Reitor-Mor

BS 2024-04: SOU SALESIANO E SOU BORORO

 

Diário de uma jornada missionária feliz e abençoada

Caros amigos do Boletim Salesiano, estou a escrever-lhes de Merúri, no Estado do Mato Grosso. Escrevo esta saudação como se fosse uma crônica, porque já faz 24 horas que cheguei a esta localidade.

Mas os meus Irmãos Salesianos chegaram há 122 anos e, desde então, continuamos nesta missão. em meio a silvas e campos, acompanhando a vida deste nosso povo indígena.

Em 1976, um sacerdote salesiano e um índio foram tirados da vida com dois tiros de arma de fogo (por obra de “fazendeiros”, ou grandes proprietários de terras), porque pensavam que os salesianos da Missão poderiam ser um obstáculo na hora de apropriar-se de outras terras pertencentes ao Povo Boe-Bororo. Trata-se dos Servos de Deus P. Rodolfo Lunkenbein, salesiano, e do índio Simão Bororo.

E aqui vivi ontem muitos momentos simples: à nossa chegada, fomos acolhidos pela comunidade indígena. Sauda-mo-nos – sem pressa – , porque aqui tudo é calmo. Celebramos a Eucaristia Dominical, compartilhamos arroz e feijoada, e mantivemos uma conversação amável e calorosa.

Para a tarde, haviam-me preparado uma reunião com os chefes das várias comunidades; estavam presentes algumas mulheres-chefes (em diversas aldeias é a mulher que tem a autoridade máxima). Dialogamos de modo sincero e profundo. Expuseram-me as suas reflexões e apresentaram-me algumas das suas exigências.

Num desses momentos, um jovem salesiano boe-bororo tomou a palavra. É o primeiro indígena bororo a tornar-se salesiano em 122 anos de presença salesiana. Isto convida a refletir sobre quão necessário seja dar tempo ao tempo: as coisas não são como pensamos, ou queremos que sejam, neste mundo de hoje, eficiente e impaciente.

E este jovem Salesiano assim falou perante a sua gente - sua gente e seus chefes, ou autoridades: «Sou Salesiano, mas sou também bororo; sou bororo, mas também salesiano; e a coisa mais importante para mim é que nasci mesmo neste lugar em que me encontrei com os missionários, em que ouvi falar dos dois mártires – P. Rodolfo e Simão – ; em que a minha gente, o meu povo, cresceu, graças ao fato de que a minha gente caminhou junto com a missão salesiana e a missão caminhou junto com a minha gente. O mais importante para nós é caminhar juntos».

Pensei, por momentos: como Dom Bosco deveria sentir-se orgulhoso e feliz ao ouvir que um dos seus filhos salesianos pertence a este povo (como outros salesianos provêm do Povo Xavante, dos Ianomâni...).

Ao mesmo tempo, assegurei-lhes, em minha fala, que queremos continuar a caminhar ao seu lado; queremos que façam todo o possível para que continuem a cuidar da sua cultura, a salvá-la – e à sua língua – , contando com toda a nossa ajuda. Disse-lhes que estava convencido de que a nossa presença os ajudara no passado; mas também de quanto nos faz bem, estar com eles.

«Coragem!», disse a Pastorinha

Pensei no último sonho missionário de Dom Bosco: naquela Pastorinha que parou ao lado dele, e lhe disse: «Lembra-se do sonho que teve aos nove anos?... Olhe agora: o que está a ver?». «Vejo montanhas, mares, colinas, mais montanhas e mares». «Bem – disse a Pastorinha – , agora trace uma linha de uma ponta à outra, de Santiago (do Chile) a Pequim (na China); marque o centro dela - no meio da África - e terá uma ideia exata daquilo que devem fazer os Salesianos». «Mas como fazer tudo isso? – exclamou Dom Bosco – . As distâncias são imensas, os lugares difíceis e os salesianos, poucos». «Não se aflija. Farão isto os seus filhos, os filhos dos seus filhos, e dos seus filhos. Já estão a fazê-lo».

Dom Bosco – desde o início da nossa caminhada como Congregação, guiado (e amavelmente “impelido”) por Maria Auxiliadora – enviou os primeiros missionários para a Argentina. Somos uma congregação reconhecida com o carisma da educação e da evangelização dos jovens. Mas somos igualmente uma congregação e uma Família muito missionária. Do início até hoje, foram mais de 11.000 os Salesianos que partiram como missionários e vários milhares as Irmãs Filhas de Maria Auxiliadora.

Hoje a nossa presença entre este povo indígena – que conta 1940 membros e que continua a crescer – sentiu perfeitamente, após 122 anos, por que motivo estão na periferia do mundo – de um mundo que, por vezes, não compreende que deve respeitar aquilo que eles são.

Falei também com a matriarca, a mais idosa de todas. Veio cumprimentar-me e falar-me de seu Povo.

E depois de uma chuva mui torrencial (era já escuro) sentamo-nos todos no lugar do martírio para rezar o Terço, com grande serenidade, numa bela tarde de domingo. Éramos muitos a representar a realidade desta Missão: as avós, os avós, adultos, jovens mães, recém-nascidos, meninos pequenos, sacerdotes, consagrados, leigos… - uma riqueza na simplicidade desta pequena parte do mundo que não tem poder, mas que é também, como nos diz o Evangelho, escolhida e predileta do Senhor. E sei que assim continuaremos, se Deus quiser, por muitos e muitos anos, porque se pode ser Bororo e Filho de Dom Bosco, ser Filho de Dom Bosco e Bororo que ama e cuida do seu Povo e da sua Gente.

Na vera simplicidade desse encontro, foi um grande dia de vida, partilhada com os povos indígenas. Uma grande jornada missionária.