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Estréia 2011: Comentário

VINDE E VEDE

« Eis o Cordeiro de Deus! … Que procurais? … Rabi, onde moras? …
Vinde e vede » (Jo 1,36-39)

Apresentação da Estreia 2011

Um dado histórico, confirmado pelos quatro evangelistas, é que, desde o início da sua atividade evangelizadora (cf. Mc 1,14-15), Jesus chamou alguns para segui-lo (cf. Mc 1,16-20). Os seus primeiros discípulos tornaram-se assim "companheiros durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, a começar pelo batismo de João até o dia em que foi elevado do meio de nós" (At 1,21-22).

Evangelização e vocação são, pois, dois elementos inseparáveis. Antes, o critério da autenticidade de uma boa evangelização é a sua capacidade de suscitar vocações, amadurecer projetos de vida evangélica, envolver inteiramente a pessoa dos que são evangelizados, até fazer deles discípulos e apóstolos.

Após a Estreia de 2010, "Senhor, queremos ver Jesus", sobre a urgência de evangelizar, faço um acalorado apelo à Família Salesiana para sentir a urgência, a necessidade de convocar.

Caros irmãos e irmãs, membros todos da Família Salesiana, convido-vos, por isso, a serem verdadeiros guias espirituais para os jovens, como João Batista que indica Jesus aos seus discípulos dizendo-lhes: "Eis o Cordeiro de Deus!" (Jo 1,36), de modo que eles possam segui-lo, até que Jesus, ao perceber que o seguem, dirige-se diretamente a eles com a pergunta: "Que procurais?", e eles, tomados pelo desejo de conhecer em profundidade quem é esse Jesus, perguntam-lhe: "Rabi, onde moras?" (Jo 1,38), e Ele os convida a fazerem uma experiência de convivência com ele: "Vinde e vede". E eles terão experimentado algo de imensamente belo a partir do momento em que "foram, viram onde morava e permaneceram com ele" (Jo 1,39).

 

Eis o caminho pedagógico a percorrer

1. Retornar a Dom Bosco

  • Fazer nossa a sua experiência em Valdocco, que cria um ambiente de familiaridade, de forte valor espiritual, de empenho apostólico e acompanhamento espiritual, sustentado por um intenso amor à Igreja e ao mundo.
  • Manifestar a beleza, a atualidade e a variedade da nossa vocação salesiana: a vida inteiramente entregue a Deus a serviço dos jovens vale a pena de ser vivida.
  • Viver a própria vida e ajudar a entender a vida dos outros como vocação e missão. Tudo como um grande dom vivido na centralidade de Deus, na fraternidade entre os consagrados e na dedicação aos mais pobres e necessitados.

2. Para ser Dom Bosco para os jovens de hoje

  • Viver conscientes e tornar clara a centralidade dos consagrados na realização da missão salesiana. Esta foi a convicção e a experiência de Dom Bosco.
  • Criar, como em Valdocco, uma cultura vocacional, caracterizada pela busca do sentido da vida, no horizonte da transcendência, sustentada e encorajada por valores profundos, com caráter projetual, para uma cultura da fraternidade e da solidariedade.
  • Garantir o acompanhamento mediante a qualidade da vida pessoal, a educação ao amor e à castidade, a responsabilidade para com a história, a iniciação à oração, o empenho apostólico.
  • Fazer do Movimento Juvenil Salesiano lugar privilegiado para um caminho de discernimento vocacional; nele, os jovens experimentam e manifestam como que uma corrente de comunhão ao redor da pessoa de Dom Bosco e dos valores da sua pedagogia e da Espiritualidade Juvenil Salesiana, desenvolvem o voluntariado e amadurecem projetos de vida.

 

Roma, 31 de maio de 2010.

P. Pascual Chávez Villanueva
Reitor-Mor

"VINDE E VEDE" (Jo 1,39)
A NECESSIDADE DE CONVOCAR
Eis o Cordeiro de Deus! Que procurais? Rabi, onde moras?
Estreia 2011
PREMESSA: Alguns eventos significativos do segundo semestre de 2010 - COMENTARIO d ESTREIA 2011: 1. Retornar a Dom Bosco. Como Dom Bosco realiza o trabalho de promoção das vocações? - 2. Urna urgéncia prévia: criar e fomentar a cultura vocacional. A vida é vocação - Aberta aos outros e a Deus - Vivida corno dom e missão. - 3. Aspectos que tém significatividade especial na animagéo e na proposta vocacional. Promover a cultura vocacional: missão essencial da Pastoral Juvenil. - A educação ao amor, à castidade. - A educação à oração - O acompanhamento pessoal. - Centralidade e papel da consagração religiosa na missão da Família Salesiana. O Movimento Juvenil Salesiano (Articulação da Juventude Salesiana), lugar vocacional privilegiado. - 4. Conclusão. Beleza e atualidade da vocagéo salesiana. - A Caravana no deserto. - A Danga da Vida.
Roma, 25 de dezembro de 2010. Solenidade do Natal do Senhor
Caríssimos irmãos,
a minha saudação, onde quer que estejam, leve a todos os meus vivíssimos votos de urna bela, alegre e fecunda celebração do mistério da Encarnação do Filho de Deus. Evidentemente, não se trata de urna afirmação de fé que nada tenha a ver com a nossa vida. Ao contràrio, esta confissão de fé torna-se revelação do mistério da pessoa humana e, portanto, um programa de vida. Com efeito, Ele se fez homem, pienamente conto nós, compartilhando em tudo, menos no pecado, a nossa pobre condição humana para que nos tornàssemos filhos de Deus. Ele não veio para consagrar a nossa natureza humana, mas para transformà-la a partir de dentro, e tornà-la nova assumindo-a pienamente. Esta é a nossa vocação: reproduzir em nós a sua imagem (cf. Rin 8,29), e também a nossa missão: "Educamos e evangelizamos segundo um projeto de promoção integrai do homem, orientado para Cristo, homem perfeito" (Const. 31).
Após a minha última carta, todos poderào encontrar as atividades desenvoividas nestes meses Tendo a crónica do Reitor-Mor, embora ANS ofereça um serviço atualizado sobre todas as minhas viagens, visitas, compromissos e intervenções. Contudo, creio oportuno acenar a alguns eventos e/ou celebrações mais significativos.
Antes de tudo, a visita extraordinària à Delegação de Malta, no início de setembro, enquanto o meu Vigario visitava a Irlanda, foi ocasião de reviver a experiência de aproximar-me das comunidades não por motivações festivas ou celebrações, mas para conhecer as presenças salesianas, os contextos nos quais elas viveur a vida salesiana e realizam a missão, os desafios que enfrentam e os projetos que levam adiante. Normalmente, na Congregação, as visitas extraordinàrias são feitas pelos Conselheiros Regionais ou por outros visitadores, atendo-se ao artigo 104 dos Regulamentos que estabelece: "O Reitor-Mor gode visitar, pessoalmente ou por meio de outrem, as inspetorias e as comunidades locais, todas as vezes que julgar necessàrio". Creio que para os irmãos a visita foi uma rajada de ar fresco nos pulmóes e, para mim, uma verdadeira graça.
A Assembleia mundial dos Ex-alunos, no final de setembro e início de outubro, aconteceu em clima de grande serenidade e responsabilidade. Pude constatar, novamente, a imensa energia que temos à disposição nesta Associação, mas da qual ainda não conseguimos usufruir pienamente. Creio que estamos desperdiçando um potencial que poderia ser de grande relev'ància se ajudàssemos os ex-alunos a passar do simples fato de terem sfido alunos de uma eccola salesiana à tomada de consciência do dom da educação salesiana e, conseguentemente, do seu empenho para enriquecer as familias e a sociedade com os valores recebidos e agir como verdadeiras federações e confederações com projetos claros e eficazes. Temos aqui um desafio a assumir como Congregação.
Entretanto, no meu modo de ver, o acontecimento mais importante que celebramos neste periodo foi o Congresso Internacional sobre "O Padre Rua na história", que viu a admirável e global representação das Inspetorias de toda a Congregação, a participação qualificada das Filhas de Maria Auxiliadora e de alguns membros da Família Salesiana. Com o Congresso organizado um ano antes pela ACSSA (Associação dos Cultores de História Salesiana), este Congresso Internacional ofereceu-nos, como o mais precioso fruto, urna imagem realmente rica, diria inédita, do Padre Rua. A partir de agora jà ao se poderà continuar a etiquetà-lo com os clichés clàssicos usados para defini-lo como "a Regra viva", o "outro Dom Bosco", mas serà preciso estudà-lo sabendo que ele representa a fase da história mais relevante para a Congregação, ou sejà, a fase da transição depois da morte de Dom Bosco fundador. Enquanto almejo que as Inspetorias organizem congressos ou seminàrios inspetoriais sobre o tema, oriento-os à leitura e ao estudo dos textos dos dois Congressos, jà editados. Serà o melhor início da preparação ao bicentenàrio do nascimento de Dom Bosco.
Não posso deixar de recordar, ainda, a reunião dos Inspetores da Europà, reunidos em Roma nos dias 26-28 de novembro, para continuar a reflexào — jà desenvolvida nos dois encontros anteriores — sobre o "Projeto Europa". Este Projeto predispóe-se a fazer a revitalização endógena do carisma na Europa, iniciar e consolidar os processos de ressignificação, realocação e redimensionamento das presenças salesianas neste continente, e assumir o compromisso da nova evangelização para a Europa, também com o envio de "missionàrios" provenientes de todas as partes da Congregação. Este terceiro encontro dos Inspetores da Europa contribuiu para tornar mais claro os objetivos a alcançar no biénio 2011-2012 e dar-lhes maior consisténcia.
Enfim, antes de apresentar-lhes a Estreia 2011, recordo que o P. Marek Chrzan foi nomeado Conselheiro para a Região Europa Norte após a renúncia por motivos de saúde do P. 'Stefan TuranskSi, ao qual renovo publicamente a minha gratidào pelo generoso serviço prestado nestes dois anos e meio desde a sua eleição. Além disso, nomeei Postulador para as Causas de beatificação e canonização o P. Pier Luigi Cameroni, em substituição ao P. Enrico Dal Covolo, nomeado pelo Santo Padre Reitor Magnifico da Pontificia Universidade Lateranense e, em seguida, ordenado Bispo.
Sem mais, passo a apresentar-lhes a Estreia de 2011. Faço-o com a certeza de oferecer-lhes um presente apreciado, tanto pelo valor que a Estreia tem por si mesma em nossa tradição salesiana desde os tempos de Dom Bosco, quanto pelo tema escolhido que interessa à nossa vida e à nossa missão. Convido-os a ajudar os jovens a descobrirem que a vida é vocação e, mais concretamente, a amadurecer projetos de vida apostólica mediante a educação na fé, a inserção na Igreja, a escuta da Palavra, a oração, a participação na vida sacramental, o acompanhamento espiritual e a iniciação no trabalho apostólico.

