SDB Recursos

Testemunhas da radicalidade evangélica “Trabalho e temperança”

CG27 Instrumento de trabalho


INTRODUÇÃO

Salesianos de Dom Bosco

Capítulo Geral 27

Comissão pré-capitular

TESTEMUNHAS DA RADICALIDDE EVANGÉLICA

Trabalho e temperança

Instrumento de trabalho

INTRODUÇÃO

A carta de convocação do CG27, escrita pelo Reitor-Mor em abril de 2012, indica como tema capitular o seguinte: “Testemunhas da radicalidade evangélica” (ACG 413). O tema apresenta como subtítulo o lema proposto por Dom Bosco à Congregação: “Trabalho e temperança”. O tema e o subtítulo levam-nos à fonte evangélica da nossa vida consagrada salesiana e ao estilo de vida que Dom Bosco nos propôs.

Durante o ministério público Jesus reuniu ao seu redor um grupo de discípulos. Assim narra o Evangelho de Marcos: Jesus “subiu a montanha e chamou os doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,13-15). Antes ainda que surgisse na Igreja a “sequela Christi” como forma de vida, a tradição evangélica mais antiga propôs aos crentes o discipulado como caminho para seguir Jesus. Discípulos são aqueles que Jesus chama a si e que vão depressa até ele, e são constituídos em comunidade com a dupla finalidade de permanecer com ele e ser enviados a pregar.

O texto evangélico de Marcos é uma referência bíblica interessante para o tema capitular. Se quisermos ser discípulos autênticos de Jesus, também devemos ser seus apóstolos apaixonados. Jesus convoca-nos para estar com ele e enviar-nos a pregar o seu evangelho a todos. Os verbos “estar” e “enviar” exprimem o dinamismo da comunidade dos discípulos continuamente escolhidos por Jesus e indicam aspectos inseparáveis a acolher na “graça de unidade”. Esse é o dom e o empenho mais exigente atualmente para nós na vida tanto pessoal como comunitária. Ou seja, trata-se de viver ao mesmo tempo, como diz a Exortação apostólica “Vita consecrata”, a identidade da nossa vocação consagrada, que é “misterium Trinitatis”, “signum fraternitatis”, “servitium caritatis”. Devem retornar ao centro da nossa vida o primado da graça, a iniciativa de Deus e a busca da sua vontade, o fascínio por Jesus, a vida no Espírito; o que exige uma verdadeira conversão e o exercício do discernimento.

O CG27 chama-nos para testemunhar a “graça de unidade” com radicalidade evangélica. Todos nós somos interrogados sobre o que seja a radicalidade evangélica. Nestes primeiros meses de pontificado percebemos como o papa Francisco tenha feito da radicalidade evangélica e da misericórdia os pilares da sua ação pastoral, com um estilo de vida pobre e próxima de todos. Papa Bento XVI assim se expressou ao falar às jovens religiosas: “A radicalidade evangélica é permanecer ‘enraizados e fundados em Cristo, sólidos na fé’ (Cl 2,7), o que significa na vida consagrada ir à raiz do amor a Jesus Cristo com coração indiviso, sem antepor nada a esse amor (cf. S. Bento, Regra, IV, 21)... O encontro pessoal com Cristo, que nutre a vossa consagração, deve ser testemunhado com toda a força transformadora nas vossas vidas; e tem hoje uma relevância especial... Diante do relativismo e da mediocridade, surge a necessidade desta radicalidade, que testemunha a consagração como um pertencer a Deus, sumamente amado”.[1]

Dom Bosco propôs-nos viver o testemunho da radicalidade através do lema da Congregação, sintetizado no binômio “trabalho e temperança”. Esse lema traduz concretamente a oração e o programa de vida de Dom Bosco “da mihi animas, cetera tolle”. O trabalho santificado é a nossa mística e torna visível o “da mihi animas”: o salesiano, apaixonado pelas almas, entrega-se totalmente aos jovens com o trabalho incansável. A temperança é a nossa ascética e torna visível o “cetera tolle”: o salesiano, disposto a abandonar tudo, vive com medida, moderação, autocontrole para concentrar-se na “maior glória de Deus e salvação das almas”. Neste caso, como é típico para todos os binômios propostos por Dom Bosco, trata-se de viver o trabalho e a temperança na “graça de unidade”: não se pode separar a mística da ascética e vice-versa.

O “instrumento de trabalho”, que agora oferecemos aos irmãos, reflete as múltiplas situações e sensibilidades da Congregação que também se expressou nos Capítulos inspetoriais com grandes convergências sobre os aspectos fundamentais. Ele ressente-se também do diferente estilo redacional dos três grupos da Comissão pré-capitular; cada grupo, de fato, formulou o texto de um núcleo depois de ter compartilhado os seus conteúdos na Comissão.

O “instrumento de trabalho” oferece a síntese das contribuições dos Capítulos inspetoriais sobre o tema do CG27 e, ao mesmo tempo, tem presente a carta de convocação do CG27 escrita pelo Reitor-Mor. Neste instrumento são encontrados os três núcleos “místicos no Espírito”, “profetas da fraternidade” e “servos dos jovens”, articulados segundo a metodologia do discernimento proposta para os Capítulos inspetoriais:

-      Escuta: apresenta a realidade da Congregação em seus atuais aspectos fundamentais, ou seja, aquilo que a interpela mais intensamente e o que lhe parece mais prometedor ou arriscado para o testemunho da radicalidade evangélica; evidencia o que a Congregação percebe e vive como realidade importante e prioritária: desejos e expectativas a satisfazer, questionamentos e provocações a responder, empenhos a reforçar, desafios a enfrentar, preocupações e riscos a ter presentes.

-      Leitura: apresenta as raízes, as causas e as motivações dos aspectos que foram considerados na escuta da realidade; evidencia particularmente a compreensão das situações, dos sinais dos tempos, das sensibilidades percebidas pela Congregação, do que a interpela, aparece como prometedor ou se manifesta como arriscado.

-      Itinerário: apresenta o horizonte a alcançar e os passos a dar para avançar no testemunho da radicalidade evangélica, atribuindo os compromissos assumidos a projetos variados; evidencia particularmente o caminho a trilhar através de processos a iniciar ou consolidar, mentalidades a converter, estruturas a mudar, intervenções a fazer.

O fruto do trabalho da Comissão pré-capitular é enviado agora a todos os irmãos, sobretudo, aos participantes do CG27. Trata-se de um instrumento de trabalho, que poderá ser útil na preparação para a Assembleia capitular na oração, na partilha comunitária e na reflexão. É uma nova etapa “para o CG27”, favorecida pelo clima espiritual deste terceiro ano de preparação ao Bicentenário do Nascimento de Dom Bosco.

Entreguemo-nos ao Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida, e a Maria, Auxiliadora dos Cristãos e Sustento da nossa Congregação: o Espírito e Maria acompanhem-nos neste caminho de preparação com a sua animação e intercessão, para que nos possamos converter-nos e produzir frutos abundantes, os frutos esperados da visibilidade, credibilidade e fecundidade.

Em Dom Bosco,

A Comissão pré-capitular do CG27

MÍSTICOS NO ESPÍRITO

“Subiu a montanha e chamou os doze,

para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova,

com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,13-15).

ESCUTA

[1] Deus nos chama e consagra (Const. 3)

Deus, criador e salvador, o Pai que enviou Jesus e o Espírito, tomou a iniciativa de chamar e consagrar a nós Salesianos de Dom Bosco para o seguimento do Senhor Jesus, em comunidades fraternas, enviando-nos aos jovens para o serviço educativo-pastoral. Cabe-nos responder às expectativas e aos desafios que a iniciativa de Deus coloca diante de nós.

Pode-se escutar nos Capítulos inspetoriais o profundo desejo de irmãos e comunidades de dar o primado a Deus na própria vida. Vivemos desejosos de conhecer a Sua vontade, perscrutando a Sua Palavra e os sinais dos tempos presentes na vida da Igreja, da Congregação e do mundo. Queremos fazer sinceramente não a nossa vontade, mas a de Deus que nos chama e nos consagra (cf. Jo 6,38; Mt 26,39). Compreendemos que dar o primado absoluto a Deus é a necessidade mais importante deste tempo, se pretendemos viver autenticamente a nossa vida de consagração apostólica. Não só há um vivo desejo em nós, mas há também a clara exigência da parte dos jovens de que nós salesianos sejamos testemunhas felizes e radicais de Deus e manifestemos na vida que somos seus pesquisadores.

Nós, portanto, queremos assumir as expressões concretas do primado de Deus: motivações coerentes, profunda vida de oração pessoal e comunitária, escuta cotidiana da Sagrada Escritura, participação fiel da Eucaristia e celebração frequente do Sacramento da Reconciliação, disponibilidade total ao projeto de Deus e atitude constante de discernimento da Sua vontade, experiência comunitária que se enraíza na comunhão trinitária e se expressa no testemunho. Acrescente-se a isso o trabalho incansável expresso pela nossa dedicação à missão e a temperança que reforça a guarda do coração e o domínio de nós mesmos e nos ajuda a manter-nos serenos, aceitando todos os dias, alegremente, as exigências e as renúncias da vida apostólica (Const. 18).

Por outro lado, devemos reconhecer que o nosso desejo profundo de dar a Deus o primeiro lugar e a exigência de espiritualidade da parte dos jovens nem sempre são satisfeitos adequadamente por nós e pelas nossas comunidades; e são muito menos visíveis e críveis. Apesar disso, chamados por Deus a sermos Salesianos de Dom Bosco, queremos com todas as nossas forças imitar Dom Bosco que, “profundamente homem de Deus, cheio dos dons do Espírito Santo, vivia ‘como se visse o invisível’ (Hb 11,27)” (Const. 21).

[2] Deus nos convoca à sequela de Cristo (Const. 50)

“Deus nos chama a viver em comunidade, confiando-nos irmãos que devemos amar. A caridade fraterna, a missão apostólica e a prática dos conselhos evangélicos são os vínculos que plasmam a nossa unidade e consolidam continuamente a nossa comunhão” (Const. 50). Este apelo é percebido pelos Capítulos inspetoriais como grande desafio, muito mais urgente porque nos sentimos influenciados pelo individualismo invasor que considera a autorrealização como o valor supremo, pelo consumismo que acredita encontrar a felicidade na abundância dos bens materiais, pela cultura das mídias que favorece uma mentalidade egocêntrica atenta apenas às necessidades individuais, à exaltação emotiva dos relacionamentos e das ligações sociais, à preferência do efêmero, do imediato e da aparência.

