  Um ano de acontecimentos � sementes do Verbo

O panorama com que terminamos este ano e começamos o novo tem as cores tênues do claro-escuro, perpassadas às vezes por feixes de luz e às vezes por manchas de sombra.

Por um lado, alegramo-nos por todos os aspectos luminosos que hoje caracterizam a nossa humanidade: o desenvolvimento e os frutos da ciência, da tecnologia, da economia, juntamente com o desenvolvimento que a consciência humana tem amadurecido a respeito da dignidade da pessoa humana. Por outro lado, entretanto, ficamos chocados pelas sombras dos grandes males que afligem toda a humanidade, tanto dos que advêm das catástrofes naturais (terremotos, inundações, secas), quanto dos que são expressão do egoísmo e da prepotência humana (guerras, terrorismo, pobreza, segregação sexual e racial, fundamentalismos, ideologias). Muito mais graves estes últimos, justamente porque o homem dispõe dos meios para obviá-los.

E dizer que a paz e a concórdia, o bem-estar e o desenvolvimento poderiam ser possíveis a todos e desfrutáveis de todos, individualmente, bastando f�ssemos apenas animados de maior solidariedade.

A história do século XX é uma história de avanço tecnológico sem precedentes. A tecnologia incrementou o processo de industrialização, reduziu as dist�ncias com o enorme desenvolvimento dos meios de transporte. E agora com a rapidez da comunicação virtual tornou possível um conhecimento em tempo real e um poder sem iguais, não só pelas organizações internacionais mas também pelo indivíduo consumidor. Nesse século o homem conseguiu dividir o átomo, decifrou o código genético e p�s em rede o mundo universo.

Nestes primeiros anos do século XXI as transformações tecnológicas estão-se movendo com intensa aceleração, obrigando a um contínuo suceder de acontecimentos, numa constante atualização de informações sobre finanças, comércio, política, cultura e ciência, tempo livre, esporte e divertimento, com a criação de novos serviços para a pessoa, até agora nunca imaginados, melhorando os tempos e a qualidade dos diagnósticos, do tratamento das doenças e da ancianidade, intensificando expectativas e esperanças, para a vida de milhões de homens e mulheres.

Por outro lado, o desenvolvimento da tecnologia faz-se cada vez mais ameaçador, a diferença entre aqueles que têm muito e os que não têm quase nada se alarga cada vez mais, a menos que por parte dos governos não se promovam medidas que favoreçam  a flexibilidade e a inovação na organização do trabalho, na economia, a fim de dar um rosto mais humano à globalização.

O trágico ataque do terrorismo em 11 de setembro de 2001 exatamente contra o coração econ�mico e militar dos EEUU, e as recentes demonstrações dos `antiglobals`, puseram a descoberto que existe o risco não remoto de uma reação violenta, dura e generalizada daquelas populações que se sentem excluídas dos benefícios da tecnologia e da globalização.

Que fazer então para dominar as mudanças tão vertiginosas e tão profundas que estão modificando profundamente a face da terra, transformando o mesmo homem na din�mica das suas relações? Como decifrar os `sinais dos tempos` e as `sementes do Verbo` em panorama tão desencontrado?

3.2  `Deus-conosco` e `Deus-como-nós`, fundamento do nosso empenho solidário

Só em Deus, revelado em Jesus Cristo, encontra resposta a enigmática e contraditória situação do homem, relativamente às dimensões fundamentais da sua realidade existencial, que é constituída pela relação profunda consigo mesmo, com os outros, com a vida, e com Deus criador, pai e redentor. A solução para o histórico dilema `se afirmar Deus sacrificando o homem ou afirmar o homem sacrificando Deus` encontra-se naquele que é `verdadeiro Deus e verdadeiro Homem`: Jesus Cristo Nosso Senhor. `O mistério do homem só se esclarece realmente no mistério do Verbo encarnado` (GS 22), pelo que, podemos dizer ainda com a Gaudium et Spes, que o fundamento mais radical da imanência vem apoiar-se na aceitação existencial da transcendência.

Eis um Deus que não fica indiferente ao nosso mundo, um Deus que não é totalmente Diferente de nós, um Deus que quis ser `Deus-conosco`, sendo um `Deus-como-nós`. O Deus que fez o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,27) acabou por fazer-se Ele mesmo imagem e semelhança do homem (Jo 1,14).

Se Jesus de Nazaré é o caminho de Deus rumo ao homem, se um homem concreto é um rosto de Deus, quer dizer que o homem concreto é o caminho do homem para Deus. Não podemos procurar o Deus de Jesus Cristo longe de onde Ele apareceu e viveu; não é o céu o lugar da sua presença, mas a terra, onde os homens vivem ou lutam por viver. O Deus feito homem habita entre nós. Cada homem, especialmente o mais necessitado, menos afortunado, mais maltratado ou esquecido, melhor reflete o seu rosto e melhor se assemelha a Ele.

Esta é exatamente a missão salesiana: tornar visível o amor de Deus aos jovens pobres, abandonados, em perigo.