Caríssimos Irmãos e Irmàs,
Todos os Membros da Família Salesiana e Amigos de Dom Bosco,
cumprimento-os com o grande afeto e estima que tenho por todos e cada um de vocés, desejando-lhes um ano-novo cheio das bénçãos que o Pai nos quis dar na encarnação do seu Filho.
Escrevo-lhes para apresentar a Estreia 2011, na certeza de lhes dar um agradavel presente pelo valor que a Estreia tem em nossa tradição salesiana desde os tempos de Dom Bosco, pelo tema escolhido que interessa à nossa vida, à nossa missão e à nossa capacidade de ajudar a descobrir que a vida é vocação e, ainda, pelo momento que vivemos corno Igreja e Família Salesiana, sobretudo no Ocidente.
Após a Estreia 2010, "Senhor, queremos ver Jesus", sobre a urgéncia de evangelizar, parece-me a coisa mais lógica e natural fazer um caloroso apelo à Família Salesiana inteira para nutrir, com os SDB, o sentido da necessidade de convocar. De fato, nós, salesianos,
"sentimos hoje, mais forte do que nunca, o desafio de criar urna cultura vocacional em todos os ambientes, de modo que os jovens descubram a vida corno chamado e toda a pastoral juvenil seja realmente vocacional. Isso exige ajudar os jovens a superar a mentalidade individualista e a cultura da autorrealizaffio, que os leva a projetar o futuro sem colocar-se à escuta de Deus; isso também exige envolver e formar familias e leigos. Deve-se colocar um ernpenho especial em suscitar entre os jovens a paixào apostólica. Como Dom Bosco, somos chamados a encorajà-los a sereni apóstolos dos seus companheiros, a assumiremvc'irias formas de servilo eclesial e social, a se empenharem em projetos missionàrios. A fim de favorecer a opgào vocacional de trabalho apostólico, dever-se-e tpropor a esses jovens urna vida espiritual mais intensa e um acompanhamento pessoal sistematico. Esse é o terreno no qual florescerào familias capazes de testemunho auténtico, leigos empenhados em todos os níveis na Igreja e na sociedade e também vocaffies para a vida consagrada e para o ministério".
Evangelização e vocação, caros irmãos e irmàs, saio dois elementos inseparàveis. Mais ainda, o criterio de autenticidade de uma boa evangelização é a sua capacidade de suscitar vocações, amadurecer projetos de vida evangélica, envolver inteiramente aqueles que saio evangelizados, até fazer deles discípulos e apóstolos.
Um dado histórico da vida de Jesus, confirmado pelos quatro evangelistas, é que, desde o início da sua atividade evangelizadora (cf. Mc 1,14-15), Jesus chamou alguns para segui-lo (cf. Mc 1,16-20; Mt 4,18-19; Lc 5,10-11; Jo 1,35-39). Os seus primeiros discípulos foram, entào, "companheiros por todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós, até o dia em que foi elevado do meio de nós" (At 1,21-22).
Segundo o Evangelho de João, a vocação dos primeiros discípulos é fruto de um encontro pessoal que suscita neles atração, fascínio, que transforma as suas mentes e, sobretudo, os seus corações, reconhecendo em Jesus Aquele em quem se realizam as expectativas mais profundas, as profecias, o Messias esperado. Esta experiência liga-os de tal forma à pessoa de Jesus, que eles o seguem com entusiasmo e comunicam a outros a própria experiência, convidando-os a compartilhà-la, encontrando-se com Jesus pessoalmente. O Evangelho de Lucas também fala de um grupo de mulheres que acompanha e assiste o Senhor (cf. Lc 8,1-3), a significar que, entre os seus discípulos, Jesus tinha algumas mulheres, das quais algumas serào testemunhas da sua morte e ressurreicào (cf. Lc 23,55-24,11.22).
Convido-os, pois, caros irmãos e irmàs, a sereni verdadeiros guias espirituais para os jovens, como João Batista que indica Jesus aos seus discípulos, dizendo-lhes: "Eis o Cordeiro de Deus!" (io 1,36). Eles, entào, o acompanharam e Jesus, ao perceber que é seguido por alguns, dirige-lhes diretamente a pergunta: "Que procurais?", e eles, tornados pelo desejo de conhecer em profundidade quem é Jesus, lhe perguntaram: "Rabi, onde moras?" (io 1,38). E Ele os convidarà, como primeiros discípulos, a fazerem urna experiência de convivéncia com Ele: "Vinde e vede". Eles experimentaram algo de imensamente belo desde o momento em que "foram, viram onde morava e permaneceram com ele aquele dia" (Jo 1,39).
i CG26, Da mihi animas, cetera tolte, Roma, 2008, n. 53: "Vocações para o empenho apostólico".

Eis urna primeira característica da vocação cristà: um encontro, uma relação pessoal de amizade que preenche o coração e transforma a vida. Este encontro transformador é a fé que, animada pela caridade, faz dos crentes e das coinunidades cristàs propagadores da Boa-Nova do Evangelho de Jesus. Assim o exprime Paulo na carta à comunidade de Tessalónica: "Tendo acolhido a Palavra, vós vos tornastes um modelo para todos os crentes da Macedeinia e da Acaia; por vosso intermédio a Palavra do Senhor difundiu-se por toda parte" (cf. lTs 1,7-8). Somos chamados, pois, a renovar este dinamismo vocacional em nós mesmos: comunicar e compartilhar o entusiasmo e a paixào com que vivemos a nossa vocação, de tal modo que a nossa vida se torne, por si sé, uma proposta vocacional a outros. Como fez Dom Bosco que, mais do que campanhas vocacionais, soube criar em Valdocco um microclima onde as vocações cresciam e amadureciam, criando urna autentica cultura vocacional na qual a vida é concebida e vivida corno dom, vocação e missão, na diversidade das opções.
1. RÉTORNAR A DOM BOSCO
Convidados a partir novamente de Dom Bosco para entender sempre mais e poder assumir com maior fidelidade a paixào que ardia no seu coração e o impelia a buscar a glória de Deus e a salvação das almas, imitemo-lo em sua incansàvel operosidade na promocào de vocações a serviço da Igreja, o fruto mais precioso da sua obra de educação e evangelização, de formação humana e cristi dos jovens. Sua experiência e seus critérios e atitudes poderào iluminar e orientar o rosso trabalho vocacional.
"Dom Bosco, embora trabalhando com incansavel generosidade na promoção de varias formas de vocagòes na Igreja, chamava alguns jovens a ficarem para sempre com ele. Também para nós a proposta da vocapao consagrada salesiana dirigida aos jovens faz parte da fidelidade a Deus pelo dom recebido. O desejo de compartilhar a alegria de seguir o Senhor Jesus, ficando com Dom Bosco, para dar esperanca a tantos outros jovens do mundo inteiro impele-nos a isso ".2
Dom Bosco viveu, não o esqueçamos, num ambiente pouco favoravel e, em alguns aspectos, adverso ao desenvolvimento das vocações eclesinsticas. O novo regime constitucional do Reino Sardo, com as consequentes liberdades de imprensa, de consciência, de culto, e a potencial "desconfessionalização" do Estado, produzira um crescente dissenso com a Igreja. A liberdade de culto e a ativa propaganda protestante desorientavam o povo simples, apresentando urna imagem negativa da Igreja, do Papa, dos bispos e sacerdotes. Criara-se no povo e, sobretudo nos jovens, um clima nacionalista impregnado pelas ideias liberais e anticlericais.
O próprio Dom Bosco escrevia recordando aqueles tempos: "Um espírito de exasperação elevou-se contra as ordens religiosas, as Congregações eclesinsticas e, em geral, contra o clero e as autoridades da Igreja. O grito de furor e desprezo pela religião trazia consigo a consequéncia de afastar a juventude da moralidade, da piedade, portanto, da vocação ao estado eclesi 'astico. Por isso, nenhuma vocação religiosa e quase nenhuma para o estado eclesinstico. Como seria possível, humanamente falando, cultivar o espírito de vocação enquanto os institutos religiosos, aos poucos, iam se dispersando, os padres eram vilipendiados; alguns postos na cadeia, outros em prisão domiciliar?".3
2 CG26, Da mihi animas, cetera tolle. Roma, 2008, n. 54: "Acompanhamento dos candidatos à vida consagrada salesiana",
3 Cenno storico sulla Congregazione di S. Francesco di Sales e relativi schiarimenti. Roma. Tip, Poliglotta 1874. In: OE XXV, p. 233.

Vejam, caros irmãos e irmàs, como Dom Bosco reage. Ele não fica a lamentar-se, mas torna-se logo hnbil em recolher e cultivar as vocações e promover a formação de jovens clérigos que ficaram sem seminnrio, em cuidar dos jovens de boa Indole e encaminhnlos à carreira eclesiàstica. No Oratório, com os jovens trabalhadores, órfàos, Dom Bosco logo acolhe meninos e jovens de bom espírito que demonstram sinais para se encaminharem ao sacerdócio e à vida religiosa. Dedica-se com atenção e prioridade à sua formação, urna formação ativa e pratica com acompanhamento pessoal e num ambiente de intenso valor espiritual e apostólico. Desde 1860, a seção "estudantes" do Oratório de Valdocco é considerala na prntica um seminnrio. Dom Bosco mesmo escreve nas Memórias do Oratório "que a casa do Oratório foi por quase vinte anos o seminnrio diocesano".4 Estando ao que escreve o padre Braido, entre 1861 e 1872 entraram no Semin 'ario dé Turim 281 jovens provindos do Oratório.5
Como Dom Bosco realiza o trabalho de promocdo das vocações?
Antes de tudo, Dom Bosco tinha urna atenção especial para descobrir os possíveis sinais de vocação nos jovens com os quais entrava em contato quando ia pregar nas igrejas de vnrios lugarejos e naqueles acolhidos no Oratório de Valdocco. Ele nota que, em meio à massa dos seus jovens, brotam em alguns as condições para urna proposta vocacional, até entào ocultas por urna incrustação de trivialidade e ignorincia. Os pobres oratorianos uniam, de fato, à boa conduta urna alentada inteligéncia; colocaos, entào, à prova como animadores entre os companheiros e estudaos com um especial acompanhamento pessoal, porque Dom Bosco não fica à espera de um desenvolvimento quase mecnnico da vocação; ele sabe por experiência que a inconstância juvenil pode colocà-la em sério perigo. Por isso, colabora ativamente com o dom de Deus criando um ambiente adequado, mantendo nele um clima espiritual que responda às exigéncias de crescimento da vocação, e empenhando-se para ser animador e gufa daqueles nos quais percebe o chamado de Deus à vida sacerdotal e religiosa ou à cooperação salesiana na diversidade das suas expressòes.
 4 Memórias do Oratório de Sào Francisco de Sales — 1815-1855. 3° edição, revista e ampliada aos cuidados de Ant6nio da Silva Ferreira. Sào Paulo, Editora Salesiana, 2003, p. 210. Colocar serviço das dioceses como seminhrios menores as suas (novas) escolas particulares foi um motivo impulsionador da expansão da obra salesiana, cf. A. J. LENTI, Don Bosco: history and spirit Vol. 5°: Institutional Expansion. Roma, LAS, 2009, p. 49-73.
5 Cf. P. BRAIDO, Dom Bosco, padre dos jovens no século da liberdade. Vol. I. Sào Paulo, Editori Salesiana, 2008, p. 540.
1. O primeiro interesse de Dom Bosco é formar um ambiente, diríamos hoje urna cultura, no qual a proposta vocacional possa ser favoravelmente acolhida e chegar à maturação.

