Reitor-Mor

BS 2026-01: UM DESAFIO À NOSSA HUMANIDADE

A riqueza que corre o risco de nos tornar cegos e surdos

A parábola do rico e do pobre Lázaro que encontramos no evangelho de Lucas, capítulo 16, 19-31, não é simplesmente uma história sobre a justa distribuição das riquezas materiais. É uma narrativa que penetra no coração da condição humana, colocando-nos perante uma pergunta inquietante: - “Quem possui verdadeiramente ‘quem’?”. E mais: - “Era o rico a possuir sua riqueza ou era a riqueza que o possuía a ele, transformando-o num escravo?”.

Esta inversão de perspectiva abre espaço para uma reflexão profunda. O homem da parábola não se condenava porque tinha roubado ou explorado, mas porque se havia tornado cego e surdo. A sua tragédia não estava no ter, mas em não ver e não ouvir. Vivia num mundo reduzido: reduzido única e somente às dimensões da sua casa, dos seus bens, do seu imediato bem-estar. À porta da sua casa jazia Lázaro, coberto de chagas que os cães lhe vinham lamber; mas esse Pobre tornara-se invisível; e o seu grito, silencioso e inaudível!

A riqueza existencial

Quando falamos de riqueza, tendemos imediatamente a pensar em dinheiro, em bens materiais, em sucesso econômico. Há, entretanto, uma riqueza mais subtil e pervasiva: a existencial. É a riqueza de quem está bem, de quem achou o seu espaço de conforto, de quem vive rodeado de relações positivas, de experiências gratificantes, de certezas tranquilizantes. É a riqueza de uma comunidade que funciona, de um grupo em que uma pessoa se sente acolhida, de um ambiente em que tudo decorre de forma agradável.

Essa riqueza existencial é um dom, não há dúvida. É justo gozar dela, celebrá-la, dar-se conta da beleza daquilo que se vive. Mas é precisamente ali que se esconde o perigo mais insidioso: o de se fechar nessa abundância, de transformar o espaço do bem-estar num gueto dourado, alheio à realidade circunstante.

O rico da parábola vivia assim. Não lhe faltava nada e, no entanto, faltava-lhe tudo: faltava-lhe a capacidade de ver fora de si mesmo, de se deixar tocar pela realidade que lhe batia à porta. A sua riqueza tornara-se uma prisão invisível, com grades de rotina, indiferença, autorreferencialidade.

 

A cegueira e a surdez do conforto

A zona de conforto é um dos conceitos mais perigosos da modernidade. Nele se inclui que o bem-estar é mais um direito de se proteger que um dom de se partilhar. Ele convence-nos de que preservar o nosso equilíbrio é mais importante do que abrir-nos ao grito dos outros. Sussurra-nos que já fizemos bastante, que podemos finalmente descansar, que os outros problemas não nos dizem respeito diretamente.

A cegueira do rico não era física, mas espiritual. Ele via o seu palácio, os seus hábitos, a sua mesa preparada, mas não via Lázaro: e não porque Lázaro estivesse escondido, mas porque o rico havia desenvolvido aquela especial forma de cegueira que filtra a realidade: que deixa passar só aquilo que confirma a própria visão de mundo.

E havia também a surdez. O texto revela-nos este segundo defeito quando o homem suplica, do além, que Abraão envie alguém dos mortos para que os seus irmãos o ouçam. Mas fora ele a não ouvir o grito silencioso da pobreza – esse sofrimento que não grita, mas subsiste; que não perturba, mas persiste; que não reclama, mas espera.

 

A escuta interior, condição indispensável para a escuta exterior

Como se ultrapassa essa dupla paralisia da cegueira e da surdez? A resposta não consiste num simples esforço de vontade ou num programa de atividades sociais. A resposta consiste numa conversão mais profunda: não podemos ver a Cristo no pobre, se O não contemplarmos bem dentro em nós. Não se pode ouvir o grito dos vulneráveis, se não se estiver sintonizado com a voz de Deus que fala em nossos corações.

As grandes testemunhas da Caridade – de Dom Bosco a Madre Teresa de Calcutá – não partiram de uma análise lógica da pobreza, mas de uma experiência mística do amor de Deus. A sua capacidade de ver, ouvir e de responder ao exterior nascia de uma intensa vida interior, de uma contemplação que não era fuga do mundo mas preparação para o encontro com o mundo.

E este é o paradoxo: quanto mais se desce ao fundo do próprio coração para ali reconhecer o amor de Deus tanto mais se adquire a capacidade de sair de si para ir ao encontro do outro. A vida espiritual não é um ‘fechar-se em si’ narcisista, mas um necessário distanciamento com que desenvolver aquela sensibilidade que nos permite perceber o Cristo onde quer que Ele se manifeste.

A missão como partilha da riqueza

Cada pessoa é uma missão. Esta afirmação não significa que todos devemos tornar-nos ativistas frenéticos ou empenhar-nos em projetos grandiosos. Significa antes que a riqueza que recebemos – material, cultural, espiritual, existencial – não é propriedade exclusiva nossa, mas um dom destinado a circular.

Quem ama põe-se em movimento: sai de si, deixa-se atrair, atrai. O amor é dinâmico por natureza: não pode ficar acumulado, conservado, blindado numa zona de conforto. Ou o partilhamos ou o perdemos: se o não fazemos circular, corrompe-se.

O desafio, portanto, não é renunciar à riqueza existencial, mas possuí-la de modo diferente: não como proprietários ciosos, não como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novos percursos de partilha.

 

Minoria criativa e sinais de Esperança

Num mundo marcado por crescentes desigualdades e indiferenças estruturais, quem escolhe não se tornar cego e surdo, torna-se necessariamente minoria. Mas esta é que é uma minoria criativa, capaz de acender – ainda que pequenas, mas certamente contagiantes – Luzes de Esperança.

A Esperança não é otimismo ingênuo nem resignação passiva. A Esperança é uma Pessoa: Cristo, que continua a interpelar-nos através de todos os Lázaros que jazem à porta da nossa existência. Reconhecê-Lo ali, no rosto desfigurado do pobre, no grito silencioso do excluído, no sofrimento ignorado do vulnerável, é o único modo de não nos tornarmos escravos da nossa riqueza, de não acabarmos roídos pelo nosso próprio bem-estar.

A parábola inculca-nos, com urgência – já, hoje, antes que seja demasiado tarde – a abrir os olhos e os ouvidos à realidade que nos circunda. Porque amanhã, do outro lado, de nada servirá chorar por não ter visto nem ouvido.