Nem a ciência, nem a tecnologia, nem a economia, jamais poderão por si mesmas realizar o ideal humano e a paz para o homem. A fonte da vida e da alegria, da comunhão e da fraternidade, só encontra a sua radical consistência em Deus.

Pensar que para fazer nascer e garantir a paz seja suficiente debelar o terrorismo, é pura ideologia. São ao invés as causas de tudo quanto cria violência, pobreza, injustiça, subdesenvolvimento que devem ser combatidas e eliminadas.

Nas palavras dirigidas ao Embaixador da Grã-Bretanha junto à Santa Sé, João Paulo II reafirmou com clareza que `a edificação desta cultura global de solidariedade é talvez a mais importante tarefa moral que a humanidade hoje deve assumir`. Nesta perspectiva o Santo Padre quer relançar de modo especial este desafio espiritual e cultural tantas vezes dirigida aos Países industrializados do Ocidente, no qual desafio `os princípios e os valores da religião cristã estão há muito tempo entretecidos na trama mesma da sociedade. Hoje porém são postos em dúvida e esvaziados por modelos culturais alternativos, baseados num individualismo tão radical que freq�entemente leva à indiferença, ao hedonismo, ao consumismo e a um materialismo prático capaz de corroer e até subverter os fundamentos da mesma vida social`.[3] E mais adiante o Papa tem palavras veementes acerca do valor da Família neste momento histórico, quando sublinha que `toda a sociedade humana está profundamente radicada na família e qualquer enfraquecimento desta instituição não pode ser senão uma fonte potencial de graves problemas e dificuldades para a sociedade em seu conjunto`.[4]

3.3. Chamados a viver na comunhão trinitária a mesma vida de Deus

A quantos afirmam que não é relevante o fato de que Deus seja uno e trino, uno em três pessoas, deve ser lembrado, com firme clareza, que é justamente da imagem de Deus formada em nós que depende não só o respeito da originalidade da Revelação cristã (nós, de fato, cremos no Deus Trindade) mas também a qualidade da imagem de homem, de sociedade, de religião, de Igreja e até da nossa mesma missão no mundo.

Na luz do Deus de Jesus Cristo � que é Deus-Amor � não há lugar para nenhuma concepção monoteísta, nem politeísta, que pretenda fundar sobre Ele a �nsia de poder ou de outra forma de egoísmo. Os acontecimentos de 11 de Setembro, perpetrados em nome de um Deus vingador, mostram com lúcida clareza que circulam hoje concepções e imagens de deus que estão muito longe do Deus-Amor revelado em Jesus Cristo. É isto o que se pode dizer de quantos procuram organizar o mundo, fundando-o no abuso do poder e do domínio, sobre a opressão e a pobreza do homem, isto é, que têm uma falsa idéia e uma distorcida representação daquele Deus que nos criou à sua imagem e semelhança, e que nos chamou a viver junto com ele, na comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Nós, ao contrário, envoltos e iluminados pelo mistério de Deus, `luz que ofusca mas não cega`, estamos persuadidos de que a palavra do Amor é a imagem melhor com que nomear o Deus Trindade. `Deus é Amor` (1Jo 4,8.12), nos sugere s. João para exprimir a identidade profunda de Deus. Deriva daí que proclamar que `Deus é Trindade` e que `Deus é Amor` significa usar duas expressões diferentes para exprimir a mesma rica e consoladora realidade.

Mas o amor, como também Deus, se deseja ser visto e acreditado, é preciso que se manifeste: �Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer� (Jo 1,18). �Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é levado à perfeição� (1Jo 4,12).

É na cruz do Senhor Nosso Jesus Cristo que se manifestou de modo especialmente concreto e visível o amor infinito da Trindade por nós, como se pode observar em muitas representações da tradição pictórica, como, por exemplo, naquele célebre quadro de Masaccio que se encontra na igreja de S. Maria Novella, em Florença: admiramos o Pai que com seus braços sustenta e ao mesmo tempo entrega como presente o seu Filho crucificado, enquanto o Espírito Santo, em forma de branca pomba, reúne num vínculo de amor o rosto do Pai com o do Filho, Jesus Cristo.

Foi também isto o que desejou representar o célebre ícone da Trindade, de Andrej  Rubl�v (1422), onde o Amor, que jorra das Divinas Pessoas e as envolve como por uma puríssima luz, se difunde por sobre toda a terra, simbolizada pela única mesa. Da comunhão dos seus olhares vê-se irromper o amor eterno que salvará e santificará o mundo.

`Eis que são três: o Amante, o Amado e o Amor`, diz Santo Agostinho. A nós foi-nos dada a graça de não só conhecer e contemplar tal Amor mas também de acolhê-lo por meio do Batismo e da Eucaristia. Por isso, a fé na Trindade não pode absolutamente reduzir-se a pura adesão a uma verdade fria. Ela pede que nós a possamos traduzir cada dia num estilo de vida, fundado e plasmado por esse mesmo Amor.

Crer num Deus Uno e Trino significa portanto ser e tornar-se cada vez mais pessoas de comunhão, criadores de harmonia nas comunidades, amando, lutando contra toda divisão e desigualdade, e contra todos os mecanismos do egoísmo, empenhados em desenvolver a nossa vocação para a comunhão, favorecendo o crescimento de uma cultura de comunhão e de solidariedade.