  • Ambiente de familiaridade em que Dom Bosco compariilha tudo com os jovens. Vive com eles no Olio, ouve-os, promove um clima de alegria, de festa e de confiança, que abre os corações e faz que os jovens se sintam conio em familia. A alegria que desprendia de toda a pessoa de Dom Bosco, enquanto realizava o seu apostolado sacrificado e entusiasta, jà era, por si mesmo, urna proposta vocacional. Os jovens em contato com Dom Bosco na vida cotidiana faziam a grande e exaltante experiência de ser e se sentir membros de uma familia, aprendendo a abrir os seus corações e olhar o futuro com otimismo e esperança.
  • O clima de alegria e de familia é alimentado por urna intensa experiência espiritual. A visão religiosa que Dom Bosco tem do mundo e que unifica a sua atividade multiforme contagia quase espontaneamente os jovens, que aprendem a viver na presença de Deus. Um Deus que os ama e tem para cada um deles um projeto de felicidade e de vida em plenitude. Cria-se no Oratório um clima espiritual que orienta para a relação interpessoal com Deus e com os innãos e permeia toda a vida. Esse clima alimenta-se de urna simples, mas constante piedade sacramentai e mariana. A oração que orienta os jovens à relação pessoal de amizade com Jesus e com Maria e a adequada experiência sacramentai que sustenta e estimula o esforço de crescimento na vida cotidiana, constituem o primeiro recurso para cultivar a amadurecer as vocações.
  • Urna terceira característica do ambiente criado por Dom Bosco era a dimensdo apostolica. Desde o inficio, Dom Bosco envolve os jovens, especialmente os que demonstram sinais vocacionais, no acompanhamento da sua obra de educação e catequese. Confialhes alguns colegas menos dóceis para que, sendo seus amigos, os ajudem a inserir-se positivamente no ambiente e na vida do Oratório. Dessa forma, os jovens aprendem a trabalhar pelos outros com grande empenho e total desinteresse. Aprendem também a viver, eles mesmos, sempre mais disponíveis e abertos às exigéncias do apostolado, amadurecendo as próprias motivações e fazendo tudo pela glória de Deus e a salvação das almas. Dom Bosco, com o seu acompanhamento atento e constante, tem a intenção de que este serviço de apostolado entre os companheiros, vivido com entusiasmo e disponibilidade, exprima a sua eficácia levando aqueles aos quais se dirige pelos caminhos do bem e também seja, ao mesmo tempo, urna "proposta" concreta de vida para os jovens que ele mesmo escolhera. Surgem e desenvolvem-se nesse clima as Companhias, consideradas por Dom Bosco corno experiência chave do ambiente e da proposta educativa do Oratório.

2. Com o ambiente, Dom Bosco oferece um fiel acompanhamento espiritual aos jovens e adultos que buscam orientação gara a própria vocação. O lugar natural em que Dom Bosco oferece a ajuda da direção espiritual é o confessionàrio, mas não sé. Dom Bosco propòe e facilita variadas possibilidades de encontro e colóquio entre os "filhos de familia" e o "pai", oferecendo a todos urna experiência profunda de educação e direção espiritual. A sua ação modula-se diversamente e de maneira personalizada conforme se trate de jovens ou adultos, aspirantes à vida eclesiàstica, à vida religiosa ou simplesmente à vida de bom cristào e honesto cidadào. A sua ação de acompanhamento se torna igualmente particular e atenta na assisténcia aos Cooperadores, Filhas de Maria Auxiliadora, Salesianos etc.
Os traços mais evidentes quando se observa Dom Bosco agindo como diretor de espírito são o discernimento e a prudéncia revelados quando aconselha sobre a vocação. Embora faltassem naquele tempo pastores à Igreja e a ele mesmo fossero urgentes os colaboradores, o padre Rua testemunha, sob juramento, que "jamais aconselhava a entrar nela (na vida sacerdotal ou religiosa) quem não tivesse os requisitos necesskios para ela... Eu soube de vàrios que ele dissuadiu, apesar do desejo deles".6
Movido sempre por um prudente discernimento, esforça-se por levar a refletir aqueles que, embora tendo os dotes necesskios, nunca tinham pensado em ser sacerdotes ou religiosos. Dom Bosco apresentava-lhes pouco a pouco algumas considerações que os ajudassem a repensar a própria opção, e nenhum deles jamais ficou insatisfeito ao seguir o seu conselho.
A direção espiritual de Dom Bosco é toda iluminada pelo "dom do conselho", que o habilita a orientar coro segurança aqueles que a ele se dirigem.
3. A ação vigorosa realizada por Doni Bosco em favor das vocações é apoiada por um intenso amor à Igreja: ele empenha todas as suas forças, coro entrega total, para buscar o beni dela. É justamente o amor à Igreja que nos permite compreender a importância que ele dava à atividade apostólica de promoção das vocações e a insisténcia para que todos trabalhassem e se empenhassem concordemente em buscar para a Igreja o grande tesouro representado pelas vocações. Ele costumava dizer: "Nós damos um grande tesouro à Igreja quando buscamos urna boa vocação; que esta vocação ou este padre và à diocese, às missòes ou a uma casa religiosa, não importa. É sempre um grande tesouro que se dà à Igreja de Jesus Cristo".? A visão do beni de toda a Igreja jamais o deixa, nem quando consome as suas forças, o seu tempo, os meios financeiros
8Summarium, 676, par.14. 7 MB XVII, p. 262.
que lhe custam tanto esforço, nem quando emprega o seu escasso pessoal ou as suas Casas.
"Apressai-vos, apressai-vos para salvar os jovens... "8 0 apelo de Doni Bosco moribundo pode ser entendido como dirigido não só aos presentes àquele momento, em seu quarto, mas a toda a Família Salesiana em geral. Apelo que urge e urgirà sempre, porque os jovens de todos os tempos precisam de "salvação".
Dom Bosco moribundo dirige este apelo também a nós. É um con-vite a arregaçarmos as mangas e trabalharmos para que desabrochem, floresçam e se consolidem ao nosso redor numerosas e vàlidas vocações salesianas, como aconteceu ao seu redor. Assumir isso requer de cada um de nós a santa paixào pela salva0o da juventude vivida pelo próprio Dom Bosco; esta paixào nos tornarà corajosos e farà que superemos o temor de não sennos entendidos ou sermos marginalizados ou repelidos pelo nosso mundo secularizado e dessacralizador, que recusa a diversidade, suprime o sobrenatural e marginaliza o crente.
Sem temor, portanto, vivamos um estilo de vida que conteste o mundo e a sociedade que não permitem o desenvolvimento e a promoção integrai da pessoa humana; estilo de vida que estimule a viver a própria vocação coni alegria e entusiasmo e a propor aos jovens e adultos, homens e mulheres, rapazes e moças, a vocação salesiana corno resposta adequada de salvação para o mundo de hoje, e conio projeW de vida capaz de contribuir positivamente para a renovação da sociedade atual. Assim se exprime o artigo 28 das Constitui9óes dos Salesianos de Dom Bosco: "Estamos convencidos de que muitos jovens são ricos de recursos espirituais e apresentam gennes de vocação apostólica. Ajudamo-los a descobrir, acolher e amadurecer o dom da vocação laical, consagrada, sacerdotal, em beneficio de toda a Igreja e da Família Salesiana". Esse empenho foi uma finalidade da Congregação até mesmo antes da sua aprovação9 e adquire hoje urna
8 MB XVIII, p. 530.
9 Mesmo faltando uro artigo sobre os seminkios menores no primeiro texto constitucional existente, o manuscrito do padre Rua de 1858, ele foi introduzido por Dom Bosco no esboco de 1860. Cf. G. BOSCO, Costituzioni della Società di S. Francesco di Sales 118581 —1875. Edietto critica
urg'ència e necessidade extraordinària (cf. Const. 6), corno a Igreja no-lo recorda repetidamente.
2. UMA URGÉNCIA PREVIA: CRIAR E FOMENTAR A CULTURA VOCACIONALl°
"É preciso promover urna cultura vocacional que saiba reconhecer e acolher a profunda aspiraeào do homem que o leva a descobrir que somente Cristo lhe pode dizer toda a verdade sobre a sua vida."11 Falar hoje de cultura vocacional, como João Paulo II o fez por primeiro, não é só pertinente, mas também urgente. De fato, notamos às vezes que M urna fratura entre os gestos de pessoas, até mesmo generosas e beni iluminadas, e a mentalidade coletiva, entre as iniciativas pessoais e as expressòes sociais, entre a pMxis e os seus fundamentos. Notamos na Congregaeào, como também na Família Salesiana, que pode haver um trabalho vocacional feito por alguns indivíduos, chamados delegados para as vocaeóes, mas percebe-se, ao mesmo tempo, que não M urna verdadeira cultura vocacional nas comunidades ou nos grupos.
A cultura, de fato, refere-se não a gestos individuais, embora numerosos, mas à mentalidade e à atitude compartilhada por um grupo; refere-se não só às inteneóes e aos propósitos privados, mas ao emprego sistemUico e racional das energias disponíveis na comunidade. Os conteúdos da cultura vocacional, assim entendida, referem-se a trés úeas: a antropológica, a educativa e a pastoral. A primeira refere-se ao modo de conceber e apresentar a pessoa humana corno vocaeào; a segunda mira a favorecer urna proposta de valores congeniais à vocaeào; a terceira dà ateneào à relaeào entre vocaeào e cultura objetiva e tira dela conclusòes para o trabalho vocacional.
de Francesco MOTTO. Roma, LAS, 1982, p. 76-77.
'°Nesta secào, tomo livremente a voz "Cultura della Vocazione", do padre JUAN E. VECCHI, in Dizionario della Pastorale Vocazionale. Libreria Editrice Rogate, Roma, 2002, p. 370-382. il Jak0 PAULO II, Mensagem para XXX Jornada de Oracgto pelas vocacòes (8 de setembro de 1992).
A vida é vocacdo
Sabemos que todas as interveneóes educativas e pastorais dependem de urna imagem de homem, esponthea ou refiexa. O cristào vai elaborando-a com a vivéncia, com o esforeo racional de entender o seu sentido e com a iluminaeào da fé. Os trés elementos — viv'ència pessoal, busca de sentido e discernimento da fé — são indispenAveis e relacionados entre si. A revelaeào não deve ser entendida corno sobreposieào externa à experiência e à compreensão humana, mas justamente corno esclarecimento do seu sentido profundo e definitivo. É preciso, pois, em primeiro lugar, superar o modo de pensar e de falar da vocaeào corno se fosse um surplus, um incentivo só para alguns, um fato funcional ou o recrutamento para algum estado de vida, mais do que urna referéncia substancial à própria realizaeào da pessoa. A crise das vocaeóes pode ser também por causa do estilo de vida que elas apresentam. Em maior profundidade, porém, ela se deve a uma visão de existéncia humana em que a dimensão de "apelo", isto é, de ter de se realizar na escuta de outro e em difflogo com ere, a() só é excluída de fato, mas não pode nem sequer ser inserida de maneira significativa. Isso acontece nas visòes de homem que colocam a satisfaeào das necessidades do individuo acima de tudo, propondo a autorrealizaeào conio única meta da existéncia ou concebendo a liberdade corno pura autonomia. Hoje,,estas sensibilidades são difusas, exercem certo fascínio e, mesmo quando não são assumidas de maneira integral, configuram as mensagens da comunicaeào e infiuem nos encaminhamentos educativos.
Primeira tarefa da cultura vocacional, entào, é elaborar e difundir urna visão de existéncia humana concebida como "apelo e resposta", como consideraeào conclusiva de urna fundamentada refiexào antropológica. Levam a essa conclusão a experiência da relaeào, a exigéncia ética que dela se segue, os questionamentos existenciais. Sào estes, portanto, os caminhos a percorrer para individualizar alguns conteúdos da cultura vocacional que nos preocupa. A pessoa tem consciência da própria singularidade. Compreende que a sua existéncia é exclusiva, qualitativamente diversa das demais, irredutível ao mundo. Pertence‑
lhe totalmente, mas tem as características de um dom, de um fato que precede qualquer desejo ou esforco.
Aberta aos outros e a Deus
Ao mesmo tempo, o homem adverte que participa de urna rede de relações, não opcionais ou secundàrias, entre as quais é imediatamente evidente e ocupa lugar privilegiado aquela com as outras pessoas. A primeira coisa que alguém percebe não é o eu com suas potencialidades, mas a interdependéncia com os outros, que requerem ser aceitos em sua realidade objetiva e reconhecidos em sua dignidade. Nesta ótica, a responsabilidade aparece como a capacidade de reconhecer os sinais que prov'èm dos outros e de dar-lhes respostas. Trata-se de um apelo ético, porque comporta algumas exigéncias de responsabilidade e de comprometimento. O homem desperta para a existéncia pessoal quando os outros deixam de ser vistos apenas corno meios dos quais se servir.
A cultura vocacional deve prevenir o jovem de urna concepcào subjetivista que faz do individuo centro e medida de si mesmo, que concebe a realização pessoal corno defesa e promocào de si, mais do que conio abertura e entrega. E também das concepções que na relação intersubjetiva permanecem aprisionadas apenas no prazer, sem perceber o seu caràter ético. A experiência relacional e a sua componente ética jà orientam para o Transcendente, porque surge nelas algo de incondicionado e imaterial. De fato, os outros não exigem que se lhes venha ao encontro apenas com objetos e estruturas ou interajam com eles mediante reflexos instintivos. Eles requerem o reconhecimento do mistério da sua pessoa e postularn, portanto, respeito, gratuidade, amor, promocào de valores morais e espirituais.
O apelo à transcendéncia torna-se, porém, mais evidente quando a pessoa é capaz de abrir-se aos questionamentos fundamentais da existéncia e colher a sua densidade real. Surge, entào, a abertura ao transcendente, jà entrevisto nas suas realizações positivas e nos seus
limites. Entende que não pode deterse no que lhe é imediatamente perceptível nem circunscrever-se ao hoje. A pessoa é um mistério infinito que só Deus pode explicar e só Cristo pode satisfazer. Por isso, é naturalmente levada a buscar o sentido da vida e projetar-se na história. Deve decidir a sua orientação de longo prazo, tendo à frente diversas alternativas. E não pode percorrer a própria vida duas vezes: deve arriscar! Nos valores que elege e nas escolhas que faz, ela foga o seu sucesso ou a sua faléncia como projeto, a qualidade e a salvação da sua vida. Jesus exprime-o de forma muito clara: "Quem quiser salvar a sua vida a perderà; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvarà. De fato, de que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida?" (Mc 8,35-36). A missão da cultura vocacional é sensibilizar para a escuta desses questionamentos, habilitar para aprofundà-los. A missão da cultura vocacional é também promover o crescimento e as escolhas de uma pessoa em relação ao Bonum, ao Verum, ao Pulchrum, na acolhida dos quais se encontra a sua plenitude.
Vivida como dom e missão
Tudo isso requer o aprofundamento da vocação corno definicào que a pessoa dà à própria existéncia, percebida como dom e apelo, orientada pela responsabilidade, projetada com liberdade. O filào mais fecundo para descobrir tal fundamento é a Escritura, lida corno revelação do sentido da vida do homem. Na Escritura, o ser e as relacòes constitutivas da pessoa são definidos pela sua condicào de criatura, o que ao indica inferioridade ou dependéncia, mas amor gratuito e criativo da parte de Deus.
O homem não tem em si mesmo a razào da sua existéncia nem da sua realização. Ele a deve a um dom do qual usufrui tornando-se responsàvel por ele. O dom da vida contém um projeto que se vai re-velando no diàlogo consigo mesmo, com a história, com Deus, e exige urna resposta pessoal. Isso define a colocação do homem em relação
ao mundo e a todos os seres que o compòem. Como eles não podem preencher os seus desejos, o homem não lhes é submisso.
O exemplo tipico desta estrutura de vida é a alianca entre Deus e o seu povo, corno apresentada na Bíblia. Ela é eleicào gratuita da parte de Deus. Ao homem tabe tornar consciência dela e assumi-la como projeto de vida, guiado pela Palavra que o interpela e coloca na necessidade de escolher. Em Cristo, a verdade sobre o homem, que a razào percebe vagamente e que a Bíblia revela, encontra a sua iluminação total. Cristo, com as suas palavras, mas, sobretudo em virtude da sua existéncia humano-divina, na qual se manifesta a consciência de Filho de Deus, abre a pessoa à piena compreensão de si e do próprio destino. Nele somos constituídos filhos e chamados a viver como tais na história.
A vocação cristà não é um acréscimo de luxo, um complemento extrínseco para a realização do homem. Ela é a sua pura e simples realização, a condicào indispensàvel de autenticidade e plenitude, a satisfação das exigéncias mais radicais, aquelas das quais é substanciada a sua própria estrutura de criatura. A insercào na dinamica do Reino, ao qual Jesus convida os discípulos, é egualmente a única forma de existéncia que corresponde ao destino do homem neste mundo e além. A vida evolui, entào, inteiramente, como dom, apelo e projeto.
Tomar tudo isso como base e inspiração da ação, difundi-lo de modo que se torne mentalidade da comunidade educativo-pastoral e particularmente dos agentes vocacionais com as relativas consequ'èncias educativas e praticas constitui a "cultura" de que a pastoral precisa urgentemente.
Eis as atitudes de fundo que dào vida à cultura vocacional e que gostaríamos de privilegiar:

  • A busca de sentido. O sentido é a compreensão das finalidades imediatas, em termos médios e, sobretudo, últimos dos acontecimentos e das coisas. O sentido é também a intuicào da relação que realidades e eventos tém com o homem e com o seu bem. O amadurecimento do sentido comporta exercício da razào, esforco de

busca, atitude de contemplação e interioridade. Ele vai sendo descoberto em diversos 'ainbitos: na própria experiência, na história, na Palavra de Deus. Tudo converge para uma sabedoria pessoal e comunitaria expressa na confianca e esperanca diante da vida. "Alias, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amaro a Deus" (Rm 28,8).
Os tempos de amadurecimento do sentido podem ser longos. O importante é não desistir ou fechar-se diante da perspectiva de descobertas novas e mais ricas. A cultura contemporanea é perpassada por correntes que, quando não negam, ignoram qualquer sentido que transcenda à experiência imediata e subjetiva. Leva assim à visão fragmentada da realidade, tornando a pessoa incapaz de controlar os mil eventos do cotidiano e ir além do que é epidérmico ou sensacional. A maturidade cultural comporta urna síntese, um quadro de referéncia além dos conhecimentos singulares, para conseguir orientar-se e não ser aprisionado pelos fatos. A qualidade da vida decai quando não é sustentada por urna determinada visão de mundo. E com a qualidade decaem as razòes para empenha-las a servito de causas nobres.

  • A abertura à transcendéncia, ao além do humano, à aceitação do limite, à acolhida do mistério, à acolhida do sagrado em seus aspectos subjetivos e objetivos, à reflexào e à opcào religiosa.

!Este é um horizonte que surge em todas as atividades do homem até se tornar a sua dimensão constitutiva: no exercício da sua inteligéncia, na tensão da sua vontade, nos anseios do coração, na dinamica das suas relacòes, na realização das suas empresas. A existéncia do homem esta aberta para o infinito e é essa a sua percepcào da realidade. Existem hoje orientações culturais que, conscientemente ou não, levam a fechar-se nos horizontes "racionais" e temporais e tornam incapazes de acolher a própria vida como mistério e doni. Levar a transcendéncia em consideração quer dizer aceitar questionamentos, ir além do visível e do racional. As experiências, necessidades e percepções imediatas podem ser pontos de partida para abrir-se a novos e mais exigentes valores, exigéncias e
verdades, que não devem ser sentidos como negação das próprias tendéncias, mas sua libertação e realização. Como Jesus revelou à mulher samaritana: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz `da-me de beber! ', tu é que pedirias a ele e ele haveria de te dar agua viva" (Jo 4,10).

  • Uma mentalidade "ética", capaz de discernir entre o bem e o mal e saber orientar-se para o bem. Tal cultura é iluminada pela consciência moral, centrada nos valores mais do que nos meios, e assume o primado da pessoa como ponto de partida. A cultura sempre traz em seu bojo um impulso ético e é em si mesma um valor moral, porque busca a qualidade humana do individuo e da comunidade. Entretanto os limites do homem repercutem sobre ela.

Algumas das suas tendéncias e realizações, quando não os seus sistemas inteiros, surgem sob o signo da ambiguidade moral. E isso se da nas duas dimensòes, objetiva e subjetiva. O fato torna-se grave quando, no próprio dinamismo de elaboraeào da cultura, o critério ético desaparece ou é subordinado a outros. A referéncia ao bem e ao mal perde, entào, toda a incidéncia, prevalecendo outros apelos, como a utilidade, o prazer, o goder. A linguagem cunhou, ultimamente, urna série de expressòes que evidenciam sob a forma de polaridade o primado ou a auséncia de urna referéncia ética valida na evolução da cultura: cultura do ser e do ter, da vida e da morte, da pessoa e das coisas. Desenvolver a cultura com mentalidade ética quer dizer não só fazé-la desenvolver-se a qualquer custo, mas confrontar as suas concepeóes e realizações com a consciência iluminada pela fé para purifica-la e resgata-la da ambiguidade e impulsiona-la na direção dos valores.

  • A projetualidade. A apatia diante do sentido transmuta-se facilmente em indiferença quanto ao futuro. Sem urna visão da história não surgem metas apetecíveis pelas quais se empenhar, exceto aquelas que se referem ao bem-estar individuai. Em períodos precedentes, as ideologias, com a sua carga utópica, impulsionaram a projetualidade social e esta também favoreceu a disposieào pessoal de envolver-se num projeto histórico.

Hoj e, pode acontecer a contração do futuro, com a dilatação do presente, que leva à cultura do imediato. Os projetos esgotam-se em breve tempo e realizam-se nos espayos reduzidos da experiência individuai. As mesmas iniciativas de bem podem reduzir-se a querer corrigir alguma coisa, a buscar a autorrealização subjetiva, ao entusiasmo efémero. Projetar quer dizer organizar os próprios recursos e o próprio tempo em conson'ància com as grandes urgéncias da história e com as questòes das comunidades para chegar a horizontes ideais dignos do homem. Isso requer consciência critica para defender-se de imperativos aparentes, capacidade de discernimento para desmascarar pressòes psicológicas, generosidade motivada para ir além dos horizontes imediatos.

  • O empenho na solidariedade em oposieào à cultura que leva a centrar-se no individuo. Projetos pessoais generosos só podem emergir onde a pessoa admite que a sua realização esteja ligada à dos seus semelhantes. A solidariedade é urna aspiração difesa que emerge do profundo das consciências, do coração dos acontecimentos históricos e se manifesta de formas inéditas e quase inesperadas. Ela surge como resposta a macrofenomenos preocupantes, corno o subdesenvolvimento, a forre, o abuso. A solidariedade inspira iniciativas exemplares como os projetos de ajuda, o voluntariado e os movimentos de opinião, que vào modificando a relação anterior entre pessoa e sociedade. Tudo isso em 'àmbitos próximos e mundos distantes. Cómo consequéncia, mobiliza o espírito de serviço e leva até ele.

