Reitor-Mor

BS 2025-11: Da Mesa do Fariseu ao Coração do Ministério

 

Humildade e Caridade na Evangelização dos Jovens

No capítulo 14 do Evangelho de Lucas, encontramos a narrativa de quando Jesus aceita o convite para jantar em casa de um fariseu importante. Jesus entra num espaço denso de cálculos sociais e atitudes religiosas de fachada, em que o jantar, na realidade, se torna um teatro da ambição humana e onde os hóspedes disputam posições que refletem o seu status notado e a própria importância.

Jesus, sempre agudo observador da natureza humana, transforma este momento de manobras sociais num profundo ensinamento sobre os fundamentos mesmos do discipulado cristão. Tentemos compreender de que modo esta situação nos fala a nós que estamos empenhados pela educação e evangelização dos jovens. Com que frequência também nós nos encontramos condicionados por alguns traços a que Jesus chama pelo nome: a subtil competição pelo reconhecimento e a influência; ou querer parecer o melhor de todos. Creio que o jantar do fariseu se torna um espelho para os nossos contextos ministeriais e pastorais, desafiando-nos a examinar as nossas motivações, os nossos métodos, as nossas escolhas quotidianas.

O Problema: Falsas Ilusões de Proeminência

Nota Jesus como os convidados escolhem os lugares de honra, revelando uma tendência humana fundamental que vai para muito além da refeição. Essa corrida aos primeiros lugares expõe aquela que poderíamos chamar “a ilusão da proeminência” – a falsa convicção de que o nosso valor e a nossa eficiência são medidos pelo reconhecimento, pelo status, pelas honras que os outros nos conferem.

É uma ilusão – o que é uma armadilha também para nós – educadores e educadoras envolvidos na pastoral juvenil. É uma tentação que se manifesta de muitas maneiras. Poderíamos encontrar-nos a buscar o apreço dos pais, o reconhecimento dos administradores ou a gratidão dos alunos. Poderíamos inconscientemente competir com os colegas pela etiqueta de “docente mais eficiente” ou pela reputação de “animador juvenil que todos amam”. O desejo de proeminência pode infiltrar-se subtilmente em nossa missão, transformando aquilo que deveria ser serviço desinteressado em performance, seguindo uma sua agenda própria.

Não esqueçamos que a ilusão da proeminência é particularmente perigosa no trabalho com jovens, porque eles, que possuem uma sensibilidade aguda em relação à autenticidade, percebem logo quando os adultos os usam mais como meios para o seu envaidecimento pessoal do que para investir genuinamente no seu crescimento integral. Quando agimos pela ilusão da proeminência, ensinamos inadvertidamente aos jovens: que as relações são transacionais e utilitárias; que o amor deve ser ganho através da performance; e que os outros são tapete para as nossas ambições pessoais.

O Primeiro Ensinamento: Escolher o Último Lugar

A instrução de Jesus de ocupar o lugar mais baixo e não presumir honrarias, representa mais do que uma estratégia social – requer uma reorientação fundamental do coração. A verdadeira humildade não é autorrebaixamento ou falsa modéstia: é antes uma compreensão cuidadosa da nossa posição perante Deus e perante os outros. Nestes contextos educativo-pastorais, escolher o último lugar significa aproximar-se dos jovens sem a presunção de que a nossa idade, experiência, posição nos concedam automaticamente autoridade ou respeito. Significa estar dispostos a aprender deles, ser surpreendidos pelas suas intuições e reconhecer que às vezes não temos respostas a dar. Esta humildade cria espaço para que surja uma vera e autêntica relação.

Quando escolhemos o último lugar, mostramos aos jovens o que significa viver sem a necessidade constante de validação exterior, tão comum hoje na era das redes sociais. Mostramos que a nossa identidade e o nosso valor não dependem do reconhecimento ou do sucesso, mas brotam da nossa relação com Deus, o qual faz emergir escolhas sãs em favor dos outros. Isso torna-se particularmente eficiente para os adolescentes que, muitas vezes, estão mergulhados em ciclos de anseios por performance e confronto, perante os demais.

Segundo Ensinamento: Caridade Prática

Jesus passa depois do comentar a humildade pessoal à proposta da caridade estrutural. Convidar “os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos” de preferência àqueles que podem retribuir, representa um reenquadramento radical da relação na oferta, mais do que no intercâmbio.

Demasiado frequentemente, a nossa energia e atenção se voltam para os jovens que são mais fáceis de tratar, mais reativos aos nossos esforços ou que nos fazem parecer de sucesso. Investimos naturalmente em relações que dão feedbacks positivos e resultados visíveis.

Jesus chama-nos a um cálculo completamente diferente. Desafia-nos antes a procurar aqueles que não podem melhorar a nossa reputação ou fazer progredir os nossos programas – o aluno em dificuldade, o adolescente socialmente desfavorecido, o jovem de uma proveniência difícil, aquele cujas perguntas desafiam os nossos cômodos pressupostos. Estes são aqueles que mais precisam do nosso investimento e que podem ensinar-nos mais sobre a natureza do amor incondicional.

Humildade e Caridade: Dois movimentos do mesmo Coração

O gênio do ensinamento de Jesus está em associar estes dois movimentos – humildade pessoal e caridade prática – como expressões da mesma realidade espiritual. A humildade sem caridade permanece autocentrada, tornando-se potencialmente uma forma de orgulho espiritual. A caridade sem humildade pode tornar-se paternalista ou manipuladora, servindo mais à nossa necessidade de nos sentirmos úteis do que a satisfazer genuinamente as necessidades dos outros.

A verdadeira humildade leva-nos a ver os jovens não como projetos a sistematizar ou matéria-prima para os nossos programas, mas como Filhos amados de Deus, com dignidade intrínseca e dons singulares. Este reconhecimento leva naturalmente à ação caritativa – não caridade como piedade ou condescendência, mas caridade como reconhecimento da nossa interconexão fundamental e da necessidade recíproca.

Conclusão: O Convite Radical

O ensinamento de Jesus no jantar do fariseu profere um convite radical dirigido a todos nós: encontrar a nossa identidade não no reconhecimento que nos dispensam, mas no amor que nós doamos; não nas honras que nos conferem, mas em nosso serviço fiel àqueles que não podem retribuir-nos. Para educadores e animadores juvenis, este convite torna-se tanto desafio quanto convicção – o desafio de examinar as nossas motivações mais profundas; e a convicção de que o serviço fiel - mesmo quando não notado ou não louvado - participa da obra transformadora de Deus, no mundo. Escolhendo a humildade e praticando a caridade, não só servimos os jovens de maneira mais frutuosa mas também encarnamos o mesmo Evangelho que tentamos partilhar. Tornamo-nos testemunhas vivas de um modo original, no qual a grandeza se encontra no serviço, a beleza em doar-se, e a alegria em ver crescer os outros. Esta é a evangelização mais poderosa: vidas que testemunham – com humildade alegre e caridade genuína – a realidade que proclamam.