3.4. Prática educativa atenta aos direitos humanos

O processo de construção de uma cultura de comunhão, além de fundar-se em valores de fé, funda-se para o que tem fé, no valor absoluto da dignidade humana de cada um, homem ou mulher, irmão ou irmã religiosos, estrangeiro ou concidadão, como afirma o artigo 1 da Declaração universal dos direitos humanos (1948): `Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos`. Ora, o fato de sermos ontologicamente livres e iguais é já uma razão suficiente, antes de tudo, para o respeito recíproco e,   depois, para a recíproca aceitação e a acolhida do outro, até ao passo sucessivo que se exprime na partilha das responsabilidades de todos para o bem comum, com o fim de chegar à comunhão de ideais e de sentimentos.

 Mas porque a convivência humana está sujeita a situações de conflituosidade, que estão ligadas ao mesmo fato da presença de mais grupos e comunidades de diferente derivação cultural, étnica e religiosa, impõe-se o diálogo intercultural, que está assumindo caracteres de problematicidade e de relevante dramaticidade. Embora as raízes dos problemas estejam alhures (pobreza endêmica, fluxos migratórios, globalização não governada, din�mica selvagem da mundialização, desgoverno dos países de proveniência), permanece todavia sempre de fundamental import�ncia a exigência do respeito recíproco e da solidária consecução do bem comum, considerado como o fim principal e unificador de todo o tipo de convivência civil.

Ora o diálogo intercultural, que nós somos chamados a realizar como educadores nas várias latitudes do mundo deverá realizar-se na partilha de um modelo, antes de um projeto de ordem mundial baseado na lei universal dos direitos humanos. O diálogo se faz esclarecendo juntos as coisas a serem feitas dentro da cidade do homem, da qual nós nos sentimos com título pleno cidadãos e por cuja pacífica convivência e desenvolvimento somos responsáveis.

Neste processo de cidadania ativa, nós nos fundamos sobre o reconhecimento jurídico dos direitos humanos, pelo que cada pessoa é dotada pelo mesmo patrim�nio de direitos fundamentais (civis, políticos, econ�micos, sociais, culturais) em qualquer parte do mundo venha a encontrar-se. É sobre esta base de partilha de valores humanos fundantes que se radica toda a possibilidade de diálogo e de comunhão entre os homens, para passar da fase de conflitualidade da multiculturalidade à fase dialógica da interculturalidade. A educação aos direitos humanos, à democracia, ao respeito recíproco e à paz é o primeiro passo para a construção da comunhão, também no interior das comunidades civis em que nós nos inserimos.

Mas esta obra de interiorização e partilha dos valores humanos e universais há que alimentar-se de convicções e energias espirituais, que encontram na religião o seu húmus mais adaptado.  Nesse contexto, descobrimos ainda mais a import�ncia e a fecundidade da nossa pertença a uma Família carismática, que já reconhece estes princípios e que, na sua obra, os procura difundir como plataforma de base para cada discurso educativo, humano e cristão.

 

4. A FAMÍLIA E A COMUNIDADE: CASA E ESCOLA DE COMUNHÃO

Temos consciência de que nenhum de nós está em condições de resolver estes problemas macrossociais, mas estamos também conscientes de que todos podemos contribuir para a realização do ideal da comunhão, na medida em que conseguimos oferecer modelos alternativos, fundados não em privilégios, diferenças e egoísmo, mas na fraternidade, na igualdade e no amor.

Em nossa condição de Família Salesiana e de atenção à educação, podemos intervir eficazmente ao menos num dúplice nível, dentro do raio das nossas imediatas possibilidades e competências, o da família e o da comunidade religiosa.

4.1. A família: casa e escola de comunhão

A família, chamada por Paulo VI `ecclesia domestica` e por João Paulo II na Familiaris Consortio[5]  `o berço da Igreja`, é por si mesma a primeira célula da sociedade, justamente pela experiência de comunhão que nela se aprende a viver, por meio da comunicação vital e experiencial dos valores humanos, a começar por aqueles relacionais. `O amor entre o homem e a mulher no matrim�nio � continua o Pontífice � e, em forma derivada e ampliada, o amor entre os membros da mesma família � entre pais e filhos, entre irmãos e irmãs, entre parentes e familiares � é animado e impelido por um interno e incessante dinamismo, que conduz a família a uma comunhão cada vez mais profunda e intensa, fundamento e alma da comunidade conjugal e familiar`[6] uma comunhão indissolúvel,[7] sinal e expressão da comunhão eclesial e trinitária. É a comunhão das pessoas que faz da família `a mais completa e a mais rica escola de humanidade`�.[8]

A família é o lugar natural de crescimento e de desenvolvimento da pessoa humana, no interc�mbio educativo entre pais e filhos, no qual cada um dá e recebe.

É a casa onde se realiza aquela experiência vital específica, que é o fundamento para a estruturação do indivíduo humano como pessoa, isto é, como indivíduo-em-relação.