A cultura da solidariedade, entretanto, é facilmente transcurada ou enfraquecida por fortes correntes económicas e culturais. Ela supòe urna visão de mundo e de pessoa que considere a interdependéncia como chave interpretativa dos fenómenos positivos e negativos da humanidade. Nada tem explicação exaustiva ou solueào racional quando considerado de forma isolada. Pobreza e riqueza, desnutrieào e desperdício são fenómenos correlatos. Entre estes contrastes servem de mediação e interpòem-se, não só a ternura e a compaixào, mas a responsabilidade humana. A pessoa não pode ser considerada corno um ser que, prirneiramente, se constitui por si mesmo e só num segundo momento se orienta
para os outros. A pessoa só consegue ser ela mesma quando assume solidariamente o destino dos seus sernelhantes.

3. ASPECTOS QUE TÉM SIGNIFICATIVIDADE ESPECIAL NA ANIMAQÀO E NA PROPOSTA VOCACIONAL
Promover a cultura vocacional: missdo essencial da Pastoral Juvenil
Toda a pastoral, e em particular a juvenil, é radicalmente vocacional: a dimensão vocacional constitui o seu primeiro inspirador e a sua salda natural. É preciso, pois, abandonar a concepção redutiva da pastoral vocacional que só se preocupa com a busca de candidatos para a vida religiosa ou sacerdotal. Ao contrario, corno dito antes, a pastoral deve criar as condieóes adequadas para que todos os jovens possarn descobrir, assumir e seguir responsavelmente a própria vocação.
Seguindo o exemplo de Dom Bosco, a primeira condieào consiste na criação de um ambiente em que se viva e se transmita urna verdadeira cultura vocacional, isto é, um modo de conceber e enfrentar a vida como dom recebido gratuitamente; dom a compartilhar a serviço da plenitude da vida para todos, superando a mentalidade individualista, consumista, relativista, e a cultura da autorrealização. Viver a cultura vocacional requer o esforço de desenvolver algumas atitudes e valores, como a promoção e a defesa do valor sagrado da vida humana, a confiança em si e no próximo, a interioridade que permite descobrir em si e nos outros a presença e a ação de Deus, a disponibilidade para sentir-se responsàvel e deixar-se envolver pelo bem dos outros numa atitude de serviço e gratuidade, a coragem de sonhar e desejar grande, a solidariedade e a responsabilidade para com os outros, sobretudo os mais carentes.12 A pastoral juvenil deve propor aos jovens, no interior
12 Cf. JOAO PAULO, Mensagem para a XXX Jornada Mundial de ora* pelas vocações (8 de setembro de 1992).
deste contexto ou cultura vocacional, os diversos itinereirios vocacionais matriménio, vida religiosa ou consagrada, serviço sacerdotal, empenho social e eclesial — e acompanh&los em seu esforço de discernimento e opção.
Toda comunidade educativo-pastoral deve estar consciente das características do próprio ambiente cultural e da ação educativo-pastoral que realiza no trabalho cotidiano com os jovens. Tudo isso no intento de promover e desenvolver os elementos típicos da cultura vocacional, que muitas vezes não é aceita pelo ambiente em que vivem os próprios jovens.
Indico-lhes aqui dois elementos que podem ajudar o desenvolvimento da cultura vocacional:

  • Fazer da comunidade educativo-pastoral um ambiente de familia com testemunhas vocacionais significativas.

Os jovens vivem num ambiente massificado, no qual não se sentem nem reconhecidos nem acolhidos; eles devem fazer por merecer e conquistar tudo, de modo que os mais fracos ou menos preparados continuam marginalizados e esquecidos. Neste ambiente, é quase impossível viver a vida como doro a compartilhar; a vida parece mais urna luta pela subsisténcia ou urna corrida para conquistar o bem-estar e a realização individuai. No ambiente de familia tipicamente salesiano o jovem sente-se acolhido e apreciado gratuitamente; experinienta relayóes de confiança com adultos significativos; sente--se envolvido na vida de grupo; desenvolve o protagonismo e a responsabilidade; aprende a construir a comunidade educativa e a sentir-se corresponsa.vel pelo bem comuni; encontra momentos de reflexào, diMogo e confronto sereno. Este é o melhor ambiente para o desenvolvimento da cultura vocacional.

  • Garantie.9 orientação e o acompanhamento das pessoas.