Estes traços salientes da nossa cultura global negam os valores representados pelos conselhos evangélicos da vida consagrada. Para o verdadeiro bem da humanidade e da juventude, resulta mais necessário do que nunca o visível, crível e fecundo testemunho da nossa obediência, pobreza e castidade à imitação da de Cristo. Somos gratos a Deus pelos inúmeros irmãos que trabalham incansavelmente com espírito fraterno e apostólico. Se os anciãos são a memória das nossas comunidades, os irmãos jovens são a sua promessa e nós todos somos o seu presente. Podemos perguntar-nos se os irmãos anciãos e doentes são suficientemente estimados e se os irmãos jovens são suficientemente valorizados, responsabilizados e acompanhados no acolhimento generoso da missão.

Estamos cientes da resistência que sentimos, como pessoas e como comunidades, para responder generosamente ao chamado de Jesus (Mc 10,21). O espírito de renúncia e sacrifício é um ponto fraco da nossa época, o que nos impede de viver autenticamente a radicalidade evangélica, que prometemos publicamente na profissão religiosa. Daí resulta, às vezes, a mediocridade da vida que se dobra numa mentalidade habitudinária, impedindo-nos de elevar-nos a desejos sublimes e generosos, de fazer nossos os pensamentos, sentimentos e ações de Jesus e de sermos, assim, seus discípulos autênticos.

Outro ponto frágil da atual cultura refere-se à temperança. Alguns Capítulos inspetoriais falam da sua ausência, seja em nível pessoal que comunitário. Sendo a temperança parte do lema salesiano, este ponto frágil toca-nos vivamente. Para dizer a verdade, falta uma correta e atual compreensão da temperança. Na Sagrada Escritura, o termo “temperança” é usado para a disciplina que o atleta impõe ao seu corpo (1Cor 9,25), como também ao controle de sexualidade (1Cor 7,9). Temperante é o espírito forte que controlou seus desejos e sua busca de prazer. A temperança é domínio de si, que é fruto do Espírito (Gl 5,22-23). É a virtude pela qual o homem se torna senhor de si mesmo a ponto de estar pronto para ser servo dos outros.

Ao fazer a profissão religiosa, concluímo-la dizendo: “A vossa graça, ó Pai, [...] e os meus irmãos salesianos me assistam todos os dias e me ajudem a ser fiel”. Os Capítulos inspetoriais notam, enfim, com insistência e desagrado a diminuição gradual na Congregação da prática do preceito evangélico da “correção fraterna” (Mt 18,15-17; Lc 17,3). Falam do “respeito humano” da parte de superiores e irmãos, que hesitam em intervir caridosamente em casos de abusos individuais e comunitários de obediência, pobreza e castidade, contratestemunhos que arruínam a beleza e o valor de sinal da nossa vida consagrada para o mundo, para a juventude e para os leigos na Igreja.

[3] Deus nos envia aos jovens (Const. 2)

O primado de Deus permite-nos oferecer ao mundo, ao qual Deus nos envia, um testemunho visível, crível e fecundo. A comunidade salesiana é uma escola de vida e testemunho. Em seu interior há irmãos que trabalham com dedicação nas fronteiras do mundo juvenil. Há grande valor de testemunho da velhice e da doença santificada. Entre nossos irmãos defuntos e vivos, jovens e velhos, existiram e existem exemplos esplêndidos de santidade. Trata-se de uma santidade reconhecida e ordinária, que tem características específicas.

Por outro lado, também devemos reconhecer que com frequência o povo e os jovens não nos veem como “místicos no Espírito”, ou seja, homens de Deus, chamados e consagrados por Ele, mas apenas como simples professores, agentes sociais, administradores e donos de empresa. Nossas motivações profundas enraizadas nos valores do Evangelho nem sempre são percebidas. Nós mesmos temos dificuldade em compartilhar a nossa vida de fé e envolver jovens, leigos corresponsáveis e famílias em itinerários de fé. Manifesta-se uma perda difusa de entusiasmo e de paixão pela vocação e a missão salesiana.

Apesar de tudo, nós Salesianos de Dom Bosco, do profundo do coração, desejamos viver a entrega total à missão de Dom Bosco que dizia: “Prometi a Deus que até meu último alento seria para meus pobres jovens” (Const. 1).

[4] Deus oferece-nos a “graça de unidade” (Const. 21)

Sentimos com sempre maior intensidade o chamado de Deus à conversão e à acolhida da “graça de unidade”, condição essencial para viver autenticamente como testemunhas da radicalidade evangélica. Quando Jesus chamou os primeiros discípulos, deu-lhes esta graça: “subiu a montanha e chamou os doze, para que ficassem com ele e para que os enviasse a anunciar a Boa Nova, com o poder de expulsar os demônios” (Mc 3,13-15). Para nós, chamados por Deus como Salesianos de Dom Bosco, a “graça de unidade” consiste naquele “único movimento de caridade para com Deus e para com os irmãos” (Const. 3) que une em unidade vital fé, esperança e caridade, atividade e oração, trabalho e temperança, contemplação e ação, o “da mihi animas” e o “cetera tolle”, como também os três elementos inseparáveis da nossa consagração apostólica: a prática dos conselhos evangélicos, a comunidade fraterna e a missão apostólica.

Em nossa tradição espiritual a “graça de unidade” tem como base fundamental o estado de habitual “união com Deus”, que foi tão abundantemente concedido ao nosso santo fundador Dom Bosco. As Constituições falam-nos repetidamente desse admirável estado de união, fruto de generosa colaboração com a graça divina em obediência ao preceito evangélico de “rezar sempre” (Lc 18,1; 1Ts 5,17; Rm 12,12).

O salesiano “cultiva a união com Deus, ciente da necessidade de rezar sem interrupção em diálogo simples e cordial com o Cristo vivo e com o Pai que sente perto de si. Atento à presença do Espírito e tudo fazendo por amor de Deus, torna-se, como Dom Bosco, contemplativo na ação” (Const. 12). “A necessidade de Deus, experimentada no trabalho apostólico, leva-o a celebrar a liturgia da vida, até chegar à ‘operosidade incansável, santificada pela oração e pela união com Deus, que deve ser a característica dos filhos de São João Bosco’ (Reg. 1924, art. 291)” (Const. 95). Notamos a necessidade de nos reapropriarmos do espírito de oração contínua, como a oração jaculatória sempre foi definida na tradição, para unificar a oração e o trabalho cotidiano. Isso é tido como urgente em nossa época e na Congregação.

O obstáculo fundamental para viver a “graça de unidade” está no fato de sermos facilmente influenciados pela atual visão secularista e relativista da vida, que leva muitas vezes à perda das motivações de fé, ao ativismo compensatório, à superficialidade espiritual, à falta de assiduidade e rotina na oração pessoal e comunitária, ao abandono do exercício prático da oração contínua, à incapacidade de criar comunhão com Deus e com os irmãos, à tendência ao emburguesamento, ao trabalho sem alma pastoral, à falta de disciplina e temperança, ao uso inadequado e superficial das possibilidades das mídias, e, finalmente, à perda do fascínio por Aquele que um dia descobrimos como o verdadeiro tesouro e a pérola preciosa da nossa vida (Mt 13,44-45).

LEITURA

[5] Deus nos chama e consagra (Const. 3)

À raiz das nossas dificuldades para demonstrar um testemunho eloquente e transparente do evangelho está um insuficiente apreço da graça da vocação, o inestimável dom do chamado de Deus à vida consagrada salesiana. Os tempos atuais exigem da vida consagrada apostólica que ela manifeste a sua identidade, que consiste em saber dilatar todos os dias a radicalidade do Evangelho, ou seja, assumir plenamente a sequela de Jesus (Lc 14,25-27), em diálogo com o nosso tempo (Mt 16,1-4). No momento em que quisermos viver mais claramente o que somos, antes do que fazemos, é essencial recuperar com um ato de fé a base que sustenta a nossa razão de ser na Igreja e no mundo: o primado de Deus que, mediante Cristo e no Espírito, chama a todos à comunhão com Ele.

Entretanto, também existem sinais de esperança em nossas comunidades. A presença construtiva de irmãos anciãos e doentes se deve à sua viva fé e à sua recusa de se considerarem “aposentados da missão”; ao contrário, “oferecendo com fé as limitações e os sofrimentos pelos irmãos e pelos jovens, unem-se à paixão redentora do Senhor e continuam a participar da missão salesiana” (Const. 53). Além disso, o dom de numerosas vocações à vida consagrada salesiana e os jovens irmãos são estímulo para a comunidade; de fato, eles aspiram “a uma vida mais pessoal e mais fraterna” (Const. 103); é deles o desafio de mostrar que “a formação inicial, mais que espera, já é tempo de trabalho e santidade” (Const. 104); “acham-se eles mais perto das novas gerações, são capazes de animação e entusiasmo, e disponíveis a soluções novas” (Const. 46).

Nos últimos cinquenta anos, no processo de renovação da vida consagrada apostólica, a fim de potenciar alguns elementos outros foram deixados de lado em detrimento do primado de Deus. Às vezes, afirmou-se a autorrealização com o enfraquecimento da vida comunitária e das exigências da missão comum; outras vezes, foi promovida uma visão de comunidade dobrada sobre si mesma e formada pela escolha de irmãos com os quais viver em amizade, enfraquecendo a consciência de sermos chamados por Deus a viver em comunidade e receber de Deus irmãos para amar; outras vezes, ainda, a opção muito exclusiva pelos pobres foi levada adiante descuidando a vida sacramental, a oração pessoal e comunitária, o sentido pastoral da ação apostólica e o serviço aberto a todos, embora preferencial aos pobres.

A fim de superar estes contrastes, temos hoje a necessidade de nos motivarmos para assumir pessoal e comunitariamente os meios indispensáveis para manter viva a união com Deus, dia a dia, meios que são pontualmente indicados em nossas Constituições e Regulamentos, meios dos quais precisamos para sermos homens abertos ao Espírito, que oferecem a outros o fruto da sua experiência de Deus. Dom Bosco diz a cada um de nós: “Se me amastes no passado, continuai a amar-me no futuro mediante a observância das nossas Constituições” (MB XVII, 258 e Proêmio às Constituições).