É a nossa `tenda`, na qual crescemos e acampamos neste mundo.

É nela que nós passamos `da natureza à cultura`, isto é: é na família que a criança aprende a canalizar os instintos, os sentimentos, as paixões, para formas culturais adequadas.

A família é o espaço privilegiado para formar a nossa identidade de pessoas, para iniciar e desenvolver aquela unidade existencial, que é parte constitutiva de todo o ser humano amadurecido. A multiplicidade das várias dimensões em que se estrutura a pessoa (isto é, a afetiva, a intelectiva, a sexual, a moral, a social, a religiosa) constitui para todo indivíduo um apelo à busca de síntese e de unidade, que assegure a adequada maturidade pessoal, sustentada e facilitada pelo acompanhamento das figuras dos pais e dos outros educadores, chamados por missão à preciosa tarefa da formação e da educação das novas gerações.

É na família que também o adulto encontra aquele vínculo-recurso que lhe permite orientar e guiar os traços impulsivos do próprio caráter rumo a expressões mais aceitáveis de vida civil.

De modo mais especial, em força da sua identidade cristã, a família encontra uma marcha a mais, um `plus` de vida, porque a fé abre os horizontes por sobre a dimensão espiritual e religiosa, pelo que pode falar especificamente de Deus e de amor como aspiração e meta  da existência humana. A presença de Deus na família cristã se torna elemento central da sua unidade e do seu amor, o fulcro de união e de harmonia também nos momentos dolorosos da existência.

A família entretanto é uma das instituições sobre a qual influíram de modo mais maciço os processos de transformação do nosso tempo, enfraquecendo-a na sua estrutura e na sua mesma relação de amor, até à sua dissolução, através das separações, dos divórcios ou de outras formas de convivência e de uniões de casais, facilitados também pelas leis e pelos novos estilos de vida que estão a se difundir, sobretudo por entre as famílias jovens.

Tudo isso não pode não ter tristes conseq�ências para a família, comprometendo não só a maturação das pessoas que a compõem mas também a contribuição que ela pode dar à sociedade. Um estilo de vida caracterizado prevalentemente pelo individualismo e pela defesa da própria auto-realização, é freq�entemente reforçado, não só por uma série de fatores econ�micos, sociais, culturais e políticos mas também pelos meios de comunicação social, inclinados a enfatizar muito mais os modelos transgressivos do que os construtivos de uma vida familiar conduzida na normalidade, com sacrifício e tenacidade. É mais fácil divulgar um esc�ndalo do que conter modelos destrutivos; ostentar mensagens de violência e de sexo que contrastar-lhes os tristes efeitos no aumento dos divórcios, da infidelidade conjugal, do amor-livre, das uniões de fato, das relações pré-matrimoniais.

O resultado que se apresenta aos nossos olhos não nada encorajador, mesmo do ponto de vista previdenciário ou do welfare state, onde constatamos a dificuldade de estabelecer adequadas políticas familiares, com devidas medidas de apoio. E mesmo lá onde isto existe, como nos países do norte da Europa, vão-se afirmando modelos de convivência que pouco têm a ver com o empenho de educação e de formação das novas gerações. Os processos de autonomia das escolhas e de consenso pelas formas mais frágeis de união estão enfraquecendo a família nas suas dimensões, na sua estrutura fundamental e na sua perspectiva de estabilidade e duração.

Daqui se deduz a urgência de uma ação solidária para contrastar aqueles fatores de enfraquecimento progressivo, reforçando a sensibilidade das instituições, dos educadores, das famílias e dos jovens, rumo a um empenho educativo renovado, que resulte mais eficaz. Ainda na Familiaris consortio o Santo padre observa que é por meio de um grande espírito de sacrifício que a comunhão familiar pode ser conservada e aperfeiçoada. De fato, ela exige a pronta e generosa disponibilidade de todos e de cada um para a compreensão, a toler�ncia, o perdão, a reconciliação.[9]

Viver no meio dos jovens e das suas famílias constitui para nós uma condição privilegiada, não só para captar a sua muda, sofrida e implícita invocação de auxílio, mas também para agir com perspectivas pedagógicas na direção de um válido apoio à sua vida de comunhão.

4.2. A comunidade religiosa: casa e escola de comunhão

Na vida da comunidade religiosa a comunhão sempre foi um elemento característico e significativo, a ponto de se afirmar que a sua organização interna deu lugar a verdadeiros centros de humanidade e de cultura. Os religiosos, como também as religiosas, se reuniam juntos para ajudar-se na caminhada de aperfeiçoamento espiritual e para realizar uma missão comum, vivendo em fraternidade.

São disso um exemplo eloq�ente os diversos modelos evangélicos de vida comunitária: o da família de Nazaré, o da comunidade apostólica ao redor de Jesus, o da comunidade de Jerusalém, etc.