Serà muito difícil o desenvolvimento de urna visão vocacional da vida num ambiente massificado ou no qual as relações sejam apenas funcionais. De fato, esse processo requer a presença e a proximidade dos educadores entre os jovens, sobretudo nos momentos mais espon‑
t'àneos e gratuitos; o conhecimento e o interesse pela sua vida; a capacidade de relações pessoais, mesmo sendo pontuais e espont'àneas; momentos de diàlogo e de reflexào em comum que ajudem a ler a vida na ótica positiva e vocacional; espaços e tempos para encontros mais sistemàficos de acompanhamento pessoal.
A educac ào ao amor, à castidade
A educação ao amor tem grande importància na orientação e animação vocacional. É preciso ajudar o adolescente a integrar o seu desenvolvimento afetivo e sexual no processo educativo e também no itineràrio de educação à fé, para que possa viver a afetividade e a sexualidade em hannonia com as demais dimensòes fundamentais da sua pessoa, mantendo atitudes de abertura, serviço e oblação.
Hoje, o adolescente deve confrontar-se com um contexto cultural e social pansexualista que transmite suas contínuas mensagens na rua, na televisão, no ciberespaço. Sào sugestóes que levam à pràfica sexual consumista e orientada à satisfação imediata do prazer. O permissivismo é a tendéncia social dominante neste campo, e os conteúdos apetecíveis deste pansexualismo tornam-se motivo de triste comércio. Tudo isso dà lugar à confusão no plano dos valores e ao grande relativismo ético. Acontece com frequéncia que se promova o uso prematuro da sexualidade nas relações de amizade ou na simples busca da satisfação compulsiva do prazer. Os jovens, com grande decisão, apostam no amor, desafiando preconceitos e censuras, desejos de ir ao encontro das próprias caréncias afetivas e sensíveis ao valor de uma comunicação aberta e sem limites. Neste campo, porém, com frequéncia, não dispòem de uma orientação e de um guia que os ajude a compreender a própria afetividade e sexualidade segundo a visão integ0 da pessoa, desenvolvendo de modo constante e claro um projeto de educação ao amor que os oriente na construção harmoniosa da personalidade, tornando possível urna visão da vida corno dom e serviço.
Vàrios anos atràs, o CG23 indicava aos salesianos a educação ao amor corno um dos trés núcleos importantes ao redor dos quais se torna possível e se realiza a síntese fé-vida. Não se trata, dizia, "de pontos particulares, mas de 'espaeos' onde se concentram o significado, a força é a conflitualidade da fé".13
Hoje, esta importância é ainda maior, sobretudo quando se quer desenvolver com efickia a dimensão vocacional da vida e criar um ambiente no qual seja possível ao jovem amadurecer um projeto vocacional, de modo especial quando se trata de vocações de especial empenho, que muitas vezes incluem a opeào do celibato. Muitos jovens vivem, com efeito, num ambiente muito pouco favor 'avel a unta visão integrai e positiva do amor. E muitos deles vivem deficiências notàveis que o educador deve conhecer para ajudà-los a superà-las.
Falta a muitos deles urna experiência de amor gratuito na familia, na qual devem suportar tensòes e desencontros entre os pais que não raramente acabam na opeào da separação ou do divórcio. A relação de amizade vivida entre eles é superficial e tudo isso faz que, em vez de resistir às propostas sedutoras do ambiente, sejam conquistador por elas. Assim, muito cedo, vàrios deles envolvem-se numa relação a dois que os fecha aos outros e à vida de grupo. A urgéncia que sentem de viver urna relação piena com o companheiro leva-os à pràfica desordenada da sexualidade. Nisso tudo incide, certamente, a falta de um vérdadeiro itineràrio de educação ao amor. O tema é evitado ou tratado de modo moralista e negativo que, em vez de ajudar, suscita a repulsa do adolescente.
O Sistema Preventivo e o espírito de familia característico do nos-so ambiente podem criar as condieóes de colocà-lo oportunamente em pràfica.14
13 Cf. CG23, n. 181.
14 Um simples mas ainda atual itineràrio de educack à castidade foi projetado pelo Capitulo Geral 23: cf. CG23, n. 195-202.
A educacelo à oracelo
A oraeào é um elemento essencial e primàrio na orientação e na escolha da vocação, pois ela, dom de Deus oferecido livremente ao homem, só pode ser descoberta e assumida com a ajuda da grana. Portanto, não sera possível uma pastoral vocacional eficaz e profunda para os jovens sem introduzi-los e acompanhà-los na pràtica assidua da oração.
A primeira comunidade cristà espera rezando o dia de Pentecostes, dia do nascimento da Igreja evangelizadora (At 1,14). 0 próprio Jesus rezou antes de escolher os apóstolos (Lc 6,12ss) e ensinou-lhes a rezar para que venha o Reino de Deus (Mt 6,7ss). O mandamento "Pedi, pois, ao dono do campo que mande operàrios para recolher a sua messe" (cf. Mt 9,37ss; Lc 10,2) é compreendido em todo o seu valor e urgéncia à luz do exemplo e dos ensinamentos de Cristo. A oracelo é o caminho privilegiado e a melhor pastoral vocacional.
Considerada a centralidade da oracelo no itinerario de fé, é importante ajudar os jovens a se introduzirem e iniciarem numa verdadeira e profunda vida de oração: só assim poderà amadurecer neles urna possível vocação de especial consagração.15
Hoje, os jovens viveur frequentemente num ambiente muito pouco favoràvel à vida espiritual. Eles estào imersos numa cultura de consumismo e de lucro, de gozo pessoal e de satisfação imediata dos desejos; a visão superficial da vida é dominada por critérios ético-morais subjetivos, muitas vezes contrastantes e até contraditórios. O ambiente em que se movem favorece um ritmo de vida agitado, no qual vivem múltiplas experiências sem poder aprofundar nenhuma delas. "A crise da familia, a difusa mentalidade relativista e consumista, o infiuxo negativo das mídias sobre a consciência e o comportamento constituem um grande obstàculo à cultura vocacional."16
15 "A promock das vocacties consagradas exige algumas opções fundamentais: oração constante... A ora9tio deve ser empenho cotidiano das Comunidades e deve envolver jovens, familias, leigos, grupos da Família Salesiana" (CG26, n. 54).
16 CG26, n. 57.
Notamos, por nutro lado, entre adolescentes e jovens, a busca de interioridade, o esforeo para entender a própria identidade e também a abertura e busca sincera de urna experiência da Transcendéncia. Embora, muitas vezes, esse caminho seja concebido de maneira subjetiva e correspondente às próprias caréncias, é preciso dizer que se trata de urna boa oportunidade de ajuda-los a descobrir o Deus de Jesus. Multiplicam-se os grupos e movimentos que, de maneiras muito diversas, promovem experiências de espiritualidade, e os jovens estào largamente presentes nesses grupos. Bastaria pensar na comunidade de Taizé!
Isso tudo cria urna condicào favoràvel de oferecer aos jovens a possibilidade de iniciarem um itinerario de educacelo à interioridade que os va levando gradualmente a descobrir e apreciar a oracelo cristà, sobretudo naquilo que é a sua originalidade e a sua verdadeira riqueza: o encontro com a pessoa de Jesus que nos revela o amor de Deus, que nos chama e nos oferece a grava de urna relação pessoal com Ele. Eis por que, num ambiente telo profondamente impregnado de secularismo e superficialidade, é urgente promover a educacelo à interioridade e oferecer aos nossos jovens urna vida espiritual densa e profunda. "Hoje, os tempos exigem urna volta mais explícita à oracelo... É urna oracelo que vibra em sintonia com o despertar da fé: ser crentes empenhados e não apenas fiéis habitudinàrios implica um diàlogo mais explícito, mais intenso, mais frequente com o Senhor. Num clima de secularismo, sente-se premente necessidade de meditação e de aprofundamento da fé."17
A educacelo à oracelo deve favorecer as condicòes que levam o jovem a assumir urna atitude de autenticidade. Sào elas: o siléncio, a reflexào, a capacidade de ler a própria vida, a disponibilidade à escuta e à contemplacelo, a gratuidade e a confiança. Ao jovem que vive na agitacelo de urna vida cheia de atividades não é Thcil criar dentro de si esse siléncio e cultivar um caminho de interioridade que o leve ao verdadeiro encontro consigo mesmo. Esta também sera urna das metas a atingir. De aqui a importhcia de inficiar os momentos de oração com um tempo de tranquilidade, de siléncio, de serenidade, que permita aos
17 EGIDIO VIGANÒ, "A nossa oração pelas vocacòes", ACG 341 (1992), p. 27.
nossos jovens chegar a encontrar-se consigo mesmos e, a partir densa experiência, assumir a própria vida para coloct-1a diante do Senhor.
O coração da oração cristà é a escuta da Palavra de Deus. Ela deve ser a grande mestra da oração cristà, que não consiste em "falar" a Deus, mas, sobretudo em "escuta-lo" e abrir-se à sua vontade (cf. Lc 11,5-8; Mt 6,9ss). "Em vossos grupos, caríssimos jovens — escrevia João Paulo II —, multiplicai as ocasiòes de escuta e de estudo da Palavra do Senhor, sobretudo mediante a lectio divina, ali descobrireis os segredos do coração de Cristo e tirareis dela fruto para o discernimento das situaeóes e a transformação da realidade."18 Em geral, sera. preciso inficiar o jovem a essa escuta, ajudando-o a entender o sentido da Palavra que escuta ou lé. Deve-se reconhecer, também, que a Palavra de Deus é eficaz em si mesma e, portanto, sera preciso, às vezes, deixa-la agir sozinha no coração dos jovens, sem força-la muito com os nossos esquemas: muitas vezes, por si só, ela os guiara ao dialogo pessoal com Jesus.
Outra grande escola de oração é a vida litúrgica e sacramental da Igreja: deve-se ajudar o jovem a dela participar sempre mais conscientemente, compreendendo os sinais e os símbolos da liturgia. Uma educação à fé que se esquecesse do encontro sacramentai dos jovens com Cristo ou o retardasse não seria um caminho para encontrt-lo e indicaria menos ainda a possibilidade de segui-lo. "Os jovens, como nós, encontram Jesus na comunidade eclesial. Ha, porém, na vida da Igreja, momentos nos quais ele se revela e se comunica de modo único: são os sacramentos, particularmente a Reconciliação e a Eucaristia. Sem a experiência que ha neles, o conhecimento de Jesus torna-se inadequado e escasso, a ponto de não permitir distingui--lo entre os homens como o ressuscitado Salvador... Diz-se, com razào, que os sacramentos são verdadeira memória de Jesus: daquilo que Ele fez e continua a fazer hoje por nós, daquilo que significa para a nossa vida; os sacramentos reacendem, portanto, a nossa fé em Jesus, permitindo-nos vé-lo melhor em nossa existéncia e nos acontecimentos.
18 JoÀ0 PAULO II, Mensagem por ocasigo da XII Jornada da Juventude (15 de agosto de 19çõ).
Eles também são a revelação daquilo que parece estar escondido nas dobras da nossa exist'ència, para que se torne consciente... Na Reconciliação, abrem-se os nossos olhos e vemos o que podemos ser segundo o profeto e o desejo de Deus; é-nos dado novamente o Espírito que nos purifica e nos renova. Diz-se que é o sacramento do nosso futuro de filhos, e não do nosso passado de pecadores. Na Eucaristia, Cristo incorpora-nos à sua oferta ao Pai e reforça a nossa entrega aos homens. Inspira-nos o desejo e da-nos a esperança de que ambos, amor ao Pai e amor aos irmãos, se tornem urna grava para todos e para tudo: anunciamos a sua morte e proclamamos a sua ressurreição; vinde Senhor Jesus".19
Entre muitos itinerarios de iniciação à oração, a Espiritualidade Juvenil Salesiana oferece a sua grande riqueza e um estilo específico de vida espiritual, com um jeito característico de oração e urna forma atual de organizar a vida ao redor de algumas percepeóes de fé, op9óes de valores e atitudes. Nela se encontram algumas características próprias da oração salesiana; ela é urna oração simples, sem compiicações inúteis, inserida na vida de todos os dias, que se apresenta e se oferece ao Senhor; oração cheia de esperança, que promove a visão pascal da vida em dialogo pessoal com o Senhor Ressuscitado, vivo e presente entre nós; oração que leva à celebração dos sacramentos, sobretudo da Eucaristia em que se vive o encontro pessoal com Jesus; oração que ajuda a descobrir a presença de Jesus em todos os jovens, especialmente nos mais pobres, e leva a empenhar-se na sua educação e evangelização.
É importante, entào, estar atentos a essas características erri nos-so itinerario de educação à oração, para ajudarmos o jovem a vivé-la e deste modo introduzi-lo na Espiritualidade Juvenil Salesiana: é um itinerario de vida cristà que pode levar também adolescentes e jovens à grande meta da santidade.20
19 JUAN E. VECCHI, "Lo riconobbero nello spezzare il pane", NPG 1997, n. 8 (novembro), p 3-4.
20 Cf. CG23, n. 158ss e especialmente n, 173-177.
Precisamos estar certos disto: o jovem só poderà esclarecer e consolidar a própria opcào vocacional com a vida de oração, sempre mais centrarla em Cristo, especialmente quando se tratar de urna vocação de especial consagração.
O acompanhamento pessoal
Outro elemento fundamental na pastoral vocacional é o acompanhamento pessoal regular do jovem. Deverà ser respeitoso, com compreensão adequada do amadurecimento e do itineràrio espiritual da pessoa acompanhada. Acompanhamento que ajude a interiori-zar e personalizar as experiências vividas e as propostas recebidas; estimule e guie na iniciação à oração pessoal e à celebração dos sacramentos; oriente para um projeto pessoal de vida corno instrumento concreto de discernimento e amadurecimento vocacional. A grava do Espírito que age no coração das pessoas precisa da colaboração da comunidade e de um mestre espiritual. Por isso, ao fado de todo santo existe um mestre de espírito que o acompanha e orienta.
O acompanhamento é ainda mais importante no sistema educativo salesiano, que se fundamenta na presenca do educador entre os jovens e na sua relação pessoal baseada no conhecimento reciproco, na compreens'ào e na confianca.
Quando falamos de acompanhamento, não nos referimos apenas ao diàlogo individuai, mas a um conjunto de relaffies pessoais que ajudam o jovem a assimilar pessoalmente os valores e as experiências vividas, e adeguar as propostas gerais à própria situação concreta, a esclarecer e aprofundar motivações e critérios.
Este processo inclui experiências e níveis sucessivos promovidos pela comunidade salesiana para garantir um ambiente educativo capaz de favorecer a personalização e o crescimento vocacional. A título de exemplo:

  • a presenca entre os jovens, com a vontade de conhecé-los e compartilhar a vida com eles, com urna atitude de confianca;
  • a promocào de grupos, nos quais os jovens são acompanhados pelo animador e pelos próprios companheiros;
  • contatos breves, ocasionais, que demonstram interesse pela pessoa e o seu mundo; e, ao mesmo tempo, urna atencào educativa a determinados momentos de especial significatividade para o jovem;
  • momentos breves, frequentes e sistemàficos de diàlogo pessoal segundo um plano concreto;
  • contato com a comunidade salesiana, com experiências de partilha da vida de oração, de fraternidade e de apostolado;
  • oferta frequente do sacramento da Reconciliação. A intervencào atenta e amigàvel do confessor é, muitas vezes, decisiva para orientar um jovem na opcào vocacional.

Na pràfica do acompanhamento, sobretudo no diàlogo pessoal, convém garantir a atencào sobre alguns pontos fundamentais para o crescimento humano e cristào do jovem e o discernimento dos sinais de vocação. Eis alguns, de modo especial:

  • Educar ao conhecimento de si, para descobrir os valores e as qualidades que o Senhor concedeu a cada um, mas também os limites ou as ambivaléncias no próprio modo de viver ou pensar. Muitos jovbns deixaram de acolher o apelo vocacional, não por sereni pouco generosos ou indiferentes, mas simplesmente porque não foram ajudados a se conhecerem e descobrirem a raiz ambivalente e pagà de determinados esquemas mentais e afetivos, ou porque não foram ajudados a se libertarem de seus temores e defesas perante a própria vocação.
  • Amadurecer o reconhecimento de Jesus, tomo o Senhor Ressuscitado e o sentido supremo da própria existéncia. As motivações vocacionais devem fundamentar-se no reconhecimento da iniciativa de Deus que nos amou por primeiro. Como explicava o Papa Bento XVI aos jovens de Roma e do Làcio: "O Senhor està sempre

presente e olha para cada um de nós com amor. Mas nós devemos procurar este olhar e encontrar-nos com ele. Como fazer? Diria que

  • primeiro ponto para nos encontrarmos com Jesus, para fazer a experiência do seu amor, é conhecé-lo... Para conhecer urna pessoa, antes de tudo a grande pessoa de Jesus, Deus e homem, é necessaria a razzo, mas, ao mesmo tempo, também é necessario o coraeào. Só com a abertura do coraeào a ele, só com o conhecimento do conjunto de quanto disse e de quanto fez, com o nosso amor, conn
  • nosso ir em sua direeào, podemos a pouco e pouco conhecé-lo cada vez mais e assim fazer também a experiência de ser amados... Num dialogo verdadeiro, podemos encontrar cada vez mais este caminho do conhecimento, que se torna amor. Naturalmente não só pensar, não só rezar, mas também fazer é urna parte do caminho rumo a Jesus: fazer coisas boas, empenhar-se pelo próximo."21
  • Educar a ler a experiência da própria vida e os acontecimentos da história como dom de Deus e corno chamado a colocar-se à disposieào da missão pelo Reino de Deus. Por isso, ajudar os jovens a iluminarem a própria existencia com a Palavra de Deus, nuora referencia constante a Jesus Cristo, sentido como Senhor da vida que propòe um projeto particular para cada un-i de nós. "A minha vida é querida por Deus desde a eternidade. Eu sou amado, sou necessario. Deus tem um projeto comigo na totalidade da história; tem um projeto precisamente para mim. A minha vida é importante e também necessaria. O amor eterno criou-me em profundidade e espera por mim. Por conseguinte, este é o primeiro ponto: conhecer, procurar conhecer Deus e assim compreender que a vida é um dom, que é bom viver... Por conseguinte, ha urna vontade fundamental de Deus para todos nós, que é identica para todos nós. Mas a sua aplicaeào é diferente em cada vida, porque Deus tem um projeto claro para cada homem... não `ter' a vida, mas fazer da vida um dom, nto procurar a mim mesmo, mas entregar-me aos outros. É isto o essencial."22

2! BENT0 XVI, Encontro com os jovens de Roma e do LEICiO, em preparaeào à Jornada Mundial da Juventude, 25 de marco de 2010.
22 Idem.