[6] Deus nos convoca para a sequela de Cristo (Const. 50)

As dificuldades que experimentamos ao responder ao chamado de Deus para viver a sequela de Cristo com radicalidade se devem a uma fé frágil na fecundidade dos conselhos evangélicos ao realizar a comunhão em comunidade e a missão pelos jovens. As Constituições assim se expressam sobre isso: Dom Bosco faz notar com frequência quanto a prática sincera dos votos consolida os vínculos do amor fraterno e a coesão na ação apostólica. A profissão dos conselhos ajuda-nos a viver a comunhão com os irmãos da comunidade religiosa, como numa família que se alegra com a presença do Senhor. Os conselhos evangélicos, favorecendo a purificação do coração e a liberdade espiritual, tornam solícita e fecunda nossa caridade pastoral; o salesiano obediente, pobre e casto está pronto para amar e servir àqueles a quem o Senhor o envia, sobretudo aos jovens pobres” (Const. 61). Nota-se, porém, uma vida de comunidade sem relacionamentos fraternos, que põe em risco a nossa obediência, pobreza e castidade e nos leva a buscar compensações no sucesso pessoal, nas comodidades e farturas, e nas “atitudes e comportamentos perigosos e ambíguos” (Reg. 68) em relação aos nossos “relacionamentos com as pessoas e nas nossas amizades”.

A prática dos conselhos evangélicos é um dom inestimável ao qual corresponde a inevitável responsabilidade da resposta. A dificuldade da nossa resposta vocacional deve ser referida também à pouca afeição pelo dom recebido. Essa afeição também é um dom ao qual precisamos abrir-nos com fé: “Nem todos entendem esta palavra, mas somente aqueles aos quais foi concedido” (Mt 19,11). A exemplo de Jesus e de Dom Bosco, a obediência, a pobreza e a castidade são pérolas preciosas a amar apaixonadamente. O amor à obediência coincide com o nosso amor por Deus, porque se torna a vontade de quem se ama: “A verdadeira obediência é a síntese de todas as virtudes” (Dom Bosco, “Aos sócios salesianos”, Introdução às Constituições, p. 245). “A pobreza é preciso tê-la no coração para praticá-la” (Dom Bosco, citado pelo CG26, 87). “A virtude sumamente necessária, virtude grande, virtude angélica, a que servem de coro todas as outras é a virtude da castidade” (Dom Bosco, “Aos sócios salesianos”, Introdução às Constituições, p. 250). Talvez não tenhamos meditado suficientemente o “sonho dos diamantes” no qual Dom Bosco reaviva o nosso amor pela abundância de dons que Deus nos ofereceu chamando-nos à vida consagra salesiana.

Outra razão dos problemas relacionados com a sequela de Cristo é individuada pelos Capítulos inspetoriais na relutância natural de entrar pela “porta estreita” e a caminhar pela “estrada larga” (Mt 7,13) que leva à vida e à vida “em abundância” (Jo 10,10). A porta estreita e a estrada larga são símbolos justamente da “radicalidade evangélica” expressa por Jesus como pré-condição do Seu seguimento d’Ele (Lc 14,27.33), que soube “despojar-se a si mesmo” (Fl 2,7). A vida salesiana de comunidade entende amparar cada irmão neste esforço de radicalidade com a direção espiritual comunitária e individual do diretor, com a recíproca correção fraterna e com a mútua edificação. O testemunho de vidas vividas na fidelidade e na alegria por irmãos em nossas comunidades são o fruto maduro da direção espiritual. Nelas tocamos com as mãos a fé no mistério pascal, ou seja, que em Cristo a vida abundante deriva do saber morrer a si mesmo. É a experiência do apóstolo Paulo: “Fui crucificado com Cristo, e não sou eu mais quem vive, mas é Cristo vive em mim. E esta vida, que eu vivo no corpo, eu a vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,19-20). É essa também a fonte da entrega incondicional à missão educativo-pastoral que nos foi confiada pela Igreja e a Congregação: “O amor de Cristo nos impele” (2Cor 5,14).

A causa última das nossas dificuldades é a fragilidade da formação. Com muita frequência, limitamos a compreensão da formação às suas fases iniciais, em vez de ver a formação como um desafio permanente da nossa vida, até o momento supremo da morte. A preocupação com a formação tanto inicial como permanente é condição essencial para viver em plenitude a sequela de Cristo. A formação ajuda-nos a purificar as motivações, habituando-nos a viver com reta intenção; faz-nos crescer em maturidade afetiva, curando eventuais feridas psicológicas sofridas nas experiências passadas; educa-nos ao trabalho e à temperança com um empenho apostólico disciplinado e desinteressado que sabe desenhar os necessários limites nos relacionamentos interpessoais; exercita-nos num estilo de vida sóbrio que não recusa o cansaço do trabalho manual e dos humildes serviços em comunidade.

[7] Deus nos envia aos jovens (Const. 2)

Os irmãos totalmente dedicados à missão são capazes de grande generosidade porque são sustentados pela intensa vida de oração pessoal e comunitária e por sólidos relacionamentos fraternos. Eles servem-nos de exemplo no assumir na vida e no trabalho os apelos positivos da cultura de hoje: os convites à coerência, à vitalidade, à liberdade, à busca de sentido e de plenitude, ao desejo de relacionamentos profundos e autênticos etc.

À raiz de tantas dificuldades de vida e trabalho está o fato de que, enviados por Deus ao mundo, às vezes, nos deixamos influenciar, mais do que pela Palavra de Deus e pela nossa Regra, pelos aspectos negativos da cultura, isto é, pelo secularismo, relativismo, pragmatismo, materialismo, individualismo, prometeísmo, burguesismo, consumismo, hedonismo... Consequentemente, tornamo-nos vítimas da fragmentação, da dispersão, da competição, da sensualidade, da supressão de vínculos, da superficialidade, da busca obsessiva das comodidades e assim por diante. Permanecemos, muitas vezes, numa situação de mediocridade apostólica, cujas manifestações são a falta de compromisso, o cansaço e a ausência de entusiasmo; nessas condições não somos mais capazes de atrair os jovens e oferecer-lhes ideais e horizontes vitais.

Então, na verdade, não conseguimos “estar no mundo sem ser do mundo” (cf. Jo 17,10.14-15.18). Nós, chamados a ser “sal da terra”, corremos o risco de perder o sabor e, então, “se o sal perde o sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada, senão para ser jogado fora e pisado pelas pessoas” (Mt 5,13; Lc 14,34-35). Urge, portanto, superar essa mediocridade. Seremos bom sal da terra se, com Dom Bosco, cada um de nós puder dizer aos jovens: “Por vós estudo, por vós trabalho, por vós eu vivo, por vós estou disposto até a dar a vida” (Const. 14).

[8] Deus nos oferece a “graça de unidade”

Em meio a essas dificuldades, Deus nos vem em socorro oferecendo-nos a “graça de unidade”. Os irmãos que receberam ou recebem esta graça e, por isso, “viveram ou vivem em plenitude o projeto evangélico das Constituições são para nós estímulo e ajuda no caminho da santificação. O testemunho desta santidade, que se realiza na missão salesiana, revela o valor único das bem-aventuranças e é o dom mais precioso que podemos oferecer aos jovens” (Const. 25). A santidade é fruto da “graça de unidade”; o conhecimento das figuras de santidade da Família Salesiana estimula-nos a ser santos; trata-se de uma santidade que tem muitas facetas, determinadas pelos dons do Espírito e pelas situações históricas.

Obstáculo à recepção dessa graça é a falta de uma verdadeira direção espiritual salesiana. De acordo com os Capítulos inspetoriais, falta frequentemente aos nossos diretores uma profunda consciência de serem guias espirituais das comunidades, propostas também a cada irmão. A crise do boa-noite cotidiano e do colóquio frequente com o diretor é um indício do que está acontecendo. Consequentemente, nossas comunidades não oferecem uma atmosfera que favoreça o crescimento dos irmãos como “místicos no Espírito”.

Outra causa é constituída pela leitura superficial, senão até mesmo errada, do dito de Dom Bosco “Trabalho! Trabalho! Trabalho!” Acredita-se, com essa interpretação, que se possa justificar o frágil testemunho do sermos “místicos no Espírito”: falta de assiduidade à oração comunitária, desequilíbrio nas atividades como se elas equivalessem à missão, permissão para que o trabalho pastoral irrompa indevidamente em nossa comunidade em oração, desagregando-a, não saber fazer tesouro das ocasiões de rezar com o povo e com os jovens, não saber fazer com que o trabalho se torne ajuda e não obstáculo à nossa santificação.

Uma terceira causa individuada pelos Capítulos inspetoriais é dada por certa crise de identidade da vida consagrada apostólica, insinuante em nossas comunidades compostas por presbíteros e leigos. Há salesianos presbíteros cujo ministério pastoral e salesianos leigos cujo trabalho profissional obscurecem indevidamente o ser consagrado. Os salesianos presbíteros e os salesianos leigos precisam ser visíveis, críveis e vocacionalmente fecundos, testemunhas da própria identidade de consagrados entregues ao ministério educativo-pastoral.

Um último obstáculo consiste na busca de comodidades e farturas que rompe o nosso testemunho de vida. Os conselhos evangélicos da vida consagrada devem ser vividos em unidade. A falta de testemunho de um voto obscurece também o testemunho dos outros votos. A infidelidade à pobreza evangélica esfria o fervor da oração, desagrega a fraternidade comunitária, reduz a paixão apostólica. Se não nos convertermos à “graça de unidade”, corremos o risco de viver uma vida de falsidades, que recusa o esforço da formação permanente, que não sente a atração da insondável beleza da vocação que nos foi dada por Deus, que vive o próprio trabalho não como missão, mas como lugar de autorrealização individual.

Para receber hoje o dom da “graça de unidade” e viver a união com Deus, com a abundância que caracterizou os inícios da Sociedade Salesiana, o profundo desejo de Deus que sentimos deve levar-nos a responder com uma conversão autêntica da mente e do coração e uma profunda purificação. Somos, de fato, facilmente poluídos pelos aspectos menos positivos da cultura da nossa época, em particular do burguesismo e consumismo aos quais acenamos há pouco. O artigo 18 das Constituições faz-nos recordar duas palavras de Dom Bosco muito pertinentes a respeito: a primeira palavra diz: “O trabalho e a temperança farão florescer a Congregação” (MB XII, 466); a segunda é uma palavra do seu testamento espiritual que nos admoesta: “Quando começarem entre nós comodidades ou fartura, nossa pia sociedade terá terminado sua carreira” (MB XVII, 272).

ITINERÁRIO

HORIZONTE

[9] Viver numa contínua conversão spiritual, que nos ajude a acolher e testemunhar a “graça de unidade” da nossa consagração apostólica. 

PASSOS A DAR

O Irmão

[10] Acolhe o dom da conversão contínua através da graça de unidade e a radicalidade evangélica, entregando-se ao projeto pessoal de vida (Reg. 99). Nele faz seus os empenhos do projeto comunitário, discerne no Espírito a vontade de Deus no cotidiano, concretiza a aspiração de “uma medida elevada de vida cristã ordinária” segundo o espírito das bem-aventuranças, exprime o esforço de viver o lema “trabalho e temperança”, estabelece os meios para lutar contra a superficialidade espiritual, a mediocridade e a rotina. Formula o projeto de vida através de uma reflexão adequada e em diálogo com o orientador espiritual.

