Reitor-Mor

BS 2022-11: A PEQUENA CIDADE DAS BEM-AVENTURANÇAS

 
 
Na megalópole de Chennai (Madras), na atmosfera excitante e cheia de vida da cidade, no meio dos enormes complexos industriais e dos magníficos templos, há também uma faixa luminosa de bondade toda salesiana.

Esta história começa há muitos anos, depois da infame Primeira Guerra Mundial, numa pequena localidade da Alta Itália, numa família dignamente pobre de treze filhos.

Uma noite, ao terminar a distribuição das papas de milho aos irmãos e irmãs, um deles apercebeu-se de que os pais tinham ficado sem nada. «Porque é que tu e o papá tendes o prato vazio», perguntou a mamã. E ela: «Esta noite não temos fome». «Então também eu não tenho fome», disse ele, e escapou-se para fora a chorar, no escuro da eira. A mamã foi ter com ele e depois também o papá. Foi então que o pequeno Orfeo disse decido: «Se eu for sacerdote, trabalharei só para os pobres, para quem tem fome, como eu tenho esta noite!».

Orfeo Mantovani entrou no noviciado dos Salesianos e em 1934 partiu para as missões salesianas na Índia. A Índia tornou-se a sua segunda pátria muito amada. O seu bispo era outro grande salesiano, que tinha a coragem e a barba dos patriarcas, monsenhor Louis Mathias, que logo contentou o padre Mantovani confiando-lhe as zonas mais pobres da cidade de Madras.

Ele pôs mãos à obra. Ao lado da via férrea, no terreno enegrecido por antigos depósitos de carvão, começou a recolher os abandonados da rua, os abandonados de todos, aqueles que já não conseguiam viver. Com eles, lançou o desafio ao “tigre negro”, a fome desesperada dos bairros degradados.

Assim o salesiano do sorriso meigo fundou, pouco a pouco, como fazia Dom Bosco, o Centro de Alívio Social: ensino primário com aulas diurnas e noturnas, clínica gratuita e hospital, leprosário, oratório festivo. Quando ele morreu, outro salesiano ficou no seu lugar, e depois outro e outros mais, porque esta é a beleza de sermos uma grande família religiosa. E o lugar tornou-se uma cidadela de amorosa caridade.

Naquela cidadela, em Chennai, entrei há algumas semanas e foi para mim uma magnífica experiência. A obra chama-se Bem-Aventuranças e é conhecida como a casa salesiana em que se entra por três anos e da qual muitos saem no fim da sua vida, para ir ao encontro do Senhor. Sob o sorriso de Dom Bosco “desde o berço até à tumba”, dizem aqui.

Talvez vos surpreenda o que estou a escrever, mas admirei o trabalho salesiano, o serviço prestado a milhares de famílias, crianças, adolescentes, jovens e idosos. E tudo isto é fruto da colaboração de três Congregações da Família Salesiana: esta é a novidade ou a riqueza! Ali estão os Salesianos de Dom Bosco, as Filhas de Maria Auxiliadora e a Congregação chamada “Irmãs de Maria Auxiliadora” (SMA).

As crianças a partir dos três anos e as crianças das escolas elementares frequentam a escola gerida pelas Filhas de Maria Auxiliadora. Acolhem também raparigas adolescentes. As irmãs SMA vivem a prestar assistência a homens e mulheres idosos que não teriam outro lugar (e naturalmente nenhuma assistência social possível) para viver a sua velhice até ao fim dos seus dias. A comunidade dos Salesianos de Dom Bosco cuida de rapazes e raparigas de várias idades e de crianças pobres recolhidas na rua. Naturalmente, além disto, visitam as famílias da zona, que vivem em grande pobreza, e têm a seu cargo a paróquia.

Em suma, parece, em certo sentido, uma “pequena cidade salesiana” por tudo aquilo que ali se vive. Fiquei profundamente impressionado e prometi-lhes que falaria deles, que a daria a conhecer, porque, como aprendemos de Dom Bosco, o bem que se faz deve ser dado a conhecer.

Aprecio muito a colaboração que instaurámos entre estas três congregações da nossa Família Salesiana. O importante aqui não é saber a quem pertence o terreno ou dos edifícios, mas o bem que se faz e se faz juntos, indo ao encontro dos mais pobres e dos mais frágeis, e pensamos naqueles idosos por saber o que são a fragilidade e a insegurança, se não fosse aquele pequeno paraíso chamado Bem-Aventuranças que o nosso Deus seguramente pensou para eles.

Quem apreciar a Aldeia das Bem-Aventuranças não pode deixar de ficar maravilhado pelos resultados que um pouco de amor partilhado permite atingir. Um dia é garantido o alimento para 300 idosos, presta-se assistência diária a mais de 1000 (mil) crianças de ambos os sexos e mais de 15.000 pessoas recebem uma resposta para as suas diversas necessidades, “tudo quase a custo zero”. As pessoas que entram na Aldeia das Bem-Aventuranças veem com os seus olhos estes “50 anos de milagres diários”.

Os slogans caraterísticos desta casa: “Servir os doentes é a melhor oração” (Mantovani), "Ninguém tem o direito de ser feliz sozinho”, “É possível dar sem amar, mas não se pode amar sem dar”.

As pessoas pensam que a Aldeia das Bem-Aventuranças é uma expressão tangível da fidelidade dos salesianos ao serviço dos pobres e a manifestação concreta da providência divina em seu favor. Para os jovens dos bairros de lata é um oásis. É uma igreja, uma escola, um campo para se treinar a jogar futebol, uma palestra, etc.

E pensai que em Chennai há 15 comunidades salesianas, que incluem paróquias, escolas médias e secundárias superiores (liceus), institutos técnicos, centros de animação juvenil, centros sociais para crianças e jovens em risco, casas de formação, uma das quais é um seminário. O arcebispo, o clero e os leigos cristãos e não cristãos têm grande apreço pelas obras realizadas pelos salesianos, em particular pela sua atenção à pastoral juvenil, pela missão que que realizam ao serviço dos mais pobres e também pelas escolas de excelência, que constituem uma flor na lapela no âmbito da instrução de qualidade para todos.

Tudo isto me fala da beleza do Evangelho que se difunde em todo o mundo, muitas vezes com a força e o silêncio da caridade; fala-me do carisma de Dom Bosco e do grande valor de querer chegar até aos recantos mais remotos do mundo. Nunca me canso de recordar na nossa Família Salesiana que hoje os filhos e as filhas de Dom Bosco estão em 134 países (72% dos países do mundo), porque nos seus tempos, quando quase não havia salesianos, Dom Bosco quis que um primeiro grupo fosse para a Argentina para ajudar os emigrantes italianos e depois chegar aos indígenas. Se tivesse ficado só na Itália, a realidade do carisma de Dom Bosco seria hoje muito diferente.

Termino com as palavras um dia pronunciadas por um funcionário hindu: «Se a religião cristã pode produzir homens como o padre Mantovani, só pode ser divina».