Entretanto a experiência dos nossos dias faz mostra-nos à evidência a multiplicidade e a variedade dos problemas que a perpassam e que se traduzem numa crise da vida religiosa: uma crise que atinge a vivência da sua vida comunitária. Nunca talvez se tenha falado tão insistentemente de comunhão como hoje, e nunca talvez como hoje assistamos à penetração subtil de multíplices formas de individualismo, que danificam as comunidades religiosas, tornando mais difícil, quase brecada, a própria consagração a Deus e ao homem, e favorecendo também a diminuição do entusiasmo e do fervor do mesmo carisma inicial.

Para nós, salesianos, é evidente que Dom Bosco se inspirou mais no ícone da comunidade apostólica do que no espírito de escondimento da Família de Nazaré. Para ele a missão em favor dos jovens era a razão fundamental para viver e trabalhar juntos e meio para criar a comunidade. Mas ao mesmo tempo, como genial educador que era, desde o início Dom Bosco intuiu que os jovens precisavam de amor e de calor, que mais facilmente se podia encontrar no ambiente de família. `A educação é negócio do coração`, repetia aos seus colaboradores. Assim, a educação só será eficaz e profunda se formos capazes de engendrar e desenvolver em nossas casas o espírito de família.

Nesta atmosfera se compreende ainda mais o vigor e a urgência dos princípios ensinados por Dom Bosco e que devem ser para nós idéias-forças da nossa missão, isto é:

- não basta amar os jovens, é preciso fazê-los sentir que são verdadeiramente amados;

- também nos jovens mais difíceis há centelhas de bem; uma vez descobertas podem tornar-se poderosos recursos na mão do educador;

- é preciso amar as coisas que agradam aos jovens, para que os jovens gostem daqueles valores que o educador lhes apresenta.

Em resumo, trata-se de amar com um amor `amorável`, justamente porque a amorabilidade, a bondade, a afabilidade, são atitudes que tornam crível, transparente e legível a carga do amor com que o educador interage com os jovens, como bem observa João Paulo II na Carta `Juvenum Patris`, enviada ao P. Egídio Viganó, em 1988, por ocasião das celebrações para o Centenário da morte de Dom Bosco, quando afirmava que para a Igreja �interessar-se pela educação é obediência ao mandato recebido do seu divino Fundador�.[10]

Em particular, educar no espírito salesiano da amorabilidade significa �desenvolver uma atitude cotidiana, que não é simples amor humano nem só caridade sobrenatural. É o empenho do educador como pessoa totalmente dedicada ao bem dos educandos, presente no meio deles, pronta a enfrentar sacrifícios e fadigas para cumprir a sua missão. Tudo isso requer uma verdadeira disponibilidade para os jovens, simpatia profunda e capacidade de diálogo�.[11]

Dom Bosco amadureceu longamente a sua experiência educativa. Ela foi reforçada pelo sonho dos 9 anos, tão programático e decisivo para a sua vocação de educador, mas antes ainda havia sido iniciada pelo contínuo e afetuoso relacionamento com Mamãe Margarida, como também por toda a sua experiência familiar da sua inf�ncia. Com o crescer dos anos, a intensificação da sua experiência pastoral e as suas profundas intuições pedagógicas levaram-no a fazer do Sistema Preventivo o seu método e a sua espiritualidade.

Tudo isso se traduziu concretamente na experiência da primeira comunidade de Valdocco, que voltou a ser o ponto de referência e de avaliação, quando pelo fim de sua vida as coisas estavam de tal forma mudadas que Dom Bosco se viu obrigado a escrever a preciosa Carta de Roma de 1884, que ficará na tradição salesiana como o critério de avaliação de toda a autêntica presença educativa dos seus filhos e filhas nos vários ambientes do seu apostolado.

A nossa comunidade permanece portanto ambiente privilegiado e modelo de comunhão.

 

5. PARA UMA PEDAGOGIA DA COMUNHÃO

Como todos os valores, a comunhão e a solidariedade não são um fato instintivo e natural. Natural é, antes, a busca de si, o egocentrismo, o individualismo, a que mais facilmente estamos inclinados, por causa da nossa fraqueza. O espírito de comunhão ao contrário requer aprendizagem com regras precisas, tempos longos, etapas bem definidas; exige uma estratégia educativa, com os seus ritmos e os seus espaços.

Justamente porque estes valores da família e da comunidade não são suficientemente estabilizados na estrutura da personalidade dos indivíduos, é necessário � sobretudo nas fases iniciais da formação dos meninos, rapazes e jovens � uma abordagem mais intencional, mais orientada e mais propositiva, oportuna e detalhadamente estudada nos seus objetivos, etapas intermediárias, instrumentos operativos e experiências qualificantes: itinerário formativo que constitui aquela que poderíamos chamar a pedagogia da comunhão.

Se as pedrinhas do mosaico despegaram, será necessário rep�-las no devido lugar. Se as peças do quebra-cabeça se encontrarem baralhadas e em desordem, será preciso recomp�-las e rep�-las juntas, na organização de um todo unitário. Se os elementos constitutivos da família e da comunidade estão dispersos, será necessário recuperá-los por meio do espírito de comunhão e de tensão de unidade. Este o objetivo da pastoral familiar. Mas esta é também a finalidade de uma renovada assunção de responsabilidade para uma CEP � Comunidade Educativo-Pastoral.