[11] Constrói a comunidade com os irmãos, com sua presença na oração comunitária. Empenha-se na participação fiel cotidiana, em comunidade, da Eucaristia e da Liturgia das Horas, da Meditação e da leitura espiritual.

[12] Cultiva a oração pessoal: exprime o seu amor a Jesus Eucaristia com visitas frequentes (Const. 88); com a récita cotidiana do Rosário demonstra sua filial devoção a Maria e, à sua imitação, exercita-se na contemplação orante (Const. 87); celebra com frequência o Sacramento da Reconciliação com um confessor regular e a ele se prepara com o exame cotidiano de consciência.

[13] Exercita-se no “rezar sempre, sem jamais desistir” (Lc 18.1) com a “oração sem interrupção em diálogo simples e cordial com o Cristo vivo e com o Pai que sente perto de si” (cf. Const. 12 e 95), oração contínua que, na tradição espiritual, é chamada oração jaculatória e que culmina na união com Deus. Especialmente, medita e reza ao longo do dia a liturgia cotidiana da Palavra no espírito da Lectio divina, entendida como um modo de viver totalmente iluminado pela Palavra de Deus.

[14] Assume o compromisso do acompanhamento espiritual, determinando a frequência do colóquio com o diretor e com o orientador espiritual, buscando juntos a vontade de Deus na experiência pessoal, nas circunstâncias e nos sinais dos tempos.

[15] Cultiva o hábito da “leitura e do estudo das ciências necessárias à missão” (Reg. 99). Como caminho para a formação de uma consciência mística, empenha-se no aprofundamento dos escritos espirituais de S. João Bosco e de S. Francisco de Sales por ocasião de seus eminentes centenários. Contribui para criar uma atmosfera comunitária de recolhimento, reflexão e estudo, e enriquece a comunicação entre os irmãos com a partilha de experiências espirituais e pastorais.

A Comunidade

[16] Elabora anualmente o projeto de vida comunitária, com a condução competente e eficaz do diretor qual orientador espiritual da comunidade; tem presentes os vários aspectos da vocação consagrada a viver segundo a “graça de unidade”: primado de Deus, sequela de Cristo, vida fraterna e ação apostólica; cria especialmente um ambiente favorável ao contínuo crescimento espiritual dos irmãos e torna-se o primeiro e mais importante lugar de formação permanente.

[17] Programa o horário da liturgia, ou seja, a Eucaristia e a Liturgia das Horas, e da oração comunitária, ou seja, a meditação e a leitura espiritual, de modo que seja conveniente para todos os irmãos participarem regularmente.

[18] Estuda o modo de garantir “o clima de recolhimento e de oração” (Reg. 43), como disciplina pessoal e comunitária e ajuda a formar o hábito da oração pessoal, da leitura, do estudo e da reflexão.

[19] Determina as práticas ascéticas comuns como a “penitência comunitária” da sexta-feira, a “prática comunitária de mortificação” da quaresma (Reg. 73), a “via crucis” e a “via lucis” etc. como sinais visíveis da nossa vontade pascal de conversão, de temperança e de participação com os jovens.

[20] Garante a revisão comunitária periódica sobre como dar testemunho visível, crível e fecundo dos conselhos evangélicos; retoma a prática da correção fraterna (Const. 90); favorece a cultura de como habitar o mundo digital; confronta-se sobre o uso moderado das viagens e dos meios de transporte.

[21] Acolhe os encorajamentos oportunos e as intervenções caridosas do diretor para prevenir ou corrigir eventuais desvios; também dessa forma, o diretor torna-se orientador espiritual autorizado da comunidade.

[22] Como apoio à leitura, ao estudo e à reflexão pessoais, faz que a biblioteca seja dotada de obras clássicas e atuais de espiritualidade, particularmente de S. Francisco de Sales e de S. João Bosco, tanto em forma digital como impressa.

A Inspetoria

[23] Verifica o testemunho de pobreza religiosa de todas as comunidades, dando atenção ao estilo de vida, às estruturas comunitárias, à utilização dos meios de transporte e às viagens, a começar da sede inspetorial.

[24] Atualiza o projeto inspetorial para a formação a fim de ajudar os irmãos a esclarecerem motivações, reforçarem convicções pessoais, integrarem a vida de fé com a vida de comunidade e o trabalho apostólico, garantirem as competências necessárias para a direção espiritual e o trabalho educativo-pastoral, viverem intensamente os exercícios espirituais anuais e outros encontros inspetoriais para criar uma cultura inspetorial de “medida elevada” que estimule a todos a viverem a “graça de unidade”.

[25] Avalia e garante a consistência qualitativa e quantitativa das comunidades locais, de modo que os irmãos não vivam sobrecarregados de trabalho e não sejam, por isso, tentados a abandonar os momentos de oração e a vida fraterna; prepara sobre isso uma programação de intervenções que torne esta orientação eficaz.

[26] Escolhe, nomeia e forma diretores capazes de orientar a comunidade local com o justo equilíbrio de oração e trabalho, em ritmo constante de caminhada de Deus ao mundo e de retorno do mundo a Deus, para a salvação dos jovens, de modo que o irmão nunca esteja afastado de Deus quando está com os jovens e nunca afastado dos jovens quando está com Deus.

[27] Oferece aos irmãos e às comunidades encorajamentos oportunos e firmes, e intervenções caridosas do Inspetor para prevenir, corrigir e encorajar; ao mesmo tempo, oferece ocasião e estímulos para a formação permanente.

PROFETAS DA FRATERNIDADE

Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros.

Como eu vos amei, assim também, amai-vos uns aos outros.

Nisto todos saberão que sois meus discípulos:

se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35)

ESCUTA

[28] Comunidade reflexo da Trindade (Const. 49)

Na comunidade salesiana, nós nos sentimos convocados pelo Pai para sermos discípulos de Cristo com os irmãos pela missão de salvação dos jovens. Percebemos as ligações que nos unem uns aos outros como reflexo da infinita comunhão de amor que une entre si o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Em união com o Pai de Jesus no Espírito, somos chamados a produzir frutos abundantes, como diz Jesus: “Eu sou a videira e vós, os ramos. Aquele que permanecer em mim, como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim, nada podeis fazer... Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos designei para dardes fruto e para que o vosso fruto permaneça” (Jo 15,5.16).

Apesar dos nossos limites de incompreensão recíproca, dos fechamentos em nós mesmos e em nossas fragilidades, das quais estamos bem cientes, sentimo-nos sustentados pelo amor e permeados pela graça derramada pelo Espírito de Cristo em nossos corações. O Corpo e o Sangue de Jesus com que nos nutrimos todos os dias fazem de nós “um só coração e uma só alma” (Const. 50), impelidos pela caridade de Cristo a nos prodigalizarmos pela salvação dos jovens nos passos de Dom Bosco.

[29] Sede de relacionamento e de comunicação (Const. 51)

O chamado a viver a fraternidade satisfaz uma das necessidades mais vitais que experimentamos: na fraternidade “encontramos uma resposta às aspirações profundas do coração e nos tornamos sinais de amor e unidade para os jovens” (Const. 49). Percebemos na maior parte dos irmãos uma sede de relacionamentos interpessoais profundos, que superam as ligações funcionais.

Os Capítulos inspetoriais constatam um crescimento na fraternidade; ao mesmo tempo, percebem que ainda falta muito para satisfazer a sede de relacionamento e comunicação. Para além da diversidade das culturas e gerações, há uma grande convergência no fato de desejarmos relacionamentos que reconheçam a nossa dignidade de pessoas, que integrem as nossas diferenças, valorizem os nossos dotes e riquezas. Escutar este desejo profundo ajuda-nos a criar comunhão para além da diversidade, ou melhor, através dela. Além disso, esta sede de fraternidade, relacionamento e comunicação está também muito presente nos jovens; nela encontramos um ótimo ponto de contato com eles.

Não obstante esse desejo de relacionamentos, encontramos em nós atitudes contrárias à fraternidade: o individualismo, a pressa que não deixa tempo para o encontro, a falta de gratuidade para com a comunidade, os preconceitos, a recusa do diverso, o isolamento, a incapacidade de superar os conflitos, a fadiga do perdão recíproco; alguns irmãos também experimentam na comunidade mal-estar e solidão. A percepção, muitas vezes expressa, do tempo comunitário como tempo “roubado” à missão, o descuido dos ambientes e dos momentos comunitários, a pobreza dos relacionamentos fraternos e da partilha, enfraquecem a força da fraternidade fazendo com que nos fechemos em nós mesmos.

A dimensão afetiva do irmão resulta escassamente cuidada tanto na formação inicial como na formação permanente. Há carência de educação à interioridade e ao equilíbrio emocional, pela falta de itinerários formativos adequados e de formadores preparados. A nossa comunicação torna-se então fria e desinteressada. Tudo isso reflete nas atitudes educativas que assumimos e no trabalho pastoral que realizamos, particularmente em relação à educação dos jovens ao amor, à preocupação com os casais de namorados, à atenção à vida matrimonial e às famílias.

O ambiente digital e a rede constituem uma experiência de vida; fazem parte integrante da vida pessoal e social e do modo de viver hoje. O mundo digital não é paralelo, mas parte da realidade cotidiana; é uma realidade que tem um forte impacto em nosso modo de sentir, pensar, viver e relacionar. Por isso, fala-se de relacionamentos físicos e de relacionamentos digitais, e não mais virtuais. A rede influi principalmente no modo de buscar a Deus, na vida da comunidade, nas modalidades de testemunho e evangelização. É preciso formar-se para a maturidade e a transparência dos relacionamentos criados através da rede.

Os relacionamentos formais entre nós opõem-se ao desejo que sentimos de uma comunicação mais profunda. O papel do diretor tem grande importância na superação dos relacionamentos funcionais e burocráticos, se ele não for apenas um “organizador”. Se ele se dedica escassamente à construção dos relacionamentos fraternos, a comunidade esfria. As dificuldades da vida fraterna em comum tornam-se então um desafio. Temos propostas claras na Palavra de Deus, nas Constituições e Regulamentos, nos Capítulos gerais e nas diversas intervenções do magistério salesiano, mas nem sempre assimilamos ou colocamos em prática todos os meios e expressões de comunhão, aos quais somos chamados.