  • Aprofundar a assimilapao pessoal dos valores evangélicos como critérios permanentes que orientam nas opeóes que se fazem na vida cotidiana. Sera mais facil, entào, resistir à tentaeào de seguir de forma conformista aquilo que todos fazem. Como ja disse anteriormente, um aspetto ao qual devemos dar ateneào especial neste campo sera a educano ao amor e à afetividade.

Centralidade e papel da consagractio religiosa na missão da Família Salesiana
A missão salesiana é missão educativa (de promo9to integral da pessoa) e missão de evangelizaeào dos jovens. As duas dimensòes da nossa missão salesiana (a educativa e a evangelizadora) sto essenciais e devem ser vividas em mútua complementaridade e reciproco enriquecimento.
A Família Salesiana, no respeito ao carisma dos diversos grupos que a compòem, é o sujeito desta missão e deve preocupar-se com a integridade desta unidade organica; por isso, é urna riqueza que nela estejam significativamente presentes as duas formas complementares de viver a vocaeào, a secular e a consagrada, e nestas a laical e a sacerdotal.
É, todavia, indispensavel estar conscientes e evidenciar o valor fundamental da vida consagrada na realizaeào da missão salesiana. "Dom Bosco — afirma o CG24 — quis pessoas consagradas no centro da sua obra, orientada à salvaeào dos jovens e à sua santidade."23
A forma laical da vocae'ào salesiana, em suas diversas expressòes no interior da Família Salesiana, refere-se aos valores da criaeào e das realidades seculares, oferece urna sensibilidade especial pelo mundo do trabalho, da uma ateneào específica ao território, sublinha as exigencias do profissionalismo; a laicidade nos membros da Família Salesiana, religiosos, consagrados ou não, demonstra a todos o modo
23 CG24, n .150.
de viver a total dedicação a Deus pela causa do Reino nestes valores e ocupações seculares. A nutra forma é a sacerdotal, que se refere à finalidade última de toda a ação educativa; os sacerdotes, pertencentes aos diversos grupos da Família Salesiana, realizam um sacerdócio pienamente inserirlo no trabalho educativo: oferecendo a Palavra de Deus não só na catequese, mas também no diàlogo e na ação educativa, constroem a comunidade cristà mediante a construção da comunidade educativa.
O valor da consagração religiosa deve ser reencontrado na Família Salesiana. Ela, de fato, coloca-se como um sinal necessàrio que, en-quanto especifica a identidade dos que fizeram urna escolha total na sequela de Jesus, indica ao mesmo tempo aos leigos que compartilham o nosso carisma, que a sua intervenção na missão não é simplesmente urna ajuda complementar, mas sobretudo urna experiencia especial de Deus, na partilha da mesma espiritualidade e da mesma missão. "Não hà esperança de futuro para urna figura religiosa que não exprima imediatamente, e quase emocionalmente, um significado transcendente; que não seja urna fiecha voltada para o divino e para o amor ao próximo, que nasce do divino."24
Em nossa visão de vocação salesiana e na sua apresentação damos, não poucas vezes, a impressão de privilegiar os aspectos funcionais, deixando à sombra ou dando por certo e por subentendido aqueles próprios da vida consagrada. "Colocando-se entre paréntesis a consagração religiosa para raciocinar em termos de ação e de papéis funcionais, isso não só confunde os planos, mas altera as dimensóes."25
Em sua tarefa específica, a Família Salesiana enriquece-se com a presenqa significativa e complementar de sacerdotes, religiosos, consagrados e leigos. Juntos configuram urna forma insólita de energias empregadas para o testemunho e a missão educativa; as diversas vocações laicais enriquecem o testemunho da vida consagrada e a função
24 Juan E. Vecchi, "Beatificactio do coadjutor Artémides Zatti: uma novidade explosiva", ACG 376 (2001), p. 45.
25 Idem.
animadora que, como tal, ela deve realizar na Família e no Movimento salesianos.
Esta relação não se funda, pois, nos papéis ou nas fun9óes diversas que cada um pode realizar (muitas vezes os papéis se confundem), mas nos dons vocacionais específicos mediante os quais cada um contribui para a missão comum. Identica deve ser a entrega da vida, porque total, mas não a maneira de entregà-la.
O Movimento Juvenil Salesiano (Artieulaolo da Juventude Salesiana), lugar vocacional privilegiado
O Movimento Juvenil Salesiano (Articulação da Juventude Salesiana) é urna realidade cheia de vida, presente nos cinto continentes. Ele representa urna expressão significativa da intensa atração que a pessoa de Dom Bosco e o seu carisma exercem sobre os jovens. Nos diversos encontros nacionais e internacionais do MJS (AJS) faz-se urna experiência viva e intensa de urna corrente de comunhào que tem a sua fonte na pessoa de Dom Bosco, nos valores da sua pedagogia e da Espiritualidade Juvenil Salesiana.
O desenvolvimento do MJS, com a sua variedade de grupos e associações, a presença de numerosos animadores, a diversidade de iniciativas e propostas formativas, é para nós membros da Família Salesiana urna grava de Deus e, ao mesmo tempo, um chamado. O Senhoi envia-nos todos esses jovens para que os ajudemos no seu itinerúrio de crescimento como pessoas, até chegarem à plenitude da vida cristà.
A tendéncia associativa, a vida de grugo, a inspiração comuniMria foi uma experiência quase espontitnea na vida de Dom Bosco. Havia nele urna inclinação natural à socialidade e à amizade O associacionismo juvenil é, portanto, urna exigéncia indispensàve na proposta educativa ambicionada por Dom Bosco. Mediante umE pluralidade de grupos e associações juvenis temos a possibilidade de garantir urna presença educativa de qualidade nos novos espaço5. de socialização dos jovens. E esta experiência torna-se significative
no momento em que os jovens são chamados a compreenderem a realidade eclesial e a empenharem-se vela corno membros vivos no "corpo" da comunidade cristà.
Pode parecer, às vezes, que os jovens dos nossos ambientes e de alguns dos nossos grupos sejam superficiais, sobretudo quando se manifestam no seu estilo barulhento e festivo. Na realidade, muitos deles são profundamente bons e espirituais. Eles manifestam uma grande sede de Deus, de Cristo, de evangelho vivido na simplicidade e na normalidade da vida cotidiana. Dom Bosco estava convencido de que um percentual elevado entre os jovens enviados pelo Senhor às nossas casas possui disposi9óes favoràveis para seguir urna vocação de especial empenho, se forem motivados e acompanhados convenientemente.26 Justamente por viverem frequentemente num ambiente pouco favoràvel ao siléncio e à interiorização, procuram a nossa ajuda, o nosso apoio e o nosso acompanhamento no caminho de maturação da própria vida. A Espiritualidade Juvenil Salesiana, o estilo de vida cristà vivido por Dom Bosco e pelos jovens do Oratório de Valdocco constitui entào um recurso a oferecer a esses jovens.
Em vàrias partes do mundo, muitas vocações àvida religiosa ou sacerdotal e também à vida laical empenhada na Família Salesiana fiorescem nos grupos e nas associavòes do MJS, sobretudo entre os animadores. É um fato que devemos levar em conta, valorizando e acompanhando muito melhor a experi'éncia associativa. Talvez devessemos estar mais convencidos de que os nossos jovens, sobretudo os jovens animadores, tem o direito de receber de nós um estímulo que os leve a pensar a própria vida e o próprio empenho em chave vocacional; em seu acompanhamento pessoal devemos propor com clareza a questào vocacional e encorajar a sua resposta generosa.
Esta é urna tarefa importante e urgente para cada salesiano e para cada membro da Família Salesiana em seu contato cotidiano com os jovens dos grupos e nos diversos trabalhos de animação. Quando houver urna ocasião propícia e urna disponibilidade potencial do jovem,
26 Cf. MB XI, p. 266.
esse é o momento de propor um compromisso vocacional. Nessa proposta devemos ser livres e corajosos, entregando-nos à ação do Espírito, que frequentemente haverà de nos surpreender com a sua ação.
Hoje, a idade das opvóes vocacionais de vida vai sendo adiada e, mesmo sendo a semente lançada na pré-adolescencia ou adolescencia, ela amadurece frequentemente em momentos sucessivos, quando os jovens se encontram na universidade ou nas primeiras experiencias de trabalho. É importante promover propostas e espaços concretos que nos permitam acompanhà-los nestes momentos decisivos para o seu futuro. Entre estes jovens, devemos cuidar de modo especial daqueles que nos estào mais próximos, os animadores, os voluntàrios, os colaboradores das nossas obras que compartilham generosamente muitos aspectos da missão salesiana, que tem urna vontade autentica de servivo e estào em busca de um projeto significativo de vida. É preciso garantir que a experiencia de animação ou de voluntariado os ajude a organizar a própria vida segundo um itineràrio de busca e de disponibilidade vocacional.
Notamos que entre os grupos do MJS vào-se desenvolvendo de modo admiràvel os grupos de Voluntariado. Eles são a primeira salda do itineràrio formativo anteriormente realizado nos grupos. Os jovens, na opção pelo voluntariado, descobrem um espa90 de iniciativa e de servivo que se torna contestavào corajosa da mentalidade individualista e consumista que insidia muitas realidades sociais. Ao mesmo tempo, ajuda-os a amadurecer a visão vocacional da vida como doni e como servivo.
Deve-se colher este "sinal dos tempos" explicitando os seus múltiplos valores, sobretudo na educavào à solidariedade e na riqueza vocacional que inclui.
Dom Bosco sabia empenhar os seus meninos, frequentemente muito jovens, em tarefas quase heroicas de voluntariado. Basta recordai os jovens "voluntsírios" na época da cólera em Turim. Mediante estes comprometimentos de servivo, ajudava-os a amadurecer a opvào vocacional da vida. O envolvimento direto dos próprios jovens em sus educação e na transformavào do ambiente foi, para Dom Bosco, ums‑
das chaves fundarnentais do seu sistema educativo, além de ser urna verdadeira escola de cidadania e de santidade.
Também nós, hoje, mediante o voluntariado, queremos repropor urna visão vocacional da vida, inspirada no Evangelho vivido segundo a Espiritualidade Juvenil Salesiana. O(a) voluntkio(a) traduz na realidade aqueles valores e atitudes que caracterizam a "cultura vocacional", sublinhados anteriormente, corno a defesa e promoção da vida humana, a confiança em si e no próximo, a interioridade que faz descobrir em si e nos outros a presenta e a ação de Deus, a disponibilidade a sentir-se responsàvel e deixar-se envolver pelo bem dos outros em atitude de servito e gratuidade. Esses valores devem ser cultivados durante a formação dos voluntkios e inspirar os seus projetos e o seu modo de servir, de tal maneira que a experiência de voluntariado confirme a sua vida corno cidadàos e tomo cristàos empenhados e não se reduza a urna experiência entre tantas outras vividas no tempo da juventude.