5.1. Numa perspectiva trinitária e eclesial

Em preciosa e iluminadora intervenção, escreve o P. Castellano: �Emerge claramente, na referência à comunhão, o chamado ao arquétipo divino trinitário, à realidade da vida que circula no Corpo Místico, ao sentido de fraternidade e de Família de Deus, à exigência que a comunhão das pessoas na Igreja reproduza aquele ícone ideal do Pentecostes, que é, a um só tempo, o oposto do coletivismo sem rosto e do individualismo narcisista. A Igreja e cada comunidade na Igreja, não é a soma de individualismos fechados. Não é o anonimato dos coletivismos sem rosto. É a Igreja do Pentecostes, onde cada pessoa � alcançada pela única chama do Espírito que se pousa sobre cada um, revelando-lhe o nome e o rosto � indica que a graça da comunhão é justamente o movimento livre de convergência das pessoas e a livre assunção de tarefas e de missões. A imagem da Trindade, comunhão inefável de Pessoas�.[12]

A graça da comunhão que se traduz no empenho de construir fraternidades serenas, ativas e propositivas, ajuda-nos a encarnar o projeto de Deus na história humana das nossa comunidades e das nossas famílias para construir uma igreja, ícone da Trindade, que atraia todos a si, pela beleza divina expressa pelo mistério da comunhão.

Condição primeira e radical se torna então uma autêntica �espiritualidade da comunhão�,[13] que é definida por João Paulo II como `olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos que nos estão ao lado .... Significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, �como um que faz parte de mim�`.[14]

Disto derivam algumas conseq�ências muito práticas, como partilhar as alegrias e os sofrimentos dos irmãos; intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades; oferecer-lhes uma verdadeira amizade; ver o que de positivo e de belo Deus semeou em suas vidas, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus a nós que lhes estamos perto; saber criar espaço para o irmão, levando os fardos uns dos outros.[15]

5.2 Numa vida unificada e unificante

O trabalho de reunificação supõe qualificar aqueles elementos da vida que têm um caráter `sacramental` na construção da comunhão: a palavra de Deus, que é antes de tudo o livro da comunidade, assim como esta é a comunidade do livro; a celebração da Eucaristia; os momentos de formação; o diálogo comunitário; os momentos da revisão de vida.

A educação à comunhão se desenvolve através de um empenho renovado e perseverante de comunhão com os outros, e uma abertura, ainda que trabalhosa, da nossa identidade, que tende a fechar-se no seu próprio mundo. É preciso superar o medo do relacionamento com os outros, que às vezes pode p�r em perigo a nossa intimidade e a nossa bem-aventurada solidão.

Por isso, `a fim de que a comunhão adquira concretitude e densidade humana, é preciso uma ascese comunitária cotidiana, que exige estes três movimentos essenciais:

- identificação, ou seja, sentir-se de `pertencer a`, constituir um �nós� fortemente comunitário, que não ceda a fáceis divisões, que não se esconda atrás do mesquinho `vós` que divide em bons e maus, que saiba pacientemente fazer comunhão também nas aparentes falências comunitárias;

- solidariedade, como partilha de ideais e programas, prontidão e disponibilidade na hora de cumpri-los, evitando recuar ou fugir quando a barca ameaça afundar: é virtude humana, com extraordinária força evangélica;

- participação, ou seja: vive-se a comunhão quando ela se encarna nos vários aspectos da vida ordinária: uma participação generosa, pela total disponibilidade, e responsável, porque cada um vela por quanto lhe foi confiado, entendendo concorrer com os outros para o jogo do time`.[16]

A comunhão empenha todas as energias espirituais, todas as virtudes evangélicas e humanas, e requer perseverança no bem, em tensão rumo à santidade comunitária e familiar e rumo à realização da vontade de Deus. �A comunhão nasce exatamente da partilha dos bens do Espírito, uma participação da fé e na fé, onde o vínculo da fraternidade é tanto mais forte quanto mais central e vital é o que se põe em comum�.[17]

Seria pernicioso criar apenas ideais, sem educar à doação constante, à responsabilidade por construir a comunhão dia após dia, numa din�mica da caridade que não pede menos que a entrega da vida, segundo as palavras de Jesus: �Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por aqueles que ama� (cf. Jo 15,13).

É portanto indispensável a criação de um ambiente, de uma atmosfera favorável e ao mesmo tempo propositiva, que em casa faça ouvir mas também proponha uma generosa participação, uma reciprocidade na comunhão, um investimento de energias, de tempo, de dotes pessoais, de qualidades que fazem crescer as pessoas, superando aquela escondida mas deletéria expectativa e pretensão de pensar que tudo deva vir e ser dado pelos outros. O verdadeiro amor leva a marca da cruz.