[30] Testemunho de fraternidade (Const. 52)

Tornamos visível a comunhão de vida em comunidade quando vivemos as exigências do espírito de família desejado por Dom Bosco (Const. 16 e 51). A comunhão exige de nós partilha de fé e de projeto de vida, além de um estilo de relacionamento marcado pela escuta. Ela nos pede para vivemos próximos do irmão, preocupar-nos com suas necessidades, ajudá-lo a viver fielmente a vocação, compartilhar as suas preocupações e aspirações, sacrificar-se por ele, participar responsavelmente do projeto comunitário, abrir-se à correção fraterna, combater em si o que encontra de anticomunitário. Só assim, a fraternidade salesiana é atraente, despertando nos jovens e nos leigos atitudes de autêntico amor evangélico, estimulando a viver um estilo de relacionamentos entre pessoas alternativo ao da sociedade atual. “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, assim também, amai-vos uns aos outros. Nisto todos saberão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34-35).

Sem o esforço de conviver em comunidade, vida do salesiano e o fruto do trabalho pastoral enfraquecem, porque a mensagem oferecida não é crível. A vida comum em fraternidade é conteúdo irrenunciável da missão da comunidade.

A comunidade salesiana está aberta à Igreja e aos valores do mundo em que realiza a sua ação apostólica e é solidária com o grupo em que vive; e assim se torna sinal revelador de Cristo e fermento de vocações (Const. 57). A comunhão de vida em comunidade, vivida com coerência e paixão, alegria e otimismo, torna-se profecia para a sociedade atual, para os leigos coenvolvidos na ação educativo-pastoral e para os jovens que encontramos, e que nos podem ver como “sinais de amor e unidade” (Const. 49). O testemunho da fraternidade torna-se evidente, sobretudo, quando se reúnem irmãos com diversidade de condição, idade, formação, origem social, cultura, nacionalidade, mentalidade e qualificação, compartilhando o mesmo projeto de vida e ação.

Entre essas diversidades de condição há a multiplicidade de culturas, que é um fenômeno presente em numerosos contextos e não só ocidentais, devido à migração dos povos ou da presença de diversos grupos étnicos num mesmo lugar. A situação multicultural e multiétnica está presente em muitas de nossas comunidades, o que trouxe novas vocações e exigiu de nós novas modalidades de vida comunitária e de ação pastoral. Estamos cientes de que a multiplicidade de culturas é um desafio e também uma riqueza a assumir e transformar em integração de culturas; encontramos no Evangelho o que nos ajuda a construir a unidade nas diferenças.

Como queria Dom Bosco, é preciso reforçar na renovação profunda da fraternidade salesiana o serviço de animação e governo do diretor, como orientador espiritual, fraternal e pastoral. A complexidade das obras e a diversidade das funções a ele confiadas impedem a preocupação com a fraternidade e a corresponsabilidade no projeto de vida comunitária e no projeto educativo-pastoral (Cf. CG21, 46-57, CG25, 63-65; ACG 413, 36).

[31] Comunidade centro de comunhão (Const. 57)

A comunhão fraterna que vivemos e a missão que nos é confiada levam-nos, como Dom Bosco, a envolver uma rede de pessoas em comunhão de espírito e de fraternidade e com dedicação à mesma missão. O círculo de pessoas envolvidas conosco na comunhão e missão inclui os leigos que, em Dom Bosco, veem um ponto de referência e convergência e compartilham conosco responsabilidades e trabalhos; com eles formamos o núcleo animador da comunidade educativo-pastoral para animar, orientar e realizar a missão, com os jovens e as famílias. Com os grupos que se inspiram em Dom Bosco de variadas maneiras, formamos uma verdadeira família, a Família Salesiana, animados pelo mesmo carisma, unidos pela mesma vocação e permeados pelo mesmo ideal de serviço aos jovens.

Reconhecemos que, enquanto cresceu nestes anos a consciência de ser Família Salesiana e a convicção da importância da comunidade educativo-pastoral, ainda falta colocar em prática a participação plena do espírito e da missão com os leigos (CG24). Às vezes, nos entrincheiramos em posições patronais; ainda não há uma verdadeira participação de papéis e corresponsabilidade no trabalho; ainda prevalece o hábito de utilizar os serviços dos colaboradores sem valorizar as suas competências específicas ou confiar-lhes responsabilidades. Acrescenta-se a isso, muitas vezes, os preconceitos sobre a colaboração com os leigos; dessa forma, empobrece-se o sentido de família e o espírito de comunhão.

A começar da comunidade, essa comunhão estende-se em círculos concêntricos à comunidade educativo-pastoral e à Família Salesiana, e alarga-se também à Igreja local e ao território. Notamos a propósito que precisamos crescer muito mais no sentido de pertença à Igreja local e no reforço das ligações no interior do território. Percebemos, muitas vezes, que vivemos fechados em nossas obras e não conseguimos ir além; precisamos ampliar estes níveis de comunhão, para sermos verdadeira profecia de fraternidade.

LEITURA

[32] Comunidade reflexo da Trindade (Const. 49)

O nosso estilo salesiano de fraternidade caracteriza-se por relacionamentos simples, familiares e próximos. Por isso, muitos nos veem como pessoas que sabem dar um testemunho de comunhão visível e legível. Quando as comunidades sabem criar espaços de diálogo, vivem em atitude de discernimento comunitário e reforçam seus relacionamentos no reconhecimento da própria vocação, tornam-se reflexo da comunhão trinitária.

A carga educativo-pastoral da nossa proposta tem necessidade do ambiente como condição essencial para atuar o Sistema Preventivo. Constatamos em muitas de nossas obras que esse ambiente é cultivado com atenção. Por isso, constata-se também o apreço geral que a nossa proposta recolhe entre o povo. À base disso está a experiência espiritual e as motivações profundas vividas por muitos irmãos.

Os obstáculos à comunhão fraterna provêm com frequência do esquecimento das origens profundas da nossa fraternidade, que estão no amor trinitário, e da visão parcial da fraternidade. Às vezes, deixamo-nos contagiar pela cultura secularizada que privilegia o individualismo e os interesses pessoais em detrimento da solidariedade, favorecendo a privacidade e o fechamento em si, mais do que a transparência, facilitando a superficialidade dos relacionamentos em vez de ligações profundas e duradouras. Por vezes, a Eucaristia não é vista e vivida como fonte e apoio da comunhão e muito facilmente se abandona a oração comunitária que constrói e reforça a fraternidade.

Notamos na escuta às inspetorias, que a falta de comunidade, isto é, de vida fraterna em comum, é um grande desafio. As dificuldades que encontramos sobre isso se devem fundamentalmente ao fato de, na prática, tendermos a não crer que “viver e trabalhar juntos é para nós salesianos exigência fundamental e caminho seguro para realizarmos a nossa vocação” (Const. 49). Com a fé, é preciso alimentar em nós um genuíno sentido de pertença recíproca como irmãos convocados por Deus em comunidade.

[33] Sede de relacionamento e de comunicação (Const. 51)

Temos grande desejo de superar os relacionamentos funcionais entre nós, aprofundar as nossas ligações, comunicar em profundidade a nossa experiência de vida. A intensa identificação com Dom Bosco e a tradição salesiana ajuda-nos a criar comunhão. O sentido de família (Const. 51), o ambiente construído sobre relacionamentos recíprocos de confiança e afeto (Const. 16), a relação educativa baseada na simpatia e na vontade de contato com os jovens (Const. 39), a espiritualidade da bondade e da proximidade (Const. 20), o “estar” entre os jovens são elementos-chave do nosso patrimônio carismático, que respondem ao grande desejo de comunhão e de relacionamentos intensos.

Algumas das causas que nos impedem de assumir a profecia da fraternidade podem ser identificadas na incapacidade de ver os problemas comunitários como ocasiões de crescer juntos, em vez de razões de fechamento e desinteresse; na falta de clareza na definição dos diversos papéis de ação, que leva a interferências, competições e sobreposições; na natureza prevalentemente administrativa, superficial e habitudinária de muitas reuniões comunitárias; na escassa consistência quantitativa e qualitativa das comunidades; na pluralidade das culturas não vista como riqueza para a comunhão; na falta de correção fraterna ao perceber casos de irmãos em dificuldade e, portanto, na renúncia a ser “guarda do meu irmão” (Gn 1,4); na incapacidade de enfrentar os conflitos.

Para satisfazer a sede de relacionamento, não bastam os papéis diferenciados, as tarefas distribuídas e a experiência de uma comunidade que apenas organiza a nossa vida. Sabemos que esta sede não se satisfaz apenas com relacionamentos maduros e cordiais; sentimos necessidade de viver a comunhão bebendo na fonte da vida espiritual que sustenta toda fraternidade. Reconhecemos, ainda, a tendência natural de buscar o próprio interesse antes do interesse dos outros; como também constatamos uma escassa visão de conjunto e do bem comum.

A formação inicial e permanente tem papel crucial na preparação para a vida comunitária. As imaturidades psicológicas e os problemas afetivos destroem a comunidade; por isso, devemos dar mais atenção à dimensão humana, cientes de que a graça se constrói sobre a natureza. Sem uma formação humana sólida, as eventuais feridas não curadas condicionam os relacionamentos interpessoais. Se a formação não é personalizada, as exigências radicais e contraculturais do evangelho de Jesus, como a aceitação incondicional do outro, dar o primeiro passo na reconciliação, o perdão sincero, o não julgar as pessoas, o amor gratuito etc., não são entendidas e absorvidas.

O mundo digital também influencia os nossos relacionamentos. À raiz de uma mentalidade inadequada sobre a rede está a nossa incapacidade de habitar o mundo digital, conhecê-lo em seus aspectos positivos e em seus riscos; o imediatismo da comunicação de ampla extensão oferece numerosas possibilidades, mas, por outro lado, possui limites para criar ligações profundas: “É verdade que se pode entrar em contato com muitíssimas pessoas, em qualquer parte do mundo e ao mesmo tempo; contudo, o uso desses canais não garante a comunhão, porque esta é sempre fruto de uma ligação pessoal, de uma relação real com quem pede acolhida, reconhecimento e respeito da própria individualidade...” (ACG 413, p. 34).

Encontra-se a mesma ambiguidade no mundo da rede social: nele se formam grupos de pessoas com interesses comuns que se comunicam entre si com facilidade e frequência, mas há o risco da adesão que faz perder a alteridade, a tensão, a integração das diferenças. Deve-se reconhecer que os candidatos que chegam à Congregação trazem consigo uma bagagem de conhecimentos, afetos e amizades criados na rede; é preciso ajudá-los a discernir e selecionar os relacionamentos que têm ressonância afetiva, orientando-os para o saudável uso pastoral da rede.