Dessa forma, o voluntariado torna-se verdadeira escola de vida; contribuì para educar os jovens à cultura da solidariedade pesante os outros, sobretudo os mais carentes; faz crescer neles o espírito de acolhida, a abertura para o outro, e convida quase naturalmente à abertura do dom total e gratuito de si mesmos.
É importante, ent'ào, promover o voluntariado na Família Salesiana. Trata-se de urna proposta que deve ser conhecida, valorizada e acompanhada. Constitui por si mesma urna experiência tipica na qual se pode cultivar adequadamente a cultura vocacional.
4. CONCLUSÀO. BELEZA E ATUALIDADE DA VOCAÇÃO SALESIANA
Em minhas visitas à Congregação e a outros grupos da Família Salesiana presentes no territorio, pude constatar a enorme força de atração e o entusiasmo suscitado pela pessoa de Dom Bosco, entre os jovens e adultos, entre a gente simples e as autoridades, os políticos,
os agentes sociais, nas diversas culturas e também entre pessoas de outras religi6es. Conversando com muitos deles, pude perceber o reconhecimento que manifestam pela presenta e a obra salesiana. Todos se sentem orgulhosos de serem ex-alunos(as) e de terem experimentado a pedagogia salesiana. Com frequéncia, a lembrança de Dom Bosco suscita grande entusiasmo popular e mobiliza populações inteiras. Acontece assim, por exemplo, no Panamà, durante a novena e a festa de Dom Bosco, Estamos percebendo o mesmo fenomeno durante a passagem da urna de Dom Bosco, em turné pelos vàrios continentes. A sua pedagogia e o seu estilo educativo, sobretudo quando conhecido e aprofundado, é considerado um tesouro que se deve, ao mesmo tempo, fazer conhecer e conservar. Ela representa, de fato, urna resposta adequada aos desafios e expectativas dos jovens de hoje.
Isso tudo nos encoraja a viver a nossa vocação com digno orgulho e grato reconhecimento, sentindo-nos herdeiros e continuadores de um carisma especial que Deus suscitou para os jovens, sobretudo os mais pobres e em situação de risco. Nos 150 anos de história salesiana, desde a fundação da Congregação e da Família Salesiana, vemos realizar-se o sonho de Dom Bosco, de envolver um vasto movimento de pessoas que, compartilhando o seu espírito, se empenham na missão juvenil. Nós todos somos parte e comprovação desse sonho em ação.
Devemos viver, portanto, a nossa vocação salesiana com grande sentimento de agradecimento, e o primeiro sinal de reconhecimento é a nossa fidelidade pessoal, vivida com alegria e testemunho luminoso. Devemos falar da nossa vocação. Devemos falar de Dom Bosco e da sua missão. Devemos evidenciar aquilo que a Família Salesiana, por meio dos seus grupos, realizou no mundo, e encorajar muitas pessoas de boa vontade a oferecerem não só a sua colaboração, mas a sua própria vida para que a missão salesiana possa continuar no mundo em favor dos jovens tào amados por Deus.
Todos nós podernos conhecer e recordar irmãos e innàs, comunidades e grupos que viveram e continuam a viver a sua vocação de modo admiràvel e atraente. As suas vidas suscitam a estima e o envolvimento de muitas pessoas. Penso neste momento na figura do padre
Cimatti, que com a sua simpatia, a sua amabilidade e o seu talento musical tornou conhecido e apreciado Doni Bosco e a sua obra no Japào, suscitando numerosas vocaeóes; a figura de padre Carrefio, que na India, com outros grandes missionàrios, tornou a vocaeào salesiana conhecida e amada, envolvendo muitíssimos jovens e ativando um movimento vocacional do qual ainda hoje recolhemos frutos abundantes. Recordo ainda a Beata Ir. Maria Romero, incansàvel mulher apostólica na Costa Rica, ou a irradiante figura da irmà Eusébia Palomino, ou o Cooperador Salesiano Atílio Giordani, ou o Ex-Aluno Alberto Marvelli, ou Alexandrina da Costa, ou Nino Baglieri.
Mesmo em situaeòes muito difíceis, conio as dos países comunistas, os membros da Família Salesiana não se deixaram sobressaltar e desencorajar pelos obstkulos e não se retiraram à espera de tempos melhores, mas procuraram viver a própria vocayào fielmente, ajudando-se reciprocamente a sereni perseverantes em situaeóes quase impossíveis e dando lugar a formas originais e criativas de atuar, na clandestinidade, um trabalho pastoral segundo o espírito salesiano. Dessa forma, também naquelas circunstàncias tào adversas, foram capazes de suscitar numerosas vocaeóes à vida religiosa e à Família Salesiana.
Estou certo de que cada um de vós, nos diversos grupos e nas Congregaeóes ou Institutos da Família Salesiana, conheceu irmãos ou irmàs ao redor dos quais cresceram numerosas vocaeóes à vida religiosa. Outros terào promovido o trabalho de numerosos leigos pela missão de Doni Bosco. Essa forpa de animaeào tem sua fonte na pessoa do nosso grande Pai Doni Bosco. Ainda hoje, sempre que os nossos colaboradores leigos conhecem bem a figura de Doni Bosco e o seu Sistema Educativo e a sua Espiritualidade, ficam profundamente entusiasmados por ele e sentem o desejo de tornà-lo conhecido a outros.
Devemos viver, portanto, orgulhosos da nossa vocaeào salesiana; conhecer sempre mais Doni Bosco e, sobretudo, viver e comunicar com entusiasmo o seu espírito e a missão salesiana. Como sinal de gratidào pelo doni da vocaeào salesiana recebida, empenhemo-nos por fazé-la conhecida de todos, principalmente dos jovens. Falaremos
dele, sempre que for possível, aos nossos colaboradores e aos amigos que entram em contato conosco. A nossa vida, o nosso entusiasmo, a nossa fidelidade manifestarào pienamente que cremos na beleza e no valor da vocaeào que recebemos. Cremos na sua atualidade e a vivemos intensamente para responder com alegria às necessidades e às expectativas dos jovens e da sociedade de hoje.
O Senhor Jesus e Maria Auxiliadora confiaram-nos este dom precioso para a salvaeào dos jovens. É um doni que conservamos com amor, que vivemos coro intensidade, que comunicamos com alegria.
Como de costume, concluo com uma fàbula que me parete muito estimulante para a reflexào que nos propòe sobre o tema da sequela, do caminho, da opeào fundamental da vida e do Senhor, como único sumo beni e verdadeira pérola preciosa, pela qual vale a pena vender tudo o mais. Sào todos elementos que t'ém a ver com a concepeào da vida como vocaeào.
A caravana no deserto
Vivia no distante Oriente um imperador rito e poderoso. Em todas as cortes do mundo teciam-se elogios sobre o seu reino, os seus palócios, a sua sabedoria. Entretanto, poetas e trovadores peregrinavam de castelo em castelo exaltando, acima de tudo, as suas imensas riquezas. "Só as joias do seu diadema jó dariam para fazer viver urna cidade! ", declamavam.
Corno é comum acontecer, tudo isso fomentou inveja e cupidez em outros reis e outros povos. Algurnas tribos de bórbaros ferozes e violentos concentraram-se nas fronteiras e invadiram o reino. Ninguém conseguia deté-los. O imperador decidiu refugiar-se entre as tribos fiéis que viviam nas montanhas, alérn do deserto assustador
Certa noite, ele deixou o palócio imperial acornpanhado de uma ízgil caravana que transportava o seu fabuloso tesouro de ldminas de ouro, joias e pedras preciosas. Para que a marcha fosse mais rcpida,
acompanhavam-no apenas a sua guarda de elite e os seus pajens, que lhe tinham jurado fidelidade absoluta até à morte.
O caminho pelo deserto serpeava entre dunas de areia escaldadas pelo sol, fendas estreitas e ravinas íngremes. Vereda conhecida por poucos. Pela metade do caminho, enquanto escalavam urna encosta pedregosa, esgotados pelo cansago e o revérbero ardente das rochas, alguns camelos da caravana caíram agonizantes e não se levantaram mais. As arcas que transportavam rolaram pelos flancos da duna, romperam-se e espalharam todo o seu conteúdo de moedas, joias e pedras preciosas, que afundaram entre as pedras e a areia.
O soberano não podia diminuir a marcha. Os inimigos provavelmente jet haviam percebido a sua fuga. Com um gesto entre aborrecido e generoso, acenou aos seus pajens e à guarda para que ficassem com as pedras preciosas que conseguissem recolher e carregar com eles. Um punhado daqueles preciosos objetos garantiria riqueza pelo resto da vida.
Enquanto os jovens avidamente se langavam sobre o rico butim e remexiam freneticamente a areia e entre as pedras, o soberano continuou sua viagem pelo deserto. Percebeu, porém, que alguém continuava a caminhar atrds dele. Voltou-se e viu que era um de seus pajens, que o seguia ofegante e suado.
— E vocé — perguntou-lhe não ficou a recolher alguma coisa?
O jovem fixou-o com um olhar sereno, cheio de dignidade e altivez, e respondeu:
— Não, senhor Eu acornpanho o meu rei.
A narragào traz-nos à memória o trecho decisivo do Evangelho de Jo'do, que é um divisor de érguas na história de Jesus:
"A partir daquele momento, muitos discípulos de Jesus o abandonaram e não mais andavam com ele. Jesus disse aos Doze: `Vós também quereis ir embora? Simão Pedro respondeu: 'A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecernos que tu és o Santo de Deus " (Jo 6,66-69).
Opgào de tào grande empenho, de entrega da própria vida nas mãos de Deus, só é possível, como escreve Madeleine Delbrél, se formos capazes de dangar deixando-nos guiar pelo Espírito Santo.
A darmi da vida
Para ser um bom dangarino, contigo e com os outros, não é preciso saber para onde a dama conduz. Basta acompanhar os passos, estar alegre, estar leve, e sobretudo não ficar rigido. Nero é preciso pedir explicagóes sobre os passos que gostas de dar. É preciso ser corno um prolongamento teu, àgil e entusiasta. E receber de ti a retransmisstio do ritmo da orquestra.
É preciso não querer ir adiante a qualquer custo, mas aceitar voltar para trds, caminhar de lado. É preciso saber parar e saber deslizar, em vez de caminhar E estes seriam apenas passos abobalhados, se a música Cu) fizesse deles urna harmonia. Entretanto, nós nos esquecemos da música do teu Espírito, e fazemos da vida um exercício de gindstica; esquecemos que entre os teus braços a vida é urna dama, e que a tua santa vontade é de urna fantasia inconcebível.
Senhor, se fissemos felizes contigo nero poderíamos resistir à caréncia de danga que se dissemina pelo mundo, e chegaríamos a adivinhar qual dama te agrada fazer-nos danQar, desposando os passos da tua Providéncia.
Caros irmãos e irmàs, desejo a todos erta exaltante experiência de se deixar conduzir pelo Espírito. A nossa vida encher-se- t de alegria e entusiasmo e poderemos ser entào como João Batista, mestres que sabem ajudar os próprios discípulos a serem discípulos e apóstolos do Senhor Jesus.
Um forte abraeo e um ano de 2011 sereno e abundante de vocações para toda a Família Salesiana.

P. Pascual Chavez Villanueva
Reitor-Mor