Em sua carta `Especialistas, testemunhas e artífices de comunhão�, uma verdadeira obra de arte a que gostaria de novo remeter, o P. Vecchi oferecia alguns passos concretos,[18] referidos à comunidade religiosa, mas que se podem também encaminhar à família, que brevemente sintetizo:

- a capacidade de relacionamentos interpessoais profundos, não só funcionais para o trabalho mas tais de amadurecer na amizade para com o crescimento no Senhor e a solidariedade na missão;

- a capacidade de superar as carências de alguns - como a dificuldade de comunicar-se, a timidez, a tristeza e o mal-estar - com uma atitude feita de proximidade, união, alegria;

- o empenho por cultivar as qualidades humanas requeridas para o êxito de qualquer grupo social, quais a auto-estima, a gentileza, a sinceridade, o controle de si, o sentido do humor, o espírito de partilha;

- a comunicação, que não se reduz à troca de notícias de jornal ou dos dados de trabalho, mas que se manifesta na partilha de experiências e de intuições relacionadas com a nossa vida em Cristo, com a forma de entender o carisma; que se favorece através da revisão de vida, da avaliação da comunidade, do interc�mbio na oração, do discernimento a respeito de situações, de projetos e de acontecimentos, sempre prontos a modificar juízos e posições, mesmo só com a finalidade da convergência fraterna e operativa;

- enfim a capacidade de trabalhar juntos, passando do eu ao nós, do meu trabalho ou setor à nossa missão, da busca dos meus objetivos e meios à convergência a respeito da evangelização e do bem dos jovens. Para isto servem os conselhos e as assembléias comunitárias, o dia da comunidade, os encontros.

5.3. Em comunidade e em família: lugares da concretude

A comunidade e a família são o lugar da avaliação, do crescimento das pessoas, da concreteza dos empenhos, da práxis realista das virtudes, cuja solidez é provada no cotidiano da comunhão.

Se é verdade que quanto mais se vive na comunhão e quanto mais concreto é o ritmo de vida, tanto maiores são as exigências e portanto as dificuldades da vida comunitária e familiar, é também verdade que se requer um espírito de ampla e mútua misericórdia, uma notável capacidade de perdão e de reconciliação, como única possibilidade para não perder o ideal que nos é proposto pelo Senhor Jesus.

É preciso aprender a acolher as pessoas, ouvi-las, encorajá-las, perdoá-las, e não só avaliar os programas, adaptar os projetos, potenciar os recursos. O amor cristão é uma arte que se aprende na escola de Jesus.

Ele implica a vontade de:

- amar a todos, sem fundar-se em simpatias ou antipatias, ou em pertenças étnicas diferentes;

- amar por primeiro, dando sempre o primeiro passo, indo por primeiro ao encontro dos mais afastados, sem esperarmos que antes nos procurem ou reverenciem, ou nos façam procurar;

- amar como a si mesmo, segundo a `regra de ouro do evangelho`, que convida a tratar os outros como nós mesmos queremos ser tratados (cf. Lc 6,31);

- amar solidamente, carregando os fardos uns dos outros, sofrendo com quem sofre e alegrando-nos com quem se alegra (cf. Gl 6,2; 1Cor 12,26);

- amar também o inimigo, aquele que não pensa como nós e que talvez queira também o nosso mal;

- amar corretamente, aprendendo a renegar-nos a nós mesmos contanto que se chegue à unidade.

É na concreto da vida de comunidade e de família que se constrói a comunhão, que se torna profecia. E onde há ruptura, conflito e ressentimento, mais forte deve ser a profecia da comunhão, que chega também à comunhão de famílias e à comunhão de comunidades religiosas internacionais.

 

6. CONCLUSÃO: CONCENTRAR-SE EM DEUS

Doróteo de Gaza, um clássico da doutrina monástica do século VI, ao refletir sobre a vida comunitária se serve de maneira muito eficaz e plástica de dois símbolos: o do corpo e o do círculo.

O primeiro é mais compreensível por suas resson�ncias paulinas. O segundo é mais original, quase mais universal, ao mesmo tempo sugestivo e moderno, porque conjuga contemporaneamente o amor a Deus com o amor ao próximo.

Trata-se de uma metáfora tirada dos Padres, que talvez remonta ao tempo dos Apóstolos. Pela imagem deseja Doróteo p�r em evidência como todos nós caminhamos juntos para Deus assim como os raios de um círculo convergem para o seu centro. Com a característica de que quanto mais eles se aproximam do centro, tanto mais se avizinham também entre si, e quanto mais se aproximam entre si tanto mais eles convergem para o centro.

É uma metáfora muito límpida: diversos são os caminhos que levam a Deus, como diversas e irrepetíveis são as pessoas e as vocações, e diversos são os caminhos que convergem para o centro. O círculo, para além de sua fria figura geométrica, representa um estilo de vida, o estilo dos santos que caminham decididamente para o seu centro, Deus. Provêm de pontos diferentes do círculo, mesmo distantes entre si, e por vezes talvez opostos, atraídos misteriosamente pela força do centro. Rosto e olhar convergem em movimento centrípeto, que une uns aos outros. Na medida em que se aproximam de Deus, centro ideal, também se aproximam entre si de maneira muito mais profunda. É a maravilhosa peregrinação rumo à comunhão em Deus.