[34] Testemunho de fraternidade (Const. 52)

A fraternidade vivida na comunidade é mais visível, crível e fecunda quando é bem orientada pelo diretor e sustentada pela fidelidade vocacional dos irmãos. Ao contrário, quando há manifestações de individualismo, quando não participamos da elaboração, atuação e avaliação do projeto comunitário fracassamos no testemunho da fraternidade. Os Capítulos inspetoriais esclarecem que a autossuficiência, o egoísmo, as relações apenas funcionais, a gestão personalista das responsabilidades, a ausência nos encontros em comunidade, a falta de qualidade na elaboração e avaliação do projeto comunitário, a incapacidade de gerir conflitos, as feridas pessoais não curadas, além de arruinar o espírito de família fazem perder visibilidade, credibilidade e fecundidade ao nosso testemunho de vida.

À raiz desses limites está a cultura atual que projeta a ideia do homem autônomo, autossuficiente e poderoso, ignorando os limites e fragilidades reais de toda pessoa. A gratuidade nos relacionamentos e na preocupação com o irmão remedia essa perspectiva e leva à relação adequada entre pessoas. Uma comunidade que se esforça para unir irmãos de diversas culturas, idades e sensibilidades a fim de realizar um projeto comum torna-se testemunha eloquente da fraternidade proclamada pelo Evangelho a todos os homens, e apelo a praticar na sociedade a atitude de acolhida do diverso.

O diretor “no centro da comunidade, irmão entre irmãos, que lhe reconhecem a responsabilidade e autoridade” (Const. 55) realiza um serviço essencial para animar os irmãos na vocação e unir as pessoas e orientar a todos para objetivos educativo-pastorais. De acordo com os Capítulos inspetoriais, o diálogo e o colóquio fraterno são instrumentos importantes a recuperar. Precisamos de diretores que tenham uma compreensão autêntica do próprio papel e não permitam que as funções administrativas prevaleçam sobre o seu dever de animador espiritual, fraterno e apostólico da comunidade.

[35] Comunidade centro de comunhão (Const. 57)

Vemo-nos, muitas vezes, fechados nos velhos esquemas de excessivos protagonismos, organização e centralização, que se refletem também na vida fraterna e na ação apostólica na comunidade educativo-pastoral. Esses esquemas são resíduos da mentalidade da eficiência e da burocracia; ela parece inspirar-se na mentalidade empresarial do mundo das empresas e dos negócios e não no sentido de Igreja como comunhão de amor. Esquecemos que a nossa fraternidade está enraizada na experiência de Igreja e busca sua vitalidade da linfa eucarística como os ramos da única videira que é Cristo. Falta a ótica da fé que vê a comunhão fraterna como a primeira realidade a ser testemunhada em vista da missão, a mais clara profecia diante de um mundo arrasado por divisões lacerantes.

A mentalidade da eficiência não nos permite uma verdadeira participação de papéis e corresponsabilidades no trabalho com os leigos. Não temos confiança nas competências dos leigos coenvolvidos ou temos receio de delegar-lhes responsabilidades de gestão. Falta, frequentemente, em nós a capacidade de trabalhar ombro a ombro com eles com mentalidade de projeto e com sentido de equipe. No fundo, há em nós uma visão deficiente de Igreja como comunhão de pessoas com diversos carismas e papéis a serviço da construção do Reino. Ainda não conseguimos pôr plenamente em prática as orientações do CG24.

Quando existe preocupação com a animação da Família Salesiana, o testemunho é mais forte e significativo. Contudo, descuidamos com frequência do acompanhamento da Família Salesiana porque nos concentramos muito na eficácia do nosso trabalho pastoral. Percebemos que a nossa capacidade de animação é escassa, porque não estamos convencidos da força do testemunho que a Família Salesiana possui.

Igualmente, a nossa pertença à Igreja local, às vezes, deixa a desejar, porque nos focalizamos muito no trabalho interno às obras e nas nossas propostas educativo-pastorais, sem descobrir a riqueza da comunhão em sinergia. O mesmo vale para a nossa relação com o território; parece existir uma mentalidade de autossuficiência; isso leva, talvez sem o percebermos, ao fechamento de nossas presenças.

ITINERÁRIO

HORIZONTE

[36] Testemunhar a conversão fraterna, valorizando os relacionamentos interpessoais e as expressões visíveis de fraternidade.

PASSOS A DAR

O Irmão

[37] Concretiza no projeto pessoal de vida os elementos do nosso patrimônio carismático para a construção da fraternidade; busca os meios para fazer amadurecer a sua capacidade de forjar laços livres e vitais e reconhecer os próprios limites; empenha-se no cuidado da fonte que alimenta a sua fraternidade e cultiva a espiritualidade da comunhão.

[38] Aceita e pratica a correção fraterna e valoriza os escrutínios comunitários para contrastar tudo o que encontra em si contrário à vida comunitária.

[39] Desenvolve as capacidades que o habilitam a ser homem de comunhão: o diálogo, a corresponsabilidade, o trabalho participado, a comunicação sincera, a atenção aos outros etc.

[40] Assume de maneira atualizada os meios que a nossa tradição propõe para construir um verdadeiro espírito de família: o colóquio com o diretor, os encontros comunitários, os serviços domésticos, a comunicação interpessoal, a partilha da própria vida etc.

A Comunidade

[41] Elabora o Projeto comunitário de vida em chave de discernimento da vontade de Deus e visando garantir a identidade comum, a visão comunitária do trabalho apostólico e a atenção à comunhão com os leigos corresponsáveis.

[42] Privilegia o dia da comunidade como ocasião genuína de comunicação profunda e de formação espiritual e pastoral permanente e cuida da dimensão formativa e fraterna dos encontros comunitários regulares.

[43] Cria espaços de convivência, oração e formação com os jovens, os leigos e as famílias da comunidade educativo-pastoral e com a Família Salesiana.

[44] Elabora e examina com os leigos colaboradores o projeto educativo-pastoral, garantindo unidade dos fins a alcançar, convergência de estratégias a atuar e criando uma comunhão mais estreita com todos.

[45] O diretor dá prioridade à sua tarefa principal que é o cuidado dos irmãos e da comunidade em vista de uma missão eficiente; oferece recursos para o acompanhamento pessoal e comunitário; cuida dos momentos formativos da comunidade procurando requalificar os meios da nossa tradição salesiana: o boa-noite, o colóquio fraterno, os ritmos mensais e trimestrais, os escrutínios comunitários, a proximidade com os irmãos, sobretudo os jovens e idosos.

A Inspetoria

[46] Leva adiante, com coragem, o processo de redesenho das suas presenças no território, estudando como dar maior significatividade a algumas, redimensionando outras, abrindo novas segundo as necessidades e as novas fronteiras dos jovens, e empenhando-se a individuar obras a realizar em comum com algum grupo da Família Salesiana.

[47] Preocupa-se com a consistência qualitativa e quantitativa das comunidades; evita fundir as comunidades sem mudar a modalidade de gestão das obras; propõe obras à responsabilidade direta dos leigos com o acompanhamento inspetorial; empenha-se para alcançar a regularidade do número dos irmãos nas presenças de abertura recente.

[48] Cria, sobretudo em contextos multiétnicos e multiculturais, comunidades internacionais que sejam sinais proféticos e escolas de comunhão entre o povo no qual se vive e na Igreja local, favorecendo a acolhida recíproca entre os membros da comunidade, a valorização das diferenças, o reconhecimento dos aspectos culturais, carismáticos e evangélicos comuns, a complementaridade.

[49] Acompanha os diretores com especial cuidado; empenha-se na formação dos irmãos para a liderança desde a fase da formação específica e do quinquênio; propõe itinerários concretos de formação depois da aceitação de responsabilidades; torna-os capazes de favorecer e animar a fraternidade na comunidade, na comunidade educativo-pastoral e na Família Salesiana, na presença no território e na Igreja local.

[50] Garante que na formação, a partir da inicial, os candidatos e os irmãos sejam acompanhados em seu amadurecimento afetivo.

O Reitor-Mor e seu Conselho

[51] Provê a atualização do manual do diretor, dando atenção aos novos alargamentos da vida e das orientações da Congregação, amadurecidos especialmente nos últimos Capítulos gerais.

SERVOS DOS JOVENS

Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.

Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações,

e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado.

Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,19-20)

ESCUTA

[52] União com Deus, fonte da missão (Const. 12)

Estamos cientes de que Deus nos chama ao serviço dos jovens e à sequela de Cristo para, como Dom Bosco, sermos sinais e portadores do Seu amor. Estamos também cientes de que a nossa missão é participação na missão de Deus, que envia o Filho Jesus redentor e o Espírito santificador e, portanto, é inserção na missão da Igreja realizada por mandato do Senhor ressuscitado e animada pelo Espírito. Jesus recorda-nos que o nosso trabalho é feito na esteira da sua obra e da do Pai: “Como o Pai trabalha sempre, também eu trabalho” (Jo 5,17). Por isso, para nós “a ciência mais eminente é [...] conhecer Jesus Cristo; e a alegria mais profunda, revelar a todos as insondáveis riquezas do seu mistério” (Const. 34).

Recebemos através de Dom Bosco o dom da predileção pelos jovens: “Por vós estudo, por vós trabalho por vós eu vivo, por vós estou disposto até a dar a vida” (Const. 14). Esta predileção exprime-se no trabalho pastoral que é o caminho da nossa santificação. Viver a radicalidade evangélica torna-nos disponíveis à missão juvenil. A paixão de Dom Bosco pela salvação dos jovens é realizada no Sistema Preventivo, que inspira o nosso modo de vivermos a missão. Ajuda-nos nisso um estilo de vida baseado no sentido de sacrifício, no dom de nós mesmos e na temperança, que fortificam o trabalho pastoral realizado cotidianamente.

Percebemos em nossa vida que a paixão apostólica e a caridade pastoral são proporcionais à profundidade espiritual pessoal e comunitária; experimentamos que a medida da nossa radicalidade e a fonte da nossa fecundidade são determinadas pelo zelo apostólico; estamos convencidos de que a paixão apostólica e a caridade pastoral não têm idade. Há, portanto, uma estreita ligação entre ação pastoral e vida espiritual.

Reconhecemos o cansaço que nos vêm da perda do sentido da presença de Deus e do secularismo; essas situações enfraquecem antes de tudo a nossa identidade, transformando também o excesso de trabalho em ação frenética sem perspectiva apostólica e carismática. Bem sabemos que o arrefecimento da união com Deus leva à pobreza da reflexão pastoral, à falta de criatividade no anúncio do Evangelho, ao enfraquecimento da presença entre os jovens. A fonte da nossa fecundidade e a eficácia no trabalho apostólico vem-nos da vivência da graça de unidade e da união com Deus.

