Reitor-Mor

BS 2026-07,08: Quem nos separará do amor de Cristo?

 

Uma reflexão sobre a Epístola aos Romanos

O apóstolo Paulo, há quase dois mil anos, em sua Epístola aos Romanos (Rm 8,35) fez uma pergunta que ainda hoje interpela os credentes em Jesus Cristo de maneira única: ‘Quem nos separará do amor de Cristo?’.

Não é uma pergunta dirigida a uma assembleia de especialistas em Teologia. Paulo oferece-a como desafio: primeiro, a si mesmo; depois, aos Fiéis que viviam nas difíceis condições do Império Romano, perseguidos e inseguros. Hoje, aquela pergunta fala-nos também a nós, às nossas ansiedades contemporâneas, às nossas buscas de significado e de estabilidade, nesta época marcada por uma incerteza não menos preocupante.

 

Raízes profundas

Gostaria de comentar esta frase de Paulo a partir da imagem de uma árvore. Uma árvore não fica de pé porque alguém a segura direita do exterior: fica-se de pé porque tem raízes profundas que a seguram na profundidade da terra, aonde a fúria dos ventos e das tempestades não chega. Quando Paulo usa a expressão «enraizados em Cristo», entende isso mesmo. Não é uma questão de acreditar em certas coisas, em nível de ideias; é questão de dar forma à própria identidade e de dizer: “A minha vida pertence a Cristo, e este fato é fundamental, no sentido de que dá tanto uma base sólida quanto uma estrutura a toda a minha existência”.

Em linguagem mais de hoje, poderíamos dizer que se trata de achar o fundamento sólido para a própria identidade. Num mundo em que somos constantemente empurrados a construir a nossa imagem através das redes sociais, dos resultados profissionais, da aprovação dos outros, Paulo convida-nos a reler a nossa vida de modo radicalmente oposto. A minha verdadeira identidade - diria hoje Paulo - não depende de todo o dinheiro que acumulei ou da posição que ocupo na Sociedade. A minha identidade depende da minha vontade e decisão de pertencer a Jesus Cristo; da decisão de me reconhecer incondicionalmente amado por Ele.

Viver, e ser alimentado por estas raízes, muda tudo. Em sendo profundas as raízes, as tempestades poderão agitar-lhe os ramos à árvore, mas nunca desenraizá-la. As provas poderão sacudi-la, mas nunca arrancá-la do terreno do amor de Cristo. Tem-se a consciência de pertencer a Alguém que nunca nos haverá de abandonar.

 

O alimento do amor

Uma árvore absorve do terreno em que está plantada tudo aquilo que lhe serve para viver. Da mesma forma, o cristão vive plenamente a sua Fé alimentando-se do amor de Cristo, porque é n’Ele que está enraizado. Mas o que significa, concretamente?

Significa achar momentos de escuta e de silêncio. E esta escolha não é algo de extraordinário ou de reservado a «religiosos». É, pelo contrário, a prática sábia de parar, de ler a Palavra de Deus, de rezar, de simplesmente estar em silêncio perante um mistério maior do que nós; e que nós transportamos no coração. Neste nosso tempo de aceleração e de constante ruído, esses momentos vividos de maneira sistemática tornam-se cada vez mais preciosos e apreciados.

Significa, além disso, participar dos Sacramentos, não como cumprimento de um dever exterior, mas de um encontro vital com a graça de Cristo. Relativamente ao corpo, damo-nos conta da necessidade de nos alimentar. Se estivermos atentos, descobriremos que também para a alma existe uma urgência semelhante: ela anseia por se alimentar. Um cristão autêntico e sincero, descobre que, sem esse alimento, uma vida verdadeira se torna árida e desnorteada.

Há, porém, um elemento que transforma tudo isso em vida. Deixar-se alimentar pelo amor de Cristo significa que esse amor, sendo autêntico, transforma o nosso modo de nos relacionar: tanto conosco quanto com os outros. Um cristão que se alimenta do amor de Cristo, começa gradualmente a ver a vida segundo uma lógica diferente: não a lógica da vingança; da competição sem piedade; da busca desesperada de segurança através da acumulação; da indiferença perante os todos... Começa a viver guiado pela lógica do amor: do amor que perdoa, que serve, que confia. Não porque sejamos por natureza, pessoas extraordinárias; mas porque fomos transformados desde dentro pelo amor que continuamente nos alimenta.

 

A “vitória” que nos sustenta

A dimensão mais poderosa da mensagem de Paulo talvez diga respeito à «vitória». Não se trata de uma vitória teórica, mas de uma realidade histórica: Cristo ressuscitou dos mortos! E esta «vitória» sobre a morte nos muda radicalmente o modo de enfrentar a vida. Já não vivemos na sombra da morte. Vivemos, ao invés, à luz da Ressurreição, à luz d’Aquele que, vencendo a morte, agora vive para sempre.

Isto não significa que os cristãos não sofram nem morram. Paulo sabe-o muito bem: enumera as provas que o credente enfrenta – fome, nudez, perigo, perseguição... – . Significa que essas provas não têm a última palavra. Significa que quando o cristão se encontra perante a doença, o luto, a injustiça, nunca está abandonado a si mesmo num universo indiferente. É, antes, sustentado pela certeza de que Aquele em Quem confia ‘já’ venceu. Não é uma certeza que lhe tira o sofrimento, mas que o inscreve numa história maior - numa história que tem um significado e que não termina no... nada.

 

Uma pergunta para hoje

A pergunta de Paulo ressoa também hoje neste mundo em que muitos procuram estabilidade e significado. Talvez o leitor seja uma pessoa de Fé; ou talvez, simplesmente um curioso acerca daquilo que o Cristianismo tem a dizer sobre a vida. Em ambos os casos, a pergunta merece reflexão: - Sobre que construo a minha identidade? - O que é que realmente me está a ‘alimentar’? - Em que é que de fato eu confio quando tudo à minha volta desmorona?

Paulo oferece uma resposta que não é fácil. Mas é profunda: V. pode construir a sua vida sobre Cristo, pode alimentar-se do Seu amor, pode viver na certeza de uma vitória que ultrapassa todas as aparências temporais. Não é uma resposta para quem procura caminhos fáceis. É uma resposta que sustentou inúmeras Pessoas – santos e pecadores, heróis e pessoas comuns – nos momentos mais difíceis de suas vidas.

Talvez valha a pena tê-la em consideração.