Mas está implícita também a outra face da metáfora: a da separação e do movimento centrífugo, para o recíproco afastamento ou rejeição. Quanto mais as pessoas se afastam de Deus, tanto mais também se afastam umas das outras; e quanto mais se afastam entre si, tanto mais se afastam de Deus.

É um dinamismo em que podemos ver bem descrita a lógica interna da comunhão/desagregação. Caminhando para o centro os rostos convergem, se encontram, concentram-se e se comunicam. Retrocedendo e afastando-se, rejeitando a comunhão com Deus, perde-se também a comunhão entre as pessoas, aprofunda-se a dist�ncia recíproca, permanecendo cada qual fechado em seu próprio egoísmo, tolhido na sua própria solidão, não iluminado nem pelo amor que vem de Deus nem pelo reflexo de luz que vem do amor ao próximo.

Quanto mais distantes estamos de uma referência a Deus, tanto mais distantes nos tornamos do nosso próximo (cf. 1Jo 4,19-21). Mas é também verdade que quanto mais nos aproximamos do nosso próximo, tanto mais nos aproximamos de Deus, que se faz presente no homem, até identificar-se com o mais pequeno dos seres humanos, como nos assegura o próprio Jesus: �Cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes� (Mt 25,40).

Os dois símbolos propostos parecem estar hoje aptos a inspirar o caminho da espiritualidade das comunidades religiosas, sobretudo no que se refere ao aprofundamento do processo de realização da comunhão em seu interior. Mas tais símbolos se podem referir também à vida de comunhão das famílias.

E para dar ênfase à sua metáfora, Doróteo refere um dito do abade Zosima, que se pergunta: `Quem é que, tendo uma ferida na mão ou no pé, ou em qualquer outro membro, sentiria repugn�ncia de si mesmo ou, sem mais, deceparia os próprios membros, ainda quando a ferida  estivesse pútrida? Não é verdade, ao contrário, que dela trataria, a lavaria, emplastraria, enfaixaria, ungindo-a com óleo santo, rezaria, invocaria os santos para que intercedessem por ele? Em resumo, é certo que não abandonaria nem rejeitaria o próprio membro, fossem mesmo os odores fétidos, fazendo quanto pudesse para curá-lo e salvá-lo!�.

Quem é que não ouve nestas palavras um eco da doutrina de São Paulo sobre a caridade? �Assim � continua Doróteo � devemos também nós compadecer-nos uns dos outros, cuidar de nós mesmos ou diretamente ou por meio de outros mais capazes, e excogitar e fazer de tudo para ajudar-nos a nós mesmos e ajudar-nos uns aos outros. Somos de fato membros uns dos outros, como diz o Apóstolo (Rm 12,5). Se portanto formamos todos um só corpo, e também singularmente somos membros uns dos outros, quando um membro sofre, com ele sofrem, juntos, todos os outros membros (cf. 1Cor 12,26).

Estas reflexões que interpretam tão bem os textos paulinos, propondo de maneira plástica uma doutrina muito cara aos primeiros cristãos, podem ser, muito adequadamente, aplicadas à vida da comunidade religiosa e à vida da família. Elas exprimem de modo próprio e variado o mistério da Igreja, corpo de Cristo, que se funda sobre a caridade recíproca e dela vive cada dia: uma caridade que se torna compaixão mútua, ajuda recíproca, quer quando é posta à prova nos momentos difíceis da convivência, como quando um dos seus membros manifesta uma doença física ou uma fraqueza moral.

Quando este corpo sofredor, que é cada comunidade e família, vive plenamente a caridade, então não reage com arroubos de ira ou azedas condenações, mas prevalece o sentido de solidariedade misericordiosa que considera os outros, também os pecadores, como os seus membros mais delicados, e não desdenha partilhar os seus sofrimentos e as suas enfermidades. A vida de comunidade e a vida de família na verdade não se fundam na utopia de uma comunhão perfeita, mas no realismo de uma situação de pobreza e algumas vezes até de esc�ndalo.

Durante este ano, proclamado por João Paulo II como o `Ano do Rosário`, queremos entregar a Maria as nossas famílias e as nossas comunidades religiosas, para que Ela as guarde zelosamente na unidade. Possa a oração do Rosário, rezado juntos em família e em comunidade, fazer crescer a sua vida e o seu testemunho de comunhão.

Roma, 31 de dezembro de 2002.

Pascual Chávez V.

[1] Partir de Cristo. Um renovado compromisso da vida consagrada no terceiro milênio. Instrução da Sagrada Congregação para os Institutos de Vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica. Roma, 2002
[2] PdC 28
[3] Osservatore Romano, 8 settembro 2002, p. 5
[4] Ibidem
[5] FC 15
[6] FC 18
[7] cf. FC 20
[8] FC 21
[9] cf. FC 21
[10] IP n. 7
[11] IP n. 12
[12] Jesús Castellano Cervera, `Mistica e ascesi della comunione`, in Religiosi in Italia, 329, marzo-aprile 2002, p. 67
[13] VC 51
[14] NMI 43
[15] cf. PdC 29
[16] Castellano, o. c., p. 77-78
[17] A vida fraterna em comunidade, n. 32
[18] cf. ACG 363, p. 30-35
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