[53] Comunidade sujeito da missão (Const. 44)

Por vocação e por missão carismática, nós salesianos trabalhamos em comunidade, em que todos os irmãos dão a própria contribuição à ação pastoral comum. A comunidade abre-se ao envolvimento dos leigos, ao protagonismo dos jovens, à colaboração com as famílias, ciente de que a missão é compartilhada com toda a comunidade educativo-pastoral. O serviço aos jovens também é dom carismático para toda a Família Salesiana; cabe a nós salesianos a responsabilidade de manter vivo esse dom, solicitar atenção para ele, favorecer a qualificação. A comunidade salesiana é o sujeito do envolvimento na missão, deixando-se ajudar por todos e caminhando no espírito da comunhão; às vezes, porém, os leigos ainda são vistos mais como executores ou colaboradores do que corresponsáveis.

Sabemos que é uma dificuldade comum trabalhar em equipe no interior das comunidades; elas, por vezes, vivem tensões pastorais devido à dialética entre a escuta do mundo com seus desafios e as formas pastorais da comunidade, muitas vezes ultrapassadas e desligadas da realidade. Outras vezes, são as relações entre gerações no interior das comunidades que criam situações de conflito. Estamos convencidos, porém, que a dimensão comunitária da missão é crucial para a eficácia educativa, evangelizadora e vocacional da nossa ação.

Pagamos por não fazermos o esforço suficiente na formação e atualização segundo as orientações pastorais da Congregação. Há resistências para fazer nossas obras evoluírem, para mantê-las vivas em função das cobranças que nos vêm dos jovens; às vezes, vivemos mais preocupados com a conservação e perpetuação das obras. Neste campo, o diretor, que tem a missão específica de animar o discernimento pastoral, motivar para a missão, envolver a todos na ação apostólica, corre o risco de ver-se em dificuldade diante de mentalidades pastorais diversas.

[54] Presença entre os jovens (Const. 39)

Reconhecemos que a presença entre os jovens é o lugar do nosso encontro com Deus e da possibilidade de manifestar-lhe a Sua proximidade. Na tradição salesiana, a presença entre os jovens é chamada “assistência”; sente-se a necessidade de aprofundar a plenitude do seu significado e iniciar os jovens irmãos e leigos nesta prática. Trata-se de uma presença de proximidade, que anima e acompanha, com o esforço de aproximar-se sempre mais dos jovens e manifestar a nossa proximidade. Sentimo-nos interlocutores dos jovens, aprendemos de suas exigências e, graças a elas, somos estimulados a nos renovarmos.

A presença entre os jovens nos questiona a dar atenção ao futuro e, portanto, a ler os “sinais dos tempos”. O discernimento pastoral torna-se leitura intensa e positiva da realidade social e juvenil; torna-se capacidade de questionar-se em relação aos desejos de justiça do mundo, às esperanças de vida do povo, às necessidades de espiritualidade que a nossa época coloca diante de nós; ao mesmo tempo, abre-nos à verdade das tragédias, dos desesperos, dos cansaços, das incompreensões e injustiças criadas pelo nosso mundo e que as gerações juvenis padecem, acabando por fazer-se roubar o futuro. A atenção aos sinais dos tempos nos impele e provoca para uma missão ainda mais viva, verdadeira, próxima da juventude, na escola de Dom Bosco. Reconhecemos as atitudes positivas dos jovens diante da nossa missão e apreciamos o testemunho dos nossos irmãos idosos e doentes que continuam a viver a missão juvenil embora de modo diferente, do que somos reconhecidos a Deus.

Estamos cientes de que isso nem sempre acontece e reconhecemos as “distâncias culturais” antes de geracionais, sabendo que são um freio para a ação pastoral e a nossa presença entre os próprios jovens. Estas distâncias provocam efeitos concretos: a extinção do zelo, a falta de aceitação e proximidade do mundo juvenil, o distanciamento dele por ignorância, temor e incompreensão; a falta de criatividade e de paixão na organização pastoral; a rigidez e os fechamentos em nossas seguranças. Quando isso acontece, os jovens deixam de ser a nossa principal preocupação.

Os Capítulos inspetoriais sublinham a dificuldade de chegar aonde os jovens vivem: diversos irmãos manifestam formas de temores diante deles, senso de inadequação ou até mesmo recusa de estar com eles; poucos salesianos trabalham diretamente entre os jovens, preferindo “esconder-se” nos papéis e cargos de gestão; nota-se preponderância para o trabalho em obras institucionais; ainda são poucas as obras para os jovens carentes e as formas de audácia pastoral para novas fronteiras. Faltam propostas concretas de espiritualidade e itinerários adequados de fé. Vivemos, às vezes, descompassados em itinerários sociais e educativos, prevalecendo a educação sobre a evangelização. Nem sempre somos capazes de captar o envolvimento dos jovens com a sua positividade. Todos os motivos acima evidenciam não só a dificuldade de estar presente entre os jovens, mas, muito mais profundamente, a opacidade da consciência, do sentido e da prática da assistência que, de fato, marca a presença educativa, acompanhante de qualquer itinerário.

Sentimo-nos ainda nos inícios diante do mundo digital e somos frágeis na reflexão sobre a possibilidade deste novo grande continente. Constatamos, muitas vezes, em nosso trabalho pastoral, a ausência da família como interlocutora na educação dos jovens, e, da nossa parte, a falta de uma pastoral para a própria família.

[55] O nosso serviço aos jovens (Const. 31)

A nossa abordagem educativo-pastoral é concretizada na prática do Sistema Preventivo fundado na razão, religião e bondade e na assistência como presença próxima, animadora e acompanhante.

Estamos superando a mentalidade que confunde a missão com as atividades, procurando ser servos dos jovens, não das obras nem das estruturas. Esforçamo-nos no acompanhamento pessoal, além do comunitário, que orienta cada jovem para a realização do sonho de Deus sobre ele. A relação nem sempre clara entre educação e evangelização não nos ajuda no acompanhamento espiritual dos jovens. Somos gratos a Deus pela significatividade eclesial e social que as nossas obras continuam a ter e pelo serviço aos jovens em situação de dificuldade; empenhamo-nos também para chegar a muitos jovens pobres realizando a cultura dos direitos humanos.

Constatamos o esforço de preparar os jovens para assumirem a própria responsabilidade na sociedade, com a capacidade de transformá-la segundo o espírito do Evangelho como agentes de justiça e de paz, com uma aguçada sensibilidade social que sabe discernir as estruturas de injustiça e de pecado. A mesma situação é verificada também na preparação dos jovens para viverem como protagonistas na Igreja. Falta-nos zelo para formar os jovens na liderança. Nosso trabalho pastoral também deve dar mais atenção às situações multiculturais e multirreligiosas em que os jovens vivem, ajudando-os a superar todas as barreiras de sexo, etnia, nacionalidade, cultura, religião e condição social.

Prevalece frequentemente no trabalho pastoral um genericismo que enche a nossa ação de trabalho, mas a esvazia de significado carismático. As nossas obras continuam repletas de jovens, mas a qualidade pastoral que lhes oferecemos é, às vezes, deficiente. Estamos comprometidos em relação à educação, em vez de nos preocuparmos com uma intensa proposta educativo-evangelizadora. A falta de qualidade pastoral manifesta-se também em nem sempre saber ser ponto de referência para a Igreja e o território em que nos encontramos, e em não saber atrair os jovens que não frequentam a Igreja e os nossos ambientes.

Em nosso trabalho pastoral é bastante frequente o abandono dos jovens, quando chegam ao tempo das opções de vida e das orientações sociais e profissionais. Constatamos igualmente que entre os muitos jovens que convivem conosco, nem sempre sabemos acompanhá-los pessoalmente em suas opções de vida e em seus itinerários vocacionais. De modo especial, entre todos os itinerários vocacionais ainda vemos como insuficiente o acompanhamento no cuidado das vocações apostólicas e da vida consagrada salesiana em suas duas formas; dessa forma, os itinerários de fé não alcançam o seu vértice.

LEITURA

[56] União com Deus, fonte da missão (Const. 12)

Os aspectos positivos, destacados pelos Capítulos inspetoriais e apresentados na parte da escuta, fundamentam-se na certeza de que a nossa vocação é fecunda quando vive da energia de Deus e da graça de unidade. A fonte da nossa paixão apostólica é a consciência permanente de sermos chamados e enviados por Deus, consagrados para uma missão, a exemplo de Jesus, o Filho do Homem e o Servo de todos, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos” (Mc 10,45). Bem sabemos que a missão não é nossa, mas é participação na missão de Deus e na missão da Igreja, como fez Dom Bosco, colaborando com todos e caminhando na direção de todos, sobretudo dos mais pobres. Esta fidelidade é garantia de futuro; Jesus no-lo recorda: “sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Vivemos a nossa identidade de consagrados e medimos a radicalidade evangélica da nossa vida cotidiana na consciência da missão que Deus nos confiou: “realizar numa forma específica de vida religiosa o projeto apostólico do Fundador: ser na Igreja sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente aos mais pobres” (Const. 2). O empenho de ser “sinais do amor de Deus aos jovens” determina o modo de compreender a qualidade da nossa vida de consagrados, a radicalidade e o primado absoluto de Deus. Só a partir desta fonte podemos animar os leigos, com os quais compartilhamos vida e missão, e abrir-nos a uma reciprocidade vocacional que nos enriquece uns aos outros.

Compartilhamos concretamente a convicção de Dom Bosco sobre a bondade do jovem com quem poder contar e sobre a visão positiva da humanidade que foi criada por Deus, redimida pelo seu Filho e santificada pelo Espírito. Estamos convencidos de que Família Salesiana tem uma grande contribuição a dar para a salvação da juventude, também daquela que vive fora da Igreja. Os impulsos de renovação da Igreja sobre a nova evangelização e a educação à vida boa do Evangelho renovam e provocam o nosso zelo apostólico.

Sabemos que nem sempre vivemos a “graça de unidade” com testemunho visível, crível e frutuoso; estamos cientes de não poder ser verdadeiros servos dos jovens se, ao mesmo tempo, não formos místicos no Espírito e profetas de fraternidade. A causa da nossa fragmentação de vida está na busca de comodidades e na falta de temperança, que sufocam o fogo da nossa entrega sacrificada ao bem da juventude. Nas relações com os jovens e com o povo, a temperança permite-nos estar próximos deles com o desapego necessário para um verdadeiro relacionamento educativo-pastoral. Constatamos, também na riqueza da nossa tradição e da nossa história que, às vezes, esgotamos a ideia de missão salesiana apenas na presença das nossas obras em favor da juventude.

As mudanças culturais causam-nos dificuldade; o pouco conhecimento daquilo que muda rapidamente, a fadiga de nos dedicarmos à formação permanente e o escasso empenho na atualização carismática diminui as nossas energias. Do mesmo modo, o arrefecimento da espiritualidade e a perda de sentido da presença de Deus, como também o individualismo na ação e a falta de fraternidade, atenuam a força da missão.

[57] Comunidade sujeito da missão (Const. 44)

O “viver e trabalhar juntos” entre nós contém uma energia difusora de bem e leva-nos a maior responsabilidade com a comunidade educativo-pastoral, segundo o projeto educativo-pastoral que nos permite compartilhar o nosso carisma com os leigos corresponsáveis, com os próprios jovens e as famílias. Este estilo participativo em espírito de família é condição essencial para a eficácia da nossa ação pastoral; vivido em comunidade, ele é transmitido também aos demais sujeitos que atuam com ele.

As comunidades quantitativa ou qualitativamente pouco significativas podem enfraquecer profundamente a missão. A velhice em alguns contextos, no interior das dinâmicas comunitárias, pode ser elemento de fragilidade, aonde não há envolvimento e corresponsabilidade. Estamos cientes de que o papel do diretor, pela sua importância fundamental, deve ser pensado e atualizado neste contexto.

Quando falta verdadeiro planejamento e avaliação, tanto em nível local como inspetorial, permanecemos agarrados às estruturas e instituições atuais, acabando por perder a dimensão de testemunho comunitário na missão. Essa também é a razão do cansaço que experimentamos ao repensar-nos como comunidade e como obras em obediência à realidade, avaliando-nos não sobre o fazer tudo, mas sobre o fazer bem o que podemos fazer. Assim se explica que em alguns contextos nem sempre sabemos envolver os leigos e os jovens em corresponsabilidades na vida da comunidade educativo-pastoral.

[58] Presença entre os jovens (Const. 39)

Reconhecemos as raízes de algumas condições essenciais que nos permitem ser verdadeiros servos dos jovens: a presença, a empatia, o desejo de anunciar o Evangelho e promover o seu crescimento integral, a disponibilidade para acompanhar. São estas as energias que determinam a alegria que experimentamos em estar com os jovens e a capacidade de permanecer entre eles. Só a presença nos permite compreender as suas reais necessidades.

Colocamo-nos explicitamente entre aqueles que se empenham na construção de um itinerário educativo de acompanhamento fraterno dos jovens para permitir a todos e a cada um a vivência de uma experiência de esperança para o encontro pessoal com Deus. Isso acontece com atenção especial à pastoral familiar, à educação à afetividade, à construção do senso cívico na transmissão da doutrina social da Igreja, ao acompanhamento vocacional. A perda desta perspectiva determina o afastamento em relação aos jovens, o apagar-se da criatividade na aproximação deles, a falta de flexibilidade em transformar nossas obras. Tornamo-nos rígidos nas formas e duros nas leituras da condição juvenil, perdendo a capacidade de compreender o positivo e de nos deixarmos questionar por ele.

Merece relevo especial a perda do sentido da assistência, portanto, da presença concreta entre os jovens. Isso se deve às distâncias culturais, mas, sobretudo à diminuição do zelo pastoral e, consequentemente, ao diminuto sentido da urgência pastoral para a salvação dos jovens que nos são confiados; à rigidez da mentalidade da qual deriva a falta de compreensão da nossa época e da juventude com suas positividades; à complexidade das obras em que cedemos, muitas vezes, a tarefas organizativas e de gestão que nos afastam da primeira linha da missão. Constatamos também que a fadiga da presença e da prática da assistência depende também da escassa formação de que nos nutrimos e damos aos nossos colaboradores sobre o sentido e a profundidade da mesma presença que se torna veículo no acompanhamento de todo itinerário proposto. O Sistema Preventivo é, para muitos, apenas metodologia educativa e não escola de espiritualidade, provocando uma mudança radical de ótica em relação a Dom Bosco.

O influxo do secularismo sobre os jovens leva, em muitos contextos, à atenuação da busca de Deus; o mesmo influxo tende a apagar em nós o zelo apostólico. Estamos cotidianamente em contato com as situações difíceis vividas pela família e das quais procuramos assumir o comando. Por falta de temperança carregamos o peso dos casos de pedofilia e de outras deformidades que se não nos afastam dos outros, afastam os outros de nós.

[59] O nosso serviço aos jovens (Const. 31)

Encontramos o caminho da nossa santificação no trabalho educativo-pastoral vivido todos os dias com dedicação generosa. Trata-se de uma profecia para a nossa época: “A história da Igreja, desde a antiguidade até aos nossos dias, é rica de exemplos admiráveis de pessoas consagradas que viveram e vivem a tensão para a santidade através do empenho pedagógico, propondo contemporaneamente a santidade como meta educativa. De fato, muitas delas, educando, realizaram a perfeição da caridade. Este é um dos dons mais preciosos que as pessoas consagradas podem oferecer também hoje à juventude, fazendo-a objeto de um serviço pedagógico rico de amor, segundo a sábia advertência de S. João Bosco: ‘Não basta que os jovens sejam amados; é preciso que eles saibam que são amados’” (VC 96).

O itinerário de reflexão feito nestes anos pela Congregação sobre a identidade da pastoral juvenil salesiana é tido como uma raiz de crescimento importante e preciosa, ponto de referência para as inspetorias e comunidades. O bicentenário do nascimento de Dom Bosco estimula-nos à imitação do nosso fundador e do seu zelo, ao aprofundamento da nossa identidade carismática e ao estudo e atualização do Sistema Preventivo. A abertura a todas as formas juvenis de pobreza é garantia de fidelidade ao carisma, como também o empenho da nova evangelização, na proposta de itinerários educativos e na aprendizagem do acompanhamento dos jovens em seu crescimento e na descoberta da sua vocação.

Constatamos que a falta de verdadeiro planejamento e avaliação, tanto em nível local como inspetorial é uma raiz de genericismo pastoral. Se não cuidarmos da reflexão e da atualização só poderemos continuar a fazer o que sempre fizemos. Com a perda do sentido da presença de Deus, corremos o risco de nos tornarmos empregados e não apóstolos, sob o efeito da cultura secularizada em que vivemos. As rápidas mudanças culturais para as quais não nos preparamos, incentivam o genericismo e a falta de qualidade pastoral. Acabamos por ser residuais na proposta educativo-evangelizadora, não conhecendo a fundo os jovens e suas demandas. Razões de genericismo e de falta de qualidade são também as condições estruturais das nossas obras, ou os estilos de vida superficiais e burgueses. Estas causas dispersam e empobrecem a força do carisma e do Sistema Preventivo e impedem o crescimento da corresponsabilidade dos leigos.

A falta de qualidade pastoral leva-nos à incapacidade de preparar os jovens para serem protagonistas da vida social e eclesial. Eles não nos vêm a nossa procura, mas a outros, para serem acompanhados; ao mesmo tempo, o nosso afastamento em relação a eles faz com que desapareçamos do seu horizonte. As propostas da nossa pastoral juvenil revelam-se frágeis; a reflexão das inspetorias e comunidades sobre as propostas educativo-pastorais é, por vezes, insuficiente; como também a sua revisão. Mesmo do ponto de vista da evangelização e do cuidado das vocações apostólicas e à vida consagrada, somos muitas vezes frágeis na proposta e inadequados para acompanhar os indivíduos, detendo-nos em propostas de massa. Sobreuto neste campo pesa o clima secularista com a perda do sentido de Deus, que compromete a própria compreensão do chamado, a começar da vocação à família.

ITINERÁRIO

HORIZONTE

[60] Promover a conversão pastoral, cuidando do discernimento apostólico em comunidade e empenhando-se na presença entre os jovens.

PASSOS A DAR

O Irmão

[61] Cuida da vida espiritual que o torna aberto às inspirações e moções do Espírito, elaborando e verificando a dimensão pastoral do seu projeto pessoal de vida, confrontando-se com o diretor da comunidade e o orientador espiritual.

[62] Estuda os aspectos da missão salesiana para descobrir o seu fundamento na missão de Deus e da Igreja, da qual participamos, e as dinâmicas da espiritualidade do Sistema Preventivo, confrontando-se com a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja e a tradição da Congregação.

[63] Participa do diálogo comunitário para a busca da vontade de Deus em vista da realização da missão comum e empenha-se na participação do espírito e da missão de Dom Bosco com os leigos no interior da comunidade educativo-pastoral e na ótica do projeto educativo-pastoral.

[64] Cuida da presença entre os jovens e do senso da assistência salesiana para criar relações educativas, com atenção particular às novas fronteiras e às realidades mais pobres, ao acompanhamento espiritual e à promoção vocacional.

[65] Aceita com coração aberto as conclusões do discernimento comunitário (Const. 66) e aplica-se com generosidade às decisões da comunidade em que está inserido.

A Comunidade

[66] Faz uma leitura da realidade, particularmente em relação à situação dos jovens, e coloca-se na busca da vontade de Deus com a oração ao Espírito Santo e a construção do projeto comunitário com a dinâmica do discernimento; nela, o diretor se coloca de modo especial como guia do discernimento pastoral.

[67] Indica as fontes de inspiração para o discernimento pastoral: a Palavra de Deus, as Constituições, os sinais dos tempos, o quadro de referência da pastoral juvenil, o projeto educativo-pastoral inspetorial... Põe os irmãos na condição de terem tempo para tornar significativo esse discernimento.

[68] Entra em diálogo para a busca generosa e corajosa das opções pastorais mais adequadas às necessidades dos jovens como resposta às expectativas de Deus em relação a nós, com atenção especial às pobrezas do mundo e às novas fronteiras e à animação vocacional.

[69] Cria um clima de colaboração e corresponsabilidade ao redor da missão envolvendo a Família Salesiana e os leigos no interior da comunidade educativo-pastoral; mantém vivo o testemunho da comunidade salesiana no interior do núcleo animador da própria comunidade educativo-pastoral.

A Inspetoria

[70] Na construção do projeto orgânico inspetorial e do projeto educativo-pastoral inspetorial evidencia critérios de significatividade segundo a identidade da inspetoria, dos desafios do território e da presença salesiana, da Família Salesiana.

[71] Forma os irmãos e as comunidades para práticas e linhas de discernimento pastoral que superem o individualismo e outras formas de entrincheiramento ou fechamento.

[72] Acompanha e cuida da formação dos diretores na tarefa de discernimento pastoral, dando-lhes escuta, suporte e conforto.

[73] Ajuda as comunidades salesianas e as comunidades educativo-pastorais a assimilarem e atuarem o quadro de referência da pastoral juvenil.

O Reitor-Mor e Conselho

[74] Fornece instrumentos de revisão dos critérios usados pelas inspetorias no discernimento pastoral de acordo com o quadro geral da Congregação.



[1] Bento XVI, Discurso às jovens religiosas, Mosteiro de S. Lourenço no Escorial, 19 de agosto de 2011.